Resumo
O presente artigo analisa a constituição histórica do Assentamento Dênis Gonçalves - Goianá/MG, pautado pela reforma agrária popular do MST, a partir dos conceitos de Organicidade e Autocoletivização, e através da descrição narrativa de um recurso materializado participativamente in loco. O objetivo é analisar o papel destes elementos nos processos de implementação e consolidação da agricultura familiar camponesa e da organização socioprodutiva local. A pesquisa baseou-se em uma abordagem qualitativa, a partir da Perspectiva Orientada aos Atores, se valendo de entrevistas semiestruturadas e ferramentas participativas, com destaque para a construção coletiva do “Rio do Tempo” do assentamento. Os resultados evidenciam uma experiência bem-sucedida de organização interna, fundamentada na autonomia camponesa, na socialização dos meios de produção e na gestão democrática do território, podendo anunciar possibilidades organizativas para outros contextos de reforma agrária popular no Brasil.
Palavras-chave:
Assentamentos rurais; autonomia; reforma agrária
Abstract
This article analyzes the historical constitution of the Dênis Gonçalves Settlement in Goianá, Minas Gerais, guided by the popular agrarian reform of the Landless Workers' Movement (MST), based on the concepts of Organicity and Self-Collectivization, and through the narrative description of a resource materialized participatively in loco. The objective is to analyse the role of these elements in the processes of consolidation of peasant family farming and the local socio-productive organization. The research was based on a qualitative approach, from the Actor-Oriented Perspective, using semi-structured interviews and participatory tools, with emphasis on the collective construction of the settlement's “Rio do Tempo”, a form of local timeline. The results show a successful experience of internal organization, based on peasant autonomy, the socialization of the means of production, and democratic management of the territory, which may inspire other popular agrarian reform contexts and territories in Brazil.
Keywords:
Rural Settlements; autonomy; agrarian reform
Resumen
El presente artículo analiza la constitución histórica del Asentamiento Dênis Gonçalves - Goianá/MG, basado en la reforma agraria popular del MST, a partir de los conceptos de Organicidad y Autocoletivización, y a través de la descripción narrativa de un recurso materializado participativamente in loco. El objetivo es analizar el papel de estos elementos en los procesos de consolidación de la agricultura familiar campesina y de la organización socioproductiva local. La investigación se basó en un enfoque cualitativo, a partir de la Perspectiva Orientada a los Actores, utilizando entrevistas semiestructuradas y herramientas participativas, con especial énfasis en la construcción colectiva del Río del Tiempo del asentamiento. Los resultados evidencian una experiencia exitosa de organización interna, basada en la autonomía campesina, la socialización de los medios de producción y la gestión democrática del territorio, lo que puede anunciar posibilidades organizativas para otros contextos de reforma agraria popular en Brasil.
Palabras-clave:
Asentamientos rurales; autonomía; reforma agraria
Introdução
O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) concatena toda sua experiência acumulada de busca por uma reforma agrária popular e emancipatória em seu Programa Agrário, ao estabelecer diretrizes organizativas embasadas na cooperação e na agroecologia como vias para evitar a reprodução do modelo concentrador e excludente do agronegócio nos assentamentos da reforma agrária (Fernandes, 2000; Borsatto; Carmo, 2013; MST, 2014).
Neste sentido, as diferentes formas e redes de cooperação e de mecanismos, institucionais ou não, que fortaleçam a autonomia camponesa são imprescindíveis para o enfrentamento da lógica dominante, e se mostram como formas de aumentar a resiliência camponesa (Mendonça et al., 2014). Estas perspectivas estão contempladas no Programa Agrário do MST, a exemplo dos seguintes trechos:
“Toda produção será desenvolvida com o controle dos trabalhadores sobre o resultado de seu trabalho. As relações sociais de produção devem abolir a exploração, a opressão e a alienação.”. E “Organizar a produção e comercialização com base em todas as formas de cooperação agrícola, como mutirões, formas tradicionais de organização comunitária, associações, cooperativas, empresas públicas e empresas sociais” (MST, 2014, p. 36 e 42).
Em uma perspectiva que prevê os trabalhadores do campo como detentores dos meios de produção, noções de autogestão e coletivização da produção emergem como anúncios de possibilidades viáveis de superação do paradigma dominante. Epistemologicamente, o elemento da autogestão se alinha com o conceito de Organicidade gestado no movimento. A Organicidade, para o MST, compreende um processo coletivo e democrático de participação das famílias em todas as instâncias deliberativas. Constitui a criação de um “corpo orgânico” que se autogestiona, por meio da participação direta e igualitária de todos os envolvidos, nas tomadas de decisão coletivas, desde decisões locais até os rumos futuros do movimento (Miranda; Cunha, 2013).
A coletivização da produção, neste sentido, pode adotar uma perspectiva mais ampla de participação democrática, como proposto por Chayanov (1974). O pensador russo enxergava a necessidade da formação de “corpos cooperativos” que fossem idealizados localmente, a partir da base, onde as famílias camponesas fossem detentoras, não somente dos meios de produção, como também do controle dos processos produtivos e dos rumos da cooperativa. Portanto, formações cooperativistas autogestionadas e idealizadas pela “autocoletivização” das famílias camponesas (Chayanov, 1974).
Assim, pode-se enxergar o protagonismo camponês como a força motriz da construção dessa lógica, e o conjunto de subjetividades e particularidades históricas do modo de vida e de produção, aqui entendido como herança camponesa, como seus pilares orientadores. O modo de produção camponês, como teorizado por Chayanov (1974), possui uma especificidade própria, pois o trabalho camponês não é orientado ao lucro, mas sim pensado para satisfazer as necessidades comunais. Além disso, é pautado por relações de reciprocidade nas comunidades, como nas práticas de mutirões de trabalho voltado para o benefício comum, e possui uma lógica de uso e ocupação do solo mais alinhado com o funcionamento da Natureza (Sabourin, 2009; van der Ploeg, 2014).
No bojo desta discussão surge a proposta do presente artigo, que representa um recorte de um projeto conduzido no Assentamento Dênis Gonçalves - Goianá/MG (ADG), se configurando como estudo de caso para a referida pesquisa. O objetivo do artigo é explorar a constituição histórica deste território da reforma agrária, que foi pautada por uma série de elementos determinantes para a consolidação da agricultura familiar camponesa local, e evidenciar como tais fatores podem ser estratégicos para a consolidação de outros territórios da reforma agrária, a partir das realidades locais.
Em especial, trataremos dos aspectos organizativos da comunidade inserida no território em questão, especificamente no papel que os elementos da Organicidade e da Autocoletivização, considerados enquanto diferentes manifestações da Herança Camponesa, desempenharam nos processos de implementação e consolidação deste assentamento, e como estes se mostram relevantes analiticamente para o entendimento da presente experiência.
Como estratégia para explorar a constituição histórica deste território, de forma contextualizada e cronológica, abordaremos, de maneira descritiva, um recurso criado participativamente durante a pesquisa de campo: o Rio do Tempo do Assentamento Dênis Gonçalves, para tratar dos âmbitos supracitados. Em um primeiro momento, no entanto, iremos aprofundar as noções de Organicidade e Autocoletivização, em diálogo com os debates envolvendo as autonomias territoriais.
Organicidade e Autocoletivização como expressões da autonomia camponesa
Os debates recentes em torno das autonomias territoriais têm evidenciado a emergência de uma noção de autonomia fortemente vinculada às experiências dos movimentos socioterritoriais do campo. Barbosa e Rosset (2024) argumentam que essa concepção se traduz em uma estratégia de fortalecimento dos territórios rurais frente às dinâmicas de subordinação impostas pelo capital, sem implicar isolamento em relação ao Estado. Nessa direção, os autores apontam que a construção de autonomias territoriais não exclui a disputa por políticas públicas e por mecanismos estatais, como a reforma agrária, mas reforça a centralidade do território enquanto base material e política da vida camponesa, espaço de exercício do poder popular, de construção de soberanias e de afirmação de projetos alternativos de desenvolvimento.
Assim, torna-se evidente que as lutas dos povos do campo extrapolam a reivindicação pelo acesso à terra, incorporando processos mais amplos de defesa coletiva dos territórios, dos modos de vida e das formas próprias de organização social e política (Fernandes, 2012). Nesta perspectiva, a autonomia não se restringe à esfera produtiva, mas se manifesta em diferentes dimensões articuladas territorialmente, envolvendo aspectos relacionados ao autogoverno e à autonomia nos âmbitos produtivo, econômico, alimentar e educativo (Barbosa; Rosset, 2024).
Particularmente relevante para esta discussão é a compreensão de que a superação da insegurança alimentar e a reconstrução dos modos de vida camponeses dependem do fortalecimento das capacidades locais de organização e gestão do território (van der Ploeg, 2014; Rosset; Altieri, 2017). Tais capacidades encontram suporte em formas organizativas capazes de articular processos de cooperação, reciprocidade e ação coletiva. Nesse sentido, a experiência dos movimentos socioterritoriais do campo evidencia que o grau de organização interna e a utilização de metodologias horizontais fundamentadas no protagonismo camponês constituem fatores centrais para a ampliação e consolidação de experiências agroecológicas e de transformação territorial (Rosset; Martínez-Torres, 2012; Rosset; Altieri, 2017).
A partir deste entendimento, a Organicidade pode ser compreendida como uma dimensão político-organizativa da autonomia territorial e a Autocoletivização como a dimensão socioprodutiva, de forma que sua atuação conjunta estrutura mecanismos coletivos de participação, deliberação e autogestão. Tal interpretação aproxima-se das discussões contemporâneas sobre autonomias territoriais, nas quais essas dimensões se materializam em práticas cooperativas e em formas de exercício coletivo de poder sobre os recursos locais e de tomada de decisão, ampliando a capacidade das comunidades de definir e conduzir autonomamente seus próprios processos de reprodução social e territorial (Cândida et al., 2024; Barbosa; Rosset, 2024).
Essa elaboração converge com os argumentos de van der Ploeg (2014) acerca da construção da autonomia camponesa. Para o autor, a reprodução do campesinato depende da ampliação de sua capacidade de reduzir relações de dependência frente aos mercados, ao capital e aos sistemas agroindustriais. Assim, diferentes formas de cooperação, reciprocidade e autogestão fortalecem a capacidade de autodeterminação das comunidades rurais e ampliam suas possibilidades de reprodução social.
É possível, portanto, ampliar o escopo analítico dos conceitos de Organicidade e Autocoletivização, ao serem compreendidos como expressões complementares da construção da autonomia territorial camponesa. A articulação entre esses elementos aponta para a formulação de um projeto comum de desenvolvimento territorial, onde a reconstrução da noção de território não se limita à posse da terra, mas acompanha a restauração de formas próprias de produção, organização social e noções coletivas de pertencimento. Neste sentido, é notável a importância, para o MST, da busca por autonomia territorial através de um projeto político pautado, por exemplo, pela agroecologia, pela economia solidária, pela cooperação produtiva e pela socialização dos meios de produção, conforme anteriormente apontado.
Procedimentos metodológicos2
Área do Estudo
O Assentamento Dênis Gonçalves está localizado na Zona da Mata Mineira e perpassa a área de quatro municípios da região: Goianá, Coronel Pacheco, São João Nepomuceno e Chácara (-21.574363 S, -43.209851 W) (Figura 1). Apresenta uma área de 4.683,6 hectares, sendo o maior assentamento do MST do estado de Minas Gerais (INCRA, 2016). Possui cerca de 150 famílias assentadas, provenientes de diversas regiões do Brasil, com destaque para outras mesorregiões do estado, como o Vale do Rio Doce, o Sul de Minas Gerais, além de outras localidades dentro da Zona da Mata Mineira (Carvalho, 2021).
Em 2010 a antiga fazenda Fortaleza de Sant’Anna teve seu histórico de exploração, trabalho escravo e improdutividade ressignificados com a chegada do MST às terras e, somente no ano de 2013, os camponeses foram de fato assentados formalmente, com o parcelamento dos lotes realizado apenas em 2016.
Percurso metodológico
Para compreender um fenômeno social dinâmico, como os processos de consolidação deste grande e heterogêneo território e sua organização socioprodutiva, a abordagem de pesquisa mais adequada é a qualitativa. Para tanto, o projeto se valeu de entrevistas semiestruturadas e de ferramentas metodológicas participativas (Guzmán et al., 2013), no caso, o Rio do Tempo (Biazoti et al., 2017), como formas de diagnóstico da realidade local.
Para a seleção dos participantes para os momentos de entrevista e de materialização do recurso em questão, a pesquisa percorreu um trajeto lógico. Foram localizadas, por indicação de lideranças locais do assentamento, as lideranças atuantes em cargos de direção e coordenação do MST relativos aos setores de interesse de investigação para a pesquisa, e que fizeram parte dos eventos históricos do assentamento desde sua criação. O raciocínio orientador desta escolha pode-se relacionar com a metodologia do direcionamento do entrevistador pela técnica da “bola de neve” (Vinuto, 2014).
Assim, foram entrevistados membros dos mais diversos setores locais e regionais do MST: Direção Nacional do movimento, no âmbito da coordenação a nível do Estado de Minas Gerais; Coordenação do Setor de Produção da Regional Antônio Ventura, referente aos assentamentos da Zona da Mata Mineira; Setor de Educação da Regional Antônio Ventura; e Coordenação geral de ambas as cooperativas presentes no território. Ao todo foram entrevistadas 5 lideranças que atuam intersetorialmente nos âmbitos descritos.
As entrevistas seguiram um roteiro semiestruturado que, aplicado de forma dialogada, possibilitou puxar um fio da história e refletir acerca dos processos organizacionais e marcos da consolidação da agricultura familiar camponesa no território, desde a criação do assentamento, até a organização socioprodutiva atual, buscando entender inclusive as trajetórias de surgimento e consolidação das diferentes formas de organizações da agricultura familiar camponesa local. Os registros foram sistematizados em Diário de Campo, ferramenta muito utilizada em estudos de Sociologia Rural (Whitaker, 2002), para posterior análise.
Tais momentos de conversa seguiram o viés da Perspectiva Orientada aos Atores (Long; van der Ploeg, 2011), para entender noções da organicidade histórica do assentamento, da presença da cultura do campesinato e de outras nuances locais, sob suas construções históricas. Como Petersen et al. (2017) apontam:
A Perspectiva Orientada aos Atores (POA) é uma abordagem teórico-metodológica empregada para o estudo dos processos de mudança social. Surgiu em resposta ao questionamento do enfoque teórico estruturalista que atribui aos indivíduos e às coletividades o papel de meros recipientes passivos das transformações estruturais impostas por atores macrossociais (capital, Estado, etc.). Aplicada aos estudos do desenvolvimento rural, a POA tem contribuído para compreender como agricultores e agricultoras, individual ou coletivamente, procuram reduzir a dependência ou as relações de subordinação técnica, econômica e política aos setores agroindustrial e financeiro e ao poder prescritivo das políticas de modernização (Petersen et al., 2017, p. 35).
O trabalho buscou, com os trechos do Diário de Campo, construir uma descrição diagnóstica dos processos históricos de estabelecimento e consolidação da agricultura familiar camponesa no território em questão. A fim de organizar os trechos registrados, e constituir uma base para ser um dos fios condutores para a construção da presente descrição, foi realizada a categorização dos mesmos em uma planilha no software Microsoft Excel. Neste movimento de pré-análise, foram selecionados trechos correspondentes às categorias analíticas de interesse estabelecidas para o presente artigo: (1) Organicidade; (2) Autocoletivização; (3) Outras manifestações da Reforma Agrária Popular, em um movimento análogo à análises de discurso, que conferiu rigor metodológico à descrição.
Para situar esta narrativa cronologicamente e evidenciar momentos chave de construção coletiva dos processos locais, a metodologia da construção do Rio do Tempo emerge com este fim, se firmando como outro recurso orientador para elucidar os processos de consolidação da agricultura familiar camponesa no território. A metodologia em questão se configura como uma ferramenta participativa utilizada no diagnóstico de agroecossistemas, ideal para a sistematização de experiências, individuais ou coletivas, e análise de processos históricos (Verdejo, 2007; Biazoti et al., 2017).
A metodologia teve, como os dois eixos orientadores da dinâmica coletiva (seu aspecto diferencial), os processos internos e eventos que, no entendimento das lideranças, configuraram marcos para a consolidação da (1) Agricultura Familiar Camponesa e do (2) Projeto de Reforma Agrária Popular no território. O resultado final evidencia “afluentes” que representam tanto os referidos marcos no Assentamento Dênis Gonçalves, como também organizações, instituições e demais coletivos centrais para a consolidação dos processos locais, além de elucidar momentos e épocas chave para o assentamento, que nos auxiliam a refletir sobre a formação histórica deste território da reforma agrária popular.
A relevância da utilização desta metodologia se dá na possibilidade de uma reflexão coletiva acerca de processos históricos, situados e organizados em ordem cronológica, que permitem abordar com fidelidade a continuidade destes processos. Ademais, permite identificar mecanismos e estratégias inerentes ao território e centrais para a sua construção, a partir do olhar dos sujeitos protagonistas dos processos locais, evidenciando aspectos objetivos e subjetivos, auxiliados pelos momentos de entrevistas complementares. A soma das metodologias permitiu uma reconstrução histórica fiel à realidade e à materialidade local3.
Resultados e Discussão
Perseguir a abordagem de uma metodologia participativa através da construção do Rio do Tempo do Assentamento Dênis Gonçalves, e seguindo uma Perspectiva Orientada aos Atores (Long; van der Ploeg, 2011), fez com que fosse possível a materialização de um recurso didático construído pelos próprios sujeitos do assentamento, protagonistas das construções locais, focado na sistematização dessa experiência.
As reflexões geradas durante os momentos de elaboração do Rio do Tempo permitiram não somente uma reconstrução histórica do território, como também revelar, juntamente dos demais momentos de entrevista, nuances e fatores locais que foram determinantes para o sucesso desta construção. A partir desse movimento, teceremos a seguir reflexões pautadas pelos aspectos referentes ao objetivo do presente artigo, e que se manifestaram organicamente durante os momentos em campo4. Tais reflexões se configuram como uma discussão que acompanha a descrição narrativa que reflete os processos históricos da consolidação deste território da reforma agrária.
O Rio do Tempo do Assentamento Dênis Gonçalves: A trajetória da consolidação da Agricultura Familiar e da Reforma Agrária Popular no território.
Processos históricos da ocupação do Território: A construção da Organicidade no território e a Autocoletivização na consolidação da Agricultura Familiar e da Reforma Agrária Popular
A ocupação do território, após a Conquista da Terra em 2013, como referido de forma muito simbólica pelas lideranças no Rio do Tempo do Assentamento Dênis Gonçalves, se deu de forma gradual e bastante orgânica, muito em função da ausência do poder público neste estágio crítico de implementação de um território recém reformulado. Uma carta oficial do INCRA com a delimitação dos lotes só foi acordada no ano de 2016, de forma que a autocoletivização e os esforços do movimento em articular os processos foram imperativos para possibilitar o estabelecimento da Agricultura Familiar no território.
Originalmente a proposta do INCRA era assentar cerca de 100 famílias, mas o MST contrapropõe argumentando a possibilidade de assentar em torno de 150 famílias e o número final, após contra laudos e negociações, ficou em 137 lotes oficialmente registrados na portaria de criação do assentamento. As famílias que são assentadas, além das cerca de 50 famílias que estiveram presentes durante as ocupações iniciais, advém de diversas regiões do Estado de Minas Gerais, como as mesorregiões do Vale do Rio Doce e do Sul de Minas, mas também existem assentados de origem fluminense, baiana e gaúcha, além de outras particularidades, como ex-trabalhadores da terra, que compõem, assim, as cerca de 150 famílias existentes no território nos dias de hoje.
O elemento da Organicidade, central para o MST, foi fortemente desenvolvido no ADG também em função da ausência de instrumentos e esforços institucionais na implementação do território, seja na delimitação dos lotes ou em processos de divisão e alocação das famílias, geralmente realizados por sorteio. Assim, as famílias que foram ocupando gradativamente o território a partir das regiões próximas à sede da antiga fazenda entenderam que os aspectos centrais eram seu próprio protagonismo; o elemento da coletividade; e a articulação com o movimento nos processos político-organizativos do novo assentamento.
Nos trâmites de divisão das famílias no território, que culmina no seu parcelamento oficial, foram levados em consideração aspectos ligados à organicidade que foi sendo criada no local desde o início, relativos à articulação dos atores nos processos de autogestão e organização interna. Portanto, aspectos como afinidade entre os grupos e entre aspectos produtivos das famílias foram centrais nessa etapa. Formam-se, assim, grupos de afinidade, reunindo famílias de acordo com locais de origem e vocações culturais e produtivas similares.
As lideranças explicam que os coletivos de famílias, que foram organicamente se formando no território, se organizaram minimamente nos núcleos para definir e estabelecer sua produção, de acordo com vocações culturais como por exemplo os bananeiros de Piau, e de acordo com vocações produtivas dos diferentes locais do território, relativas a aspectos como relevo e topografia, altitude, entre outros, como por exemplo a característica de bacia leiteira da região. Produtores de culturas hortifrutigranjeiras se estabeleceram em áreas mais propícias para irrigação; produtores pecuaristas se estabeleceram nas áreas mais apropriadas para constituir essa bacia leiteira, entre outros exemplos (Diário de Campo, 08/04/2025).
Desta forma, de maneira natural e setorizada, surgem coletivos de produtores das mais diversas culturas dentro do assentamento, marcando o início dos processos de Autocoletivização no ADG. Atualmente, o assentamento possui alguns coletivos de produtores que se formaram organicamente desde que o assentamento começou a organizar sua produção em função de culturas específicas: Coletivo do leite; Coletivo do feijão; dois Coletivos de Mulheres (um focado em artesanato e outro de produção agrícola); O Coletivo da banana; e por fim o Coletivo do mel.
Ademais, o movimento ajudou a orientar os coletivos e auxiliou na busca por apoio inicial, a exemplo de parcerias com as prefeituras do entorno para aluguel de tratores. As lideranças do movimento no território tiveram papel importante nessa etapa. Esse apoio por parte do movimento permanece até os dias atuais, em ações como criação de bancos de sementes e na compra de veículos para as cooperativas, especialmente via emendas parlamentares, articuladas pelas lideranças do MST.
O auxílio do MST supriu uma grande demanda inicial na implementação do território e evitou a longa espera dos recursos institucionais, como por exemplo o Crédito Instalação. No caso do ADG, as lideranças relataram que famílias assentadas no início receberam este crédito inicial para estabelecimento de moradias e início das atividades produtivas, porém novos recebimentos passaram a acontecer novamente somente em 2024. Existem famílias que chegaram em um segundo momento que estão há 10 anos na espera por estes recursos. Assim, fica clara a importância do apoio do movimento nestas fases iniciais.
Para além do apoio logístico, o MST atua de forma a fomentar a construção de novos paradigmas de uso e ocupação do campo, em uma perspectiva contra hegemônica:
O movimento amplia, dentro das possibilidades, outras perspectivas desde o início do estabelecimento das famílias nos territórios da reforma agrária, como por exemplo ações de “combate do viés do agronegócio através da Agroecologia”, nas palavras de ACP5, da cultura camponesa e da cooperação (Diário de Campo, 08/04/2025).
Como já reforçado em Hackbardt et al. (2021), houve um intenso trabalho de base do MST com as famílias que foram assentadas inicialmente, desde a ocupação. As lideranças relatam que também foi realizado um similar esforço com o coletivo que se formou em torno de produtores advindos da região de Piau, especializados na fruticultura, especialmente no cultivo da banana, vocação produtiva que também é um elemento cultural da região em questão. O trabalho formativo do MST auxilia tanto na construção político ideológica das suas bases, como também possui forte peso na formação de lideranças locais e na construção da organicidade nos territórios da reforma agrária (Pizetta, 2007).
Nos anos de 2013 e 2014 acontecem as primeiras tentativas no ADG de organização da produção em maiores quantidades, para comercialização no CEASA, como citado no Rio do Tempo. Esse aspecto demonstra os primeiros sinais de estabelecimento da Agricultura Familiar no território, já minimamente estruturada. Contudo, o ponto central para se chamar a atenção nesses anos iniciais, também em 2014, é outro marco citado pelas lideranças: O VI Congresso Nacional do MST, ocasião em que é publicado o Programa Agrário do movimento. O programa em questão, que é constantemente atualizado, vem estabelecendo a reforma agrária popular como sua principal bandeira (MST, 2014).
Esses pilares orientadores do trabalho do movimento a partir do seu VI Congresso Nacional coincidem justamente com os eventos pós criação do assentamento e suas primeiras tentativas de ordenação da produção. Portanto, praticamente desde o início da organização socioprodutiva do assentamento até os dias atuais, tudo o que foi estabelecido coletivamente como estratégias de desenvolvimento do território, seguiu a premissa da Reforma Agrária Popular, se alinhando bem com a constituição histórica deste território, onde os elementos da autocoletivização e da organicidade se mostraram muito presentes.
A entrada dessa bandeira preconiza diversos processos organizativos do ADG no ano de 2016, que serão elucidados mais adiante, de forma a tornar o ano em questão como central na “virada de chave” das estratégias produtivas do assentamento, e que dão à coletivização dos processos, e aos vínculos institucionais, pesos ainda maiores. O ano de 2016 marca um “afluente” de grande importância para o Rio do Tempo do Assentamento Dênis Gonçalves, e demonstra a centralidade dos esforços de autocoletivização no território em diálogo com uma macroestratégia do movimento a nível do estado.
Até a época em questão, em meados de 2015, o assentamento avançou na ocupação do território que, conforme já relatado, se deu inteiramente por conta do movimento e das famílias articuladas. Órgãos públicos não atuaram para além de gerar o anteprojeto de parcelamento dos lotes, mas que nunca foi georreferenciado e piqueteado. Essa demanda fez com que o movimento assumisse esta tarefa.
Foram realizadas sucessivas reuniões, durante diversas semanas, entre lideranças locais e regionais do movimento e a grande diversidade de famílias presentes no território, em um processo orgânico que oficializou a distribuição estratégica desses grupos de afinidade no território. Este período, gestado diretamente com as famílias, culmina no parcelamento concreto do assentamento, no início de 2016, em lotes familiares propriamente demarcados.
Os nomes dos núcleos oficiais do assentamento fazem referência direta às “regiões” históricas da antiga fazenda, mantendo seus nomes originais. São 5 núcleos presentes no território: Argentina, Pasto dos Bois, Aliança, Rio Doce e Serra. Juntamente com a antiga vila e porção histórica da fazenda, o território, portanto, constitui-se nessas 6 porções.
Como o parcelamento levou em consideração a estratégia construída in loco de distribuição das famílias assentadas de acordo com as diferentes vocações produtivas, e locais apropriados para os diferentes coletivos de produtores no assentamento, a experiência em questão revela a alta capacidade organizativa desenvolvida no território, exemplificada pela deliberação coletiva e a subsequente alocação das famílias nos lotes.
TSG6 relata que participou do processo de divisão das famílias nos lotes, quando foi feito o parcelamento concreto do ADG por parte de dirigentes do movimento e parceiros, no ano de 2016. Como a tarefa de parcelamento e georreferenciamento concreto do território nunca foi feita pelos órgãos públicos competentes, o movimento assume essa tarefa com seus militantes dirigentes coordenando o processo em diálogo com todas as famílias que compunham o território conquistado naquele momento. TSG comenta que participou diretamente desse processo, que não seguiu os moldes convencionais e, de certa forma, “ingratos” de distribuição do INCRA, nas palavras dela, que acontecem via sorteio e geralmente geram situações conflituosas por ser um processo 100% ao acaso. “Foi um dos processos mais bonitos que eu já participei. Conseguimos fazer com que mais de 100 famílias chegassem a um acordo em comum, distribuindo os grupos por afinidade no território”, ela ressaltou (Diário de Campo, 19/05/2025).
Este processo, que, como já dito, foi debatido e dialogado democraticamente, concatenou diferentes grupos que se formaram organicamente no território desde a criação em 2013 até o momento do parcelamento em 2016. Como já salientado, tais grupos reuniam coletivos de famílias que vinham de uma mesma região, e/ou que tinham vocações produtivas e elementos culturais semelhantes, e assim foram ocupando o território levando em consideração essas particularidades.
ACP relata que o movimento, juntamente com suas lideranças, inicia a divisão das famílias nos lotes e o parcelamento concreto dos lotes, via piquetes, com o auxílio de profissionais companheiros do movimento, como engenheiros florestais, ligados às universidades que estiveram ao lado do ADG desde as ocupações iniciais (Diário de Campo, 08/04/2025).
A referida experiência, após deliberações coletivas, está descrita em Meier et al. (2021), um dos engenheiros florestais citados por ACP no trecho acima, vinculado, à época do trabalho em questão, estava ligado ao Centro de Tecnologias Alternativas da Zona da Mata Mineira (CTA-ZM). Esse centro tem grande proeminência na disseminação da Agroecologia na Zona da Mata Mineira e tem grande importância para o ADG, aparecendo direta ou indiretamente em diversos marcos do Rio do Tempo produzido na pesquisa, reforçando a presença institucional da universidade pública nos processos locais.
O parcelamento do PA Dênis Gonçalves foi realizado entre os meses de janeiro e maio de 2016, por demanda das famílias recém assentadas e deu-se especificamente na alocação dos lotes propostos no anteprojeto de parcelamento construído pelos técnicos do INCRA. Para construção do anteprojeto de parcelamento da fazenda desapropriada, os técnicos do INCRA estiveram em campo para coleta de informações relacionadas a classes de uso do solo, aptidão agrícola, fragmentos florestais e áreas de preservação permanente. [...] Os dados gerados em campo serviram de base para o primeiro parcelamento apresentado às famílias, com divisão do assentamento em lotes que apresentavam tamanhos variados, com fração mínima próxima de 7 hectares. [...] Porém, o desejo das famílias assentadas e o histórico produtivo da região não convergiam com o projeto. Adicionalmente, o módulo fiscal dos municípios abrangidos pelo assentamento tem média de 25,5 hectares, o que tornava mais contraditória a proposta de lotes muito reduzidos. A primeira versão do parcelamento não foi aceita e os técnicos do INCRA retornaram para o órgão com o compromisso de adequação do mapeamento. A segunda proposta foi aprovada pelas famílias e o Grupo de Trabalho (GT) e durante dez semanas, com base no anteprojeto elaborado pelo INCRA, contribuiu na alocação dos lotes em campo (Meier et al., 2021, p. 67).
Meier et al. (2021) ainda ressaltam que o parcelamento foi feito de forma participativa com as famílias, com sugestões das mesmas propondo adequações às divisas além de melhorias no mapeamento. A participação efetiva das famílias, pensando um parcelamento do assentamento que refletisse as experiências organizativas acumuladas no território e as estratégias produtivas dos diferentes coletivos de produtores, e sua correspondente distribuição no assentamento em cada uma das suas porções, é uma manifestação ímpar dos aspectos da autocoletivização e da organicidade criada no assentamento.
Não obstante, é documentado no artigo em questão que as reflexões construídas a partir do conhecimento adquirido na experiência do Assentamento Dênis Gonçalves inspiraram o MST e as famílias dos assentamentos Egídio Brunetto e Belo Monte, localizados no Vale do Rio Doce, a demandarem da equipe a construção dos parcelamentos destes assentamentos, prezando pela participação das famílias nas etapas de levantamento de informações, no mapeamento em si e nos ajustes finais (Meier et al., 2021).
As famílias, então, foram gradualmente assumindo oficialmente os lotes, já pré definidos durante a construção coletiva. Ao final deste processo, as lideranças relataram que ainda existiam lotes vagos, e então o movimento realizou uma nova convocatória, culminando na segunda leva de famílias assentadas no território, vindas especialmente da região do Vale do Rio Doce, que passaram a ocupar majoritariamente o Núcleo da Serra, que totalizam 26 lotes no assentamento. No núcleo em questão já havia sido setorizado um grupo de afinidade de famílias, da leva inicial, também advindas desta região de Minas Gerais.
Ao falarem das famílias que vieram do Vale do Rio Doce, começaram a surgir nas falas dos entrevistados nuances do que veio a ser nomeado posteriormente, por uma das entrevistadas, como o “DNA da Serra”:
EDC7 relata que as famílias que vieram do Vale do Rio Doce já possuíam uma ligação histórica com o MST, articulados com o movimento por lá, acampadas há algum tempo, fazendo parte de trabalhos de base e ações do movimento nesses lugares e já bem mais alinhadas com a organicidade própria do movimento, “fato constatado empiricamente pelas lideranças do assentamento”, nas palavras dela. São as famílias mais engajadas na construção da reforma agrária popular e da agroecologia no território, além dos outros pilares do movimento. Grande parte das famílias do Núcleo da Serra vieram do Vale do Rio Doce (Diário de Campo, 08/04/2025).
O núcleo da Serra foi o último núcleo a ser totalmente ocupado no assentamento. É o núcleo mais afastado dos centros urbanos, de terreno mais acidentado e declivoso, e de mais difícil acesso. As lideranças comentam acerca da ocupação desta porção característica do assentamento em diversas ocasiões, que irão sendo elencadas nesta narrativa.
CCZ8 comenta que a ocupação do Núcleo da Serra, nos seus 26 lotes, assim como nas outras porções do assentamento, foi toda por conta dos assentados, com pouca ou nenhuma participação ativa do INCRA. Se dependesse da velocidade e capacidade de atuação do órgão, poderia ter sido inviabilizada a permanência das famílias, sobretudo nessas porções de mais difícil ocupação, em áreas mais acidentadas, declivosas e de difícil acesso, como ele pontua (Diário de Campo, 02/05/2025).
O desmonte progressivo do Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA) e do INCRA, além de uma desestruturação completa das políticas públicas para a agricultura familiar, como resultados práticos dos governos Temer e Bolsonaro (Grisa et al., 2022), podem ter afetado tanto os processos de parcelamento dos assentamentos como também a chegada de recursos em geral para a Agricultura Familiar, que por sua vez afetaram o ADG, como observado. No presente caso, é verificada a retomada dos esforços de efetivação das referidas políticas públicas em anos recentes, como evidenciado no Rio do Tempo do Assentamento Dênis Gonçalves.
São conhecidos os exemplos de experiências do MST em torno da coletivização da produção e do cooperativismo que demonstram estas práticas camponesas como mecanismos centrais para a permanência no campo e para a reprodução do campesinato, como Contrigiani et al. (2023) demonstram na experiência do Assentamento Milton Santos, em Americana/SP. A estratégia da coletivização dos processos produtivos foi central para a ocupação do Núcleo da Serra, especialmente por se tratar de um local de difícil ocupação, e evidenciou fortemente a presença da cultura do campesinato e sua resiliência já destacada.
GMS9 comenta como a localização da Serra se configura como uma “dificuldade e uma força”, nas palavras dela, para o coletivo de produtores do presente núcleo. A região em questão, longe do asfalto e de muito mais difícil acesso, dificultou muito a logística de transporte da produção. Ela comenta que, no início da ocupação da Serra, muitos esforços coletivos de viabilização da produção foram feitos a pé pelos produtores. Além disso, cita como é muito mais custoso em diversos aspectos para que esse grupo de produtores em particular possa exercer outras atividades remuneradas, em especial nos centros urbanos do entorno, em comparação com os outros núcleos, que são muito mais próximos destes e em topografias muito menos acidentadas (Diário de Campo, 11/06/2025).
Se, por um lado, a Serra ofereceu um grande desafio para as famílias que ocuparam este território, por outro, as condições materiais e objetivas presentes foram imperativas para a união dos produtores, se tornando condição sine qua non para o surgimento dos primeiros embriões das experiências cooperativistas, e de uma coletivização da produção pautada fortemente pela cultura camponesa, no Núcleo e no ADG como um todo. Este momento histórico do estabelecimento da Agricultura Familiar Camponesa no assentamento marcou a consolidação do “DNA da Serra”, chamado assim por GMS durante as entrevistas em campo. Essa definição, mais do que apropriada, se tornou, para o presente trabalho, uma categoria central para compreender a cultura do campesinato no ADG e sua organicidade histórica.
Após a divisão das famílias nos lotes, e durante os momentos finais de ocupação do Núcleo da Serra, sobram 4 lotes vagos na parte alta da Serra. O movimento então entra ativamente com a estratégia de se organizar de forma coletivizada nesta porção declivosa do território, de difícil acesso e permanência. “ACP cita que “quando decidiram ocupar o local, chegaram à conclusão de que para sobreviver aqui só se for coletivamente”, nas palavras dele” (Diário de Campo, 08/04/2025).
Assim, o MST, por intermédio dos dirigentes, decide que a ocupação da porção superior do Núcleo da Serra seria mediante a criação de uma Cooperativa de Produção Agropecuária (CPA), formando uma agrovila com uma área coletivizada de produção. Dos quatro lotes, um foi destinado para a construção de todas as moradias dos futuros membros, e os demais três lotes iriam concentrar as futuras áreas coletivas e produtivas. Este processo se configurou como o germe inicial da formação da Cooperativa de Produção Agroecológica e Cultura Camponesa, a COOPAC, uma das cooperativas do assentamento.
A COOPAC é uma evidência empírica da resiliência camponesa, e alia uma produção bem diversificada, com diferentes níveis de beneficiamento e especialização produtiva, além de quantidade considerável da produção voltada para o autoconsumo das famílias. Merece um aprofundamento especial que não será o objetivo do presente trabalho. Retomando a cronologia, todos esses esforços de ocupação do território, como um todo, culminaram na reorganização do Setor de Produção do Assentamento Dênis Gonçalves, que agora dispunha de uma estratégia de organização da produção pautada por diferentes micronúcleos de produtores autogestionados, incluindo uma CPA.
Os impulsos cooperativistas no território adquirem um novo salto qualitativo com a iniciativa das Cestas Agroecológicas. O contexto inicial de surgimento das cestas agroecológicas no ADG deve-se à organização de produtores do Núcleo da Serra. Este esforço, que representa mais um exemplo da iniciativa de coletivização da produção pelo conjunto de famílias da Serra, culmina em outro marco citado pelas lideranças no Rio do Tempo. Em 2019 surge o Núcleo de Cooperação Agrícola da Serra, criado em torno das cestas e pensado para organizar a produção deste coletivo de produtores para o acesso a vendas diretas mais complexas e para acessar mercados institucionais.
A iniciativa se expande em grande medida no transcorrer da pandemia do COVID-19, se tornando o único canal de escoamento da produção, e se dissemina nos núcleos do assentamento como um todo. Estes esforços de coletivização da produção, capitaneado pelas famílias da Serra, buscando se articular para acessar novos e diferentes mercados, da forma que faria uma cooperativa de comercialização, tornariam o Núcleo de Cooperação Agrícola da Serra o embrião da futura COOPERMATAS. Como já ressaltado, o coletivo de famílias que gerou o “DNA da Serra” é composto por famílias com uma bagagem histórica de articulação com o movimento. O Núcleo da Serra era um local propício para gestar os embriões de cooperação agrícola do ADG. Isto evidencia uma prática do MST, em seus trabalhos de formação com suas bases, de estimular a cultura do cooperativismo nos assentamentos:
Nas palavras de ACP, “a própria orientação do movimento é ter cooperativas locais, regionais e estaduais”. Ele comenta que os assentamentos já surgem pensando em como irão se integrar às redes sociotécnicas regionais e, por conseguinte, à lógica à nível de estado (Diário de Campo, 08/04/2025).
Essa influência do “DNA da Serra” firma o núcleo em questão como um agente dinamizador da cultura do cooperativismo no ADG, gerando, na época, um núcleo plural, formado por diferentes micronúcleos no assentamento em torno da iniciativa das cestas agroecológicas. Durante a pandemia, as cestas têm um pico de pedidos, indo de 20 entregas semanais para quantidades entre 100 a 150 pedidos, como relataram as lideranças. Foram adotadas medidas que elevaram a eficiência e a qualidade do trabalho, além da comunicação com clientes, e que se mantém até os dias atuais:
CCZ relata que o Núcleo de Cooperação Agrícola da Serra inclusive fecha uma parceria durante a pandemia com o sindicato dos motoboys de Juiz de Fora, para conseguir viabilizar um local para estoque de produtos, e também viabilizar as entregas de pedidos online via Openfoods. Ele relata que foi neste momento que houve o pico de entregas, que antes da pandemia tinha um lugar fixo para retirada dos produtos, funcionando na praça cívica da UFJF, e passou a ser entregue a domicílio com essa parceria com o sindicato dos motoboys (Diário de Campo, 02/05/2025).
O forte crescimento da iniciativa das cestas agroecológicas foi uma das razões para se pensar uma cooperativa local que organizasse e distribuísse a produção do ADG como um todo. Ao expandir a iniciativa para outros locais do assentamento, houve o consenso de que era preciso organizar essa produção de forma mais eficiente. “O processo coletivo nos ensina muito e ele se expande no assentamento”, nas palavras de GMS durante as entrevistas.
Desta forma nasce, em 2022, a COOPERMATAS, solidificando ainda mais o elemento do cooperativismo no Dênis Gonçalves. A cooperativa absorve, de forma consensual entre as famílias, o Núcleo de Cooperação Agrícola da Serra e os esforços de outras famílias ao redor da sede que vinham se organizando com o mesmo intuito. Ademais, passa a coordenar a iniciativa das cestas agroecológicas e os demais processos coletivos de organização da produção do ADG como um todo, inclusive da COOPAC, e garantindo uma representatividade local para esse grande conjunto de produtores dentro do contexto da Zona da Mata Mineira.
Outros marcos da consolidação da agricultura familiar camponesa no território: A importância da Educação do Campo para a Organicidade do assentamento
A Reforma Agrária Popular vai muito além do âmbito produtivo, conforme o Programa Agrário do MST (MST, 2014). O objetivo de materialização de uma nova sociedade, com renovadas relações de produção, coprodução e reprodução, evidencia o ímpeto da reforma agrária popular em reconstruir relações e modos de vidas em um paradigma de superação da sociedade capitalista a partir da cosmovisão do campo, suas epistemologias, e construída com o protagonismo de uma educação pautada pela classe trabalhadora na sua dualidade campo-cidade (Caldart, 2009; MST, 2014).
A perspectiva da Educação do Campo, e em um âmbito mais concreto, da escola do campo, demonstra a centralidade da Educação para a construção deste projeto emancipador, ao passo em que representa não só uma crítica na forma de denúncia da realidade da educação brasileira no campo e dos paradigmas dominantes, mas também na forma de um anúncio da superação desses paradigmas:
Tratou-se primeiro de uma crítica prática: lutas sociais pelo direito à educação, configuradas desde a realidade da luta pela terra, pelo trabalho, pela igualdade social, por condições de uma vida digna de seres humanos no lugar em que ela aconteça. É fundamental considerar para compreensão da constituição histórica da Educação do campo o seu vínculo de origem com as lutas por educação nas áreas de reforma agrária e como, especialmente neste vínculo, a Educação do campo não nasceu como uma crítica apenas de denúncia: já surgiu como contraponto de práticas, construção de alternativas, de políticas, ou seja, como crítica projetiva de transformações (Caldart, 2009, p. 40).
Percebe-se a Escola do Campo como elemento organizador e mobilizador dos assentamentos, e no Dênis Gonçalves não foi diferente. Duas das entrevistadas no presente projeto vieram para o ADG na tarefa de construir o Setor de Educação do assentamento e, mais concretamente, a escola do assentamento. A tarefa de construção da escola em 2016 representou um ganho organizativo expressivo para o assentamento, ao observar que o Setor de Educação do MST mobilizou dirigentes com grande experiência organizativa para o assentamento, contribuindo para a construção do território em um sentido mais amplo, a exemplo de TSG participando diretamente do processo de divisão das famílias nos lotes.
Assim, é possível enxergar e conceber as noções de territorialidades para o MST e os Sem Terra não somente na (re)territorialização dos espaços em disputa pela reforma agrária popular para produzir nestes, mas também para se reproduzir através destes. Com isso, se manifestam tais territorialidades nestes espaços tanto em construções materiais essenciais para a reprodução do campesinato, como já apresentado anteriormente, como também em construções simbólicas, imateriais, que expressam os pilares filosóficos que ditam os rumos e as lutas do movimento, como a Educação do Campo (Reis; Sobreiro Filho; Rabelo, 2019).
Como os autores supracitados argumentam:
As territorialidades do MST se constituem como elementos centrais mesmo após a (re)territorialização coletiva dos integrantes. Podemos verifica-las nas redes entre as ocupações e acampados, bem como em cada espaço ocupado e em disputa onde há esforços do movimento na produção de espaços coletivos para que seja possível o lazer, debates, produção de alimentos, educação, religiosidade etc (Reis; Filho; Rabelo, 2019).
A conquista de uma escola verdadeiramente ligada à filosofia do MST, e construída por seus militantes, foi um dos aspectos de maior relevância trazido nas falas dos entrevistados. A escola, não obstante, é parte integral na disseminação da Agroecologia e do projeto de reforma agrária popular no ADG, e se configura como um dos elementos concretos, materializados no assentamento, de importância central para a consolidação deste território da reforma agrária popular na Zona da Mata Mineira.
EDC relata que a escola adotou as perspectivas dos programas do movimento, como o Programa “Mãos Solidárias” e o Programa “Plantar Árvores, Produzir Alimentos Saudáveis”, e foi sede para a realização de seminários com a comunidade assentada, como o Seminário Paulo Freire, que contribuíram para solidificar a Agroecologia no Projeto Político Pedagógico (PPP) da E. E. Carlos Henrique Ribeiro dos Santos, e no assentamento em geral. Nas palavras dela, “A Agroecologia começa a tomar forma no Dênis” (Diário de Campo, 08/04/2025).
Este cenário se relaciona fortemente com a forma em que a escola propaga a agroecologia no assentamento, especialmente com a juventude assentada, contribuindo para mitigar efeitos negativos do dilema da sucessão na agricultura familiar e da permanência da juventude no campo (Foguesatto et al., 2020). Iniciativas da comunidade escolar, como a criação do Núcleo de Compostagem Agroecológica e Manejo de Produtos Orgânicos (NuCampo), têm gerado processos de conquista de autonomia e geração de potencial econômico para os jovens envolvidos, além de disseminarem, por meio de oficinas, as práticas agroecológicas, gestadas no núcleo, para o assentamento como um todo.
Durante essa época, no ano de 2018, há uma intensificação da indicação de jovens do assentamento, por meio da escola, para cursos em convênio com o PRONERA e para as Escolas Família Agrícola (EFAs), para formações de grande importância para o fomento da cultura do cooperativismo e da Agroecologia no território. Esse momento, citado no Rio do Tempo, marca ainda outra importante estratégia para a consolidação da agricultura familiar no ADG, com impactos surtindo efeito até os dias atuais, demonstrando mais uma vez o papel central do movimento e da escola do campo como articuladores dos processos locais:
TSG também comenta, reforçando um ponto abordado por CCZ, que estas famílias também têm filhos estudando no regime de alternância em cursos técnicos e de nível superior, em parcerias do movimento com as EFAs (Escolas Família Agrícola) e com o Pronera em cursos de graduação, ao redor do país, de grande importância não somente para a COOPAC mas para o assentamento como um todo, como reforçam TSG e CCZ, em momentos distintos. TSG elenca cursos como Gestão de Cooperativas, Técnico em Agroecologia, Agronomia com ênfase em Agroecologia. Os filhos participam do trabalho exercido na COOPAC, nos seus mais diferentes setores, quando estão no território, em um movimento possibilitado pela Pedagogia da Alternância (Diário de Campo, 19/05/2025).
Considerações finais
O presente artigo procurou descrever e analisar a importância da auto organização das famílias para o estabelecimento do assentamento, das experiências de organização em grupos produtivos como as cooperativas e da mobilização pela escola do campo, como marcos que evidenciam estratégias desenvolvidas no território que fortalecem as construções coletivas, a agroecologia e a cultura camponesa no território. Existem diversos outros elementos nestes 15 anos de história acumulada no Assentamento Dênis Gonçalves que não puderam ser abordados no presente artigo.
Os achados da pesquisa buscaram evidenciar uma experiência bem sucedida de construção coletiva de implantação de um assentamento, desde o parcelamento participativo dos lotes, pautado na organicidade e na autocoletivização, podendo servir de inspiração para outros contextos ao redor do país. Isso porque o contexto da auto organização é semelhante a outras realidades, nas quais as famílias também recebem pouco ou nenhum apoio institucional para implantação e consolidação do assentamento. Portanto, o papel do movimento em estabelecer princípios organizativos e das próprias famílias nos processos cotidianos é fundamental.
A despeito das dificuldades inerentes a esse processo, a comunidade se organizou para definir coletivamente o parcelamento e como ocupar áreas mais desafiadoras em termos produtivos e de infraestrutura como o Núcleo da Serra. Considerou também a trajetória das famílias, seus conhecimentos e aptidão agrícola. Em um segundo momento, foram analisadas as formas de organização da produção e da comercialização, com destaque para a CPA e para as cestas, elementos centrais para a organização da produção, da comercialização e da renda. Por fim, a escola como espaço crucial de formação e de atividades que contribuem para a construção da agroecologia e para fortalecimento da juventude no assentamento.
O Assentamento Dênis Gonçalves mostra, sob o prisma de sua constituição histórica, como a socialização dos meios de produção no campo e de seus bens naturais pode representar um novo paradigma de estruturação social do campo brasileiro. Os frutos da consolidação deste território da reforma agrária se devem, justamente, aos seus esforços de organização interna. Como EDC trouxe nas entrevistas: “Quanto mais se avança na organização, mais se avança em tudo”, nas suas palavras10.
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