Sobre a psicopatologia dos atos

About act's psychopatology

En la psicopatología de los actos

Roberto Calazans Sobre o autor

Resumos

Este artigo pretende apresentar a psicopatologia dos atos a partir do esquema de Jacques Lacan sobre a angústia. Diferenciamos os acting-out, a passagem ao ato, os sintomas, as inibições e a angústia fazendo uma duplicação do esquema de Lacan levando em consideração os registros do simbólico, do real e do imaginário. Esse esquema permite uma abordagem da questão dos atos do sujeito sem cair em uma perplexidade do clínico, nem na confusão entre os atos e a ação. Permite também uma melhor orientação do clínico em relação às diversas modalidades de respostas subjetivas que não se restringem à questão sintomática, que é o campo inaugural da clínica psicanalítica desde a sua fundação por Sigmund Freud. Acreditamos contribuir, assim, para um maior esclarecimento desse esquema no ensino de Lacan e para que ele possa servir de orientação para o tratamento dos atos do sujeito na clínica.

psicanálise; psicopatologia; atos; angústia; Lacan


This article presents the psychopathology of the acts from the scheme Jacques Lacan about the anxiety. We differentiate the acting out, the passage to the act, symptoms, inhibitions and anxiety causing a doubling of Lacan scheme taking into account the records of the symbolic, the real and the imaginary. This scheme allows an approach to the subject matter of the acts that do not fall into a clinician's perplexity or confusion in between acts and action. It also allows a better orientation of the clinician in relation to various forms of subjective responses that are not restricted to symptomatic issue, which is the inaugural field of psychoanalytic clinic since its founding by Sigmund Freud. We believe thus contribute to a further clarification of this scheme in Lacan and it can serve as a guideline for the treatment of the subject acts in clinic.

psychoanalysis; psychopathology; acts; anxiety; Lacan


En este artículo se presenta la psicopatología de los actos desde el esquema de la angustia de Jacques Lacan. Diferenciamos la actuación, el pasaje al acto, síntomas, inhibiciones y angustia haciendo una duplicación del esquema de Lacan teniendo en cuenta los registros de lo simbólico, lo real y lo imaginario. Este esquema permite una aproximación a la temática de los actos de sujeto sin nos dejar comprendidos en la perplejidad del clínico, o confusión médico entre los actos y acciones. También permite una mejor orientación en relación con las diferentes formas clínicas de las respuestas subjetivas que no se limitan a la cuestión sintomática, que es el campo de inauguración de la clínica psicoanalítica desde su fundación por Sigmund Freud. Creemos así contribuimos a una mayor clarificación de este esquema de Lacan y que puede servir como guía para el tratamiento de los actos individuales en la clínica.

psicoanálisis; psicopatología; actos; angustia; Lacan


Introdução

Quando estamos às voltas com a questão da psicopatologia dos atos, geralmente encontramos na mesma série a abordagem dos acting-out, das passagens ao ato e das inibições. Isso nos permite pensar em aproximações e afastamentos em relação a essas modalidades de resposta do sujeito. As aproximações que podemos extrair em relação a essas três modalidades é que elas desempenham uma mesma função: são respostas do sujeito frente à angústia. No entanto, se podemos dizer que elas desempenham as mesmas funções, por outro lado podemos dizer também que cada uma o faz mobilizando recursos diferentes em registros distintos.

Nosso objetivo neste texto é apresentar como o esquema da angústia pode servir de modelo para fazer essas diferenciações, principalmente se fizermos em relação a ele uma duplicação e enfatizarmos as diferenças entre respostas nos registros do imaginário, do simbólico e do real. Com essa duplicação acreditamos encontrar subsídios para definir como estrutural a relação entre atos do sujeito e a angústia.

Esquema da angústia e sua duplicação

O esquema da angústia é apresentado na primeira lição (p. 22), retomado na lição sexta (p. 89) e reformulado na penúltima lição (p. 346) do seminário A angústia (1962-1963/2005), de Jacques Lacan. De acordo com Alexandre Stevens (1993Stevens, A. (1993). Embarras, inhibition et repetition. La Cause Freudienne, 23, 57-61.), Lacan retoma nesse esquema, ao seu modo, a distinção de Freud entre inibição, repetição (chamada por Lacan de impedimento) e embaraço e acrescenta outros elementos em um sistema de coordenadas cartesianas no qual no eixo da ordenada encontramos o movimento e, na abscissa, a dificuldade. Num primeiro momento Lacan deixa vazios os lugares ocupados pelo acting-out e a passagem ao ato. Sua preocupação inicial era demonstrar o que significa a inibição nos eixos da dificuldade e do movimento. De acordo com Lacan, definir a inibição, o impedimento, o embaraço, a emoção e a efusão não é o mesmo que definir a angústia, mas "manter-se a uma distância respeitosa da angústia" (1962-1963/2005, p. 20). Já os espaços deixados vazios, por sua vez, são "um assunto de máximo interesse quanto ao manejo da angústia" (Lacan, 1962-1963/2005Lacan, J. (2005). O seminário, livro 10: a angústia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. (Seminário de 1962-1963), p. 22) por terem uma proximidade maior em relação a ela; proximidade que também encontramos no sintoma. O esquema é o que pode ser visto no gráfico abaixo:

Vemos nessa ordenação que a angústia está no ponto máximo das dificuldades e do movimento. E vemos que ela é rodeada pelo eixo do movimento pela passagem ao ato e pelo eixo da dificuldade pelo acting-out. Estar próximo da angústia não é sem importância, assim como não é sem importância a inibição ser o que está mais longe dela.

Esse esquema nos permite estabelecer uma série de gradações de respostas em relação à angústia, seja na ordem da abscissa, seja na ordem da ordenada. No entanto, acreditamos que essas gradações e a operatividade desse esquema será mais profícua se fizermos nele uma duplicação e acrescentarmos, ao lado do vetor do movimento, os registros do imaginário, do simbólico e do real e, do lado da dificuldade, as modalidades distintas de respostas que podem ser imaginárias, simbólicas ou reais. Assim teremos um esquema em que encontramos a interseção das respostas com os registros, podendo produzir ora a predominância de respostas imaginárias no registro imaginário, simbólico e real, ora a predominância de respostas simbólicas nos registros do imaginário simbólico e real, ora a predominância de respostas reais nos registros do imaginário, simbólico e real. Acreditamos assim que a proximidade entre os atos e a angústia pode ser demarcada por respeitar uma relação estrutural entre elas. Por essa razão, vejamos como fica o esquema com a duplicação que propomos no gráfico 2 abaixo:

Gráfico 1.
Esquema da Angústia1

Gráfico 2.
Esquema duplicado com a dimensão dos registros e das respostas

Antes de continuarmos, devemos salientar dois pontos. O primeiro é: qual conceito não é contemplado no esquema da angústia de Lacan? O fantasma. O fantasma é justamente um modo de articular os três registros - simbólico, imaginário e real - no tratamento do objeto da angústia. É justamente quando esse fantasma é abalado que temos as respostas nos modos de tratamento do objeto que são descritas no esquema da angústia. Se considerarmos que o sintoma é a resposta do sujeito frente ao vacilo do fantasma, podemos estender também esse entendimento para as outras modalidades de resposta.

No fantasma temos uma mediação pelo imaginário (◊) entre o sujeito ($), efeito simbólico do significante, e o objeto (a) que aponta para aquilo que não é da ordem do assimilável do significante: $◊a. O fantasma é um modo de contornar, por essa razão, uma falta constitutiva. Como diz Marie-Hélène Briole: "uma falta constitutiva do sujeito que mostra os limites da imagem especular e abre para a dimensão do fantasma como janela aberta sobre o mundo" (Briole, 1993Briole, M.-H. (1993). Agir l'angoisse. La Cause Freudienne, 23, 62-64., p. 62). Podemos mesmo dizer que é uma maneira preliminar de Lacan pensar a articulação borromeana entre os três registros. Desse modo podemos pensar o esquema da angústia como diversos modos de respostas em que o fantasma é abalado e não temos mais uma articulação entre três registros, mas entre dois. Donde podemos dizer que quando essa janela sobre o mundo é abalada, o tipo de resposta dependerá do modo e do registro em que ocorre.

O segundo ponto que precisamos salientar é que nesse esquema da angústia estamos às voltas com uma diferenciação entre uma clínica do sintoma - na qual prevalece a queixa e a demanda - e a clínica da angústia - em que prevalecem a angústia e os atos do sujeito. Como dizem Álvarez, Sauvagnat e Estéban:

Se na clínica da queixa o sujeito aparece relativamente separado do objeto, na clínica da angústia, pelo contrário, a separação está em perigo e o objeto se apresenta, ao menos temporariamente, como se não tivesse limites ou como se fosse incontrolável (Álvarez, Sauvagnat e Estéban, 2004, p. 275).

Ou seja, o que está em jogo nesse seminário e nesse esquema são os diversos lugares em que o objeto pode se encontrar para um sujeito. Como diz o próprio Lacan:

Por causa da existência do inconsciente, podemos ser esse objeto afetado pelo desejo. Aliás, é na condição de ser assim marcada pela finitude que nossa própria falta, sujeito do inconsciente, pode ser desejo, desejo finito. Na aparência ele é indefinido, porque a falta, que sempre participa de algum vazio, pode ser preenchida de várias maneiras, embora saibamos muito bem, por sermos analistas, que não a preenchemos de mil maneiras. Veremos por que, e quais são essas maneiras (Lacan, 1962-1963/2005, p. 35).

Nesse quadro que reformulamos a partir da elaboração de Lacan podemos anotar o ordenamento de menor (-) e maior (+) movimento e dificuldade. E anotamos também os registros para fazer uma avaliação de como as introduções de questões apresentadas por Lacan representa modos diferentes em registros distintos de tratar a emergência do objeto da angústia. Afinal, esta não é sem objeto. Como lembra Lacan, a angústia aparece quando a falta falta, ou seja, quando não temos a falta de objeto que caracteriza o desejo e sim a sua presença. Isto posto, comecemos então as definições a partir da inibição e as respostas que estão na mesma coluna que ela. Todas essas respostas no nível do movimento se caracterizam pelo seu aspecto imaginário, embora não tenham a mesma estatura por se darem em registros diferentes.

A inibição, de acordo com Lacan e Freud, se dá no nível da locomoção (Lacan, 1962-1963/2005Lacan, J. (2005). O seminário, livro 10: a angústia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. (Seminário de 1962-1963), p. 18). É uma inibição da função do eu-consciente que tem sua motilidade prejudicada. É uma resposta imaginária a uma intrusão do objeto da angústia. "O inibido evita a angústia pela via do imaginário, isto é, pelo registro do eu, impondo-lhe um limite em alguma de suas funções. O registro do imaginário é aquele que encobre toda e qualquer falta" (Hanna, 2003Hanna, M. S. (2003). O distúrbio de déficit de atenção é "um sintoma posto nos museus"? Uma leitura psicanalítica da síndrome do distúrbio de hiperatividade e déficit de atenção. Latusa, 8, 147-158., p. 154). A função do eu, como aponta Maria Silvia Hanna, é tão eminentemente imaginária que requer uma obturação do ser.

A consequência a ser extraída daí é a que nos permite negar à inibição um lugar no domínio das patologias dos atos. A inibição não instaura rupturas tal como os atos; ela é mais da ordem do movimento que mantém intactas as coordenadas simbólicas por ser uma resposta imaginária no registro imaginário.

Como lembra Alexandre Stevens (1993Stevens, A. (1993). Embarras, inhibition et repetition. La Cause Freudienne, 23, 57-61.), o objeto da angústia está presente na inibição sob a forma do que Freud chama de erotização do órgão que desempenharia a função. Ora, Álvarez et al. nos diz que na angústia essa separação está em perigo, ou seja, não se trata de que ela não possa ocorrer; trata-se de que na angústia temos a emergência o objeto. Se no caso do sintoma temos a cifração significante - substituição de um por outro que demanda uma interpretação do analista -, no caso da inibição temos outra maneira de responder à emergência da angústia. Como diz Maria Silvia Hanna:

O órgão impedido funciona como um objeto a que designa o ser do sujeito para o Outro. O sujeito não cede da posição de objeto a para o Outro, quer dizer, nesse ponto o sujeito é, através desse pedaço do eu, o objeto recoberto por uma imagem narcísica que o designa sempre como um ser deficiente. Ele é um burro para Outro, posição que o incomoda certamente, mas que implica um gozo que não quer ceder (Hanna, 2003, p. 153).

Desse modo, vemos como o objeto se apresenta na dimensão imaginária levando o sujeito à inibição e não a uma modalidade do ato. Ou para dizer tal como Alexandre Stevens: "a inibição é da ordem do movimento, um ato não" (Stevens, 1993Stevens, A. (1993). Embarras, inhibition et repetition. La Cause Freudienne, 23, 57-61., p. 61). E coloca uma gradação entre a inibição e a angústia, passando pelo acting-out, pela passagem ao ato até chegar ao ato propriamente dito:

A inibição está em uma relação de velamento primeiro estrutural do desejo, o ato tem uma dimensão de abertura tal que o sujeito já não é mais o que era antes. O ato, no sentido forte que Lacan dá em seu seminário sobre o ato analítico, não demanda movimento, ele pode mesmo ser desprovido dele. Ele se define por isto que o sujeito, "após", é um sujeito novo (Stevens, 1993, p. 61).

Nessa mesma coluna do movimento, vemos a seguir o que Lacan chama de emoção definido como "movimento que desagrega" e como "reação catastrófica" (1962-1963/2005, p. 20). Aqui temos mais movimento do que antes, e isso porque, por mais que seja uma resposta imaginária, ela mobiliza significantes. Não temos mais aqui um ponto zero de movimento, mas um movimento desordenado. Ora, um movimento para ser desordenado precisa necessariamente estar relacionado a ordenações; e uma ordenação é, por definição, um trabalho realizado no registro simbólico. Mas é desordenado por ser uma resposta imaginária que está às voltas com o objeto a. Não é à toa que na penúltima lição de seu seminário Lacan a definirá como um "não saber onde responder" (Lacan, 1962-1963/2005Lacan, J. (2005). O seminário, livro 10: a angústia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. (Seminário de 1962-1963), p. 347). Apelar para a relação com o saber é apelar, necessariamente, ao registro simbólico.

Já mais abaixo, temos o que Lacan chama de efusão, que é uma perda de potência (Lacan, 1962-1963/2005Lacan, J. (2005). O seminário, livro 10: a angústia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. (Seminário de 1962-1963), p. 21). Não é uma inibição, mas um deixar de lado o investimento libidinal. Lacan, na última lição de seu seminário irá colocar nesse lugar o objeto a. Cremos que faz isso não porque aí temos um movimento inibido ou desordenado como vimos mais acima, mas uma inércia que é própria ao objeto a. É a consequência de termos uma resposta imaginária no real. É aí que Lacan coloca, na página 346 desse seminário o objeto a. Ele não o coloca aí como causa, mas como uma opacidade ao sujeito (Lacan, 1962-1963/2005Lacan, J. (2005). O seminário, livro 10: a angústia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. (Seminário de 1962-1963)).

Se dermos um passo a mais no eixo das dificuldades, já não estaremos no que Freud chamava de inibição pura. Também não estaremos mais no campo de repostas imaginárias e sim simbólicas. É o que podemos depreender da definição que Lacan dá de impedimento, quando o define como armadilha:

o impedimento está ligado a esse círculo que faz com que, no mesmo movimento com que o sujeito avança para o gozo, isto é, para o que lhe está mais distante, ele depare com essa fratura íntima, muito próxima, por ter-se deixado apanhar, no mínimo, em sua própria imagem, a imagem especular. É essa a armadilha (Lacan, 1962-1963/2005, p. 19).

Ora, o sujeito para Lacan é aquele que está separado de seu gozo. No impedimento, esse gozo é o que está mais distante, o que aponta para outro registro aqui. No entanto, o sujeito no impedimento não se permite ir mais adiante nessa via uma vez que está, por outro lado, respondendo no imaginário. É essa a armadilha da qual fala Lacan: o imaginário é insuficiente para responder à questão do sujeito. Por isso o sujeito acaba se deparando com sua falta diante da presença do objeto. É aqui que vemos emergir a dúvida para o obsessivo: a dúvida é para realizar um não poder, como diz Lacan na penúltima lição do seminário (Lacan, 1962-1963/2005Lacan, J. (2005). O seminário, livro 10: a angústia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. (Seminário de 1962-1963), p. 347). Um não poder para que o sujeito não tenha que se haver com o objeto derradeiro que colocaria sua posição subjetiva em causa. Isso somente ocorrerá, como veremos mais adiante, no embaraço.

Abaixo do impedimento vemos a emergência do sintoma: é o tratamento simbólico por excelência do objeto. Ao menos no primeiro momento do ensino de Lacan. Se tomarmos o exemplo do pequeno Hans que é analisado por Freud em "Inibição, sintoma e angústia" (1926/1996), vemos que para Hans o sintoma não era a inibição e muito menos o medo de cavalo. Era o próprio cavalo que ocupa o lugar do pai. Temos aí em ação os dois procedimentos de formação do inconsciente isolados por Freud e formalizados por Lacan: o cavalo tinha manchas nos olhos parecidas com os aros dos óculos do pai (metonímia); o cavalo pode mordê-lo, assim como o pai pode castrá-lo fazendo com que o cavalo seja mais tolerável e impeça a emergência da angústia (metáfora). O cavalo como sintoma é tomado em sua dimensão eminentemente significante. Como diz Stevens, "um deslocamento, por mínimo que seja, instaura a repetição" (Stevens, 1993Stevens, A. (1993). Embarras, inhibition et repetition. La Cause Freudienne, 23, 57-61., p. 57). Trata-se aqui da repetição significante de que tanto fala Freud nos sintomas histéricos.

Um sintoma assim como os chistes e os atos ditos interpretáveis (atos falhos, parapraxias, entre outros) são considerados por Lacan como formações do inconsciente. As formações do inconsciente não podem ser situadas nem no lugar da angústia nem no da inibição, uma vez que tratam o objeto pelo simbólico e não impedem movimento; as formações do inconsciente não podem ser consideradas nem embaraço, nem efusão, uma vez que não tratam de aumentar ou diminuir a libido, mas de fixá-la em um significante; elas não podem ser situadas nem como emoção nem como passagem ao ato, uma vez que sua fixação não leva nem a uma desagregação do movimento e nem a uma saída com valor de resolução; não podem ser consideradas nem impedimento nem acting-out, uma vez que a demanda ao outro não passa nem pelos enganos do narcisismo, nem pela via de uma transferência selvagem. Em uma sentença: elas não podem ser considerados como um curto-circuito sujeito e objeto, uma vez que aí o objeto está situado em outro lugar.

Abaixo do sintoma temos o que Lacan chama de acting-out. Lacan só irá definir propriamente o acting-out na lição nove do seminário. No entanto, podemos notar que para chegar à definição de acting-out como transferência selvagem ele precisará passar antes pela definição de angústia como tendo objeto. No caso do acting-out, trata-se de uma transferência selvagem uma vez que não temos aí uma separação sujeito-objeto, mas temos uma resposta no nível simbólico por demandar uma separação que venha do Outro. Ou seja, podemos ver que, cada vez que descemos o eixo do movimento e subimos no eixo da dificuldade, mais nos deparamos com a proximidade do sujeito e do objeto. Não é gratuito, então, o que Lacan já chamava a atenção: a proximidade dos atos com a angústia é estrutural por sua proximidade com o objeto da angústia e o tratamento dado a ele. No caso do acting-out, um tratamento simbólico realizado no registro do real. Lacan define o acting-out também como um subir à cena. Ora, é um subir à cena armado com recursos simbólicos. Por essa razão é que podemos dizer que o objeto aí não é, nessa dimensão de atos, tratado como um dejeto, mas como um agalma: articular o simbólico no real faz com que esse objeto adquira o valor de brilho e de endereçamento ao Outro.

Mais um passo no eixo da dificuldade e deparamo-nos com o que podemos situar como respostas reais. É o que encontramos também na dimensão da outra coluna quando Lacan define o embaraço como uma forma leve de angústia. Leve uma vez que temos certa distância no vetor do movimento da angústia, mas leve também por termos uma maior aproximação da mesma no nível da dificuldade. É forma leve de angústia por não ser um confronto direto com o real, mas uma resposta real no registro do imaginário. É uma forma leve de angústia que remete o sujeito à sua causa, como dirá Lacan ao final de seu seminário.

Outra maneira de estar mais próximo do objeto e tratá-lo pela via do real para que a angústia não emerja é a passagem ao ato. Nela o curto-circuito com o objeto é mais patente. A passagem ao ato é uma maneira radical de responder à presença do objeto da angústia. Radical uma vez que essa resposta real, ao se situar no registro do simbólico, implica em uma possibilidade de estilhaçamento da ordenação simbólica. Mais uma vez vemos como os atos são maneiras radicais de tratar o objeto da angústia devido à excessiva proximidade deste. No caso da passagem ao ato, Lacan a definirá como um deixar-se cair. No caso, o curto circuito sujeito-objeto toma o objeto como um resto, algo que não tem marcas significantes. Por outro lado, é uma reposta que se articula, por seu rompimento, com o registro do simbólico. Levamos aqui em consideração a posição de dejeto por ser uma resposta real que se dá no registro do simbólico. É uma tentativa radical de evitar que a angústia advenha. O caso Aimée de Lacan é paradigmático: após a passagem ao ato, Aimée consegue uma certa estabilização, fazendo com que o objeto persecutório caia.

Já no nível máximo da dificuldade e do movimento encontramos a angústia. Como lembra Lacan, a angústia não é sem objeto. No caso da angústia, esse objeto não tem nenhum tratamento simbólico ou imaginário; é uma resposta real no registro do real. Por essa razão Lacan irá dizer que ela não engana: não se perde pelas miragens do imaginário e não se perde pelos equívocos do significante. Qual consequência podemos extrair dessa maneira de pensar o esquema da angústia em sua relação com os atos? Essa duplicação nos permite explicar por que a angústia não é um ato do sujeito. Na angústia não podemos falar em ato por não termos nem um tratamento pelo simbólico de um objeto no real, nem o tratamento pelo real de um objeto no simbólico. É assim que podemos definir tanto o acting-out como a passagem ao ato. Eles têm em comum ser uma articulação entre simbólico e real. Por isso podemos qualificá-los de atos, pois um ato só pode ser pensado em relação às coordenadas simbólicas.

Consequências

Retomando o quadro da angústia, vemos como é importante a duplicação que fizemos por situar aí algumas das proposições de Lacan como barras simbólicas que explicam melhor a relação da angústia com os atos e deles com o sintoma. Tomaremos aqui essas articulações a partir de um texto de Alexandre Stevens (1993Stevens, A. (1993). Embarras, inhibition et repetition. La Cause Freudienne, 23, 57-61.) que nos permite chegar a algumas indicações sobre os tempos dos atos. Tomemos a leitura, primeiro, no eixo vertical levando em consideração a vertente da barra que o simbólico impõe ao sujeito. Podemos dizer que no mesmo nível de dificuldade encontramos algumas barreiras ao aumento do movimento:

  • A emoção faz barra à emergência da efusão em relação à inibição;

  • O sintoma faz barra à emergência do acting-out em relação ao impedimento;

  • A passagem ao ato faz barra à emergência da angústia em relação ao embaraço.

Já em relação ao eixo horizontal, podemos dizer que, no mesmo nível de movimento, temos barreiras em relação ao aumento das dificuldades:

  • O impedimento faz barra à emergência do embaraço em relação à inibição;

  • O sintoma faz barra à emergência da passagem ao ato em relação à emoção;

  • O acting-out faz barra em relação à emergência da angústia em relação à efusão.

Stevens (1993Stevens, A. (1993). Embarras, inhibition et repetition. La Cause Freudienne, 23, 57-61.), em sua análise, mostra que o que Lacan chama de impedimento é o que Freud chamava de "impedimento por medidas de precaução" e que seria a repetição. O impedimento como vimos na análise que fizemos do texto de Lacan é uma resposta simbólica. Assim sendo, podemos dizer que é ele uma resposta que, ao apelar ao simbólico, faz mediação barrando a emergência do nível básico da angústia que é o embaraço como uma resposta real. Ou seja, para cair nessa forma leve de angústia, é preciso romper com as respostas simbólicas do impedimento. Se tomarmos o embaraço, de acordo com Stevens, como o que Freud chama de "interrupção do movimento pelo desenvolvimento da angústia", vemos como o impedimento - e a dúvida como exemplo de impedimento - pode fazer com que o sujeito se defenda aí do que, como salientamos mais acima, seria o objeto derradeiro: aquele que coloca o sujeito em causa, não deixando de trazer uma ponta de angústia ao sujeito. Um bom exemplo de impedimento seria a compulsão a repetição: esta detém a ação do sujeito tendo uma articulação simbólica por referência.

O impedimento também está no eixo do sintoma. Se não fosse a barreira do sintoma que cifra e fixa o elemento pulsional, poderíamos sair da armadilha do impedimento diretamente no acting-out como resposta do sujeito. Desse modo, é o sintoma que faz o papel de uma barreira ao advento do acting-out em relação ao impedimento. O mesmo podemos dizer da função do sintoma no eixo vertical: é necessário fazer uma ruptura com as respostas simbólicas para que uma passagem ao ato possa advir. É por essa razão que o sintoma é uma função simbólica por excelência: tem por função manter afastado o objeto da angústia para evitar tanto o curto-circuito sujeito-objeto na passagem ao ato quanto a elevação do objeto à cena no acting-out.

Se o sintoma tem essa função de barra em relação aos atos, podemos dizer que os atos têm a função de barra em relação à angústia. Se o embaraço é uma forma leve de angústia, a passagem ao ato, como uma resposta real no seio do simbólico, tem a função de evitar o desenvolvimento da forma avançada da angústia em que não temos nenhuma mediação - seja imaginária ou simbólica - entre o sujeito e o objeto a. Do mesmo modo, se a efusão é uma presença inerme do objeto a, o acting-out faz aí uma mediação simbólica ao elevar este objeto à categoria de agalma, evitando a emergência da angústia e fazendo existir, no real, um lugar para o Outro da demanda.

Stevens (1993Stevens, A. (1993). Embarras, inhibition et repetition. La Cause Freudienne, 23, 57-61.) situa apenas as colunas verticais das respostas simbólicas e reais e o faz levando em consideração tempos diferentes da questão do sujeito em sua relação com os atos. E faz isso por dois exemplos: primeiro com o Homem dos Ratos, quando este fica sabendo que sua prima - e Dama de seus pensamentos - deixaria a casa. Num primeiro momento, ele encontra uma pedra no caminho em que ela deveria passar e se detém; advém aí o pensamento de que o carro dela poderia se chocar com essa pedra e ela sofrer com esse choque. De acordo com Stevens, esse deter-se é um impedimento que é seguido pelo pensamento compulsivo do suplício dos ratos. Para ele, trata-se de uma repetição, uma vez que um elemento significante faz esse pensamento retornar. Em um segundo momento, o sujeito retira a pedra do caminho, mas logo em seguida ele pensa que esse ato é estúpido, numa reversão no contrário; é por isso que esse ato é sintomático, por não ter um caráter resolutivo e abrir caminho para a dúvida neurótica e para o pensamento obsedante; no terceiro momento, o sujeito retorna ao local de origem e coloca a pedra no lugar. Temos aí o que Lacan vai chamar de subida à cena do objeto, endereçada, como diz Stevens, à dama de seus pensamentos e, mais além, a seu pai.

Já no que tange à última coluna vertical, a passagem ao ato seria um tempo intermediário entre o embaraço e a angústia. O exemplo aqui é o de Dora. O primeiro tempo é o de embaraço do qual o sujeito sai para não cair na angústia. Como diz Stevens:

Eu já evoquei o embaraço como o limite da angústia. Nele se está embaraçado com um significante a mais. No caso de Dora, é seu sentimento pela Sra. K., além daquele que dedica ao Sr. K., que a impulsiona além do embaraço em que ficou um instante diante da frase do Sr. K, significante a mais, "minha mulher não é nada para mim". Ela passa ao ato sob a forma, é verdade, mais banal, de um tapa (Stevens, 1993, p. 60).

O que podemos depreender com essa abordagem de análise?

Em primeiro lugar, que estamos certos em situar o simbólico tanto no meio do eixo da dificuldade quanto no meio do eixo do movimento. Afinal, não é pelo simbólico que encontramos as barras, as substituições e impedimentos que elas indicam? Em segundo lugar, damos maior precisão à nossa tese de que as patologias do ato são situadas em sua proximidade à angústia, modos de evitar sua emergência e, assim, lhe fazer barra. Não é o que temos quando consideramos o acting-out e a passagem ao ato como respostas que barram a emergência da angústia?

Ora, mas isso só podemos pensar a partir do momento em que consideramos a constituição do sujeito em termos de extração do objeto. Como diz Lacan: "A angústia que não engana é substituída, para o sujeito, pelo que deve ser operado por meio do objeto a. É a isso que está suspensa a função de ato" (Lacan, 1962-1963/2005Lacan, J. (2005). O seminário, livro 10: a angústia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. (Seminário de 1962-1963), p. 60). E mais a frente Lacan complementa: "agir é arrancar da angústia a própria certeza" (Lacan, 1962-1963/2005Lacan, J. (2005). O seminário, livro 10: a angústia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. (Seminário de 1962-1963), p. 88).

Desse modo, podemos concluir que os atos do sujeito, por um lado, são modos distintos do sintoma e da inibição de tratar da angústia. Por outro lado, esses atos acabam sendo ora respostas simbólicas no real - acting-out- ora respostas reais no simbólico - passagem ao ato - gerando modos de resposta que podem levar risco para o próprio sujeito. Por essa razão acreditamos que precisar o tipo de resposta e o registro em que ela se dá é fundamental para orientação do trabalho psicanalítico com a patologia dos atos.

Agradecimentos

Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico - CNPq.

Referências

  • Álvarez, J. M., Sauvagnat, F., & Estéban, R. (2004). Fundamentos de Psicopatologia Psicoanalitica. Madrid: Editorial Sintesis.
  • Briole, M.-H. (1993). Agir l'angoisse. La Cause Freudienne, 23, 62-64.
  • Freud, S. (1996). Inibição, sintoma e angústia. In S. Freud (Autor), Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, v. 20 (pp. 107-209). Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho original publicado em 1926)
  • Hanna, M. S. (2003). O distúrbio de déficit de atenção é "um sintoma posto nos museus"? Uma leitura psicanalítica da síndrome do distúrbio de hiperatividade e déficit de atenção. Latusa, 8, 147-158.
  • Lacan, J. (2005). O seminário, livro 10: a angústia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. (Seminário de 1962-1963)
  • Stevens, A. (1993). Embarras, inhibition et repetition. La Cause Freudienne, 23, 57-61.

  • 1 Na penúltima lição do seminário, na página 346, Lacan (1962-1953/2005) irá substituir alguns termos que coloca no esquema por outros a título de explicação sobre o que acontece na neurose obsessiva. O seu esquema transformado que não iremos abordar diretamente neste artigo é o seguinte: substitui a inibição pelo que ele chama de desejo; substitui o impedimento pelo que ele chama de não poder; substitui o embaraço pelo que ele chama de causa; substitui a emoção pelo que chama de não saber e substitui a efusão pelo que chama de objeto pequeno a. Os outros elementos permanecem os mesmos, sem alteração.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    Jan-Jun 2015

Histórico

  • Recebido
    19 Nov 2013
  • Aceito
    04 Set 2014
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