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Nos rastros da memória de um "Mestre de Ginástica"

In the wake of the memory of a "Master of Gymnastics"

Janice Zarpellon Mazo Vanessa Bellani Lyra Sobre os autores

Resumos

A trajetória de vida de Georg Black, considerado o precursor da Educação Física e dos Esportes no Estado do Rio Grande do Sul, foi marcada por muitas realizações. Por sua relevante contribuição na propagação da ginástica alemã nos clubes esportivos e nas escolas da comunidade alemã de Porto Alegre e São Leopoldo por mais de 30 anos (1905-1937) é apontado por autores (Daudt, 1952; Hofmeister, 1987) como sendo o "Pai da Educação Física no Rio Grande do Sul". Seu nome é lembrado em alguns lugares da cidade de Porto Alegre: Centro Comunitário Georg Black (CEGEB), Grupo de Escoteiros Georg Black e SOGIPA. O objetivo central do presente estudo foi reconstituir a história de vida de Georg Black no cenário da educação física e esportes do Rio Grande do Sul. Para tanto, as fontes consultadas e submetidas à análise documental foram os livros comemorativos da SOGIPA, Atlas do Esporte no Brasil e no Rio Grande do Sul, jornal da Turnerbund, entre outras fontes impressas. A pesquisa revelou que Georg Black, se inseriu de forma ampla no cenário esportivo, especialmente porto-alegrense, contribuindo para a emergência e difusão de práticas corporais e esportivas diversificadas.

Educação Física; Esporte; História; Memória; Ginástica


The trajectory of life of Georg Black, considered the precursor of the Physical Education and the Sports in the state of the Rio Grande Do Sul, was marked by many accomplishments. For its excellent contribution in the propagation of the german gymnastics in the sporting clubs and the schools of the german community of Porto Alegre and São Leopoldo for more than 30 years (1905-1937), some authors (Daudt, 1952; Hofmeister, 1987) it to it mentions as being the "Father of the Physical Education in the Rio Grande Do Sul". Its name is remembered in some places in the city of Porto Alegre: Communitarian center Georg Black (CEGEB), Group of Escoteiros Georg Black and in some sectors of the SOGIPA. In this way, the central objective of the present study was to reconstitute to the history of life of Georg Black in the scene of the Physical Education and Sports of the Rio Grande do Sul. For in such a way, the consulted sources had been the act books and annual reports of the SOGIPA, commemorative books of this society of gymnastics, Atlases of the Sport in Brazil and the Rio Grande do Sul, Sporting Register of the Rio Grande do Sul, Periodical Post office of the People, among others sources printed. The research revealed that Georg Black, inserted widely in the sports arena, especially Porto Alegre, contributing to the emergence and dissemination the diversified corporeal practices and sports.

Physical Education; Sport; History; Memories; Gymnastics


ARTIGO ORIGINAL

Nos rastros da memória de um "Mestre de Ginástica"

In the wake of the memory of a "Master of Gymnastics"

Janice Zarpellon Mazo; Vanessa Bellani Lyra

Escola Superior de Educação Física da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, RS, Brasil

Endereço

RESUMO

A trajetória de vida de Georg Black, considerado o precursor da Educação Física e dos Esportes no Estado do Rio Grande do Sul, foi marcada por muitas realizações. Por sua relevante contribuição na propagação da ginástica alemã nos clubes esportivos e nas escolas da comunidade alemã de Porto Alegre e São Leopoldo por mais de 30 anos (1905-1937) é apontado por autores (Daudt, 1952; Hofmeister, 1987) como sendo o "Pai da Educação Física no Rio Grande do Sul". Seu nome é lembrado em alguns lugares da cidade de Porto Alegre: Centro Comunitário Georg Black (CEGEB), Grupo de Escoteiros Georg Black e SOGIPA. O objetivo central do presente estudo foi reconstituir a história de vida de Georg Black no cenário da educação física e esportes do Rio Grande do Sul. Para tanto, as fontes consultadas e submetidas à análise documental foram os livros comemorativos da SOGIPA, Atlas do Esporte no Brasil e no Rio Grande do Sul, jornal da Turnerbund, entre outras fontes impressas. A pesquisa revelou que Georg Black, se inseriu de forma ampla no cenário esportivo, especialmente porto-alegrense, contribuindo para a emergência e difusão de práticas corporais e esportivas diversificadas.

Palavras-chave: Educação Física. Esporte. História. Memória, Ginástica.

ABSTRACT

The trajectory of life of Georg Black, considered the precursor of the Physical Education and the Sports in the state of the Rio Grande Do Sul, was marked by many accomplishments. For its excellent contribution in the propagation of the german gymnastics in the sporting clubs and the schools of the german community of Porto Alegre and São Leopoldo for more than 30 years (1905-1937), some authors (Daudt, 1952; Hofmeister, 1987) it to it mentions as being the "Father of the Physical Education in the Rio Grande Do Sul". Its name is remembered in some places in the city of Porto Alegre: Communitarian center Georg Black (CEGEB), Group of Escoteiros Georg Black and in some sectors of the SOGIPA. In this way, the central objective of the present study was to reconstitute to the history of life of Georg Black in the scene of the Physical Education and Sports of the Rio Grande do Sul. For in such a way, the consulted sources had been the act books and annual reports of the SOGIPA, commemorative books of this society of gymnastics, Atlases of the Sport in Brazil and the Rio Grande do Sul, Sporting Register of the Rio Grande do Sul, Periodical Post office of the People, among others sources printed. The research revealed that Georg Black, inserted widely in the sports arena, especially Porto Alegre, contributing to the emergence and dissemination the diversified corporeal practices and sports.

Key Words: Physical Education. Sport. History. Memories. Gymnastics.

Introdução

O imigrante alemão Georg Black chegou a Porto Alegre no ano de 1902 em busca de trabalho e melhores condições de vida, tendo em mãos o diploma de Turnlehrer (professor de ginástica alemã), obtido na Alemanha. Nesse período já havia em Porto Alegre, desde meados do século XIX, alguns poucos locais destinados às práticas corporais e esportivas, nos quais, o espaço de trabalho ainda era incipiente.

A associação esportiva mais antiga e de maior destaque no Rio Grande do Sul era a Turnerbund, atual Sociedade Ginástica de Porto Alegre, 1867 (SOGIPA), fundada pelos imigrantes alemães em Porto Alegre, no ano de 1867. Foi justamente nesta sociedade que Georg Black iniciou sua longa trajetória no âmbito da educação física e do esporte, um ano após sua chegada ao Brasil. Nesta instituição, deu continuidade a sua prática esportiva como atleta, participando de competições de ciclismo, futebol e, principalmente, de ginástica de aparelhos (atualmente ginástica artística). Em seguida, formou-se mestre de ginástica – turnen – em curso oferecido pela própria sociedade, em 1905, e nesta passou a dedicar-se ao ensino da ginástica alemã. Também, foi responsável pela introdução de práticas esportivas na Turnerbund, pouco conhecidas no Estado, como por exemplo, o punhobol1 1 Sobre o punhobol, consultar: OLIVEIRA, P. A imigração alemã e a introdução do punhobol no Rio Grande do Sul. Dissertação (Mestrado em Ciência do Movimento Humano. UFSM, 1987; JUSTUS, F.; SPISILA, F.; MENEGHETTI, J.; MENDONÇA, J.; LINDNER, E. A trajetória do punhobol no sul do Brasil: da inserção ao declínio. Revista virtual EF Artigos. Vol. 02, n. 18. Natal/RN, janeiro, 2005; MAZO, Janice. Punhobol no Rio Grande do Sul. In: MAZO, J.; REPPOLD, A. Atlas do Esporte no Rio Grande do Sul: atlas do esporte, educação física e atividades de saúde e lazer. Porto Alegre: CREF2/RS, 2005. . Ainda nesta sociedade, fundou o primeiro grupo de escoteiros do Brasil e, por isso ficou conhecido como "um educador, um amigo dos jovens" (WIESER e LEITE, 2005, p. 104).

Para além, se destacou por sua participação na Deutschen Turnerschaft von Rio Grande do Sul (Federação Alemã de Ginástica do Rio Grande do Sul), entidade que tinha como principal finalidade promover a integração entre as sociedades de ginástica e a preservação da cultura e dos costumes dos imigrantes alemães, uma vez que a prática da ginástica representava uma das manifestações culturais desta comunidade. Talvez mais do que isso: a ginástica celebrava um forte elemento da identidade cultural dos imigrantes alemães e seus descendentes, no Rio Grande do Sul. Posteriormente, o trabalho de Georg Black se estendeu para outros espaços onde era possível promover não apenas a prática da ginástica alemã, como também outras práticas corporais e esportivas em escolas, praças e em parques públicos.

Ainda que tenhamos por certo o fato de que seu pioneirismo no campo esportivo sul-rio-grandense se deu à custa de muito trabalho, dedicação e preconceitos; importa-nos aqui destacar que a trajetória de vida de Georg Black foi marcada por muitas realizações. Longe da idéia da ausência de conflitos e disputas, ou mesmo conscientes de certos exageros celebrativos em torno de sua imagem, por vezes positivada em seus feitos; optamos pelo desafio de trazer à tona sua vida e memória, a partir das contribuições por ele trazidas ao campo da Educação Física e dos Esportes no Rio Grande do Sul. Se não é por acaso que Georg Black recebeu o título de "precursor da Educação Física e dos Esportes no Estado do Rio Grande do Sul", ou ainda, de "Pai da Educação Física no Rio Grande do Sul" (Daudt, 1952; Hofmeister, 1987), aqui nos propomos a compreender a magnitude deste acontecimento, embalados pela idéia de Halbwacks (1994, p. 31) de que "[...]a memória não revive o passado, mas o reconstrói". Por sua relevante contribuição na propagação da ginástica alemã nos clubes esportivos e nas escolas da comunidade alemã de Porto Alegre e São Leopoldo, por mais de 30 anos (1905-1937), seu nome é lembrado em lugares da cidade de Porto Alegre, como o Centro Comunitário Georg Black (CEGEB), o Grupo de Escoteiros Georg Black e, também, em alguns setores da SOGIPA.

Nesse caminho, o objetivo central do presente estudo foi o de reconstituir a história de vida de Georg Black no Rio Grande do Sul, a partir de um rol escasso de fontes primárias disponíveis. Aproximar-nos da realidade almejada significou, nos limites deste estudo, uma incursão nas representações produzidas sobre Georg Black que se ocuparam em sustentar, as seguintes fontes impressas: livros comemorativos da SOGIPA, Atlas do Esporte no Brasil e no Rio Grande do Sul, dissertações e teses. Tais fontes foram submetidas à análise documental que, por sua vez, constitui-se numa técnica importante na pesquisa qualitativa, seja complementando informações obtidas por outras técnicas, seja desvelando aspectos novos de um tema ou problema de pesquisa (Ludke e André, 1986).

O entendimento de representação assumiu aqui os contornos definidos por Chartier (1994, p. 104), para quem tal conceito possibilita a construção de novos espaços de pesquisa onde a própria definição das questões obriga a inscrever os pensamentos claros, as intenções individuais, as vontades particulares, nos sistemas de constrangimentos coletivos que, ao mesmo tempo, os tornam possíveis e lhes põem freios. Vale lembrar que em outro momento, Chartier (1991, p. 31) afirmava que em determinadas situações, a representação faz ver uma ausência, o que supõe uma distinção clara entre o que representa e o que é representado; e em outras, consiste na apresentação de uma presença, ou seja, na apresentação pública de uma coisa ou de uma pessoa. Assim imbricadas, realidade representada e representação da realidade devem reforçar uma mesma mensagem desejável, aceitável e nobre a ser lida e então, apreendida pela hierarquia social a qual pertencem.

Nesse sentido, torna-se imperativo ressaltarmos a lucidez de estarmos nos apropriando, por meio das fontes impressas, da representação da vida de George Black posta em marcha por vozes socialmente autorizadas e, assim, nomeadas para tal feito. No entanto, este estudo é norteado menos pela intenção de reforçar a oficialidade de tal discurso, do que a ele dar a ver uma projeção investigativa abrindo, assim, possibilidades a novos estudos que o elejam como objeto de análise, e sobre ele lancem novos olhares e novos questionamentos.

Georg Black: da Alemanha para o Brasil

Georg Black nasceu na cidade de Munique, na Alemanha, no dia 24 de abril de 1877. Quando completou seis anos de idade, em 1883, ingressou na Volksschule (Escola Popular), onde permaneceu por alguns anos. Desta instituição seguiu para o Max-Gymnasium (Escola Ginásio), local que ficou até 1891, quando completou 14 anos de idade. No ano seguinte, em 1892, ingressou na Turn-Gemeinde München (Sociedade de Ginástica de Munique) como zögling (aprendiz) e, dois anos depois se tornou membro efetivo no dia cinco de outubro de 1894. Após receber o título de Vorturner (mestre) em 1896, passou a dirigir o grupo dos novatos até ser chamado para prestar o serviço militar. Durante este período formou-se turnlehrer (professor de ginástica alemã) na Königlich Bayerische Zentral-Turnlehrer-Bildungsanstalt (Estabelecimento Educacional Central para Instrutores de Ginástica da Bavária Real) (TARGA, s/d). Após a conclusão do curso voltou a trabalhar na barbearia do pai e em seguida, no ano de 1899 casou-se com Magdalena Nusser.

A difícil situação econômica na Alemanha no início do século XX, como também por não desejar trabalhar na barbearia de seu pai, levou Georg Black e sua esposa a unirem-se a um grupo de imigrantes que tentaria melhores condições de vida no Brasil (WIESER, 1990). Na época, regiões da Alemanha enfrentavam conflitos sociais e a população sofria com o desemprego (SCHÜTZ, 1974; FLORES, 2004). Essas foram algumas das causas que provocaram o movimento imigratório dos alemães, principalmente daqueles pertencentes aos grupos que enfrentavam sérias dificuldades econômicas.

Ao passo que a situação político-econômica da Alemanha favorecia a emigração, a situação do Brasil era propícia para a vinda de estrangeiros que ocupassem o território nacional, pois havia uma vastidão de terras desertas, que eram cobiçadas pelos países vizinhos. De acordo com Schütz (1974), o governo do Rio Grande do Sul simpatizava com a idéia da terra ser ocupada por estrangeiros e não por escravos negros, visando à melhoria da raça brasileira. Além disso, eram oferecidas algumas vantagens para atrair os imigrantes, mas os princípios contratuais nem sempre eram cumpridos e os imigrantes, mesmo sem o apoio governamental, instalavam-se no Brasil.

A ocorrência de correntes imigratórias de alemães no país tem início em 1824 em São Leopoldo, no Rio Grande do Sul. A partir de então, e até aproximadamente 1914, começaram a aportar no Rio Grande do Sul outros grupos de imigrantes alemães, que se estabeleceram em diferentes localidades do Estado. O grupo de imigrantes do qual Georg Black fazia parte, partiu da Alemanha no mês de setembro e chegou ao Brasil em outubro de 1902, dirigindo-se para o Rio Grande do Sul e fixando-se em Porto Alegre (WIESER e LEITE, 2005). Depois de se instalar na cidade, Georg Black, assim como a maioria dos imigrantes alemães e seus descendentes procurou uma associação enquanto espaço de lazer e sociabilidade. Em 28 de fevereiro de 1903 tornou-se sócio da Turnerbund, onde permaneceu por mais de 30 anos.

Georg Black: o mestre de ginástica

Georg Black associou-se a Turnerbund em 1903 e, já no mesmo ano, participou da IV Turnfest der Deutschen Turnerschaft von Rio Grande do Sul (IV Festival de Ginástica da Federação Alemã de Ginástica do Rio Grande do Sul), na qual fez sua primeira exibição na modalidade de volkstümlichen wetturnen (ginástica popular de competição). Esta ginástica que envolvia arremessos, saltos em altura e em distância, além de corridas; fazia parte do movimento do turnen que, posteriormente, tornou-se conhecido como atletismo. O desempenho de Georg Black na Festa de Ginástica foi diferenciado dos demais ginastas a ponto de ser convidado para atuar na organização das competições esportivas dos próximos eventos.

Todavia, Georg Black não se destacava apenas na ginástica. Ainda no ano de 1903, quando foi criado o primeiro clube de futebol de Porto Alegre, o Grêmio Foot Ball Porto Alegrense, ele foi convidado para jogar na posição de center-half (centro-médio), sendo considerado um dos melhores jogadores naquele primeiro ano de atividades do clube (DAUDT, 1942). No período de 1904 a 1906, o nome de Georg Black constava na listagem do time tricampeão do Wanderpreiss, torneio de futebol realizado em Porto Alegre durante a primeira década do século XX (WIESER, 1990).

À imagem de ginasta e jogador de futebol agregou a de ciclista, quando, ainda em 1903, foi vencedor da corrida ciclística organizada pela Radfahrer Verein Blitz (Sociedade Ciclística Relâmpago) e no ano seguinte ingressou como sócio desta associação de ciclistas (TARGA, s/d). Desta forma, Georg Black tornou-se rapidamente conhecido no panorama esportivo porto-alegrense.

Em 1905, na Turnerbund, fez o curso de mestre de ginástica e foi contratado como Vereinsturnlehrer (professor de ginástica de clube), para atuar junto a uma turma de veteranos e depois passou a coordenar a referida prática corporal em todas as categorias (HOFMEISTER, 1987). Cabe lembrar que ele já havia frequentado a escola para instrutores de ginástica na Alemanha, onde obteve certificação de Turnlehrer-Patent (professor de ginástica diplomado) (WIESER, 1990; TESCHE, 1997). O curso de mestre de ginástica realizado por Georg Black em seu país, antes de imigrar para o Brasil, era marcado pela forte influência do turnen (ginástica alemã), uma prática marcante na cultura germânica que atravessou continentes e foi levada pelos imigrantes alemães em outros países da Europa e da América.

O imigrante Georg Black, quando chegou ao Rio Grande do Sul trouxe consigo seus costumes e tradições, suas crenças, valores e um grande conhecimento do turnen. A formação conquistada durante sua permanência na Alemanha contribuiria para que a prática do turnen se propagasse em Porto Alegre e em algumas cidades do Rio Grande do Sul.

Georg Black: o propagador do turnen no Rio Grande do Sul

O turnen, também era chamado de "ginástica de Jahn" em homenagem ao seu idealizador Johann Friedrich Ludwig Jahn, considerado o turnvater (pai da ginástica) (TESCHE, 1996). O termo turnen não existia na língua alemã e foi criado por Jahn para descrever uma prática corporal que envolvia exercícios e jogos gímnicos que seriam praticados em um turnplatz (campo de ginástica).

No Brasil, as primeiras constatações sobre a prática do turnen datam de 1859, na cidade do Rio de Janeiro (TESCHE, 1996), onde existia uma sociedade de ginástica alemã com cerca de 110 sócios. No Rio Grande do Sul a sociedade de ginástica mais antiga foi a Turnerbund localizada em Porto Alegre. Nesta cidade, os teuto-brasileiros buscavam através do turnen a promoção da saúde, a formação moral e a manutenção de suas tradições (MAZO; GAYA, 2006). O estudo de Mazo (2003) evidenciou que as associações esportivas teuto-brasileiras se constituíram em espaços de representação de sua identidade, e a ginástica alemã, uma das principais estratégias de afirmação de sua cultura. Tal prerrogativa é acrescida da idéia de (SILVA, 2006), para quem essa prática representava, à referida população, mais do que meros exercícios físicos, mas sim, um elemento de sua cultura físico-esportiva que fazia parte do "modo de ser alemão".

De acordo com Silva (1997) os clubes organizados pelos teuto-brasileiros ofereciam jogos, caminhadas, teatro, coral e ginástica. Por isso, homens, mulheres e crianças eram incentivadas a praticar os exercícios de ginástica nestas sociedades esportivas. Reunir-se em um clube, falar o idioma alemão, exercitar-se e praticar esportes eram atividades que faziam parte do cotidiano da comunidade teuto-brasileira. Todavia, a prática do turnen já era uma tradição desenvolvida pelos associados da Legião Alemã em Porto Alegre desde 1851, antes mesmo da organização da primeira sociedade de ginástica, a Turnerbund em 1867.

Na Turnerbund, o turnen se desenvolveu graças ao intenso trabalho de Jacob Aloys Friederichs2 2 Ver: SILVA, H. Entre o Amor ao Brasil e ao Modo de Ser Alemão: a História de uma Liderança Étnica (1868-1950). São Leopoldo: Oikos, 2006 o qual, devido a sua marcante atuação em prol do turnen em terras do Rio Grande do Sul, foi considerado o Turnvater (pai da ginástica) no Rio Grande do Sul (TESCHE, 1996). Friederichs não se destacou como atleta, mas sim, como uma liderança étnica, preocupado com a inserção de alemães na sociedade brasileira. Por esse motivo, era a favor de um duplo patriotismo: ser brasileiro, mas, cultivar sua herança cultural, principalmente no que tange ao nacionalismo alemão. Era um grande incentivador do turnen por ver a ginástica alemã, como um forte instrumento na manutenção da identidade dos alemães no Brasil.

Um de seus grandes feitos foi a organização da Deutsche Turnerschaft von Rio Grande do Sul (Federação Alemã de Ginástica do Rio Grande do Sul) em 1895, entidade que visava, ao mesmo tempo, a preservação da cultura e costumes dos teuto-brasileiros e o fortalecimento da unidade das sociedades alemãs no Estado, alimentando um forte caráter nacionalista pela Alemanha. A reunião das sociedades de ginástica do Estado em uma Federação viria não só fortalecer a prática da ginástica, mas também garantir uma maior unidade cultural entre os imigrantes alemães e seus descendentes. A Federação seria, então, mais uma instituição fomentadora da germanidade. Em seus estatutos, por exemplo, exigia-se que as sociedades de ginástica participantes empregassem como língua oficial o alemão (FISCHER, 1929). Vale a ressalva que na Alemanha a Deutsche Turnerschaf (Federação Alemã de Ginástica) existia desde 1860, tornando-se um suporte nacionalista para a etnia alemã (GUTTMANN, 1994).

O maior evento da Federação de Ginástica era o Allgemeine Turnfest (Festival de Ginástica Geral), que tinha o escopo não somente da prática dos exercícios ou mero entretenimento, e sim o despertar de um sentimento de unidade e o reforço da identidade dos alemães. Os festivais de ginástica que reuniam as entidades associadas da Federação eram intercalados por eventos menores, regionais ou locais, para os quais sempre acorria um público considerável, sobretudo indivíduos ligados ao grupo étnico alemão. As competições esportivas, em qualquer um destes eventos, eram acompanhadas por cerimônias de abertura, com desfile de bandeiras das sociedades participantes e entoação de hinos próprios à atividade da ginástica alem㠗 tudo, evidentemente, falado, cantado, ditado e relatado em língua alemã.

Quando Georg Black instalou-se em Porto Alegre, em 1902, tornou-se membro da Federação Alemã de Ginástica do Rio Grande do Sul, logo depois de ingressar na Turnerbund. Por ser uma grande referência e ter destaque no campo esportivo, tornou-se a "alma da entidade", colaborando na preservação da memória alemã através do cultivo da prática da ginástica e na promoção dos Festivais de Ginástica. A partir da III Allgemeine Turnfest (III Festival de Ginástica Geral), foram introduzidas provas de atletismo no conjunto da competição. Depois de 1907, quando ocorreu a V Allgemeine Turnfest (V Festival de Ginástica Geral) a Federação só conseguira se organizar para a realização deste evento sete anos depois, mas apesar da intenção de realização, o evento não se sucedeu e as razões para tal não foram localizadas nas fontes consultadas.

Como não ocorreu o VI Allgemeine Turnfest (VI Festival de Ginástica Geral) em Porto Alegre, no ano de 1913, Georg Black viajou para a Alemanha a fim de participar do 12º Deutsches Turnenfest (12º Festival de Ginástica Alemã), fato este ilustrado através de uma imagem encontrada no acervo da SOGIPA, na qual ele aparece desfilando na abertura do evento com a bandeira da Turnerbund que continha as mesmas cores da bandeira alemã e estampava o símbolo dos quatro "efes"3 3 Os quatro "efes" significavam: frish (saudável), Fromm (devoto), froelinch (alegre), frei (livre) ( MAZO; GAYA, 2006). . Na Alemanha, os festivais já ocorriam havia muito tempo e com intervalos menores entre os eventos (TESCHE, 1996).

Em Porto Alegre, os imigrantes alemães e seus descendentes esperaram mais de uma década para a retomada dos descontinuados festivais. Durante a I Guerra Mundial (1914-1918), as sociedades alemãs foram impedidas de promover manifestações e práticas culturais, que afirmassem sua identidade. Mesmo após o final da guerra, a hostilidade em relação às sociedades e clubes alemães foi evidenciada na comunidade porto-alegrense. Este período foi marcado pelo retraimento das sociedades e associações alemãs, que interromperam inclusive o oferecimento de alguns esportes e competições esportivas (MAZO, 2003).

Somente no princípio da década de 1920, que as sociedades de ginástica retomaram algumas práticas e começaram a incrementar suas manifestações culturais. Finalmente em abril de 1921, ocorreu a VI Allgemeine Turnfest (VI Festival de Ginástica Geral). Georg Black, que atuava diretamente na organização desses eventos e também como professor responsável pela ginástica avaliou que tanto a apresentação técnica de exercícios individuais como o desempenho dos juízes no julgamento dos ginastas estava deixando a desejar. É provável que a desaceleração da prática da ginástica alemã nas sociedades no período anterior tenha prejudicado o desempenho dos atletas e juízes, conforme percebido por Georg Black. A partir de então, passou a oferecer mais cursos de orientação teórica e aperfeiçoamento utilizando Deutsche Turn-Zeitung (jornal de ginástica alemão) para divulgar o conhecimento teórico (WIESER e LEITE, 2005).

Em 1923, Georg Black novamente foi para a Alemanha a fim de fazer uma atualização de seus conhecimentos e buscar subsídios para a realização da festa comemorativa do centenário da imigração alemã no Brasil (1824-1924), que ocorreria no ano seguinte. As festividades do ano do centenário foram marcadas pela participação das mulheres pela primeira vez nas competições de atletismo. Além disso, impulsionaram a fundação de novas sociedades de ginástica no Rio Grande do Sul a partir de 1925 (WIESER, 1990; MAZO, 2003). De acordo com o Festischrift (álbum comemorativo), a sétima edição do Allgemeine Turnfest (VII Festival de Ginástica Geral) realizada em 1929 contou com a participação das novas sociedades.

Os festivais de ginástica que no princípio dos anos de 1930 já estavam enfraquecidos foram, acentuadamente, abalados no Estado Novo (1937-1945). A ginástica alemã, propulsora do associativismo esportivo na cidade de Porto Alegre, dava lugar a uma diversificação de práticas corporais e esportivas de significativas proporções. Esportes de tradições diferentes da alemã, assim como correntes ginásticas passaram a ganhar destaque na paisagem regional e, na mesma proporção, a conquistar a preferência da população, inclusive dos próprios teuto-brasileiros4 4 Ver: SOARES, C. Educação Física: raízes européias e Brasil. São Paulo: Autores Associados, 1994; SOARES, C. (org.) Corpo e história. São Paulo: Autores Associados, 2001; GOELLNER, S. O Método Francês e a educação física no Brasil: da caserna à escola. Dissertação (Mestrado Educação Física). UFRGS. 1992. .

De acordo com Daudt (1952, p. 13), Georg Black considerava-se um brasileiro com sangue alemão: ele "tem filhos e netos brasileiros e se considera brasileiro de fato, aliás, todos seus atos tem base numa demonstração de brasilidade à toda prova". Entretanto, como muitos imigrantes vindos da Alemanha, procurou meios de fomentar a cultura da sua pátria de origem que, refletiu-se, na maneira com que Black trabalhava com os esportes e a educação física nas escolas.

A contratação de Georg Black foi inicialmente para trabalhar com o turnen. No entanto, segundo Wieser (2005), Black apresenta-se como um grande incentivador da prática esportiva e tinha uma postura aberta em relação a qualquer tipo de prática corporal. Tal trajetória, somada à sua experiência com outros esportes na Alemanha, também contribuiu para a introdução de outras práticas esportivas em Porto Alegre, as quais eram identificadas como "esportes de alemães", pois foram incentivadas nos clubes que reuniam essa comunidade. Alguns exemplos dessas práticas são o punhobol, a corrida de revezamento de bastão e o tamborimbol (jogo da peteca com tamborim) (WIESER e LEITE, 2005). Porém, seus esforços não impediram que práticas esportivas originárias de outras nações ganhassem espaço dentro da sociedade brasileira; e ao invés de impedir sua propagação, teve igual influência nestes esportes.

Georg Black: uma liderança esportiva

As contribuições de Georg Black para o cenário esportivo do Rio Grande do Sul foram evidenciadas em muitos esportes: ginástica para homens e mulheres (ginástica feminina), futebol, atletismo, ciclismo, esgrima, natação e punhobol. O punhobol era uma prática esportiva muito identificada com os imigrantes alemães. Tanto que foi apresentada por Georg Black após a aula de ginástica para homens na Turnerbund em 1906. Inclusive, segundo a publicação mensal do Turnerbund (n. 5, maio de 1935), essa prática era novidade no Brasil e a sociedade de ginástica foi pioneira neste esporte. No entanto, há controvérsias sobre qual clube realizou a primeira apresentação de punhobol no país.

A Turnerbund não possuía um campo próprio para os jogos de punhobol e nem mesmo um grande espaço para o desenvolvimento das práticas esportivas, em 1909. Mas, pela iniciativa do presidente Jacob Aloys Friedrichs e do professor Georg Black, a sociedade adquiriu um terreno do comerciante Carlos Daudt no arrabalde São João, que foi destinado à construção do spielplatz (campo de jogos).

A construção do campo possibilitou a formação de um time de futebol denominado Fussball Mannschaft Frisch-Auf (Equipe de Futebol Sempre Avante), cujo treinador era Georg Black e a maioria dos jogadores era praticante de ginástica (ginastas). Na época, o futebol estava se popularizando na cidade que possuía além do Grêmio Foot Ball Porto Alegrense e o Fussball Porto Alegre, ambos fundados em 1903, o Sport Club Internacional criado no ano de 1909. O Frisch-Auf começou a disputar campeonatos oficiais da cidade em 1912 e três anos depois, em 1915, já participava de jogos internacionais e sagrou-se campeão dos chamados "segundos-quadros", atual categoria dos juniores (HOFFMEISTER, 1987).

Georg Black realizou sua primeira viagem de retorno à Alemanha para visitar parentes, atualizar conhecimentos sobre os esportes e, especialmente, participar do Festival de Ginástica na cidade de Leipzig, em 1913, como citado anteriormente. No seu retorno, continuou a ministrar aulas de ginástica e de natação no basenho (tanque) do Turnerbund, que ficava na beira do Rio do Guaíba. Black ministrou também aulas de natação até 1916, quando as instalações do basenho, considerada a primeira piscina do Rio Grande do Sul foi destruída em um incêndio (HOFFMEISTER, 1987). Segundo Daudt (1952), era o melhor professor de natação que o basenho havia conhecido. De fato não havia muitos professores no período e talvez a vivência que Georg Black tinha em diversas práticas corporais e esportivas tenha sido um diferencial para seu reconhecimento destacado em relação aos outros professores.

Quando esteve na Alemanha, em 1913, visitando sua cidade natal, Munique, durante um passeio pelo Vale do Isar encontrou um grupo de escoteiros e, seu modo de conviver com a natureza o impressionou de tal forma, que quando retornou a cidade de Porto Alegre fundou um grupo com princípios e atividades semelhantes. No dia dois de outubro de 1913, foi criada, por Black, a primeira patrulha escoteira na Turnerbund, marcando o início do movimento escoteiro no Brasil (WIESER, 1990).

As principais bases do escotismo são o amor à pátria, a saúde física e mental e o respeito à natureza. Em um artigo escrito para o Deutschen Turnbläter (Folha de Ginástica Alemã) foram descritas orientações básicas do escotismo: trabalhar o corpo através da marcha, observação da natureza, instruções sobre saúde, apropriação voluntária do compromisso com a comunidade, fortalecimento da honra e luta contra o álcool e o alcoolismo e conformidade ao cargo profissional (WIESER, 1990). O despertar de Black para o escotismo, pode ter ocorrido em razão da proximidade desse movimento com o turnen. As atividades que ele ministrava aos escoteiros eram muito semelhantes àquelas da prática do turnen, sendo o cuidado com a natureza uma diferença básica entre estas. Por exemplo, os escoteiros auxiliavam tanto na organização de uma corrida de revezamento como também, eram mobilizados ao longo da prova.

As diretrizes sobre o escotismo podem ser observadas até os dias de hoje nos grupos escoteiros, especialmente no primeiro grupo criado no Brasil pela Turnerbund de Porto Alegre: Grupo Escoteiro Georg Black. Mesmo nos dias atuais exige-se dos escoteiros bom desempenho escolar, respeito à natureza e amor à pátria e ao próximo. Os princípios nacionalistas de honra e serviço à pátria denotam a origem do escotismo em movimentos militares, quando foi criado na Inglaterra. Podemos observar a perpetuação destes princípios, sobretudo, nos manuais escoteiros e na saudação feita pelos jovens escoteiros à bandeira nacional, no início e no fim das suas atividades.

Bastante atuante junto ao seu grupo de escoteiros, Georg Black acabou envolvido, também, com atividades teatrais. No dia 12 de dezembro de 1914, atuou na peça Die Haberer, apresentada no salão de teatro da Turnerbund (WIESER, 1990). Tal fato não causa estranheza, pois, Georg Black era um imigrante alemão e, como tal, fazia parte da sua formação, além da prática esportiva, o teatro e o canto. Mas, ao que parece, sua maior paixão era mesmo, o esporte.

Georg Black trouxe da Alemanha novos conhecimentos sobre a organização das provas de revezamento e de corridas de longa distância, contribuindo para difundir as modalidades do atletismo no Rio Grande do Sul. Por ocasião do 5º Gauwettturnens der Gauses I der Deutschen Turnschaft von Rio Grande do Sul (5º Encontro Regional de Ginástica da Região I da Associação de Ginástica do Rio Grande do Sul) realizado na cidade de São Leopoldo, em 1915, houve uma Wetteilbotenlauf (corrida de bastão) pela iniciativa de Georg Black. Conforme afirma Wieser (1990) esta competição marcou o início das provas atléticas de longa distância no Brasil. O professor Georg Black sempre dizia para seus alunos da Turnerbund praticarem a "ginástica popular", a saber, o atletismo (WIESER e LEITE, 2005).

Georg Black não era apenas um incentivador da prática do atletismo e de outros esportes, mas também, dedicava-se a escrever sobre o assunto. Em 1916, tornou-se redator chefe do Deutsche Turnbläter (Folha de Ginástica Alemã), produzido pela Turnerbund, e num dos primeiros textos abordou o modern Leichtatletik (atletismo leve moderno) (WIESER e LEITE, 2005). Além do conhecimento e de sua habilidade técnica em diferentes práticas esportivas, a posição que Georg Black alcançou na sociedade de ginástica permitiu que, através de suas publicações no Deutsche Turnbläter, a um só tempo, o mesmo difundisse o esporte entre seus alunos e atingisse um grande número de pessoas, principalmente da comunidade teuto-brasileira, no Rio Grande do Sul.

Em 1918, Georg Black fundou, juntamente com Ernst Graeff, o Departamento de Atletismo do Turnerbund e já no ano seguinte em 24 de fevereiro de 1919 realizou na Sociedade o I Campeonato Interclubes de Atletismo (SILVA, 1997). Os professores Georg Black e Ernest Graeff, além de coordenarem o departamento realizavam o treinamento dos atletas em diferentes locais, pois não havia uma pista apropriada para a prática do atletismo em Porto Alegre. Somente em 1920, na nova sede da Turnerbund, localizada no Parque São João, foi construída a primeira pista de atletismo da referida cidade.

Os Black: uma família de professores de educação física

Georg Black não apenas trabalhou em associações como a Turnerbund, a Sociedade de Ginástica Navegantes São João e a Associação Cristã de Moços, mas estendeu o ensino da ginástica e das práticas esportivas para diversas escolas de Porto Alegre e São Leopoldo. Na capital, lecionou nas seguintes escolas: Ginásio Júlio de Castilhos, Ginásio Bom Conselho, Ginásio Rosário, Instituto Parobé, Seminário Evangélico de Professores, Colégio Anchieta, Colégio Farroupilha, Colégio Santa Maria e Colégio São José. Este último, que posteriormente adotou o nome de Ginásio Roque Gonzáles, fez um acordo com a sociedade de ginástica para que seus alunos freqüentassem as suas sessões de ginástica, em 1907. Da mesma forma, os alunos do Colégio Farroupilha frequentavam a sociedade de ginástica para fazer as aulas de educação física. Conforme Daudt (1942, p. 13) "desta forma a educação física dos alunos de algumas escolas da cidade ficou intimamente ligada com as atividades ginásticas do Turnerbund". Já em São Leopoldo, Black foi professor nos colégios São José, no Seminário Protestante e no Sínodo Rio Grandense. Além dos clubes e escolas, Georg Black contribuiu para o desenvolvimento de atividades nas Praças de Recreio, também chamadas de Praças de Desporto e Praças de Educação Física em Porto Alegre.

Em razão da significativa atuação nas escolas, Wieser (1990) considera Georg Black o pioneiro da educação física escolar no Rio Grande do Sul. O trabalho de Georg Black em prol da educação física no Rio Grande do Sul foi também reconhecido por Franco; Silva; Schidrowitz (1940, p. 637), quando publicaram o álbum comemorativo do aniversário de fundação da cidade de Porto Alegre: "A educação física se desenvolveu graças a Associação Cristã de Moços e a Jorge Black" (o nome de Georg Black foi escrito em língua portuguesa – Jorge – pelos autores do livro datado de 1940, possivelmente devido à campanha de nacionalização).

Georg Black continuou atuando em várias atividades ligadas ao esporte e a educação física até 1937, quando precisou se afastar em razão de ter sofrido um acidente ferroviário, em São Leopoldo, que provocou a amputação de uma de suas pernas (DAUDT, 1942). Seu posto na Turnerbund, após 32 anos, foi ocupado pelo filho Karl Black, que já havia substituído seu pai no cargo de diretor técnico do setor de ginástica em 1929. Karl Black, além de tornar-se professor de ginástica da sociedade também ocupou o cargo de mestre-de-armas, ministrando aulas de esgrima e assumiu o atletismo feminino na Turnerbund no período de 1940 a 1942, quando a sociedade passou a denominar-se Sociedade Ginástica Porto Alegre, 1867 – SOGIPA. Foi um difícil período para as sociedades e associações alemãs em decorrência dos acontecimentos da II Guerra Mundial (1939-1945) e do Estado Novo no Brasil (1937-1945) (MAZO; GAYA, 2006). Em meio a essas turbulências Karl Black e sua irmã Philomena Black (conhecida por Minna), após concluírem o curso para formação de professores de ginástica em Munique "deram prosseguimento a obra do pai em Porto Alegre" (WIESER, 1990, p. 63). Georg Black faleceu no final da década de 1940, no dia 15 de maio de 1949 em Porto Alegre5 5 Ver: CUNHA, M.; MAZO, J.; Stigger, M. A organização das praças de Desporto/Educação Física na cidade de Porto Alegre (1920-1940). Licere, Belo Horizonte, v. 13, n. 1, mar/2010, p. 1-33 .

Karl Black casou-se com a também professora de educação física Margot Black e, ambos deram continuidade ao trabalho de Georg Black. Arno Black – filho de Karl e Margot –, também se tornou professor de Educação Física e atuou até sua aposentadoria enquanto professor na Escola Superior de Educação Física da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Destaca-se, que o Professor Arno Black foi o precursor da escola postural não apenas no Rio Grande do Sul, mas no Brasil. Cabe lembrar que seu avô Georg e seu pai Karl desenvolveram na Turnerbund no final da década de 1930 um trabalho de ginástica postural com princípios fisioterápicos, na época uma atividade considerada pioneira na área. Da mesma forma que o pai, os dois filhos de Arno Black, Thomas e Gabriela Black também concluíram o curso de Licenciatura em Educação Física na ESEF/UFRGS. Inclusive, Gabriela Black fez o curso de mestrado em Ciências do Movimento Humano na instituição e, posteriormente, concluiu sua graduação também no curso de fisioterapia (BLACK, 2009).

A presença de tantos sobrenomes "Black" na educação física e nos esportes em Porto Alegre confirma que várias gerações de uma mesma família atuaram de forma mais ou menos efetiva para a consolidação da educação física no Rio Grande do Sul.

Considerações Finais

Ao investigar a trajetória de Georg Black, desde sua chegada em Porto Alegre, passando por suas principais contribuições no âmbito do esporte e da educação física, podemos evidenciar que este imigrante alemão se inseriu de forma ampla nesses domínios, contribuindo para a apropriação e difusão de práticas esportivas diversificadas e, particularmente, do método ginástico alemão na cidade de Porto Alegre. Os apontamentos apresentados revelam que Georg Black também deixou um legado no que diz respeito às sociabilidades urbanas, não apenas na capital do Estado, mas também em outras localidades.

Na época da chegada de Georg Black ao Rio Grande do Sul, a Alemanha havia passado por períodos de guerra e a população sofria com o empobrecimento e falta de empregos. Os grupos de imigrantes eram, na verdade, pessoas sem amparo que buscavam uma saída para sua situação financeira, e que viram nas propagandas de esperanças para uma ascensão econômica. No contexto da guerra foi que surgiu a ginástica de Jahn (Turnen), cuja filosofia era extremamente patriótica, visando preparar o maior número de homens para o combate. Esta concepção de ginástica norteou a atuação de Georg Black na Turnerbund e, posteriormente, na Federação de Ginástica do Rio Grande do Sul.

Georg Black estendeu sua liderança para além da Turnerbund, quando se tornou professor de ginástica alemã nas escolas de Porto Alegre e em outras cidades como Novo Hamburgo e São Leopoldo, nas quais havia a presença expressiva de imigrantes alemães e seus descendentes. Também contribuiu com outras associações esportivas de Porto Alegre, engajando-se em competições e colaborando na promoção de práticas corporais e esportivas. A análise das fontes consultadas revela que ele foi responsável pela difusão da ginástica alemã, e de práticas esportivas como a esgrima, atletismo, punhobol e futebol, no estado Sul-Rio-Grandense. Ainda fundou o primeiro grupo de escoteiros do Brasil em 1913, no qual sempre estimulou a prática de exercícios físicos.

Por fim, cabe destacar que há poucos registros sobre a atuação de Georg Black. É possível que a documentação tenha sido extraviada, queimada ou eliminada pelos próprios imigrantes alemães, para não se comprometerem nos períodos, especialmente, nas I e II guerras mundiais e no Estado Novo brasileiro, quando foram pressionados e hostilizados. Muitas associações teuto-brasileiras tiveram seus livros, revistas, atas, entre outros documentos confiscados pelo Estado. Outra dificuldade a ser destacada na coleta de fontes documentais diz respeito à obtenção de fontes orais. Percebeu-se forte resistência dos familiares a gravação de depoimentos orais, especialmente, por parte das pessoas idosas. Isto se explica pelo fato de que havia um monitoramento da fala dos imigrantes e seus descendentes na fase de nacionalização do país, quando foi proibido o uso do idioma alemão e seus dialetos. Apesar disso, foi possível registrar as contribuições de Georg Black para o esporte e a educação física no Rio Grande do Sul, e mostrar porque é reconhecido pelo título de "Pai da Educação Física no Rio Grande do Sul".

  • Endereço:
    Janice Zarpellon Mazo
    Escola de Educação Física - UFRGS
    Rua Felizardo, 750 Jd. Botânico
    Porto Alegre RS Brasil
    90690-200
    e-mail:
  • Recebido em: 22 de setembro de 2009.

    Aceito em: 28 de junho de 2010.

  • 1
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  • 2
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  • 3
    Os quatro "efes" significavam: frish (saudável), Fromm (devoto), froelinch (alegre), frei (livre) (
    MAZO; GAYA, 2006).
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    Endereço: Janice Zarpellon Mazo Escola de Educação Física - UFRGS Rua Felizardo, 750 Jd. Botânico Porto Alegre RS Brasil 90690-200 e-mail: janmazo@terra.com.br 1 Sobre o punhobol, consultar: OLIVEIRA, P. A imigração alemã e a introdução do punhobol no Rio Grande do Sul. Dissertação (Mestrado em Ciência do Movimento Humano. UFSM, 1987; JUSTUS, F.; SPISILA, F.; MENEGHETTI, J.; MENDONÇA, J.; LINDNER, E. A trajetória do punhobol no sul do Brasil: da inserção ao declínio. Revista virtual EF Artigos. Vol. 02, n. 18. Natal/RN, janeiro, 2005; MAZO, Janice. Punhobol no Rio Grande do Sul. In: MAZO, J.; REPPOLD, A. Atlas do Esporte no Rio Grande do Sul: atlas do esporte, educação física e atividades de saúde e lazer. Porto Alegre: CREF2/RS, 2005. 2 Ver: SILVA, H. Entre o Amor ao Brasil e ao Modo de Ser Alemão: a História de uma Liderança Étnica (1868-1950). São Leopoldo: Oikos, 2006 3 Os quatro "efes" significavam: frish (saudável), Fromm (devoto), froelinch (alegre), frei (livre) ( MAZO; GAYA, 2006). 4 Ver: SOARES, C. Educação Física: raízes européias e Brasil. São Paulo: Autores Associados, 1994; SOARES, C. (org.) Corpo e história. São Paulo: Autores Associados, 2001; GOELLNER, S. O Método Francês e a educação física no Brasil: da caserna à escola. Dissertação (Mestrado Educação Física). UFRGS. 1992. 5 Ver: CUNHA, M.; MAZO, J.; Stigger, M. A organização das praças de Desporto/Educação Física na cidade de Porto Alegre (1920-1940). Licere, Belo Horizonte, v. 13, n. 1, mar/2010, p. 1-33

    Datas de Publicação

    • Publicação nesta coleção
      12 Maio 2011
    • Data do Fascículo
      Dez 2010

    Histórico

    • Aceito
      28 Jun 2010
    • Recebido
      22 Set 2009
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