Open-access CONHECIMENTO SOBRE IDENTIDADE PROFISSIONAL DOCENTE NA EDUCAÇÃO FÍSICA

KNOWLEDGE ABOUT TEACHER PROFESSIONAL IDENTITY IN PHYSICAL EDUCATION

CONOCIMIENTO SOBRE IDENTIDAD PROFESIONAL DEL DOCENTE EN EDUCACIÓN FÍSICA

Resumo

Objetivou-se investigar o conhecimento produzido sobre a Identidade Profissional de professores de Educação Física (EF). Foi realizada uma revisão integrativa nas bases de dados entre 2015 a 2021, onde obtivemos vinte artigos: onze nacionais e nove internacionais. Verificamos que a identidade profissional é construída na temporalidade e nos espaços de vida para melhor compreender as múltiplas identidades possíveis encontradas na trajetória profissional. Embora as vivências anteriores à formação inicial tenham sido consideradas, foi possível observar que na formação inicial a identidade profissional se estabelece especialmente com o aprofundamento das vivências nos estágios. Além disso, a consolidação deste processo identitário permanece no campo profissional, individualmente e coletivamente, desde o ingresso na carreira e na formação continuada, porém, é um processo inacabado e em constante transformação.

Palavras-chave:
Professor de Educação Física; Identidade Profissional; Revisão integrativa.

Abstract

The objective was to investigate the production of knowledge about the Professional Identity of Physical Education (PE) teachers. An integrative review was carried out in the databases between 2015 and 2021, where we obtained twenty articles: eleven national and nine international. We verified that the professional identity is built in temporality and in the spaces of life to better understand the multiple possible identities found in the professional trajectory. Although experiences prior to initial training have been considered, it was possible to observe that in initial training, professional identity is established especially with the deepening of experiences in internships. In addition, the consolidation of this identity process remains in the professional field, individually and collectively, from entry into the career and continuing education, however, it is an unfinished and constantly changing process.

Keywords:
Faculty; Physical Education; Professional identity; Integrative review.

Resumen

El objetivo de la investigación fue investigar la producción del conocimiento sobre la Identidad Profesional de los docentes de Educación Física (EF). Se realizó una revisión integradora en las bases de datos entre 2015 y 2021, donde se obtuvieron veinte artículos: once nacionales y nueve internacionales. Se verificó que la identidad profesional se construye en la temporalidad y en los espacios de la vida para comprender mejor las múltiples identidades posibles encontradas en la trayectoria profesional. Si bien se han considerado experiencias previas a la formación inicial, se pudo observar que en la formación inicial se establece la identidad profesional especialmente con la profundización de experiencias en pasantías. Además, la consolidación de este proceso identitario se mantiene en el ámbito profesional, individual y colectivamente, desde el ingreso a la carrera y la formación continua, sin embargo, es un proceso inconcluso y en constante cambio.

Palabras clave:
Docentes; Educación física; Identidad profesional; Revisión integradora.

1 INTRODUÇÃO

É chato chegar a um objetivo num instante

Eu quero viver nessa metamorfose ambulante

Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo

Raul Santos Seixas

Nenhuma identidade se mantém igual ao que foi num dia anterior.

O que se apresenta hoje já é resultado de uma identidade em transformação, como o cantor expressa na obra: “uma metamorfose ambulante”. Dubar (2006) faz essa afirmação acrescentando que a identidade é “contingente”, ou seja, seria a identidade exposta à casualidade, ambulante, com a constatação segundo o autor: a identidade é um pertencimento comum, reflexo da diferença de cada indivíduo.

Essa junção da diferença e do pertencimento comum faz parte de uma operação da própria linguagem, sendo a diferença a constituição da singularidade de alguém ou determinada coisa, já a identidade como pertencimento comum está relacionada a uma categoria de recursos, todos diferentes entre si, porém pertencentes a “um mesmo outro”, logo essa relação entre as duas operações originam o “paradoxo da identidade: aquilo que existe de único e aquilo que é partilhado” (DUBAR, 2006, p. 9).

A identidade pode ser compreendida como um produto de comportamentos, atitudes e características assimiladas por indivíduos por meio de atribuições assumidas em contextos diversos, entre amigos, família, trabalho, entre outros núcleos (PIRES; FARIAS; BATISTA, 2019; DUBAR, 2006). Nesse sentido, Gomes (2018) comenta sob o ponto de vista da sociologia, que a identidade tem simultaneamente duas dimensões: individual e coletiva, assim a define como características pelas quais alguém ou algum grupo se reconhecem. Ademais, a(s) identidade(s) se constituem individualmente, as ideias, concepções e representações que construímos sobre nós mesmos; e coletivamente, isto é, os papéis sociais que desempenhamos em cada grupo do qual pertencemos: familiar, profissional, escolar, religioso e outros (GOMES, 2018).

Mesmo a identidade sendo conceitualmente polimórfica e em constante transformação (SATO; SILVA; NASSAR, 2021), sua construção requer temporalidade. Nóvoa (2009) traz essa reflexão para a profissão docente: é necessário refazer as identidades, considerar mudanças e incorporar inovações. O autor afirma que é no tempo e nas relações sociais que se constituem as identidades. Individual e coletiva, a identidade docente se estabelece no curso da trajetória profissional, vindo desde situações que envolveram a escolha da profissão, passando pela formação inicial, por diversos ambientes institucionais em que se amplifica a profissão, conferindo-a dimensões no tempo e espaço (PIRES et al., 2017; LOPES, 2007; DUBAR, 2006; VEIGA, 2006).

Essa constituição individual/coletiva ocorre no curso do tempo assim como a identidade profissional, logo no cerne das pesquisas científicas sobre identidade observa-se a presença constante de estudos voltados à identidade docente (PIRES et al., 2017; NÓVOA, 2009; MOITA, 2007).

Há que se considerar a estreita relação entre a formação e as interações que se configuram na vida dos envolvidos. Sob essa consideração, a formação docente se constitui no curso das relações de modo que, a identitária profissional, se alimenta dos mecanismos que se desenham nas transformações da atuação com o no mundo do trabalho. Ora, os diferentes mecanismos que permeiam a profissão - o ser professor - da precarização do suporte dado ao ensino, baixos salários e desprestígio social à formação inicial ditada pelo produtivismo e pela monetarização do ensino superior, tensionam a identidade profissional docente.

A carreira docente, que cursa sob a dinâmica das tensões supracitadas, pode ser compreendida sob a ótica das escolhas pessoais, constituições ocasionais e políticas, que se estruturam sob marcos regulatórios e demandas de um mercado perverso que consome um dos seus bens maiores, a educação. Nesse quadro de proletarização da profissão de professor, a Educação Física se fragiliza, afirma-se e se compromete com a docência. Com os desmandos governamentais vividos, com as “novidades curriculares” que se apresentam cotidianamente nos diferentes níveis de ensino, da educação básica à formação inicial, traçar perspectivas para a formação profissional e buscar discutir a identidade profissional em Educação Física, nos coloca num terreno limoso que é a profissionalização docente e suas interfaces com os contextos das trajetórias individuais (saberes construídos, as crenças, os valores e interações) e políticas.

Contudo, revisões sistemáticas podem contribuir para direcionamentos temáticos futuros e indicar possíveis lacunas presentes no campo de investigação da identidade (SATO; SILVA; NASSAR, 2021).

Gomes et al. (2013) evidenciam essa questão ao investigar sistematicamente estudos sobre a identidade profissional docente, entre 2001 e 2012, encontrando 42 artigos. Apontam que o desenvolvimento profissional docente é ponto crucial que perpassa a (re)construção da identidade profissional, sendo sua composição precoce, tendo características adquiridas por meio de crenças e experiências antecedentes à formação inicial de professores/as, que permanecem durante a formação e na trajetória profissional. Nessa investigação destacam o crescimento dos estudos sobre identidade profissional docente, entretanto os estudos relacionados à área da EF ainda são escassos, pois apenas seis produções foram encontradas (GOMES et al., 2013).

Diante desse cenário, Pires et al. (2017) trazem uma pesquisa voltada especificamente para identidade profissional de professores/as de EF, ampliando a revisão sistemática para outras bases de dados, entre 2004 e 2014, obtendo 16 artigos. Nessa revisão destacam que as inspirações teóricas que embasaram as investigações estão alicerçadas em literatura internacional, constituindo uma matriz conceitual que fortalece o arcabouço teórico das discussões sobre o tema, comumente observados na produção nacional e internacional.

Igualmente apontam a necessidade de ampliação das pesquisas para qualificação da docência, considerando a complexidade da constituição da identidade, sendo ela em constante reconstrução e inacabada. Enfatizam que essa temática é frequentemente abordada em estudos de caráter legal, histórico ou pedagógico, sendo presente nos debates em torno da formação docente, com base nas diretrizes curriculares (PIRES et al., 2017).

Considerando os aspectos supracitados, esta pesquisa visa analisar sistematicamente a produção do conhecimento sobre identidade profissional de professores de EF, por meio de levantamento de artigos publicados em periódicos indexados em bases de dados nacionais e internacionais, compreendidos entre 2015 e 2021.

2 METODOLOGIA

A questão norteadora deste estudo envolveu a produção de conhecimento sobre a identidade profissional de professores de EF nos últimos sete anos. A revisão integrativa preconizada por Whittemore e Knafl (2005), traz uma possibilidade investigativa de sistematizar buscas de estudos qualitativos, podendo agregar informações teóricas ou empíricas para variados fins, conceituais ou metodológicos.

Esse tipo de revisão sistemática tem por potencial traçar uma análise sobre conhecimentos já construídos, sínteses de diversos estudos, integrando assuntos, ideias e assim gerando novas reflexões e teorias (WHITTEMORE; KNAFL, 2005). Seis momentos são estipulados para revisões integrativas: questão norteadora da pesquisa e objetivo, critérios para inclusão/exclusão das produções, busca e seleção nas bases de dados, análise sistemática das informações, discussão e interpretação dos resultados elaborando uma síntese da revisão (MOREIRA, 2014; BOTELHO, CUNHA, MACEDO, 2011).

Na busca e seleção, como os critérios de inclusão na pesquisa, optamos por selecionar artigos completos, publicados em periódicos com classificação de área na EF, que apresentassem no título, resumo ou nas palavras-chave os termos definidos para a pesquisa: Educação Física (Physical Education), Professores de Educação Física (Physical Education Teacher), Identidade Profissional (Professional Identity) e Identidade Profissional do Professor de Educação Física (Professional Identity of the Physical Education Teacher), compondo assim a estratégia de pesquisa com a utilização dos operadores booleanos “AND” e “OR” (“Physical Education” OR “Physical Education Teacher”) AND (“Professional Identity”). Destacamos que a escolha dos termos foi pautada nos estudos desenvolvidos por Gomes et al. (2013) e Pires et al. (2017), como também em consultas na ferramenta Thesaurus da base Education Resources Information Center (ERIC).

Para os critérios de exclusão se obedeceu ao descarte de resenhas de livros, projetos, revisões sistemáticas, artigos científicos em outros idiomas que não fossem em português, inglês ou espanhol, dissertações, teses, ensaios, resumos, posters, banners, painéis e anais de congressos.

A revisão sistemática de Gomes et al. (2013) recolheu informações em quatro bases de dados, com delimitação da estratégia de busca mais abrangente, focada não somente na identidade profissional de professores de EF; diferentemente da revisão trazida por Pires et al. (2017), que traçou uma estratégia de busca focada na identidade profissional de professores de EF, ampliando a busca para cinco bases indexadas.

Foi elaborada uma estratégia visando ampliar as buscas por produções relacionadas ao tema, e a pesquisa foi realizada nas seguintes bases: SPORTDiscus (EBSCO), SciELO, LILACS, Web Of Science (WOS), SCOPUS, Periódicos da CAPES, Physical Education Index (ProQuest), ERIC e REDIB; com buscas de publicações entre 2015 e 2021.

Os itens de análise após os critérios de inclusão e exclusão foram inspirados nas revisões sistemáticas anteriores. Compõem esse estudo os itens: autor, título, revista, país, ano, participantes, instrumentos, objetivos das pesquisas, temporalidade da formação e principais resultados. A revisão integrativa foi desenvolvida no ano de 2021, entre os meses de outubro e novembro.

3 RESULTADOS

A partir das estratégias de pesquisa, foram encontrados: 39 artigos no SPORTDiscus (EBSCO), 8 no SciELO, 16 no LILACS, 45 no Web of Science, 33 no SCOPUS, 280 no Periódicos da CAPES, 30 no Physical Education Index (ProQuest), 107 no ERIC e 13 na REDIB, totalizando 571 artigos.

Reconhecendo temas que não atendessem aos critérios e de retirar estudos duplicados entre as bases, a seleção de artigos para análise deu-se após a leitura dos títulos, resumos e palavras-chave; além disso utilizamos para ilustrar essas etapas a Recomendação PRISMA - Principais Itens para Relatar Revisões sistemáticas e Meta-análises (PRINCIPAIS itens..., 2015), conforme a Figura 1.

Figura 1
Fluxo da informação com as diferentes fases

4 DISCUSSÃO E ANÁLISE

Após a seleção dos critérios estabelecidos, permaneceram 20 produções para a próxima etapa da revisão. A Tabela 1 demonstra a localização dos estudos nas diferentes bases e nacionalidades. Dos 20 artigos encontrados, sendo 11 nacionais e 9 internacionais, destacam-se nas bases consultadas maior produção no Brasil (11), seguido pelo Reino Unido (4), Venezuela (2), Espanha (1), Portugal (1) e Argentina (1).

Tabela 1
Artigos selecionados

Importante pontuar que as revisões de Gomes et al. (2013) e Pires et al. (2017) obtiveram respectivamente 6 e 16 produções relacionadas à EF, em um corte temporal maior do que a presente revisão, que em tempo menor de busca (7 anos) obteve 20 produções, considerando também um número maior de bases de dados consultadas (9 bases). Tal diferença aponta para maior expressão desse tema nos últimos anos, com destaque para investigações nacionais.

Conforme a Tabela 1, das 09 bases consultadas inicialmente nesta revisão, 08 bases apresentaram produções relacionadas ao tema. Em paralelo às revisões anteriores, as bases SPORTDiscus (EBSCO), SciELO, LILACS, SCOPUS, Web Of Science, figuram entre as bases consultadas nessas revisões; as bases acrescentadas por este presente estudo (Portal CAPES e REDIB) trouxeram outras 08 produções. Logo, é possível afirmar que outras bases de dados agregam estudos relacionados à identidade na EF.

Com as informações obtidas, foi possível identificar os/as autores/as, a quantidade de produções, a instituição de ensino e o respectivo país no período analisado, que estão apontados na Tabela 2.

Tabela 2
Autores e produção no período

Como mencionado, a produção nacional foi maior, em destaque para as universidades públicas nos estados do Paraná e São Paulo, seguidos por uma universidade particular em Santa Catarina, apontando para uma regionalidade nas produções brasileiras nesta temática, aglutinadas na região sul/sudeste. Particularmente os estudos nacionais são produzidos por autores/as de programas predominantemente vinculados à educação. No âmbito internacional, Portugal aparece com maior número de produções, concentradas na Universidade do Porto, tais estudos foram produzidos por autores/as alocados em departamentos ligados à área do desporto.

Ainda, em consonância com Pires et al. (2017), observamos em nossa revisão que a literatura consultada nesses artigos se apoia em obras internacionais, com contribuições teóricas da professora Amélia Lopes da Universidade do Porto, e do sociólogo francês Claude Dubar, sendo que este último figura em 17 dos 20 estudos analisados. Vale considerar que esses autores, em seus estudos, dimensionam as interfaces da identidade profissional docente sob a ótica da dinâmica contextual, que perpassa pela permissividade de uma transformação interativa que está intricada na construção social. A obra “Socialização: construção das identidades sociais e profissionais”, de Claude Dubar está entre os textos mais citados, em diferentes edições e idiomas, configurando assim um referencial importante e atual para as reflexões acerca da identidade profissional na EF, em estudos nacionais e internacionais. No quadro 1 trazemos mais informações desses artigos selecionados para revisão:

Quadro 1
Artigos Selecionados

O Gráfico 1 apresenta a produção de artigos. Nos anos de 2015 e 2021 não foram identificados nenhum estudo, em 2016 foram encontrados três artigos; em 2017 apareceram cinco artigos; em 2018 foram quatro artigos; em 2019 foram localizados três artigos e, já em 2020, foram obtidos cinco artigos.

Gráfico 1
Produção de artigos

O Quadro 2 traz a segunda parte da análise, quando observamos os participantes dessas produções, assim como Gomes et al. (2013) e Pires et al. (2017), há diversidade de perfis profissionais: professores universitários; professores formadores e colaboradores; de programas de estágios; de residência pedagógica; coordenadores e supervisores de cursos de graduação; professores de educação infantil; professores de ensino fundamental; professores de ensino técnico federal; graduandos e graduados de licenciatura/ bacharelado em EF, dentre esses graduados foi observado a presença de técnicos esportivos, na modalidade basquetebol.

Quadro 2
Artigos Selecionados (2ª Parte)

Nassar e Moreira (2019) afirmam que a EF é uma área que dispõe de horizontes profissionais diversificados para atuação, o que torna importante que esses/as professores/as partindo das identidades assumidas, apresentem as alternativas possíveis do componente curricular e sua relevância nos contextos vivenciados.

A presença desses profissionais do esporte, especificamente do basquetebol, nos estudos de Moletta et al. (2019) e Rodrigues; Paes e Souza Neto (2018), revelam uma identidade profissional que ainda não figurava nas revisões sistemáticas anteriores. A presente revisão encontrou as investigações supracitadas que analisam o desenvolvimento das aprendizagens de treinadores e suas constituições identitárias.

Com relação aos instrumentos utilizados, identificaram-se entrevistas semiestruturadas, grupo focal, observação, questionários, diário de campo, oficinas, narrativas biográficas, análise documental e histórias de vida. Contudo, as entrevistas semiestruturadas destacam-se como um instrumento preferido dos autores/as, que pesquisam a temática identidade profissional docente, o que já apontado por Pires et al. (2017) e Gomes et al. (2013).

As entrevistas são instrumentos essenciais quando se objetiva mapear práticas, crenças, valores e sistemas, categorizando universos sociais específicos, delimitados ou não, em que os conflitos e contradições ainda necessitam ser explicitados. Permite ao pesquisador desenvolver uma espécie de investigação em profundidade, coletando indícios dos modos como os sujeitos se percebem e significam suas realidades, trazendo informações consistentes que favoreçam descrever e compreender a lógica que preside as relações humanas, o que, dificilmente, não é obtido com outros instrumentos (DUARTE, 2004). Dos vinte artigos analisados, nove apresentaram como instrumento as entrevistas semiestruturadas: Castro, Gunther (2015); Nassar, Moreira (2019); Amaral-da-Cunha et al. (2020); Jomãa et al. (2018); Borim et al. (2020); Conceição, Molina Neto (2017); Correa Júnior, Souza Neto, Iza (2017); Amaral-da-Cunha et al. (2016); Gonzalez-Calvo et al. (2021).

No que se refere aos objetivos das produções, percebeu-se pelos verbos (constituir, construir e reconstruir), a intencionalidade de ações dinâmicas envolvendo a identidade profissional docente, pois doze estudos apresentaram um movimento de constituição contínua, que para Dubar (2006) é mutável e influenciada por premissas internas e externas ao indivíduo, e assume o confronto entre o “eu” e o “outro”. Outros estudos tiveram objetivos pautados na socialização, na identificação com a profissão, na identidade profissional frente a novos desafios e nos processos de aprendizagens.

As experiências advindas das histórias de vida de estudantes (identidade para si), as práticas pedagógicas dos professores/as do curso de formação inicial (identidade para o “outro”) e o desempenho do ofício (identidade visada) podem estar relacionadas com a constituição da identidade docente (DUBAR, 2006).

A identidade docente se dá nos variados espaços e tempos vividos pelos/as professores/as de EF. Para caracterizar essa temporalidade nas pesquisas, Pires et al. (2017) trazem resultados sobre identidade docente em três momentos: na constituição da identidade nas experiências anteriores à formação (um artigo); na formação inicial (nove artigos) e na inserção profissional após o término da graduação, ou seja, na formação continuada (seis artigos).

Na presente revisão, obtivemos três artigos que versavam sobre o tempo anterior à formação inicial, doze artigos a respeito da formação inicial e cinco artigos sobre a inserção profissional após o término da graduação (formação continuada). Esses resultados revelam que analisando um período menor de produção de conhecimento, houve maior número de publicações referentes a esses três momentos da identidade profissional de estudos que valorizam a identidade profissional na EF.

Três artigos focam o tempo anterior à formação inicial, de professores/as recém-egressos/as na licenciatura em EF - Castro; Gunther (2015), de professores da educação básica - Souza Neto; Iza; Silva (2017) e de alunos/as de licenciatura em EF - Gonzalez-Calvo et al. (2021).

Nessas produções, além de discussões sobre prática pedagógica e gestão escolar, observa-se destaque para os processos de autoformação durante o curso. Para eles/as, os cenários de vida são considerados como “andaimes” para a construção e socialização profissional, bem como as práticas de autoconhecimento (SOUZA; IZA; SILVA, 2017; CASTRO; GUNTHER, 2015).

As imagens traçadas pela docência vão se fixando desde a vivência estudantil, isto é, antes de se entenderem como professores, os estudantes já assumem a ideia da profissão advinda da escola. Estas representações, ainda introdutórias, são cruciais para determinar suas atitudes para o ensino, tanto de forma positiva como de forma negativa. No entanto, tais imagens são elementos concretos e não idealizados como os saberes (CHONG; LOW; GOH, 2011).

A imersão na docência, de acordo com Tardif e Raymond (2000), começa quando o professor ingressa nos primeiros anos da educação formal, ainda criança, cujas representações acompanham a trajetória vivida. Neste período os processos biográficos da identidade, de forma prioritária, ampliam o repertório de crenças, valores e saberes que são agregados pelos indivíduos. Esse repertório é absorvido como marcas definidas particularmente, e que ao serem solicitadas em outros espaços surgem como referências para combinações subjetivas (DUBAR, 1997; 2006).

Desta maneira, o tempo anterior à formação inicial se contextualiza em três eixos: as marcas incorporadas enquanto aluno/as, que trazem como característica registros biográficos positivos e negativos com professores/as da escola básica; as motivações e expectativas para o ingresso no curso superior estabelecidas em práticas sócio corporais/esportivas; e o uso dessas marcas em outros tempos vividos, considerando os registros das experiências anteriores à formação e durante a carreira docente (PIRES et al., 2017).

Outra pesquisa retrata que, influenciados/as pelas interações sucessivas no processo de socialização, os/as professores/as constroem sua identidade profissional valorizando as conexões humanas dentro dos ambientes vivenciados e reafirmam a necessidade de práticas reflexivas. As experiências e crenças anteriores influenciam o desenvolvimento da identidade docente profissional, como parte da formação inicial de professores/as em EF (GONZALEZ-CALVO et al., 2021).

A formação inicial pode ser designada como uma circunstância que se destaca no processo de construção da identidade profissional, pois, com os conhecimentos construídos, o/a professor/a estabelece relações, muda comportamentos e adquire as condições necessárias para o exercício da profissão (PIRES et al., 2019). Visto isso, não é possível pensar em uma formação acadêmica inicial, sem considerar os diversos cenários presentes na área da EF (NASSAR; MOREIRA, 2019).

Januário (2012) registra que a formação inicial consiste em vivências e competências próprias, observadas para o crescimento profissional e pessoal, assimilando retratos variados do próprio corpo docente, que refletem na sua própria atuação. Logo, as marcas e os registros da formação inicial se estabelecem, prioritariamente, nas ações experimentadas durante o curso (LOPES, 2007; DUBAR, 1997). Soma-se a isso as marcas da proposta curricular e pedagógica da formação inicial, nas quais os princípios políticos e filosóficos que fundamentam cada curso, estabelecem os atos de atribuição, referendados em um grupo de pertencimento (LOPES, 2007; DUBAR, 1997). Contudo, este tempo é marcado pelas transações objetivas, onde identidades atribuídas passam a ser assumidas num processo de conversões identitárias (DUBAR, 2012).

Dos doze artigos dentro da temporalidade formação inicial, cinco deles têm como participantes graduandos de EF: Vanzuita, Raitz, Garanhani, (2020); Pires, Farias, Batista, (2019); Vanzuita, Raitz, Garanhani, (2017a); Vanzuita et al. (2017b); Cardoso, Batista, Graça (2016a), que demonstram a articulação ou desarticulação entre os saberes da prática com os conhecimentos universitários, as crises identitárias, a identidade profissional plural e mutável, e a valorização da diversidade das experiências dos/as estagiários/as. Algumas recomendações foram suscitadas nas publicações, que estão expressas no estudo de Pires, Farias e Batista (2019):

[...] o desenvolvimento de ações nos cursos de formação inicial em Educação Física que favoreçam a imersão dos estudantes, futuros professores, nas escolas desde as fases iniciais. Além da ampliação das atribuições e tarefas do estágio para permitir a vivência e o reconhecimento dos atos profissionais, recomenda-se que as discussões nas disciplinas favoreçam a construção e a reconstrução de conceitos pautados na realidade didático-pedagógica dos professores e na cultura docente atual das escolas. (PIRES, FARIAS, BATISTA, 2019, p.8):

Três estudos discutem acerca da escola pública enfatizando que a EF é uma prática social: Conceição, Molina Neto (2017); Correa Júnior, Souza Neto, Iza (2017); Gonzalez-Calvo, Fernandez-Balboa (2018). São ressaltados que essa prática social tem relação com o significado que os sujeitos outorgam a ela. Gonzalez-Calvo, Fernandez-Balboa (2018) trazem que os conhecimentos, perseverança e (auto) reflexão podem moldar muitos fatores da identidade, embora, vocação docente e altos níveis de motivação sejam ingredientes importantes para o sucesso do ensino, que nem sempre são suficientes para superar as dificuldades que professores/as encontram na carreira.

Quatro estudos trazem professores considerados “experientes”: Amaral-da-Cunha et al. (2020); Cardoso, Batista, Graça (2016b); Borim et al. (2020); Amaral-da-Cunha et al. (2016), que reconhecem o novo papel docente enquanto tutor, compartilhando suas perspectivas da EF sem comprometer a autonomia dos seus tutorados. Comentam sobre a importância da diversidade de experiências, junto aos conhecimentos acadêmicos para a constituição da identidade profissional dos/as alunos/as.

Sato, Silva e Nassar (2021) relatam que os/as professores/as de EF têm buscado inserir os saberes adquiridos na formação inicial, aplicando na prática pedagógica mesmo diante de inúmeras dificuldades, mantendo assim a constituição de uma identidade docente após a conclusão da graduação. Logo, a identidade docente sofre influências ao longo da carreira em diversos aspectos vivenciados, nisso, a identidade já assume uma estruturação advinda da formação inicial e que mudanças são possíveis e aguardadas (MOREIRA; FERREIRA, 2012).

Nesse sentido, Borim et al. (2020) destacam a importância, de uma formação docente repleta de experiências, teorias e práticas, estabelecendo aproximações da universidade com a escola, enfatizando que essa proximidade proporciona conhecimentos a respeito da atuação docente em conexão com as intempéries do cotidiano escolar. Numa revisão integrativa recente, Meireles et al. (2021) evidenciam que as pesquisas voltadas para formação continuada de professores/as de EF, demonstram que as parcerias entre universidade e redes de ensino, com modelos formativos pautados em práticas reflexivas, trazem inovações curriculares e resultados expressivos para formação docente. Assim Conceição e Molina Neto (2017) recomendam que as formações não aconteçam em um sentido vertical de assimilação de conhecimento, mas que sejam na horizontalidade, compreendendo a ideia de construção de temas geradores, fundamentais para a cultura escolar.

Nessa perspectiva, obtivemos cinco artigos dentro da temporalidade da formação continuada - já no exercício da carreira, trazendo como participantes professoras da educação infantil e do ensino fundamental - Rossi, Hunger (2020); docentes universitários - Nassar, Moreira (2019) e Jomãa et al. (2018); treinadores de basquetebol com formação em EF - Moletta et al. (2019) e Rodrigues, Paes, Souza Neto (2018), que discutem a formação continuada como dimensão da profissão estreitamente ligada à constituição da identidade, pois possibilita acompanhar as rápidas mudanças sociais em curso e, assim, fortalecer/reconfigurar o reconhecimento social e profissional.

Como dimensão da profissão, é no ingresso da carreira docente que a identidade se manifesta num formato pré-definido pelo acordo de múltiplas identidades já vivenciadas, sendo necessário averiguar o tempo e os espaços desta formação profissional, onde marcas são agregadas e ressignificadas ao longo da carreira (PIRES et al., 2017). Observamos que Jomãa et al. (2018) traz essas marcas ligadas ao funcionamento singular do processo identitário, considerando o momento presente, os filtros pessoais, sua própria história, os vínculos teóricos estabelecidos e os elementos subjetivos experienciados.

Azevedo et al. (2010) destaca que os momentos de formação continuada favorecem a articulação de saberes, competências e práticas singulares da própria identidade docente, para que assim promovam formações que possibilitem ambientes de construção e ressignificação das práticas, reorganizando suas competências e produzindo novos conhecimentos. Nisso, fornecendo vivências tanto de concretização quanto de afirmação ou mesmo de frustração, no individual e coletivo e nas representações que constituem as formas identitárias do ser docente (GARCIA, 1999).

Rossi e Hunger (2020) refletem que as noções de pertencimento e identidade se transformaram atualmente em processos instáveis e transitórios, trazendo um desfecho que fragiliza as relações humanas. Visto que as mudanças de ordens sociais, econômicas e culturais atingem o cotidiano das pessoas, modificando substancialmente as relações com o outro, entre cidadão e o Estado, com as situações de trabalho, social etc.

Nisso, as autoras destacam a carência de oportunidades para fortalecer a coletividade docente e a noção de pertencimento a um grupo, porém, na atual conjuntura escolar, as formas de trabalho não favorecem situações para construir tal coletividade, que faz com que professores/as não sintam portadores/as de uma identidade coletiva, e realizem sua prática pedagógica de maneira individual (ROSSI; HUNGER, 2020). Assim, complementam:

[...] constituição da identidade docente no cenário contemporâneo é um processo dinâmico e em constante movimento, no qual os(as) professores(as) se defrontam com as mudanças sociais, as incertezas, a pluralidade de valores e a busca por assegurar ou construir novas formas de identificação na atualidade [...] as professoras reconhecem poucas experiências de formação continuada que tenham como objetivo gerar espaços de reflexão crítica em torno da docência, entretanto, essa dimensão da formação de professores(as) é um espaço propício para fortalecer os laços sociais e coletivos na docência, desde que se disponha a tal propósito (ROSSI; HUNGER, 2020, p. 333).

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Com essa revisão integrativa foram obtidas 20 produções, considerando também um número maior de bases consultadas, possibilitando afirmar que outras bases agregam estudos sobre identidade profissional na EF.

A produção nacional foi mais expressiva, principalmente nas universidades públicas, concentradas na região sul/sudeste e produzidas predominantemente por pesquisadores vinculados à educação. No exterior, Portugal aparece com maior produção, sendo os estudos portugueses ligados a programas voltados ao desporto. Houve uma diversidade de perfis entre os participantes, como a identidade de treinadores de basquetebol, que ainda não era presente nas revisões anteriores.

As entrevistas semiestruturadas foram os instrumentos mais utilizados. Os objetivos apresentaram dinâmicas voltadas para constituição contínua da identidade docente, na intenção por mudanças. Foi possível observar a presença de produções que discutiam a temporalidade das identidades, em momentos que consideravam a formação anterior à graduação, à formação inicial e durante a carreira profissional. Na perspectiva da formação continuada em EF, foi destaque a importância de espaços coletivos de formação, que fortaleçam a coletividade docente e a noção de pertencimento, para que se tenha indicativos de possíveis caminhos para as diferentes fases da temporalidade da identidade docente.

Sobre possíveis lacunas observadas com esse estudo, sinalizamos que apesar de termos encontrado diferentes loci e objetivos nas pesquisas, vimos que há preocupação com os modos de ser dos profissionais (ou futuros) de Educação Física. Isso nos leva considerar que a Educação Física continua sendo desafiada a mostrar qual é sua especificidade de atuação e contribuição. Os estudos parecem estar mais preocupados com isso do que com identidade profissional propriamente dita.

Ainda com essa revisão, podemos inferir que a maioria dos estudos analisados possuem um aporte teórico que dimensionam a identidade docente em Educação Física é multivariada pois se constitui em tempos e espaços particulares, individuais e coletivos. Embora tivéssemos uma perspectiva de que poderíamos até visualizar homogeneidade na identidade docente em Educação Física, ao compreendermos que a Educação Física possui na atualidade diferentes campos de atuação, há que se considerar heterogeneidade no entendimento das identidades do profissional docente.

  • FINANCIAMENTO
    O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (CAPES) - Código de Financiamento 001.
  • HOW TO REFERENCE
    SOUZA JÚNIOR, Orlando Marreiro de; JANUARIO, Paulo Clepard Silva; MIRANDA, Maria Luiza de Jesus; RODRIGUES, Graciele Massoli. Conhecimento produzido sobre identidade profissional docente na Educação Física. Movimento, v. 29, p. e29028, jan./dez. 2023. DOI: https://doi.org/10.22456/1982-8918.120687

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Editado por

  • RESPONSABILIDADE EDITORIAL
    Alex Branco Fraga*, Elisandro Schultz Wittizorecki*, Ivone Job*, Mauro Myskiw*, Raquel da Silveira*
    *Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Escola de Educação Física, Fisioterapia e Dança, Porto Alegre, RS, Brasil.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    25 Ago 2023
  • Data do Fascículo
    2023

Histórico

  • Recebido
    06 Jan 2022
  • Aceito
    21 Mar 2023
  • Publicado
    14 Jul 2023
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Universidade Federal do Rio Grande do Sul Rua Felizardo, 750 Jardim Botânico, CEP: 90690-200, RS - Porto Alegre, (51) 3308 5814 - Porto Alegre - RS - Brazil
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