EDITORIAL

Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo.

E examinai, sobretudo, o que parece habitual.

Suplicamos expressamente: não aceiteis o que é de

hábito como coisa natural, pois em tempo de desordem sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural

nada deve parecer impossível de mudar.

(Bertolt Brecht, Nada é impossível de mudar)

Crise, crise, crise! Atualmente as crises têm-se mostrado cada vez mais acirradas e profundas e são derivadas das relações de submissão de tudo e de todos. Para suportar nossa existência em uma sociedade desigual acabamos por criar o fetiche da pílula, medicalizar é a saída. Nosso modo de existência é o mal que nos acomete, nos arrebata a todos. Para a sobrevivência do humano, necessitamos superar o atual modo existência, que se caracteriza pela produção de mercadorias. Tudo se transforma em mercadoria.

Nas universidades temos um cenário de precarização do trabalho docente. Os professores são engolidos pela burocracia e pressões do produtivismo. Somos avaliados pela quantidade de produtos que conseguimos publicar. O direito de participar de eventos com ajuda de custo é de quem publica artigos em periódicos. Publicar bons textos não é suficiente, é necessário que a revista esteja em consonância com o que seria uma boa classificação. Para contemplação de projetos com financiamentos, números. Só os produtivos continuam vivos na roda viva da pós-graduação.

Publicar é preciso! Esta tem se tornado a obsessão de pesquisadores assolados pelos ditames de um sistema que prima por ferramentas pouco pensadas para avaliação da qualidade do conteúdo produzido. Sobrecarregados por tantos afazeres muitas vezes tomamos estes critérios como algo pronto e acabado. Não há espaço para a dúvida. Por que estes? Quem os definiu? São de fato eficazes? Não seria necessários mudanças? Quem as fará?

Tomamos como uma regra a ser seguida. A todo custo tentamos naturalizar o que não é natural, criamos a nossa existência e coletivamente podemos transformá-la. Alguns movimentos estão sendo realizados nesta direção. Nos últimos tempos pesquisadores e associações nacionais e internacionais começam a questionar e enfrentar este estado de coisas que está posto. No editorial número dezessete de 2012, a professora Silvana Tuleski realizou um apanhado de vários movimentos e textos gestados com o objetivo de um contraponto a este estado de coisas.

Especificamente sobre o fator de impacto podemos citar a Avaliação de São Francisco que em dezembro de 2012 apresenta vários pontos para reflexão acerca do Fator de impacto (FI) como critério de avaliação das pesquisas. A San Francisco Declaration on Research Assessment (DORA) tem por objetivo eliminar o FI das avaliações de pesquisas científicas. Esta iniciativa partir dos pesquisadores da American Society for Cell Biology e está recebendo amplo apoio de cientistas e organizações acadêmicas. Aponta que os artigos, as pesquisas sejam avaliados por seu mérito, independente de fatores "métricos" de onde são publicadas.

Na medida em que estamos envolvidos por esta linha de produção, com um produto a cada momento, ou porque não dizer, a cada nova estatística definida pelas políticas educacionais que nos regem, perdemos nossa capacidade de análise do todo. A possibilidade de um pensamento para além dos fragmentos, das aparências faz se imprescindível a uma ciência que contribua efetivamente para emancipação humana.

Isto não está posto em pílulas, mas é uma conquista do homem ao longo de seu desenvolvimento histórico. Pensar a sociedade no seu movimento contraditório e dialético, para além do produtivismo, sempre é um desafio e uma necessidade. Que a leitura deste número os provoque!

Profª. Dra. Adriana de Fátima Franco

Editora de seção

E-mail: adriffranco@hotmail.com

  • Declaração recomenda eliminar o uso do Fator de Impacto na Avaliação de Pesquisa. SciELO em Perspectiva. [viewed 12 August 2013]. Available from: http://blog.scielo.org/blog/2013/07/16/declaracao-recomenda-eliminar-o-uso-do-fator-de-impacto-na-avaliacao-de-pesquisa/
    » link
  • MARX, K.; ENGELS, F. Crítica da Educação e do Ensino. Lisboa: Editora Moraes, 1978.
  • MARX, K; ENGELS, F. Manifesto comunista. Organização e introdução Osvaldo Coggiola. São Paulo: Boitempo, 1998.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    23 Jun 2015
  • Data do Fascículo
    Set 2013
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