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Todos os caminhos levam a Roma?

All roads lead to Rome?

RESENHA

Todos os caminhos levam a Roma?

All roads lead to Rome?

Regina Pontes

Mestre em Psicologia Clínica; Professora Agregada e Supervisora Clínica do Departamento de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio); Coordenadora Adjunta do Curso de Especialização Lato-Sensu em Neuropsicoterapia Afetivo-Relacional do Setor de Psicoterapia do Serviço de Psiquiatria do Hospital Geral da Santa Casa da Misericórdia - Rio de Janeiro

RESENHA DE:

Fonagy, Peter (2001). Attachment theory and psychoanalysis. New York: Other Press, 261 pp.

Peter Fonagy é analista supervisor da British Psycho-Analytical Society, diretor e professor de psicanálise do Department of Clinical, Educational and Health Psychology na University College of London, além de Chefe Executivo no Anna Freud Centre, também em Londres. Autor de inúmeras publicações, seu trabalho de pesquisa organiza-se em torno dos estudos das relações precoces do apego, dirigindo-se a um objetivo de integrar a pesquisa empírica com a teoria psicanalítica. A originalidade do pensamento de Fonagy ainda é pouco discutida em nosso meio acadêmico.

O livro em questão tem sua origem em um artigo, escrito por ele, em 1999 - "Psychoanalytic theory from the viewpoint of attachment theory and research". Nele, Fonagy se propõe a fazer correlações, em termos de pontos de convergências e divergências, entre as mais importantes escolas de psicanálise, com seus representantes mais emblemáticos, e as pesquisas em torno da Teoria do Apego, de John Bowlby ([1973] 1998). Tal empreitada mereceria, por certo, um espaço maior do que o de um artigo, já que a proposta de Bowlby, vista como controversa e mal recebida pela comunidade psicanalítica de sua época, despertou inúmeros debates e discussões conceituais.

Num momento mais tenso dessas disputas teóricas, a ruptura se fez inevitável. Em 1973, ao escrever "Caminhos para o desenvolvimento da personalidade", capítulo 22, de seu segundo volume (Separação), da trilogia Apego e perda, Bowlby faz uma comparação acerca de como a tradição do pensamento psicanalítico e o sistema teórico do apego entendem esse desenvolvimento: utiliza-se de uma metáfora - o sistema ferroviário. A psicanálise "assemelha-se a uma única linha-tronco, pontilhada de estações" onde os estados patológicos do adulto decorrem de fixações ou regressões às fases do desenvolvimento normal do sujeito. Em contrapartida, a teoria do apego apresenta um "sistema que se inicia com linha única, a partir de uma grande cidade, em certa direção, para logo abrir-se em vários troncos. [...] vários ramais [...]" (Bowlby, [1973] 1998: 381). Esse olhar conceitual diferenciado é que permitiria a constituição de uma rede potencial de vários caminhos desenvolvimentais acessíveis ao ser humano, em conexão com suas variações orgânicas e ambientais. Mas por que pensamos nos caminhos de Roma?

Na região dos vales dos rios Tigre e Eufrates, que proporcionavam terras férteis e irrigação, garantindo a produção necessária de alimentos, as primeiras cidades, como Ur e Babilônia, foram construídas cerca de 3000 anos antes da era cristã. E foi graças às inovações técnicas e mudanças culturais e políticas que novas formas de produzir alimentos garantiram não só a subsistência dos agricultores, mas também o abastecimento dos moradores urbanos que assim puderam se dedicar a novas e diferentes atividades. Assim, as cidades se desenvolveram, cresceram e expandiram território. Na Antiguidade, o melhor exemplo é Roma, capital do Império Romano.

Não é difícil de imaginar que terras tão férteis chamassem novos e distintos agricultores e que os primeiros cultivadores da terra estranhassem a chegada de modos diferentes de trabalho. Tampouco é difícil de imaginar a reação por parte dos psicanalistas, especialmente Melanie Klein, Anna Freud e seguidores, às argumentações de Bowlby. Num momento em que a própria psicanálise, como uma teoria viva e pulsante, estendia, aprofundava e fincava suas raízes, a Teoria do Apego foi entendida, ou mal entendida, como se estivesse desconsiderando pontos-chave da teoria psicanalítica. Bowlby foi acusado de negligenciar a teoria do drive e sua complexa articulação aos processos inconscientes, de reduzir considerações etiológicas a uma única variável - a separação física -, enfatizar em excesso o comportamento dos cuidadores, enfim, desmerecer ou mesmo ignorar a riqueza do psiquismo humano e suas emoções.

Roma chegou a contar, em seus dias de esplendor e glória, no início da era cristã, com um milhão de habitantes. Era o centro, a "caput" (cabeça, em latim, de onde deriva a palavra capital), a cidade que servia de centro e polarização para um império que abrangia vastos territórios. Mas como explorar, desenvolver e alargar horizontes? Percorrendo diferentes caminhos e conquistando novos espaços. Mas todo sistema de estradas e caminhos requer que se marque um ponto zero para orientar os trajetos e os viajantes. No caso do Império Romano, todos os caminhos estavam orientados segundo o marco zero da época, ou seja, a cidade de Roma. Por isso todos os caminhos levavam a Roma.

Apesar das diferenças, a teoria do apego e a teoria psicanalítica percorrem caminhos parecidos, se atentarmos a em torno de que eixo as encruzilhadas se estabelecem ou se abrem as avenidas - o mapeamento desse percurso é o trabalho de Fonagy, neste livro. Seu primeiro passo é centrar-se na conceituação do apego a partir dos trabalhos de Bowlby, Ainsworth e Main, percorrendo os anos 60 a 90, reconhecendo que, por conta do concurso histórico e alguns eventos, existe a possibilidade de uma aproximação dessa nova perspectiva do pensamento psicanalítico. Advoga a favor do crescente reconhecimento da necessidade de se abrir novos diálogos para que se trabalhe na direção da produção de enquadres teóricos de referência alternativos que enriqueçam a pesquisa e aportem uma construção teórica de relevância para os clínicos. Com esta proposta, Fonagy faz uma viagem pela história conceitual de importantes momentos da construção do saber psicanalítico, visitando distintos lugares. Em cada um deles analisa clara e objetivamente pontos de convergência e divergência com a teoria do apego, argumentando em torno de conceitos como "sistema comportamental do apego", "modelo funcional interno" ou "modelo interno de trabalho", "função reflexiva do self" e "mentalização". Inicia seu trajeto onde habitam Freud, seu corpo teórico com as distintas fases, a visão desenvolvimental linear e suas conseqüências. Mais adiante, no momento em que Hartmann ([1950] 1964) propõe a autonomia do ego, as contribuições ao campo são pontuadas pelas figuras representativas da abordagem estrutural americana: Spitz, Jacobson e Erikson.

Sua próxima estrada encontra aqueles que se envolveram no trabalho com crianças - Anna Freud, Margareth Mahler, Joseph Sandler - , modificando e refinando o modelo estrutural. No espaço territorial das relações de objeto e atravessando espaços maiores, é visitado o modelo Klein-Bion, depois de traçar duas rotas de diferentes visões do ser humano - a "tradição romântica" da Escola Britânica Independente e de Kohut, nos Estados Unidos, e a "visão clássica" representada por Melanie Klein e Kernberg. Já que a Escola Britânica está longe de ser considerada uma escola de abordagem psicanalítica unificada e, portanto, oferecendo outras ramificações interessantes dessas estradas, Fonagy vai se alongar nesses caminhos, debruçando-se sobre Fairbairn, Winnicott e Balint, com ênfase no segundo. Enveredando pelos novos horizontes da influência da Escola Britânica das relações objetais sobre os norte-americanos, nosso distinto viajante nos leva a examinar, do ponto de vista da Teoria do Apego, três de seus mais importantes teóricos: Modell, Kohut e Kernberg. Daí, num encontro de rotas que vêm da tradição dos estudiosos do processo de separação como Spitz e Mahler, uma ponte se levanta, entre os psicanalistas e os desenvolvimentalistas, na figura de Daniel Stern. Sua postulação sobre a formação e o desenvolvimento da estrutura do self assim como "o esquema de um modo-de-ser-com" contribuem para a aproximação das noções de "modelo interno de trabalho" e "modelos mentais", oferecendo uma estrutura relevante para o pensamento e a percepção, a compreensão do discurso, a representação de crenças e outros conteúdos, bem como a perspectiva subjetiva assumida da organização da experiência vivida com o cuidador, na relação.

Desdobrando-se no momento seguinte, a abordagem interpessoal-relacional dentro de um contexto intersubjetivo é apontada como uma das que mais se expande dentro da psicanálise, abrigando, portanto, muitos aportes e autores. Sullivan e Mitchell são escolhidos para falarem do lugar da tradição da construção interpessoal e dos desenvolvimentos atuais. A próxima via trilhada por Fonagy é a dos autores do apego - Lyons-Ruth, Eagle, Holmes, Slade, Lieberman - , que foram significativamente influenciados pelas idéias da psicanálise. Aí, recomenda uma leitura mais apurada, já que seu objetivo é apenas iluminar suas idéias-chave. E este nos parece um dos mais interessantes momentos, uma vez que acolhe desdobramentos e pesquisas recentes que conferem um frescor e vitalidade que nos dirigem o olhar para a importância e a possibilidade de integração desses dois campos do conhecimento.

Neste ponto de sua exploração e organização de tantos caminhos, com tantos ires e vires, com tantos desvios, entroncamentos, cruzamentos, rotas preferenciais e secundárias, Fonagy nos conduz a duas perguntas - O que as teorias psicanalíticas e a teoria do apego têm em comum? Como a teoria do apego se beneficia do insight psicanalítico? - para trazer o seu próprio mapa urbano formado pelo resumo dos pontos de contato entre as duas perspectivas, oferecendo uma trégua argumentativa aos pontos que são incompatíveis entre esses enquadres. O mapeamento de Fonagy não acolhe simplesmente isomorfismos nem dicotomias, antes um entrelaçamento delicado das duas visões com seus atalhos e meandros. Sua posição é a de um mediador ortodoxo e inovador que privilegia a construção do self a partir da intersubjetividade; a função do apego, em termos da construção do espaço de segurança e a mentalização, como função reflexiva, atualizando a estabilidade dos próprios mecanismos de pensar e sentir, mas com conteúdos diferentes segundo as situações interativas do momento. Em seu ponto final, ele nos faz um instigante convite a novas viagens pelas vias da integração, já que sugere a necessidade do uso simultâneo de múltiplos métodos de exploração para que se possa obter maior generalidade nos achados de pesquisa e, assim, poder usufruir de sua aplicabilidade clínica.

Desta forma, o texto de Fonagy vem ocupar um espaço fundamental de revisão crítica e articulação dos caminhos da psicanálise com a teoria do apego, criando, acima de tudo, um espaço epistemológico do interno e do observável, tendo por terreno comum o sujeito e o desenvolvimento de sua personalidade.

Mas, para responder a nossa pergunta inicial, qual seria nossa Roma, nosso ponto zero, nosso eixo em torno do qual expandimos nosso território do saber? Todos os caminhos construídos e percorridos pelas teorias aqui mencionadas partem da investigação de como o animal humano constitui sua subjetividade, torna-se sujeito. Daí partem e a isto remetem todas as vias que constituem a malha do saber psicológico. Portanto, essa é a nossa Roma.

Desta forma, todos os caminhos levam a Roma, e quanto mais ricos e interessantes, mais fascinante a viagem.

  • Bowlby, J. (1973). Apego e perda: separação: angústia e raiva, v. 2. São Paulo: Martins Fontes, 1998.
  • Hartmann, H. (1950). Comments of Psychoanalytic Theory of the Ego New York: International University Press, 1964.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    05 Ago 2008
  • Data do Fascículo
    2008
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