RESUMO
Surgiram, há cerca de duas décadas no Rio Grande do Sul, as primeiras torcidas denominadas “barras” do futebol brasileiro. Em Porto Alegre, elas se converteram quase instantaneamente nos maiores e mais destacados agrupamentos torcedores de Internacional e Grêmio. Neste artigo, com o objetivo de discutir as transformações que essas torcidas impulsionaram nos estádios e nos clubes, apresento aspectos relacionados à forma de organização da barra Guarda Popular. Recorrendo a comparações com outras formas contemporâneas de organização torcedora (as Torcidas Organizadas Independentes e os Consulados de torcedores), enfatizo, a partir da releitura da antropologia política de Clastres, como, nas barras, predominam tendências segmentares que se alimentam da valorização da insubordinação interna e externa. Dada a intensa reprodução de faccionalismos, argumento que essas torcidas são aquelas que melhor internalizam as lógicas de antagonismo do futebol.
Palavras-chave:
Torcidas Organizadas; Barra Brava; Clubes de Futebol; Faccionalismo; Antropologia Política
ABSTRACT
Two decades ago, in Rio Grande do Sul, the first so-called "barras" supporters groups emerged in Brazilian football. In Porto Alegre, they instantly became the largest and most prominent fan groups of SC Internacional and Grêmio FBPA. In this article, to discuss the transformations that these supporters have brought about in stadiums and clubs, I present aspects related to the form of organisation of the Guarda Popular barra. By comparing it with other contemporary forms of fan organisation (the “Torcidas Organizadas Independentes” and the Fans' Consulates), I emphasise, based on a re-reading of Clastres' political anthropology, how segmentary tendencies predominate in the barras, which feed off the valorisation of internal and external dissents. Due to the intense reproduction of factionalism, I argue that these supporters are the ones who best internalise football's logics of antagonism.
Keywords:
Football Fan Groups; Barra Brava; Football Clubs; Faccionalism; Political Anthropology
RESUMEN
Hace unas dos décadas surgieron en Rio Grande do Sul las primeras barras del fútbol brasileño. En Porto Alegre, se convirtieron casi instantáneamente en los más grandes y prominentes grupos de hinchas de SC Internacional y de Grêmio FBPA. En este artículo, para discutir las transformaciones que estos hinchas han ocasionado en estadios y clubes, presento aspectos relacionados con la forma de organización de la barra Guarda Popular. Mediante comparaciones con otras formas contemporáneas de organización de aficionados (“Torcidas Organizadas Independentes” y los Consulados), destaco, a partir de una relectura de la antropología política de Clastres, cómo en las barras predominan tendencias segmentarias que se alimentan de la valorización de la insumisión interna y externa. Dada la intensa reproducción del faccionalismo, sostengo que estos grupos de aficionados son los que mejor interiorizan las lógicas del antagonismo en el fútbol.
Palabras clave:
Hinchadas de Fútbol; Barra Brava; Clubs de Fútbol; Faccionalismo; Antropología Política
Introdução - Cinco mil lugares para os loucos
O ponto central do anel inferior da curva sul do Estádio Beira-Rio, bem no topo e próximo aos camarotes, é ocupado pela banda da Guarda Popular (Popular). Neste setor, há regras de etiqueta. Demanda-se dos presentes a participação nos cânticos e gestuais e, quem sabe, no contágio pelos sentimentos de apoio ao time. Percebi o rigor de algumas dessas regras quando, nas primeiras incursões de campo e a poucos metros da banda, peguei o celular para ler algumas mensagens. Fiquei pouco tempo com o aparelho nas mãos, mas foi o suficiente para ser advertido. Uma jovem mulher que aparentava ter pouco mais de 20 anos de idade se aproximou e disse: “não pode ficar no celular aqui. Perto da banda tem que estar cantando” e, enquanto eu procurava guardá-lo, acrescentou “se não for ficar cantando junto, pode ir ali embaixo”, apontando para a parte próxima à mureta inferior.
Era um jogo de baixo público com muitos espaços livres na arquibancada e, oportunamente, a primeira vez em que eu ficava ao lado da banda. Ali, assim como ocorreu a mim, é comum ver torcedores sendo avisados sobre os códigos de etiqueta, dado que há cânticos que dependem de um silêncio sincronizado de todos ou de movimentos coreográficos coletivos. O celular é vedado. Gravações não autorizadas da banda não podem ser feitas e todos devem estar em pé. O espaço é, dizem esses torcedores, para cantar e pular. Quem deseja ver o jogo sentado ou com o celular em mãos tem o resto do estádio para isso. Certa vez, o líder da banda da Guarda Popular me disse: “No Beira-Rio, são 50 mil lugares. Ali são 5 mil lugares para os loucos”.
A interdição ao uso do celular, não recorrente em outras áreas, está ligada às performances esperadas e não chega a ser exclusividade da Popular, afinal, ocorre em tantas outras torcidas organizadas. O smartphone e seus aplicativos são tecnologias capazes de transportar as pessoas a interações que interrompem a temporalidade do jogo de futebol enquanto ritual. Olhar as mensagens do WhatsApp ou dar uma passeada pelo Instagram reporta a eventos que não são compreendidos pelo espaço-tempo da partida de futebol e tampouco da peça musical performatizada pela torcida. A ruptura espaço-temporal possível graças aos smartphones leva a interações para fora do estádio e reorienta as emoções vividas. Ela impede o “despreender-se de si, da casa, da rotina, para reencontrar-se com estranhos e reconstruir uma experiência junto a uma coletividade irmanada por uma causa banal e ao mesmo tempo essencial” (Damo 2018), que compõe o quadro transeúnico da experiência do torcer em uma torcida organizada. Com aplicativos conectados a uma rede de internet móvel, o frequentador do estádio pode estar, em vez disso, ligado a círculos de familiaridade não necessariamente vinculados pelo rito da partida de futebol. No Portão 7, que é o território da Popular no Beira-Rio, deseja-se, ao contrário da fragmentação provocada a partir do celular, a participação em uma forma coletivizada do torcer que, neste caso, implica atuar na produção sequenciada de sons e imagens de longa duração - e, por que não, de emoções torcedoras, que fazem parte dos repertórios da torcida. O frequentador deste setor é demandado por inteiro pela coletividade.
O visual é um elemento muito importante para a Popular que se define como uma barra. Uma das marcas dessa modalidade de torcida é o uso de faixas verticais, denominadas “barras”, em seu setor. No Beira-Rio, elas são das cores do clube, vermelho e branco, e da bandeira do Rio Grande do Sul, vermelho, verde e amarelo. São estendidas sobre o anel inferior em direção ao campo de jogo. As bandeirolas também aparecem ali. Menores do que os bandeirões de torcida, são distribuídas em larga quantidade entre os frequentadores do setor. Em determinadas partidas, há também o uso de papel picado, de fumaça ou de sinalizadores. Segundo a versão mais repetida por seus participantes,1 a Guarda Popular deve sua identidade visual e musical à influência das torcidas dos países vizinhos. Conforme me contou um dos fundadores da torcida, havia a vontade de ser uma presença mais “latina”, mais “quente”. Para outro, as viagens internacionais na disputa da Copa Sul-Americana de 2004 possibilitaram, através do espelhamento com os vizinhos argentinos, a percepção de uma identidade “platina”. O mimetismo pode ser notado ainda pela importação da murga, gênero musical carnavalesco tradicional nas duas margens do Rio da Prata que ao começo dos anos 2000 se popularizou nos estádios de Internacional e Grêmio.
No Brasil, as torcidas denominadas barras bravas ou barras2 surgiram no início deste século. A Geral do Grêmio, criada em 2001 em Porto Alegre, é considerada a pioneira neste estilo de estética e de organização política. A nomenclatura destes agrupamentos é inspirada em barras e hinchadas argentinas, uruguaias e chilenas. Contudo, deve-se frisar, para fins analíticos, que a semelhança pode ser enganosa. Fora do Brasil, essas torcidas se constituíram a partir de processos históricos próprios e, não por acaso, conformam diferentes arranjos com seus clubes. Por isso, a proposta aqui não é demonstrar semelhanças e diferenças das torcidas brasileiras com outras da América do Sul, posto que alguns trabalhos já o fizeram exitosamente (Hollanda 2017; Malaia; Oliveira 2021; Cabrera 2024). Há um rico quadro de produções antropológicas sobretudo na Argentina, algumas das quais demonstram como a definição “barra brava” surgiu a partir do final dos anos 1960 para descrever grupos organizados que se envolviam em violentos enfrentamentos corporais naquele país (Alabarces 2012, 2018; Frydenberg 2017); além de outras que enfatizam elementos da política e das relações com dirigentes esportivos e agentes do estado (Moreira 2013; Garriga Zucal 2016). As barras só chegariam a outros países, como Uruguai, Chile, Peru, Equador e Colômbia, a partir dos anos 1980 (Bizzozero Revelez 2018; Panfichi 1999; Jaramillo Racines; Gómez Eslava; Castro Lozano 2018; Castro Lozano 2022; Hollanda; Aguilar 2017), sinalizando um processo de virilização do torcer, semelhante ao ocorrido no Brasil quando do acirramento da hostilidade e da rivalidade após o surgimento das “torcidas de pista”, voltadas à festa e à briga (Hollanda; Florenzano 2019; Anjos 2022).
Tendo a Guarda Popular como ponto de partida, este artigo procede pela reflexão sobre transformações contemporâneas do torcer introduzidas pelas barras nos estádios, oferecendo um modelo para a compreensão das relações entre clubes e torcidas circunscrito ao caso brasileiro, em especial o porto-alegrense. Mais do que determinar quais coletividades são “barras” ou “barras bravas”, a reflexão enfatiza aspectos da socialidade torcedora que foram impactados pelo surgimento destes arranjos no Rio Grande do Sul. Por isso, a análise não procede pela classificação de coletividades específicas. Espera-se, por outro lado, visibilizar modulações do poder e da política exemplares - porém não necessariamente exclusivas - das barras de Inter e Grêmio. Sugere-se que, apesar do caráter fronteiriço entre o Rio Grande do Sul e a Argentina, como já apontado em outro momento (Teixeira Pinto 2022, 2025), há poucas continuidades entre as barras brasileiras e as torcidas argentinas, apesar da inspiração estética. Assim, Guarda Popular e Geral do Grêmio parecem ser decorrentes do recente momento em que fluxos transnacionais compõem o futebol brasileiro (Teixeira Pinto; Damo 2025:13), tanto a partir da consolidação de circuitos sul-americanos como pela expansão do televisionamento, provocando, não sem razão, o surgimento de agrupamentos que mimetizam formas e conteúdo de torcidas estrangeiras. Para além das barras, este pode ser o caso das torcidas Ultras, Antifascistas ou “Against Modern Football” (Lopes; Hollanda 2018; Lopes; Dias; Penteado 2022; Pinheiro 2020; Simões 2017; Caldas; Andrade; Souza Jr 2022). Por isso, considera-se como hipótese que o surgimento e a larga adesão às barras no Rio Grande do Sul podem estar relacionados simultaneamente à crescente internacionalização mediática do futebol, ao mimetismo e, não menos importante, às dinâmicas dos clubes e ao esgotamento estético e político de torcidas organizadas em Porto Alegre.
Aqui, o enfoque não recai exatamente sobre as performances musicais e visuais, mas, em vez disso, na produção teórico-conceitual para descrever dinâmicas políticas do torcer em diferentes possibilidades contemporâneas da arregimentação torcedora. Para isso, abordo eventos cruciais do desenvolvimento da Popular, eventualmente recorrendo à história de uma barra arquirrival, a Geral do Grêmio, enquanto observamos as particularidades destes grupos em comparação com outros agrupamentos de torcedores nos clubes gaúchos, no caso, as Torcidas Organizadas Independentes (TOs)3 e os consulados.4 Para avaliar as lógicas da política nas torcidas de futebol, a exposição se divide em quatro momentos: no primeiro, apresento como um episódio provocado pelo antagonismo interno escalou rapidamente, culminando na cisão da torcida Guarda Popular.
Em seguida, em diálogo com a antropologia política clássica, em especial com Clastres (2011, 2012), indico que, para além da introdução de uma estética musical e visual, as barras aportaram uma espécie de socialidade torcedora profundamente dissonante em relação ao sistema de futebol FIFA. Logo, argumento que essa socialidade se alimenta da valorização da insubordinação interna e externa, representando, na organização política, a reprodução de lógicas segmentares que se combinam à vocação guerreira (Clastres 2011 [1977]) do grupo. E, finalmente, realço como elas conduzem intensamente a faccionalismos (Fausto 2014) próprios. Alguém poderá objetar - e com toda a razão - que a beligerância interna e as tendências faccionais e fratricidas não são exclusividade das barras, ocorrendo em “torcidas de pista”, nas margens de TOs ou em suas dissidências. O reconhecimento destes grupos é pertinente, assim como nada impede que uma torcida barra passe, a partir de sua institucionalização no clube ou cooptação, a arrefecer a animosidade interna. A proposta não ignora tais possibilidades, no entanto, visa atualizar entendimentos sobre as torcidas organizadas a partir da conceituação de dinâmicas do poder nas socialidades torcedoras desde as transformações nos estádios porto-alegrense nas últimas duas décadas, afinal se o futebol pode ser pensado enquanto um rito disjuntivo (Bromberger 1995;, Toledo 2002; Damo 2002, 2007), estas torcidas, no Rio Grande do Sul, têm se notabilizado por uma radical internalização do antagonismo atinente às competições esportivas.
1. Formação e dissolução
Em dezembro de 2011, a temporada do futebol já havia sido encerrada e o Estádio Beira-Rio recebera uma partida festiva em despedida a um ex-jogador do clube. O “jogo do Fabiano”5, como ainda hoje é referido, fora visto por um pequeno público e é improvável que ainda fosse recordado caso não houvesse sido o cenário da briga que evidenciou a cisão - o “racha”, como dizem os torcedores - na Popular. Na fatídica noite, câmeras registraram uma batalha estádio adentro. Como saldo, o confronto deixou três pessoas esfaqueadas e motivou uma denúncia, por tentativa de homicídio, advinda do Ministério Público contra Hierro, conhecido então como o grande capo6 da Popular.
O episódio foi o ápice da briga entre a Guarda Popular (comandada por Hierro) e a Popular do Inter (liderada por dissidentes). No dia seguinte, ambas as torcidas foram excluídas do clube. Em depoimento, Hierro negou que tenha esfaqueado qualquer pessoa; mesmo assim, teve sua prisão preventiva decretada e foi detido em março de 2012. Em maio daquele ano, Hierro recebeu liberdade provisória, sob as seguintes condições: ficou proibido de participar de torcidas e de frequentar estádios de futebol - permanecendo a uma distância de ao menos 100m de cada estádio. Também não deve sair de casa entre 19h e 7h, e deve apresentar mensalmente à Justiça emprego e residência fixa (Santos 2014).
As motivações para o ocorrido foram relacionadas a “disputas de poder” e “insatisfação” com decisões da liderança suprimidas através da “violência”.7 Esta versão foi endossada anos depois pelo antigo capo em entrevista concedida junto à liderança dos insubordinados e desafeto de então:
[...] todo mundo pensa que o racha se deu ali em 2011, mas não foi. O Master [liderança dos dissidentes] sabe, a gente já estava afastado desde 2009. Lembro de uma viagem para Curitiba, para a semifinal da Copa do Brasil. Aconteceram umas coisas lá que eu achei que devia me afastar deles. Comecei a dificultar as coisas para eles na torcida. Eles foram perdendo a vontade de estar comigo porque eu estava agindo de uma maneira, não querendo eles por perto. Chegou um momento em que eles tomaram aquela atitude e decidiram que não dava mais para a gente ficar junto. E se separaram. [...]. Era só guerra e guerra entre a gente (Hierro; Master 2016).
As consequências da briga se fizeram sentir ao longo dos anos, a começar pelas entradas e saídas de Hierro do sistema prisional. Isto o afastou do estádio e da torcida, inviabilizando sua posição de comando. Em 2016, reconciliadas, as duas lideranças históricas formaram um novo grupo não reconhecido pelo clube, uma barra chamada Os Donos da História em alusão ao passado épico no início da Guarda Popular. Alegando a vontade de permanecerem alheios à torcida de origem, que já havia se reorganizado com novas lideranças, frequentaram o anel superior da curva sul pelo período de alguns meses.
Para abordar o evento crítico de 2011, cabe voltar aos primeiros anos da torcida no começo do século. Os relatos dos torcedores são unânimes em considerar o fechamento da coreia como um marco que assentou terreno para o surgimento da barra. Tratava-se de um setor localizado abaixo do nível do gramado, que era o mais próximo ao campo de jogo e que tinha os preços mais baratos do Beira-Rio, equivalente às “gerais” de outros estádios, como a do Maracanã, por exemplo. Seus frequentadores se tornaram uma imagem da popularidade do Internacional, sendo, até hoje, relembrados pelas torcidas e pelos associados do clube.
A Popular, pra mim, surge de forma meio que espontânea, não algo muito organizado, e ela faz parte de um processo, que eu vejo que [...] é um processo que traz um aceleramento da elitização do futebol no Brasil. [...]. E a partir desse processo, começa uma elitização, medidas de segurança mais rígidas. Todos os estádios tiveram que passar por uma adaptação. Daí veio o estatuto do torcedor [...]. E foi um processo que se deu nacionalmente, em todos os estádios tiveram que passar por normas novas. A geral do Maracanã é fechada, [...] a coreia é fechada em 2004, que foi quando surgiram as duas “Popular”. (Torcedor da Guarda Popular, entrevista concedida em 26 de junho de 2020).
A avaliação do fechamento dos setores mais populares dos estádios brasileiros como um primeiro movimento de “elitização”, elaborada no depoimento deste torcedor colorado, é compartilhada entre outros torcedores, além de alguns grupos políticos do Internacional (Oliveira Jr 2017), e também nas abordagens acadêmicas do tema (Gaffney; Mascarenhas 2006; Gaffney 2008; Holzmeister 2005; Curi 2012). Com isso, os clubes deslocaram esse público para outros setores ou para fora do estádio. Segundo a mesma análise, esse processo, culminado com a extinção da coreia em 2004 (Oliveira Jr 2017:134), provocou o cenário ideal para o surgimento de novas torcidas organizadas no Beira-Rio.
E o povo que ia na coreia - tinha até torcidas na coreia - acaba se locomovendo para atrás das duas goleiras. O Inter criou dois setores populares. Um atrás de cada goleira. Era o setor mais barato, então o pessoal que ia na coreia acabou se dividindo entre esses dois lados. E dessa divisão “acabou” surgindo as duas “Popular”. Tinha a Popular Gigantinho e a Popular Placar (Torcedor da Guarda Popular, entrevista concedida em 26 de junho de 2020).
As duas torcidas, a Popular do Inter e a Guarda Colorada, se fundiriam em 2004, formando a Guarda Popular no Portão 7 do estádio, e permaneceriam coesas até o movimento de dissidência no final daquela década, pela briga de 2011. A espontaneidade, apontada como característica da torcida que surgia, deve ser considerada em relação às TOs que existiam naquele contexto. Evidentemente, o surgimento dos dois grupos e a sua consequente união decorrem das ações de pessoas que tiveram a capacidade de organizar aqueles conjuntos de torcedores, capturando as eventuais dissonâncias entre estes. Porém, na comparação com as TOs que logo perderiam espaço para o novo agrupamento, a Guarda Popular não obrigava a adesão a um quadro social institucionalizado, constituindo-se enquanto uma forma mais aberta e menos regulamentada de torcida - uma barra.8
O crescimento dela no decorrer da década também é indicado como um dos fatores de aumento da instabilidade interna. Quanto maior o número de torcedores, maior a distância destes para a liderança principal da torcida. Ao mesmo tempo, maiores são as dificuldades para que o chefe consiga satisfazer as necessidades diversas, no caso, providenciar ingressos, ônibus para as viagens, alimentos e bebidas. Com isso, é comum o surgimento de segmentos, grupos menores, “núcleos”, e lideranças locais. A crescente incapacidade do chefe em atender às demandas de um conjunto cada vez mais heterogêneo é um fator que favorece a “insatisfação” que pode levar a processos de insubordinação. Um de meus interlocutores avaliou o quadro da seguinte maneira: “se tu rejeitar alguém ou algum grupo, vai formar uma dissidência. Então tem que agregar as pessoas, tem que chamar elas”.
A “disputa por poder” também é mencionada enquanto uma causa constante para o acirramento dos conflitos internos à torcida. Esse “poder” está ligado às vantagens derivadas da posição de mando. O capo centraliza a organização da torcida e isto inclui o controle sobre o dinheiro, cuja principal fonte são os ingressos disponibilizados pelo clube. No período da pesquisa de campo, de 2019 a 2020, o Internacional vinha repassando uma cota para os grupos organizados que revendiam a seus torcedores pelo preço de 10 reais. A contrapartida desses torcedores era a obrigatoriedade da associação e a adimplência ao clube.
Os anos posteriores à briga de 2011 são descritos como dramáticos em decorrência do autoconsumo da torcida. Além da perda das lideranças absorvidas pelo antagonismo interno, os segmentos da Guarda Popular foram banidos do clube, impedidos de irem aos jogos em 2012, ano em que o Internacional, além disso, interditaria o Beira-Rio para concluir as reformas da Copa do Mundo de 2014. Em 2013, longe de Porto Alegre, alternando-se entre as sedes de Novo Hamburgo e Caxias do Sul, houve uma reaproximação dos grupos que acabavam frequentando o mesmo setor nesses estádios, apesar da reincidência dos conflitos. Nesse momento, ocorreu ainda o surgimento do Comando do Trem, uma secção de torcedores que reúne os residentes de Canoas, Esteio, Sapucaia do Sul, São Leopoldo e Novo Hamburgo, as cidades atendidas pela linha férrea da região metropolitana. Historicamente, tratava-se de um grupo minoritário na torcida, que ocupava quatro ou cinco lugares nas viagens. Eram vistos como a “tropa de choque” da Guarda Popular, conforme definição que ouvi em certa oportunidade. A reputação obtida através da vocação guerreira os elevou a uma posição de protagonismo no momento da reestruturação da torcida. A liderança desse segmento da torcida assumiu uma relevância também por suas ações que viabilizariam o retorno da estabilidade ao conjunto heterogêneo da torcida. Entre suas medidas, os torcedores recordam de sua capacidade diplomática pela criação dos “núcleos” de torcida pelo interior do estado, dando espaço a estes, em um momento que seria descrito como uma nova fase de crescimento do grupo.
2. Jogo da diferença
Lo Stato ha fatto una legge che dice allo sbirro così/ appena incontri un tifoso, arrestalo e portalo qui/ appena arrivati in questura, lo sbirro tremare dovrà/ la legge non ci fa paura, lo Stato non ci fermerà/ infatti non ci fermeremo, la vita dell’ultras si sà/ conosce soltanto due leggi: coerenza e mentalità9 (Canção dos Ultras do Napoli).
Clastres (2011, 2012) mantém o termo “primitivo” ao longo de sua obra. Com ele, refere-se às “sociedades primitivas”, à “economia primitiva”, à “guerra primitiva”, ao “guerreiro primitivo”. Nunca adjetivando uma gradação de evolução social, afinal, o próprio autor salientava a necessidade de deixar de pensá-las desde a percepção daquilo que lhes falta ou que lhes é insuficientemente desenvolvido segundo os parâmetros ocidentais. Seu intuito era o de visibilizar as diferenças.
O estatuto do Estado, contudo, provocou questionamentos devido à compreensão de que a obra A sociedade contra o Estado (2012) reproduzia, em uma nova roupagem, a visão dicotômica e antagônica das sociedades com e sem Estado. Clastres queria combater um pressuposto até então jamais negado pela antropologia política: a visão naturalizada de que a inexistência do Estado decorria do desconhecimento dele. Um pressuposto etnocêntrico, afinal, fazia supor que a ausência se devia à carência de condições para tanto. O contra-argumento era: não há ausência da política na sociedade primitiva, dado que, ao combater as forças centrípetas, ela conhece, reconhece, identifica o surgimento da centralização do poder. Se esta não ocorre, é por ser indevida, indesejada. Em outras palavras, “o Um é o Mal”.
Para seus críticos, a demonstração de que o contra-Estado é um mecanismo complexo, não acidental, que não poderia surgir ao azar, a qualquer momento e em qualquer canto é incapaz de afastar o “Grande Divisor”: obtém-se, ao modo da clássica antropologia política (Fortes; Evans-Pritchard 1950 [1940]; Evans-Pritchard 1940), a dicotomia sociedade ocidental, de um lado; sociedade primitiva, de outro: centralização versus segmentarização. Se mantivéssemos essas ideias sem objeções, seria difícil transpor uma releitura para o contexto das sociedades cujo modelo é aquele da autoridade política centralizada. Em Mil Platôs, Deleuze e Guattari apresentaram o legado da antropologia política e sua definição da segmentaridade do poder. Eles fizeram ressalvas sobre a possibilidade de estender a teoria e provocaram indicando que também a sociedade moderna é segmentar:
A oposição clássica entre o segmentário e o centralizado afigura-se pouco pertinente. Não só o Estado se exerce sobre segmentos que ele mantém ou deixa subsistir, mas possui sua própria segmentaridade e a impõe. [...]. Não há oposição entre central e segmentário. O sistema político moderno é um todo global, unificado e unificante, mas porque implica um conjunto de subsistemas justapostos, imbricados, ordenados de modo que a análise das decisões revela toda espécie de compartimentações e de processos parciais que não se prolongam uns nos outros sem defasagens ou deslocamentos. [...]. Em suma, tem-se a impressão de que a vida moderna não destruiu a segmentaridade, mas que ao contrário a endureceu singularmente (Deleuze e Guattari 2012a:93-94).
Eles indicam que o Estado se segmenta, e que mesmo a burocracia se segmenta em linhas e mais linhas. A existência de uma unidade - seja ela o Um clastresiano - não dissipará a multiplicação, mas a enrijecerá. Deleuze e Guattari afirmavam, além disso, que a centralização e a segmentarização coexistem também nos modelos descritos pela antropologia política nos quais a autoridade está diluída no corpo social. Nestes, surgem os mesmos “centros de poder” que poderiam ser identificados nas sociedades com Estado, mas são inibidos (:96).
Na antropologia brasileira, a leitura predominante do contra-Estado foi bastante enviesada pela abordagem acima (Viveiros de Castro 2011), guiando pesquisas de antropologia política em direção às sociedades com Estado10 - ou, sendo mais fidedigno, às sociedades a favor do Estado (Sztutman 2011, Goldman 2011). O que não é possível ignorar é que, se a sociedade primitiva de Clastres soa demasiadamente idealizada por seu nível extremo de indivisibilidade, poderíamos pensar o mesmo das sociedades centralizadas em que a autoridade se exerce estritamente de cima para baixo, do chefe para o subordinado. Seguindo Mil Platôs, é preciso ter em conta que as forças centrípeta e centrífuga só podem existir em relação: só há fuga porque há captura e vice-versa.
A categoria “primitivo” pode ser tratada como um modelo em relação ao Estado, outra definição modelar tomada como virtualidade. Esses conceitos não se excluem, mas coexistem. Para a abordagem do futebol de espetáculo, devemos considerar que os clubes de futebol, independentemente das variações de formato organizacional em função das diferentes legislações de seus contextos nacionais, precisam se alinhar a formas marcadamente modernas. Para começo, filiam-se a federações que regulam a prática do esporte. No Brasil, estão vinculados às associações estaduais que, por sua vez, estão ligadas entre si pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF). Esta faz parte da Confederação Sul-Americana de Futebol (CONMEBOL), um sistema de nível continental que reúne dez entidades que monopolizam o futebol profissional em seus respectivos países. Acima das representações continentais, aparece a Federação Internacional de Futebol (FIFA), organização privada sediada em Zurique, na Suíça. Participar do futebol de espetáculo demanda aceitar as regras do jogo e ainda adotar uma espécie de forma-Estado, por meio da subordinação ao sistema FIFA. Essa forma-Estado dá comensurabilidade ao esporte de cima a baixo, possibilitando equiparar diferentes modulações do jogo: desde a versão televisionada, disputada nos mais sofisticados estádios por estrelas milionárias altamente assessoradas (pela preparação técnica, tática, física, psicológica, nutricional) até a versão que, sem o mesmo interesse público, não movimenta vultosas cifras e é jogado por jogadores sem fama e sem dinheiro nas ligas menores ao redor do mundo.
A comensurabilidade possível pelo aceite do mesmo conjunto de regras em todas as federações que se vinculam à FIFA é o que permite que um jogador possa transitar de um cenário a outro. Isto se dá pelo achatamento, pela padronização, pela unificação da diferença: faz-se possível diferir, porém, dentro de parâmetros regulados desde cima a baixo, desde as federações até os clubes. Assim, para jogar o jogo das diferenças do ritual disjuntivo do futebol, torna-se necessária a subordinação.
As condições para a participação no futebol de espetáculo estão em acordo com o processo de consolidação dos esportes modernos (Elias; Dunning 1992) que envolveu uma série de transformações nos jogos populares do medievo. Dentre as principais mudanças, a restrição à violência e a implementação de regras universais passíveis de generalização possibilitaram a referida unificação do jogo e, por consequência, sua conversão em sistemas duráveis de competição. A padronização das regras forneceu uma métrica ao esporte e permitiu agregar diferentes competidores, dadas suas condições de se equivalerem. Não obstante, afirmou-se o fair play, um modo de experiência do jogo adequado ao contexto “civilizador” (Elias 1994).
É a partir dessa atitude “desinteressada” e “gratuita” das classes altas em relação aos jogos, promotora da cisão entre o ator social e o ator esportivo, que tem origem a noção de fair-play. [...] a noção de fair-play traz consigo a ideia de que um jogo não muda a vida de ninguém, e tampouco soluciona desavenças (Damo 2002:23).
Os clubes de futebol devem ser capazes de adotar a linguagem comum e duradoura dos esportes modernos. Os modos pelos quais se estruturaram institucionalmente respondem a essas necessidades. As torcidas, por sua vez, quando desejam reconhecimento e participação na instituição esportiva se subordinam ou, em teoria, deveriam se submeter às lógicas da lei unívoca, às lógicas da forma-Estado que tem no topo de sua pirâmide a própria FIFA - a reconhecida monopolizadora da prática do futebol de espetáculo (Rocha 2019). Neste sentido, o futebol profissional funciona como um sistema fechado e apartado dos demais. Além da regra do jogo que impera durante os 90 minutos em que duas equipes se confrontam, ele possui uma justiça privada, a chamada justiça esportiva. São tribunais particulares - como o Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) no Brasil e o Tribunal Arbitral du Sport (TAS) em nível internacional - que impõem ordenamentos para além do campo de jogo. As federações continentais e nacionais, entidades que, no sistema FIFA, reproduzem o monopólio localmente não podem sofrer interferências de governos, sob ameaça de exclusão.11
Clubes também estão submetidos ao regime privado de justiça dos esportes, podendo ser sancionados por contratações irregulares, por usarem jogadores não inscritos devidamente na competição, por abuso econômico, por dívidas trabalhistas ou com outros clubes e ainda por tentativa de arranjo de resultados. A União das Associações Europeias de Futebol (UEFA) inventou recentemente o termo fair play financeiro que regula as condutas econômicas dos clubes no continente, procurando, desde então, punir aqueles que apresentarem balanços considerados negativos.12
Jogadores transgressores do fair play também podem ser sancionados por condutas consideradas violentas, trapaceiras ou inadequadas. É o caso dos controles antidopagem, por exemplo, que visam punir o consumo de drogas recreativas, bem como a busca por vantagem competitiva através do uso de expedientes ilegais tidos como incongruentes com o “espírito do jogo limpo”. É ainda o caso do uso de gestos técnicos proibidos,13 das manifestações consideradas políticas ou das condutas antijogo.
O antijogo, para a leitura eliasiana dos esportes modernos, se coloca enquanto a negação do jogo. Porém, se preferíssemos uma abordagem alternativa, poderia ser pensado como antítese do fair play, da regra universalizável, do jogo da identidade (Toledo 2020): antítese da forma-Estado: Se aquilo que está na negação do antijogo não é o jogar, mas sim o monopólio de sua regra, de sua lei, de seu comando, então, o problema todo passa a residir no controle da diferença.
Pensando nos efeitos práticos gerados pelo fair play, poderíamos lembrar do modo como um grave conflito em um Campeonato Brasileiro foi resolvido entre clubes rivais e confederação. Em 2005, o Internacional disputava ponto a ponto o título contra o Corinthians. O desfecho daquela temporada foi anômalo, pois, no decorrer do certame, deflagrou-se um esquema de manipulação de resultados envolvendo a participação direta de um árbitro. A descoberta da “Máfia do apito”, como o caso ficou conhecido, motivou o STJD a anular e remarcar algumas rodadas do campeonato. Os novos resultados modificaram a classificação, beneficiando o time paulista. Ao fim, os dirigentes gaúchos contestaram a interferência dos tribunais na classificação final, buscando a anulação da decisão que modificou a tabela e indicando que poderiam recorrer à justiça comum para solução do impasse. Rapidamente houve reação da confederação continental que ameaçou o clube de exclusão de seus torneios caso seus dirigentes ou terceiros movessem ações na justiça comum contra o STJD, o que forçou o Internacional a “se curvar à CBF”, conforme noticiou a Folha de S. Paulo à época.14
O curioso neste exemplo é que o Internacional, um clube tão significativo do futebol brasileiro, cogitasse manipular um segundo regime de normas - com outro sentido de justiça - em seu proveito, esboçando uma conduta escancaradamente proibida, irregular, antijogo. A forma-Estado, insisto, reconhece somente o seu regime de regras, neste caso, o da justiça desportiva. A insubordinação do clube gaúcho à justiça esportiva, se levada a cabo, poderia ter custado a sua exclusão do futebol FIFA. Algo indesejado para os dirigentes colorados a ponto de desistirem imediatamente da reivindicação do título do qual julgavam ser os legítimos vencedores.
Essa digressão ajuda a entender que o fair play foi lido majoritariamente no registro eliasiano da supressão da violência ou do controle das emoções. Alinhando-me à sugestão de Toledo (2020) do antijogo como categoria da diferença, entendo que o mesmo pode atualizar a definição de “primitivo” de Clastres, desta vez como a tendência centrífuga contra as máquinas de captura (Deleuze; Guattari 2012a, 2012b) do “Estado” - enquanto ente virtual -, das regras universalizáveis, da lei exógena, se assim preferíssemos chamar.
No começo da seção, trouxe na epígrafe uma canção dos ultras do Napoli, um clube do sul da Itália. Embora seja oriunda de um contexto muito diferente do observado aqui e tampouco esteja ao alcance deste material apresentar qualquer comparação nesta direção, chama a atenção por suas reiteradas menções ao Estado e à lei. Quase clastresianas: se a vida do Ultra conhece uma lei, seguramente não é aquela do Estado. Os torcedores das barras historicamente manifestaram a manutenção de uma “sociedade primitiva” no sentido clastresiano do termo, buscando seguir, em paráfrase à canção napolitana, sua própria lei. Manifestam tendência inversa aos clubes de futebol que, inclusive quando se sentem prejudicados, podem até esboçar movimentos centrífugos, porém dificilmente levarão suas vontades às últimas consequências - a ponto da exclusão do sistema FIFA.
3. Insubordinação como valor
O aparecimento das barras no começo deste século produziu um impacto no desenvolvimento histórico das torcidas no Rio Grande do Sul devido às suas características organizacionais. Em razão da mimese imagética e política das torcidas argentinas, poderíamos afirmar que elas são as torcidas que melhor reproduzem tendências centrífugas, ou, ao menos, onde as lógicas faccionais se mostram constantes, à medida que surge a ameaça da centralização, da captura por chefes, da subordinação. Supõe-se que, no corpo social das barras, por conta de seus processos políticos, manifesta-se ao extremo a insubordinação torcedora, o que não significa que essa lógica não possa funcionar também em outros agrupamentos, porém ali tem sua forma mais acabada e menos enrijecida.
A título de comparação, recordemos a existência de outros grupos - que já mencionei - no clube: os consulados e as TOs. Os primeiros, desde que existem, fazem parte da instituição, sendo regulados pelo Estatuto Social dela. Compete a eles “a representação do Clube junto aos associados da respectiva região, incumbindo-lhes aproximar a comunidade e os órgãos do clube [...]”,15 são representados por um cônsul cuja atuação é regulada pelo Conselho Deliberativo, que é uma espécie de parlamento de associados do clube. Os cônsules são distribuídos territorialmente e têm a incumbência de representar o Internacional em suas respectivas cidades. Além disso, lhes é delegada a responsabilidade de organização de seus torcedores e de seus consulados na participação de atividades sociais, tais como ida aos jogos, eventos consulares, festas, jantares e outros cerimoniais. Desempenham o duplo rol de chefe de torcida e de dirigente. Os consulados, inclusive por sua nomenclatura, reforçam a analogia entre clube e Estado-nação e, considerando seu propósito de conquistar novos sócios e organizar colorados distantes de Porto Alegre, servem ao avanço econômico e territorial da instituição.16 São a ponta final de uma sociedade hierarquizada em larga escala.
As TOs, a seu turno, não são mencionadas no estatuto do clube, bem como a definição “torcedor”. Na revisão que fiz do documento (Teixeira Pinto 2022a:115-116), emprega-se este termo em somente duas oportunidades, um número insignificante quando comparado com as 66 ocorrências de “associado”, o mediador de uma espécie de “cidadania” no clube social (Teixeira Pinto 2022a, 2024a). O “torcedor” não possui nem deveres nem direitos assegurados pelo estatuto - ele sequer existe politicamente para o clube, está à margem dos estatutos e, paradoxalmente, desobrigado - livre - em relação às convenções da formalidade. Sua condição é exógena ao clube.
Institucionalmente, as diversas torcidas organizadas aparecem apenas no “Regulamento Geral” do Internacional17 que estabelece as normas e os procedimentos no clube. Ali, dispõe-se sobre as condições da presença dos agrupamentos torcedores, o que inclui a obrigação de associação de seus membros ao clube e, diferentemente dos associados convencionais, o registro biométrico do torcedor e sua necessária identificação em dias de jogo.
Por ora, quero salientar que a primeira modalidade coletiva de torcida, a dos consulados, faz parte do clube - mais do que isso, só é viável graças a ele. O sistema consular tem o propósito de agregar associados e de fortalecer a presença da instituição para além das fronteiras da cidade, inclusive chegando a outros estados e países. Os consulados são a própria representação do clube, mantendo relação umbilical com suas classes dirigentes. Esta forma de organização é prevista legalmente e coordenada de dentro para fora. Como fazem parte da instituição, a ela devem subordinação sob risco de desligamento, destituição ou desvinculação.18
Nos consulados, assume-se a forma-Estado em que as regras são determinadas desde a instituição para os seguidores. Seguindo com o postulado clastresiano da relação entre guerra e Estado (Clastres 2011 [1977]), concluiríamos que a hostilidade política não poderia se manter no sistema consular de organização torcedora. Nos casos de dissidências dentro do consulado de uma determinada região, os insatisfeitos não poderiam destituir seu cônsul pela força, pela agressividade ou por outras condutas semelhantes e tampouco poderiam criar um consulado independente do primeiro, afinal, a criação e a manutenção dos consulados passam necessariamente pela aprovação do Conselho Deliberativo ou, dependendo do caso, da presidência da instituição que admite legitimamente apenas um cônsul por região. O antijogo (Toledo 2020) deve ser suprimido nessa formação social.
As torcidas organizadas, por sua vez, e os torcedores em geral se formam em relação de independência com o clube. Sua presença arregimentada, constante e volumosa pode lhes aferir uma espécie de relevância política. Para acederem a vantagens e melhores condições de organização, elas se submetem a movimentos de institucionalização, vinculando-se, no caso colorado, a setores burocráticos do clube e, com isso, passando a ter direito a uma reserva prévia de ingressos, tal qual os consulados. Diferentemente destes, porém, são submetidas a uma série de condicionamentos, como a predeterminação de seu espaço no estádio e outros controles que não se impõem aos demais associados do clube. Ao contrário do sistema consular, organizam-se desde fora para dentro. Seu propósito é menos o de expandir o alcance do clube do que o de expandir sua presença no clube (Tabela 1).
No conjunto que o Internacional reconhece enquanto torcidas organizadas, é possível identificar ao menos dois modelos: o das TOs, com institucionalidade própria, regimentos, como é o caso da Camisa 12, da FICO, da Nação Independente e da Força Feminina Colorada. Estes agrupamentos escolhem sua representação, a presidência, por vias formais. O segundo modelo não assumiria essa centralização rígida, mas, em lugar disso, aventaria a posição da chefia (ou liderança, categoria êmica). É a situação das barras. No caso colorado, a Guarda Popular exemplifica essa forma de organização. Apesar da cisão de 2011, ela se reunificou em 2013, ainda que tenha sido repartida, segmentada entre três lideranças e outros núcleos regionais. No “formato barra brava” não há uma via institucional para a mudança de chefia, ainda que este processo até possa ser negociado, normalmente ocorre pelo acirramento da hostilidade.
Por definição, o comando das TOs, assim como o das barras, não sofre ingerência direta dos clubes, ainda que, por meio de condicionamentos (cadastramento biométrico, restrição da entrada ao estádio, distribuição/restrição de ingressos, controle dos instrumentos musicais e de outros artefatos etc.), eles provoquem efeitos indiretos nos modos de organização. Assim, uma barra, apesar de recusar formalidades internas, termina se adaptando ao regime do clube, aceitando esse movimento de captura. No entanto, TOs e barras, diferentemente do sistema consular, se autodeterminam.
Minha entrada etnográfica esteve restrita aos torcedores que viveram a última década na Guarda Popular (2010-2019). Esta contingência dificultou a produção de dados mais detalhados sobre a década anterior (2000-2009) quando essa torcida atravessou o movimento massivo de associação dos clubes no país, no qual o Internacional foi um dos pioneiros. É plausível dizer que o período em questão inventou o “sócio-torcedor” (Simões 2021, 2022) ao mesmo tempo em que restringiu mais ainda o estádio ao torcedor não sócio. Não vem ao caso aprofundar esta discussão aqui, visto que seus efeitos já foram abordados em outros momentos (Toledo 2012; Simões 2021; Teixeira Pinto, 2022, 2024a, 2024b). Importa dizer que, no caso da Popular, durante o período de uma década, os torcedores que diziam ser oriundos da coreia, o setor mais marginalizado do Beira-Rio, tiveram que se transformar em sócios para que sua existência enquanto torcida fosse possível, em um movimento centrípeto, orbitando o eixo do clube e de suas normas.
Para evitar mais especulações sobre o período, recorro à pesquisa de Rodrigues (2012) relativa ao surgimento e às transformações da Geral do Grêmio, que é uma torcida autodefinida como barra, porém do Grêmio. Segundo o autor, ao contrário das “torcidas organizadas tradicionais [que aqui estamos denominando TOs], a Geral do Grêmio não é uma instituição burocratizada, com sede, estatuto, presidente ou diretores” (:110), sendo similar, do ponto de vista da organização, à Guarda Popular. Ao longo desses anos, passou por um processo de “institucionalização”, categoria empregada por este autor, em que os torcedores da barra, então desvinculados, foram massivamente associados ao clube. Como consequência:
A campanha de associação marcou uma nova fase da relação entre torcida e diretoria. O sucesso da campanha obrigou a Diretoria do clube a reconhecer o poder de mobilização da Geral e a vantagem de uma relação baseada no diálogo e por que não dizer, na cooptação. Afinal, diante do poder de mobilização dos líderes daquele movimento, melhor do que enfrentá-los seria trazê-los de volta para dentro do clube. A Geral do Grêmio se mostrou para os dirigentes o modelo de torcida que todo gestor gostaria de ter: apoiava o time durante noventa minutos, contribuía com novos associados [...] (2012:115).
A formalização de um grupo que operava em lógicas faccionais, de socialidade inconstante, somado ao fato de que suas lideranças tenham se convertido em conselheiros desse clube (:118), atuando em sintonia com os dirigentes, poderia ser lida como a conversão da barra em outro tipo de torcida. Se, porém, ocuparmo-nos menos com o trabalho de classificar os grupos em categorias desde definições idealizadas sobre os modelos de torcida, e olhássemos para as lógicas da política na organização torcedora, poderíamos ver um movimento centrípeto reorientando a torcida: não mais organizadas exclusivamente de fora para dentro do clube, mas também ao revés. Capturadas por suas lideranças e pelos dirigentes do futebol.
Venho argumentando, contudo, que a socialidade barra brava tem a insubordinação como um valor, naquilo que é sua busca por conjurar o descolamento do poder do corpo social em direção à chefia. Voltando à antropologia política de Clastres, a guerra, por sua incompatibilidade com o Estado, é um mecanismo extremamente eficaz para tanto, de modo que, sem ela, se torna impensável a sociedade primitiva. No caso gremista narrado pela historiografia, após o processo de associação dos torcedores da Geral do Grêmio, a pesquisa de Rodrigues (2012) descreve suas consequências mais imediatas. A torcida passaria a ter benefícios na preparação de suas performances para os jogos e no aspecto econômico, em ações que foram consideradas acordos com a direção do clube ou “agrados”. A compreensão, por parte dos torcedores, de que as lideranças se beneficiavam de forma inapropriada dessas vantagens era expressa por termos como “corrupção” ou “máfia”. Esta pesquisa descreve, a partir de 2006, o aumento da insatisfação interna contra os capos e, por conseguinte, uma sequência de eventos conflituosos com brigas e tumultos em diferentes estádios do país. Em 2008, o acirramento da hostilidade provocaria um enfrentamento no qual houve um tiroteio no pátio do estádio gremista, onde um torcedor resultou baleado. Por fim, deflagrava-se, conforme narrado pelo autor, uma dissidência da torcida: saíam os insatisfeitos, formando um novo grupo e migrando para outro setor do estádio (Rodrigues 2012:125-132).
4. Faccionalismo e hostilidade
Em pesquisa no Alto Xingu, Fausto (2014) identificou entre os Parakanã, povo de língua tupi-guarani, uma cisão territorial que, num intervalo de décadas, consolidou configurações opostas da economia e da política comunitária desses grupos vizinhos e intimamente hostis. A metade oriental apresentava chefia e segmentação social; a metade ocidental, por sua vez, apresentava a ocorrência sistêmica do faccionalismo, repartindo-se em subgrupos nômades sem estratificação social. Para estes últimos, a guerra constituiu um importante mecanismo de relação social. Além disso, operava transformações sociológicas, quando considerado seu caráter também predatório (Fausto 2014; Viveiros de Castro 2015). Afigurava-se como meio de relação com alteridades e como consumo produtivo da diferença.
As lógicas da política nas sociedades torcedoras, bem como no caso das cisões entre os coletivos amazônicos, poderiam ser repensadas por via da comparação entre os diferentes modelos organizativos, assumindo que, em princípio, todos esses torcedores compartilham generalizadamente uma noção de pertencimento ao mesmo clube de futebol - são semelhantes, portanto, - e se percebem como associados ao mesmo clube. Além disso, todos esses optaram pelo vínculo aos segmentos torcedores - a busca pela diferença.
Voltemos então ao caso das duas principais torcidas do Internacional, observando comparativamente TOs e barras enquanto pensamos efeitos da hostilidade torcedora. A Camisa 12 é considerada a primeira TO do Rio Grande do Sul. Foi fundada em 1969 por Vicente Rao, antigo chefe de torcida colorada nos anos 40. Esta torcida - no contexto da década de 1970 em diante - se apresenta como uma associação torcedora, uma agremiação independente, chefiada por uma presidência, cuja escolha se dá pela via eleitoral. Ela atualmente se faz notar utilizando um uniforme próprio, alusivo a si mesma. Além disso, possui uma banda, marcada principalmente pela bateria, que leva o samba de carnaval ao estádio. Para acrescentar, tem também uma loja on-line para a comercialização de roupas e acessórios de torcida. Vê-se nesse grupo uma série de órgãos formalizados e duráveis, o que faz com que comandar a Camisa 12 implique comandar todo esse conjunto institucional.
A Guarda Popular, por sua vez, tende a recusar a possiblidade de formalização do grupo. Enquanto nas TOs é comum o uso de uniforme por toda a coletividade, os torcedores das barras podem se vestir como desejarem. Eles optam normalmente por suas camisetas e abrigos do Inter. Isto poderia parecer um simples detalhe, mas a opção do vestuário não padronizado indica também uma forma de desobrigação do torcedor com o grupo, estando mais alinhada com a socialidade insubordinada (desobrigada) presente na formação política da barra. Por alguns anos, ela foi liderada por uma só pessoa que manteve o “comando” sobre o conjunto. Essa organização durou até 2011, quando uma briga dentro do Beira-Rio manifestou uma irreparável cisão interna. Esse episódio consolidou a divisão da torcida em dois segmentos: Guarda Popular e Popular do Inter.
O segundo grupo, que em princípio era uma dissidência, finalmente concretizava seu ideal autárquico e se tornava uma torcida apartada da primeira, com liderança, banda e território próprio. Segundo comentam os torcedores sobre o período, esta secção reunia os mais antigos, a “velha guarda” da torcida que, embora tivesse seu valor atrelado à sua “contribuição histórica”, ia se tornando obsoleta em relação aos mais jovens. O primeiro grupo passava a ser dominado por estes que, dizem os mesmos torcedores, “trabalhavam” mais, tinham ideias “arejadas” para o crescimento da torcida e adequadas às transformações históricas do futebol que entendiam que os estádios vinham passando.
A briga de 2011 provocou a exclusão dos dois grupos do quadro das torcidas organizadas do Internacional, o que impedia seus acessos ao estádio. Com o passar do tempo, voltaram - separadas, porém. O primeiro grupo se manteve no setor original, o portão 7. O segundo, escapando às linhas de captura, demonstrou seu nomadismo,19 migrando para o Portão 4. Os anos posteriores foram caracterizados pelo afastamento do Beira-Rio em função das obras para a Copa do Mundo de 2014. No retorno do clube ao estádio, as duas torcidas voltaram a negociar a sua reunificação. Nessa época, uma terceira facção, um grupo minoritário, surgiu e construiu sua reputação a partir da virtude guerreira de seus membros, adquirindo um prestígio que os incluiu no grupo maior: O “Comando do Trem”, reconhecido principalmente por suas proezas de guerra. Desde então, a Guarda Popular se tornou o conjunto desses três comandos e, também, a única barra reconhecida pelo Internacional. Este detalhe, de que, seguindo a lógica inversa às cisões, tenha se convertido na única barra, é importante.
A formação das torcidas organizadas costuma seguir uma lógica do múltiplo, isto é, uma lógica da diferença, em que a política faz as identidades circularem (Viveiros de Castro 2011). Há uma tendência para a multiplicação descontrolada dos grupos em função de aspectos identitários/territoriais e seus desejos de autarquia, independência política (Clastres 2011 [1977]): a torcida “das mulheres”, a torcida “da zona sul”, a torcida “do samba”, e assim por diante. No caso do Internacional, havia, nos anos 70, inclusive torcidas dedicadas a jogadores específicos do time: as torcidas de Falcão, Mauro Galvão, entre outras, a exemplo do que indicou Hollanda (2008) a partir da análise do processo de multiplicação de torcidas organizadas no contexto do Rio de Janeiro nos anos 1960.20 Atualmente, o paradoxo é que, para serem aceitas no futebol com direito a levarem suas bandas, bandeiras e outros artefatos torcedores, as torcidas precisam do reconhecimento formal da instituição, o que implica uma adaptação a um segundo regime de signos (Deleuze; Guattari 2011), o do clube de futebol inserido no sistema FIFA de competição esportiva. Para isso, devem se converter em grupos significativos, volumosos, e admitirem a representação por um chefe, um mediador entre a torcida e a instituição.
Os processos de cisão e de unificação que narrei ocorreram em um período curto, entre 2010 e 2015. Eles demonstram a fragilidade do equilíbrio que mantém essa torcida em decorrência da coexistência destas forças de captura e fuga, com destaque para a recorrência acentuada da segunda em relação à primeira. Como já escutei desses torcedores, “a cada jogo é uma nova negociação” em que as lideranças precisam satisfazer os interesses de todos. O problema, ainda de acordo com eles, é que é “impossível agradar a todo mundo”, afinal “se tu dá algo pra um, está tirando de outro”. Essas negociações normalmente são a respeito de entradas para os jogos, lugares nos ônibus de excursão, conforto das viagens: “Tu consegue um ônibus pra mandar a torcida pro Rio, pra Argentina, mas tu vai mandar eles sem nada? Sem um dinheiro? 24 horas num ônibus passando fome?”.
Neste sentido, a liderança está sempre mais obrigada com o seu torcedor do que o contrário, o que inverte a relação de comando e obediência - de servidão, como percebeu Clastres (2012 [1962]). A insatisfação com a chefia causará a desobrigação, a insubordinação, e os torcedores sabem disto e o demonstram quando identificam a necessidade de que a liderança supra suas necessidades, garanta as melhores condições para a torcida; reafirmam isto constantemente, em especial quando empregam o termo “agradar” para descrever um dos atributos da chefia.
Nas barras, não ocorrem eleições. Os grupos são constituídos por lideranças capazes de reunir uma quantidade relevante de torcedores, providenciando a “festa”, a banda, o apoio ao time. Há somente uma maneira de “tomar a torcida” como dizem os torcedores. Isto ocorre “infelizmente” através da força. E acrescentam: “não é o desejado, mas é assim que funciona”. Poderíamos desenvolver este ponto a partir da associação entre a guerra primitiva e o faccionalismo. Ou a partir de outro referencial teórico, o da relação perpétua e interativa entre máquina de guerra e forma-Estado. Segundo Deleuze e Guattari, em releitura a Clastres,
Conjurar a formação de um aparelho de Estado, tornar impossível uma tal formação, tal seria o objetivo de um certo número de mecanismos sociais primitivos, ainda que deles não se tenha uma consciência clara. Sem dúvida, as sociedades primitivas possuem chefes. Mas o Estado não se define pela existência de chefes, e sim pela perpetuação ou conservação de órgãos de poder. A preocupação do Estado é conservar. [...]. Os mecanismos conjuratórios ou preventivos fazem parte da chefia, e a impedem que se cristalize num aparelho distinto do próprio corpo social (Deleuze; Guattari 2012c:19-20).
O mecanismo conjuratório mais eficiente contra a conservação, contra as tendências de estabilização é, na sociedade primitiva clastresiana, a própria máquina guerreira, dada sua incompatibilidade com o Estado, sua exterioridade em relação a este. Acrescentam os autores de Mil Platôs que o Estado procura “interiorizar”, “apropriar-se localmente”. A máquina de guerra, que é tão importante na socialidade das torcidas barras, opera em outro sentido, em direção centrífuga.
Considerações finais
Ofereci uma leitura, desde a antropologia política, para a abordagem das lógicas de formação e dissolução de torcidas de futebol. Fiz isto em diálogo com um referencial que não opera em um modelo antinômico de presença/ausência da forma-Estado (centralização), mas trabalha com a ideia da ocorrência de forças, ou tendências, que atuam ora capturando, ora escapando, ora em direção ao centro, ora em direção às bordas. Nas torcidas, vemos ora subordinação, ora insubordinação aos regramentos impostos pelo Estado e pelos clubes e federações esportivas. Com esta concepção, na qual o Estado é uma virtualidade, reelaboramos algumas afirmações sobre os modelos de organização torcedora e violência.
No primeiro modelo reportado anteriormente, o consular, a hostilidade não pode se sustentar enquanto parte da política. Os consulados, espalhando-se pelo Rio Grande do Sul e pelo Brasil, representam, sem dúvida, uma forma de segmentarização do clube. Eles conformam coletivos de colorados de determinada cidade ou região que buscam demarcar a sua diferença em relação aos demais colorados. A multiplicação consular, por esta razão, segue uma lógica centrífuga, porém não resultante de querelas internas. Representam, antes disso, uma geopolítica clubística que combina as migrações, o regionalismo e o pertencimento ao clube. Os consulados formam torcidas que se organizam desde o centro para as periferias. É o próprio clube que os torna possíveis e, por este motivo, a representação consular precisa estar adequada aos regimentos determinados pelos dirigentes. Em outras palavras, a insatisfação com o chefe, neste caso o cônsul, não deverá conduzir à insubordinação torcedora, ou à formação de um novo consulado para a mesma região, mas, idealmente, à sua substituição de acordo com as vias legais. A produção de diferença ocorre, porém, num regime da identidade: o fair play. A insubordinação, como ameaça a essa formação social, será combatida.
O modelo de TOs, que predominou no Rio Grande do Sul até a virada deste século, tem chefia institucionalizada, formalização associativa, hierarquias burocráticas e tende à estabilidade, o que pode ser atestado pela longa duração de algumas delas, como a Camisa 12 do Inter, dentre outras cuja formação remete às décadas de 1960 e 1970. Estes grupos buscam diferir em relação às demais torcidas do clube, porém sua própria faccionalização ou a multissegmentação significaria seu fim, diferentemente do formato barra brava. À semelhança do sistema consular, esta forma de torcida organizada com níveis de burocratização pode se segmentarizar internamente em núcleos e grupos menores. A produção da diferença, contudo, deve ser controlada a partir de um sistema de regras universalizáveis. O agravamento da hostilidade pela deflagração da guerra interna significaria a ruptura com a estabilidade institucional, regida pela tendência centrípeta.
As barras se mostram os agrupamentos torcedores menos rígidos e mais instáveis. Elas recusam marcas da formalização e, não raro, se confundem com a figura de seus chefes, de seus capos. Quando indagados sobre a história da torcida, sobre o surgimento dela, os torcedores dificilmente transmitem uma ideia de continuidade a respeito do grupo, ainda que ele possa conservar o mesmo nome ao longo dos anos. Eles ilustram momentos de ruptura, cisão e até término. No caso da Guarda Popular, cujo surgimento é identificado em 2004, as constantes cisões - verdadeiros eventos de insurreição - são percebidas como interrupções. Em 2011, com o acirramento do faccionalismo, a torcida que era comandada por uma só liderança se dividiu em duas. Anos depois, a partir das negociações entre três facções torcedoras, houve um reagrupamento, agora dividido por esses segmentos em três comandos.
Nos estudos sociológicos do futebol, a busca por explicações para a violência foi uma constante (Teixeira Pinto 2021, 2022a, 2022b). A ideia de guerra primitiva clastresiana ilumina uma nova hipótese para a leitura das torcidas de modelo barra brava. Diferentemente de outras organizações torcedoras, o faccionalismo e a manutenção da guerra interna são duas tendências condizentes com uma socialidade inconstante, que valoriza a insubordinação, em decorrência da necessidade de conjurar a centralização.
Isto não implica afirmar que as transformações não possam ocorrer pela via da negociação, pela fala, pelas concessões, ou que o grupo esteja impossibilitado de se direcionar a formas mais institucionalizadas ou centralizadas - tendências centrípetas que, considerando a atual estabilização do coletivo, parecem ter predominado nos anos recentes. Na verdade, estes dois tipos de ação operam conjuntamente. Porém, através dos conceitos de guerra primitiva e de antijogo, compreende-se que a barra não tende à desintegração, mas, pelo contrário, reforça as características de sua organização política - vocacionada ao faccionalismo - ainda que o estado de guerra permanente possa levar a torcida ao autoconsumo ou acarretar severas restrições, impedimentos ou prejuízos a esses torcedores: seja nas suspensões que cumprem com frequência em razão dos comportamentos transgressores, seja na exclusão de suas lideranças do mundo do futebol, através de medidas judiciais, ou, ainda, nos riscos associados à atividade guerreira. No sul do Brasil, as barras são expoentes das torcidas que melhor internalizam as lógicas agônicas dos ritos esportivos, isso pois, a concorrência e a rivalidade que é nutrida entre diferentes clubes - que são diferentes comunidades de pertencimento - direciona-se para o exterior. Pela valorização da insubordinação e pelo acirramento dos faccionalismos, esses grupos, por sua vez, também mantêm o antagonismo constantemente direcionado ao interior do próprio corpo social.
Agradecimentos
Este artigo resulta de minha pesquisa de doutorado no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (PPGAS/UFRGS). Agradeço à Capes pelo financiamento de doutorado e ao CNPq pelo atual financiamento de pós-doutorado. Sou grato às contribuições dos professores Arlei Damo, pela orientação e pelos direcionamentos teóricos, além de Luiz Henrique de Toledo e Eduardo Dullo, pelos generosos comentários à versão preliminar deste trabalho na fase de qualificação da tese. Agradeço ainda aos(às) pareceristas da Revista Mana pelas sugestões que qualificaram o texto. E, não menos importante, manifesto minha gratidão a torcedores(as) da Guarda Popular e dos consulados que fizeram esta pesquisa possível.
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1
Este artigo é um desdobramento de trabalhos anteriores. Para mais informações sobre as inserções etnográficas e sobre como constituí interlocuções nessa pesquisa, cf. Teixeira Pinto (2022:36-69).
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2
O termo êmico mais usado é “barra”, ainda que o termo “barra brava” também seja empregado em menor medida. Este último está mais associado à estigmatização de torcidas sul-americanas, principalmente argentinas, carregando não raramente uma significação pejorativa pelo destaque a condutas violentas e/ou ilícitas (Cabrera 2024). Em todo caso, com base na pesquisa de campo, nota-se que os torcedores se referem à Guarda Popular mais como a “Popular” ou como a “torcida” do que como a “barra”. Barra é uma definição mais empregada para denotar o contraste musical e organizacional com as TOs. Como proponho refletir comparativamente sobre as diferentes dinâmicas políticas do torcer, emprego tanto “barra” como “barra brava” para qualificar uma determinada modulação do associativismo torcedor que, a partir do século XXI, se tornou predominante no futebol porto-alegrense.
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3
TOs é um termo que emprego para referir à modalidade de organização torcedora mais destacada do futebol brasileiro. São as torcidas que, formadas no exterior dos clubes a partir da década de 1960, constituíram associações próprias, com quadro social e burocracias formais. São, até hoje, a modalidade predominante de organização torcedora nas mais diferentes localidades do Brasil. O termo “torcida organizada”, por sua vez, pode se referir a qualquer maneira genérica de arregimentação e organização de torcedores.
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4
Consulados são uma forma de organização de torcedores que, atualmente, existe em diferentes clubes do Brasil. Internacional e Grêmio, no entanto, são os clubes onde os departamentos consulares são mais longevos e desenvolvidos, o que indica que os consulados são um arranjo característico do futebol gaúcho. Enquanto importantes clubes como Flamengo, Palmeiras e Atlético Mineiro alcançam poucas dezenas de localidades, os rivais de Porto Alegre atendem, cada um, cerca de mil diferentes localidades na América do Sul e em outros continentes.
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5
Trata-se de uma partida-homenagem que o clube ofereceu para celebrar a aposentadoria do jogador Fabiano Souza.
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6
O termo remete às nomenclaturas da máfia italiana e indica a posição de mando nessa torcida.
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7
Ver “Antigo líder de torcida volta a ser preso em Porto Alegre” em http://globoesporte.globo.com/rs/noticia/2016/06/antigo-lider-de-torcida-do-inter-volta-ser-detido-em-porto-alegre.html (Acesso em 20/12/23).
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8
Contemporaneamente à Guarda Popular, surgia no setor mais popular do Estádio Olímpico a torcida Geral do Grêmio, grupo não institucionalizado, sem sede, sem estatuto e sem dirigentes formais e que, já em 2001, se identificava como uma barra. Segundo relatos de lideranças da época, a nova torcida gremista angariava membros de outras TOs insatisfeitos com a “burocratização” e com as “hierarquias” destas (Rodrigues 2012:48-59).
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9
Em tradução livre, “o Estado fez uma lei que diz o seguinte ao policial/ quando encontrar um torcedor, você o prende e o traz aqui/ quando chegar à delegacia, o policial vai tremer/ A lei não nos assusta, o Estado não nos deterá/ na verdade nada nos deterá. A vida de ultra, todos sabem/ conhece só duas leis: coerenza e mentalità”.
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10
Para ver alguns desses estudos, cf. o dossiê “Pensar com Pierre Clastres” da Revista de Antropologia, n. 54, v. 2 (Perrone-Moisés; Sztutman; Cardoso 2011).
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11
Em 2008, a Federação Peruana de Futebol (FPF), por exemplo, foi sancionada com a exclusão de todas as suas equipes de competições continentais pela FIFA, que compreendia ter havido conflito do governo local com a entidade privada. Ver “FIFA decide suspender o Peru...” em https://www.uol.com.br/esporte/futebol/ultimas/2008/11/24/ult59u178942.jhtm (Acesso em 20/12/23).
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12
Ver “Entenda o que é fair play financeiro...” em https://www.terra.com.br/esportes/futebol/entenda-o-que-e-o-fair-play-financeiro-no-futebol,64fa70fbc8cf2036bff776ef819ee11djx4i2cus.html#:~:text=Descumpriu%20as%20regras%20do%20fair,normas%20do%20fair%20play%20financeiro. (Acesso em 20/12/23).
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13
Poderíamos citar as simulações exageradas de faltas ou de agressões que buscam levar a arbitragem ao erro; as cotoveladas ou até mordidas em disputas de bola; agressões racistas, entre outras.
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14
Ver “Pressionado, Internacional se curva à CBF” em https://www1.folha.uol.com.br/fsp/esporte/fk0612200503.htm (Acesso em 20/12/23).
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15
“Estatuto Social” do Sport Club Internacional, atualizado em 2020.
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16
Conforme texto de divulgação sobre a inauguração de consulados, “Para ser candidato a cônsul do Sport Club Internacional na sua cidade ou região é necessário ser sócio em dia (não menos de 6 meses) e trazer, no mínimo, 10 novos sócios como taxa de adesão e ser conceituado na comunidade [...]”, disponível em https://internacional.com.br/consulados/funcoes (Acesso em 20/12/23).
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17
Documento disponível no site do clube, internacional.com.br (Acesso em 20/12/23).
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18
Estas medidas são consideradas raras, extremas e, a depender do contexto, autoritárias. Isso ocorreu mais recentemente no Palmeiras, dada a situação de oposição de alguns consulados em relação à presidente do clube. Ver “Palmeiras exclui consulados que criticaram gestão de Leila Pereira” em https://www.uol.com.br/esporte/colunas/danilo-lavieri/2023/10/19/palmeiras-exclui-consulados-que-criticaram-gestao-de-leila-pereira.htm (Acesso em 20/12/23).
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19
O nomadismo aparece no contexto tupi-guarani (Clastres 2012, 1995; Fausto 2014) não como a consequência da guerra, mas antecipando-a. Dito de outro modo, é a própria lógica centrífuga, buscando combater a unificação e conjurar o Estado, que alimenta o estado de guerra (Clastres 2011 [1977]:247).
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20
Poderíamos avaliar os processos de diferenciação a partir da noção batesoniana de cismogênese moldadora do comportamento dos indivíduos que, na política, poderia ter dois sentidos: simétrica ou complementar. No primeiro, o exemplo são as rivalidades internacionais; no segundo, a luta de classes (Bateson 2018:231). Parece pertinente pensá-las respectivamente como termos da produção de diferenças para fora e para dentro da sociedade, o que seria indicativo de uma espécie de “cismogênese torcedora”.
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Declaração de Disponibilidade de Dados:
Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.
Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.
