Este artigo aborda a elaboração ritual do luto e da memória entre os Boe, povo indígena do sul de Mato Grosso, mais conhecido na literatura antropológica como Bororo. Busca-se mostrar como experiências de perdas pessoais e coletivas são convertidas em ação ritual, transformando pessoas e forjando relações. A análise centra-se em uma figura ritual específica - as chamadas “mães das almas” (aroe etujemage) -, mulheres responsáveis por alimentar e cuidar de mortos materializados em pequenos clarinetes de cabaça. A partir dessas figuras do universo funerário boe, examina-se como as memórias de perdas pessoais são transformadas em gestos de cuidado e compaixão dirigidos a outros e como, nessa pragmática do luto, as relações entre vivos e mortos são convertidas em parentesco entre os vivos. Nos rituais funerários boe, a elaboração do luto não se restringe à morte mais recente, mas reativa perdas passadas e as amplia em direção a um senso mais abrangente de declínio cultural. Argumento que esse luto convertido em nostalgia constitui uma dimensão própria do ritual funerário boe. Sustento, ainda, que essa experiência nostálgica do tempo não corresponde a uma contemplação melancólica e passiva, mas atua, ela própria, como motor da reprodução da vida ritual. O artigo busca, assim, contribuir para os debates sobre luto e memória, ritual e temporalidade, bem como sobre a produção de pessoas magnificadas nas terras baixas da América do Sul.
Palavras-chave:
Luto; Ritual; Memória; Nostalgia; Perda cultural
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Fonte: Foto elaborada pelo autor, Agosto de 2023.
Fonte: Foto elaborada pelo autor, Março de 2023.
Fonte: Foto elaborada pelo autor, Julho de 2023.
Fonte: Foto elaborada pelo autor, Dezembro de 2024.
Fonte: Foto elaborada pelo autor.