A teoria das duas consciências: comentários

The two consciousness theory: commentary

Resumos

Lívia Simão citou a semelhança entre sua posição psicológica construtivista semiótico-cultural e as duas consciências de Engelmann. Nelson Coelho Jr. acha semelhança entre Husserl e Merleau-Ponty com o estudo da consciência de Engelmann. Entretanto, apesar do origem do conhecimento em si mesmo, Coelho Jr. aceita a realidade das outras pessoas e do mundo. Arno Engelmann respondeu aos raciocínios dos comentadores. Em resposta a Coelho Jr. declara que sua posição continua cética: a realidade das outras pessoas e do mundo é uma hipótese, ainda que uma hipótese de enorme probabilidade.

construtivismo; fenomenologia; consciência


Lívia Simão referred to the similarities between her constructivist-semiotic-cultural psychological approach and Engelmann's two consciousness proposal. Nelson Coelho Jr. comments the similarities between Husserl and Merleau-Ponty approach and Engelmann's studies of consciousness. Nevertheless, despite the origin of the knowledge in himself, Coelho Jr. accept the reality of other people and the reality of the world. Arno Engelmann answered the arguments of the two commentators. In answering to Coelho Jr., he declared that he is faithful to a skeptic thesis. The reality of other people and of the world is an hypothesis, although a very high probability hypothesis.

constructivism; phenomenology; consciousness


SEÇÃO ESPECIAL - ARNO ENGELMANN

A teoria das duas consciências - comentários

The two consciousness theory - commentary

Arno Engelmann

Endereço para correspondência

RESUMO

Lívia Simão citou a semelhança entre sua posição psicológica construtivista semiótico-cultural e as duas consciências de Engelmann. Nelson Coelho Jr. acha semelhança entre Husserl e Merleau-Ponty com o estudo da consciência de Engelmann. Entretanto, apesar do origem do conhecimento em si mesmo, Coelho Jr. aceita a realidade das outras pessoas e do mundo. Arno Engelmann respondeu aos raciocínios dos comentadores. Em resposta a Coelho Jr. declara que sua posição continua cética: a realidade das outras pessoas e do mundo é uma hipótese, ainda que uma hipótese de enorme probabilidade.

Palavras-chave: construtivismo; fenomenologia; consciência.

ABSTRACT

Lívia Simão referred to the similarities between her constructivist-semiotic-cultural psychological approach and Engelmann's two consciousness proposal. Nelson Coelho Jr. comments the similarities between Husserl and Merleau-Ponty approach and Engelmann's studies of consciousness. Nevertheless, despite the origin of the knowledge in himself, Coelho Jr. accept the reality of other people and the reality of the world. Arno Engelmann answered the arguments of the two commentators. In answering to Coelho Jr., he declared that he is faithful to a skeptic thesis. The reality of other people and of the world is an hypothesis, although a very high probability hypothesis.

Key words: constructivism; phenomenology; consciousness.

Devo, antes de mais nada, agradecer à Lívia Mathias Simão e ao Nelson Ernesto Coelho Jr., os elogios, apesar de injustificados, que recebi por meus trabalhos teóricos. Acho que todos estamos apenas cumprindo uma das funções de professor universitário. Como sou o mais velho das pessoas que contribuíram na conferência e no curso de pós-graduação, isto é, mais velho que o José Lino, que a Lívia, que o Nelson e que o corpo discente, é evidente que tive mais tempo para pesquisar e para refletir.

A Lívia me propôs cinco perguntas. As cinco apresentam como básico a assimetria da relação entre "isto" ou meu-mundo e "fora" ou resto-do-mundo. Qual o lugar da outra pessoa nesse tipo de relação?

Para mim, há dois aspectos da relação que devem ser considerados. De um lado, o tipo de relação entre pessoas, como entre animais não-humanos, obedece a uma série de fatores, dos quais apenas um é consciente. Há um equilíbrio entre mim e a outra pessoa ou eu domino a relação ou submeto-me à outra pessoa. De outro lado, a relação consciente é a maneira com que me represento esta relação: pode haver semelhança entre elas ou não. A consciência é uma forma de saber o que se passa lá "fora" e também como me comporto. Mas não é sempre assim, nem totalmente nem às vezes com referência àquilo que nos parece verdadeiro.

A consciência é a única maneira de sentir-se, de saber-se algo. Sem consciência numa pessoa, essa pessoa não sabe absolutamente de nada. Além disso, essa consciência é individual, ainda que seja difícil a pessoa perceber este aspecto da consciência. Como consciência, além do dia a dia, ela é a origem de todo o nosso conhecimento. Digo origem de todo o nosso conhecimento, porque o que cada um nós sabe, pode escrever e ainda publicar. Os textos esculpidos nas pedras, os manuscritos em papiro, pergaminho ou papel são exemplos dessa atividade que foi capaz de surgir há milhares de anos.

A única coisa que sei está na minha consciência, na minha consciência-imediata. Tudo que saberei das consciências-de-outros, sabê-lo-ei como fenômenos na consciência-imediata. Portanto, nesse ponto de vista, o outro percebido, a alteridade, será sempre a maneira percebê-lo. De outro lado, se ignoro a parte inicial do meu-mundo, os outros são capazes de se relacionar comigo sem precedência: o "eu" pode se curvar ante um outro poderoso ou o "eu" serei o poderoso ante o qual o outro pode se curvar ou o "eu" e o outro estarão numa ligação equilibrada.

As hipóteses básicas seriam sempre partes do meu-mundo, não do resto-do-mundo. Seriam maneiras do meu-mundo crer na realidade do resto-do-mundo. De outro lado, a porção do "eu" que fora antigamente um "isto", será sempre mediata. Sua realidade é aceita se aceita a primeira hipótese básica ontológica, a duração. Minha permanência e a permanência dos outros através do tempo, apesar dos átomos constituintes das pessoas mudarem, é um acontecimento que mostra definitivamente a importância da gestalt. As pessoas são sempre a mesma gestalt apesar de serem constituídos por átomos diferentes (Engelmann, 2002).

Nelson, em sua admirável crítica termina com três perguntas que fazem parte de sua formação husserliana e merleau-pontyana. Vou responder a essas perguntas. Entretanto, há um ponto de seu texto que acho bom discutir antes.

Nelson diz no seu segundo parágrafo que "a consciência é ao mesmo tempo a presença mais imediata que possuímos e a entidade menos tangível, a mais inescrutável (grifo meu) da existência humana."1 1 Trecho no segundo parágrafo do comentário de N. E. Coelho Jr. à minha exposição. Realmente, a consciência - a consciência-imediata naquilo que sinto - é a única coisa que conhecemos imediatamente. Seria menos tangível, menos escrutável do que o resto dos objetos - concebíveis tanto quanto como consciência-imediata quanto como consciência-mediata? Acho que não.

Nesses últimos dez ou quinze anos houve um aumento enorme de artigos sobre a consciência. Esses artigos discutem as mais diversas opiniões, portanto seu objeto de estudo é largamente examinado. Mas o fato de ser muito examinado não o torna menos escrutável. Como objeto de estudo, a consciência é, do meu ponto de vista, muito mais escrutável do que a composição interna do planeta solar Júpiter, é muito mais escrutável do que os quarks, é muito mais escrutável do que a presença ou ausência de Deus na explicação do Universo, ainda que, de outro lado, menos escrutável do que, por exemplo, a pele dos seres humanos.

Agora, vou responder às suas três perguntas. A primeira pergunta refere-se à concepção husserliana de intencionalidade (Husserl, 1949). Como concebo essa noção? Para mim a intencionalidade é um das três direções que pode assumir a gestalt bipolar "eu puro" -aparência ou noesis-noema. O "eu puro" e a aparência formam uma gestalt, ainda que evidentemente fraca. Essa gestalt, muito frequentemente, pode ser do "eu puro" para a aparência. Entretanto, há situações em que a gestalt "eu puro" -aparência não apresenta direção, nem para fora nem para dentro. E há situações no qual a direção da gestalt "eu puro"-aparência é de fora para dentro, da aparência para o "eu puro". A noção de "requiredness" de Köhler (1938) é um caminho para essa concepção triândrica. Ainda que não desenvolvi este problema, apresentei-o nas pp. 76 e 77 da minha tese de livre-docência (Engelmann, 1991) e, um pouco mais, na p. 52-53 de "Dois tipos de consciência" (Engelmann, 1997a). Entretanto, a consciência deve ser consciência reflexiva, isto é, deve ser dividida em "eu puro" e aparência. Se ela não for, a intencionalidade é impossível; mas isto não nos impede de termos consciência. Portanto, há uma consciência no ser humano em que conscientemente não existe a divisão. E é a consciência mais comum. Entretanto, sabemos que estamos consciente, mas não sabemos o que é ser consciente; é a consciência que acho ser chamada de primária por Edelman (1992) ou por Farthing (1992), por exemplo. No momento em que procuramos saber o que é ser consciente, a consciência muda de primária para reflexiva. Todos esses processos da relação ou "eu puro" -aparência ou ausência da relação podem se passar tanto na consciência-imediata quanto na consciência-mediata.

Responder à segunda pergunta requer que saibamos de antemão a resposta à terceira. Essa pergunta baseia-se no artigo de Merleau-Ponty (1960) publicado junto com seus outros artigos em "Signes". Merleau-Ponty apenas ressalta uma "descoberta" do próprio Husserl (1952). Os dois grandes filósofos julgam que uma mão ao tactuar uma outra mão acham que essa outra mão é de fora. Porém esta outra mão pode ser parte de si mesmo. A outra mão é sem dúvida ele mesmo. Haveria duas maneiras de sentir "a outra mão". A percepção da outra mão não seria apenas o resultado provável, mas o resultado real: ele percebe uma coisa que é. A percepção é dele mesmo. E ele mesmo percebe com a outra mão a própria mão. O resultado é que a percepção não pode ser cega como os céticos querem. Ela é algo de real. Meu colega João Augusto Frayze-Pereira me colocou a mesma pergunta, já há vários anos, depois de ler o mesmo artigo de Merleau-Ponty.

A minha resposta, como a de qualquer outro cético, é que a totalidade da percepção, e não as duas percepções de cada uma das mãos, pode estar errada. Pode-se sonhar que as duas mãos se tocam, quando realmente as duas mãos continuam sem contato uma com a outra. A percepção sempre pode dar notícias falsas. Köhler (1938) tentou evidenciar a realidade transfenomênica, ao tentar lembrar o nome de uma pessoa que, durante um certo tempo não é capaz de vir à consciência. Entretanto, o lembrar-se de alguém é prova que esse alguém existe. Na maioria dos casos esse alguém existe; mas é possível que a procura de um nome seja algo de errado por se tratar de uma pessoa que realmente não existiu.

Agora, achando que a resposta cética é válida, na sua segunda pergunta você me pergunta se a "experiência do outro, com o outro, possa lógica e cronologicamente ser simultânea à minha experiência de mim mesmo"2 2 Trecho da segunda pergunta como comentário de N. E. Coelho Jr. à minha exposição. . Evidentemente que sim. Entretanto, a minha experiência será consciência-imediata; o outro será consciência-mediata-do-outro. Conheço mais a minha consciência do que a consciência inferida do outro. E essa consciência-mediata-do-outro pode dar-se num momento em que sonho com a presença do outro ou que alucino o outro, ainda que esses enganos com a presença do outro são muito pouco prováveis.

Um dos fatores que me fez abandonar o antigo conceito "conscientização imediata" e utilizar simplesmente "consciência", como substantivo que pode ser qualificado ou por imediata ou por mediata, foi a situação de dois seres humanos frente a frente conversando. Podemos chamá-los de A e B. De acordo com minha teoria, para A, A apresenta consciência-imediata e B consciência-mediata-de-outros. Mas, para B, a classificação das consciências é contrária: B apresenta consciência-imediata e A consciência-mediata-de-outros. O fato de lidarmos ao mesmo tempo de uma consciência que parece conhecível imediatamente e da mesma consciência que se esconde por trás de indicadores de consciência leva à diferenciação apenas do adjetivo e não do substantivo. Rejeito a diferenciação conscientização-consciência, como rejeito a mesma diferenciação em língua inglesa "quale-consciousness" ou "raw feel-consciousness".

  • Endereço para correspondência:
    Arno Engelmann
    Instituto de Psicologia, USP
    Av. Prof. Lúcio Martins Rodrigues. Trav.5, Bloco 17
    Cidade Universitária, São Paulo, SP
    CEP 05508-900
    E-mail:
  • Artigo recebido para publicação em 07/02; aceito em 08/02.

  • 1
    Trecho no segundo parágrafo do comentário de N. E. Coelho Jr. à minha exposição.
  • 2
    Trecho da segunda pergunta como comentário de N. E. Coelho Jr. à minha exposição.
    • Edelman, G.M. (1992). Bright air, brilliant fire New York: Basic Books.
    • Engelmann, A. (1991). A possibilidade do estudo científico da consciência Tese de Livre-Docência. Instituto de Psicologia, Universidade de São Paulo. São Paulo.
    • Engelmann, A. (1997). Dois tipos de consciência: a busca da autenticidade. Psicologia USP, 8 (2), 25-67.
    • Engelmann, A. (2002). A psicologia da Gestalt e a ciência contemporânea. Psicologia: Teoria e Pesquisa, 18, 1-16.
    • Farthing, G.W. (1992). The psychology of consciousness. Englewood Cliffs: Prentice Hall.
    • Husserl, E. (1949). Ideas relativas a una fenomenología pura y una filosofía fenomenológica (J. Gaos, Trad.). México: Fondo de Cultura Econômica.
    • Husserl, E.(1952). Ideen zu einer reinen Phänomenologie und phänomenologischen Philosophie. Zweites Buch. Phänomenologischen Untersuchungen zur Konstitution Haia: Martinus Nijhoff.
    • Köhler, W. (1938). The place of values in a world of facts New York: Liveright.
    • Merleau-Ponty, M. (1960). Le philosophe et son ombre. Em M. Merleau-Ponty; (ed.), Signes (pp. 201-228). Paris: Gallimard.

    Endereço para correspondência: Arno Engelmann Instituto de Psicologia, USP Av. Prof. Lúcio Martins Rodrigues. Trav.5, Bloco 17 Cidade Universitária, São Paulo, SP CEP 05508-900 E-mail: aengelmann@attglobal.net. 1 Trecho no segundo parágrafo do comentário de N. E. Coelho Jr. à minha exposição. 2 Trecho da segunda pergunta como comentário de N. E. Coelho Jr. à minha exposição.

    Datas de Publicação

    • Publicação nesta coleção
      29 Jul 2009
    • Data do Fascículo
      2002

    Histórico

    • Aceito
      Ago 2002
    • Recebido
      Jul 2002
    Universidade de São Paulo, Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Ribeirão Preto, Programa de Pós-Graduação em Psicologia Av.Bandeirantes 3900 - Monte Alegre, 14040-901 Ribeirão Preto - São Paulo - Brasil, Tel.: (55 16) 3315-3829 - Ribeirão Preto - SP - Brazil
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