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Open-access Pedologia e Psicotécnica: Conclusão e Perguntas do Público1

Pedology and Psychotechnics: Conclusion and Questions from the Audience

Pedología y Psicotecnia: Conclusión y Preguntas del Público

Resumo:

Apresentamos a primeira tradução para a língua portuguesa do texto da conferência Pedologiya i Psikhotekhnika [“Pedologia e Psicotécnica”] de Vigotski, no contexto do dossiê Vigotski e as ciências da criança: cenários pretéritos e desafios presentes. A conferência foi proferida em reunião conjunta da Seção de Psicotécnica da Academia Comunista e da Sociedade de Psicotécnica, em 21 de novembro de 1930. Nesta segunda (e última) parte da tradução, o texto discute a relação entre pedologia e psicologia, destacando que a pedologia, ao estudar o desenvolvimento integral da criança, aborda necessariamente fenômenos psicológicos, entre outros. Ao investigar o desenvolvimento infantil em sua totalidade, inclui aspectos como o intelecto, a evolução física e endócrina, apoiando-se, além da psicologia geral, na anatomia e na fisiologia. Vigotski argumenta que a aplicação do método psicológico na pedologia deve ocorrer de acordo com o foco e as demandas específicas da pesquisa pedológica, sem, necessariamente, manter o ponto de vista da psicologia. O autor utiliza analogias com outras ciências, como a geografia e a zoologia, para ilustrar como diferentes disciplinas podem estudar um mesmo fenômeno sob perspectivas distintas. Vigotski alerta contra simplificações excessivas e destaca a complexidade das inter-relações entre pedologia, psicologia e outras disciplinas, defendendo a colaboração entre elas para uma compreensão mais profunda do desenvolvimento infantil. Ao final da conferência, renomados acadêmicos da psicotécnica e de áreas afins fazem perguntas desafiadoras e capciosas a Lev Vigotski, ilustrativas do labirinto de ideias e de conflitos epistemológicos, políticos e disciplinares em que ele buscava situar suas contribuições à ciência e à prática pedológica.

Palavras-chave:
Pedologia; Vigotski; História da Psicologia; Psicotécnica

Abstract:

We present the first Brazilian Portuguese translation of the lecture Pedologiya i psikhotekhnika [“Pedology and Psychotechnics”] for the Dossier: “Vygotsky and the Child Sciences: Past Scenarios and Present Challenges.” The lecture was given at a joint meeting of the psychotechnics section of the Communist Academy and the Psychotechnics Society on November 21, 1930. In this second and final part of the translation, the text discusses the relationship between pedology and psychology, highlighting that pedology, in studying children’s integral development, necessarily addresses psychological phenomena, among others. In investigating child development in its totality, it includes aspects like intellect, physical and endocrine evolution, relying, in addition to general psychology, on anatomy and physiology. Vygotsky argues that the application of the psychological method in pedology should be guided by the focus and specific demands of pedological research, without necessarily maintaining a psychological perspective. The author uses analogies with other sciences, such as geography and zoology, to illustrate how different disciplines can study the same phenomenon from various perspectives. Vygotsky warns against oversimplification and highlights the complexity of the interrelationships between pedagogy, psychology, and other disciplines, advocating collaboration among them to further the understanding of child development. At the end of the conference, renowned academics in psychotechnics and related fields ask Lev Vygotsky provocative and challenging questions, illustrating the labyrinth of ideas and epistemological, political, and disciplinary conflicts in which he sought to situate his contributions to pedological science and practice.

Keywords:
Pedology; Vygotsky; History of Psychology; Psychotechnics

Resumen:

Presentamos la primera traducción al portugués del texto de la conferencia Pedologiya i psikhotekhnika [“Pedología y Psicotecnia”], de Vigotski, en el contexto del dossier: “Vigotski y las ciencias de la infancia: escenarios pasados y desafíos presentes”. La conferencia se impartió en una reunión conjunta de la sección de psicotecnia de la Academia Comunista y de la Sociedad de Psicotecnia el 21 de noviembre de 1930. En esta segunda y última parte de la traducción, este texto analiza la relación entre pedología y psicología, con énfasis en la pedología que, al estudiar el desarrollo integral del niño, aborda necesariamente fenómenos psicológicos, entre otros. Al investigar el desarrollo infantil en su totalidad, se incluyen aspectos como el intelecto, la evolución física y endócrina, con base en la psicología general, en la anatomía y en la fisiología. Vigotski argumenta que la aplicación del método psicológico en la pedología debe realizarse de acuerdo con el enfoque y las demandas específicas de la investigación pedológica, sin necesariamente mantener la perspectiva de la psicología. El autor utiliza analogías con otras ciencias, como la geografía y la zoología, para ilustrar cómo diferentes disciplinas pueden estudiar el mismo fenómeno desde distintas perspectivas. Vigotski advierte contra las simplificaciones excesivas y destaca la complejidad de las interrelaciones entre la pedología, la psicología y otras disciplinas, y aboga por la colaboración entre ellas para una comprensión más profunda del desarrollo infantil. Al final de la conferencia, reconocidos académicos en psicotecnia y campos afines plantearon a Lev Vigotski preguntas provocativas y desafiantes, ilustrando el laberinto de ideas y conflictos epistemológicos, políticos y disciplinarios en los cuales el autor buscaba situar sus contribuciones a la ciencia y a la práctica pedológicas.

Palabras clave:
Pedología; Vigotski; Historia de la Psicología; Psicotecnia

Pedologia e psicotécnica2: conclusão e perguntas do público

Do mesmo modo, a pedologia, estudando o processo do desenvolvimento da criança em seu todo, certamente trata de fenômenos psicológicos. E compreende-se que os fenômenos psicológicos não poderão ser cientificamente estudados com nenhum outro método, exceto o psicológico, pois de outra forma seriam estudados não científica, mas diletantemente – isto é, por métodos que de uma maneira ou outra imitarão a pesquisa científica, mas não se mostram pesquisa científica no sentido próprio da palavra. E me parece que nisso, decisivamente, não há nada terrível. O uso mais amplo do método psicológico ao lado de outros não transforma a psicologia em psicologia infantil3, como pensam muitos psicólogos, similarmente ao fato de que o uso do método matemático na física não transforma a mecânica em álgebra, assim como o uso, digamos, do método de pesquisa química na fisiologia não transforma a fisiologia em bioquímica etc.

Mas me parece que a aplicação do método psicológico na pesquisa pedológica no estudo do desenvolvimento da personalidade da criança e do seu comportamento deve necessariamente, via de regra, ter lugar apenas conforme as exigências das tarefas especiais da pesquisa pedológica, ou seja, as tarefas da pesquisa, os problemas, devem sempre permanecer pedológicos. Por exemplo, se ante o pedólogo está a tarefa integral característica da sintomática etária – um complexo –, ou se lhe interessam os problemas gerais do desenvolvimento em certa idade, ou uma questão especial da relação entre uns e outros aspectos do desenvolvimento, digamos, da motricidade e do intelecto, digamos, do desenvolvimento físico, da evolução endócrina e intelectual, ou, digamos, alguns problemas da pedologia prática – em todos esses casos, para a resolução dos problemas pedológicos, é indispensável, conforme a regra [zakonomernost], apoiar-se no método psicológico. Mas esse assunto não se limita a isso. A questão não se limita ao uso do método psicológico pela pedologia; a pedologia em certa medida, como eu tento mostrar aqui, estuda também o comportamento infantil, o desenvolvimento do comportamento infantil, pois, estudando o desenvolvimento da criança em seu todo, lhe é indispensável e perfeitamente válido investigar o desenvolvimento do comportamento. Isso, me parece, mostra-se necessário e se limita às partes componentes que se introduzem no sistema da pesquisa pedológica, o qual nessa relação apoia-se na psicologia geral, como a psicologia infantil se apoia na pedologia.

Investigando o desenvolvimento da criança, a transformação da criança de sete anos em escolar, de oito anos, deve também estudar os sintomas, se podemos dizer assim, de caráter psicológico, isto é, os fenômenos que caracterizam o desenvolvimento infantil. Isso significa que eu não apenas devo aplicar o método psicológico, mas devo tocar também no próprio objeto da psicologia, devo estudar o comportamento. Mas para investigar o desenvolvimento do comportamento, antes eu devo saber o que é o comportamento, precisamente tal como o psicólogo que estuda uma ou outra psicologia infantil deve saber o que é uma criança.

Imagine um exemplo da história recente, que ficou marcado na memória de todos nós. Antes que a psicologia revelasse o que é o intelecto prático, o que é a forma do pensamento não verbal, mas prático, até lá a psicologia não poderia colocar a questão sobre a evolução do pensamento prático, que distingue tal pensamento do geral. Consequentemente, o pedólogo, estudando ante a solução desses ou daqueles problemas pedológicos o movimento da mudança do comportamento infantil no sistema geral de suas particularidades etárias, deve, para estudar essas particularidades pedológicas, apoiar-se na psicologia geral, tal como ele deve apoiar-se na anatomia e na fisiologia geral. Com efeito, posso estudar o desenvolvimento cerebral na idade infantil, mas o pedólogo deve investigar isso se eu, no geral, não souber das leis de construção do cérebro, das leis de sua estratificação na história de sua estruturação e desenvolvimento das leis de atividade cerebral; eu posso, digamos, investigar o desenvolvimento da atividade infantil refletora condicional, se eu, da fisiologia geral da atividade nervosa superior, não souber o que é o reflexo condicional? E precisamente do mesmo modo, assim como eu não posso investigar quais deveriam ser os indícios fisiológicos, anatômicos, sem saber no que eles consistem em sua essência, exatamente do mesmo modo o pedólogo não pode classificar cientificamente uns e outros fenômenos com os quais lhe cabe tratar, se ele não os classificar psicologicamente, se ele, nessa relação, não se apoiar na psicologia geral.

E, por fim, a última coisa referente a isso, me parece, é uma ressalva que deve ser feita a esta investigação do desenvolvimento do comportamento, como também à do desenvolvimento cerebral, bem como ao estudo do desenvolvimento da atividade refletora condicional, que é conduzida pela pedologia a partir do seu ponto de vista específico, isto é, o da investigação da síntese integral [целого], que representa o desenvolvimento infantil em seu todo. Em consequência disso – aqui, gostaria de explicar –, se o psicólogo e o pedólogo investigam os mesmos objetos, ou se estudam diferentes aspectos do mesmo objeto e suas diferentes conexões, como resultado eles chegam a leis e generalizações que estão em diferentes planos do saber científico, isto é, que correspondem a diretrizes metodológicas fundamentais da pedologia e da psicologia. Quer dizer também que aqui, me parece, não há confusões ou misturas entre pedologia e psicologia.

Assim, desejo explicar a última dessas posições para deixar clara a questão da relação entre psicologia e pedologia. Tal posição consiste em que, se até na ciência da pedologia, ao estudar fenômenos pedológicos e nisso empregar métodos psicológicos, então, até mesmo lá onde, digamos, se investiga exatamente o mesmo objeto tanto na pedologia quanto na psicologia, ainda assim não ocorre aquela confusão babélica que tememos mais do que o fogo, e que nos parece tão desastrosa para a própria existência das distintas ciências.

Imaginem que a pedologia e a psicologia praticamente tocam um só tema em suas pesquisas. Por exemplo, tanto à pedologia quanto à psicologia interessam, digamos, os temas das mudanças da criança assim que aprende a falar. Tanto o psicólogo quanto o pedólogo ocupam-se da mesma e única questão.

Todavia, o pedólogo, estudando e solucionando a questão a partir de seu ponto de vista especialmente pedagógico, interessa-se não pelo intelecto prático por si só, não por sua natureza, nem por seu destino, mas sim pela criança de três anos – eis seu objeto – e pelo desenvolvimento da criança. Portanto, os dados que ele aqui recebe sobre o intelecto prático, ele não compara com dados gerais do intelecto; ele recebe grandes conhecimentos não da teoria do intelecto, mas da idade de três anos e das leis que estabelece a partir de suas pesquisas, as quais serão leis pedológicas que capturarão e refletirão o movimento das particularidades do pensamento infantil no sistema de suas outras propriedades, no limiar, digamos, da idade de três ou quatro anos.

Não é o que faz o psicólogo. O psicólogo, estudando o intelecto prático da criança de três anos, pouco se interessa pela criança de três anos; para ele essa é simplesmente a forma mais conveniente pela qual ele pode colher dados para seus conhecimentos gerais relativamente ao intelecto prático. Portanto, os dados que extrai, ele relaciona com os dados gerais sobre o intelecto, e aquela teoria – à qual ele aplica um grão de seus novos saberes teóricos – não seria a teoria sobre a idade de três anos, mas a teoria do intelecto prático. As leis que ele extrai como resultado de sua pesquisa serão referentes à estrutura interna do sistema de funcionamento do intelecto prático.

Dizendo de outro modo, me parece que mesmo lá, onde aparentemente ocorreria uma mistura de olhares, onde os olhares parecem exatamente os mesmos, inclusive quanto ao objeto, até mesmo ali, eles podem com perfeita calma continuar seu afazer e saber que cada qual desenvolve sua pesquisa em seu plano singular. Isso significa que cada qual estuda exatamente o mesmo objeto – o intelecto prático da criança de três anos em diferentes vínculos e diferentes mediações, como expressaria o dialético. A partir dessa multiplicidade de vínculos, de seus fenômenos infinitos, dessa enorme diversidade, é que pedólogo e psicólogo, cada qual na força própria das diretrizes básicas de sua ciência, retratam singularmente os vínculos, e essas ligações, como quis mostrar em meu exemplo, não coincidem. Nisso eu encerrarei a questão referente à pedologia e à psicologia. Quero apenas explicar que tais coisas se encontram a cada passo na metodologia científica, na história da ciência.

Eu trago, na qualidade de exemplo, a relação, digamos, daquilo que, na metodologia do conhecimento científico, chama-se, frequentemente, em particular em trabalhos antigos, de ciências dos corpos naturais, como, por exemplo, geografia, astronomia, isto é, ciências que se desenvolveram de tal modo que seu objeto de pesquisa se manifestou como um todo natural – como assim expressam os metodólogos e historiadores da ciências –, digamos, a terra, a crosta terrestre e a superfície terrestre, os quais se estudam de todos os pontos de vista. Emerge a questão: como se relacionam a pesquisa geográfica e a zoológica? Digamos, na geografia da Ásia, ou, pelo menos uma parte dela, na geografia do Egito, o geógrafo deve dar necessariamente uma ideia relativa da fauna do Egito. Ele pode investigar e classificar os animais de modo diferente do que segundo as leis da zoologia? Certamente, não há classificação zoológica e geográfica dos animais em separado. Significa que, querendo ou não, nosso geógrafo terá que recorrer à zoologia mais básica, mas não temerá a censura de que a geografia não é ciência autônoma, por fazer uso do socorro de outra ciência, pois sabe que ele não correlacionará seu conhecimento com outros saberes não zoológicos, mas a teoria que ele construirá não será teoria da classificação das espécies animais ou da história de sua origem, mas relacionará esses dados com outros sobre o Egito. Ele mostrará como os dados sobre a fauna do Egito se relacionam com os dados econômicos, como ela se relaciona com a estrutura da crosta, com a flora; em suma, outras espécies de vínculos entre esses fenômenos interessarão ao zoólogo e outros tipos de relação interessarão ao geógrafo, no caso dado.

E, por fim, uma última e conclusiva observação é a seguinte: pode parecer que tudo que se desdobra diante de nós apresenta-se em um extraordinário amontoado – algo muito complexo, em que se propõem relações ainda muito simples –, mas a pedologia se baseia (como ocorre nos cursos de nossos pedólogos) na anatomia, na fisiologia e na psicologia, e que, por esse fato recebeu o título de introdução à biologia etc. Tudo isso pode parecer demasiado complicado e sofisticado, mas me agradaria advertir contra tal compreensão, que complica enormemente esse ponto de vista. Minha censura não está na complexificação excessiva, mas na simplificação, porque, em comparação com a complexidade real, a dependência recíproca dessas disciplinas não se revelaria aqui quando ambas as ciências encontram-se em um nível de desenvolvimento mais precoce, mas conforme avançam em comparação com essa complexidade real, aquela simplificação a um esquema pronto e banal, a apenas alguns principais pontos levantados, em essência, o esquema mostra-se uma real simplificação. Significa que eu quero avisar que a situação real das coisas é mais complicada do que se desenha aqui.

Agora é possível passar imediatamente para a questão que nos interessa e cuja solução, parece-me, já foi preparada pelo que eu disse antes. Penso que, aplicando essas posições gerais à questão da relação entre pedologia e psicotécnica, chegamos a duas conclusões simples, e, me parece, logicamente inevitáveis. A psicotécnica da idade infantil e adolescente, reconhecendo-se como uma das disciplinas pedológicas, deve reconstruir todo o sistema conceitual da psicotécnica dos adultos no tocante ao desenvolvimento, à educabilidade e à influência no processo de formação daquelas formas de comportamento estudados pela psicotécnica. Eu, falando mais simplesmente, penso que, assim como a psicologia infantil pode desenvolver-se como uma das disciplinas pedológicas, também a psicotécnica da idade infantil e adolescente pode e deve desenvolver-se como uma disciplina pedológica, isto é, assim que o psicotécnico se acerca de qualquer fenômeno introduzido em seu todo na esfera de sua competência, mas vinculado à criança, ao processo de desenvolvimento infantil em seu todo, no mesmo instante, ele deve construir pedologicamente um sistema fundamental de conceitos, ou seja, sua ciência deve tornar-se uma das disciplinas pedológicas.

E eis que, na dependência disso, a pedologia (me parece que de alguma outra relação repetidamente falaram I. N. Shpilrein e T. Gellerstein) deve reconstruir o sistema fundamental de seus conceitos, que se configuraram fora da idade infantil, que se configuraram na investigação daqueles mesmos fenômenos em seu aspecto estabilizado, como nós os encontramos nos adultos, e que se configuraram (é a ideia de T. Shpilrein) sob o ponto de vista de determinadas tarefas práticas, digamos, de seleção das forças de trabalho na organização econômica capitalista, mas às quais as tarefas do pedagogo eram alheias, e as mudanças das tarefas para a preparação de quadros que nós promovemos em nossa União. No atual momento, consequentemente, os conceitos fundamentais, com os quais a psicotécnica trabalhava, devem ser antes de tudo, na medida em que falamos de psicotécnica da idade infantil e juvenil, orientados pedologicamente.

Se um psicotécnico aborda o problema da politecnização, da orientação profissional, do prognóstico de um talento especial ou outra questão relacionada à criança, ele não deixa de ser psicotécnico, mas ocorre apenas que sua mesma psicotécnica, com a qual ele trabalha, deve se incluir em novos sistemas de conceitos pois aqueles fenômenos que ele estuda, fenômenos emergentes no processo de desenvolvimento infantil, e isso quer dizer uma representação geral sobre esse desenvolvimento infantil e sobre as leis que determinam com base nisso [trecho ilegível] do desenvolvimento, da educabilidade e da influência, quer dizer, pedagógica – eis três momentos fundamentais sob o ponto de vista dos quais esta reconstrução e revisão dos conceitos fundamentais da psicotécnica deverão ser produzidas, conceitos que se configuraram no estudo daqueles mesmos fenômenos em pessoas adultas em seu aspecto relativamente estável.

Parece-me que pertence a esse ramo da psicotécnica – que surgiu, a propósito, apenas entre nós (nessa relação, me parece que a psicotécnica não representa exceção particular em comparação com a psicologia) – essa perspectiva grandiosa, ótima, de nascer entre nós um verdadeiro novo sistema de conhecimento. Esse campo da psicotécnica, com pleno fundamento, deve chamar-se psicotécnica pedológica ou psicotécnica pedagógica, se convier, no sentido da indicação daquele campo prático, naquela atividade prática à qual imediatamente deve servir a pesquisa psicotécnica de tal tipo.

Por outro lado, a pedologia, construindo um quadro integral do desenvolvimento infantil, adquire na psicotécnica geral e na psicotécnica pedológica a importância de ser uma das disciplinas reitoras fundamentais também no campo de suas pesquisas contemporâneas, pois, como acabei de falar, lembrando o ziguezague da psicologia infantil, o pedólogo, diante daqueles mesmos fenômenos e fatos, não pode abordá-los sem tomar consciência, antes, de toda a natureza psicotécnica deles sem os qualificar como fenômenos psicotécnicos. E parece-me que onde a pedologia aborda todos os problemas da influência com o ponto de vista pedológico – o que não é uma pequena parte –, onde o pedólogo aborda as questões do desenvolvimento profissional da pedologia, da preparação para o trabalho, em toda parte onde a pedologia adquire na psicotécnica geral também a psicotécnica pedológica, particularmente a psicotécnica geral é uma das disciplinas reitoras que orientam o pedólogo no campo dessa pesquisa, tal como anatomia, fisiologia e psicologia o orientam em outros campos sobre os quais eu falava antes.

Ocorre-me que a politecnia mostra-se, no caso dado, o exemplo mais feliz e, a meu ver, quando há pesquisas pedológicas e psicotécnicas que se desdobrarem um certo tanto sobre o problema da politecnia, então ficará perfeitamente clara a ligação mútua, a utilização recíproca por nós destacada acima, a colocação mútua de duas disciplinas, das quais nenhuma, neste problema, pode se mover sem a outra, das quais cada uma ascende a um patamar superior assim que a outra acaba de fazê-lo. Assim que se configuraram nossos conhecimentos sobre o desenvolvimento infantil, assim que soubemos algo novo referente ao desenvolvimento infantil e à atividade politécnica que nós estudamos, então imediatamente a psicotécnica adquiriu verdadeiramente novas possibilidades na esfera da pesquisa e da fundamentação do trabalho politécnico com a criança. E, inversamente, assim que recebemos informações mais precisas sobre a natureza da interação da criança, sobre o caráter de sua preparação para o trabalho a partir da psicotécnica, então é bem aí que a psicologia adquire novas possibilidades de delimitação, novas possibilidades de conhecimentos e pesquisas em certo campo.

Há ainda mais um problema muito grande, o qual me permito tocar bem superficialmente, de esguelha: poder-se-ia resolver a questão sobre a relação entre pedologia e psicotécnica não tocando na questão da pedologia e da pedagogia? Solucionar essa questão, ou ao menos não deter-se nos momentos fundamentais, seria extremamente difícil; mas, para que se possa criticar tais momentos em todas as suas implicações, quero mostrar duas posições, a partir das quais eu parto no entendimento dessa questão, posições que também são consideradas conhecidas, quando eu sugiro aquelas conclusões sobre as quais falei mais acima.

Parece-me que também aqui as relações entre pedologia e pedagogia nem sempre se nos apresentam de forma suficientemente clara, o que, sobretudo, se mostra no sentido em que, entre nós, na pedologia, frequentemente se opõe a pesquisa da educação à do desenvolvimento. Esquece-se de que a educação se constitui em um dos fatores fundamentais do desenvolvimento infantil e se negligencia que a pedologia pesquisa o processo educacional em todas as suas formas como um dos fatores centrais do desenvolvimento infantil. Em outras palavras, a pedologia estuda não apenas a criança que se desenvolve, mas que é educada. Mas parece-me que tal determinação seria incorreta de um ponto de vista lógico, pois precisamente a educação também estuda a pedologia do ponto de vista do desenvolvimento. E até mesmo lá, me parece, a pedologia e a pedagogia, não obstante sua colaboração em toda uma série de questões, estudam cada qual seu próprio objeto, assim como ocorre com a psicologia e a pedologia, como tentei mostrar acima. A pedologia não estuda o processo educativo enquanto tal, mas sim aquilo que se desenvolve também no educando – eis o que incluo no conceito de criança em desenvolvimento.

Resta-me agora falar apenas algumas palavras relacionadas a aspectos práticos. Devo reconhecer que não poderia responder a toda uma série de questões práticas, obviamente importantes. Não poderia aqui dizer, com clareza suficiente, qual o lugar da psicotécnica na preparação de pedólogos, embora esteja firmemente convencido, com base em tudo aquilo que eu disse acima, e com base em minha pouca experiência no trabalho pedológico, que sem conhecimentos fundamentais da psicotécnica (não na qualidade de disciplina secundária, mas sim de uma das disciplinas fundamentais), não é possível se tornar um verdadeiro pedólogo. Se me perguntassem qual lugar a psicotécnica deve ocupar, mais pontual e concretamente, no sistema de preparação dos pedólogos, eu não poderia dar uma resposta concreta em toda uma série de questões práticas. Mas me parece que, se concordarmos com respeito àquelas premissas teóricas nas quais eu toquei hoje em minha comunicação, então essa seria a preparação do solo e do caminho para solução dessa série de questões práticas.

De modo geral, seria verdadeiramente ousado afirmar que a realização prática das tarefas do serviço científico de processos pedagógicos, por parte da pedologia e da psicotécnica, demanda a colaboração dos pedólogos e psicotécnicos na resolução de toda uma série de questões que estão diante de nossa escola. Sem a menor dúvida, pode-se afirmar que não apenas no campo da teoria se delineia tal colaboração e se entrecruzam diferentes disciplinas, mas também toda uma série de questões práticas atuais explicitadas por nossa escola, que agora não podem ser resolvidas de forma suficientemente científica, nem diletante, se elas não forem resolvidas no processo de trabalho conjunto e de colaboração mútua entre pedologia e psicotécnica.

Novamente, eu não poderia oferecer algo concreto no sentido da distribuição dos pedólogos e psicotécnicos – em quais questões, em quais elos da organização escolar, em quais formas e conexões deve existir essa colaboração. Mas já disse que não abordei toda uma série dessas questões de caráter prático e organizativo, pois não tenho resposta pronta para elas, não tenho suficiente experiência organizativa, mas está claro que elas emergirão por si mesmas no nosso processo de discussão.

À luz das tarefas estabelecidas pelo período de reconstrução ante a pedagogia e a organização do trabalho, ergue-se na qualidade de tarefa imediata e atual a aproximação da pedologia e da psicotécnica, a parceria para um prolongado front de atendimento das necessidades vitais da construção do socialismo. Eis aquela conclusão – pequena do ponto de vista de sua concretude, embora evidentemente ampla do ponto de vista de seu significado geral – que, me parece, poderia ser feita de tudo aquilo que eu disse até agora.

Perguntas

A.A. Smirnov

1. O senhor disse que dois momentos se mostram indícios fundamentais da pedologia: momento de desenvolvimento e de integralidade. Por outro lado, nós sabemos muito bem que a psicologia como ciência sobre o comportamento apresenta-se com esses princípios. Gostaria de saber onde fica a especificidade dessa integralidade sobre a qual fala a pedologia, e de qual integralidade fala a psicologia.

2. Quando você fala sobre pedologia, que ela é ciência sobre as leis mais gerais do desenvolvimento infantil, mas, por outro lado, no fim de sua apresentação você compara a pedologia até com a geografia, fala sobre como ela se ocupa de algo natural, quer dizer, sobre um todo natural que se apresenta um objeto integral4. Não haveria alguma contradição? Por um lado, a ciência sobre as próprias leis gerais do desenvolvimento, que, certamente, se constrói sobre a pesquisa de diferentes todos, a saber, todos naturais, mas por outro lado, ciências sobre algum desses todos em particular. Onde se encontra a conciliação entre essas duas posições?

3. Do ponto de vista dos pensamentos que o senhor desenvolveu sobre o estreito vínculo entre pedagogia e psicotécnica, seria correto colocar a questão sobre o trabalho conjunto do psicólogo e do psicotécnico, mas não a questão de modo totalmente distinto – sobre a pedologização da psicotécnica. Também, me parece, seria estranho falar que zoologia e biologia devem trabalhar juntas, uma vez que a zoologia é uma das disciplinas biológicas, e não seria mais correto dizer que o zoólogo deve ser, a um só tempo, pedólogo, ao invés de falar sobre a união mecânica do trabalho deles.

G. O. Netskii

1. A pedologia apoia-se, em sua pesquisa, na psicologia, anatomia e fisiologia, e, consequentemente, a psicologia na aplicação à pedologia constitui-se como uma parte desta ciência, isto é, como que constitui uma parte da pedologia.

2. De fato a psicologia científica moderna em suas pesquisas, como também ciência sobre fenômenos mais complexos, mais gerais que se apoia na fisiologia na anatomia – questão sobre a constituição e assim por diante, entram na pesquisa psicológica e na pesquisa psicológica concreta, na particularidade da pesquisa, que tem caráter prático5. A psicologia inevitavelmente, nisso, dirige-se a essas disciplinas – fisiologia, anatomia, estudos sobre a constituição e assim por diante. Qual será então a diferença entre a psicologia e a pedologia da idade infantil, se a pedologia também apoia-se nessas disciplinas?

Erusalintchik

1. Como o camarada Vigotski entende a pedologia – como ciência apenas sobre a criança ou como a ciência sobre a pessoa em desenvolvimento até o final de sua vida?

Shpilrein

1. Você falou que a pedologia aspira a produzir conhecimento sobre a criança. Assim, sobre quais características [svoistvakh] e particularidades [osobennostiakh] da criança, exatamente, a pedologia faz o possível para criar conhecimento – sobre as características físico-materiais ou mesmo sobre características materiais da criança, como se fosse algum sistema mecânico de um mecanismo, subordinada nas pesquisas pedológicas a tarefas determinadas, que têm em vista a significação social, o comportamento social da criança. E se esta segunda, última explicação é certa, por fim, então no que a pedologia, em suas abordagens, diferencia-se, no caso dado, da psicologia e psicotécnica onde ela tem tarefas práticas?

Mikhailov

1. Como o cam. Vigotski compreende o processo educativo [vospitatelnii] – como processo de interação ou em sua explicação moderna, baseando-se nas últimas discussões pedagógicas.

Respostas de L. S. Vigotski

À primeira pergunta de A. A. Smirnov eu responderia assim. O desenvolvimento e a integralidade, por si sós, realmente constituem-se em princípios gerais demais para determinar a especificidade da ciência pedológica, e eles, de forma completamente correta, promovem-se também na psicologia científica moderna, como poderiam ser explicitados também por toda uma série de outras ciências. Todavia, parece-me que a especificidade da pedologia, que é bastante difícil de captar nas suas determinações e para cuja revelação é necessária a ampliação do conteúdo da especificidade, consistindo em que o desenvolvimento e a integralidade não consistem apenas em princípios da investigação pedológica, tal como se constituem, digamos, em princípio da pesquisa psicológica. O desenvolvimento da criança e de suas particularidades – sobre as quais falamos – consiste, para a pedologia, em seu objeto de pesquisa, o que não se pode dizer, me parece, sobre a psicologia. Dificilmente algum dos mais consequentes partidários do ponto de vista genético estaria disposto a admitir que também a psicologia constitui-se em ciência do desenvolvimento, apesar de a psicologia, assim como as restantes disciplinas, fazer do ponto de vista do desenvolvimento o seu ponto de vista fundamental, e também o seu princípio obrigatório fundamental, a partir de cujo ponto de vista ela se aproxima da explicação, digamos, do surgimento das formas superiores a partir das inferiores e assim por diante. Mas a pedologia em tal relação também se apoia no princípio do desenvolvimento, seja da psicologia, seja de todas as disciplinas remanescentes.

Mas o fato é que, quando nós concretamente abordamos qual é o desenvolvimento que a psicologia estuda, então vemos que não existe desenvolvimento psíquico autônomo. A psicologia investiga ou o desenvolvimento do comportamento animal como parte da evolução biológica ou o desenvolvimento psíquico da criança como parte da evolução ontogenética, estuda o desenvolvimento do comportamento como parte da evolução histórico-social e assim por diante. Nisso se encontra meu pensamento. Tão logo a psicologia pegue não os princípios gerais de sua pesquisa, mas a pesquisa concreta deste ou daquele campo, depare-se com este ou aquele tipo de desenvolvimento, aí então devemos constatar – com que tipo de desenvolvimento ele6se depara. Qual é, de fato, esse desenvolvimento psíquico? Um só e aquele mesmo princípio que se encontra no desenvolvimento pedológico – estamos falando sobre o desenvolvimento em uma série histórica ou zoológica; ontogenética ou fantasmagórica? Não, evidentemente. Portanto, quando o psicólogo investiga, aplicando aquele único e mesmo ponto de vista do desenvolvimento por toda parte, mas quando ele investiga o desenvolvimento animal ou o comportamento animal, então ele aplica a essa pesquisa o ponto de vista geral da ciência biológica – o ponto de vista da teoria evolucionária. Quando ele investiga aquele mesmo desenvolvimento em seu aspecto histórico, ele parte do entendimento do caráter histórico do processo de desenvolvimento; quando ele investiga o desenvolvimento concreto da criança ele parte da conformidade com as regularidades [zakonomernostei] pedológicas. Se o desenvolvimento dos fenômenos psíquicos representasse uma série evolucionária autônoma, mais ou menos fechada em si própria, se a psicologia, isto é, o comportamento não fosse uma forma de atividade formal, uma forma de manifestação da capacidade da atividade, mas fosse um todo natural, então seria perfeitamente certo, o desenvolvimento da psicologia cobriria todas as remanescentes formas de desenvolvimento. Mas, quando falamos sobre o desenvolvimento da criança, sobre o desenvolvimento histórico do desenvolvimento psicológico, então por toda e qualquer parte teríamos em mente um processo concreto de desenvolvimento. Outro desenvolvimento além desse a psicologia não investiga, mas, consequentemente, investigando esse desenvolvimento, abarcando unilateralmente esse desenvolvimento, precisa orientar sua pesquisa a partir do ponto de vista das leis gerais, que ditam, determinam ou orientam um dado desenvolvimento em seu todo. Eis, parece-me, em que consistirá a diferença em relação ao desenvolvimento.

Desse mesmo modo, ou melhor, por analogia, parece-me, resolve-se ainda a questão referente à integralidade. Integralidade, certamente, constitui-se em um princípio que, com justeza, se promove na psicologia moderna. Mas em tal relação a psicologia não representa exceção. Como princípio geral é aquele princípio promovido por toda uma série de ciências, mas talvez também por todas as ciências, como regra metodológica geral do saber científico. Mas se falarmos sobre a integralidade concreta – pois a integralidade não é abstrata –, ela tem em diferentes campos de fenômenos sua expressão diferente. E eis que, se nós falarmos concretamente sobre tal integralidade, então a psicologia, de todo modo, tem em mente a integralidade psicológica, que se encerra no fato de que os próprios fenômenos psicológicos devem se entender não como agregados mecânicos, elementos separados, mas devem entender-se integralmente, estruturalmente. Mas quando falamos que a psicologia investiga a integralidade, nós concretamente temos em mente uma integralidade bem diferente, nós temos em mente um sistema de conexões entre diferentes aspectos, a partir do qual se forma o processo de desenvolvimento infantil em seu todo. Por exemplo, o processo de conexões para a pedologia, que existe entre a evolução endócrina da criança e seu desenvolvimento motor e intelectual, mostra-se o objeto central de sua investigação, exatamente do ponto de vista da abordagem integral. Para a psicologia, dificilmente o princípio da integralidade se encerraria no fato de, a cada vez, se estudarem os fenômenos psicológicos nas suas conexões integrais, digamos, com as funções das vias endócrinas. Consequentemente, assim que concretizarmos ambos os princípios, nós então encontramos a diferença específica entre psicologia e pedologia. Eu fiz isso nesta apresentação somente para a pedologia e não fiz para a psicologia, mas me parece que, daquilo que eu já falei, pode se extrair uma conclusão extraordinariamente importante em relação à psicologia, embora outra vez eu repita que lá e cá se promovam ambos esses princípios, mas lá e cá eles possuem um significado concreto diferente, quer dizer, o discurso sobre a forma concreta do desenvolvimento difere em um e outro caso.

Agora o camarada Smirnov pergunta se não haveria contradição em minhas palavras: entre a afirmação de que a pedologia estuda as leis mais gerais do desenvolvimento da criança e a analogia que eu fiz entre a relação da pedologia e da psicologia, por um lado, e da zoologia e da geografia, por outro. Mas essa simples comparação não é adequada em todos os seus aspectos e, como toda a comparação, adequa-se apenas àquele contexto em que a realizei. Eu quis assim mostrar que, precisamente do mesmo modo que zoologia e geografia podem investigar uma série de fenômenos idênticos, digamos, o mundo animal da Ásia, mas podem investigá-los em outros sistemas de conexões, precisamente do mesmo modo a pedologia e a psicologia podem investigar o intelecto prático da criança de três anos, novamente abordando a partir do ponto de vista de suas conexões, que incluem tal fenômeno em diferentes sistemas. Mas com isso eu não queria, absolutamente, dizer que a pedologia em todas as relações restantes possa também ser comparada à geografia. Todavia, de todo modo, defendo aqui que a ideia de que é fundamental para abordagem integral na psicologia a integralidade real, objetiva, independente de nosso conhecimento – isto é, a unidade [edinstvo] de todos os processos de desenvolvimento infantil, que se formam a partir das demais linhas ou aspectos diferenciados desse desenvolvimento e a investigação das leis e propriedades [svoistv] dessas diferenciadas linhas em separado – o que, ao mesmo tempo, constitui uma das primeiras tarefas da pedologia.

Agora, a conclusão seria, perguntemos, o trabalho conjunto dos psicotécnicos e pedólogos como alguma união mecânica ou seria necessária a pedologização da psicotécnica? Parece-me que aqui a questão decide-se não pelo caminho da contraposição, mas sim da dupla demanda. Que se faz necessária a pedologização da psicotécnica, me parece, é algo que decorre com clareza absoluta da minha comunicação. Eu tentei mostrar que a psicotécnica da idade infantil e adolescente não pode se desenvolver de outro modo que como uma das disciplinas pedológicas; do mesmo modo, como a zoologia, segundo sua correta expressão, não pode ser senão uma das disciplinas biológicas e não pode não colaborar com a biologia do mesmo jeito que exatamente a psicotécnica, ocupando-se da psicotécnica da idade infantil e adolescente, determinadamente deve ser a psicotécnica no fundamento de uma formação psicológica, no fundamento de certos conhecimentos pedológicos. Mas também o oposto é adequado: que a pedologia deve apoiar-se também na psicotécnica. Portanto, a pedologização da psicotécnica é uma demanda verdadeiramente incontestável.

Mas ainda assim, o assunto não se limita a uma tal demanda. Detive-me em minha apresentação na relação com a orientação geral sobre aquelas relações, no entrelaçamento e cooperação que existem entre uma e outra ciência. Mas existem enormes campos, na pedologia e na psicotécnica, não em uma unificação mecânica, porque na simples transformação individual nós temos não meramente unificação mecânica, mas unificação funcional e em conformidade com seu fim, também com base no princípio da integralidade e da divisão do trabalho. Parece-me que contra tal divisão do trabalho, nós, representantes de ambas as especialidades igualmente científicas, não podemos objetar.

A questão do camarada Netskii trata das contradições que se encontram em mim. Parece-me que entendo perfeitamente seu pensamento e o de outros oponentes. O pensamento que frequentemente aparece entre nós de que, em essência, a pedologia é a psicologia da idade infantil, é parte da psicologia. Esse é o ponto de vista de Kornilov que ele começa a desenvolver a partir da doutrina das reações. Se a própria psicologia contemporânea não investiga apenas o psíquico isoladamente dos processos materiais, dos quais ela constitui um momento interno necessário, e particularmente se, na série de pesquisas, a psicologia, querendo ou não, sair de suas fronteiras e tocar o problema da constituição, ao qual frequentemente se remete, seja em questões fisiológicas, digamos, o problema do cansaço, então não seria claro a partir daí que a pedologia é parte da psicologia? Essa argumentação é perfeitamente clara, mas ao mesmo tempo é incorreta de maneira radical. Do fato de que a pesquisa psicológica faz menção a questões de constituição ou a estes ou àqueles processos fisiológicos, ela ainda não se faz pedologia e não estuda aquelas relações e fenômenos objetivos que a pedologia estuda, assim como, por exemplo, do fato de que a física moderna preenche páginas inteiras com fórmulas algébricas não se segue que se transforme em álgebra. Se vocês mostrassem que a psicologia não pode desenvolver-se de outro modo que não estudando o processo de desenvolvimento psíquico da criança em sua relação e correlação com todos os distintos lados do desenvolvimento, então isso seria a psicologia que vocês sugerem chamar por outro nome, isto é, parece-me que isso seria factualmente repetição daquela mesma argumentação apenas sob outro ângulo. Eu nunca desenvolvi a ideia de que se a psicologia se apoiar na pedologia, então significa que a psicologia seja parte da pedologia.

Eu disse que a pedologia e a psicologia são duas ciências autônomas, que têm cada qual seu objeto e seu método de pesquisa. Eu acabei de dizer que a psicologia infantil não é parte da pedologia, mas deve desenvolver-se como disciplina pedológica, e esclareci isso repetidamente, assim como a psicologia zoológica deve desenvolver-se como disciplina biológica, assim como a psicologia étnica deve desenvolver-se como disciplina sociológica. Desenvolver-se como disciplina pedológica é uma coisa, mas constituir-se em parte da pedologia é outra. Consequentemente, não me pertence a afirmação oposta, de que a psicologia constitui parte da pedologia, eu nunca pensei assim, e minha apresentação foi exatamente orientada contra tal falsa compreensão, que nega até mesmo a existência da psicologia infantil como ciência autônoma. Para mim, eu penso que isso é objetivamente fiel, que a psicologia infantil foi, é, e existirá, e receberá uma base real para seu desenvolvimento científico conforme o desenvolvimento e a construção da pedologia científica. E a pedologia não absorve nem a psicologia como um todo, nem a psicologia infantil em particular. Mas o fato de que entre essas ciências existe não apenas delimitação, mas também um elo, e que nos deve interessar em primeiro lugar esse vínculo – tal foi a ideia central da minha apresentação.

Agora com relação à questão do camarada Erusalintchik: se a ciência da pedologia é ciência sobre a criança ou sobre a pessoa em desenvolvimento em seu todo até o fim dos seus dias? Penso que, e novamente me parece, e no presente caso há fundamentos objetivos para que a pedologia seja ciência sobre a criança em desenvolvimento, não sobre a pessoa em desenvolvimento até o fim dos seus dias. Penso que aqueles que desejam estender a pedologia do berço ao túmulo, os que querem enfileirar em uma única série tanto o desenvolvimento infantil quanto o desenvolvimento que o adulto realiza, sem o saber, mas fazem a mesma coisa que os velhos autores que diziam que a criança é um pequeno adulto, isto é, negavam a singularidade qualitativa dos processos de desenvolvimento infantil em comparação com os processos e mudanças que ocorrem em referência a um estado relativamente estabilizado. Não penso que a pessoa adulta não se desenvolva, mas sim que isso ocorre de acordo com outras leis, e que para esse desenvolvimento são características ligações outras que não as da idade infantil, e que é a singularidade qualitativa do desenvolvimento infantil que constitui objeto imediato da pesquisa do pedólogo.

Para mim, falar sobre a pedologia da pessoa adulta não é apenas errado do ponto de vista da denominação direta da pedologia, mas é incorreto exatamente do ponto de vista da disposição em uma única linha singular, tanto dos processos de desenvolvimento infantil quanto dos processos de transformação da pessoa adulta. Falo novamente: com as mesmas regularidades se pode abarcar a mudança interna da criança e a das idades posteriores. E não excluo que a ciência deve investigar – a psicologia em particular – mudanças, digamos, que ocorrem na idade madura ou na velhice, mas não tomo ambas as tarefas por objeto pertencente àquela categoria de fenômenos de que trata a pedologia.

Agora a questão do camarada Shpilrein não me é de todo clara. Segundo ele, eu disse, em minha comunicação, que a tarefa da pedologia é produzir conhecimento sobre a criança, mas sobre quais traços, propriedades e particularidades do cérebro da criança – materiais, físicos ou aqueles que estão subordinados à importância social –, e se não for isso, então no que se diferencia a pedologia da psicologia? Permitam-me dividir essa questão em duas.

Primeiramente, sobre quais propriedades [svoistvakh] da criança a pedologia tem atribuição de informar? Parece-me que sobre o processo de desenvolvimento infantil em seu todo ou sobre as propriedades que caracterizam o desenvolvimento infantil enquanto tal. Esse é, particularmente, o objeto da pedologia. Em tal desenvolvimento se insere o movimento dos indícios, o movimento também das propriedades físico-materiais que caracterizam o desenvolvimento físico da criança e de todos os outros. Mas aqui surge a segunda questão: poderíamos dizer que a pedologia dispõe em uma série indiferente, e fundamentalmente homogênea, todos esses fenômenos – ou seja, que para o pedólogo, do ponto de vista da sua elevada imparcialidade científica, é indiferente em qual estrutura se colocam todos esses momentos separados, ou o processo real do desenvolvimento do organismo, assim como todo o processo de desenvolvimento? De modo que temos certa categoria à qual pertence a primazia, a significação mais importante, que forma todos os outros momentos e em relação com esse momento principal condutor, os momentos remanescentes, que participam da formação desse fenômeno, desempenham um papel de instância subordinada.

Com tal colocação da questão eu concordo inteiramente, isto é, eu concordo, segundo o camarada Shpilrein, que falou da aplicação da psicotécnica à pedologia, que a pedologia é a ciência sobre o desenvolvimento integral da criança e nisso já se encerra a própria necessidade de tirar a conclusão de que não é o todo que nós devemos estudar do ponto de vista do organismo da criança, do ponto de vista de sua construção, mas o estudo desse organismo e de sua construção nos conduz ao fato de que os fatores sociais determinantes de seu desenvolvimento, a formação social da criança se revela enquanto aquela forma superior e, certamente, mais tardia, que é dominante, que determina todo o processo de desenvolvimento em seu todo e em seus momentos separados, e em relação à qual outros momentos separados – sobre os quais falei antes – mostram-se subordinados.

Mas, inesperadamente para mim, é daqui que surge tal conclusão – como transparece também na questão do camarada Shpilrein: significa que não há qualquer diferença entre pedologia e psicologia, isto é, se a pedologia reconhece a primazia do momento social no estudo de seus fenômenos, então ela se funde novamente com a psicologia. A obrigatoriedade de tal conclusão para mim não é óbvia. Reconhecer o significado preeminente do fator social não significa identificá-lo ao objeto de pesquisa, pois sob a influência preponderante dos fatores sociais podem formar-se tanto os fenômenos psicológicos quanto o desenvolvimento infantil em seu conjunto. Mas, em um e outro caso, o quadro dos fenômenos reais que se constroem por meio desses fatores sociais formativos será outro. Em um caso, nós teremos o processo de ontogênese infantil tomado em seu todo, no seu desenvolvimento ao longo da infância. Tudo isso se forma por meio do fator social. No outro caso nós podemos ter a psicologia da pessoa [tcheloviek], que se forma também por meio de fatores sociais. Do fato de que duas séries de fenômenos se formam por meio daqueles mesmos fatores, decorre que essas séries de fenômenos sejam estreitamente relacionadas entre si, mas não de que elas coincidam entre si.

Por fim, a questão do camarada Mikhailov relativa a como eu compreendo a educação [vospitanie]. Em parte alguma – nem durante minha apresentação, nem agora, respondendo a essa questão – não equiparo o processo educacional com o de influência. Mas, em sentido amplo, equiparo a aplicação da psicotécnica às questões da influência. Consequentemente, a psicotécnica não cobre todas as questões pedagógicas, isto é, todas as questões promovidas pela educação. Eu não avalio que a psicotécnica compreenda toda a pedologia prática, isto é, que todas as questões práticas, estabelecidas pela educação, sejam resolvidas pela psicotécnica. Avalio que toda uma série de questões práticas da educação se resolva não por meio da psicotécnica, mas da pedologia, precisamente porque a psicotécnica lida no campo prático preponderantemente com o problema da influência, enquanto a educação não se esgota mesmo com problema da influência.

Aqui a última questão, que foi feita em um bilhete: deve-se-me entender que a pedagogia seria engolida pela pedologia? Uma vez que as ideias da imensa maioria dos camaradas que refletem sobre tal questão revirem em torno da deglutição, então não me admira em nada questão semelhante, embora ela contrarie diretamente o que eu disse antes o tempo todo. Pois também outros oponentes procuraram ver se não seria possível engolir uma coisa com outra (risadas), se não se poderia encontrar momentos comuns – desenvolvimento, integralidade, fatores sociais – significa engolir.

Parece-me que, se nós de antemão renunciarmos a essa noção, isto é, duas ciências, estreita e mutuamente conectadas, que colaboram (ademais, tal conexão, bem como a colaboração, é condicionada tanto pela solução de problemas práticos quanto pelo objeto real da conexão entre os fenômenos estudados entre esta e aquela ciência), onde há aqui fundamento para que disso se passasse à deglutição? Parece-me que não há fundamento para isso. Ainda há menos fundamentos para, com base na minha apresentação, afirmar que a pedagogia é engolida pela pedologia. Eu tive apenas este pensamento: a pedologia não deve contrapor o desenvolvimento puro à educação pura. Existe tal tendência na pedologia americana, e, em parte, também entre nós. A tentativa de estudo da pura educação, abstratamente quanto aos fatores fundamentais do desenvolvimento – será, na sua essência, não pedologia como ciência, que investiga regularidades [zakonomernosti] do desenvolvimento determinadas pela educação. Se se der sequência a essa ideia, então significará que a pedologia não pode realizar pesquisas cientificamente, nem se apoiar na pedagogia como estudo de um dos fatores fundamentais que determina o processo de desenvolvimento: novamente parece-me que aqui não há fundamento para a deglutição. Surge um novo problema – vínculos e novas correlações existentes entre pedologia e pedagogia.

Referências

  • Vigotski, L. S. (2010). Pedologiya i Psikhotekhnika. Kul’turno-Istoricheskaya Psikhologiya, 6 (2), 105-118 [Conferência proferida em 21 de novembro de 1930].
  • 1
    Tradução de Gisele Toassa e Pedro Augusto Pinto. Revisão: João Batista Martins e Carolina Figueiredo de Sá.
  • 2
    Tradução de Vigotski (2010).
  • 3
    Pela lógica do texto, teríamos aqui “O uso mais amplo do método psicológico ao lado de outros não transforma a pedologia em psicologia infantil”, mas traduzimos tal como consta no original russo (N. dos T.).
  • 4
    Grifado no original.
  • 5
    Assim no original, com os grifos e erros de concordância.
  • 6
    Assim no original.
  • Disponibilidade de dados: os dados da pesquisa estão disponíveis no corpo do artigo.
  • Como citar:
    Vigotski, L. S. (2026). Pedologia e Psicotécnica: Conclusão e Perguntas do Público. Psicologia: Ciência e Profissão, 46, e303408. https://doi.org/10.1590/1982-3703003303408
  • How to cite:
    Vigotski, L. S. (2025). Pedology and Psychotechnics: Conclusion and Questions from the Audience. Psicologia: Ciência e Profissão, 46, e303408. https://doi.org/10.1590/1982-3703003303408
  • Cómo citar:
    Vigotski, L. S. (2025). Pedología y Psicotecnia: Conclusión y Preguntas del Público. Psicologia: Ciência e Profissão, 46, e303408. https://doi.org/10.1590/1982-3703003303408

Editado por

  • Editores responsáveis:
    Miriam Cristiane Alves e Rafael Wolski de Oliveira

Disponibilidade de dados

Disponibilidade de dados: os dados da pesquisa estão disponíveis no corpo do artigo.

https://doi.org/10.1590/1982-3703003303408

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    02 Mar 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    03 Dez 2025
  • Aceito
    08 Dez 2025
  • Corrigido
    03 Mar 2026
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