Resumo:
Este estudo analisou os impactos do contexto pandêmico sobre a atividade laboral e a saúde mental de mulheres trabalhadoras domésticas diaristas, levando em consideração a interseccionalidade entre gênero, raça e classe no trabalho. Participaram dez diaristas, com idades entre 31 e 64 anos, a maioria ( n =6) pretas. Foi aplicado questionário sociodemográfico e realizadas entrevistas individuais. Sob abordagem qualitativa de análise, o material de pesquisa foi submetido a interlocuções analíticas, segundo contribuições da psicodinâmica do trabalho, da sociologia da divisão sexual do trabalho e do paradigma afrocêntrico das discussões de gênero. Os achados refletem o papel das desigualdades de gênero, raça e classe no agravamento das condições de trabalho/vida das trabalhadoras, que tiveram sua subsistência ameaçada, depararam-se com novos dilemas ou riscos no/pelo trabalho. Ademais, vivenciaram a atualização de situações opressivas nas relações laborais, experiências que suscitaram repercussões sobre seus corpos-subjetivos, desde ansiedade à sentimentos de inferioridade. Pontuamos a pertinência da inclusão/ampliação do lugar das dimensões de gênero, raça e classe e suas interseccionalidades nos estudos e intervenções em saúde mental, sobretudo no âmbito do trabalho. Tais marcadores sociais foram cruciais para a compreensão da natureza, intensidade e exploração do sofrimento psíquico relacionado ao trabalho das participantes. Ressaltamos a necessidade de medidas e ações de curto e longo prazo para o enfrentamento das problemáticas laborais e, consequentemente de vida, identificadas mediante os relatos das diaristas.
Palavras-chave:
Diaristas; Pandemia; Saúde Mental; Interseccionalidade
Abstract:
This study analyzed the impacts of the pandemic on the work and mental health of female daily housekeeping workers by considering the intersectionality between gender, race, and class at work. Overall, 10 workers participated in this study. They were aged from 31 to 64 years and most ( n =6) were Black. A sociodemographic questionnaire was applied and individual interviews were carried out. Under a qualitative analysis approach, the research material was submitted to analytical interlocutions according to contributions from the psychodynamics of work, sociology of the sexual division of labor, and the Afrocentric paradigm of gender discussions. Findings reflect the role of gender, race, and class inequalities in worsening the working/life conditions of female workers, who had their subsistence threatened as they faced new dilemmas or risks in/from work. They also experienced the actualization of oppressive situations in labor relations. Experiences affected their subjective bodies, from anxiety to feelings of inferiority. We point out the pertinence of including/expanding the place of the dimensions of gender, race, and class and their intersectionality in studies and interventions in mental health, especially in work. Such social markers were crucial for understanding the nature, intensity, and exploitation of participants’ work-related psychic suffering. We emphasize the need for short- and long-term measures and actions to face work problems and, consequently, life problems, identified in the workers’ reports.
Keywords:
Housekeeper; Pandemic; Mental Health; Intersectionality
Resumen:
Este estudio analizó los impactos del contexto de la pandemia en la actividad laboral y la salud mental de las trabajadoras domésticas, teniendo en cuenta la interseccionalidad entre género, raza y clase en el trabajo. Participaron diez trabajadoras domésticas, con edades de entre 31 y 64 años, la mayoría ( n =6) negras. Se aplicó un cuestionario sociodemográfico y se realizaron entrevistas individuales. Con base en un enfoque cualitativo de análisis, el material de investigación se sometió a análisis según aportes de la psicodinámica del trabajo, la sociología de la división sexual del trabajo y el paradigma afrocéntrico de las discusiones de género. Los hallazgos apuntan al papel de las desigualdades de género, raza y clase en el empeoramiento de las condiciones de trabajo/vida de las trabajadoras, que vieron amenazadas su subsistencia, enfrentadas a nuevos dilemas o riesgos en/a través del trabajo. Además, experimentaron la actualización de situaciones opresivas en las relaciones laborales, experiencias que repercutieron en sus cuerpos subjetivos desde ansiedad hasta sentimientos de inferioridad. Se señala la pertinencia de incluir/ampliar el lugar de las dimensiones de género, raza y clase y su interseccionalidad en los estudios e intervenciones en salud mental, especialmente en el contexto laboral. Dichos marcadores sociales fueron cruciales para comprender la naturaleza, la intensidad y la explotación del sufrimiento psíquico relacionado con el trabajo de las participantes. Se destaca la necesidad de medidas y acciones de corto y largo plazo para enfrentar los problemas de trabajo y, en consecuencia, de vida identificados en sus informes.
Palabras clave:
Trabajadoras domésticas; Pandemia; Salud Mental; Interseccionalidad
Introdução
De acordo com relatório da Oxfam ( 2021 ), a pandemia de covid-19 expôs, aumentou e alimentou-se das desigualdades de renda, gênero e raça/etnia inclusive havendo desdobros dessa conjuntura, a médio e longo prazo, ainda pouco dimensionados. Acerca do emprego e salário em âmbito nacional, estima-se que serão necessários mais de nove anos para uma recuperação significativa ante os efeitos da crise sociossanitária, principalmente entre as frações da classe trabalhadora mais precarizadas (Silva et al., 2021 ).
Assim, destacamos que as mulheres trabalhadoras, em sua maioria, estão concentradas em setores produtivos e em atividades de trabalho que foram bastante impactadas e são marcadas por fragilidades em termos de condições de trabalho (Entidade das Nações Unidas para a Igualdade de Gênero e o Empoderamento das Mulheres [ONU Mulheres], 2020 ), como, por exemplo, a saúde pública.
Durante a pandemia de covid-19, as repercussões da crise sobre o trabalho e a saúde dessas mulheres trabalhadoras rapidamente se fizeram presentes. Trata-se de um setor majoritariamente feminino e extremamente sucateado. As profissionais da saúde estavam no centro dos esforços e respostas para contenção e atendimentos dos casos de covid-19 (Oxfam, 2021 ). Citamos alguns dos estudos que dão visibilidade a essa realidade: Bitencourt e Andrade ( 2021 ); Santos, Lima, Barbosa, Silva e Andrade ( 2020 ); Santos ( 2021 ).
Existe outra categoria profissional/ocupacional, também majoritariamente feminina, que foi e segue desmedidamente atingida pelos desdobramentos desse contexto e merece atenção, apesar de pouco a receber. Referimo-nos às mulheres trabalhadoras domésticas remuneradas. Em geral, essas trabalhadoras figuram nos meios de comunicação ou nas mídias digitais em casos extremos, quer dizer, quando há graves violações de direitos. Como lembra Gonzalez ( 2020 ) e Teixeira ( 2021 ), o trabalho doméstico remunerado (TDR) no Brasil é um tema indigesto, haja vista escancarar as articulações entre desigualdades de gênero, raciais e de classe.
Segundo análises do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) ( 2020 ), os primeiros reflexos da pandemia sobre esse grupo ocupacional foram as demissões e a suspensão sem remuneração daquelas que não são formalizadas. Ademais, para aquelas que continuaram em seus trabalhos remunerados, as particularidades históricas do TDR, como informalidade, práticas trabalhistas abusivas ou o padrão de perfil das trabalhadoras – mulheres, negras e periféricas – conformam um quadro propício a vários riscos e violências.
Por não receberem a visibilidade social e acadêmica à altura, focamos esta pesquisa no trabalho e na saúde mental de mulheres trabalhadoras domésticas diaristas, ou seja, que realizam o TDR sob o regime de diárias. Elas não contam com a proteção social legal trabalhista e, por isso, estão extremamente vulnerabilizadas. As diaristas na contemporaneidade representam grande quantidade do trabalho doméstico remunerado realizado na informalidade no Brasil (Monticelli & Tamanini, 2013 ).
Em vista disso, o objetivo deste artigo é analisar os impactos do contexto pandêmico sobre a atividade de trabalho e a saúde mental das mulheres trabalhadoras domésticas diaristas, levando em consideração a interseccionalidade entre gênero, raça e classe no trabalho.
Dito isto, quando propomos investigar a relação entre trabalho e saúde mental a partir da consideração da transversalidade das dimensões de gênero, raça e classe, partimos do reconhecimento da centralidade do trabalho sob vários aspectos: (1) elucida as desigualdades e é caminho para superá-las; (2) reflete o nível de evolução política da sociedade; (3) condiciona as condições de desenvolvimento e de saúde de indivíduos e coletivos (Dejours, 2009 , Kergoat, 2003 ; Maruani, 2019 ).
A compreensão de saúde mental que embasa este trabalho está para além da ausência de doença ou a restrição de sofrimento mental às categorias psiquiátricas. Para mais, afasta-se de perspectivas psicologizantes ou psicobiográficas, ou seja, perspectivas que desconsiderem as realidades sociais que respaldam e atravessam as subjetividades (Caponi, 1997 ; Dejours, 2012 ).
Entendemos saúde mental enquanto possibilidade de se desenvolver, poder gozar de liberdade e de subsídios para traçar e realizar objetivos, mobilizar-se, obter satisfação e prazer naquilo que faz, ter sua integridade física e psicológica protegida, entre outros. Diz respeito à margem de seguridade ou tolerância frente às necessidades, acontecimentos e potencialidades de indivíduos e grupos. Ela é construída na vida coletiva, nas relações e nas condições concretas de existência. O sofrimento, por sua vez, particularmente quando patógeno, revela os limites, as fronteiras, as injustiças, ou seja, os impedimentos ao que foi aludido anteriormente (Caponi, 1997 ; Dejours, 1992 , 2012 ).
Método
Tipo de pesquisa
Trata-se de uma pesquisa qualitativa, que tem como estratégia metodológica de análise a abordagem hermenêutica-dialética (Minayo, 2002 ). Acreditamos serem as reflexões provenientes da integração dialógica e crítica de análise mais condizentes com a complexidade do objeto de investigação.
Participantes
Participaram da pesquisa dez mulheres trabalhadoras domésticas diaristas, com idades entre 31 e 64 anos, moradoras da capital paraibana e que estão na ocupação há mais de 15 anos. Destas, em relação à cor da pele, seis se identificam como pretas, duas como pardas, uma como amarela e uma como branca. Quanto ao nível de escolaridade, quatro têm ensino médio completo e outras seis não terminaram o ensino médio ou ensino fundamental. Todas são mães, sendo que três têm de três a quatro filhos menores de dezoito anos. A maioria ( n =6) reside com seus filhos(as) e companheiro e recebe em torno de R$ 120,00 por diária.
Instrumentos
Foram realizadas entrevistas não-estruturadas individuais e aplicado questionário sociodemográfico. Neste tipo de entrevista, existe a possibilidade do(a) entrevistado(a) formular suas respostas mais livremente, pois há apenas temas e uma pergunta disparadora para cada um deles (Laville & Dionne, 1999 ). O questionário proporcionou o acesso às informações pessoais, familiares e ocupacionais, tais como: nível de escolaridade, tempo na ocupação, remuneração, entre outras.
A entrevista continha os seguintes temas: processo e condições de trabalho; relações laborais; relação trabalho e família; percepções e sentimentos; saúde e trabalho. Havia uma pergunta disparadora para cada um, como, por exemplo: “O que mudou no seu trabalho ou vida com a pandemia do novo coronavírus?”. Os temas e as perguntas disparadoras foram os mesmos para as participantes, sendo o contexto de pandemia a referência espaço-temporal da dinâmica intersubjetiva.
Procedimentos de coleta de dados
Após a aprovação da pesquisa pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP), o Sindicato dos Empregados Domésticos do Estado da Paraíba facilitou e mediou o acesso às mulheres trabalhadoras domésticas diaristas. Apesar das diaristas não serem formalizadas, muitas usufruem de alguns serviços ou ações oferecidas pelo sindicato para os(as) trabalhadores(as) domésticos(as). Mediante concordância em participar demonstrado pelas diaristas, elas assinavam o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). Em seguida, eram realizadas as entrevistas individuais. As entrevistas ocorreram entre novembro e dezembro de 2021, geralmente durante o fim da tarde ou à noite, com duração média de 90 minutos.
Devido ao contexto pandêmico e às medidas de distanciamento social adotadas no período de realização da pesquisa, as entrevistas foram realizadas via ambiente virtual (Google Meet) e as demais etapas sobreditas via telefone (WhatsApp).
Procedimentos de análises de dados
As respostas do questionário sociodemográfico foram sumarizadas e descritas por meio de análises baseadas em frequência e média. As entrevistas foram transcritas na íntegra e foram usados nomes fictícios, todos retirados da obra Olhos D’Água , de Conceição Evaristo ( 2016 ), para referenciar os relatos.
O conteúdo das entrevistas foi colocado em evidência e o(a) pesquisador(a) buscou a compreensão do material nele mesmo, integrando à essa postura uma perspectiva crítica e interdisciplinar. Sob a abordagem hermenêutica-dialética de análise, considera-se que os discursos dizem mais do que quem os proferiu quis dizer, pois ninguém abarca a totalidade do cotidiano de vida, nem é completamente independente da realidade histórica, isto é, a realidade conflitiva das desigualdades, da dominação, da resistência, da conformidade; pelo contrário, todos(as) são penetrados(as) por ela. Dessa maneira, o compreender, a interpretação baseia-se na práxis e têm como resultante configurações de sentido ou unidades de sentido (Minayo, 2002 ).
As habilidades do(a) pesquisador(a) são primordiais durante todo o processo de análise, cotejando os referenciais teóricos, os objetivos de pesquisa, as observações, a consciência histórica (Minayo, 2002 ). Para a análise realizada neste estudo, os referenciais teóricos de base foram: a psicodinâmica do trabalho (Dejours, 1992 , 2005 , 2012 ), a sociologia da divisão sexual do trabalho (Federici, 2019 ; Hirata, 2002 ) e o paradigma afrocêntrico das discussões de gênero (Davis, 2016 , 2019 ; Gonzalez, 2020 ; Teixeira, 2021 ).
Resultados e discussão
Situação laboral e as relações imediatas com o estado de saúde das diaristas
Entre as entrevistadas, existem as que estavam na situação de não-trabalho remunerado e as que permaneceram realizando as diárias, que são a maioria, desde o segundo semestre de 2020. Porém, as diaristas enfatizaram o caráter ainda mais esporádico do trabalho. Algumas trabalhadoras relataram que, em média, realizavam uma diária por semana, outras confidenciaram estar sem nenhuma diária há quase dois meses no momento de realização das entrevistas. De acordo com elas, essa situação era consequência da pandemia sobre a demanda do seu trabalho.
A perda do trabalho remunerado ou a diminuição do número de diárias é bastante significativo para a renda familiar das trabalhadoras, pois, em geral, os seus rendimentos são igualmente importantes ou são os principais para a subsistência familiar, haja vista algumas serem mães solo ou terem famílias compostas por outros(as) trabalhadores(as) na condição de não-trabalho remunerado ou também muito precarizados, ou seja, participantes da massa dos informais ou dos que fazem “bico”, como se diz na linguagem popular. Para ilustrar, temos a fala a seguir:
Eu fiquei dependendo dos meus filhos. Eu pagava R$ 400,00 da casa, eu não pude pagar, então vim morar dentro da casa do meu filho. Ficou bem complicado mesmo, . . . Na mesma casa mora eu, meu esposo, meu filho, meu neto e minha nora. A sala dele a gente fechou, colocamos umas tábuas, aí mora eu e meu esposo só na sala. Eu não tinha faxina, só por volta de novembro, dezembro que foi chegando trabalho para eu fazer.
(Ana Davenga, 46 anos).
Trata-se de um cenário comum a outras mulheres trabalhadoras ou famílias brasileiras, principalmente negras e/ou periféricas, agravado no contexto de pandemia de covid-19. Segundo o relatório realizado pela Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar (Penssan) ( 2022 ), quando analisada a relação da composição familiar e os níveis de insegurança alimentar (IA) no Brasil, estava reduzido o acesso das famílias aos alimentos nos domicílios onde uma mulher era a pessoa de referência ou responsável pela família. Mais de seis em cada dez (63,0%) domicílios com responsáveis do sexo feminino estavam em algum nível de IA, destes, 18,8% em situação de fome. A segurança alimentar foi mais presente nos domicílios (mais de 50%) cujos responsáveis eram da raça/cor de pele branca.
Em território nacional, a classe trabalhadora apresenta-se cada vez mais feminina. As mulheres constituem um verdadeiro exército de trabalhadoras terceirizadas, comerciantes, professoras, operárias da indústria, trabalhadoras do campo, empregadas domésticas. As mulheres negras e periféricas são maioria nos setores e funções mais profundamente marginalizados e explorados (Assis & Helena, 2021 ). Assim, em tempos de crise são elas que têm mais chances de serem demitidas, de perderem os seus trabalhos remunerados em contexto de recessão econômica (Hirata, 2002 ).
Mas essa lógica compreende apenas um aspecto da divisão sexual e racial do mercado de trabalho. A depender do lugar estratégico da função e do grau de cristalização da segregação em termos de setor de atividade, postos de trabalho e tarefas, ou seja, da especialização sexual/de gênero e racial dos trabalhos, como ocorre com os labores mais apregoados com a noção de “trabalho de mulher” ou “trabalho de mulher de cor”, cria-se um reduto capaz de sustentar a mão de obra mesmo em períodos de crise, de demissões. No entanto, mesmo que se mantenham em trabalho remunerado, são trabalhos mal pagos, flexibilizados, desprotegidos e desvalorizados (Davis, 2019 ; Hirata, 2002 ).
Esse é o caso das diaristas, que desenvolvem um trabalho feminizado e racializado e estratégico para o funcionamento social, não obstante suas condições laborais sejam extremamente precárias (Gonzalez, 2020 ; Jesus & Assis, 2021 ). A brevidade com que as entrevistadas, em sua maioria, voltaram a realizar as diárias, mesmo de forma mais esporádica, deve ser analisada ou discutida nessa correspondência entre demanda e vulnerabilização histórica engendrada na interseccionalidade entre sexo/gênero, raça e classe.
Essa precariedade também pode ser evidenciada na pouquíssima diferença em termos de incertezas quanto à subsistência entre as diaristas que estavam sem diárias e as que continuaram realizando-as. Em geral, elas relataram o agravamento de suas condições de subsistência, a proximidade com a insegurança alimentar ou de moradia. Tais situações suscitaram um conjunto de mal-estares, várias implicações negativas sobre os perfis ou estados de saúde dessas mulheres trabalhadoras, como contou Natalina, de 53 anos:
Eu cheguei a ficar sem dormir à noite de tão preocupada. A pessoa sem trabalho se preocupa com o que vai faltar, com a feira, . . . minha saúde ficou meio abalada nessa pandemia, devido às preocupações. Eu tive que tomar remédio para dormir, . . . eu fiquei adoentada mesmo, com ansiedade, muitas preocupações, . . . fui ao médico. Eu fui medicada e tudo, mas aos pouquinhos eu estou melhorando.
Nesse sentido, do ponto de vista da psicodinâmica do trabalho, no labor precário, cuja remuneração é insuficiente para assegurar em um primeiro momento as necessidades materiais, ou quando não há trabalho remunerado, não há a possibilidade de pagar as dívidas, de sustentar a família, cria-se um quadro propício a desgastes psíquicos, formas de patologias ou sofrimento mental relacionado ao trabalho (Dejours, 1992 , 2009 ).
O sofrimento mental em decorrência das limitações materiais que o trabalho precário ou o não-trabalho remunerado impõe não é o mesmo daquele inerente às situações laborais como vivência do revés ou da insuficiência dos saberes e conhecimentos disponíveis. Trata-se do sofrimento proveniente da privação, da experiência de ter suas necessidades mais urgentes e desejos constantemente adiados ou muitas vezes não realizados (Dejours, 1992 , 2009 ).
A configuração das vulnerabilidades implicadas ao contexto pandêmico e a vivência do(s) medo(s)
Tal como podemos inferir a partir da seção anterior, as trabalhadoras domésticas diaristas fazem parte de um conjunto de trabalhadoras e trabalhadores que não tiveram direito à quarentena, ao isolamento social em ocasiões que tais medidas foram necessárias, fossem porque fazem parte dos setores essenciais ou porque estão na informalidade. Em relação às(aos) trabalhadoras(es) informais, as(os) ditas(os) autônomas(os), que é a posição das diaristas, a interrupção de suas atividades laborais significou diretamente o comprometimento da sobrevivência, sem a garantia de amparo trabalhista ou previdenciário.
Para essas(es) trabalhadoras(es) brasileiras(os) não houve, por exemplo, por parte do Governo Federal, um plano nacional para resguardar a distribuição de álcool em gel, sabão, máscaras ou a testagem maciça, de modo que permaneceram saindo às ruas e frequentando os seus lugares de trabalho, tendo que arcar com tais responsabilidades ou contar com iniciativas estaduais ou com doações (Pablito, 2021 ).
Em relação ao trabalho doméstico remunerado, o ex-presidente Jair Messias Bolsonaro, no decorrer da pandemia, chegou a considerá-lo um serviço essencial, sob a alegação de que atividade essencial seria aquela necessária para o(a) trabalhador(a) levar alimentação para casa. Não houve, no entanto, qualquer preocupação em oferecer o mínimo de segurança, de fiscalização no trabalho ou assistência médico-sanitária. Pelo contrário, seu posicionamento reflete o compromisso de sua governabilidade com o neoliberalismo político e os costumes e tradições mais reacionárias, como o racismo, o sexismo e o preconceito contra as mulheres trabalhadoras domésticas remuneradas (Jesus & Assis, 2021 ).
Essas práticas políticas reafirmam a racionalidade patriarcal e racista que permeia as relações entre famílias e trabalhadoras domésticas remuneradas, pois cria ou dá continuidade a uma atmosfera permissiva à adoção de leis próprias (Jesus & Assis, 2021 ) por parte das(os) empregadoras(es), no caso das empregadas domésticas, ou por parte das(os) contratantes, no caso das diaristas, conforme será demonstrado mais adiante como um dos aspectos das vivências dessas trabalhadoras em contexto pandêmico.
Conscientes da alta transmissibilidade da covid-19 e da maior vulnerabilidade de sua categoria ocupacional em termos de exposição ao vírus, bem como do desamparo social, algumas das entrevistadas mencionaram a morte da trabalhadora doméstica remunerada, um dos primeiros casos de óbito pelo novo coronavírus registrados no Brasil. Essa lembrança valeu como um tipo de lembrete simbólico entre elas sobre as desigualdades, as debilidades que permeiam o seu dia a dia de trabalho, principalmente enxergadas no contato com as famílias consumidoras de seus serviços. Como demonstrado na fala de Maria, de 45 anos: “ Às vezes o patrão não diz. O primeiro caso de morte da covid-19 foi de uma trabalhadora doméstica no Rio de Janeiro. E foi a patroa que pegou o vírus e não disse à empregada ”.
Assim, tanto para aquelas que permaneceram realizando as diárias no contexto pandêmico, quanto para as que desejavam ou estavam buscando trabalho, identificamos em seus discursos a vivência de uma espécie de mistura ou dialética dos medos sentidos e expressos frente à conjuntura.
Para elas, assegurar o trabalho significava tanto a possibilidade de solucionar as urgências, as incertezas imperiosas, por isso a ideia de perdê-lo ou de não o conseguir provocava medo, quanto a possibilidade de adoecimento relacionado ao trabalho, o que por fim comprometeria aquela ou poderia atingir seus filhos(as) em termos de saúde ou da oferta do cuidado. Para ilustrar, temos o relato de Ana Davenga: “ Meu maior medo é pegar essa doença e não poder trabalhar para colocar comida dentro de casa, esse é meu medo. Não é nem de morrer. É de ficar doente e não poder colocar comida dentro de casa ”. Ou ainda, o relato de Luamanda, de 31 anos, mãe solo de quatro filhos menores de dezoito anos e chefa de família:
É tanto que quando aparece faxina que eu sei que o pessoal viaja muito, eu falo que não posso, porque querendo ou não eu vou prejudicar a mim e meus filhos. Ano passado eu fiquei ruim mesmo, não sentia gosto de nada, tinha dificuldade para levantar e ainda tinha que cuidar dos filhos, porque tinha que ser eu mesmo. Eu só não queria eles muito perto de mim. Eu tenho medo dos meus filhos pegarem a doença.
Algumas trabalhadoras chegaram a fazer essa ponderação entre os medos experimentados, elegeram uma situação deletéria, ameaçadora em relação a outra, como vimos nos relatos acima. Contudo, isso não significa que a tensão, a ansiedade frente ao risco de contágio, do próprio adoecimento tenha sido solucionada. Entendemos ser muito mais um reflexo da precariedade em que se encontravam ou se encontram, do que estava em jogo para elas, dos mecanismos psicológicos de defesa.
A proteção vacinal foi citada por algumas como algo que ofereceu um certo alívio, como demonstrado na fala a seguir: “ Agora eu já estou com as duas doses. Hoje eu já tenho menos medo, né? ” (Cida, 64 anos). Lembremos que, apesar de sua atividade ter sido considerada essencial e da conhecida precariedade de suas condições de trabalho, elas não foram elencadas nos grupos tidos como prioritários para a vacinação, pelo menos não de imediato.
No mundo do trabalho contemporâneo, é tarefa difícil discernir os medos que permeiam o cotidiano de trabalho ou a relação indivíduo-trabalho que engendram sentimentos e causam repercussões sobre a saúde do(a) trabalhador(a), pois, mais do que uma reação a um perigo iminente, o medo tem se constituído como elemento do metabolismo social, como tonalidade afetiva dominante. O medo generalizado do desemprego, da miséria, da exclusão, de enlouquecer, de sucumbir ao cansaço e tantos outros se alimentam e geram novos medos (Seligman-Silva, 2013 ).
Segundo Dejours ( 1992 ), entre o subproletariado 1 , ou seja, aquelas e aqueles que comungam das periferias, do não-trabalho remunerado, do subemprego, que conhecem de perto os efeitos do sucateamento do sistema sanitário, que vivem a ameaça disciplinadora da fome, o sofrimento mental é maciço e evidente. Contudo, as(os) trabalhadoras(es) continuam expondo seu equilíbrio e seu funcionamento psíquico aos riscos, aos perigos contidos no trabalho, não sem altos custos para si ou sobre si.
Entre as mulheres trabalhadoras domésticas diaristas, observamos em suas falas alguns esforços e/ou estratégias individuais adotadas na tentativa de se protegerem do contágio ou do adoecimento no/pelo trabalho.
Além da preocupação com o uso do álcool em gel e da máscara, embora algumas tenham declarado que o uso da máscara incomoda, sufoca durante a realização do trabalho, e a procura pela vacinação, elas também tentavam se proteger prestando bastante atenção na dinâmica familiar da(o) contratante. Por exemplo, verificavam se existia alguém com sintomas ou se tinha alguém isolado. Tentavam igualmente descobrir informações acerca do trabalho das pessoas que solicitavam seus serviços antes mesmo de irem até o local. Para ilustrar, temos a fala de Luamanda a seguir:
É tanto que quando aparece faxina que eu sei que o povo viaja muito ou são médicos, eu falo que não posso, porque querendo ou não, eu vou prejudicar a mim e meus filhos,… Eu pergunto quantas pessoas têm, aí o pessoal diz: tem tantas pessoas, mas geralmente passam o dia fora porque a gente trabalha. Aí eu digo: trabalha em quê? Eu não posso chegar diretamente e perguntar para o cliente: Você trabalha com o quê?
Tais situações laborais elucidam que essas mulheres trabalhadoras, ante ao desamparo social, tiveram que assumir ou continuam assumindo a responsabilização pela prevenção dos riscos nos seus lugares de trabalho. Embora, a maioria dos riscos laborais sejam de natureza coletiva e ultrapassam a vontade ou controle do(a) trabalhador(a) e, portanto, extrapolam a possibilidade de cada uma prevenir-se. O medo, a preocupação a cada instante de trabalho, aspectos conhecidos pelas diaristas, são sinais diretos ou indiretos dessa distância (Dejours, 1992 ).
O papel da divisão sexual do trabalho familiar e doméstico não remunerado no sofrimento relacionado ao trabalho
Evidenciamos nas narrativas das trabalhadoras que, para compreender a natureza e intensidade da experimentação do(s) medo(s), das vivências de sofrimento ou mesmo a relação delas com a saúde, mais precisamente com a doença ou adoecimento, há de se considerar as implicações ou os desdobros da divisão sexual do trabalho familiar, do trabalho doméstico não remunerado e do machismo sobre ou para a composição das situações que atravessam a pertença de classe social 2 .
Para as entrevistadas, o adoecer esteve relacionado ao comprometimento do corpo, que por sua vez significaria a ruptura do trabalho remunerado e do trabalho não remunerado em suas casas. Ademais, é necessário fazer uma ressalva em relação a este último, pois como aparece na fala de Luamanda, localizada na seção anterior, proferir em termos de ruptura do trabalho familiar, do trabalho doméstico não remunerado especialmente para as mulheres, não faz muito sentido (Dejours, 1992 ).
Há uma simbiose do trabalho familiar ou do trabalho doméstico não remunerado com o feminino, que é naturalizada por meio da introjeção disso pelas mulheres, bem como pelos consensos sociais, pela estrutura social, que (re)afirma a todo momento a compulsoriedade dessas funções em relação ao sexo/gênero feminino. Essas funções ou atividades costumam ser confundidas ou entendidas como parte da personalidade feminina, como uma vocação ou destino biológico das mulheres (Federici, 2019 ).
É provável que encontremos resultados semelhantes entre outros grupos ocupacionais ou profissionais de mulheres trabalhadoras remuneradas, tendo em conta que a (re)definição ideológica das mulheres como guardiãs de uma desvalorizada vida doméstica acompanha as décadas de trabalho remunerado integralmente fora de casa (Davis, 2016 ; Federici, 2019 ). Contudo, é preciso salientar que cuidar dos(as) filhos(as), do lar, nas condições materiais, sob as circunstâncias das mulheres diaristas, como fica evidente em seus relatos, representa uma carga de trabalho e de angústia muito particular.
Em outro momento, Luamanda disse: “às vezes torna-se muito complicado e cansativo um filho chegar para você e dizer: ‘mãe me dá um biscoito’, e você ter que dizer que não tem hoje, talvez amanhã ”. Essa fala demonstra como as mulheres, as mães, devido a atributos que envolvem ou constituem as feminilidades ou ao lugar familiar que ocupam em decorrência das relações de sexo/gênero, estão mais próximas de vivenciarem os dramas familiares em virtude da precarização dos modos de trabalho e de vida.
As mulheres trabalhadoras domésticas diaristas entrevistadas estão longe de serem as donas de casa, a cuidadora da família patriarcal burguesa, um destino que nem mesmo as mulheres de classe média suportam (Davis, 2016 ). Tão pouco podem recorrer à solução do mundo moderno, do “feminismo de mercado” (Pochic, 2019 , p. 55), que é a conciliação do trabalho remunerado com o trabalho não remunerado, a partir da delegação de boa parte do último a outras mulheres, às instituições privadas ou mediante o acesso às tecnologias que auxiliam nas atividades domésticas. Elas fazem parte dessa solução como trabalhadoras muito precarizadas (Teixeira, 2021 ).
As diaristas, provedoras do seu lar, extremamente mal pagas, têm altas cargas de trabalho, de responsabilidades, de investimento afetivo em decorrência da solidão das famílias imputada pelo caráter privado, individual, vinculado sobretudo às mulheres, das tarefas domésticas e do cuidado com os(as) filhos(as), assim como em virtude da educação sexista, machista que autoriza ou respalda a negligência de seus companheiros e outros membros da família com tais atribuições (Davis, 2016 ; Federici, 2019 ). É principalmente sobre os corpos femininos negros e/ou pobres que recai a natureza opressiva e alienante do trabalho reprodutivo na sociabilidade do capital patriarcal e racista (Gonzalez, 2020 ).
Por isso, chamamos atenção para a consideração das identidades sociais de sexo/gênero, do lugar na dinâmica familiar, da divisão do trabalho doméstico não remunerado no conjunto de razões, condições ou aspectos heurísticos para a natureza, intensidade e exploração do sofrimento da mulher trabalhadora pela organização do trabalho ou por aqueles(as) que se beneficiam dele, especialmente entre os setores mais marginalizados, precarizados da economia.
Em tempos de crise, segundo Hirata ( 2002 ), as funções de trabalho familiar ou doméstica podem aumentar o controle social sobre o comportamento das trabalhadoras e trabalhadores. Deve-se levá-las em questão para analisar as sujeições impostas, as rachaduras na organização coletiva ou a palidez dos discursos reivindicatórios, pontos consideravelmente necessários em períodos extremamente críticos, como o que vivemos.
Relações de trabalho, discriminação e insatisfação
As relações de trabalho nesta seção referem-se à relação das trabalhadoras com as famílias que se beneficiam de seus serviços e tiveram destaque nos discursos das entrevistadas acerca de suas vivências durante o contexto pandêmico. Elas evidenciaram uma questão em relação aos cuidados profiláticos que foram adotados desde o início da pandemia.
De acordo com as diaristas, sob a argumentação de que estavam seguindo protocolos de segurança, as(os) contratantes lhes faziam passar por exaustivos padrões de comportamento antes de iniciarem o trabalho e por verdadeiros interrogatórios, cujo objetivo seria saber se as trabalhadoras estavam tomando cuidado no trajeto até chegar à residência ou saber o que elas faziam quando estavam em casa. Além disso, os utensílios usados por elas durante a diária eram separados ou as(os) contratantes chegavam a proibi-las de usá-los.
Outrossim, fazia parte dessas condutas manter uma certa distância física das diaristas, solicitarem testes ou que elas recorressem aos aplicativos de transporte privado, na maioria das vezes custeado pelas próprias trabalhadoras. Alguns desses episódios podemos apreciar no relato de Ana Davenga:
Eu pedi para sair porque eu já estava cansada dessa situação, pois toda vez que eu chegava, eles vinham e falava: Fulana, você está tomando cuidado? Você está saindo de dentro de casa? Olhe, cuidado para não trazer essa doença pra cá. O povo não chegava perto de mim. No dia que eu chegava para trabalhar, o povo era sempre lá por longe de mim, isso foi me aborrecendo.
O que aparentemente poderia soar como uma preocupação exacerbada das(os) contratantes frente ao risco de contaminação mostrava-se como sendo um medo de que as diaristas fossem o vetor de contaminação, configurando-se em práticas abusivas, invasivas, vexatórias e discriminatórias, que foram fontes de sofrimento, vergonha, constrangimentos, indignação para essas mulheres. Podemos observar isso na representação usada pela trabalhadora Zaíta, de 43 anos, para descrever ou relatar seus sentimentos frente a tais acontecimentos: “ Você se sente um tapete. Sim, um tapete! Onde todo mundo pode pisar e limpar os pés ”.
Elas que nos forneceram mais elementos que corroboram o caráter abusivo e discriminatório dessas práticas. Segundo as entrevistadas, as(os) contratantes agiam de forma contraditória ao que exigiam delas. Elas(es) não tomavam os mesmos ditos cuidados ou precauções. Ante a isso, as diaristas se sentiam sem valor, insignificantes, sujas e um risco para as famílias. Para ilustrar, temos o relato de Duzu-Querença, de 47 anos, que enfatizou saber de outras colegas de trabalho que vivenciaram a mesma ou semelhante situação:
Enquanto isso, ninguém usava máscara, a patroa trabalhando dentro de um hospital e não usava máscara quando a trabalhadora estava lá. Não achava que podia contaminar a trabalhadora, só a trabalhadora podia contaminar ela, ou seja, discriminação. Eu acho que isso aí é discriminação. É você discriminar a pessoa pela profissão que ela exerce. Eles não têm metade do cuidado que a gente tem, de chegar, tirar a roupa, tomar banho.
Essa foi uma queixa bastante presente nos relatos das diaristas. Quase todas passaram por tais constrangimentos, coações e contradições. A compreensão para os ocorridos e as repercussões disso para essas mulheres trabalhadoras encontramos na relação histórica dessa ocupação e dos sujeitos que a desenvolvem com a servidão ou inferiorização imposta pelas opressões-explorações de sexo/gênero, raça e classe.
As atitudes das(os) contratantes frente às trabalhadoras domésticas diaristas estão ancoradas nos padrões morais e relacionais que atravessam o trabalho doméstico realizado por terceiros na sociedade brasileira, padrões originados do sistema patriarcal escravista de acumulação primitiva de capital. Enquanto mucamas, amas de leite, serviçais dos donos de engenho, denominações dadas às mulheres negras que realizavam trabalho escravo no interior dos lares das famílias escravocratas, esperava-se delas fidelidade e total obediência aos seus senhores, pois eram subjugadas e vistas como propriedade e unidade de trabalho (Jesus & Assis, 2021 ).
A vivacidade dessas mesmas expectativas dos tempos de regime escravocrata explícitas ou subjacentes nas relações de trabalho das mulheres trabalhadoras domésticas diaristas escancara e cimenta o encalhamento da sociedade brasileira no próprio passado escravista. A definição tautológica de pessoas negras como serviçais é, de fato, um dos artifícios essenciais da ideologia racista, o que explica, por exemplo, na memória social, mulheres negras serem consideradas parecidas com criadas muito mais do que mulheres brancas (Davis, 2016 ). Gonzalez ( 2020 ) argumenta que as lógicas racistas e sexistas têm sido perpetuadas e reinterpretadas de acordo com os interesses dos que delas se beneficiam.
Em sua maioria, mulheres não brancas e empobrecidas, as trabalhadoras domésticas remuneradas foram historicamente associadas à degenerescência, à inferioridade intelectual, à infantilidade, a hábitos e costumes considerados anti-higiênicos, à sujeira (Teixeira, 2021 ).
Assim, esses estigmas e estereótipos raciais sobre o sujeito feminino negro, principal mão de obra do TDR, são reforçados ou retroalimentados pelas disparidades concretas, por exemplo, de renda, moradia, escolaridade, situação familiar, desproteção social, que permeiam as trajetórias de vida e de trabalho da maioria das mulheres trabalhadoras domésticas remuneradas, como identificado no caso das entrevistadas.
Davis ( 2016 ) pontua que, com frequência, racismo e sexismo convergem em relação à desvalorização social e das remunerações nesse tipo de ocupação. Em relação à condição salarial, as trabalhadoras domésticas brancas estão mais próximas de suas colegas negras do que dos trabalhadores brancos que também trabalham para sobreviver. Tal ressalva nos ajuda a assimilar a extensão de situações como as descritas nesta seção ou semelhantes às trabalhadoras domésticas remuneradas entrevistadas que se autodeclararam brancas ou amarelas, a exemplo da diarista Zaíta, cujo relato foi mencionado anteriormente.
As vivências supracitadas, embora se passem e ganhem especificidade ante ao contexto pandêmico, não são novidades para essas trabalhadoras. Como disse, de forma enfática, a diarista Duzu-Querença, trata-se de discriminações. Ou como Zaíta concluiu: “ Toda vida existiu esse preconceito ”. Não houve uma só entrevistada que não tenha em seu discurso evidenciado a depreciação do seu trabalho e de si, ora vivenciada, enxergada na relação com as(os) contratantes, ora expressa pelo valor baixíssimo das diárias, que por vezes é questionado pelas famílias que usufruem de seus serviços.
Os incômodos, a insatisfação expressada pelas trabalhadoras acerca do tratamento recebido pelas(os) contratantes durante o período de pandemia, se já são perfeitamente compreensíveis pela vigilância, a desconfiança e o seu caráter discriminatório, também são resultantes da avaliação contínua delas sobre esse relacionamento, que, como foi supracitado, é impregnado pela transversalidade do racismo, sexismo e classismo, mas que tem uma grande importância no seu trabalho.
Essa importância dá-se em virtude de que são as(os) contratantes que avaliam o que foi feito, que estabelecem ou acrescentam elementos ao que deve ser realizado. Ou seja, as pontuações ou recomendações das famílias servem de base ou parâmetro para as mulheres diaristas em seu dia a dia de trabalho, para os arranjos ou rearranjos que elas precisam fazer durante a diária, além disso, é com a família contratante que elas negociam os valores a serem pagos pelo trabalho prestado.
Desse modo, as trabalhadoras, mais do que qualquer outra pessoa, conhecem o caráter relacional ou dinâmico da sua ocupação. Elas consideram os engajamentos de si, físicos e/ou psíquicos, requeridos pelo seu saber-fazer ante a cada diária, a cada residência ou a cada família, que significam diferentes modos de organização espacial, gostos e recomendações etc., como nos contou a trabalhadora Cida: “ depois você olha e você vê o design. Tá tudo tão limpo, tão bonito, tão cheiroso. Só não é valorizado. ” Tal como elucidado na fala de Cida, esse dispêndio solicitado em seu trabalhar, a beleza de seu ofício, a qualidade do trabalho, por vezes, não são enxergadas ou admitidas pelas famílias.
A partir das condições intersubjetivas descritas pelas diaristas, podemos pensar acerca do papel do racismo e do sexismo na dinâmica do reconhecimento, em seu caso na falta dele, e suas incidências sobre as expectativas dessas mulheres, que, mediante esforços, engenhosidade e implicação prestam diariamente um serviço, um trabalho a essas famílias.
Conforme Dejours ( 2005 ) pontua, a possibilidade de julgamentos equitativos é fulcral para o reconhecimento do trabalho. Tendo em conta a realidade das diaristas, as famílias, ou seja, aquelas(es) que estão em contato direto com as trabalhadoras e em condições de avaliá-las fariam isso com base na utilidade ou originalidade do trabalho realizado. Mas essa possibilidade está prejudicada pelas distorções das relações de poder, de dominação. Explicamos: mesmo que as trabalhadoras apresentem um trabalho de qualidade, os vínculos do TDR com a servidão, a subjugação, interferem na avaliação das famílias sobre o que foi feito, sobretudo quando se trata de uma diarista negra.
Assim, surge o problema da vivência da inutilidade, da desqualificação, da insatisfação no ou pelo trabalho em decorrência das significações negativas que implicam as limitações ou inexistência das gratificações simbólicas, inclusive no caso das diaristas, devemos vincular também às limitações das gratificações materiais. Ou seja, a imagem que se faz ou se imagina sobre si mesmo negativa, que repercute do trabalho, das relações estabelecidas a partir deste, da avaliação ou tratamento recebido por outros(as) (Dejours, 1992 , 2005 ). Aliás, uma palavra, uma representação usada por algumas das diaristas para resumir a entrevista, a conversa, foi “desabafo”. Para elucidar, temos a fala da trabalhadora Zaíta:
Foi muito bom, porque a gente desabafa aquilo que está entalado. Tem horas que a gente não tem a quem contar, e tem coisas que a gente também não pode dizer a todo mundo. Mas tem hora que a gente pode soltar o verbo, falar. Eu me senti bem, principalmente porque eu gosto de conversar. Eu me senti à vontade para conversar e para soltar. Como eu posso dizer? Soltar um entalo na garganta, entendeu? Porque também não é todo mundo que está disposto a escutar certas coisas que a gente tem a dizer. Me senti super bem.
Mais uma prova ou sinal da quantidade impressionante de custos humanos, de cargas para o corpo-subjetivo, de riscos para a saúde mental dessas mulheres trabalhadoras, assim como um reflexo do cansaço, da solidão, do desamparo, dos silenciamentos, das frustrações de um conjunto de trabalhadoras, de uma categoria ocupacional, que têm uma história de trabalho e de vida marcada por condições materiais e simbólicas engendradas na convergência entre racismo, patriarcado e um grau extremamente elevado de exploração capitalista. São condições que sinalizam para elas ou as empurram para subalternidade, indignidade, invisibilidade, precariedade.
Considerações finais
As análises empreendidas procuraram demonstrar que as articulações ou sobreposições das desigualdades estruturais de sexo/gênero, raça e classe qualificam a situação laboral das mulheres diaristas em termos de mercado de trabalho, de mão de obra, bem com as vulnerabilidades, os medos vivenciados frente à conjuntura de crise(s) e as micro opressões presentes no dia a dia com as famílias consumidoras de seus serviços.
Algumas delas estavam no momento da entrevista, na condição de não-trabalho remunerado, a maioria com pouquíssimas e mal remuneradas diárias. Todas vivenciando os efeitos sobre seus corpos-subjetivos, que se traduziram em ansiedade, insônia, tensão, angústia, desespero, medo(s), do cenário de privação ou de extrema incerteza sobre a subsistência de si e de suas famílias, bem como em decorrência da consciência de suas vulnerabilidades ou do desamparo social.
Inclusive, destacamos que embora as diaristas tenham sido um dos grupos ocupacionais bastante atingidos em termos de perda do trabalho, principalmente no primeiro ano de pandemia, evidencia-se que essas trabalhadoras não são tão facilmente expulsas do mercado de trabalho como faz parecer os discursos dominantes ou naturalizantes sobre essa atividade, que costumam alocá-la na prateleira do trabalho não produtivo, do trabalho sem valor, do não trabalho.
A especialização sexual/de gênero e racial, assim como a localização estratégica dessa ocupação para o funcionamento da sociedade, permite que mesmo em tempos de crise(s) haja uma certa manutenção dessa mão de obra, até mesmo pode funcionar como porta de entrada para outras mulheres que perderam seus empregos ou trabalhos durante o período de pandemia, embora isso signifique a continuação ou a inserção em uma atividade informal, extremamente mal remunerada, flexibilizada, invisibilizada e desprestigiada.
Sobre as que se mantiveram ocupadas, os seus discursos de trabalhadoras revelam a presença de práticas discriminatórias, vexatórias e invasivas em seus cotidianos laborais, sendo, portanto, fontes de vergonha, insatisfação, tristeza e de sentimentos de indignidade para elas. Uma atualização da expressão em contexto pandêmico do racismo, sexismo e preconceito de classe, que têm caracterizado as relações de trabalho dessas mulheres, no que diz respeito ao contato com as(os) contratantes.
Chamamos atenção para o papel da situação familiar em termos de divisão sexual do trabalho familiar e do trabalho doméstico não remunerado na natureza, intensidade e exploração do(s) sofrimento(s) vivenciado(s) no ou pelo trabalho, substancialmente nas condições socioeconômicas que se encontravam as diaristas e suas famílias. Duplamente muito precarizadas, seja como trabalhadora doméstica remunerada ou não, essas mulheres de carne, ossos, sonhos e reflexões seguem amortecendo grande parte da carga de trabalho dessas incumbências confinadas à esfera privada e à responsabilidade individual ou familiar.
Como vimos, a relação dessas mulheres com a saúde, mais precisamente com a doença, coloca em evidência a inseparabilidade da dimensão de sexo/gênero e de etnia/raça no debate sobre o direito da classe trabalhadora, nesse caso majoritariamente feminina e negra, de gozar de cuidado ante ao adoecimento ou na possibilidade deste.
Assim, a socialização das tarefas domésticas ou de cuidado familiar, principalmente com os(as) filhos(as), que realmente tenha repercussões efetivas sobre a natureza opressiva desses trabalhos na vida das diaristas, exige-se que seja empreendida para além da (re)distribuição desses trabalhos entre os membros da família. É necessário incluir nessa perspectiva o Estado e o mercado como responsáveis, sobretudo, por subsidiar tal transformação. Isso certamente beneficiaria sobremaneira essas mulheres trabalhadoras em diferentes aspectos.
Nesse itinerário reflexivo cabe a preocupação com o problemático ou inexistente acesso das diaristas aos serviços e ações de saúde mental, principalmente porque, como observamos, há uma quantidade impressionante de custos humanos, de cargas psíquicas e de riscos para a saúde dessas mulheres trabalhadoras, engendrados no antes e durante pandemia.
Acreditamos e defendemos que apenas as transformações estruturais e de alcance coletivo, que envolvem diversos setores sociais, podem provocar mudanças efetivas no quadro de saúde dessas trabalhadoras. Assim, não estamos elegendo ou pontuando essa empreitada como sendo de responsabilidade única do campo da saúde mental ou dos serviços de saúde.
Contudo, ressaltamos que tal objetivo passa indiscutivelmente pelo reconhecimento e fortalecimento das mulheres diaristas enquanto sujeitas, participantes da história, por meio da escuta e do tratamento digno, do enfrentamento à invisibilidade e dos preconceitos dos quais são vítimas, da desnaturalização das situações em que vivem ou dos processos alienantes que atravessam a consciência de si e de mundo delas, da criação de espaços de fala ou de participação efetiva, do apoio às ações de resistência empreendidas por elas ou pelas trabalhadoras domésticas remuneradas em geral.
Falando de onde nossos pés pisam, ou seja, da psicologia do trabalho, que se situa entre os saberes e práticas consideradas componentes do campo da saúde mental, é mister superar os universalismos, o androcentrismo das categorias analíticas, o viés organizacional que favorecem para manutenção da pouca atenção dada ao trabalho realizado por mulheres, ao trabalho doméstico, ao trabalho informal feminino, seja na produção do conhecimento ou nas intervenções. Pensamos ser esta pesquisa uma contribuição nesse sentido.
Para tanto, é primordial a reflexão sobre como as relações sociais de sexo/gênero, de etnia/raça e de classe e os processos alienantes decorrentes delas, atravessam essa subdisciplina e a visão que as(os) psicólogas(os) do trabalho têm dessas mulheres trabalhadoras ou das subjetividades periféricas femininas e/ou negras.
Embora este trabalho tenha como recorte de tempo o contexto pandêmico brasileiro, as situações aqui evidenciadas são subsídios, bússolas para pensar e planejar estratégias emergenciais de prevenção e proteção no trabalho para esse grupo ocupacional em circunstâncias semelhantes, ou seja, de calamidade, que possam ser ulteriores.
Diante do cenário de vivências extremamente nocivas à saúde também pontuamos a enigmática capacidade dessas mulheres de se manterem, de não sucumbirem às descompensações. Acreditamos que para além do potencial de ação, de inventividade e ressignificação que elas possuem como seres humanos, da medicalização dos sintomas, a convivência com seus pares, a participação nas ações oferecidas pelo sindicato e o contato com outras trabalhadoras domésticas remuneradas ajudem bastante nesse processo.
Como limitações deste estudo, destacamos que as análises estão circunscritas à realidade local e a um pequeno número de participantes/trabalhadoras diaristas. Destacamos a impossibilidade da realização desta investigação a partir de encontros grupais, o que é bastante pertinente em termos de contemplação de questões coletivas. Para mais, assinalamos a necessidade de pesquisas que venham suprir essas limitações ou colaborem para o desenvolvimento dos achados e reflexões elaboradas. Por exemplo, pensamos ser indispensáveis investigações que atentem para essa categoria ocupacional nesse momento de pós-pandemia ou de transições políticas e socioeconômicas.
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A noção de subproletariado do Christopher Dejours ( 1992 ) trata-se de uma fração da população que compartilha de condições de trabalho e de vida extremamente precárias. São as trabalhadoras e trabalhadores que habitam as periferias, as(os) que estão na condição de não-trabalho remunerado ou no subemprego. Assim, não se trata da citada e desenvolvida pelo Karl Marx em suas obras. Em O 18 Brumário de Luís Bonaparte, Marx (1852/ 2011 ) define o subproletariado como sendo um estrato espúrio, indefinido e desintegrado da sociedade, cujas atividades têm uma conotação de pilhagem, roubo e crime, por isso não atribuía ou desconfiava de sua força revolucionária.
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No Brasil, país com uma marcante estratificação social, pelo critério de renda as famílias e indivíduos são classificados em três grandes grupos ou classes sociais: classe baixa, classe média e classe alta, que também apresentam subdivisões em seu interior (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada [Ipea], 2020 ). Não se trata aqui de advogar em termos de pulverização ou fragmentação das classes, no que diz respeito à classe trabalhadora versus classe capitalista, mas de reconhecer e compreender a variedade de renda, interesses e situações que a divisão do trabalho provoca neslas (Bensaid, 2013 ).
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Como citar:
Lucena, M. S. R., Zambroni-de-Souza, P. C. (2024). Trabalho e Saúde Mental de Mulheres Trabalhadoras Domésticas Diaristas em Contexto Pandêmico. Psicologia: Ciência e Profissão , 44 , 1-15. https://doi.org/10.1590/1982-3703003270424
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How to cite:
Lucena, M. S. R., Zambroni de Souza, P. C. (2024). The Work and Mental Health of Female Daily Housekeeping Workers In the Context of the Pandemic. Psicologia: Ciência e Profissão , 44 , 1-15. https://doi.org/10.1590/1982-3703003270424
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Cómo citar:
Lucena, M. S. R., Zambroni de Souza, P. C. (2024). Trabajo y Salud Mental de las Trabajadoras Domésticas en un Contexto Pandémico. Psicologia: Ciência e Profissão , 44 , 1-15. https://doi.org/10.1590/1982-3703003270424
