Cárcere público: processos de exotização entre Brasileiros no Porto

Douglas Mansur da Silva

RESENHAS

MACHADO, Igor José de Renó. 2009. Cárcere público. processos de exotização entre Brasileiros no Porto. Lisboa: Imprensa de Ciências Sociais. 256pp

Douglas Mansur da Silva

Departamento de Ciências Sociais/Universidade Federal de Viçosa

Cárcere público. Processos de exotização entre brasileiros no Porto é uma versão da tese de doutorado de Igor José de Renó Machado. O livro analisa o cotidiano de imigrantes brasileiros pobres, trabalhadores do chamado "mercado da alegria". A expressão é utilizada pelo autor para circunscrever um profícuo nicho de mercado de trabalho para brasileiros, que inclui os setores de atendimento ao público, lazer e entretenimento e uma vasta gama de profissionais (atendentes, garçons, churrasqueiros, profissionais do sexo, jogadores de futebol, entre outros). Ao longo das páginas do livro, Igor demonstra de modo contundente como as experiências migratórias de brasileiros no Porto, em Portugal, são profundamente marcadas pelos estereótipos locais em torno do "brasileiro". A presença de imagens e lugares-comuns, como os do mestiço, hipersensualizado, alegre e comunicativo, ao mesmo tempo em que abre portas a esses imigrantes, reforça subalternidades. Esta percepção leva o autor a elaborar uma densa etnografia acerca das relações que esses imigrantes travam com estereótipos e a consequente estruturação de relações políticas e produção de identidades.

No capítulo 1, que trata dos números e do mercado de trabalho dos brasileiros em Portugal, o autor empreende um notório esforço para demonstrar como os primeiros levantamentos oficiais sobre a imigração brasileira em Portugal, realizados ao final dos anos 1990 e que apontavam uma predominância de mão de obra qualificada entre brasileiros, não correspondiam ao que presenciou em campo. Ao cruzar informações decorrentes do processo de regularização extraordinária ocorrido em 2001, Machado observou que estas apontavam não apenas a massiva presença de mão de obra não qualificada entre brasileiros, como também algumas peculiaridades no tocante aos postos de trabalho, significativamente relacionados ao "mercado da alegria", ainda mais quando comparados com dados sobre as ocupações de outros imigrantes, "africanos" e "leste-europeus".

Neste sentido, a pesquisa de campo - realizada em três momentos entre 1998 e 2002 - foi direcionada para o acompanhamento das redes profissionais de brasileiros, o que o levou a observar mais o espaço público, em detrimento do privado e do familiar. Assim, a etnografia do circuito de bares e restaurantes conduz o leitor à percepção das diferenças entre lugares e seus públicos. Nos bares e restaurantes brasileiros destinados a portugueses, vende-se toda uma performance da brasilidade que vai desde a decoração, às danças e à gastronomia. Já nos bares brasileiros para brasileiros, as diferenças regionais são mais evidenciadas e o rito mais comum - a celebração da saudade do Brasil. Ao final, o autor relaciona os dados de uma pesquisa sobre as imagens recíprocas entre imigrantes e portugueses com possíveis efeitos na composição do mercado de trabalho. Aqui, os brasileiros aparecem em uma posição aparentemente contraditória. Apesar de serem os imigrantes com menor índice de rejeição, comparativamente aos demais, são geralmente associados à prostituição ou ao desregramento sexual e tidos como pouco instruídos e menos trabalhadores. Nota-se alguma percepção dos entrevistados acerca da significativa presença de brasileiros em ocupações ligadas ao lazer e ao entretenimento, setores geralmente não vistos como trabalho no sentido produtivo.

Para Igor Machado, além da língua - também esta um sinal diacrítico - a ambígua preferência do empregador português pelo brasileiro para certos ofícios, apesar dos estereótipos, deve-se às formas de classificação social dos imigrantes e ao lugar que estes ocupam na hierarquia e no imaginário português. Assim, o capítulo 4 trata das representações sobre o Brasil, utilizando-se, sobretudo, de imagens recorrentes na mídia. De acordo com o autor, a partir do fim da década de 1980, o país aparece constantemente na mídia - em pautas sobre o aumento da imigração, o sucesso da telenovela e a presença significativa de jogadores de futebol e da Igreja Universal, além do caso dos dentistas - o que contribuiu para a sensação de uma "invasão brasileira" em Portugal. Contudo, adverte, o expressivo reconhecimento alcançado pela indústria cultural brasileira precisa ser dissociado da situação dos imigrantes. Nos jornais, ao lado dos anúncios feitos por artistas brasileiros - que reforçam a ideia do seu potencial comunicativo - as notícias sobre o Brasil tendem a ser depreciativas. Em um outro aspecto, a telenovela, apesar de admirada, pode também ser interpretada como um exemplo da licenciosidade do brasileiro. Para Machado, a imagem sensualizada do país é fundamental no processo de exotização, uma vez que o Brasil representa, na experiência sensual portuguesa, o lugar da extrapolação dos desejos.

Outro mote representativo das imagens do Brasil é o da malandragem. Neste sentido, o par sexo/malandragem pode estar presente, de maneira pejorativa, nas considerações sobre as trabalhadoras do sexo e, de forma menos pejorativa, nos jogadores de futebol. Também no acompanhamento que fez da cobertura das comemorações dos 500 anos brasileiros identificou não apenas a discrepância em torno do significado das comemorações no Brasil e em Portugal, como o reforço da oposição entre natureza e cultura. Em linhas gerais, argumenta que na maior parte das reportagens sobre os 500 anos, não se falava sobre o Brasil, mas sobre o papel de Portugal no seu descobrimento e formação. Nesta acepção, a presença de Portugal no Brasil tende a ser vista como a do polo civilizado, em contraposição ao selvagem - aqui considerado tanto no sentido pejorativo quanto em uma visão positiva e romantizada, presente nas considerações sobre sua natureza, população indígena e sexualidade. O capítulo 5, "Continuidades imperiais e lusofonia", remonta às formas de classificação e à hierarquia das alteridades do terceiro império português, e analisa o lugar do Brasil naquele imaginário: mestiço, no tocante à hierarquia racial, lugar a meio caminho entre natureza e cultura e território do desregramento português mas, ao mesmo tempo, sua maior realização civilizatória. Tais visões sobre o Brasil, em um sistema de relações classificatórias, são ressignificadas no discurso pós-colonial da lusofonia, reconduzindo o Brasil, bem como as outrora colônias, aos lugares históricos e subalternos que ocupavam naquela ordem classificatória, com efeitos no presente na composição do mercado de trabalho.

Mas o melhor momento do livro são os capítulos 2 e 3, que oferecem ao leitor uma etnografia das formas de acionamento (e reforço) de estereótipos e classificações pelos próprios brasileiros em um "jogo da centralidade". Em outras palavras, o processo de exotização do brasileiro se dá, também, por uma expressiva parcela dos próprios imigrantes inseridos no "mercado da alegria". Tal "subordinação ativa", como chama o autor, é analisada com genuína riqueza etnográfica, em páginas nas quais explora amiúde o controle do acesso a redes sociais, a empregos, ao mercado da paquera e aos casamentos, pelos brokers - também eles envoltos num constante jogo de disputa por legitimidade, por meio de rituais e performances da brasilidade. Nesta altura, o autor demarca um posicionamento original em face do debate teórico em torno do tema da etnicidade e das identidades. Ao considerar a hipótese da existência de um "jogo da centralidade", Machado argumenta que aquelas teorias tenderam a considerar tão somente a configuração de identidades como resultado de contrastes, isto é, de políticas das diferenças, em contextos específicos, deixando de considerar a possibilidade de construção de "identidades-para-o-mercado", esvaziadas de historicidade, cuja produção simbólica reforça visões estereotipadas voltadas para mercado e para o consumo.

No capítulo 3, são contrastadas as visões dos brasileiros sobre os portugueses e vice-versa. Aqui, os depoimentos trazem à luz, ao mesmo tempo, os estereótipos trocados e o drama do brasileiro. Fica clara a percepção, por parte do imigrante, de que participa de uma teia de relações e significados da qual é ao mesmo tempo produto e produtor: limitado a um lugar subordinado, este "orientalismo prático" acaba por envolver o brasileiro em um "cárcere público". Em um esforço de compreensão dos sentidos da prática nativa, o autor chega a comentar que ele próprio, brasileiro, não considera a produção de "identidades esvaziadas" a estratégia política mais adequada para o acesso aos direitos de cidadania. Contudo, observa que o imigrante brasileiro - sobretudo aquele considerado negro no Brasil - passa a ser visto, no contexto português, como "mestiço", o que da perspectiva de sua posição na hierarquia racial brasileira pode representar alguma mobilidade social, tanto em termos simbólicos quanto econômicos.

Na "Conclusão", Machado dirige uma crítica ao que considera uma excessiva ênfase de certos autores, como Sahlins, em atribuir às lógicas nativas a capacidade de apreender e ressignificar, de modo crítico, aspectos da lógica de mercado capitalista, desconsiderando aquilo que chamou de "subordinação ativa". Há, ainda, um "Anexo", no qual discute a produção do exotismo como uma ideologia de poder. Apesar da separação didática entre ética e estética, objetividade e subjetividade, o autor avança na elaboração de uma teoria sobre os "processos de exotização". No todo, o livro pode ser considerado uma contribuição antropológica para a análise da economia política da cultura. Isto fica evidente não apenas pela simpatia do autor por teóricos do sistema-mundo como Eric Wolf e Immanuel Wallerstein, mas também pela elaboração articulada de um conjunto de conceitos como "jogo da centralidade", "identidade-para-o-mercado" e "subordinação ativa". Além disto, utiliza-se do que há de melhor na tradição etnográfica ao articular dados etnográficos e estatísticos a processos sociais como a expansão mundial do capital e a construção de narrativas mestras do Estado-nação. Neste sentido, oferece ao leitor uma refinada interpretação dos efeitos locais desses processos, bem como dos sentidos das práticas nativas.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    25 Ago 2011
  • Data do Fascículo
    Abr 2011
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