Camilo e Machado de Assis* * Montello, Josué. Camilo e Machado de Assis. In: Estampas literárias. Rio de Janeiro: Organizações Simões Editora, 1956, p. 74-79.

Camilo and Machado de Assis

Resumo

O artigo faz aproximações entre obras de Machado de Assis e de Camilo Castelo Branco, a partir da pesquisa de imagens, episódios, expressões, posturas filosóficas e de atitudes narrativas de ambos os escritores.

Machado de Assis; Camilo Castelo Branco; literatura comparada; intertextualidade, Faustino Xavier de Novaes


APRESENTAÇÃO: APROXIMAÇÕES E DIFERENÇAS ENTRE MACHADO E CAMILO

"Jamais esquecerei a sensação plena de triunfo pessoal na noite em que terminei de escrever o primeiro romance. Razão assistia a Machado de Assis quando escrevia, nas Memórias póstumas de Brás Cubas, que o nosso espadim é sempre maior do que a espada de Napoleão. Por isso, ganha a primeira batalha, passei à segunda, depois à terceira, e assim concluí os três romances, certo de que Balzac, com a Comédia humana, e Zola, com a série dos Rougon-Macquart, iam ter-me pela frente, empanando-lhes a glória. Era questão apenas de tempo e de trabalho..."1 1 Idem, Reencontro do primeiro romance, p. 41.

Janelas fechadas é o romance de estreia em questão, publicado em 1941, e Josué Montello seu autor, que ao longo da vida publicaria 27 romances. Nessas palavras, da crônica "Reencontro do primeiro romance", de 4 de agosto de 1981, passados quarenta anos da estreia, transparece sua admiração pelo senso relativizador próprio de Machado de Assis, o qual inspira Josué a olhar a sua primeira obra com autoironia, ao lado da nostalgia.

O interesse pelo criador de Brás Cubas marcou a trajetória de Josué Montello. Membro da Academia Brasileira de Letras por 51 anos, foi seu presidente entre 1994 e 1995. Criou a Sala Machado de Assis na ABL, com as relíquias e originais do primeiro Presidente da Academia, e também o jardim circular da ABL, tendo ocorrido a modificação e a transferência da estátua de Machado de Assis; promoveu a reforma do Salão Nobre, com a colocação do busto de Machado de Assis, obra de Rodolfo Berardinelli.

Referência recorrente nos textos de Josué Montello, Machado de Assis é o centro de diversos de seus livros: O presidente Machado de Assis (São Paulo: Martins, 1961; 2. ed., para cegos, gravação em cassetes do livro falado. São Paulo: Fundação para o Livro do Cego no Brasil, 1978); Machado de Assis: estudo introdutório e antologia (Lisboa: Editorial Verbo, 1972); Memórias póstumas de Machado de Assis (Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997); Os inimigos de Machado de Assis (Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1998).

Josué Montello dedicou também crônicas e ensaios a Machado. Vejam-se alguns títulos: "Leituras de Machado de Assis I, II e III" (1956); "Camilo e Machado de Assis" (1956); "Machado de Assis e a gênese de Os sertões" (1956); "A Poesia do Natal" (1957); "As primas de Sapucaia" (1957); "O conto brasileiro: de Machado de Assis a Monteiro Lobato" (1959); "Uma profecia de Machado de Assis" (1960); "Uma trilogia da leviandade feminina" (1964); "Os mistérios de Capitu" (1968); "Antes da Missa do Galo" (1974); "Uma cena erótica em Machado de Assis" (1983); "Uma lição de estilo" (1989); "O cronista Machado de Assis" (conferência proferida na ABL, na abertura do Ciclo Machado de Assis – cronista e poeta, 2000).

Nascido em São Luís do Maranhão a 21 de agosto de 1917, tornou-se um dos mais jovens membros da Academia Brasileira de Letras em 1954, aos 36 anos. O gosto de escrever veio desde o Liceu Maranhense, da época em que fundou o periódico A Mocidade, no qual publicou seus primeiros textos. Aos quinze anos, colaborava também em jornais de sua cidade: A Tribuna, O Imparcial e Folha do Povo. Aos dezoito anos, foi para Belém do Pará, onde completou os estudos.

Em 1936, Josué Montello se mudou para o Rio de Janeiro, então capital federal, onde residiu até o fim da vida. No Rio, colaborou em Careta, em O Malho e como cronista do Jornal do Brasil de 1955 até 1993.

Sua atividade intelectual se acompanhou do exercício de vários cargos, tais como: diretor-geral da Biblioteca Nacional; subchefe da Casa Civil da Presidência da República, no governo de Juscelino Kubitschek; diretor do Museu Histórico Nacional; fundador do Museu da República; conselheiro cultural da Embaixada do Brasil em Paris; presidente da Academia Brasileira de Letras. Faleceu no Rio de Janeiro, a 15 de março de 2006.

Eleito Josué Montello para a ABL em 1954, pouco depois publicou, em sua coluna “Areia do Tempo” no Jornal do Brasil, a 18 e 21 de fevereiro de 1956, também em seu livro Estampas literárias (1956) e na edição de janeiro-fevereiro de 1957 de Ilustração Brasileira, o artigo "Camilo e Machado de Assis". É este o ensaio da tradição crítica que o número 15 de MAEL oferece aos leitores. Curto, porém rico em sugestões analíticas, o texto de Josué Montello abre espaço para o dossiê Camilo Castelo Branco e Machado de Assis, aqui presente, o qual inclui os ensaios "Algumas afinidades: Alexandre Dumas, Camilo Castelo Branco e Machado de Assis", de Paulo Motta Oliveira, "Simão, Félix e as perdições do amor", de Henrique Marques Samyn, e "A ciência como questão em Camilo e Machado, críticos do naturalismo", de Luciene Marie Pavanelo.

Como acontece na boa tradição crítica machadiana, em "Camilo e Machado de Assis" Josué Montello evoca os fios lançados pelos estudos de Eugênio Gomes, retomando e abrindo caminhos para enriquecer-se a fortuna crítica de Machado de Assis.

Ao rastrear aproximações e diferenças entre Camilo e Machado, observa que muitas marcas do escritor português na literatura do brasileiro foram “transfiguradas pela capacidade de assimilação machadiana”. E aqui, junto com o gosto do investigador de semelhanças entre artistas, sobressai o respeito aos estilos particulares.

Já o leitor se pergunta: Quais pistas permitem aproximações de Machado com Camilo? Josué Montello busca imagens, episódios, expressões, posturas filosóficas, atitudes narrativas de ambos os escritores.

Mais do que isso, Josué revela que Machado de Assis conhecia e apreciava a obra de Camilo, inclusive por ser o romancista português amigo de Faustino Xavier de Novaes, irmão de Carolina. E, ao nos informar qual o romance camiliano preferido de Machado, Josué nos instiga a (re)ler a obra de Camilo Castelo Branco (1825-1890) e a buscar compreender os critérios machadianos de valor estético.

Eugênio Gomes parece ter sido, até hoje, o único ensaísta a aproximar da obra camiliana, à luz das confrontações objetivas, a obra de Machado de Assis. E, no entanto, analisadas uma e outra, chega-se à conclusão de que a seara opulenta está a desafiar o trabalho, o gosto e a paciência dos segadores literários.

À primeira vista, ninguém mais distante de Camilo Castelo Branco do que o criador de Capitu.

Diferentes no temperamento, distintos no estilo, dissociados na visão da novela e do romance, Machado e Camilo oferecem, entretanto, muitos pontos de contato, como traços comuns de curiosa afinidade.

Vejamos alguns exemplos.

No processo de composição do romance, Camilo não deixa que o leitor perca de vista o romancista: de vez em quando interfere, com a sua nota pessoal, e o faz de tal forma que nos obriga a sentir-lhe a presença.

Em As três irmãs, ao pintar o retrato de Jerônima em breves linhas, Camilo suspende a pena com este comentário: "Basta o bosquejo. Tenho observado que, em romances, a parcimônia dos retratos ajuda mais a imaginação do leitor. Dá-se comigo isto [...]".

Embora Machado de Assis não traga o seu próprio exemplo à colação, cede com frequência ao gosto de interferir a meio da narrativa, à maneira de Camilo.

No capítulo CXIII do QuincasBorba, no instante em que analisaria as reações de Rubião julgando-se coautor de um artigo político de seu amigo Camacho, Machado corta o fio da digressão, dizendo: "[...] a análise seria, ainda assim, longa e fastidiosa. O melhor de tudo é deixar ficar só isto [...]".

No ritmo da frase, no gosto da forma castiça, em certo travor de irredutível pessimismo, os dois grandes escritores sensivelmente se identificam, não obstante toda a soma de grandes divergências radicais.

O professor Pedro A. Pinto, no proêmio à edição brasileira de A queda de um anjo, conta haver colhido de Alberto de Oliveira a informação de que Machado de Assis, em face da obra camiliana, punha em lugar de honra Oesqueleto, mas reputava muito bom O sangue.

Daí se deduz não um conhecimento perfunctório, mas uma gradação de valores, que implica, da parte de Machado de Assis, um domínio de conjunto da obra camiliana. E em verdade se pode concluir, com a abonação de confrontos expressivos, que Machado de Assis transitou a sua curiosidade e a sua meditação através dos livros de Camilo Castelo Branco.

É provável que, nesse trânsito do mestre brasileiro pelos romances do mestre português, houvesse algum influxo da companheira do grande escritor. Sabe-se que Carolina, portuguesa de nascimento e irmã do poeta satírico Faustino Xavier de Novaes, possuía formação literária, a que não faltou, na casa paterna, o convívio com os escritores portugueses mais em evidência. Facilmente se conclui que entre eles estaria Camilo Castelo Branco, íntimo amigo de Faustino Xavier de Novaes.

De qualquer forma, a influência de Camilo em Machado de Assis não é difícil de ser rastreada.

Eugênio Gomes identificou, numa página de Coração, cabeça e estômago, a raiz do emplastro com que Brás Cubas pretendia aliviar da melancolia a pobre humanidade. Nenhuma dúvida pode prevalecer sobre essa filiação, após o confronto dos textos, bastando dizer-se que aquilo que, no romance de Camilo, é antídoto contra a melancolia, a hipocondria e outras enfermidades espirituais, no romance de Machado de Assis é emplastro anti-hipocondríaco.

Acrescentemos, nesse rastreamento de filiação, o reparo de que Coração, cabeça e estômago principia com uma alusão ao cunhado de Machado de Assis, na dialogação de seu preâmbulo: "O meu amigo Faustino Xavier de Novaes conheceu perfeitamente aquele nosso amigo Silvestre da Silva...".

Esse Silvestre da Silva é que inventa, combinando cravo da Índia, junco cheiroso, sândalo, íris de Florença, pau de roseira e vinagre rosado, o antídoto contra a melancolia.

Mas não se restringem a semelhante invento as marcas da presença de Camilo na obra de Machado de Assis. Há outras, e em grande número, dispersas em romances e contos, com a evidência da ·consanguinidade literária, ou então transfiguradas pela capacidade de assimilação machadiana.

Nas Memórias póstumas, quando o narrador pretende omitir, na biografia do personagem, certo trecho fastidioso da infância, faz ao leitor este convite: "Unamos agora os pés e demos um salto por cima da escola, a enfadonha escola, onde aprendi a ler, escrever, contar, dar cacholetas, apanhá-las, e ir fazer diabruras, ora nos morros, ora nas praias, onde quer que fosse propício a ociosos".

Numa das Novelas do Minho — a que tem por título O comendador — Camilo Castelo Branco se vale de igual recurso, ao dizer: "Vinte anos volvem-se tão depressa que eu, neste salto que o leitor vai dar, não me despenderei a encher-lhe de frases o passadiço. O melhor é fechar os olhos e saltar".

A identidade de recurso é flagrante no confronto das duas passagens. Machado parece ter obedecido, aí, à influência da leitura de Camilo.

O episódio de O que fazem mulheres, em que o náufrago do rio Douro é salvo por um barqueiro e termina recompensando o salvador com moedas de cobre, revela-nos pelo menos dois pontos capitais que serão encontrados no episódio do almocreve, das Memórias póstumas de Brás Cubas.

A introdução de Coração, cabeça e estômago contém expressões que poderiam estar (e algumas em verdade estão) no prefácio das Memórias póstumas, como quando Camilo alude às memórias de seu personagem ou à simpatia que esse "defunto amigo granjeou postumamente na república das letras".

Nessa mesma obra camiliana, vamos encontrar um dos elementos germinativos da teoria de humanitas, que é a linha filosófica das Memórias póstumas e do Quincas Borba.

Um simples confronto esclarecerá de modo objetivo essa contaminação literária.

Em Coração, cabeça e estômago, escreve Camilo, a propósito de seu personagem Silvestre da Silva: "Um filósofo não deve aceitar no seu vocabulário a palavra morte, senão convencionalmente. Não há morte".

No Quincas Borba, é essa a opinião do filósofo de Machado de Assis, que por vezes se socorre das palavras de seu alter-ego camiliano: "Não há morte. O encontro de duas expansões, ou a expansão de duas formas, pode determinar a supressão de uma delas; mas, rigorosamente, não há morte, há vida, porque a supressão de uma é a condição da sobrevivência da outra, e a destruição não atinge o princípio universal e comum".

No capítulo CXXIII do Dom Casmurro, ao descrever a cena do saimento do corpo de Escobar, escreveu Machado: "Enfim, chegou a hora da encomendação e da partida: Sancha quis despedir-se do marido, e o desespero daquele lance consternou a todos. Muitos homens choravam também, as mulheres todas. Só Capitu, amparando a viúva, parecia vencer-se a si mesma. Consolava a outra, queria arrancá-la dali. A confusão era geral".

Essa derradeira frase, que Álvaro Moreyra aproveitou como legenda de um hebdomadário de literatura que marcou a sua hora na imprensa do país, bem pode ser um eco das leituras camilianas de Machado de Assis, se considerarmos que, na sua capacidade de apreensão do texto alheio, conforme demonstrou R. Magalhães Júnior num dos capítulos de Machado de Assis desconhecido, o mestre deturpava frequentemente as citações de seu agrado. Ou então as desfigurava, após incorporá-las a seu próprio patrimônio.

Estaria nesse caso, servindo de curioso exemplo do poder de transfiguração machadiana a frase que Álvaro Moreyra escolheu como lema do semanário Dom Casmurro.

No pequeno romance A morgada de Romariz, que integra as Novelas do Minho, bem que poderemos situar o ponto de origem dessa frase, erguendo a ponta de um pequeno mistério de estilística literária, neste trecho camiliano: "Vi esta morgada, há três anos, em Braga, no teatro de S. Geraldo. Estava em cena Santo Antônio, o taumaturgo. A comoção era geral".

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    Montello, Josué. Camilo e Machado de Assis. In: Estampas literárias. Rio de Janeiro: Organizações Simões Editora, 1956, p. 74-79.
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    Idem, Reencontro do primeiro romance, p. 41.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    Jun 2015
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