RESUMO
Estudo com o objetivo de evidenciar um perfil de relações e de estruturas genealógicas intelectuais representado na produção científica periódica dos bolsistas de produtividade em Ciência da Informação do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico no Brasil. Realiza análise de citações, identificando ramos teóricos e influências intelectuais em análise diacrônica e de conjuntura. Descreve os esforços de construção e utilização de uma Base de Bolsistas de Produtividade em Pesquisa na Ciência da Informação, idealizada e criada para abrigar os dados estruturados da produção por eles publicada, como registro de memória científica representativa de um grupo privilegiado de pesquisadores. Oferece resultados iniciais da pesquisa, destacando os teóricos seminais e fundantes da produção científica dos bolsistas, publicada em artigos indexados na Base de Artigos de Periódicos em Ciência da Informação. Percebe expressões de saber e relações de produção diferenciadas. Conclui apontando as possibilidades advindas do enfoque teórico metodológico, realçando as identidades entre pesquisadores e suas influências intelectuais.
Palavras-chave:
Análise de citação; Ciência da Informação; Genealogia intelectual; Pesquisadores do CNPq; Produção científica
ABSTRACT
Study with the aim of showing a profile of intellectual genealogical relationships and structures represented in periodical scientific production of the Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico fellows in Brazil. It analyzes citations, identifying theoretical branches and intellectual influences in a diachronic and conjuncture analysis. It describes the efforts to build and use a Base de Pesquisadores de Produtividade em Pesquisa em Ciência da Informação, conceived and created to house structured data on their published output, as a record of scientific memory representative of a privileged group of researchers. It offers initial research results, highlighting the seminal and founding theorists of the fellows' scientific output, published in articles indexed in the Information Science Journal Articles Database. It reveals different expressions of knowledge and production relationships. It concludes by pointing out the possibilities arising from the theoretical-methodological approach, highlighting the identities between researchers and their intellectual influences.
Keywords:
Citation analysis; CNPq researchers; Information Science; Intellectual genealogy; Scientific production
1 INTRODUÇÃO
A ambição da permanência tem sido uma constante no mundo das artes e das ciências. Ilustra-a, magistralmente, a reflexão melancólica de Ottilie, personagem de Goethe (2014) em “As afinidades eletivas”, ao perceber, nas ruínas das igrejas e nos destroços das lápides, não apenas a prova da transitoriedade desta vida, mas a possibilidade de uma reação ao apagamento de uma segunda existência post-mortem. Essa percepção serve de mote à intenção de reconhecer, na genealogia intelectual da literatura científica, linhas de influência na produção autoral de pesquisadores bolsistas de Produtividade em Pesquisa (PQ) em Ciência da Informação (CI) distinguidos pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Assim como podemos observar características dominantes da nossa ascendência biológica, as linhas e vertentes intelectuais tornam-se objeto privilegiado para investigar a origem, a evolução, a disseminação e a permanência de pesquisadores, áreas ou domínios do conhecimento, em prol de sua memória científica.
É possível delinear a linhagem genealógica configurando a ancestralidade intelectual, como atividade distintiva das influências mais expressivas da produção científica, usufruindo da apreciação diacrônica de nosso campo de estudos. Essas formações genealógicas aqui representadas contribuem para a formação de corpora distintos, assim como constroem e difundem modalidades específicas de percepção das obras participantes da ancestralidade intelectual de um domínio, área científica ou campo do conhecimento, da arte e da cultura em geral. Os resultados desse tipo de estudos permitem a visualização de estruturas classificatórias, períodos, tendências temáticas, métodos e estilos articulados de modo hierarquizado, com escolas, autores e obras selecionados. Embora a CI ainda seja jovem, é possível reconhecer, em seu movimento de realizações, eventuais momentos críticos, transformações ou mesmo rupturas singulares e uso de conhecimentos para a renovação da criação científica. Essa vertente intelectual dos estudos genealógicos, voltada a correntes teóricas ou metodológicas recebidas, transmitidas e oriundas das relações de pesquisadores com os autores nos quais se fundamentam ou dos quais recebem influências, apresenta aspectos peculiares. Se, por um lado, reflete uma relação de “afinidade eletiva”, concretizada pelo pesquisador ao selecionar e citar autores seminais ou fundantes para sua produção, seja direta ou indiretamente, por outro lado, ao identificar uma corrente de influências, pode incluir, também, autores descendentes, refletindo os sentidos teóricos ou opções metodológicas transmitidos na linhagem intelectual. Outro aspecto, cujo sentido só é perceptível quando da organização dos instrumentos de representação das formas genealógicas, a partir das citações científicas, é a construção de modelos de análise restritos a um período limitado, ou síncrono, de um corpus cognitivo. Essa percepção incidiria nas características da produção de um autor, pelas citações feitas a outros ou de outros recebidas, em determinado período, ou seja, situada e momentânea, não sendo analisada a evolução das relações de citações no tempo, mas apenas em momento específico selecionado na trajetória de um autor, como um conjunto fechado e com regularidade e homogeneidade próprias de uma determinada época. Trata-se, entretanto, de uma limitação diante da impossibilidade de se conhecer o percurso histórico de pesquisadores, em sua integridade, por meio de uma análise diacrônica da evolução do movimento real de suas produções. Esse tipo de análise apresenta características críticas, dinâmicas e históricas, remontando à origem e ao desenvolvimento das preferências de um autor ou por um autor, de modo a incidir sobre o processo evolutivo das relações entre citantes e citados.
Observamos, também, a possibilidade de que, ao construir e organizar elementos de análise, as disposições mais genéricas venham a ensejar recortes de interesse, para reconhecimento de relações entre as partes desse todo, procurando preservar a autonomia das diversas partes e dos elementos estruturais relacionados às dimensões epistemológica, teórica, metodológica, morfológica, política e ética, na dinâmica da pesquisa científica.
A oportunidade deste estudo é reforçada pela existência de instrumentos de apoio à pesquisa, estimando-se a construção de uma estrutura capaz de viabilizar configurações para leitura e estudo, relacionando pesquisadores com sua produção e suas afinidades, com outros, com áreas temáticas, e autores seminais ou referentes, assim como com ciclos de atuação e de produção científica.
Aproveitadas as condições favoráveis a essa crítica e ao processo de produção do conhecimento, consideramos especialmente as possibilidades oferecidas pela Base de Artigos de Periódicos em Ciência da Informação (BRAPCI) e pela Base Pesquisadores de Produtividade em Pesquisa (BPPQ), ainda em construção, como instrumento para analisar diacronicamente a configuração genealógica dos PQ-CI-CNPq, cuja criação e desenvolvimento se devem à crescente motivação no sentido de priorizar os aspectos formativos das questões que vêm orientando estudos e projetos, integrando esforços para tornar possíveis esses estudos.
Representando as principais influências teóricas dos autores seminais ou referentes mais expressivos nessa construção intelectual como elementos indispensáveis ao estudo do problema, a pesquisa enseja a validação da BPPQ, com vistas ao seu aperfeiçoamento e aplicação enquanto modelo para outras áreas do conhecimento.
O esforço refere-se ao olhar do pesquisador sobre o seu ascendente ou “o outro”, no qual não apenas se apoia em prol da identificação do conhecimento do já produzido sobre seu objeto de interesse, mas também como suporte cognitivo e metodológico para reforçar sua argumentação ao organizar, representar e defender suas propostas e teses. Mas a importância dessa leitura repousa, principalmente, na relação dialógica quando da construção científica. Sempre dependente do referencial e do olhar do pesquisador, tanto ao organizar para produzir conhecimentos, quanto ao “eleger” para utilizar os elementos externos a ele, tais como fontes, instrumentos e influências que recebe e com os quais trabalha, a produção científica depende da relação com os elementos já incorporados em seu acervo cognitivo.
É possível conceber esse processo como modo de conhecer e superar as contradições e contraposições ativas presentes na conjuntura, como condições políticas e ideológicas para a produção científica. A práxis científica reside, portanto, na relação fecunda entre sujeito e objeto, mediados pelas relações presentes no campo de produção, pelas condições, oportunidades e restrições.
A tentativa de reconhecer transformações das trajetórias dos pesquisadores alvos do estudo, em relação a suas escolhas teóricas, em contextos diferenciados, mobiliza este estudo, a partir de questões sobre a possibilidade de identificar, por meio da BPPQ, a genealogia de pesquisadores PQ-CI-CNPq, de forma relacional e compreensível. Procurando reconhecer autores seminais ou fundantes, bem como a concretização de modos representativos desse conjunto, em períodos passíveis de análise diacrônica, a questão determinante deste estudo seria qual o perfil de relações e de estruturas genealógicas intelectuais dos PQ-CI-CNPq no Brasil, representado na sua produção científica periódica no país. Esta questão motivadora nos conduz a uma problemática de natureza morfológica relativa às possibilidades e modos de se configurarem os ciclos geracionais do conjunto de relações e de estruturas teórico-genealógicas dos pesquisadores em foco. Assim, o objetivo deste artigo é apresentar uma configuração inicial das relações genealógicas intelectuais dos pesquisadores, para definir um perfil representado na sua produção científica. Desenvolvido, a partir desta introdução, o texto compõe-se de um corpo referencial fundante, contendo uma seção descritiva de estruturas e modos de atribuição de poder no Brasil; da descrição dos procedimentos metodológicos; dos resultados do estudo e das considerações finais.
2 ESTRUTURAS E MODOS DE ATRIBUIÇÃO DE PODER
Com trajetórias diferenciadas e características distintivas e reconhecidas institucionalmente, cada pesquisador porta referencial teórico e habilidades metodológicas adquiridos historicamente a partir de suas escolhas e interpretações e das influências recebidas, graças às leituras realizadas e ao conhecimento de campos e práticas específicos de sua produção científica. Observamos como as estruturas sociais conformam um “conjunto emergente de regras, papéis, relações e significados” (Lloyd, 1995, p. 60), sendo possível reconhecer a produção do pesquisador, a partir de suas origens e dos elementos constitutivos, com os quais ele “organiza o pensamento e a ação, e pelos quais é, por sua vez, reproduzido e transformado”. Essa compreensão abrange o conceito de “domínio”, um elemento do modelo explicativo do estruturismo, de Lloyd (1995) para constituir teoricamente objetos de investigação. O modelo explicativo do estruturismo concede aos sujeitos, embora condicionados por relações sociais, o poder de colaborar para as transformações. A reflexão de Lloyd (1995) sobre a natureza da história, vista sob o ângulo das estruturas sociais é amparada em referências fundantes da filosofia da história e das ciências sociais, assim como de historiadores e sociólogos dos últimos dois séculos. Filiado ao complexo realismo histórico, o historiador investe contra o relativismo de autores como Richard Rorty, Michel Foucault e Jacques Derrida. Assim, ao incentivar a busca da compreensão das explicações e “o emprego de arcabouços que incluem pressupostos metodológicos e filosóficos”, Lloyd (1995, p. 38) relaciona esses conjuntos de ideias e crenças sobre o mundo e o modo como o conhecemos aos domínios do conhecimento, produtos da história, da teoria, da metodologia e das descobertas científicas ao longo dos séculos. Sua percepção reforça nossa motivação intelectual para o reconhecimento da trajetória desses autores e de seus produtos em constante processo de refinamento da explicação científica. Por se tratar de uma visão de mundo diferenciada de outras, como a arte e a tecnologia, e devido à sua natureza explicativa, a ciência favorece o exame crítico interdominial, além de examinar reflexivamente a si própria. Participa, portanto, de um processo de reordenação e de reconstrução de trajetórias, dentro de um mesmo domínio, a partir da perspectiva do realismo filosófico e sociológico. Nesse sentido, a crítica de Mario de Andrade (1987, p. 55) ao “primitivismo vesgo e insincero” considera “o passado como lição para se meditar, não para reproduzir”.
Além de levantar heranças genealógicas, a motivação deste estudo origina-se no reconhecimento de concepções de autores voltados, tanto à história da ciência, quanto ao valor teórico e prático das pesquisas seminais. Leituras críticas de memórias biográficas de cientistas consagrados revelam como pesa sobre eles o reconhecimento das influências de antepassados, em decorrência do seu conhecimento de como as teorias se transformam no tempo, transformando-os também, ao delas se apropriarem. Para os ciclos geracionais cumulativos de capital científico do processo de produção e comunicação, concorrem autores seminais, fundantes, referenciais, sucedendo-se, ou dele participando simultaneamente. As crises ocorrem e produzem adesão ou rupturas no processo de assimilação teórica, similarmente ao fenômeno analisado por Marx (2017), sobre as formas concretas do processo de movimento do capital, considerado como um todo. Quando realizamos a analogia possível entre o movimento real dos capitais científicos, confrontados em formas concretas, e as configurações do capital, descritas por Marx (2017), podemos analisá-las passo a passo, na sua performance na superfície, na ação recíproca dos diferentes capitais científicos, na concorrência e no senso comum dos próprios agentes da produção. Se compreendermos a relação de um campo com fatores externos, ou seja, seu poder de refração relativo à sua capacidade de autonomia (Bourdieu, 2004), consideramos como o capital financeiro atinge o campo da comunicação científica, como qualquer outro. Assim, embora visto na totalidade do processo de acumulação do capital científico, o movimento cíclico seria uma forma de descrevê-lo em suas leis gerais (Marx, 2017).
A resistência, a perseverança e a manutenção do foco nas propostas de estudos são consideradas valores evidenciados por acadêmicos em suas trajetórias de trabalho e ao longo de suas carreiras, especialmente quando confrontados com seus pares de ideias inovadoras, ao desafiarem paradigmas estabelecidos e apresentados por cientistas em posições de poder e autoridade (Andraos, 2005; Brown, 1977). Essas posições adquiridas durante sua trajetória são possíveis graças ao reconhecimento de seus pares e da sociedade, por meio de grupos e instituições, governamentais ou não.
No Brasil, entre as instituições de apoio à pesquisa, destaca-se, no contexto da atual pesquisa, o CNPq, criado em 1951 pela Lei nº 1.310, de 15 de janeiro de 1951 (Brasil, 1951), com a denominação de Conselho Nacional de Pesquisas, com personalidade jurídica própria e subordinado à Presidência da República, para formular e conduzir políticas de ciência, tecnologia e inovação (Brasil, 2015). Graças a uma atuação contínua, o órgão vem contribuindo para a formação e o reconhecimento das instituições e dos agentes de pesquisa e, entre os elementos convergentes para esse intento, as bolsas de Produtividade em Pesquisa existem desde 1976 e destinam-se aos pesquisadores destacados entre seus pares. Ao valorizar a produção científica segundo critérios normativos, estabelecidos pelo órgão, e especificados pelos Comitês de Assessoramento (CA), as bolsas têm sido concedidas a partir de critérios mais amplos, relativos à contribuição com a ciência produzida. A contrapartida dos bolsistas inclui dedicação ao cumprimento dos propósitos constantes em seus projetos de pesquisa e tem como objetivo valorizar os pesquisadores cujas produções científicas, tecnológicas e de inovação venham alcançando destaque em suas respectivas áreas do conhecimento. A concessão de bolsas PQ até o ano de 2024 ocorreu em cinco níveis: 1A, 1B, 1C, 1D e 2, além do Sênior. Atualmente, conforme a resolução no 12 de 9 de agosto de 2024 (CNPq, 2024), estão em vigor quatro modalidades: A, B, C e Sênior, sendo C o nível de entrada, B para as atividades em desenvolvimento e A para categoria em pleno desenvolvimento. Segundo o anexo I da chamada no 18/2024 o Sênior resulta do reconhecimento de notória liderança científica (CNPq, 2024). As agências de fomento brasileiras, embora recentemente demonstrem a necessidade e a vontade de superar os critérios baseados apenas em indicadores quantitativos para avaliação de publicações, ainda os utilizam como sinônimos de qualidade, seja no nível individual, seja no âmbito institucional.
A produção individual e coletiva da literatura científica tem sido elemento substantivo para estudo das práticas institucionalizadas de pesquisa, gerando e renovando domínios do conhecimento. Analisado criticamente, esse processo pode revelar o movimento diacrônico de seus elementos e marcos do campo de atuação dos pesquisadores. Elementos complementares, essas estruturas representativas permitem a incorporação de informações como presença e formas de colaboração científica, tipos de autorias, coautorias, temas, títulos de publicações, áreas, instituições de atuação, projetos de pesquisa, relações de acoplamento, citações e cocitações. Esses elementos podem ser analisados com o objetivo de se compreender formações observáveis, a partir dos pesquisadores ascendentes e descendentes em diferentes cenários, situações e relações de poder.
Outras pesquisas foram desenvolvidas sobre a institucionalização das bolsas PQ no Brasil, com objetivos e focos distintos, sobre os pesquisadores, sua produção, abrangência temática, relações autorais e institucionais e os resultados de sua implantação, assim como a produção aqui analisada. Nestas bolsas está concentrada parte substancial do apoio à produção científica no País, como argumenta Olinto (2003), para quem elas são destinadas a apoiar e incentivar projetos desenvolvidos por pesquisadores que apresentam produção científica destacada em suas respectivas áreas acadêmicas. Esse tipo de bolsa, complementa a autora, se dirige à liderança da pesquisa acadêmica do país. A distribuição anual das bolsas PQ inseridas na área de CI se apresenta de acordo com a ilustração na Figura 1, conforme dados extraídos do Portal eletrônico do CNPq.
A pesquisa de Guimarães, Grácio e Matos (2014) confirma essa liderança, ao observar o crescimento da produção científica brasileira na área de CI com o protagonismo do grupo de PQ-CI-CNPq, em espaço privilegiado, expressando correntes teóricas e pensamentos acerca da história e atuação da área, bem como sua relação com a sociedade brasileira. Os autores concluem que o grupo constitui um extrato cientificamente produtivo e maduro, com bom grau de interlocução científica, mas ainda carecendo de maior inserção internacional. Essa constatação faz parte da problemática analisada por Silva e Mueller (2017), sobre a produção dos PQ-CI-CNPq e a complexidade de sua avaliação da produção científica, fundamentada segundo critérios diferenciados em cada área do conhecimento, determinantes ao prestígio dos pesquisadores. As diferenças e especificidades observadas entre as áreas do conhecimento, além das distinções entre os pesquisadores de um mesmo domínio, evidenciam como a ciência é um ambiente marcado por desigual distribuição de prestígio entre os cientistas.
Alves (2018) destaca o protagonismo científico, para compreender os mecanismos implícitos à geração e construção do conhecimento dos PQs e a posição social que ocupam no campo. A tese de Nascimento (2016) utiliza-se da Sociologia Reflexiva de Pierre Bourdieu para analisar diacronicamente as trajetórias acadêmicas dos PQ em Educação no Brasil.
Bufrem (2017) apresenta resultados de estudo sobre a produção científica periódica dos PQ 1 em CI, em sua relação com os quadros teóricos concorrentes no campo de produção científica na literatura periódica no Brasil. Com apoio da literatura, formula uma tipologia representativa da produção de autores de áreas diversas do conhecimento, como forma de auxiliar os procedimentos analítico interpretativos.
Observando a não explicitação dos pressupostos teóricos em análises de pesquisadores, Mainardes (2009, p. 7) reconhece a utilização de ideias de um conjunto teórico muitas vezes de matrizes epistemológicas distintas, para sustentar pesquisas, em prejuízo de sua consistência.
A consistência teórico-epistemológica almejada em prol da valorização de qualquer trabalho de pesquisa e da produção científica dele decorrente tem reforçado, portanto, as posições dos pesquisadores, quando eles constituem a elite na produção da área no país, mantendo atividades acadêmico-científicas oficialmente vinculadas a instituições de pesquisa e ensino, em coerência com linhas e grupos dos quais participam.
Confrontados continuamente com a necessidade de explicitação crítica de suas operações científicas e dos pressupostos nelas implicados, esses pesquisadores são instados a tornar essa explicitação uma acompanhante permanente de sua prática e da comunicação de suas descobertas, pois eles passam a ser, de certo modo, controlados pelo que Bourdieu, Passeron e Chamboredon (2008, p. 115) denominam “sistema de controles cruzados”, os quais tendem a constituir e reforçar sem cessar em cada um a atitude de vigilância epistemológica. Ao se confrontar com uma explicitação crítica de seus pressupostos teóricos e epistemológicos, no acompanhamento de sua prática, o pesquisador reitera e comunica, mais ou menos explicitamente, as influências de autores seminais ou fundantes que o precederam.
Assim, define-se como autor seminal, para a compreensão desta pesquisa, aquele autor inaugural de uma teoria, ou corrente teórica, o primeiro a inspirar uma concepção ou concepções geradoras. O conceito apropria-se do adjetivo referente a sêmen, metaforicamente atribuído àquele capaz de estimular novas criações, trazer novas ideias, ser inspirador ou gerador de novas obras. Ilustra bem essa ideia a menção de Smiraglia (2014) a Howarth (2005), o autor responsável pelo relato das primeiras pesquisas tratando de metadados em um nível meta-analítico. Ao tentar “atravessar” os esquemas de metadados para demonstrar a passagem de iterações compreensíveis por máquina para compreensíveis para humanos, ele propõe uma ontologia de meta-nível, passível de ser usada como um dispositivo de comutação para pesquisadores.
Castoriadis, por exemplo, crítico e pensador político, foi inspirador dos eventos de maio de 1968, na França. Como filósofo da imaginação social, cofundador do lendário grupo e jornal Socialisme ou Barbarie e economista da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), é considerado autor seminal, por Lombardi (2010).
Ao tratar a questão da "genealogia intelectual" Tobin (2012) avalia e identifica o seu "parentesco seletivo" com certos ativistas protestantes da geração Revival que o precederam, resumindo as principais características das carreiras de suas três principais influências seminais.
Em artigo sobre a produção científica em estudos métricos e as configurações de autoria (Bufrem; Freitas; Gabriel Junior, 2014), Polanco recebe destaque como seminal, por seu estudo clássico, Aux source de la cientométrie. No estudo, o autor considera a evolução da cientometria em resposta aos apelos por uma regularidade científica na aplicação dos indicadores utilizados pela política da ciência e tecnologia, assim como no planejamento da pesquisa e desenvolvimento (Polanco, 1995).
Os sujeitos pesquisadores são tratados, na tese de Oliveira (2014), como artesãos coletivos, articulados com referenciais distintos em suas especificidades, porém identificados com um autor seminal, no caso, Paulo Freire. A análise de um autor seminal e sua influência no universo de pesquisadores também é uma possibilidade, como o reconhecimento do filósofo alemão Jürgen Habermas na área de CI, em pesquisa recente (Bufrem, 2022). Neste caso, o autor é considerado como seminal, por ser considerado inspirador de correntes, linhas ou ideologias.
O referente teórico, por sua vez, seria o autor decisivo para a fundamentação do trabalho de um pesquisador ou de pesquisadores, tanto na determinação de questões motivadoras, considerações de conteúdo, características relacionadas ao objeto que se constrói na pesquisa, quanto aos procedimentos planejados para a obtenção de uma resposta ao problema ou a questões específicas da pesquisa. Ele contribui e oferece consistência à argumentação do autor pesquisador.
O conceito de autor fundante é simbólico e representativo de atributos de um autor presente em determinado cânon de uma área ou domínio científico, constituído cultural e historicamente em meio às tensões e contradições do contexto científico de produção de conhecimentos por ele influenciado. A noção de permanência no tempo é específica do autor fundante, aquele que provê os fundamentos de uma área, campo, ou disciplina científica.
O autor clássico exerce papel de referência em determinada área, literatura específica, corrente ou filosofia. Sua produção apresenta características como longevidade de sua influência, importância social, prestígio, reconhecimento e valor atemporal. Por essas características, ele faz parte de um grupo canônico, ou seja, validado e consensual, conforme os valores ou convenções do grupo de pertencimento. Ao se coadunar com a qualidade de ser clássico ou canônico, pois, do ponto de vista da relação leitor/pesquisador, equivale ao “que se preservou do que se escreveu” (Bloom, 2001, p. 25). Diante do julgamento universal, apresenta um tom de imortalidade e de tradição, a qual é também “um conflito entre gênio passado e aspiração presente, em que o prêmio é a sobrevivência literária ou a inclusão canônica.” (Bloom, 2001, p. 18).
O exercício, por si só, de identificar esses autores, distinguindo-os pela influência em seus descendentes, justificaria um estudo, pois as noções relacionadas integram-se a um esforço de ampliação do espectro de alcance sobre os descendentes nas diversas dimensões em que transitam. Assim, autores fundantes também podem ser analisados em sua dimensão geográfica em relação ao corpus de influência, seja considerado nacional ou estrangeiro, ou ainda se sua abrangência é de caráter universal ou nacional, conforme referência de Laera e Kohan (2006) sobre Echeverría.
Graças à configuração das correntes de influência intelectual desses autores, garante-se a possibilidade de ampliar a discussão em prol da compreensão do próprio campo em toda a sua complexidade de relações, sob uma perspectiva diacrônica. Esses antecedentes, promissores para estudos sobre a produção científica, justificam e reforçam o argumento da construção de um objeto de pesquisa não apenas como uma questão exclusivamente empírica, mas apoiada fundamentalmente na dimensão relacional, amparada nas interações concretas entre pesquisadores e seus autores “eleitos”, em sua transitoriedade ou permanência.
Daí o significado da construção de linhas do tempo, capazes de ilustrar a mobilidade possível de ser representada para conceder suporte a uma perspectiva diacrônica.
Procede essa observação, fundamentada na lição de Kosik (1976, p. 129), para quem a “vida da obra não decorre da existência autônoma da obra em si, mas da recíproca interação da obra e da humanidade". Ela fundamenta-se na saturação de realidade e de verdade que é própria da obra; e, na vida da humanidade como sujeito producente e senciente: “Tudo aquilo que pertence à realidade humano-social deve, de uma forma ou de outra, demonstrar uma tal estrutura subjetivo-objetiva” (Kosik, 1976, p. 129). Assim, o que é possível atribuir à obra, também é atribuível ao autor, assim como ela, ele resiste ao esquecimento e à destruição, assim como ela e, por ela, ele pode ter o que dizer a todas as épocas e a todas as gerações e temos bons exemplos para ilustrar seu caráter supratemporal.
Consideram-se, a partir do contexto teórico do estudo, as concepções de Sugimoto (2014), Mena-Chalco (2016) e Lubek et al. (1995), sobre a distinção conceitual quanto aos tipos de estudos genealógicos, identificando a existência das genealogias acadêmica, intelectual e científica. Este estudo tem como objeto as relações genealógicas intelectuais entre os PQ-CI-CNPq e os autores seminais ou fundantes nas diversas áreas do conhecimento, identificados na produção dos primeiros. O conceito de genealogia na produção científica tem sido utilizado, neste sentido, para significar formas de organização arbórea representativas de realidades relacionadas entre si por meio de uma estrutura hierárquica dos vínculos entre pesquisadores graças às suas relações e influências em atividades de produção científica, orientação ou supervisão.
Os estudos de White (2001) sobre os padrões de citação analisados levam-no ao reconhecimento da identidade de um pesquisador, definida como o conjunto de autores citados por ele em mais de um de seus produtos científicos, ou seja, forjada no desenvolvimento de um processo produtivo, portanto, uma identidade diacrônica, distinta da recitação sincrônica, quando um autor é citado mais de uma vez no mesmo artigo pelo pesquisador. Estruturas arbóreas, utilizadas em diversos campos científicos, são em geral dependentes de software para representar vínculos ou relações entre os elementos componentes das linhas genealógicas, os quais são organizados de forma hierárquica tendo um vértice inicial denominado raiz, do qual decorrem os demais descendentes. Estruturadas graficamente, essas árvores representam todo um histórico ou parte do histórico dos antepassados de um indivíduo. Como representação gráfica hierárquica dessas linhas geracionais, elas podem descrever dados complementares para permitir um melhor entendimento do histórico de um indivíduo ou grupo de indivíduos, tanto pelas suas relações acadêmicas, como no caso de orientador e orientando, quanto pelas influências intelectuais, quando se trata de relações de influência teórica ou metodológica entre pesquisadores e autores referentes, seminais ou influentes. É possível analisar também as relações científicas, quando ramos ou domínios científicos passam a ser apresentados em sua evolução e nas descobertas históricas.
Assim compreendidas, as árvores representam hierarquicamente o histórico de um orientador e todos os seus orientados, ou de autores seminais ou fundantes em relação a seus descendentes, ou de cientistas responsáveis pela evolução de um ramo ou domínio científico, no decorrer de um determinado período ou recorte. O estudo da Genealogia Acadêmica (GA) de determinado grupo de pesquisadores ou de orientandos, conforme argumenta Castanha (2022), favorece a compreensão dos modos de relação orientador-orientando ou de um pesquisador individual. Assim, compreende-se a herança intelectual de orientador para orientando e como ocorre a transmissão e difusão do conhecimento e a herança intelectual entre eles (Sugimoto, 2014).
Adicionalmente, de modo especial para este estudo, informações como tipo e quantidade de publicações, área de atuação, grupos, linhas e projetos de pesquisa podem ser extraídas de todos os elementos componentes da rede a ser analisada em prol do reconhecimento e uso de dados específicos e significativos para a compreensão das linhas genealógicas e das influências exercidas sobre a difusão do conhecimento a partir de um autor em particular.
O conceito de GA foi utilizado por Miyahara (2011), considerando as árvores genealógicas acadêmicas a partir da linhagem de um pesquisador. A ferramenta utilizada pelo autor obtém os Currículos (CVs) da Plataforma Lattes a partir do ID Lattes. Armazenados os dados em uma estrutura, são gerenciados para a posterior geração de diferentes grafos em formatos específicos para posterior visualização e análise por ferramenta externas/complementares. Ainda sobre GA, Mena-Chalco e Cesar-Junior (2011) apresentam uma ferramenta para geração automática de árvores genealógicas individuais para cientistas/acadêmicos, cadastrados na Plataforma Lattes, por meio de suas relações de orientação ou supervisão concluídas.
A GA refere-se, portanto, a narrativas biográficas de personalidades científicas, com ênfase na descendência de um determinado pesquisador para identificar sua reverberação nas gerações de acadêmicos posteriores. Com o objetivo de caracterizar a GA da Professora Emérita Francisca Arruda Ramalho, de modo a identificar a sua herança intelectual na relação de orientação, até o segundo nível (filhos e netos acadêmicos), Costa realiza um estudo pautado no Currículo Lattes da pesquisadora, por meio de análise de Redes Sociais (Costa, 2018).
O objetivo da pesquisa de Hayashi, Ikeda, Mizoguchi (2002), por sua vez, é apoiar a criação e herança do intelecto organizacional, ou seja, “aprendizagem” em uma organização. Eles propõem um "Gráfico de Genealogia Intelectual", como modelo representativo da correlação cronológica entre pessoas, atividades e intelecto em uma organização. O gráfico da genealogia intelectual é uma base de funções inteligentes e úteis para pesquisar as condições de aprendizagem atuais e esclarecer o papel intelectual de indivíduos, organizações e documentos na organização.
Na área de CI, já contamos com estudos de GA, mas são pouco frequentes os estudos sobre a genealogia intelectual, como aqui conceituada. Assim, é possível prever a identificação e contextualização da paternidade intelectual dos PQ-CI-CNPq, utilizando como principais critérios a frequência e a permanência desses antepassados na trajetória dos pesquisadores, para destacar a relação permanência efemeridade das raízes intelectuais dos bolsistas. Outra contribuição seria a compreensão do corpus da produção científica, com a identificação das relações entre autores distinguidos pela comunidade e os patrimônios científicos de cada domínio, em prol da construção dessas configurações e sua difusão em modalidades específicas de percepção dos autores seminais e fundantes da CI em seus contextos específicos.
3 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
Ao reconhecer a situação dos PQ-CI-CNPq em relação aos seus ancestrais e antecipando as dificuldades para compreensão dessas relações, foi emprestada de Bourdieu (1988) uma postura metodológica sintetizada em princípios cognatos, conforme ilustra em sua obra “Lições da aula”: o do politeísmo metodológico, dando igual atenção epistêmica a todas as operações, e o da metodologia reflexiva, como articuladores capazes de controlar os próprios vieses e de manter a independência em relação aos “ritos de instituições”.
As relações e os condicionamentos entre os autores - e os autores seminais ou fundantes de sua produção científica são analisados a partir da produção registrada em artigos de periódicos, no cenário da pesquisa institucionalizada em CI do Brasil. Considerando a pesquisa genealógica, aqui concebida como um tipo de investigação voltada aos ascendentes e descendentes de um indivíduo por meio da identificação dos graus de vínculos com outros indivíduos (Rossi; Mena-Chalco, 2014), as fontes a serem consultadas são os registros históricos da produção científica do grupo formado pelos PQs.
Tendo em vista as possibilidades de modelagem e caracterização de árvores genealógicas acadêmicas, intelectuais e científicas, são utilizados dados relativos aos PQ-CI-CNPq e seus CVs, disponíveis na Plataforma Lattes sob coordenação do CNPq. Os dados referentes à produção dos PQs são identificados e incorporados à base BPPQ. Modela-se, desse modo, a linha de influências, a ser visualizada com auxílio da planilha que permite navegar pelos nós da rede selecionando partes da árvore que representam sub-árvores.
Ao procurar identificar as bases intelectuais dos bolsistas por meio das citações, elegeu-se a base BRAPCI, na qual estão indexados artigos científicos, entre correntes e históricos, conforme informações no seu portal eletrônico. Escolheram-se as revistas científicas como documentos de análise porque seus artigos, enquanto frutos de pesquisa e reflexão avaliados por uma comissão científica, são fontes privilegiadas de produção de conhecimento científico certificado. Aqui serão considerados os extratos de pesquisas realizadas pelos pesquisadores com bolsas vigentes ou já contempladas, cujo recorte temporal de produção considerado é de 1972 até o ano de 2022. A motivação para escolha do recorte temporal inicial relaciona-se ao início do período de institucionalização da CI no Brasil, com a criação do primeiro curso de mestrado em CI, pelo Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia / Universidade Federal do Rio de Janeiro (IBICT/UFRJ) e dos dois primeiros periódicos científicos, a revista “Ciência da Informação” e a “Revista da Escola de Biblioteconomia da UFMG”, atualmente “Perspectivas em Ciência da Informação”, ambas surgidas em 1972. O ano de 2022 marcou o término do período de revisão dos dados constantes da base devido à revisão realizada para validação da BPPQ.
A dimensão prática da pesquisa aqui projetada abrange seis fases relativas aos procedimentos metodológicos a serem desenvolvidos para o cumprimento dos objetivos.
A primeira identifica os bolsistas de produtividade vinculados à área de CI, para levantar sua produção na BRAPCI. A segunda refere-se a busca e elaboração de uma lista com os nomes dos bolsistas em todas as categoriais de bolsas. Na terceira fase, os dados de produção científica destes pesquisadores serão incorporados à base BPPQ, em Microsoft Excel ®, um instrumento construído especificamente para organizar a produção dos pesquisadores, com seus metadados e as respectivas referências da produção científica em pauta, para uma planilha eletrônica, o que permite analisar informações sobre autores e obras mais citadas de outros autores, bem como a distribuição dessas obras no período. Na quarta fase, são organizados os dados ordenados pela quantidade de citações por autor para que sejam identificados os autores mais citados de toda essa produção científica, considerados os autores referencias ou seminais da produção dos PQs presentes nas referências extraídas dos artigos constantes da BPPQ. Para a quinta fase, constituída por uma análise e interpretação das configurações dadas, apresentam-se as relações entre os citantes e os citados, considerados autores seminais, aos quais os primeiros estão vinculados. Nessa fase está previsto o delineamento do fluxo genealógico intelectual dos PQ-CI-CNPq, buscando-se entender quais são as principais influências intelectuais utilizadas a partir da técnica de análise de citação. Como fundamento para esta análise foi utilizado o estudo de Cruz, Silva e Bufrem (2022) sobre estrutura intelectual, com apoio no modelo proposto para identificação, por meio do estudo de citação e análise de redes sociais, dos aspectos autorais e temáticos na produção científica publicada de pesquisadores PQ-CI-CNPq, de 1972 a 2019. Na sexta fase, são categorizados os autores, individualmente, pela sua influência enquanto seminais ou fundantes, nacionais ou estrangeiros, da área de CI ou de outras áreas fundamentais para a compreensão de suas relações, além da discriminação dos próprios pares, eventualmente na condição de irmãos e pais.
Consideramos, portanto, a possibilidade de estudos conducentes a um movimento de investigação científica, intencionalmente voltado para o objeto em sua integridade, reconhecendo as relações entre as categorias qualidade e quantidade como indissociáveis na pesquisa. Para essa prática crítica, as formas de produção do campo científico dependem da vigilância dos pesquisadores, não somente sobre o sistema de relações objetivas, mas sobre os aspectos relacionais componentes da totalidade do objeto percebido, considerando-se seus predicados, tanto na investigação, quanto na exposição, relativa ao processo de apropriação e explicitação crítico-racional.
4 RESULTADOS PARCIAIS
A identificação dos PQ-CI-CNPq permitiu sua caracterização por categorias de bolsa PQ ao longo do tempo. Importa esclarecer que os resultados parciais nesta pesquisa analisam a produção científica de 93 pesquisadores até o ano 2022, por se tratar de um projeto em plena execução na ampliação de cobertura de todos os pesquisadores na área. Na Figura 2, apresenta-se a distribuição quantitativa das categorias PQ, conforme registro anual.
Foram identificadas nove categorias de bolsa PQ, embora as categorias PQ 2A, PQ 2B e PQ 2C não sejam mais utilizadas. Durante o período de sua história institucional, a área teve apenas um pesquisador Sênior (SR), o professor Aldo Barreto, sendo predominante a categoria PQ 2 (n=49).
No quadro 1, observa-se o nome dos pesquisadores e a quantidade de artigos publicados. Vale salientar a determinação da posição dos pesquisadores nesse quadro, inicialmente apenas como indicador da quantidade de artigos, como uma forma hierarquizada de elencá-los e delimitar um corpus, embora se reconheça a impossibilidade de representação do todo. Nesse contexto, a produção de Marta Valentim destaca-se, revelando um arcabouço teórico compatível com a área de gestão da informação e de gestão do conhecimento, com temas relacionados ao conjunto teórico pertinente à atuação da pesquisadora, cujas vertentes teóricas relacionam-se a inteligência competitiva, cultura organizacional, gestão e atuação profissional. Entre os autores mais citados, com elevado grau de contribuição para a produção dos autores citantes, destaca-se Choo C. W. Este autor aparece como agregador de outros pesquisadores, contribuindo para a discussão de temas presentes no contexto das organizações públicas e privadas. Suas obras, assim como outras de autores internacionais da área de Administração, com especial participação de Nonaka e Takeuchi e Davenport, tiveram forte influência sobre os pesquisadores atuantes na Gestão da Informação. A autora tem contribuído para a área com artigos sobre conceitos e atuação em gestão do conhecimento. Esse fenômeno de acolhida interdominial foi objeto de estudo de caráter exploratório, inserido no contexto de uma pesquisa cujo objetivo foi verificar o potencial do estudo das citações, associado à análise de conteúdo, para identificar e analisar a dinâmica das múltiplas interações entre pesquisadores e autores citados, ocorridas no interior do campo da CI, sobre um corpus constituído por todos os trabalhos apresentados no VII Encontro Nacional de Pesquisa e Pós-graduação em Ciência da Informação (ENANCIB), em 2006, sobre o contexto de discussão do trabalho no domínio da CI e do trabalho citado, assim como as razões para sua citação, dispersas na produção de autores voltados à compreensão das atividades organizacionais relacionadas aos estudos da CI (Fujino; Prazeres; Oliveira, 2007).
Quanto à pesquisadora Maria Cristina Hayashi, apresenta uma produção voltada a temas consolidados na área de CI, com destaque para produção e comunicação científica, valendo-se dos estudos métricos para realizar pesquisas com aporte teórico de Bourdieu, entre outros autores da Sociologia, coincidindo também com os resultados dos principais temas investigados.
Isa Maria Freire tem uma ampla produção na área de comunicação da informação, mídias virtuais e competência em tecnologias intelectuais da Informação, tendo no período atuado na área de política de informação, inclusão social e ética da informação. Seu referencial teórico mais expressivo nas obras do corpus de estudo são Wersig, Castells e Lévy, coincidindo com sua presença no corpus de autores mais citados.
O destaque dado às autoras, a partir do ranqueamento de sua produção, evidencia a complexidade da representação temática da área de CI, compreensível quando consideradas as relações de produção científica, entre elas as condições objetivas relacionadas às escolhas de periódicos e à produção em colaboração com orientandos e grupos de pesquisa.
Até o ano de 2022, constam 3.039 artigos científicos na BPPQ, referentes a 93 pesquisadores. Na Figura 3, a linha temporal fornece uma visualização dessa distribuição anual.
As primeiras evidências no aumento de artigos publicados estão presentes a partir de 1995 (n=22), sendo a partir da década de 2000, identificada uma crescente atividade acadêmica e científica. Embora haja um crescimento geral, é possível notar variações anuais. O aumento observado pode ser atribuído a vários fatores como melhores condições no financiamento para pesquisas, colaborações internacionais e mudanças nas políticas de publicação. Em estudo similar, com indícios de transgeracionalidade nas práticas de citação dos PQ-CI-CNPq, apresentam-se os referentes mais profícuos entre 1970 e 2010, com destaque para Jaime Robredo e Pierre Bourdieu (Bufrem; Sobral, 2022), autores também presentes entre os mais citados deste estudo.
O crescimento é mais acentuado nas últimas duas décadas, atingindo um pico em 2020 com 236 artigos. Neste mesmo ano, o Brasil entra no mapeamento mundial de casos de Coronavirus Disease (COVID) e diversos decretos de quarentena são aplicados no país. Esse cenário, aliado aos cortes no financiamento de pesquisas e reconfiguração no quadro de bolsistas atuantes, possivelmente influenciou a queda na produção nos últimos anos.
Foram contabilizados 224 periódicos científicos correspondentes aos 3.039 artigos indexados na BPPQ. Por meio do software Gephi, versão 0.10.1, foram observadas as relações mais evidentes entre as categorias de bolsa PQ e os veículos onde os pesquisadores publicam os resultados de suas pesquisas. Nesta rede densa, parte do grafo é ilustrado na Figura 4, a qual exibe as conexões mais expressivas entre os periódicos científicos com mais publicações e a centralidade das categorias PQ levantadas nesta pesquisa.
Os periódicos científicos com mais artigos publicados pelos PQ-CI-CNPq são: “Informação & Informação” (n=238), “Informação & Sociedade: Estudos” (n=236), “Ciência da Informação” (n=215), “Perspectivas em Ciência da Informação” (n=204), “Em Questão” (n=183), “Encontros Bibli” (n=183), “Datagramazero” (n=148), “Transinformação” (n=136) e “Revista Brasileira de Biblioteconomia e Documentação” (n=95). Desse conjunto fazem parte os mais bem qualificados pela capes e todos aqueles contemplados como Qualis A no período.
Das categorias atualmente existentes, os pesquisadores PQ 1B e PQ 1C apresentam maior centralidade de publicações nos periódicos científicos mais tradicionais e bem avaliados pelo Qualis Capes. Contudo, as arestas mais escuras mostram que os pesquisadores PQ 2 têm intensificado esforços na publicação de suas pesquisas nestes periódicos.
Foram contabilizadas 5.475 palavras-chave correspondentes aos 3.039 artigos indexados na BPPQ. Na Figura 5, são ilustradas as mais utilizadas nos artigos e que caracterizam os temas pesquisados pelos PQ-CI-CNPq.
Palavras-chaves mais utilizadas em artigos científicos pelos 93 PQ-CI-CNPq de 1972 até 2022
A análise das palavras-chave revela diversas áreas de interesse no campo da CI e entre os temas mais proeminentes, destaca-se "Ciência da Informação" (n=468), indicando a centralidade do próprio campo na relevância do conjunto de pesquisa.
Entre a segunda e quarta palavras-chaves mais utilizadas, são encontrados termos que se complementam como "Produção Científica" (n=113), "Comunicação Científica" (n=109) e "Bibliometria" (n=106). Estes temas indicam uma atenção significativa para investigações sobre a comunicação, disseminação e impacto da pesquisa científica, considerando-se métodos para análises da produção científica, padrões de publicação, citação e colaboração entre pesquisadores. A respeito dessa complementação, Pinheiro e Silva (2008) consideram a disciplina Comunicação Científica como base da Bibliometria, afirmando não ser possível estudar Bibliometria sem passar pela Comunicação Científica, embora o inverso seja viável.
Foram levantadas 40.337 autorias referenciadas pelos 93 PQ-CI-CNPq em seus artigos científicos de 1972 até o ano de 2022. No Quadro 2, encontram-se as obras mais referenciadas pelos PQ-CI-CNPq no período estudado.
Conforme o Quadro 2, foram levantadas 17 publicações bibliográficas, entre livros e artigos científicos. O autor mais citado, Arthur Jack Meadows, de modo especial, trata de questões relativas à produção e comunicação científica, produtividade de autores, temas predominantes na literatura, concentração da produção por idiomas, visibilidade da produção e uso da informação. Na obra “A comunicação científica” (Meadows, 1999), ele trata do tema periódico científico, cuja repercussão tem se evidenciado por ser ferramenta e canal imprescindível para a comunicação da ciência, pois confere ao pesquisador prestígio, status e visibilidade, legitimando e garantindo credibilidade à pesquisa. O autor trata também da proporção de artigos publicados com autoria múltipla, de acordo com as disciplinas, mas considera a colaboração crescente como tendência geral em todas as áreas (Meadows, 1999). Nesse contexto, as referências das publicações formam uma rede, ainda que invisível, interligando a literatura científica num todo (Meadows, 1999). Com base na relação dos autores mais citados, verificou-se com 124 registros a presença do croata Tefko Saracevic, considerado um clássico da área, cuja principal publicação “Ciência da Informação: origem, evolução e relações” representa suas investigações voltadas, principalmente, aos aspectos teóricos-epistemológicos e históricos da CI, ao profissional em informação e recuperação da informação e ao estudo de usuários.
Foram levantados 2.186 autores citados nas publicações mais citadas pelos PQ-CI-CNPq. Ou seja, autores que influenciaram os principais referentes teóricos dos PQs em CI, constituindo o quadro genealógico intelectual. No processo de ranqueamento dos autores, observou-se, a partir da oitava posição, o início de uma zona de dispersão de citações, quando os nomes identificados passam a obter menor frequência. Deste modo, na Figura 6, destacam-se os sete autores mais citados pelas publicações expostas no Quadro 2.
Os autores mais citados nas 17 obras mais referenciadas pelos 93 pesquisadores, distinguem-se como quadro genealógico intelectual: Manuel Castells (n=33), Birger Hjørland (n=13), Gernot Wersig (n=11), Martin Carnoy (n=9), David Ellis (n=9), Robert King Merton (n=9) e Pierre Bourdieu (n=8). A presença do sociólogo Castells justifica-se especialmente por ter sido pioneiro ao tratar de modo mais expressivo os reflexos da sociedade em rede tanto na economia quanto no convívio social em todo o mundo, a partir da intensificação do uso da internet e, neste aspecto, atingiu com maior ênfase a CI, com sua obra “A sociedade em rede” (Castells, 2000), de maior impacto entre os pesquisadores. Quanto à Hjørland, autor destacado na área de Organização do Conhecimento, com influência da Linguística Aplicada, apresenta perspectivas filosóficas e sociológicas cuja influência tem sido mais expressiva a partir da década de 2000. Influenciado pelo racionalismo, sugere um rompimento da CI com o foco tradicional na cognição, valorizando fatores específicos culturais e de domínio (Hjørland, 2000). Wersig (1993). por sua vez, aproxima-se das propostas relativas à contemporaneidade e à condição pós-moderna da CI. Como metáfora de um sistema de navegação conceitual na sociedade contemporânea, sua imagem do “pássaro-tecelão” tem sido absorvida pela CI, de modo especial por Freire e Araujo (2001). Martin Carnoy, cuja influência se deve aos cerca de 40 livros, além de mais de 150 artigos sobre o valor económico da educação, a economia política da educação e o ensino superior, tem parte de seus estudos estruturados em modelos comparativos com abrangência internacional. Realizou pesquisas no Brasil na década de 1960, além de lecionar na Universidade de São Paulo e em outras universidades brasileiras, incluindo a Universidade Federal da Bahia em 1985. Sua influência indireta na CI ocorre com sua proximidade a Castells, com quem produz uma obra sobre a gestão descentralizada, relacionada à competência global e à difusão da tecnologia da informação. Se, por um lado, a flexibilidade no trabalho separa os trabalhadores das instituições sociais, com suas consequências inevitáveis, por outro lado, novas instituições integradoras podem tornar a nova economia socialmente sustentável (Carnoy, 2007). Quanto a David Ellis, sua influência justifica-se pela recepção do modelo de comportamento de busca e uso da informação, posteriormente ampliado, marcando a tendência dos estudos de usuários na CI, com privilégio aos aspectos cognitivos (Ellis; Cox; Hall, 1993). A influência de Robert K. Merton, sociólogo estadunidense, deu-se especialmente pelo conceito de institucionalização da ciência, a partir de sua interação com outras instituições sociais, destacando-se o ideário ético institucionalizado e a produção de “conhecimento certificado”, no seu estudo sobre o ethos da ciência moderna, valores e obrigações como imperativos, transmitidos e assimilados pelo cientista, “formando assim sua consciência científica” (Merton, 1970, p. 39). Embora seja o único autor, com duas obras no elenco das 17 publicações bibliográficas mais referenciadas pelos 93 PQ-CI-CNPq até 2022, Bourdieu é o último dos sete autores mais citados. As 17 obras mais referenciadas configuram o processo de seleção dos bolsistas e representam aqueles autores considerados, de fato, ascendentes intelectuais. Assim, os demais pesquisadores mostram essa ascendência, podendo ser analisados mais detalhadamente com instrumentos disponíveis, especialmente a base BRAPCI e a recém implantada BPPQ.
Pode-se atribuir à obra ou ao autor, “que sobrevive ao tempo e às condições em que surgiu, um valor supratemporal” (Kosik, 1976, p. 129). Por sua vez, o autor citante contribui para a resistência, de obra e autor, ao esquecimento e à destruição e, assim procedendo, potencializa a sua permanência em outras épocas e futuras gerações. Portanto, os estudos genealógicos seriam uma forma de analisar diacronicamente a projeção de um acadêmico através de várias gerações.
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Os resultados obtidos e analisados em pesquisas anteriores mostram a possibilidade de, com o desenvolvimento dos objetivos propostos, além de proporcionar uma representação histórica e orgânica da produção científica na área, também evidenciar autores, temas ou períodos articulados com o corpus de nossa atenção. O perfil de relações evidenciadas e de estruturas genealógicas intelectuais representado na produção científica periódica dos PQ-CI-CNPq destaca Castells, Hjørland, Wersig, Carnoy, Ellis, Merton e Bourdieu como o conjunto das influências mais expressivas, intermediados pelos autores das 17 obras citantes, as mais influentes, por sua vez, sobre os 93 pesquisadores.
Análises mais acuradas desse perfil têm o potencial de gerar discussões acadêmicas favoráveis ao reconhecimento de fundamentos teóricos e métodos de pesquisa nesse processo, intimamente vinculado às situações históricas e sociais nas quais ocorre.
Quanto à preocupação de conciliar a prática da pesquisa com a docência, partimos do reconhecimento das questões suscitadas pelo método de pesquisa científica, pois embora extremamente relevantes para a dinâmica da produção do conhecimento, nem sempre têm recebido a atenção merecida, enquanto saberes institucionalizados. Desse modo, a conciliação possível entre as atividades de ensino e pesquisa, com o envolvimento dos alunos de graduação e de pós-graduação, é determinante para essa produção, no contexto brasileiro da CI. Ela atende, graças a sua estrutura modelar e instrumental, a uma proposta formativa como expressão do esforço de uma equipe de pesquisadores para conciliar a dimensão educacional às demais dimensões da pesquisa.
A base de dados proposta, a princípio, já se encontra desenvolvida como fonte dotada de linguagem de marcação definida e legível por diversos softwares de análise de dados, tais como, VantagePoint, UCINET, Statistica, VOSviewer e Microsoft Excel ®. Futuramente, a depender das fontes alternativas de recursos, a BPPQ será disponibilizada em formato de consulta pública online, especialmente consideradas as relações dinâmicas de cooperação com a BRAPCI.
A dimensão formativa da pesquisa, contemplada em todas as suas fases, tem estimulado a construção científica discente e docente, componente dos grupos de estudo atuantes. Pretende-se dar continuidade aos trabalhos coletivos, por meio do acompanhamento dos procedimentos, da crítica à prática, da publicação dos resultados em forma de dissertações, teses, apresentação de trabalhos em eventos, artigos de periódicos e publicações em livros. Vale destacar a base dos pesquisadores, aplicável a outras áreas do conhecimento, como forma de organizar e recuperar dados para a compreensão das relações passíveis de captação na observação de corpora específicos. Esta proposta inicial pode ser desdobrada especificamente na categorização dos autores fundantes a partir de suas posições teórico-epistemológicas e na validade da BPPQ para estudos de genealogia intelectual, em prol da construção e aperfeiçoamento de formas representativas das relações possíveis, como legado para a formação na área.
Agradecimentos
Agradeço especialmente ao apoio ativo e crítico, nos aspectos relacionados com as dimensões técnicas e morfológicas do artigo, de Rafael Câmara e Felipe Sacramento. Além, do apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), processo nº 314516/2020-4 Produtividade em Pesquisa PQ-2020.
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Fonte: Dados da pesquisa (2024).
Fonte: elaborado pela autora (2023).
Fonte: elaborado pela autora (2023).
Fonte: elaborado pela autora (2023).
Fonte: elaborado pela autora (2023).
Fonte: elaborado pela autora (2023).