Open-access O desaparecimento do centro ideológico no sistema partidário brasileiro: a classificação mais atualizada dos experts1,2

The disappearance of the ideological center in the Brazilian party system: the most recent classification by experts

La desaparición del centro ideológico en el sistema partidario brasileño: la clasificación más actualizada de los expertos

La disparition du centre idéologique dans le système partisan brésilien : la classification la plus récente des experts

Resumo

As pesquisas que classificam partidos políticos ideologicamente no Brasil enfrentam o mesmo problema: não conseguem abranger todas as legendas existentes. Este artigo apresenta os resultados de uma classificação que inclui todos os partidos brasileiros em duas rodadas realizadas em anos eleitorais (2018 e 2022). Por meio de um questionário online aplicado à comunidade de cientistas políticos brasileiros e brasilianistas, os partidos foram posicionados em uma escala ideológica de onze pontos. O principal achado é o desaparecimento do centro ideológico, resultado de incentivos institucionais discretos e da elasticidade do sistema partidário. Observa-se que o programatismo permanece concentrado entre os partidos de esquerda, enquanto o fisiologismo se mantém predominante à direita. De forma geral, a polarização ideológica aumentou no período analisado, impulsionada tanto pela ação de partidos com identidade programática forte quanto pela influência de lideranças carismáticas.

Palavras-chave:
classificação ideológica partidária; sistema partidário brasileiro; polarização política; federações partidárias; pesquisas com especialistas


Abstract

Studies that classify Brazilian political parties by ideology face the same problem: they are unable to include all existing parties. This article presents the results of a classification that encompasses all Brazilian parties in two electoral years (2018 and 2022). Through an online survey conducted with the community of Brazilian political scientists and Brazilianists, parties were placed on an eleven-point ideological scale. The main finding is the disappearance of the ideological center, resulting from subtle institutional incentives and the elasticity of the party system. Programmatic alignment remains concentrated among left-wing parties, while fisiologismo (clientelistic pragmatism) is predominant on the right. Overall, ideological polarization has intensified, driven by the action of parties with strong programmatic identity and the influence of charismatic leadership.

Keywords:
party ideological classification; Brazilian party system; political polarization; party federations; surveys of experts

Resumen

Todas las investigaciones que clasifican ideológicamente a los partidos políticos en Brasil enfrentan el mismo problema: no logran abarcar a todos los partidos existentes. Este artículo presenta los resultados de una clasificación que incluye a todos los partidos brasileños en dos años electorales (2018 e 2022). Se aplicó una encuesta en línea a la comunidad de politólogos brasileños y brasilianistas, en la cual los partidos fueron ubicados en una escala ideológica de once puntos. El principal hallazgo es la desaparición del centro ideológico, resultado de incentivos institucionales sutiles y de la flexibilidad del sistema partidario. La alineación programática sigue concentrada en la izquierda, mientras que el fisiologismo predomina en la derecha. En conjunto, la polarización ideológica se ha intensificado, impulsada por partidos con identidad programática definida y por el liderazgo carismático.

Palabras clave:
clasificación ideológica partidaria; sistema partidario brasileño; polarización política; federaciones partidarias; encuestas de expertos

Résumé

Toutes les recherches qui classent idéologiquement les partis politiques brésiliens rencontrent le même problème : elles ne parviennent pas à inclure l’ensemble des partis existants. Cet article présente les résultats d’une classification qui couvre tous les partis brésiliens sur deux années électorales (2018 e 2022). Un questionnaire en ligne a été soumis à la communauté de politologues brésiliens et de spécialistes du Brésil, afin de positionner les partis sur une échelle idéologique de onze points. Le principal constat est la disparition du centre idéologique, conséquence d’incitations institutionnelles discrètes et de l’élasticité du système partisan. L’ancrage programmatique reste concentré à gauche, tandis que le clientélisme domine à droite. Globalement, la polarisation idéologique s’est accentuée, portée par les partis à forte identité programmatique et l’influence de leaders charismatiques.

Mots-clés:
classification idéologique partisane; système partisan brésilien; polarisation politique; fédérations partisanes; enquêtes d'experts

Introdução

Este artigo explora as razões pelas quais partidos políticos alteram suas posições ideológicas ao longo do tempo. Embora um estudo longitudinal de longo prazo seja ideal para traçar evoluções ideológicas, sugerimos que fatores como a influência de lideranças carismáticas e a proximidade com âncoras ideológicas podem impulsionar mudanças nas posições partidárias. As evidências aqui apresentadas contribuem para o debate, mas não o esgotam. A teoria partidária estabelece que as principais causas de mudança nos partidos políticos são as transformações sociais em larga escala e as derrotas eleitorais (Gauja, 2017). Contudo, essa mesma linha teórica indica que alterações sutis podem ter impactos significativos no comportamento e na percepção das organizações (Harmel; Janda, 1994). Assim, nossos resultados demonstram como pequenas modificações, tanto no comportamento individual dos partidos quanto no ambiente institucional em que atuam, podem influenciar a percepção de suas posições ideológicas.

A classificação ideológica de partidos políticos possui diversas utilidades práticas, entre as quais a compreensão das relações entre partidos e sociedade. Essa relação se manifesta, em última instância, pela visão de mundo que cada partido adota. Além disso, transformações nas ideologias partidárias refletem movimentos de adaptação ou confronto com os contextos históricos em que essas agremiações estão inseridas. Sendo o partido a organização primordial na mediação entre sociedade e Estado (Panebianco, 2005), o conhecimento das principais bandeiras de cada legenda permite identificar as opções de representação disponíveis e, consequentemente, subsidiar as escolhas dos eleitores e o processo de fiscalização da atuação partidária nos governos. Assim, o objetivo central aqui é apresentar uma nova classificação ideológica dos partidos brasileiros com base na opinião de especialistas.

A localização dos partidos políticos em um espaço ideológico comum facilita a compreensão da dinâmica competitiva nos sistemas partidários, especialmente em estudos comparativos entre países ou regiões (Katz, 2020; Mair, 2001). Esse posicionamento é crucial para identificar padrões de alianças partidárias em disputas eleitorais ou na formulação de políticas públicas. Adicionalmente, permite a realização de testes de congruência entre eleitores e partidos, avaliando empiricamente a efetividade da representação política em democracias. Por fim, o entendimento das propostas partidárias elucida as aspirações da sociedade para sua democracia, a relevância de certas agendas na formulação de políticas de Estado que moldam as demandas sociais, e as formas de aprimorar a participação cidadã.

Este artigo está dividido em três seções. A primeira discorre sobre problemas metodológicos, abordagens e vantagens da classificação de partidos políticos em democracias. Em seguida, são apresentados dados da classificação de todos os partidos políticos brasileiros registrados no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em julho de 2022, com comparações, quando viável, com uma classificação de julho de 2018. Por fim, propomos uma agenda de pesquisa comparada e demonstramos a utilidade da pesquisa sobre ideologia partidária para além do escopo deste artigo.

Como se classificam partidos espacialmente

Os métodos e técnicas para posicionar partidos políticos no espectro ideológico são amplamente conhecidos. Nesta seção, apresentamos um breve inventário dos desafios inerentes à aplicação de cada um desses métodos. Na seção subsequente, justificamos o recurso a especialistas como uma alternativa viável e válida para a análise do sistema partidário brasileiro.

Primeiramente, é fundamental definir o que se pretende mensurar e como, estabelecendo a relação entre conceito e método de medição. Neste artigo, ideologia é compreendida como uma simplificação abstrata de um conjunto de valores, visões de mundo e práticas que os partidos políticos percebem e manifestam em diversas arenas (Bolognesi, 2024). Os partidos expressam sua ideologia durante as campanhas eleitorais, no exercício de cargos governamentais, na proposição e execução de políticas públicas, nos materiais de divulgação partidária e no comportamento de seus representantes. Contudo, pode haver uma dissonância entre a ideologia declarada por um partido e a forma como ela é percebida, uma vez que a mensagem passa por múltiplas etapas até chegar ao seu público e pode ser influenciada pela conjuntura política (Yeung; Quek, 2025).

O primeiro desafio reside em determinar se a dicotomia esquerda-direita é suficiente para descrever com precisão as posições partidárias e distinguir os partidos entre si. Essa tarefa é particularmente complexa, visto que a ideologia não é um conceito unidimensional. Não é possível bem exprimir esquerda e direita tendo em conta uma única variável para distingui-las (Heywood, 2010; Lewis; Lewis, 2023). Especialmente em democracias industriais avançadas, conceitos como liberalismo, conservadorismo, ambientalismo etc. abundam na descrição das posições políticas dos indivíduos e organizações para além da baliza esquerda-direita. Ainda que se possa argumentar que esquerda e direita contêm as demais posições programáticas, isso não é verdade quando olhamos os partidos políticos na prática e constatamos a inconsistência entre liberalismo e esquerdismo que está presente, por exemplo, nos partidos verdes (Poguntke, 1989). Portanto, a primeira conclusão é que a ideologia partidária é um conceito multidimensional. Ou seja, múltiplas camadas e dimensões podem coexistir e diferenciar partidos políticos para além da escala linear entre esquerda e direita. Dessa forma, as categorias de esquerda e direita, por si só, não são suficientes para sintetizar as posições políticas das legendas partidárias. Seria necessário um estudo mais aprofundado que considerasse também as posições dos partidos em relação a aspectos como liberalismo, conservadorismo, secularismo ou apelo confessional (Gunther; Diamond, 2003). Mas esse movimento é de alta intensidade e custo, o que o torna inviável para mensurarmos os mais de trinta partidos políticos que temos no Brasil. Além disso, os conceitos precisam manter certa comparabilidade, não serem elásticos ao ponto de romperem seu significado (Sartori, 1991). Ainda que sejamos capazes de afirmar que esquerda ou direita na América Latina não significam exatamente a mesma coisa que seu sentido originário europeu, as posições dispostas entre si são capazes de separar os partidos políticos quando olhamos para eles de modo comparado e restrito ao mesmo contexto institucional e político. Isso permite que falemos sobre esquerda e direita no Brasil e que tentemos validar nossos dados com outras investigações comparadas, mas não nos autoriza, por exemplo, a exportar nossos dados e compará-los com partidos classificados em outros países.

Nossa investigação se diferencia por não buscar uma classificação intrínseca de cada legenda partidária. Em vez disso, solicitamos aos entrevistados que posicionassem os partidos políticos na escala esquerda-direita, indicando o grau de proximidade de cada um em relação a esse ponto ideal. Ainda que vignettes possam ser utilizadas para esclarecimento do que nós entendemos como esquerda, centro-direita ou centro, consideramos que uma das vantagens de mobilizar experts é seu conhecimento aprofundado sobre tais categorias. Ou seja, a abordagem metodológica proposta inverte a lógica da literatura tradicional, que se concentra na compreensão dos partidos individualmente, para focar no comportamento das categorias de esquerda e direita ao longo do tempo e na forma como os partidos se aproximam ou se afastam delas.

O segundo problema é se o conceito de ideologia partidária pode ser mensurado com alguma precisão. A operacionalização conceitual envolve um entendimento comum do que está sendo mensurado e de como cada respondente entende aquela forma de mensuração. Nesse sentido, os conceitos de esquerda e direita partidárias não parecem ser um problema grave para experts versados em Ciência Política. Imaginamos que, em comparações entre países, o controle apenas pela formação dos colegas seja insuficiente, mas em se tratando apenas de Brasil, temos confiabilidade razoável para dizer que as respostas apresentam comportamento homogêneo, como se verá na tabela 1 abaixo, e que as variações são normalmente distribuídas (Landman, 2000; Newton; Van Deth, 2010; para uma análise pormenorizada, ver Bolognesi, 2024). Ou seja, não parece que temos algum problema de viés sistemático que comprometa a mensuração do conceito, já que os partidos possuem consistência ideológica dentro de suas posições. Além disso, quando comparados os resultados de expert surveys com outras técnicas de pesquisa, encontramos alta validade externa, o que robustece os achados aqui apresentados (Tarouco; Madeira, 2015).

Tabela 1
Descritivas da ideologia média dos partidos políticos brasileiros 2018-2022

Superadas as dificuldades abstratas, como podemos, na prática, mensurar e entender a ideologia de um partido político?

A abordagem mais comum para determinar a posição ideológica de um partido político (esquerda ou direita) consiste em questionar seus membros — simpatizantes, filiados, burocratas e representantes — sobre o posicionamento do partido em uma escala pré-estabelecida (Power; Zucco Jr., 2009; Zucco Jr., 2011). O uso de escalas nesse tipo de investigação é especialmente útil, já que se espera que os membros do partido possuam maior conhecimento sobre o ambiente político e tenham noções sobre o que significa um partido pertencer a um campo ou a outro. Diferente de outros métodos que mobilizam perguntas de conteúdo, as escalas tentam reduzir dados objetivando a análise e facilitando a codificação da ideologia por intensidade. Elas podem variar de acordo com a percepção do pesquisador sobre a variabilidade desejada, estimando escalas de sete, dez, onze ou até vinte pontos. Em nossa pesquisa, por exemplo, contamos com uma escala de onze pontos para garantir alguma gradação ao fragmentado sistema partidário brasileiro e permitir a existência de um centro ideológico real em que respondentes pudessem alocar os partidos políticos.

Porém, nem sempre as escalas são suficientes para entender o conteúdo ideológico que elas representam. Questões auxiliares ou substantivas sobre o que os partidos estabelecem acerca de determinados issues podem ser feitas para ganhar em compreensão a respeito do que se entende por esquerda ou por direita. Exemplos como a legalização do aborto, a descriminalização das drogas, a intervenção do Estado na economia, ou as posições sobre pena de morte e porte de armas são fundamentais para conferir substância empírica às análises. Tais temas permitem captar com maior precisão as orientações programáticas dos partidos, oferecendo um conteúdo ideológico mais denso e verificável do que aquele revelado por escalas abstratas e unidimensionais. A combinação entre o uso de escalas abstratas e questões de conteúdo ideológico facilita não só a compreensão do que esquerda e direita representam, mas também aumenta a comparabilidade dos dados, como, por exemplo, questões que possuem sentidos semelhantes em diferentes países, como a descriminalização de drogas, que usualmente está associada às posições mais à esquerda independentemente do país. Esse conteúdo permite que falemos em uma esquerda semelhante em algum nível e que possamos comparar posições objetivas entre objetos diferentes (Power; Zucco Jr., 2009).

A grande vantagem de abordar os membros diversos de um partido político é saber a posição ideológica do mesmo pelos olhos de quem faz o partido no dia a dia, quem toma as decisões em nome da legenda e quem, em última instância, será punido pelas consequências de suas posições. Portanto, é razoável supor que extrair ideologia partidária desde filiados, representantes ou burocratas de um partido político possui validade incontestável. No entanto, o problema dessa abordagem é que nem sempre tais posições são “honestas”. Os membros de um partido frequentemente estão sujeitos às pressões de fazer parte do governo ou da oposição, dos interesses de seus eleitores, do momento político de um país ou mesmo dos financiadores de seu partido.

Uma técnica que vem ganhando destaque, especialmente entre estudiosos de partidos europeus, é aquela baseada na análise dos materiais produzidos pelas próprias legendas, como manifestos e programas partidários. A partir da mensuração de termos, quase-sentenças e palavras-chave, essa abordagem busca identificar padrões discursivos que, quando agregados, permitem estimar a posição das legendas na escala ideológica direita–esquerda (RILE). Há um constante debate sobre quais são as melhores ponderações e de que forma os documentos devem ser sobrepesados (Benoit; Laver, 2007; Budge; Pennings, 2007).

Duas formas distintas dominam os meandros dessa classificação dos partidos políticos. Wordfish é a técnica mais atualizada, que independe de um livro de códigos para que se analise o peso ideológico de um documento partidário. Ainda se fazendo valer de uma referência externa, o Comparative Manifesto Project (CMP) classifica os documentos de partidos a partir de um dicionário de termos que é analisado por codificadores humanos e elabora uma escala que varia de esquerda para direita através da subtração de frequência de quase-sentenças.

Mais recentemente, técnicas computadorizadas e automatizadas têm produzido resultados interessantes ao estabelecer diferentes formas de combinar profundidade e amplitude para mensurar ideologia. Ainda são pouco aplicadas para a área de partidos políticos, mas já têm apresentado produtos promissores que conseguem combinar fontes e dimensionar pesos para estabelecer medidas ponderadas de ideologia. O uso de inteligência artificial tem rendido alguns resultados na classificação ideológica para casas legislativas (Figueredo; Mueller; Cajueiro, 2022), e, recentemente, um estudo mobiliza a inteligência artificial para tanto, mas é o primeiro que encontramos com essa técnica e que confirma também a validade de expert surveys ao analisar o caso francês (Bol; Bono, 2025).

O terceiro obstáculo diz respeito à utilização do comportamento partidário como referência para entender se se insere mais à esquerda ou à direita no espectro ideológico, em função das alianças feitas pelo partido durante a campanha eleitoral (Krause; Dantas; Miguel, 2010) ou pelas políticas públicas que defende quando na atividade legislativa (Imbeau; Pétry; Lamari, 2001; Scheeffer, 2016). Contudo, as alianças eleitorais, o voto no parlamento ou a política pública sustentada na agenda governamental podem ser respostas aos eleitores, à atuação do partido na oposição, uma estratégia eleitoral ou mais de uma dessas coisas combinadas. Isso dificulta realizar análises livres de viés e que sejam capazes de captar com acurácia as posições dos partidos políticos.

Por fim, temos a questão das origens históricas dos partidos como fonte de ideologia, como sua ligação com movimentos sociais, sindicatos, igrejas e religiões, empresas ou parlamentos. O modelo genético sempre possui um papel em definir os rumos programáticos de uma legenda partidária (Panebianco, 2005). Por um lado, partidos ligados a sindicatos, por exemplo, tendem a ser associados à esquerda na medida em que frequentemente defendem direitos trabalhistas, como o caso do Labour britânico ou do partido Obrero espanhol. Por outro lado, partidos ligados a origens cristãs tendem a apresentar posições de centro e centro-direita, como a Democracia Cristã no Chile, na Alemanha e na Itália. Já partidos alinhados com setores empresariais, como o Novo no Brasil e o italiano Forza Italia, tendem a defender ideais liberais econômicos e posturas morais conservadoras. Ainda, é possível, como sustenta Bonica (2013), classificar os partidos políticos a partir de “quem paga a conta”, ou seja, a partir dos doadores do partido, quando os dados permitem, como no caso dos Estados Unidos. O problema dessa abordagem é que nem sempre há dados disponíveis para classificação dos partidos segundo seus financiadores. Ou ainda, os partidos políticos passam por tantas mudanças desde suas fundações que remontar à história do mesmo a fim de entender sua ideologia se torna um empreendimento em si mesmo.

São muitas opções para classificar partidos políticos a partir de sua ideologia. Cada uma com suas vantagens e desvantagens. O uso de survey e de experts no nosso caso possui duas justificativas empíricas para além das apresentadas na introdução. A primeira é que seria impossível classificar todos os partidos brasileiros com qualquer uma das técnicas acima. Seja porque alguns partidos não possuem representantes, seja porque outros nunca participaram de governos ou oposições, seja porque alguns partidos são inteiramente financiados com dinheiro público. A segunda é que a mobilização de experts permite que façamos uma investigação que pode ser comparada longitudinalmente independente das mudanças no sistema partidário. Assim, como um investimento de médio prazo, entendemos que essa opção revela alta validade com baixo investimento financeiro, o que é fundamental se queremos dados sustentáveis ao longo do tempo.

Duas ondas de classificação dos partidos políticos brasileiros: a vantagem dos experts

O objetivo desta seção é testar a hipótese de que partidos programáticos de grande porte funcionam como âncoras espaciais no processo de classificação ideológica, influenciando a localização das demais agremiações no espectro partidário. Na mecânica da hipótese, como postulada por Laver (2001), o classificador utiliza os grandes partidos programáticos de seu país como referência para posicionar os demais, e esse comportamento seria captado ao longo dos anos, com pequenas mudanças na posição dos “âncoras”, de quem é esperada certa estabilidade, ou com mudanças que acompanham o movimento dos partidos âncoras por seus satélites. Por exemplo, um grande partido de esquerda que permanece com sua posição inalterada coloca ao mesmo tempo partidos com ideologia próxima em posições que guardam pouca distância dele e partidos com ideologia oposta em grandes distâncias; contudo, as posições, salvo excepcionalidades, permanecem estáticas. Já se um grande partido programático se movimenta, é esperado que partidos com ideologia próxima se movimentem junto com ele, na mesma direção, e que partidos de ideologia diversa se afastem do âncora. Portanto, apenas a comparação entre mais de uma onda de mensuração da ideologia dos partidos políticos é capaz de oferecer resposta para essa questão política e metodológica.

Contudo, duas condições são necessárias para que essa dinâmica de ancoragem ideológica se concretize. A primeira delas é que os partidos possuam, ao menos, alguma definição programática, isto é, uma “tonalidade ideológica” mínima. Partidos de perfil predominantemente fisiológico tendem a se mover conforme as marés conjunturais, e não em torno de âncoras ideológicas. Em um sistema partidário como o brasileiro, amplamente ocupado por legendas de baixa saliência programática, é de se esperar uma elevada volatilidade nas posições ideológicas. Contudo, essa oscilação pode ser motivada por outros fatores, como a captura do partido por uma liderança carismática, conjunturas políticas específicas, crises que demandam respostas rápidas, eventos extremos como desastres naturais ou até mesmo guerras (Husted, 2020; Kitschelt, 1995). A segunda condição é que não haja no sistema a entrada de novos partidos que possam alterar a atuação pretérita dos pares como referência. A chamada volatilidade externa (Peres; Ricci; Rennó, 2011) ocorre quando um ator relevante (Sartori, 1980) toma espaço no sistema partidário e altera as posições dos demais, coisa que não ocorreu entre 2018 e 2022 no Brasil, ainda que, como sempre, algum partido tenha sido criado (no caso, o União Popular – UP).

Mesmo que não seja uma condição, um facilitador é que partidos de centro podem flutuar mais livremente, ora para a esquerda, ora para a direita, a depender do contexto, então são bons indicadores do peso de partidos programáticos quando a estes se aliam por uma razão ou outra. Por isso, especial atenção será dada ao movimento dos partidos que foram posicionados ao centro na rodada anterior da pesquisa.

Como discutido na seção teórica, a utilização de especialistas apresenta diversas vantagens para a classificação ideológica de partidos políticos. A principal delas, especialmente no contexto brasileiro, é a capacidade de cobertura. Nenhuma outra técnica permite captar, com validades interna e externa minimamente aceitáveis, o posicionamento de um número tão elevado de legendas — mais de trinta agremiações registradas no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Trata-se, portanto, de um instrumento particularmente adequado para contextos de alta fragmentação partidária.

Os estudos com experts tiveram início na década de 1970, quando o primeiro expert judgement foi feito por Morgan (1976) ao mobilizar 160 especialistas para posicionar partidos de diferentes países em múltiplas dimensões num score que variava de 0 a 100. O resultado da pesquisa permitiu fazer comparações entre vários países e validar a escala esquerda-direita como uma dimensão importante para a análise partidária. Mas o estudo era bastante limitado em suas conclusões, justamente pela operacionalização do questionário e da amostra. Já em 2022 nós temos a vantagem de poder contar com meios digitais que facilitam o controle do universo de respondentes e suas respostas, permitindo que nossa taxa de retorno seja relativamente elevada.

Para isso foram enviados questionários para 978 cientistas políticos que faziam parte da lista de cadastro da Associação Brasileira de Ciência Política (ABCP7). A taxa de retorno em 2022 foi de 48,8%, mais do que dez pontos menor do que a experimentada na onda anterior do survey. A taxa de completude do questionário também caiu quatro pontos percentuais, mesmo que o total de partidos classificados tenha se reduzido de 35 para 32 legendas. Algo que pode explicar esse desempenho inferior é a friction, comum em estudos de painel ou longitudinais como o nosso. Uma parte dos respondentes que frequentemente colabora com a pesquisa acaba se cansando de responder às mesmas perguntas ou então deixa de classificar determinadas legendas por simples fatiga. Ainda que isso possa ter ocorrido, em nada invalida os resultados obtidos pela pesquisa, que é no que iremos nos concentrar.

Como toda pesquisa de opinião, levantamentos com especialistas também enfrentam limitações. Além das já mencionadas, um dos principais desafios reside justamente no alto grau de familiaridade dos respondentes com o objeto em questão — neste caso, os partidos políticos. Esse conhecimento aprofundado, embora seja uma vantagem em muitos aspectos, pode introduzir vieses, na medida em que a avaliação dos cientistas políticos reflete uma percepção técnica e nuançada, possivelmente distante da forma como os partidos buscam ser compreendidos pelo público em geral. Em outras palavras, enquanto os especialistas tendem a analisar os partidos com base em sua trajetória, coerência programática e desempenho institucional, as próprias legendas estão frequentemente mais preocupadas com sua imagem perante o eleitorado e com estratégias de comunicação imediata, e não com a consistência analítica de sua atuação (Mair, 2001).

Um problema frequente é assegurar a comparabilidade dos conceitos mensurados, seja porque existe grande variabilidade no entendimento do mesmo conceito entre diferentes expertos, seja porque termos e abstrações possuem significados diferentes conforme países e regiões em que se aplicam os questionários. No caso de nossa pesquisa, essa variação é mitigada por três fatores: a pesquisa se restringe a um único país, não encontramos diferenças estatisticamente significativas entre especialidades de experts na classificação dos partidos e os partidos políticos brasileiros tendem a ser mais nacionalizados do que em outros países. O primeiro elemento, a restrição ao Brasil, evita que precisemos mobilizar vignettes o tempo todo para garantir que esquerda e direita sejam entendidas conforme o debate público do momento (Tarouco; Madeira; Vieira, 2022).

O segundo problema simplesmente não ocorreu, ainda que possa ser possível encontrá-lo em outras rodadas da pesquisa. Num teste de comparação de médias em que consideramos a especialidade de cada grupo de cientistas políticos pela vinculação à área de atuação (se instituições políticas, eleições e representação política, comunicação e política, comportamento político, gênero, políticas públicas etc.), não foram encontradas, nem em 2018 nem em 2022, diferenças estatisticamente significativas entre a classificação dos partidos realizada por um grupo ou por outro. Portanto, assumimos que o grau de especialidade não afeta a forma com que os experts classificam os partidos políticos.

Quanto ao terceiro fator — o grau de homogeneidade da feição dos partidos em âmbito nacional —, os próprios partidos, por um lado, podem se apresentar de forma muito diferente a depender da região ou estado da federação em que atuam, remontando à tese da regionalização do sistema partidário brasileiro (Lima Júnior, 1997). Por outro lado, esse comportamento tende a ser cada vez mais residual, pois os partidos estão mais e mais dependentes de lideranças nacionais e recursos públicos, o que faz com que elites estaduais tenham menos autonomia para implementar uma feição própria ao seu partido (Bolognesi et al., 2020; Borges, 2010; Santos, 2013). Peter Mair considera que

[a] precisão — e a consistência — com que um partido pode ser posicionado em um dado espaço político é uma função da saliência daquela posição política do partido em questão. Assim, determinar a localização dos partidos numa escala política é mais significativo para alguns partidos do que para outros (2001, p. 12; tradução nossa8).

Ou seja, esperamos que alguns partidos possuam clareza em sua localização no espaço político de um país, o que reforça nossa hipótese sobre o peso de âncoras programáticas como referências para outros partidos que possuem baixa saliência e são classificados em contraposição às âncoras. Isso é especialmente verdade para partidos com baixa programaticidade, os quais pululam no caso brasileiro (Bolognesi; Babireski; Maciel, 2019). Partidos com baixa saliência política devem apresentar altas taxas de não resposta e/ou altos coeficientes de variação, apontando não a inconsistência dos entrevistados, mas sim dos próprios partidos que possuem dificuldades em se apresentar como um corpo coeso e minimamente ideológico.

Mas então por que mobilizar experts, já que tantos problemas podem ocorrer com a coleta e obtenção de resultados confiáveis?

Em primeiro lugar, há uma clara tentativa de manter a classificação dos partidos políticos atualizada e aumentar o shelf-life dos dados, mas não pretendemos com isso fazer com que a classificação viaje no tempo e possa ser utilizada para extrapolação em anos anteriores ou posteriores, evitando problemas de validade temporal (Mair, 2001; Sartori, 1991).

Em segundo lugar, porque o uso contínuo de mensurações comparáveis e técnicas de pesquisa similares permite acompanhar movimentos do sistema partidário como um todo. As pesquisas sobre ideologia partidária têm mostrado, por exemplo, que o constante crescimento da fragmentação partidária tende a levar à polarização política. Isso ocorre pelo simples fato de que quanto mais partidos o expert tem nas suas mãos para posicionar, mais espaço na reta ideológica ele tomará para diferenciar os partidos, fazendo com que as posições mais nas pontas da reta sejam ocupadas em maior ou igual probabilidade que as de centro (Bolognesi; Ribeiro; Codato, 2023; Mair, 2001). Ou seja, a simples fragmentação do sistema de partidos pode levar à extremização e à polarização. Mair encontra o mesmo: a adição de três partidos por sistema partidário aumenta em média dois pontos de polarização, quando comparando diferentes países e controlando apenas pelo número de partidos classificados9.

Já os achados sobre mudanças de posição tendem a ser raros em outras partes do mundo (Dalton; McAllister, 2015, p. 769). As mudanças na posição ideológica dos partidos usualmente estão ligadas ao processo de adaptação para busca de votos.

Também, é preciso ter o cuidado em não se confundir posições políticas com posições ideológicas. Ainda que a primeira possa conter a segunda, elas podem não ser a mesma coisa. Há um acúmulo teórico sobre o comportamento competitivo dos partidos políticos que mostra com clareza que a diferenciação que eles apresentam é dada por mais de uma dimensão, sendo um espaço composto por múltiplas facetas políticas (Converse, 2006; Strom, 1990). Ou seja, a percepção de que é possível separar os partidos políticos levando em conta somente a reta esquerda-direita é uma redução do universo com que os partidos trabalham e de que lançam mão para competirem entre si. Por exemplo, um partido religioso pode ter posições ocultas, ou menos salientes, sobre a economia, e ainda assim competir a partir da matriz religiosa-confessional com outros partidos que possuem posição clara sobre a economia. Há o que o partido é e o que o partido diz que é. Assim, muitas vezes o julgamento de experts leva em conta a origem histórica do partido, ou sua ligação com setores sociais a despeito do que o partido esteja fazendo quando governa ou atua em campanhas eleitorais. Isso cria uma camada a mais para tomar as posições ideológicas dos partidos como valor de face. A abstração entre o partido em si, a sua base de eleitores, os líderes do partido e o comportamento partidário raramente poderá ser sintetizada numa reta que solicita que os partidos sejam posicionados sumariamente num ponto único (Bartolini, 1999). Isso não invalida o exercício, mas apenas aponta que esse é um passo inicial e que investigações que tentem relacionar a classificação exposta aqui e outras esferas dos partidos são necessárias e bem-vindas.

Apesar das limitações inerentes, pesquisas com especialistas possuem legitimidade e peso analítico amplamente reconhecidos. Além de bem informados e metodologicamente treinados, experts operam a partir de referenciais científicos, o que confere maior confiabilidade às suas avaliações. Ademais, por estarem atualizados e menos vulneráveis a distorções decorrentes de lapsos de memória ou da influência de eventos passados, os especialistas são capazes de captar com precisão o posicionamento contemporâneo das legendas. Do ponto de vista operacional, a mobilização desse público é consideravelmente mais ágil e econômica do que outras estratégias de pesquisa, que frequentemente exigem amostras amplas, aplicação extensa de questionários e recursos financeiros significativos. Por esses motivos, a abordagem adotada aqui se mostra não apenas metodologicamente sólida, mas também viável e promissora para a construção de séries comparativas ao longo do tempo.

Resultados

Inicialmente apresentamos os dados descritivos obtidos através do survey junto à comunidade de cientistas políticos. A tabela 1 mostra como ficou a classificação média de cada partido político para os anos de 2018 e de 2022, bem como a quantidade de não respostas (NR) e o coeficiente de variação (CV) de cada partido em relação a sua ideologia.

Os dados descritivos nos permitem ter uma noção pormenorizada de como foi o comportamento de cada legenda entre um ano eleitoral e outro, para onde caminharam individualmente e, também, como se comportaram os respondentes diante do esforço em classificar todos os partidos brasileiros. Em seguida, elaboramos uma análise dos dados tentando focar em possíveis explicações e apresentar as evidências que testam a hipótese sobre os grandes partidos programáticos como âncoras ideológicas (Laver, 2001).

Antes de qualquer análise, precisamos esclarecer alguns pontos técnicos e decisões tomadas para a comparação das duas ondas e das mudanças na ideologia partidária que ocorreram nesses quatro anos. O primeiro é sobre classificar os partidos em posições ideológicas categóricas: nossa agregação coloca os partidos que têm sua posição média entre 0 e 1,5 como extrema esquerda, entre 1,51 e 3 como esquerda, entre 3,01 e 4,49 como centro-esquerda, entre 4,5 e 5,5 como centro, entre 5,51 e 7 como centro-direita, entre 7,01 e 8,5 como direita e entre 8,51 e 10 como extrema direita. O uso do termo “extrema” aqui não leva em conta o aspecto antissistema que pode estar contido nos partidos associados com essa categoria ideológica (Mudde, 1996; Ribeiro, 2003; Sartori, 1980). Trata-se apenas de uma agregação da medida atribuída na reta, sem qualquer análise sobre a atuação política, programática ou organizacional dessas legendas.

O segundo ponto técnico é quanto à fusão de partidos, incentivada pelo fim das coligações proporcionais e pela introdução da cláusula de desempenho eleitoral já nas eleições de 2018. Partidos que foram fundidos tiveram sua ideologia atualizada pela média aritmética das siglas na rodada anterior da pesquisa. Por exemplo, o União Brasil — criado antes do pleito eleitoral de 2022 — para fins comparativos, tem o valor em 2018 como resultado da soma da ideologia média do Democratas com a ideologia média do Partido Social Liberal, dividido por dois. Partidos que somente mudaram de nomenclatura, apenas tiveram esse aspecto atualizado sem que fosse necessária nenhuma correção matemática dos valores da sua ideologia. Já legendas que foram incorporadas por outros partidos, como o caso do Partido Pátria Livre (PPL), incorporado ao Partido Comunista do Brasil (PCdoB), simplesmente não tiveram seus valores ideológicos mobilizados para comparação com os atuais e foram deixados de fora de nossa análise. Novos partidos, como o Unidade Popular (UP), só foram incorporados na análise a partir de sua fundação, deixando a comparação com a rodada anterior impossível.

Chama atenção na tabela 1 o aumento substancial na quantidade de não respostas observadas. Em 2018 foram em média 44,25 não respostas dadas para cada partido político classificado. Esse número salta para 105,71 em 2022. Parte da explicação para esse fato reside na própria dinâmica do sistema partidário e eleitoral brasileiro. As constantes mudanças de nome e rebranding que os partidos executam certamente não auxiliam o classificador na tarefa de posicionar a legenda num espaço contínuo (Lupu, 2014). Por outro lado, mesmo partidos com trajetória ideológica consolidada, como o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) e o Partido dos Trabalhadores (PT), apresentam um crescimento expressivo no número de não respostas por parte dos especialistas. Esse dado, mais do que oferecer respostas conclusivas, suscita novas dúvidas. Uma hipótese plausível para esse fenômeno é a crescente indistinção na atuação parlamentar das legendas. O atual governo (Lula 3) enfrenta dificuldades em estruturar uma coalizão estável e coerente, o que fragiliza a identificação de seus aliados no campo da esquerda. Simultaneamente, a oposição tampouco consegue organizar suas fileiras de forma coordenada. Esse cenário de baixa nitidez partidária compromete a capacidade de especialistas, e também do eleitorado, de reconhecer com clareza os alinhamentos e posicionamentos no tabuleiro político nacional10. Além disso, o sistema partidário brasileiro nos últimos anos sofreu um encolhimento de modo que muitos partidos grandes e outros pequenos caminharam para o meio do estrato e hoje contamos com uma miríade de legendas médias (Zucco Jr.; Power, 2021). Esses fatores tendem a embaralhar as posições dos partidos políticos e colocar em maior dificuldade a vida do expert que respondeu nosso questionário.

Não é incomum que surveys contínuos ou que contem com várias rodadas de aplicação apresentem friction entre os respondentes fiéis. A fadiga é comum para aqueles respondentes que já participaram de ondas de pesquisa com as mesmas perguntas e os mesmos objetos. Contudo, para mensurar esse efeito, teríamos de comparar a taxa de não resposta daqueles que participaram de ambas as rodadas da pesquisa com aqueles que responderam apenas a uma delas. Infelizmente não dispomos desses dados no momento por uma razão bastante simples: as possibilidades de controle de uma break variable11 para comparação poderiam minar o anonimato das respostas, então optamos por deixar essa hipótese em aberto e contar com a nova onda da pesquisa para uma eventual comparação.

Olhando para o impacto agregado das duas classificações, apresentamos a classificação de 2022 ponderada pela posição ideológica dos partidos em 2018 (penúltima coluna na tabela 1). Ou seja, pensamos que não podemos, assim como sustentam Zucco Jr. e Power (2011), supor que cada nova rodada de classificação ideológica de um partido seja independente de sua atuação e posição passada. Para isso fizemos uma ponderação por fator de escala das médias ideológicas de 2022 a partir da média ideológica do mesmo partido em 2018. Calculamos um fator de ajuste, que é a razão entre as classificações de 2018 e 2022. A razão é usada para refletir o quanto as avaliações de 2022 devem ser ajustadas em relação a 2018. Aplicamos o fator de escala para garantir que as avaliações de 2022 sejam ajustadas de acordo com a mudança nas avaliações de 2018, para que a comparação entre os anos seja justa.

Por exemplo, se, por um lado, um partido obteve como média 7 em 2018 e 5 em 2022, supomos que a média de 2022 deva ser ajustada em 1.4 pontos. Isso porque 7 representa 1.4 vezes o valor da média 5 obtida em 2022. Por outro lado, se os valores médios são invertidos e um partido obteve média ideológica 5 em 2018 e 7 em 2022, entendemos que a média de 2022 deva ser ajustada em 0.71 pontos, de modo a se “ajustar” ao valor de 2018. Assim, após o cálculo do fator de ajuste para cada par de partidos em relação às posições em cada ano, multiplicamos o valor médio da ideologia em 2022 pelo fator de ajuste, criando um novo fator de escala que leva em conta a posição dos partidos em 2018 para a posição média dos partidos em 2022.

A ponderação por nós apresentada, uma alternativa à aplicação da ponderação de Poole e Rosenthal (2001), não mostra um cenário muito diferente do que encontramos como resultado em 2022. Ao ponderar a média ideológica de 2022 pela média de 2018 nenhum partido muda de posição ou de categoria na classificação apresentada na última coluna da tabela 1. Talvez isso com o tempo passe a fazer diferença, na medida em que partidos vão montando federações ou o sistema partidário vai se reduzindo, mas, por ora, a ponderação serve apenas para termos uma posição relativa mais acertada que leva em conta o comportamento do partido ao longo do tempo.

Por fim, antes de examinarmos os resultados relativos à posição ideológica dos partidos, é importante destacar que o comportamento do coeficiente de variação (CV) entre as duas ondas da pesquisa manteve-se relativamente estável, sem alterações substantivas. Observa-se, contudo, que os maiores níveis de inconsistência nas classificações continuam concentrados entre os partidos situados à extrema esquerda do espectro político. Legendas como o Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU) e a Unidade Popular (UP) apresentam elevada dispersão nas avaliações dos respondentes, sinalizando dificuldade em atribuir-lhes uma posição ideológica consensual. Essa heterogeneidade pode estar relacionada ao caráter marginal dessas agremiações no cenário eleitoral e à sua identificação com um posicionamento antissistema, o que tende a dificultar classificações mais homogêneas por parte dos especialistas (Ribeiro, 2003; Sartori, 1980). Essa interpretação parece válida na medida em que um partido que está entre os mais ideologicamente extremados, como o Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) tem seu CV baixo, justamente o único entre os de extrema esquerda que encara a disputa eleitoral como legítima e busca sua atuação pela captação de votos.

A figura 1 resume a posição dos partidos políticos numa reta ideológica entre extrema esquerda sendo o ponto zero e extrema direita sendo o ponto dez.

Figura 1
Distribuição espacial dos partidos políticos brasileiros na reta ideológica em 2022 conforme a classificação dos especialistas

A ideia por trás da reta é apenas dispor os partidos em um continuum a partir do resultado da classificação de 2022 para que o leitor possa localizar onde estão as principais legendas e como se agrupam em torno dos espaços ideológicos. Mas a comparação detida da mudança entre um ano eleitoral e outro pode ser observada na figura 2.

Figura 2
Distâncias ideológicas médias dos partidos políticos brasileiros entre 2018 e 2022 conforme a classificação de especialistas

Um primeiro achado, comparando a classificação de 2018 com a de 2022, é que a distância média do sistema partidário como um todo diminuiu. Em 2018 a distância média entre os partidos políticos foi de 2.97 pontos na escala de zero a dez, já em 2022 essa distância caiu para 2.57, quase meio ponto ideológico no cômputo geral. Para mensurarmos a distância média (DM) do sistema partidário utilizamos o seguinte indicador: DM=X¯(aixp)2, onde x é a média ideológica de cada partido (p) e a é a resposta atribuída por cada indivíduo i ao partido p. A medida quantifica o grau de dispersão ou variabilidade das percepções ideológicas em relação ao posicionamento médio de cada partido político. O cálculo é realizado através da diferença quadrática entre cada resposta individual sobre a ideologia de um partido e a média das respostas para esse mesmo partido, seguindo a fórmula (resposta_individual - média_do_partido)2. Essa métrica permite identificar partidos com maior consenso ideológico (baixa distância média) versus aqueles com percepções mais heterogêneas (alta distância média) entre os respondentes. Permite o cálculo de medida temporal da distância entre as respostas de 2022 e as médias de 2018, o que ajuda a entender como as percepções sobre os partidos evoluíram ao longo do tempo. Valores baixos de distância indicam maior convergência nas avaliações ideológicas, enquanto valores altos sugerem maior polarização ou incerteza sobre o posicionamento do partido no espectro político.

Isso, como veremos em seguida, pode ser explicado pela ausência de agremiações no centro da distribuição e pela aproximação que algumas legendas tiveram de uma eleição para outra. Conforme os dados comparados entre as duas ondas, observamos que, ainda que a distância média entre os partidos tenha diminuído no agregado, a polarização, ou seja, a distância entre as posições das ideologias médias, aumentou. A polarização do nosso sistema partidário, segundo o indicador de Dalton (2021), foi de 0,419 em 2018 e 0,503 em 2022, um aumento de quase um ponto ideológico inteiro. Olhando para ambos os dados, distância média e polarização, podemos dizer que os partidos se aproximaram entre si, mas restritos aos seus campos ideológicos: a esquerda ficou mais à esquerda e a direita ficou mais à direita12. Para fins de comparação, países bipartidários como Reino Unido e Estados Unidos, possuem 0,282 e 0,243 em seus indicadores de polarização. O México, uma democracia mais próxima à nossa, 0,210, e as Filipinas, com um sistema presidencial e eleitoral parecido com o brasileiro, 0,046. Ou seja, a polarização atual do sistema partidário brasileiro é elevada.

Mas também é importante reforçar o comportamento dos classificadores. Em sistemas partidários fragmentados, é comum que o centro fique vazio e que as franjas do sistema fiquem superpopulosas (Mair, 2001). Isso ocorreria pela necessidade dos experts de distribuir os partidos por toda a reta espacial e tratar as organizações partidárias numa lógica de proximidade de âncoras programáticas (Laver, 2001), ou seja, no momento de posicionar vários partidos pequenos ou com ideologia pouco manifesta, os respondentes tendem a tentar cobrir a maior quantidade de espaço na reta, buscando diferenciar os partidos políticos. Ao mesmo tempo, uma lógica de proximidade de grandes legendas programáticas desloca o sistema partidário para opostos, esvaziando o centro. Esse movimento, como mostra Laver, é menos comum em sistemas partidários com baixa fragmentação, nos quais se distingue com facilidade um grande partido de centro que ora pende para esquerda, ora pende para direita, como os partidos verdes de Áustria e Alemanha.

O erro padrão da média, que representa a acurácia da mesma nos “bigodes” junto a cada posição ideológica média, também não parece ser um problema, nem na classificação de 2018, e nem na de 2022 (o gráfico com a representação do erro consta do anexo I, figura 4). Os erros são bastante homogêneos e apontam que o resultado de cada partido não varia substancialmente em cada avaliador, como já indicava o coeficiente de variação.

No exame das variações ideológicas em partidos específicos, destaca-se o caso do Partido Liberal (PL). Embora sua posição no espectro ideológico não tenha sofrido uma mudança abrupta, observa-se um afastamento considerável em relação aos demais partidos da direita. Esse deslocamento pode ser atribuído, com razoável grau de confiança, à candidatura de Jair Messias Bolsonaro à presidência da República pelo PL nas eleições de 2022, tendo como vice o general Walter Braga Netto. A associação direta com figuras oriundas das Forças Armadas e o reposicionamento discursivo do partido indicam uma aproximação nítida com a extrema direita, sinalizando um realinhamento ideológico impulsionado pela liderança carismática e pela estratégia eleitoral adotada.

O segundo movimento que chama atenção, embora seja de um partido de menor expressão eleitoral, é o do PCdoB, que tem sua posição bastante dilatada para a esquerda. O PCdoB deixa de ser apenas um satélite do PT, passando a disputar votos como um único corpo partidário, o que pode ser explicado pela aproximação formal com o PT, ao integrarem a Federação Brasil da Esperança. Outro movimento interessante é o do Partido Verde (PV), que sai do centro para a centro-esquerda, ao formar junto com o PT e o PCdoB a federação, um claro fenômeno de contágio que ocorre pela liderança do PT e seu peso ideológico frente aos demais. Esse movimento também é observado em relação ao Rede Sustentabilidade (REDE), que migra do centro para a centro-esquerda, assim como se movimenta seu colega de federação, o PSOL, porém da extrema esquerda para a esquerda. A diferença entre os dois é que o PSOL possui ideologia clara e sempre esteve à esquerda, enquanto o REDE flerta com diversas posições e é dependente da liderança carismática que sustenta o partido. Também na toada das federações, o Cidadania (CDD) se une ao PSDB e com isso acaba sendo arrastado do centro para a centro-direita, num movimento gravitacional causado pelo maior partido no espaço partilhado pelas duas agremiações. O resultado desses movimentos todos promovidos pelo instituto das federações partidárias é que, na classificação dos partidos políticos no ano de 2022, não restou uma legenda sequer de centro, todas migraram para posições mais extremadas e hoje o centro ideológico do sistema partidário nacional é um vazio.

Paralelamente, a movimentação ideológica observada entre os partidos federados reforça, ainda que de forma não conclusiva, a hipótese central deste artigo. Os dados sugerem que partidos programáticos de maior envergadura exercem uma força gravitacional capaz de atrair ideologicamente seus parceiros de federação, promovendo alinhamentos que refletem não apenas a assimetria de força eleitoral, mas também os incentivos institucionais presentes no arranjo federativo. O movimento descrito por Laver (2001) de que âncoras programáticas servem como referência para o posicionamento das demais legendas parece ser verdade, ao menos até aqui. Veremos, em seguida, se isso ocorreu também para partidos que não estão formalmente unidos sob o guarda-chuva de uma federação partidária.

Mirando novamente a figura 2, e excluindo os partidos que passaram a fazer parte de federações, nos concentramos no comportamento daqueles que tiveram sua distância dilatada entre uma rodada de classificação e outra. Usamos como critério os partidos que mudaram de uma posição ideológica categórica para outra, ou seja, da esquerda para o centro ou da direita para a centro-direita, por exemplo. O único partido que se encaixa nesse critério é o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB)13, que se move da direita para a extrema direita entre os anos das pesquisas. Em parte, isso pode ser explicado pela atuação do então presidente do partido, Roberto Jefferson, que teve alta exposição midiática e sempre defendeu pautas caras ao bolsonarismo, como o armamento e a defesa pessoal do ex-presidente Jair Bolsonaro. Ou seja, ainda que não seja o mesmo caso do PL, em que um líder de extrema direita foi seu principal candidato, trata-se de um comportamento parecido de contágio do partido pela pessoa, dada a saliência e a exposição da liderança. Não encontramos a atuação de âncoras programáticas fora das federações que já examinamos, portanto, nossa hipótese se sustenta descritivamente sob o comportamento desse arranjo e a movimentação dos partidos que ali se aproximaram. Reconhecemos que esse dado não é robusto o suficiente e só ocorre na segunda rodada da pesquisa, mas não descartamos essa explicação na medida em que aguardamos as novas eleições na expectativa de que as regras eleitorais brasileiras sejam preservadas para alimentar nossos testes.

Mas nem só de aproximação ideológica vivem os partidos políticos brasileiros. Estamos preocupados também com a exposição das legendas ao fisiologismo (Ferreira, 2024) e como isso se relaciona com a coloração dos partidos políticos. A figura 3 apresenta os partidos políticos a partir da tríade consagrada, que prevê o comportamento dos partidos em direção a office, vote ou policy-seeking (Katz; Mair, 1994; Strom, 1990; Wolinetz, 2002).

Figura 3
Classificação dos partidos políticos brasileiros segundo sua orientação predominante: policy-seeking, office-seeking ou vote-seeking e posicionamento ideológico em 2018 e 2022

Para mensurar o comportamento dos partidos em relação aos seus principais objetivos, solicitamos aos especialistas que indicassem, para cada legenda, qual seria sua orientação predominante. A fim de garantir um entendimento homogêneo do conceito de “comportamento orientado a objetivos partidários”, utilizamos uma vignette explicativa que definia brevemente o constructo e apresentava as categorias de comportamento consideradas.

O primeiro achado, já consolidado nas duas rodadas da pesquisa, é a relação entre programaticidade e ideologia à esquerda. Para os respondentes, os partidos capazes de apresentar alguma consistência em relação a propostas e visão de mundo são, em franca maioria, de esquerda. Apenas o partido NOVO teria seu lado programático superando o comportamento fisiológico. Isso vai ao encontro da lógica de âncoras programáticas, ainda que não seja um dado que crave a hipótese. Há, também nessa classificação entre policy, office ou vote-seeking, uma lógica de uns contra os outros e aliados passam a ser também programáticos quando se aproximam. Isso vale, por exemplo, para o PV, que passou a ser muito orientado a políticas públicas depois de se aliar ao PT e ao próprio PCdoB, que nunca passou de um satélite do PT, mas se tornou, com maior intensidade, um partido com grande apreço à programaticidade e baixo apreço aos cargos de patronagem desde sua aliança formal ao petismo, segundo os resultados.

Por outro lado, curiosamente, não vemos o mesmo movimento no espectro mais à direita. O Cidadania (CDD) manteve sua distribuição de comportamento a despeito de ter se federado com o PSDB. Ainda que os tucanos tenham apresentado um comportamento com melhor distribuição entre votos e políticas, isso não foi suficiente para ancorar o CDD em uma base menos voltada à obtenção de cargos. De resto, vemos que a direita segue o mesmo comportamento da última onda do survey: mantém-se como mais fisiológica em busca de votos e cargos sem uma preocupação com políticas específicas. Não se observa mudança nesse sentido ao longo do período entre uma e outra eleição14.

Conclusões

Ainda que não tenhamos recorrido a testes estatísticos sofisticados, o objetivo deste artigo foi apresentar os resultados da segunda rodada de classificação ideológica dos partidos políticos brasileiros. Em termos agregados, a análise descritiva revela uma notável estabilidade: partidos previamente identificados como de esquerda permanecem nesse campo, assim como os de direita mantêm sua posição. Apesar de um aumento na intensidade das classificações atribuídas, não se observam alterações significativas nas categorias ideológicas das legendas. A principal transformação identificada decorre da formação das federações partidárias, que contribuiu para o esvaziamento completo do espaço de centro ideológico. Partidos como Cidadania, Partido Verde e Rede, que até 2018 ocupavam essa posição intermediária, migraram para os polos ideológicos de seus parceiros federados, incorporando suas posições e, com isso, suas respectivas colorações ideológicas.

As mudanças observadas não resultam de transformações estruturais profundas na ordem social ou política do país. Os principais pilares do arranjo institucional brasileiro — presidencialismo, federalismo, sistema proporcional com lista aberta e bicameralismo — permanecem intactos. No entanto, pequenas alterações nas regras eleitorais mostram-se suficientes para gerar efeitos significativos sobre o comportamento dos partidos e suas posições ideológicas (Bedock, 2014; Janda, 1970). Ou seja, mudanças institucionais não dependem exclusivamente de choques exógenos de grande escala: incentivos discretos também são capazes de produzir consequências empiricamente observáveis e mensuráveis. Da mesma forma, transformações internas nas organizações partidárias, como a ascensão de uma liderança carismática, no caso do PL, podem atuar como vetores relevantes na reconfiguração da identidade e da percepção pública do partido.

Empiricamente, não apresentamos nenhum teste estatístico robusto que seja capaz de confirmar nossa hipótese. Ainda que se trate de uma análise descritiva, os dados sugerem com força que partidos com maior peso eleitoral tendem a exercer uma espécie de tração ideológica sobre seus parceiros, especialmente em contextos em que há incentivos institucionais que favorecem esse alinhamento (Laver, 2001). O mesmo se pode afirmar de um líder carismático como âncora programática, capaz de inferir sua própria ideologia para uma organização inteira, ainda que isso possa ser interpretado como “carisma situacional” (Panebianco, 2005) e fortalecer provisoriamente apenas a organização.

Os resultados aqui apresentados reforçam a importância de que esta pesquisa seja realizada periodicamente, a cada quatro anos, consolidando-se como uma ferramenta valiosa não apenas para a comunidade brasileira de Ciência Política, mas também para a compreensão mais ampla das dinâmicas de mudança no comportamento partidário, tanto no âmbito das legendas individuais quanto no agregado do sistema partidário. Além disso, os dados fornecem subsídios relevantes para avaliar a capacidade dos partidos de incorporar demandas por políticas públicas compatíveis com os princípios democráticos. Nesse sentido, sua utilidade transcende os limites deste artigo, oferecendo uma base empírica indispensável para que pesquisadores, formuladores de políticas, burocratas e cidadãos possam se orientar em um debate marcado por controvérsias e disputas interpretativas.

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  • 1
    Todo o conjunto de dados de apoio aos resultados apresentados neste artigo foi disponibilizado em HarvardDataverse e pode ser acessado em https://doi.org/10.7910/DVN/MFIXKW.
  • 7
    Registramos nosso agradecimento à valiosa colaboração da Associação Brasileira de Ciência Política (ABCP), sem a qual a pesquisa não teria sido viabilizada. Graças ao seu apoio, foi possível conduzir um levantamento que devolve à própria comunidade científica um retrato construído coletivamente por seus membros.
  • 8
    No original: “The accuracy — and consistency — with which a party can be located on a given policy dimension is a function of the salience of that policy dimension for the party in question. Hence determining the location of parties on a given policy scale is more meaningful in the case of some parties than in others”.
  • 9
    É interessante observar que, no caso brasileiro, a comparação entre 2018 e 2022 revela uma redução nominal no número de partidos e, simultaneamente, um aumento na polarização ideológica do sistema. Esse resultado contraria, ao menos parcialmente, o argumento de Mair, segundo o qual a redução na fragmentação partidária tenderia a suavizar a polarização ao diluir os polos ideológicos em um número menor de competidores.
  • 10
    Sobre a dificuldade em formar coalizão no atual governo ver Luz (2023).
  • 11
    Uma break variable é uma variável de controle utilizada para identificar respostas provenientes de um mesmo indivíduo ao longo do tempo, sem comprometer seu anonimato. Trata-se, geralmente, de um código numérico ou outra informação que permita rastreamento longitudinal em estudos repetidos, assegurando a vinculação das respostas sem revelar a identidade do respondente.
  • 12
    É importante destacar que o indicador de polarização utilizado neste estudo constitui uma simplificação em relação à proposta de Dalton (2021). Com razão, Dalton argumenta que o grau de polarização ideológica deve levar em conta não apenas a distância entre os partidos no espectro, mas também o peso relativo de cada legenda, seja em termos de representação parlamentar ou desempenho eleitoral. No entanto, como nosso levantamento não incorporou, no momento da coleta, a variável referente ao tamanho dos partidos, não seria metodologicamente adequado atribuir esses pesos retroativamente. Assim, o indicador aqui empregado baseia-se exclusivamente na distância ideológica entre os partidos, desconsiderando sua força relativa na arena eleitoral ou legislativa.
  • 13
    Cabe lembrar que, em 2023, o PTB se fundiu com o Patriota, dando origem ao Partido da Renovação Democrática (PRD), cuja principal bandeira programática passou a ser a defesa do conservadorismo.
  • 14
    Uma síntese dessa assimetria entre uma direita predominantemente fisiológica e uma esquerda mais programática pode ser encontrada em Bolognesi (2024). O autor propõe um indicador de fisiologismo partidário e demonstra empiricamente como esse traço se concentra de forma expressiva nos partidos situados à direita do espectro ideológico brasileiro.
  • 2
    Contamos com apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq, Brasil, por meio do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) Representação e Legitimidade Democrática (processo nº 406649/2022-7). Agradecemos aos pareceristas anônimos da Revista Opinião Pública, cuja colaboração contribuiu para melhorar o artigo. Os equívocos remanescentes são, é claro, nossa responsabilidade.

Figura 4 Distribuição dos partidos políticos brasileiros na reta ideológica comparando 2018 e 2022 e barra de erro padrão da média

Fonte: Elaboração própria com base nos dados de Bolognesi et al. (2025).

Disponibilidade de dados

Todo o conjunto de dados de apoio aos resultados apresentados neste artigo foi disponibilizado em HarvardDataverse e pode ser acessado em https://doi.org/10.7910/DVN/MFIXKW.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    23 Jan 2026
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    08 Jan 2025
  • Aceito
    05 Set 2025
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