Open-access “O campeão voltou”? A natureza substantiva da ideologia de massa no Brasil1

"The champion is back"? The substantive nature of mass ideology in Brazil

"¿El campeón ha vuelto?" La naturaleza substantiva de la ideología de masas en Brasil

« Le champion est de retour ? » La nature substantielle de l'idéologie de masseau Brésil

Resumo

O presente artigo investiga a estabilidade e a consistência da ideologia política no Brasil, especialmente após o crescimento da extrema-direita e a polarização causada por Jair Bolsonaro. Utilizamos análises de aprendizado de máquinas, dados em painel e técnicas de redução de dimensionalidade para avaliar o autoposicionamento ideológico dos eleitores e a estabilidade de suas crenças. Os resultados mostram um aumento na identificação ideológica durante o período bolsonarista, mas revelam que essa ideologia ainda é volátil e pouco consistente. Os achados desafiam a ideia de que o fortalecimento da identificação ideológica leva a um eleitorado mais coeso e estável. O artigo também contribui para a literatura, ao explorar como as percepções ideológicas se organizam no Brasil, e apresenta inovações metodológicas para pesquisas futuras.

Palavras-chave
ideologia; Bolsonaro; Aprendizado de Máquina; dados em painel; TRI


Abstract

This article investigates the stability and consistency of political ideology in Brazil, particularly following the rise of the far-right and the polarization caused by Jair Bolsonaro. We used machine-learning analyses, panel data, and dimensionality reduction techniques to assess voters' ideological self-placement and the stability of their beliefs. The results show an increase in ideological identification during the Bolsonarist period but reveal that this ideology remains volatile and inconsistent. The findings challenge the notion that strengthening of ideological identification leads to a more cohesive and stable electorate. The article also contributes to the literature by exploring how ideological perceptions are organized in Brazil and presents methodological innovations for future research.

Keywords
ideology; Bolsonaro; Machine Learning; panel data; IRT

Resumen

Este artículo investiga la estabilidad y consistencia de la ideología política en Brasil, especialmente después del crecimiento de la extrema derecha y la polarización causada por Jair Bolsonaro. Utilizamos análisis de aprendizaje automático, datos de panel y técnicas de reducción de dimensionalidad para evaluar el auto posicionamiento ideológico de los votantes y la estabilidad de sus creencias. Los resultados muestran un aumento en la identificación ideológica durante el período bolsonarista, pero revelan que esta ideología sigue siendo volátil y poco consistente. Los hallazgos desafían la idea de que el fortalecimiento de la identificación ideológica conduce a un electorado más cohesionado y estable. El artículo también contribuye a la literatura al explorar cómo se organizan las percepciones ideológicas en Brasil y presenta innovaciones metodológicas para futuras investigaciones.

Palabras-clave
ideología; Bolsonaro; Aprendizaje Automático; datos de panel; TRI

Résumé

Cet article examine la stabilité et la cohérence de l'idéologie politique au Brésil, notamment après la montée de l'extrême droite et la polarisation causée par Jair Bolsonaro. Nous avons utilisé des analyses d'apprentissage automatique, des données de panel et des techniques de réduction de la dimensionnalité pour évaluer l'auto-positionnement idéologique des électeurs et la stabilité de leurs croyances. Les résultats montrent une augmentation de l'identification idéologique pendant la période bolsonariste, mais révèlent que cette idéologie reste volatile et peu cohérente. Les résultats remettent en question l'idée que le renforcement de l'identification idéologique conduit à un électorat plus cohésif et stable. L'article contribue également à la littérature en explorant comment les perceptions idéologiques s'organisent au Brésil et présente des innovations méthodologiques pour les recherches futures.

Mots-clés
idéologie; Bolsonaro; Machine Learning; données de panel; TRE

Introdução4

O papel da ideologia no contexto político brasileiro tem sido alvo de debate desde a introdução dos estudos sobre comportamento político no Brasil. Mais recentemente, o preditor “campeão” das análises voltou com mais força, após o crescimento da extrema-direita. Bolsonaro (PL), com sua retórica conservadora, teria tornado a ideologia mais saliente na oferta eleitoral e contribuído para um maior alinhamento entre os posicionamentos políticos dos cidadãos e suas escolhas nos pleitos presidenciais (Amaral, 2020; Rennó, 2020; Fuks; Marques, 2020; Singer, 2021). Embora existam bons indícios para seguirmos esses preceitos, pouco sabemos sobre a consistência das crenças políticas dos brasileiros em tempos recentes. Restam, portanto, algumas perguntas a serem respondidas. Ficamos mais à vontade com os usos das categorias esquerda-direita ou a utilização dos termos está restrita a certos grupos sociais? Os construtos ideológicos são ideias estáveis ou atitudes voláteis? Houve um aumento da coerência ideológica no eleitorado com o advento de correntes políticas à direita e com a polarização das elites partidárias?

Este artigo tem como mote a investigação dessas questões. Afinal, os achados da literatura apontam historicamente para um quadro pessimista em relação à capacidade dos cidadãos de mobilizar os vocábulos “esquerda-direita”, compreender o significado da metáfora espacial e, consequentemente, empregar os termos como atalhos cognitivos do comportamento eleitoral. A utilização das categorias pressupõe um entendimento desestruturado (Reis, 1988), baseado em compreensões intuitivas (Singer, 1999) e distanciado das preferências políticas mesmo entre os mais sofisticados (Oliveira; Turgeon, 2015).

Até as eleições de 2010 notamos um arcabouço institucional pouco afeito a manifestações programáticas – com um sistema eleitoral de lista aberta, baixa identificação partidária e vínculos personalistas com as lideranças (Ames, 2003; Nicolau, 2006) – logo ganhou a companhia da diluição das identidades das principais legendas na percepção do público (Baker et al., 2016). O sentimento de continuidade na condução das políticas econômicas entre PSDB e PT e a ligação dos partidos com episódios de corrupção terminou por produzir uma relação frágil entre ideologia e voto no país. Foram poucos os estudos que exibiram uma conexão significativa entre essas variáveis, frequentemente devido a incorreções metodológicas nas análises (Pereira, 2020). Assim, a ciência política brasileira daria maior espaço a explicações eleitorais apoiadas em outros temas, como a avaliação do governo e da economia, fatores institucionais e a corrupção (Bonifácio; Casalecchi; De Deus, 2014).

Novos eventos surgiram no horizonte nacional com as manifestações que se iniciaram em junho de 2013 e atravessaram os anos seguintes, culminando no impedimento da presidente Dilma Rousseau (PT), em 2016. Os tempos de pasmaceira ideológica deram lugar a uma série de estudos na academia sobre as diversas formas de polarização, nas atitudes e no afeto (Ortellado; Ribeiro; Zeine, 2022; Fuks; Marques, 2022).

A polarização das ruas encontrou um representante supostamente inequívoco no ambiente institucional. O pleito de 2018 trouxe um novo elemento à disputa presidencial: o ex-capitão Jair Bolsonaro (então PSL). Bolsonaro se recusou a seguir os manuais de campanha, radicalizou o discurso e levou a corrida para o executivo federal guiando um micropartido. O Brasil que “dobrara à direita” exibia, naquele momento, claras divisões demográficas, com um apoio decisivo de homens, brancos e do segmento evangélico (Nicolau, 2020; Layton et al., 2021). Mais do que isso, o candidato abertamente identificado com a direita teria reforçado esses rótulos ideológicos, tornando-os mais claros para a população – aumentando a capacidade dos eleitores de se identificarem com os dísticos “esquerda-direita” e traduzi-los em votos nas urnas (Fuks; Marques, 2020).

A mudança de paradigma observada justificou novos diagnósticos acerca da “reativação” da direita no Brasil, com maior ênfase nos componentes ideológicos para a interpretação dos rumos tomados a partir de então (Amaral, 2020; Rennó, 2020; Singer, 2021). O objetivo deste artigo é dar um passo adiante e verificar se o cenário atual contribuiu para o aumento da coerência ideológica no eleitorado. Nossas análises acompanham a definição de ideologia proposta por Gerring (1997), segundo a qual o conceito guarda três características fundamentais, sendo elas: 1) a consistência em torno de questões políticas, 2) a estabilidade dos posicionamentos no tempo e 3) o contraste em relação a outros conjuntos de ideias. Utilizamos bancos de dados e análises diversas, aproveitando a similitude do enunciado das perguntas, das escalas e das metodologias de coleta presentes nos surveys nacionais ao longo dos anos. A paridade técnica nos permite o isolamento de um possível “efeito Bolsonaro” (Moreira; Rennó, 2024), já que os resultados não podem ser atribuídos a mudanças significativas na operacionalização dos questionários5.

O trabalho está dividido em quatro seções. A primeira consiste em uma avaliação do autoposicionamento ideológico, do entendimento das categorias e do poder preditivo da ideologia no voto por meio de uma abordagem diferente, baseada em aprendizado de máquinas (Kim; Zilinsky, 2024). A partir desse diagnóstico inicial, investigamos a estrutura ideológica dos eleitores.

Na segunda seção, examinamos a estabilidade das preferências ideológicas, utilizando dados de dois painéis conduzidos em diferentes pleitos no país, nos anos de 2010 e 2018. O foco é avaliar se houve um aumento da estabilidade ao longo do tempo ou se o posicionamento espacial representa respostas voláteis dos indivíduos (Converse, 1964). Em seguida, na terceira seção, analisamos a consistência entre o autoposicionamento dos eleitores e suas inclinações em relação a diferentes atitudes políticas, comparando assim a medida de ideologia simbólica com a operacional (Ellis; Stimsom, 2012). Nesse sentido, observamos a coerência entre as crenças declaradas e as opiniões sobre questões específicas, ou seja, avaliamos a noção de constrição (constraint) ideológica (Converse, 1964). Por fim, na última parte testamos explicações concorrentes para o posicionamento na escala ideológica no país. Examinamos como preferências, vínculos afetivos e fatores demográficos estão associados com o componente simbólico da ideologia.

Nossos resultados servem para matizar o recente otimismo da literatura contemporânea acerca da estruturação ideológica dos brasileiros. Mostramos que o eleitorado tende a se localizar mais no contínuo esquerda-direita e identificar melhor os partidos concorrentes nesse eixo no período pós-Bolsonaro e que a ideologia tem uma melhor capacidade de predição do voto do que em tempos anteriores. O autoposicionamento ideológico, no entanto, ainda é muito volátil e pouco consistente com as atitudes. Por fim, salientamos que a identificação com a metáfora espacial tem contornos mais afetivos do que programáticos, alicerçados na vinculação com as principais lideranças políticas.

Nosso artigo contribui com a literatura nacional de duas maneiras. Do ponto de vista teórico, lançamos luz sobre as nuances de um suposto crescimento do conservadorismo no país, retratado pelo êxito eleitoral da extrema-direita. Isso porque o voto não deve ser entendido como uma derivação direta de inclinações ideológicas, mas como um comportamento permeado por questões que não necessariamente dividem o eleitorado – caso do crescimento econômico e da inflação, de percepções de corrupção, da desconfiança com o sistema democrático, entre outros. Do ponto de vista metodológico, argumentamos em prol de medidas apoiadas na conjunção de atitudes observadas e técnicas com variáveis latentes, a fim de captar as preferências reais dos cidadãos.

Mais ideológicos? Autoposicionamento, conhecimento dos conceitos e voto

O contexto que marcou o país a partir de junho de 2013, com as manifestações contra o governo federal vigente, abriu uma janela de oportunidade para a reorganização da direita brasileira, que passou a levantar bandeiras anticorrupção e contra o PT (Telles, 2016). Aproveitando o ensejo, novos intelectuais (Chaloub; Perlatto, 2016), movimentos online (Galvão, 2019; Rocha, 2018) e think tanks conservadores (Wink, 2023) despontaram na cena pública. Assim, o Brasil veria, a partir de então, uma direita “desavergonhada” no Parlamento (Quadros; Madeira, 2018) e, com Bolsonaro, “reativada” no eleitorado (Singer, 2021).

Fuks e Marques (2020) e Amaral (2020) seguem essa trilha. Conforme os autores, o novo alinhamento do campo político no país teria aumentado a clareza em relação aos rótulos ideológicos. A campanha eleitoral teria reforçado o significado do termo “direita”, dando uma pista mais clara de como o eleitor deveria se posicionar no espectro político. Como resultado, observa-se uma porcentagem maior de posicionamentos nesse direcionamento político, correlações mais altas com as preferências partidárias e com o voto.

Os achados complementam análise anterior, produzida por Pereira (2020). Em uma revisão sistemática, Pereira (2020) mostra que, no período democrático recente, grande parte da literatura verificou a ausência de associação entre ideologia e voto no Brasil. Dos 24 trabalhos publicados, apenas três exibiam uma associação significativa entre ambas as variáveis. Os resultados dos casos desviantes, no entanto, estavam relacionados a erros nos métodos empregados ou se limitavam aos indivíduos com maior escolaridade.

No primeiro exame deste artigo, estendemos as conclusões de Fuks e Marques (2020) para verificarmos se tais achados sobreviveram ao tempo e se mantêm em 2022. Para isso, utilizamos os dados da série histórica do Estudo Eleitoral Brasileiro (ESEB), com pesquisas pós-eleitorais e amostras nacionalmente representativas desde as eleições de 20026. A Figura 1 reporta as porcentagens de autolocalização ideológica e a capacidade dos brasileiros de identificar corretamente os principais partidos que concorreram ao segundo turno das eleições presidenciais no espectro esquerda-direita7. Isso porque, para que os eleitores votem ideologicamente, é necessário que conheçam o binômio esquerda-direita e consigam localizar as legendas partidárias dentro desse contínuo. Esse último exercício é uma versão simplificada da avaliação promovida por Pereira (2020)8.

Figura 1
Proporção de eleitores que se posicionaram na escala ideológica e que acertaram o posicionamento dos dois principais partidos (%)

Notamos, na Figura 1, um aumento substancial na capacidade de autolocalização ideológica dos brasileiros. Se, no início da série, em 2002, somente 40% respondiam à questão, o percentual aumentou para valores superiores a 55%, entre 2006 e 2014. É no período bolsonarista, no entanto, que vemos um salto mais marcante. Em 2018, 78% dos respondentes se diziam de esquerda, centro ou direita, valor que aumentou para 84% em 2022. Com relação ao posicionamento dos partidos, os resultados revelam novo acréscimo: atualmente 46% da população consegue identificar corretamente as legendas no espectro ideológico, valor de 7 pontos percentuais acima do maior pico da série histórica, em 2010, e superiores em 21 pontos percentuais aos números verificados em 2018.

O maior posicionamento na escala ideológica pode refletir uma inconsistência com o comportamento dos indivíduos. Para testar a relação com o voto, utilizamos modelos de aprendizado de máquinas para aferir a acurácia da associação – ou seja, a capacidade de predizer corretamente uma variável dependente. A opção por modelos de aprendizado de máquinas se justifica pelas limitações dos modelos de regressão convencionais (Fuks; Marques, 2020), já que estes podem sugerir associações substantivas, mas encobrir uma baixa capacidade preditiva da ideologia sobre a opção eleitoral (Kim; Zilinsky, 2024). Além disso, a acurácia, ao contrário do R2, tipicamente obtido em modelos de regressão, pode ser usada como uma quantidade de interesse, pois retrata diretamente a capacidade explicativa do modelo quando confrontado com novos dados (Cranmer; Desmarais, 2017).

Nesse sentido, estimamos três tipos de modelos bivariados: no primeiro, é considerada apenas a ideologia como variável preditora; no segundo, a identificação partidária9, e, no terceiro, a avaliação do governo. Escolhemos essa comparação, pois a identificação partidária, tanto em sua configuração positiva quanto negativa, e a avaliação de governo são constantemente avaliadas pelos estudos de comportamento político no Brasil como duas das principais preditoras do sufrágio (Ribeiro; Carreirão; Borba, 2016; Samuels; Zucco, 2018). Assim, a análise nos permite entender, de modo cuidadoso, a importância de cada variável.

Para cada onda do survey, treinamos separadamente modelos de Random Forest (RF), que consistem na criação de uma série de árvores de decisão formadas por amostras aleatórias dos dados (Montgomery; Olivella, 2018). Escolhemos esse método devido à sua capacidade de lidar com relações não lineares entre os dados, diferentemente dos modelos Logit e Probit (Agresti, 2001). Dividimos, então, os dados em uma base de treinamento e outra de teste com uma razão de 70:30. Além disso, para combater efeitos de uma inicialização aleatória no processo de amostragem, estimamos 100 modelos para cada onda e variável. Os resultados reportados na Figura 2 consideram a acurácia média, mínima e máxima em cada etapa:

Figura 2
Acurácia da Predição no Voto no Primeiro Turno

Dois aspectos chamam a atenção na Figura 2: a baixa capacidade preditiva da ideologia até 2014 e o consequente aumento durante o período bolsonarista, análise que acompanha os achados de Pereira (2020), Fuks e Marques (2020) e Amaral (2020). Os modelos que utilizam a ideologia como preditora obtiveram uma acurácia média de cerca de 50% (2002 - 54%, 2006 – 57%, 2010 – 51% e 2014 – 47%) antes do bolsonarismo, o que indica que seu poder explicativo não se diferencia de um chute aleatório, quase equivalente a zero. Em 2018 e 2022, ainda vemos capacidades preditivas baixas – de 74% e 65%, respectivamente – mas com um aumento considerável em relação ao período anterior. Quando comparamos a variável ideologia com outra variável identitária considerada, notamos que o partidarismo apresenta maior força explicativa em quase todos os pleitos investigados, sendo alcançado pela escala ideológica apenas em 2022.

No que tange à avaliação de governo, vemos que a variável apresenta um poder preditivo superior de forma consistente (2002 – 58%, 2006 – 75%, 2010 – 65%, 2014 – 66%, 2018 -67% e 2022 – 82%). Em 2018, seu poder preditivo é comparável ao autoposicionamento ideológico. Por outro lado, em 2022, a variável obteve uma performance média significativamente superior, ultrapassando a marca de 80% de acurácia.

Mais estáveis? A ideologia do ponto de vista longitudinal

Até agora, mostramos um cenário positivo em relação à estruturação ideológica do eleitorado: a diminuição no percentual de não respostas entre aqueles que se localizam no espectro ideológico, o aumento na identificação correta dos partidos concorrentes e na capacidade preditiva da variável ideologia no voto. No entanto, pouco sabemos a respeito da estabilidade das preferências políticas dos brasileiros. Afinal, os críticos da irrelevância dos preceitos ideológicos chamam a atenção para o caráter volátil das respostas acerca desses postulados. Converse (1964) produziu o questionamento mais famoso na área, ao diagnosticar que as inclinações dos cidadãos norte-americanos exibiam pouca estabilidade ao longo do tempo – ou seja, os respondentes usavam o rótulo “progressistas” em uma ocasião e mudavam suas escolhas para “conservadores”, na oportunidade subsequente. A instabilidade das atitudes aparece em uma série de outros trabalhos, o que leva alguns especialistas à conclusão de que a maioria dos eleitores não tem preferências coerentes (Freeder; Lenz; Turney, 2019; Kalmoe, 2020).

Os achados reportados acima, contudo, não são exatamente consensuais. Os defensores da estabilidade argumentam em favor da identificação de valores centrais ou de predisposições menos voláteis (McClosky; Zaller, 1984; Feldman, 1998). Achen (1975) e Ansolabehere, Rodden e Snyder (2008), por outro lado, reforçam a questão dos erros de mensuração, surgidos por razões como a formulação vaga de certos itens e a desatenção por parte dos respondentes. Nesse sentido, a conjugação de múltiplas medidas atenua os ruídos contidos em escalas com itens individuais, o que aumenta a estabilidade das preferências.

No Brasil, são poucos os trabalhos com foco na estabilidade das atitudes, notadamente os artigos de Pereira (2014, 2020). No primeiro exame, o autor mostra que a identificação partidária dos eleitores é uma atitude instável, manifestada pela saliência dos pleitos presidenciais e com pouca sobrevida após o período. No segundo, nota-se o objetivo de averiguar a relação de causalidade entre ideologia e voto. Não há na literatura nacional um exame mais sistemático no que tange à constância do autoposicionamento ideológico.

Para esse teste utilizaremos estudos com dados em painel em dois anos distintos. O primeiro, em 2010, trata-se do Brazilian Electoral Panel Study (BEPS), que entrevistou 908 brasileiros10; enquanto o segundo, a pesquisa “A Cara da Democracia” (CD), conduzida pelo Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) em 201811, conta com 810 observações. Em ambos, temos configurações em três ondas, mas as perguntas referentes ao autoposicionamento ideológico só aparecem em duas delas.

Na nossa estratégia empírica, avaliamos a estabilidade de duas maneiras diferentes. De início, apresentamos correlações intertemporais, seguindo uma apresentação mais convencional, para garantir a comparabilidade com estudos internacionais (Converse, 1964; Achen, 1975; Ansolabehere; Rodden; Snyder, 2008). Os valores das correlações entre as ondas são baixos em 2010 (r = 0,22; σ = 0,07) e não aumentaram em 2018 (r = 0,15; σ = 0,07). Nossos achados são bem inferiores ao caso norte-americano: Ansolabehere, Rodden e Snyder (2008) e Maia (2021) reportam correlações em torno de r = 0,50 com medidas semelhantes.

Uma forma alternativa de mensurar a estabilidade é calcular a proporção de indivíduos que mantiveram a resposta em duas ondas diferentes do painel. A fim de corrigir pequenas variações, categorizamos as medidas dos dois anos em esquerda/centro/direita, induzindo a uma maior estabilidade. Esse procedimento se aproxima da medida de “atitudes cristalizadas” utilizada por Zaller (1991), na qual verificamos se os indivíduos se mantêm no mesmo lado da escala ideológica nas duas ondas.

Além disso, analisamos, em 2018, a estabilidade em relação a atitudes concernentes aos campos ideológicos, para cotejar a medida de ideologia com outros temas relacionados a pautas econômicas e sociais que marcam as principais divisões políticas no Brasil. Selecionamos, portanto, oito temas que abordam pontos como o papel do Estado na economia, descriminalização das drogas e do aborto, posse de armas, redução da maioridade penal, manutenção de cotas raciais nas universidades e casamento entre pessoas do mesmo sexo12. As perguntas também são encontradas em configurações ternárias, com pontos indicando concordância, indiferença e discordância nos assuntos.

A Figura 3 apresenta os resultados obtidos por meio da análise de ambos os painéis. No primeiro exame, com uma medida contínua, vemos que somente 26% dos respondentes mantiveram o posicionamento nas duas ondas em 2010; valor que atinge 18% em 2018. Os percentuais não devem ser diretamente comparados em virtude da diferença inicial das escalas, mas revelam novamente altos níveis de volatilidade - sobretudo se comparados ao caso norte-americano, cujos indicadores giram em torno de 50% em diferentes painéis conduzidos entre 1972 e 2012 (Maia, 2021).

Figura 3
Estabilidade da Ideologia no Brasil (2010 e 2018)

Em um teste menos rigoroso, a estabilidade na versão categorizada da escala diminui em 2018, o que contraria nossas expectativas. Se, em 2010, 57% dos entrevistados apresentavam respostas estáveis, o índice cai para 42% em 2018. Os valores de 2018, entretanto, não distam significativamente de outros temas como as preferências sobre a intervenção do Estado na economia, o apoio à liberalização do uso de drogas e armas e a defesa da pena de morte. Outros posicionamentos relacionados aos costumes, como a homossexualidade e o aborto; às políticas de cotas raciais e à redução da maioridade penal figuram com maior estabilidade nos dados analisados.

Os testes produzidos até aqui têm severas limitações além das já indicadas, notadamente no que concerne a possíveis erros de mensuração (Achen, 1975; Ansolabehere; Rodden; Snyder, 2008). Isso porque as oscilações entre as ondas podem ser fruto de ruídos aleatórios, não apenas de mudanças reais de posicionamentos dos respondentes. A limitação das bases de dados não nos permite estratégias mais sofisticadas de modelagem em função da falta de itens variados para a produção de escalas latentes e devido ao número pequeno de ondas, que obsta a utilização de modelos autorregressivos (Freeder; Lenz; Turney, 2019).

Os achados, entretanto, revelam um eleitorado com alta volatilidade no posicionamento ideológico. As mensurações acima produzidas não mostram um aumento da estabilidade da ideologia dos brasileiros, mesmo com as pistas fornecidas por Bolsonaro (então PSL), como sugerido por Fuks e Marques (2020). Encontramos em 2018 um eleitorado com níveis de estabilidade ideológica próximos aos de 2010, anos antes da instauração de qualquer crise política que pudesse ter mobilizado a população.

Mais consistentes? A convergência das ideologias simbólica e operacional

O conceito de ideologia normalmente é definido na literatura especializada como um sistema de crenças pautado por uma organização coesa de visões políticas interdependentes (Converse, 1964; Jost, 2006). A saliência ideológica de tempos recentes pode ter contribuído para o aumento dessa consistência nos dísticos esquerda-direita no país. A literatura nacional tem sido consensual ao mostrar que a maioria dos brasileiros se localiza à direita no espectro político (Moreira, 2017; Fuks; Marques, 2020; Singer, 2021). A Figura 4 ilustra as tendências de longo prazo: a distância entre os ditos conservadores e progressistas é maior nos anos 1990, diminui no decorrer da década de 2000 e torna a ampliar de 2018 a 2022, período em que Bolsonaro concorreu às eleições presidenciais.

Figura 4
Ideologia Simbólica ao Longo do Tempo – 1989 a 2022 (%)

Por outro lado, trabalhos que mensuram temas afeitos à composição ideológica, como aqueles ligados a preferências econômicas e aos costumes, não apontam um crescimento recente do conservadorismo (Cruz; Kaysel; Codas, 2015; Moreira, 2017; Russo; Pimentel; Avelino, 2022; Maia; Chiu; Desposato, 2023). Russo, Pimentel e Avelino (2022) revelam que a população brasileira se tornou mais progressista em relação a aspectos morais – no caso da possibilidade de casamento e de ocupação de cargos públicos entre homossexuais – e que manteve altas porcentagens de apoio ao Programa Bolsa Família e à implementação de políticas redistributivas por parte do governo. Maia, Chiu e Desposato (2023) corroboram esses achados, ao indicar que o incremento de direitos concedidos a minorias LGBT não levou a uma reação negativa da maioria dos eleitores e nem à polarização da sociedade, resultado que contradiz os diagnósticos anteriores de Ortellado, Ribeiro e Zeine (2022).

O possível descompasso entre o crescimento recente da identificação com a direita e o decréscimo do conservadorismo nas preferências políticas é bem retratado pelo costumeiro desencaixe dos aspectos simbólicos e operacionais da ideologia (Ellis; Stimson, 2012; Claassen; Tucker; Smith, 2015; Yeung; Quek, 2024). Na medida simbólica, os cidadãos são instados a se posicionarem no tradicional contínuo esquerda-direita, uma configuração que privilegia a representação de como os cidadãos pensam sobre si mesmos. Na medida operacional, os rótulos ideológicos são suplantados e percebe-se como as concepções políticas vêm à tona a partir de posições particulares a respeito de temas específicos, compondo escalas latentes. Nesse sentido, os respondentes são classificados como progressistas se forem, por exemplo, favoráveis ao aborto e ao casamento homossexual e à intervenção do Estado na economia e como conservadores, caso se posicionem contrariamente a essas pautas.

Ellis e Stimson (2012) examinaram de perto o chamado “paradoxo da ideologia” nos EUA. O enigma retratado reside no fato de que os norte-americanos preferem a alcunha de “conservadores” a “liberais”, embora assumam posições progressistas na maioria das questões políticas nas pesquisas nacionais. Para ilustrar o fenômeno, os autores propuseram uma nova alcunha: “conservadores em conflito”, pessoas cuja adoção do rótulo ideológico não acompanha as inclinações acerca das agendas coletivas (Claassen; Tucker; Smith, 2015; Mason, 2018). Já no caso brasileiro, os trabalhos mostram que são poucos os eleitores ideologicamente consistentes, havendo maior inconsistência entre aqueles que se localizam à direita (Moreira, 2017; Marques, 2020). Para Telles e Storni (2011), o posicionamento ideológico está mais relacionado ao julgamento das ações governamentais e tem pouca relação com as questões que comumente dividem a sociedade.

A comparação entre itens e escalas com temas próximos é o foco desta seção. Analisamos, portanto, a validade de convergência – isto é, o alinhamento de medidas análogas (McMann et al., 2022). No caso, trabalhamos com a associação entre a ideologia simbólica e a ideologia operacional de duas formas: examinando a correlação entre ambas e observando os graus de desencaixe a partir de estatísticas descritivas.

Para tanto, rodamos modelos de Teoria de Resposta ao Item (TRI) para averiguar se as questões de posição contidas na base de dados do World Values Survey (WVS) estão localizadas em uma ou mais dimensões. Todos os itens foram codificados para que valores mais altos representassem posicionamentos à direita. A TRI tem a vantagem de reduzir os erros de mensuração relacionados a perguntas sobre issues individuais ao permitir a agregação de um conjunto de perguntas relacionadas a uma mesma dimensão (Ansolabehere; Rodden; Snyder, 2008).

Verificamos que os modelos apontam para um melhor ajuste quando trabalhamos com duas dimensões, uma, na economia, e outra, nos costumes13. Seguindo a estratégia aplicada por Moreira (2017), utilizamos a técnica para cada rodada do survey, o que gerou duas dimensões latentes para cada ano14. Essas dimensões foram ajustadas para variar em uma escala de 0 a 10, sendo comparáveis à medida simbólica de ideologia.

A Figura 5 apresenta a distribuição do autoposicionamento e das dimensões geradas pelo modelo de TRI ao longo do tempo. Ao analisarmos essa distribuição, notamos, em 2018, um maior posicionamento nos extremos da escala, apesar de haver um centro majoritariamente dominante. Essa mudança, contudo, é similar para ambos os lados, mantendo uma média estável ao longo do tempo. Por outro lado, quando passamos para a variação das medidas operacionais, percebemos maiores mudanças no intervalo temporal. Na dimensão econômica, ainda, percebe-se o deslocamento para a direita a partir de 2006, que cresce progressivamente.

Figura 5
Densidade da Ideologia Simbólica e Dimensões Operacionais (1991 – 2018)

Já na dimensão moral, observamos um aumento do progressismo com o passar do tempo, levando a uma maior densidade na cauda à esquerda da distribuição. As diferenças entre as tendências das medidas expõem, desde já, um possível descompasso entre o autoposionamento ideológico e as atitudes políticas. Fora isso, a mensuração unidimensional deixa de captar as nuances das preferências dos brasileiros, que seguiram direções opostas nos últimos tempos – à direita, na economia, e à esquerda, nas questões comportamentais.

Se pessoas autoposicionadas à direita são tendencialmente mais conservadoras na economia e nos costumes, somamos as duas escalas latentes produzidas na TRI e exibimos a correlação das medidas simbólica e operacional na Figura 6, a fim de testar a validade de convergência de ambas. Em todos os anos, porém, temos correlações fracas entre as medidas, sempre abaixo de r = 0,10. O período Bolsonaro não parece ter aumentado a consistência ideológica entre a maior parte dos cidadãos, já que não houve um crescimento substantivo em 2018. Os sinais mais claros indicados à população e o contexto de polarização das lideranças não parecem, portanto, terem surtido o efeito esperado no que tange à consistência ideológica no país.

Figura 6
Correlação entre as medidas de ideologia operacional e simbólica

A consistência, no entanto, pode ter aumentado entre grupos ideológicos diferentes. Se, no Brasil, pessoas que se dizem à direita do espectro político ostentam maiores índices de inconsistência, a presença de Bolsonaro pode ter reduzido a incoerência desse segmento do eleitorado (Moreira, 2017; Marques, 2020). Nesta parte, seguimos a estratégia de Hillen e Steiner (2019) e Gidron (2020) e classificamos os respondentes do WVS em dois quadrantes. Na escala operacional, os indivíduos de esquerda são aqueles com atitudes abaixo do 40º percentil, tanto na escala econômica quanto na escala dos costumes. Já os indivíduos de direita apresentam inclinações acima do 60º percentil nas duas escalas. A consistência ideológica reside no cruzamento entre as duas medidas: consistentes de esquerda (direita) são os que se localizam à esquerda (direita) nas escalas simbólica15 e operacional. A Figura 7 expõe a porcentagem de cada uma das categorias criadas:

Figura 7
Consistência ideológica entre indivíduos de esquerda e de direita (%)

A Figura 8 mostra certa estabilidade ao longo do tempo. Ao contrário dos achados de Moreira (2017) e Marques (2020), não encontramos diferenças significativas na consistência de pessoas à esquerda ou à direita do espectro político. Vemos que, na média da série histórica, somente 28% dos respondentes são consistentes em termos ideológicos. Em outras palavras, a grande maioria dos brasileiros apresenta altos níveis de inconsistência ideológica, combinando preferências econômicas e morais de forma cruzada ou agrupando atitudes no sentido contrário ao esperado, quando levamos em consideração o autoposicionamento exposto na medida simbólica. Um resultado surpreendente é o aumento da consistência dos indivíduos de esquerda de 2014 para 2018, achado em sentido contrário ao que esperávamos. É importante levar em conta que Bolsonaro é um farol para todos os espectros políticos e pode promover, portanto, um aumento dos níveis de consistência de grupos opositores. Assim como o antipetismo pode se posicionar como uma identidade negativa (Paiva; Krause; Lameirão, 2016), o antibolsonarismo pode ter um efeito similar, fortalecendo as atitudes e a coesão do grupo.

Figura 8
Consistência ideológica entre subgrupos da população

A literatura internacional enfatiza a incompatibilidade entre os aspectos simbólicos e operacional, observando a relação destes com identidades sociais políticas ou sociais diversas. Pesquisas recentes revelam que o entendimento de conceitos abstratos está geralmente pouco alinhado com as definições convencionais dos termos, e que essas percepções são heterogêneas entre diferentes grupos da população (Claassen; Tucker; Smith, 2015; Yeung; Queck, 2024). Itens mais abstratos, como a ideologia simbólica, tendem a sofrer de um problema conhecido como Funcionamento Diferencial do Item (DIF, em inglês). O DIF seria uma interpretação diferente e sistemática feita por grupos sociais distintos sobre um determinado assunto. O trabalho de Jefferson (2024) ilumina bem esse ponto: nos EUA, os negros tendem a se declarar conservadores, mas apoiam eleitoralmente o partido Democrata, a opção progressista no bipartidarismo estadunidense. O debate mais clássico na literatura norte-americana mostra que somente um terço dos cidadãos age e pensa com base em componentes ideológicos. Estes são geralmente pessoas com maior sofisticação e interesse em política (Kalmoe, 2020). Os rótulos ideológicos falham, portanto, em refletir as identidades partidárias desse grupamento da população.

Rodamos duas regressões para verificar como a consistência ideológica pode variar entre diferentes grupos da população. Os resultados (Figura 8) mostram que pessoas mais escolarizadas e praticantes de religiões diferentes das denominações Católica e Protestante tendem a se localizar à esquerda de maneira mais acertada, ao passo que indivíduos mais jovens apresentam maiores possibilidades de confusão com o rótulo. Entre pessoas à direita, vemos que as mulheres exibem maior grau de inconsistência quando comparadas aos homens, enquanto os mais velhos conseguem se posicionar de maneira mais acurada nesse espectro ideológico.

A Figura 8 revela, assim, um entendimento diferencial da questão ideológica entre diferentes subgrupos da população. A falta de conhecimento sobre temas ligados à política institucional marca uma distinção bem conhecida na literatura entre grupos sociais mais e menos privilegiados. São muitas as constatações de que condições desiguais de status e renda na sociedade refletem também a falta de compreensão de categorias mobilizadas no jogo político, sobretudo entre pessoas menos escolarizadas, mulheres, negros e cidadãos de baixo rendimento (Delli-Carpini; Keeter, 1996; Jerit; Barabas, 2017).

Os preditores da ideologia no Brasil em 2022

Os resultados dos testes anteriores demonstraram que, apesar de a ideologia apresentar maior poder preditivo com relação ao voto e mais pessoas se posicionarem na escala ideológica a partir de 2018, não há evidências de que os brasileiros sejam mais estáveis ou consistentes no que tange ao posicionamento ideológico. Nesta seção, trabalharemos com uma última pergunta: o que, afinal, está por trás da ideologia dos brasileiros em tempos recentes?

Se as questões políticas têm um vínculo fraco com o autoposicionamento ideológico, outra categoria de preditores pode dar sentido ao entendimento das categorias esquerda-direita. Os componentes afetivos figuram na literatura como a principal alternativa ao modelo baseado em issues (Inglehart; Klingeman, 1976; Conover; Feldman, 1989). Esses determinantes seguem o argumento levantado por Russo, Pimentel e Avelino (2022) e Moreira e Rennó (2024), segundo o qual os cidadãos mimetizam as atitudes estipuladas pelas elites políticas. A partir da obra de Zaller (1992), podemos afirmar que o modo como líderes emitem mensagens afeta a percepção da população em relação a uma questão (Kam, 2005; Lenz, 2012).

No caso brasileiro, esse aspecto teria um peso ainda maior, dado que, em um cenário institucional com baixa identificação partidária e laços personalistas, a liderança política teria um papel ainda mais relevante, funcionando como um atalho cognitivo central para a elaboração das atitudes (Ames, 2003; Reiljan et al., 2023). Além disso, a relação afetiva com as elites políticas seria capaz de gerar um sentimento de grupo necessário para a formação de identidades, independentemente da base substantiva atribuída ao conceito de ideologia (Mason, 2018). Um exemplo já estudado na literatura é o fato de a afinidade com o PT produzir clivagens comportamentais no eleitorado brasileiro a partir de percepções favoráveis ou contrárias aos partidos (Borges; Vidigal, 2018; Paiva; Krause; Lameirão 2016; Samuels; Zucco, 2018). Para Samuels e Zucco (2018), por exemplo, o antipetismo não estaria calcado em diferentes visões sobre temas morais e econômicos, mas em vínculos simbólicos capazes de promover identidades sociais distintas.

Apesar de termos encontrado uma associação fraca entre ambas as concepções de ideologia, a análise do WVS só pode ser considerada até 2018. É possível, no entanto, que Bolsonaro tenha reforçado as preferências entre os issues, fornecendo uma pista mais clara para o eleitorado (Fuks; Marques, 2020). Assim, avaliamos se esse processo se modificou na eleição de 2022. Para verificarmos a importância de fatores afetivos e atitudinais no autoposicionamento ideológico, recorremos à base do ESEB 2022. A escolha pela base é motivada pelo fato de a pesquisa contar com questões de posição e variáveis afetivas. A comparação entre os aspectos simbólicos e ideológicos é feita a partir de modelos de regressão linear. Nossa variável dependente é a medida de autoposicionamento ideológico (com valores mais altos representando tendências conservadoras), enquanto a identificação com Bolsonaro e com o PT retratam a natureza afetiva da associação16.

Uma medida operacional da ideologia, criada a partir da média de posicionamentos à direita em temas diversos, foi incluída nos modelos a fim de servir como base de comparação (Ansolabehere; Rodden; Snyder, 2018). Como as questões foram mensuradas em diferentes escalas, nós padronizamos todos os itens para ter média zero e dois desvios-padrão de variância. Os modelos lineares foram separados em dois grupos: sofisticados e não sofisticados, para acompanhar os desdobramentos teóricos da literatura discutida17. Acrescentamos controles sociodemográficos de idade, raça, religião, renda e sexo, a fim de diminuir possíveis desequilíbrios nas características dos respondentes.

Os modelos reforçam os resultados de Russo, Pimentel e Avelino (2022). Os preditores mais importantes de ideologia foram variáveis relacionadas ao afeto, sendo a proximidade com Bolsonaro o mais importante tanto para os sofisticados quanto para os não sofisticados (Figura 9). No primeiro grupo, não existem diferenças significativas entre o antipetismo e a ideologia operacional. Essa distância fica mais marcada no segundo grupo, já que o antipetismo se encontra mais associado à ideologia simbólica do que à escala operacional. O impacto da ideologia operacional, entretanto, não é desprezível em nenhum dos modelos: a mudança em dois desvios-padrão na escala tende a produzir um aumento de 27% na média da escala simbólica entre sofisticados e de 15%, entre os não sofisticados. Por fim, as variáveis sociodemográficas apresentaram uma relação inesperada. A religião aparece como um preditor fraco, possivelmente, pelo fato de seu poder preditivo ser consumido por outras variáveis relacionadas, como o posicionamento frente a temas morais e à relação afetiva com Bolsonaro.

Figura 9
Modelos com Preditores Afetivos, Operacionais e Demográficos sobre a Ideologia (2022)

Os cenários polarizados de 2018 e 2022 não parecem ter aumentado a consistência ideológica do eleitorado. Quando usam os rótulos ideológicos, os brasileiros têm como principal parâmetro a vinculação afetiva com lideranças ou partidos e não uma estruturação baseada em atitudes políticas. Essa constatação, vale dizer, não se sustenta como um atestado de incapacidade ou irracionalidade dos cidadãos, mas de atenção à maneira como o jogo político é captado pela população. Dito de outro modo, as pessoas podem manter um sistema estruturado de crenças políticas mesmo sem usarem, de forma direta ou consciente, os conceitos de esquerda e direta (Feldman, 1988).

Conclusão

Este estudo investigou a natureza substantiva da ideologia de massa no Brasil, explorando como essa variável se manifesta e influencia o comportamento eleitoral dos brasileiros. Com base em quatro estudos detalhados, foi possível observar diferentes aspectos da relação entre ideologia e comportamento político no país, que favorecem a percepção de pouca estruturação ideológica da literatura clássica (Reis, 1988; Pereira, 2020) frente aos recentes ânimos com relação ao papel de preditor (Fuks; Marques, 2020).

O primeiro estudo revelou um aumento significativo na capacidade dos brasileiros de se autolocalizarem na escala ideológica, especialmente durante o período bolsonarista. No entanto, apesar desse aumento, a ideologia ainda mostrou baixa capacidade preditiva em relação ao voto, com exceção de 2022, quando houve uma melhora notável nessa capacidade. Isso sugere que, embora os eleitores estejam se posicionando mais no contínuo, essa identificação ainda não se traduz em comportamento eleitoral consistente.

No segundo estudo, a estabilidade das preferências ideológicas foi avaliada mediante a utilização de dados de painéis em dois anos distintos. Os resultados mostraram altos níveis de volatilidade, o que indica preferências ideológicas suscetíveis a mudanças ao longo do tempo. Esse achado sugere uma baixa estruturação ideológica, alinhando-se com os questionamentos de Converse (1964) sobre a estabilidade das atitudes políticas.

O terceiro estudo focou na consistência entre o autoposicionamento dos eleitores e suas opiniões sobre diferentes temas. Aqui, foi observado um descompasso entre a ideologia simbólica e a operacional, com muitos brasileiros apresentando atitudes inconsistentes. Isso evidencia a complexidade da ideologia política no Brasil, onde rótulos ideológicos nem sempre correspondem a posições políticas concretas. Além disso, observamos que o Brasil vem se tornando cada vez mais progressista na dimensão dos costumes e mais conservador em termos econômicos.

Por fim, o quarto estudo buscou identificar os preditores da ideologia no Brasil em 2022. Os resultados indicaram que os vínculos afetivos com lideranças políticas, especialmente com Jair Bolsonaro, foram os preditores mais importantes da ideologia, superando as variáveis operacionais e demográficas. Isso sugere que as emoções e as identidades afetivas desempenham um papel crucial na formação ideológica dos eleitores brasileiros. Bolsonaro parece ter servido, de fato, como um farol para o eleitorado no que se refere ao autoposicionamento ideológico, muito embora não tenha conseguido aumentar a consistência nas atitudes do eleitorado.

Se a ideologia tem ganhado poder preditivo em relação ao voto, a variável não parece medir o que supostamente deveria – isto é, não revela o conteúdo substantivo por trás da associação, mas retrata uma relação afetiva com determinados líderes. Caso pesquisadores desejem mensurar de fato o comportamento ideológico da população, recomendamos o uso de escalas operacionais, como as apresentadas neste artigo. Estas são propriamente operacionalizadas para medir o posicionamento do eleitorado frente a determinados temas, gerando uma medida mais coesa do comportamento e, por conseguinte, mais informativa para os diagnósticos em questão.

Apêndice

Apêndice A: Robustez dos resultados da primeira seção

A tabela abaixo apresenta a redação das perguntas utilizadas como variáveis explicativas utilizadas na seção, bem como a escala em que foram coletadas, e as especificações do processo de amostragem. Ideologia, a principal variável de interesse, não apresenta qualquer tipo de variação no instrumento, mantendo a série completamente comparável. Quando se trata de partidarismo, há uma pequena variação na redação, alterando a partir de 2018 de “Qual partido o sr (a) mais gosta?” para “Qual partido o sr (a) se sente mais próximo?”. Essa mudança pode causar uma pequena variação nos resultados, mas como os modelos foram estimados em forma comparada à ideologia, tal variação não afeta os achados do artigo. Além disso, há uma pequena mudança na escala nos anos de 2006 e 2010, que expandiu as opções de resposta. Para contornar essa mudança, utilizamos apenas a primeria resposta nesses anos, dado que a expansão da pergunta se dá após a primeira resposta. Por fim, a avaliação de governo foi o indicador que sofreu maior variação ao longo das ondas. Isso se dá sobretudo em função da variação na escala da pergunta, que começa como seis pontos, é alterada para quatro pontos por duas ondas e utiliza cinco pontos nas três ondas finais. Tal diferença resulta em mudanças na quantidade de informação contida na pergunta, e podem enviesar os resultados. Contudo, os resultados encontrados no modelo são consistentes teoricamente e ao longo do tempo. Além disso, a estratégia de estimação independente dos modelos permite que não haja spill-over de qualquer viés. Considerando características de amostragem, há uma alteração quando consideramos o procedimento inicial estabelecido em 2002. Após 2010, no entanto, o processo se estabiliza, com menores alterações no design. Enquanto tais variações são preocupantes e podem afetar os resultados, o ESEB é um dos poucos surveys brasileiros que possui uma sequência histórica que permite comparação ao longo do tempo, justificando seu uso. Sua aplicação também é validada nacionalmente e internacionalmente, como bloco do projeto Comparative Study of Electoral System (CSES)18.

Variável Edição Redação Escala Estudo Eleitoral Brasileiro (ESEB) Ideologia 2002 Novamente pensando em esquerda e direita na política, como o (a) sr. (a) se considera? (RU) Lembrando que zero significa que o (a) sr. (a) é de esquerda e 10 que o. (a) sr. (a) é de direita. 1 - 10 2006 Novamente pensando em esquerda e direita na política, como o (a) sr. (a) se considera? (RU) Lembrando que zero significa que o (a) sr. (a) é de esquerda e 10 que o. (a) sr. (a) é de direita. 1 - 10 2010 Novamente pensando em esquerda e direita na política, como o (a) sr. (a) se considera? (RU) Lembrando que zero significa que o (a) sr. (a) é de esquerda e 10 que o. (a) sr. (a) é de direita. 1 - 10 2014 Novamente pensando em esquerda e direita na política, como o (a) sr. (a) se considera? (RU) Lembrando que zero significa que o (a) sr. (a) é de esquerda e 10 que o. (a) sr. (a) é de direita. 1 - 10 2018 Novamente pensando em esquerda e direita na política, como o (a) sr. (a) se considera? (RU) Lembrando que zero significa que o (a) sr. (a) é de esquerda e 10 que o. (a) sr. (a) é de direita. 1 - 10 2022 Novamente pensando em esquerda e direita na política, como o (a) sr. (a) se considera? (RU) * Lembrando que zero significa que o (a) sr. (a) é de esquerda e 10 que o. (a) sr. (a) é de direita. 1 - 10 Partidarismo 2002 Apenas para quem respondeu gostar de algum partido na pergunta anterior. Qual? (Espontânea ‐ RU) Espontânea 2006 Apenas para quem respondeu gostar de algum partido na pergunta anterior. Qual? Mais algum? (Espontânea ‐ MU até 3) Espontânea. Utilizada a primeira opção 2010 Apenas para quem respondeu gostar de algum partido na pergunta anterior. De qual partido o (a) sr. (a) gosta? Mais algum? (Espontânea ‐ MU até 3) Espontânea. Utilizada a primeira opção 2014 Apenas para quem respondeu gostar de algum partido na pergunta anterior. De qual partido o (a) sr. (a) gosta? (Espontânea ‐ RU) Espontânea 2018 Apenas para quem respondeu gostar de algum partido na pergunta anterior. Qual partido você se sente próximo(a)? (Espontânea ‐ RU) Espontânea 2022 Apenas para quem respondeu gostar de algum partido na pergunta anterior. De qual partido o (a) sr. (a) se sente próximo(a)? (Espontânea ‐ RU) Espontânea Avaliação de governo 2002 Na sua opinião, de uma maneira geral o Governo Fernando Henrique nos últimos 4 anos foi.... (RU) 1 - 6 2006 Na sua opinião, de uma maneira geral o Governo Lula nos últimos 4 anos foi.... (RU) 1 - 4 2010 Na sua opinião, de uma maneira geral o governo Lula nos últimos 4 anos foi: (Ler até opção 4) 1 - 4 2014 Na sua opinião, de uma maneira geral o governo da presidente Dilma Rousseff nos últimos 4 anos foi ótimo, bom, ruim ou péssimo? (RU) 1 - 5 2018 Na sua opinião, de uma maneira geral o Governo do Presidente Michel Temer nos últimos 2 anos foi ótimo, bom, ruim ou péssimo? (RU) 1 - 5 2022 Na sua opinião, de uma maneira geral o governo do presidente Jair Bolsonaro nos últimos 4 anos foi ótimo, bom, ruim ou péssimo? 1 - 5 Amostra 2002 N = 2513. Amostragem simples em 3 estágios. 3 estágios probabilísticos. 2006 N = 1000. Amostragem simples em 3 estágios. Primeiro estágio: Seleção Sistemática das capitais e amostragem simples de cidades; Segundo estágio, amostragem simples de setor censitário; Terceiro estágio , cotas por Faixa Etária, Escolaridade, Condição de Trabalho (PEA/Não PEA), cruzada por Sexo 2010 N = 2000. Amostragem simples em 3 estágios. Primeiros 2 (cidade e setor censitário) probabilísticos e terceiro por cotas de Sexo, Faixa Etária, Escolaridade, Condição de Trabalho (PEA/Não PEA) e Renda Familiar 2014 N = 3136. Amostragem proporcional por tamanho em 3 estágios. Primeiros 2 (cidade e setor censitário) probabilísticos e terceiro por cotas de Sexo, Faixa Etária, Escolaridade, Ramo de Atividade. Sobreamostragem no estado de São Paulo, com aplicação de peso para redução do impacto regional 2018 N = 2506. Amostragem proporcional por tamanho em 3 estágios. Primeiros 2 (cidade e setor censitário) probabilísticos e terceiro por cotas de Sexo, Faixa Etária, Escolaridade, Ramo de Atividade. Mudança no critério dona de casa em Ramo de Atividade 2022 N = 2001. Amostragem proporcional por tamanho em 3 estágios. Primeiros 2 (cidade e setor censitário) probabilísticos e terceiro por cotas de Sexo, Faixa Etária, Escolaridade, Renda Domiciliar Fonte: Elaboração própria com base em dados do ESEB 2022.

Voltando para os resultados do modelo, a figura A1 abaixo apresenta o resultado da área sob a Curva de ROC de modelos bivariados estimados por meio de uma regressão logística. As estimativas são obtidas de forma análoga aos modelos de aprendizado de máquina, mostrando o quanto modelos clássicos voltados para variáveis binárias (logit e probit) são capazes de acertar suas predições, balanceando falsos positivos com falsos negativos (Agresti, 2001). O resultado encontrado é similar ao de modelos de aprendizado de máquina, ainda que um pouco inflado. Isso acontece pois as predições foram feitas sem o uso de um banco de dados de validação e teste, diferente do apresentado no texto principal, aumentando a capacidade do modelo de explicar os dados. Tais achados demonstram a robustez do método utilizado no texto principal, que fornece medidas mais conservadoras.

Figura A1
Área sob a curva de ROC

Apêndice B
: Redação das perguntas utilizadas na seção 2

Apêndice C
: Redação das perguntas utilizadas na seção 3

Apêndice D
: Carga fatorial e discriminação das questões geradas pelos modelos de Teoria da Resposta ao Item

Apêndice E
: Tabela de Regressão da Figura 8

Apêndice F
: Tabela de Regressão da Figura 9

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  • Zaller, J. The Nature and Origins of Mass Opinion. Cambridge: Cambridge University, 1992.
  • 1
    As análises presentes neste artigo podem ser inteiramente reproduzidas, e os scripts e bases de dados para a replicação estão disponíveis em: <https://github.com/jcardosolcamargos/-O-Campe-o-Voltou-A-Natureza-Substantiva-da-Ideologia-de-Massa-no-Brasil>.
  • 4
    Agradecemos aos revisores anônimos e aos editores pelos comentários deste trabalho.
  • 5
    O enunciado de todas as perguntas trabalhadas e suas escalas, bem como comentários sobre as técnicas de amostragem aparecem no Apêndice do artigo.
  • 6
    Uma maior discussão sobre o processo de amostragem e a comparabilidade das perguntas pode ser encontrado no Apêndice A.
  • 7
    PT x PSDB nas eleições de 2002 até 2014, PT x PSL nas eleições de 2018 e PT x PL nas eleições de 2022.
  • 8
    Pereira (2020) propõe um diagnóstico pautado em 3 critérios: 1) o autoposicionamento na escala ideológica, 2) a capacidade de localizar as opções eleitorais na dimensão espacial e 3) a ordenação correta dos partidos conforme a ideologia. Optamos pela versão simplificada pela falta de questões idênticas nas versões do ESEB.
  • 9
    A identificação partidária foi codificada com uma configuração binária: petista x outros.
  • 10
    As ondas foram conduzidas nos meses de março/abril, agosto e dezembro de 2010.
  • 11
    As ondas foram conduzidas nos meses de março, setembro e outubro de 2018.
  • 12
    A redação das perguntas pode ser conferida no Apêndice B.
  • 13
    Ao todo, utilizamos oito perguntas: quatro relacionadas à economia (condução privada x pública da economia, responsabilidade do governo, papel do trabalho e efeitos de competição) e quatro relacionadas à moral (homossexualidade, prostituição, aborto, divórcio). A redação das perguntas está disponível no Apêndice C.
  • 14
    As cargas de cada variável podem ser analisadas no Apêndice D.
  • 15
    Como a escala simbólica é uma medida de 10 pontos, caracterizamos como de esquerda todos aqueles que se posicionaram nos pontos 1 a 4 e de direita todos aqueles localizados de 7 a 10.
  • 16
    As mensurações de afeto são feitas a partir de itens que perguntam aos respondentes o quanto eles gostam de Bolsonaro e do PT. Invertemos a escala de simpatia com o PT para que a antipatia com o partido tenha associação positiva com a medida de autoposicionamento ideológico.
  • 17
    Não há uma medida típica de sofisticação política no ESEB 2022, com perguntas sobre conhecimentos de temas políticos. Usamos como proxy o nível de escolaridade dos respondentes, com separação binária entre pessoas com nível superior x outros.
  • 18
    Disponível em: <https://cses.org/>.

Disponibilidade de dados

As análises presentes neste artigo podem ser inteiramente reproduzidas, e os scripts e bases de dados para a replicação estão disponíveis em: <https://github.com/jcardosolcamargos/-O-Campe-o-Voltou-A-Natureza-Substantiva-da-Ideologia-de-Massa-no-Brasil>.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    29 Set 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    03 Set 2024
  • Aceito
    19 Maio 2025
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