Valores positivos e desenvolvimento do adolescente: perfil de jovens paulistanos

Valores positivos y el desarrollo del adolescente: perfil de jóvenes paulistanos

Positive values and adolescent development: a profile in São Paulo city

Rosa M. S. de Macedo Ida Kublikowski Sobre os autores

Resumos

A presente pesquisa é parte do projeto "Os valores positivos e o desenvolvimento do adolescente", que se iniciou com a adaptação cultural do questionário Search Institute Profiles of Student Life. Seu objetivo foi mapear valores positivos presentes em adolescentes paulistanos, visando gerar informações que permitam planejar ações de promoção de saúde para jovens, suas famílias e comunidades. O instrumento adaptado foi aplicado em 2725 jovens paulistanos, de 11 a 19 anos, de ambos os sexos, provenientes de todas as regiões da cidade de São Paulo, categorizados de acordo com o Índice Paulista de Vulnerabilidade Social. Os resultados indicaram a presença um número baixo de valores, diferenças associadas mais à idade e ao sexo do que ao IPVS e, principalmente, a necessidade de revisão de nossas estratégias de promoção de saúde, que poderiam basear-se no desenvolvimento de valores positivos.

Adolescência; valores positivos; promoção de saúde


La presente pesquisa es parte de lo proyeto "Los valores positivos y el desarrollo del adolescente" , que se ha iniciado com la adaptación cultural de lo instrumento Search Institute Profiles of Student Life. Lo objetivo fue mapear valores positivos presentes en jóvenes de la ciudad de São Paulo, para el desarrollo de acciones promotoras de salud para los jóvenes, sus famílias y comunidad. Lo instrumento adaptado fue aplicado a 2725 adolescentes, de 11 a 19 años, de ambos los sexos y en tres niveles de vulnerabilidad social: baja, mediana y alta. Los resultados han indicado la presencia de bajo número de valores positivos, diferencias más associadas a la edad y sexo y menos a la vulnerabilidad social y, especialmente, la necesidad de uma revisión de nuestras estratégias para la promoción de la salud, que podrían estar basadas en el desarrollo de valores positivos.

Adolescencia; valores positivos; promoción de salud


This research is part of the project "The positive values and the adolescent development: from vulnerability to responsibility" that begun with the cultural adaptation of Search Institute Profiles of Student Life: Attitudes and Behaviors, an instrument that aims to access the developmental assets present in adolescents of specific groups, proven to be very useful as a base from where to start planning actions to promote better lives to communities, families and their children. The adapted form of the instrument has been applied in a sample of 2725 adolescents from all regions of SP City, males and females, from 11 to 19 years, categorized by their social vulnerability (IPVS, SEADE, 2005) to design a map of positive values present in this population. The data showed that young people present a low number of positive values and that its variability is linked to sex and age, more than to social vulnerability. It also turns evident the necessity to review our health promotion strategies based in risk taking behaviors and grounded it in the promotion of positive values.

Adolescence; positive values; health promotion


ARTIGOS

Valores positivos e desenvolvimento do adolescente: perfil de jovens paulistanos

Positive values and adolescent development: a profile in São Paulo city

Valores positivos y el desarrollo del adolescente: perfil de jóvenes paulistanos

Rosa M. S. de MacedoI; Ida KublikowskiII

IDoutora em Psicologia Clínica, Professora Titular da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo

IIDoutora em Psicologia Clínica, Professora Associado da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo

Endereço para correspondência

RESUMO

A presente pesquisa é parte do projeto "Os valores positivos e o desenvolvimento do adolescente", que se iniciou com a adaptação cultural do questionário Search Institute Profiles of Student Life. Seu objetivo foi mapear valores positivos presentes em adolescentes paulistanos, visando gerar informações que permitam planejar ações de promoção de saúde para jovens, suas famílias e comunidades. O instrumento adaptado foi aplicado em 2725 jovens paulistanos, de 11 a 19 anos, de ambos os sexos, provenientes de todas as regiões da cidade de São Paulo, categorizados de acordo com o Índice Paulista de Vulnerabilidade Social. Os resultados indicaram a presença um número baixo de valores, diferenças associadas mais à idade e ao sexo do que ao IPVS e, principalmente, a necessidade de revisão de nossas estratégias de promoção de saúde, que poderiam basear-se no desenvolvimento de valores positivos.

Palavras-chave: Adolescência; valores positivos; promoção de saúde.

ABSTRACT

This research is part of the project "The positive values and the adolescent development: from vulnerability to responsibility" that begun with the cultural adaptation of Search Institute Profiles of Student Life: Attitudes and Behaviors, an instrument that aims to access the developmental assets present in adolescents of specific groups, proven to be very useful as a base from where to start planning actions to promote better lives to communities, families and their children. The adapted form of the instrument has been applied in a sample of 2725 adolescents from all regions of SP City, males and females, from 11 to 19 years, categorized by their social vulnerability (IPVS, SEADE, 2005) to design a map of positive values present in this population. The data showed that young people present a low number of positive values and that its variability is linked to sex and age, more than to social vulnerability. It also turns evident the necessity to review our health promotion strategies based in risk taking behaviors and grounded it in the promotion of positive values.

Key words: Adolescence; positive values; health promotion.

RESUMEN

La presente pesquisa es parte de lo proyeto "Los valores positivos y el desarrollo del adolescente" , que se ha iniciado com la adaptación cultural de lo instrumento Search Institute Profiles of Student Life. Lo objetivo fue mapear valores positivos presentes en jóvenes de la ciudad de São Paulo, para el desarrollo de acciones promotoras de salud para los jóvenes, sus famílias y comunidad. Lo instrumento adaptado fue aplicado a 2725 adolescentes, de 11 a 19 años, de ambos los sexos y en tres niveles de vulnerabilidad social: baja, mediana y alta. Los resultados han indicado la presencia de bajo número de valores positivos, diferencias más associadas a la edad y sexo y menos a la vulnerabilidad social y, especialmente, la necesidad de uma revisión de nuestras estratégias para la promoción de la salud, que podrían estar basadas en el desarrollo de valores positivos.

Palabras-clave: Adolescencia; valores positivos; promoción de salud.

Por iniciativa do Consulado Americano em São Paulo e em parceria com a ABRINQ, a Fundação Bank Boston, a ONG Meninos do Morumbi, o Senac, a PUCSP e o Search Institute, foi constituído o projeto "Os valores positivos e o desenvolvimento do adolescente: da vulnerabilidade à responsabilidade", que visava disponibilizar um instrumento que pudesse fornecer a organizações que lidam com adolescentes nos mais variados contextos, parâmetros norteadores de ações para promoção de um desenvolvimento saudável dos jovens.

Na construção do projeto foram definidos três objetivos específicos, a serem alcançados em três etapas consecutivas. Na primeira e na segunda fases, o questionário "Search Institute Profile of Student Life: Attitudes and Behaviors" foi adaptado e testado para a realidade cultural brasileira, (Macedo et al., 2004). Foi também realizada uma pesquisa, que evidenciou estarem os valores que os pais julgavam importante transmitir aos adolescentes em consonância com aqueles propostos pelo Questionário A&B (Macedo, Kublikowski & Berthoud, 2006).

A terceira fase, aqui descrita, teve por objetivo mapear valores positivos em uma amostra de jovens paulistanos, a partir de suas respostas à forma adaptada do questionário A&B.

Ao mapear valores temos a possibilidade de desenvolver estratégias de promoção de saúde pautadas na promoção de valores positivos, com vistas a diminuir a vulnerabilidade dos adolescentes a comportamentos de risco. A preocupação com esse tema, conforme apontado em outro escrito (Macedo et al., 2006), justifica-se pelas mudanças que vêm ocorrendo na sociedade em decorrência da globalização, as quais fazem emergir a relativização de valores e os consequentes problemas éticos e morais que a acompanham (Bauman, 1997). A vida social, organizada anteriormente pela tradição, ancorava um modo consistente de ser e de agir, porém essa solidez se desfez numa "vida líquida", de acordo com Bauman (2005, p.7), "vivida em condições de incerteza constante".

Daí a relevância da questão dos valores para a sociedade, sobretudo quando pensamos nas novas gerações, responsáveis, em primeira instância, pelas mudanças sociais futuras e pela renovação dos valores e tradições. Se as tradições estão em constante reconstrução, valores novos surgem, nem sempre tão positivos ou altruístas como eticamente desejável. Impõe-se então a responsabilidade moral da sociedade em geral, com ênfase na família, escola e demais instituições encarregadas de educar formalmente os jovens, pelo processo de transmissão de valores positivos.

As tradições - como toda a nossa realidade social na pós-modernidade, reconstruídas e relativizadas - fazem com que sejamos constantemente confrontados com a necessidade de escolhas, processo que, se por um lado envolve risco, por outro significa a oportunidade de apropriação do mundo social, o que dá poder ao ser humano, pela liberdade responsável de escolher estilos de vida.

Acreditamos que tal liberdade, por sua vez, pode levar o jovem a escolhas de risco, em função da grande quantidade de imagens culturais negativas que lhe são oferecidas. Como destacam Castro e Abramovay (2005), quando a violência está em foco são a ela associados estereótipos juvenis, como ocorre, por exemplo, no caso dos jovens negros e pobres, que são retratados na mídia como perigosos e sujeitos ao controle policial. Esses grupos, de forma geral, tornam-se o foco das políticas públicas no Brasil, historicamente centradas nos jovens em situações de risco ou naqueles em conflito com a lei.

A partir dessa colocação podemos conceber uma espiral de vulnerabilidade, que vai se ampliando ao considerarmos outros fatores como sexo e local de moradia, além dos fatores associados às desigualdades sociais crônicas do contexto brasileiro, que dificultam à população de baixa renda o acesso aos bens sociais básicos educação, saúde e moradia, amplamente fraqueados aos jovens mais favorecidos economicamente.

Nesses contextos de falta e excesso os limites se diluem, o que gera insegurança nos adultos em torno da transmissão de valores à geração mais jovem e acaba por impactar o processo educativo em qualquer estrato social. Como bem coloca Goergen (2006), os jovens tornaram-se indiferentes aos valores universais, que perderam a sua legitimidade ao não oferecerem respostas à diversidade e polissemia que marcam o mundo contemporâneo. Nesse sentido somos impedidos de falar da juventude no singular, já que se impõe a necessidade de reconhecermos identidades com diferentes perfis socioculturais (Castro & Abramovay, 2005).

O termo "valor" indicava, para os estóicos, qualquer objeto de preferência ou escolha; assim o conceito se introduziu no domínio da ética, referindo-se aos objetos de escolha moral. A partir daí a palavra adquiriu diferentes significados, não existindo consenso sobre a sua definição nem em termos de sua classificação, mas uma extensa polêmica (Goergen, 2005), cuja discussão foge ao objetivo desde artigo. Para os fins a que nos propomos, é importante, no entanto, marcar uma posição em torno do fenômeno.

De acordo com Tamayo (2007, p. 7), um dos mais importantes especialistas no assunto entre nós, "os valores implicam necessariamente uma preferência, uma distinção entre o importante e o secundário, entre o que tem valor e o que não tem", sendo que manifestar preferências é o comportamento mais comum na vida cotidiana, e assim a palavra expressa uma experiência comum a todos os seres humanos. Neste sentido, "valor" implica escolha, a qual, por sua vez implica oportunidades ou possibilidades para escolher.

Consideramos que os valores são crenças que se expressam na excelência das ações, e não só estão ligados às histórias individuais, mas inscritos na história das sociedades. São os resultados de avaliações anteriores, que servem de base para avaliações posteriores. São compromissos entre a necessidade de liberdade para os indivíduos, um reconhecimento mútuo dessas mesmas liberdades, além de uma situação definida eticamente e sedimentada por essas preferências individuais e reconhecimentos mútuos. Eles servem de ponto de partida para novos processos de avaliação, pelos quais cada indivíduo, ou grupo de indivíduos, é ou deve ser responsável. Os valores se manifestam nos costumes de um povo e são baseados nas tradições, memória viva de uma civilização, cujas imagens e símbolos dão a cada grupo uma singularidade ética inscrita em suas raízes (Fernandes, 1996).

Ainda de acordo com Fernandes (1996), podemos considerar que educar é transmitir valores; porém o grande desafio da educação é inserir os valores comuns de uma cultura no projeto de liberdade de cada um. A tarefa é complexa, porquanto a liberdade individual não pode ser asfixiada por um processo de socialização perigoso para a dignidade da pessoa. A primazia da educação sobre a individuação não se justifica se não ocorrer o movimento inverso, ou seja, se não se permitir a cada um, em harmonia com seu juízo moral, desenvolver seu próprio projeto de liberdade.

A família, nossa placenta cultural, é um espaço privilegiado nessa cadeia de transmissão de valores, propiciando aos jovens a apropriação de referenciais que se renovam na passagem de uma geração à seguinte, pela exigência de um remanejamento de competências que permitam aos filhos uma melhor gestão do futuro (Cerveny & Kublikowski, 1998).

Em um contexto mutante, a família se torna um camaleão, cujas diferentes formas evidenciam a insuficiência dos modelos tradicionais para compreendê-la. Como afirma Petrini (2005), a família vem sendo desafiada por valores e modelos que perderam a validade, o que não a impede de continuar sendo gestora e administradora de um dos capitais humanos mais importantes: os bens relacionais, especialmente por cuidar das etapas iniciais de desenvolvimento, educação e amparo de seus membros jovens. São de capital importância nesse processo, de acordo com o levantamento feito por Scales e Leffert (1999) sobre o tema, especialmente o apoio e a comunicação familiar positiva, além dos suportes oferecidos pela escola e pela comunidade. A transmissão de valores positivos constitui-se então como um dos maiores bens que se podem oferecer aos jovens, por estes servirem de guia para as suas ações e lhes permitirem ser bem-sucedidos mesmo em ambiente adversos.

Prescrever uma forma ideal que leve os jovens a escolhas responsáveis é impossível. A experiência do Search Institute (2003), entretanto, evidencia que, na adolescência, há uma relação inversa entre a presença de valores positivos e comportamentos de risco, ou seja, quanto maior a presença de valores positivos, menos comportamentos de risco são observados entre os jovens. Dessa perspectiva, com vistas à promoção de saúde, ao invés de prevenir comportamentos de risco podemos desenvolver ações no sentido de fortalecer os valores positivos.

Tal proposta encontra apoio na literatura que aborda as políticas públicas dirigidas à juventude. Ao invés do foco na doença e risco, que, na visão de Valadão (2003), produz poucos impactos satisfatórios na saúde da população, estratégias de promoção de saúde representam um recurso para a melhoria da qualidade de vida, por gerarem oportunidades para que os jovens possam viver de acordo com as alternativas escolhidas. Prevenir, na definição da autora, é oferecer aos jovens condições e alternativas melhores para construírem seus caminhos em direção ao bem-estar físico, psíquico e social, o que fortalece não só sua autonomia, mas também as formas de participação social.

Cabe também assinalar não estar o conceito de vulnerabilidade aqui associado simplesmente aos comportamentos pessoais, já que atores sociais não podem ser destacados de seus cenários, que no mundo contemporâneo refletem crises nas instituições consagradas pela tradição.

Neste sentido, Abad (2003) argumenta que a definição de Erikson (1972) da adolescência como um período de moratória social acabou por transformá-la em um tempo que, pela falta de trabalho ou estudo, em determinados setores sociais, não é valorizado e pode empurrar o jovem na direção da marginalidade ou exclusão. Por sua vez, para os jovens das classes sociais que postergam as responsabilidades adultas de forma legitimada, esse período tende cada vez mais a alongar-se, em função da complexidade dos conhecimentos exigidos para inserção profissional e/ou pela falta de um destino econômico assegurado pela educação. O autor afirma então que ambos os grupos de jovens, apesar dos contextos diferentes, compartilham, enquanto geração, da mesma condição de desinstitucionalização e se constituem como sujeitos em um tempo e espaço liberados. Neste sentido, faz-se necessário não só destacar a juventude como foco, mas também enfatizar as ações de integração dos jovens na sociedade (Abad, 2003), questão relevada no desenvolvimento de estratégias pautadas nos valores positivos (Scales & Lefert, 1999).

É importante aqui reiterar que o uso do questionário não é considerado um fim em si mesmo, mas um meio que pode ser comparado a um gatilho que promove, em cada comunidade, as condições para um amplo debate, em busca da construção de consensos em torno do que seria importante transmitir aos jovens e como fazê-lo. Sua vantagem é permitir, por meio do mapeamento de valores, a obtenção de um guia, o qual permite discriminar forças e necessidades na experiência dos jovens, que diferem em função do contexto (Macedo et al., 2006).

Estando cientes das limitações de qualquer instrumento para abarcar ou definir a experiência vivida, acreditamos que a utilização de uma tecnologia social, como o questionário "A&B", não se justifica pela intenção de "medir" valores ou estabelecer normas populacionais. Os resultados obtidos, ao oferecerem uma visão sobre o que os jovens pensam a respeito daquilo que os especialistas consideram os valores fundamentais para um desenvolvimento saudável da juventude (Macedo, 2007), prestam-se à elaboração de propostas práticas de promoção de saúde que ofereçam aos jovens condições para o desenvolvimento de competências que lhes permitam se transformar em homens e mulheres capazes de enfrentar os desafios da vida.

III – MÉTODO

Participantes

Foram aplicados 2.907 questionários, 2.725 dos quais considerados válidos, em jovens com idade entre 11 e 19 anos, categorizados em relação ao Índice Paulista de Vulnerabilidade Social (SEADE, 2005) em grupos de baixa, média e alta vulnerabilidade. Houve uma distribuição razoavelmente equitativa em relação a sexo: 1.384 (50,8%) participantes do sexo masculino e 1319 (48,4%) do sexo feminino. Em relação à idade dos jovens que responderam ao questionário (88 participantes entre 11 e 13 anos, 257 com 14 anos, 603 com 15 anos, 740 com 16 anos, 567 com 17 anos, 246 com 18 anos e 223 com 19 anos ou mais), a maioria (aproximadamente 70%) da amostra encontra-se na faixa etária entre 15 e 17 anos, em função das características das instituições e escolas que foram selecionadas para participar da pesquisa.

Quanto ao IPVS – Índice Paulista de Vulnerabilidade Social – (SEADE, 2005), houve uma distribuição da amostra proporcional aos grupos de baixa, média e alta vulnerabilidade da população de jovens da cidade, conforme apresenta o Mapa da Vulnerabilidade Social do Município de São Paulo (SAS-PMSP. Mapa 1.3.0.), que resultou em 512 (18,8%) participantes categorizados com IPVS baixo, 1307 (48%) com IPVS médio e 850 (31,25) com IPVS alto.

O IPVS é um indicador resultante da combinação da dimensão socioeconômica - ou seja, a renda apropriada pelas famílias e o poder de seus membros para gerá-la - e da dimensão demográfica, relacionada ao local de moradia e ao ciclo de vida familiar que potencializa o risco de pobreza.

A vulnerabilidade social de pessoas, famílias ou comunidades é então entendida como uma conjugação de fatores que pode afetar o nível de bem-estar das pessoas, famílias ou comunidades e que resulta em uma exposição maior ao risco. Trata-se, assim, de uma noção multidimensional, pois a vulnerabilidade pode afetar pessoas, grupos e comunidades em diferentes planos de seu bem-estar, de formas diferentes e em diferentes intensidades, estando relacionada à capacidade dos envolvidos de controlar os recursos requeridos para o aproveitamento de oportunidades propiciadas pelo Estado, pelo mercado ou pela sociedade.

Em relação ao Índice de Vulnerabilidade Social, os jovens foram agrupados, em função de seu local de moradia, nas categorias propostas pelo SEADE (2005), reagrupadas em vulnerabilidade baixa, média e alta.

Instrumentos

O questionário "Search Institute Profiles of Student Life: Attitudesand Behaviors". O Search Institute, fundado em 1958, é uma organização americana não lucrativa que se propõe a promover o bem-estar de crianças e adolescentes. Deslocando o foco dos problemas que os jovens representam para a importância das relações positivas, as oportunidades, as habilidades e os valores em suas vidas, foi realizado um amplo levantamento bibliográfico (Scales & Leffert, 1999), que permitiu compreender a influência crítica desses fatores para um desenvolvimento saudável.

Esses fatores, denominados "Developmental Assets", foram, destarte, identificados em pesquisas realizadas sobre o tema e categorizados em 40 valores positivos, considerados essenciais ao desenvolvimento dos jovens, por facilitarem a tomada de decisões e a escolha responsável.

O questionário "Proflies of Student Life: Attitudes and Behaviors", "A&B" (Search Institute, 2001) foi construído para avaliar, na experiência dos jovens, por meio de atitudes e comportamentos, a presença de tais valores. A pesquisa bibliográfica realizada e uma ampla aplicação do questionário nos Estados Unidos deram forma ao instrumento. Seu objetivo é, a partir dos dados obtidos por sua aplicação, construir estratégias baseadas nos valores, para promover a saúde de crianças e adolescentes e criar outras visões da juventude em nossa cultura. Neste sentido o instrumento não se presta para a utilização em casos individuais, nem para avaliações "antes e depois", mas para fornecer um retrato dos jovens em determinada comunidade, com o intuito de desenvolver intervenções voltadas para as suas necessidades construídas conjuntamente com a comunidade. Seu conteúdo focaliza quatro áreas da experiência dos adolescentes: recursos de desenvolvimento, indicadores positivos, déficit e padrões de comportamento de risco e de alto risco.

Os recursos de desenvolvimento – ou, na versão brasileira, os Valores Positivos - foram agrupados em 20 valores externos e 20 valores internos. Os Valores Externos foram agrupados em quatro categorias: Apoio, Capacitação, Limites e Expectativas e Uso construtivo do tempo. Os Valores Internos foram agrupados nas categorias: Compromisso com o aprendizado, Valores positivos, Competências sociais e Identidade positiva (ver tabelas 1 e 2 ).

  • O questionário também aborda Fatores Protetores, pois um desenvolvimento saudável inclui atitudes e comportamentos que melhoram a qualidade de vida. Os indicadores examinados se referem a: ter sucesso na escola, ajudar os outros, diversidade de valores, manter boa saúde, exibir liderança, resistir ao perigo, adiar gratificações e superar adversidades.

    Por outro lado, o interesse pelos valores promotores de saúde leva aos fatores de vulnerabilidade presentes na experiência dos jovens, denominados déficits e fatores de risco.

    Os déficits são definidos como influências negativas na vida do jovem, por dificultarem um desenvolvimento saudável e produtivo, limitarem o acesso aos valores positivos externos e facilitarem o caminho para os comportamentos de risco. Podem ser vistos como uma fragilidade, que não determina um dano permanente, mas torna o dano mais provável. Há cinco deles examinados pelo questionário: encontros para beber, ficar só em casa, ser vítima de violência, superexposição à TV e abuso físico.

    Em relação aos comportamentos de risco, compreendidos como um envolvimento recorrente em comportamentos que comprometem o bem-estar do jovem, as questões referem-se ao uso de álcool, tabaco, maconha e outras drogas, manter relações sexuais, comportamento antissocial, violência, cabular aula, jogar jogos de azar, distúrbios alimentares, depressão e tentativa de suicídio.

    Os padrões de comportamento de alto risco incluem altos índices de uso de álcool, tabaco e outras drogas ilícitas, relações sexuais, depressão, tentativa de suicídio, comportamento antissocial, violência, problemas na escola, beber e dirigir, e jogar.

    No presente escrito, em função da quantidade de dados gerados no estudo, o foco será mantido nos valores positivos em sua relação com os comportamentos de risco, no sentido de apoiar nossa argumentação, que associa essas duas variáveis.

    Procedimento

    A adaptação cultural do questionário foi realizada por meio de tradução em duas fases seguida pela aplicação das ferramentas de validação ecológica conforme propostas por Bernal, Bonilla e Belido (1995), com a utilização da metodologia de Grupos Focais. O questionário piloto foi então aplicado a uma amostra de aproximadamente 650 jovens, assumindo a forma final utilizada no presente estudo (Macedo et al, 2004).

    Contato com instituições e escolas

    Inicialmente, foi feito um levantamento das regiões da cidade de São Paulo, utilizando-se como critério o IPVS. A partir daí, foram levantadas as listagens das escolas e instituições não governamentais localizadas nas regiões escolhidas, de forma a representar todos os índices e abranger toda a cidade de São Paulo. Contatos telefônicos foram feitos, assim como foram enviadas cartas-convite e realizadas visitas a algumas instituições. Não houve recusa de qualquer escola ou instituição a participar da pesquisa.

    Pesquisa de campo

    A pesquisa de campo se constituiu de aplicações coletivas do instrumento aos jovens em suas instituições e/ou escolas. Algumas intercorrências - como falha na compreensão das instruções por parte dos participantes, questionários com mais de 20 questões em branco e tempo reduzido disponibilizado para aplicação - ocasionaram a perda de uma porcentagem dos questionários, o que é esperado em uma pesquisa desta dimensão.

    Análise do material

    Realizamos a análise dos dados com base no padrão utilizado pelo Search Institute, que faz uso do "Statistical Package for the Social Sciences", SPSS, criado em 1968. A PUC-SP utiliza a versão SPSS – 11.0., o que exigiu a adaptação do programa americano para torná-lo compatível com o SPSS disponível na universidade.

    A cada questionário foi atribuído um número de identificação e em seguida, o IPVS foi determinado para cada participante, em função de seu local de moradia.

    O SPSS foi programado em Variable Labels que agrupavam as questões cujas respostas se referiam a cada valor, déficit, comportamento de risco ou de alto risco. Por tratar-se de questionário cujas respostas eram oferecidas em escalas de cinco ou mais opções, como, por exemplo, "concordo totalmente", "concordo", "não tenho certeza", "discordo", "discordo totalmente", só foram consideradas as respostas extremas da escala como indicativos da presença do valor, sendo necessárias tais respostas para todas as questões referentes a cada valor para que fosse computada a presença do valor.

    Outro tipo de resposta em escala teve por objetivo avaliar a frequência, em determinados períodos de tempo, de comportamentos como, por exemplo, beber, o que permitiu categorizar déficits, comportamentos de risco, alto risco, ou ausência de risco, em função da sua frequência. O teste qui-quadrado foi utilizado em cruzamentos de dados para aferir diferenças estatisticamente significativas (nível de significância = 0,05) entre as variáveis eleitas para comparação: idade, sexo e IPVS.

    Interpretação dos resultados

    A forma de apresentação dos dados foi desenvolvida pela equipe de pesquisadoras a partir do padrão de elaboração de relatório adotado pelo Search Institute, com vistas a uma comunicação de resultados que fosse ao mesmo tempo técnica e acessível, considerando-se a importância da disseminação dos resultados para que se possa atingir a meta do trabalho: a adoção, por parte das instituições e comunidades, de propostas de ação para melhoria de qualidade de vida dos jovens a partir das informações obtidas com a aplicação do instrumento.

    RESULTADOS E DISCUSSÃO

    No conjunto dos valores externos (Tabela 1 ) se investiga, fundamentalmente, como os pais e outros adultos veem o jovem, se o valorizam e como o apoiam em sua vida cotidiana. Pudemos observar um índice altamente favorável de 71,9% de jovens que percebem apoio e afeto em suas famílias e também de outros adultos. Apesar disso, o apoio familiar não está associado a um diálogo efetivo, visto que cai para 18,8% o percentual de jovens que consideram existir um diálogo aberto entre pais e filhos. Em relação ao apoio na escola, é baixo o clima de cuidado percebido, sendo também baixa (22,6%) a percentagem dos jovens que percebem o envolvimento dos pais com a escola e com a aprendizagem dos filhos.

    Quanto à categoria "capacitação", pudemos observar que apenas um terço dos jovens (31,4%) sente segurança em circular em sua comunidade. Por outro lado, os índices de valorização percebidos na comunidade, assim como a possibilidade de exercer trabalho voluntário e de serem tidos como verdadeiros recursos para a comunidade, são insatisfatórios. A comunidade faz pouca diferença na vida do jovem.

    Para metade dos jovens, os limites impostos pela família e escola são conhecidos e claros, mas a vizinhança significa um limite mais forte que o da família e da escola, percebido por 72,1% dos jovens, sendo essa uma questão que merece ser mais bem compreendida. O grupo de iguais é percebido por metade dos jovens como fonte de influência positiva, mas o índice percentual dos jovens que têm outros adultos como modelos positivos é de apenas 17,2%. Por outro lado, a alta expectativa dos adultos em relação aos jovens é percebida por praticamente metade da amostra.

    Apenas 19,6% dos jovens desenvolvem atividades criativas; 45,3% deles participam de programas direcionados a jovens, cabendo aqui lembrar que boa parte de nossa amostra é composta por jovens que participam de programas sociais. A participação em comunidades religiosas é referida por 57% da amostra, e algum tipo de atividade construtiva em casa, por 42,8%. Esses dados remetem a importantes reflexões sobre o espaço que a escola e a comunidade ainda têm para ocupar na vida desses jovens.

    O conjunto dos valores internos (Tabela 2 ) permite avaliar o compromisso dos jovens com a aprendizagem, além da presença de valores positivos, competências sociais e identidade positiva. Ao avaliarmos o nível de envolvimento do jovem com sua vida acadêmica, pudemos observar que mais da metade deles (65%) reporta motivação para aprender e 87% afirmam ter um vínculo com a escola. Paradoxalmente, estes aspectos não são suficientes para realmente envolver o jovem no aprendizado formal: baixo índice (33,1%) dos jovens faz regularmente as tarefas de casa e apenas 20,4% referem ler por prazer. Desta forma, a escola parece ser valorizada muito mais como um espaço social e de convívio do que como um espaço de aprendizagem formal e desenvolvimento pessoal. Cabe aqui observar que apenas 5,5% dos jovens referem ter sucesso na escola, o que é categorizado como um dos fatores de proteção.

    Os valores positivos apresentam-se em altos índices percentuais nos jovens pesquisados. Com exceção da capacidade de controle e tomada de decisões, presentes em menos da metade dos jovens, todos os demais valores estudados apresentam índices que são considerados excelentes e denotam grande envolvimento dos jovens com questões sociais globais.

    Em relação às competências sociais, apesar de metade da amostra evidenciar competência cultural e interpessoal, menos da metade dos jovens (35%) apresenta o valor de capacidade de tomar decisões e planejar suas ações. O valor "capacidade de resolução pacífica de conflitos" está presente em mais da metade dos jovens, índice ainda considerado insuficiente. A capacidade de resistência a condições adversas é observada em menos da metade dos jovens pesquisados. Esses resultados indicam que o processo educativo falha em promover competências sociais essenciais ao pleno desenvolvimento do ser humano.

    Em relação à identidade positiva, os índices percentuais de valores encontrados são médios, exceto pela visão positiva do futuro, que é alto. Por tratar-se de uma fase de construção da identidade, podemos considerar esses índices favoráveis.

    Por sua vez, os comportamentos de risco são compreendidos como o envolvimento em comportamentos que comprometem o bem-estar do jovem. Tais comportamentos referem-se ao uso de álcool, tabaco, maconha e outras drogas, manter relações sexuais, comportamento antissocial, violência, cabular aula, jogar, distúrbios alimentares e referir depressão.

    Cabe assinalar ser a vivência da sexualidade diferente nas culturas brasileira e americana. Enquanto nos USA preconiza-se abstenção sexual aos jovens, em nossa sociedade as campanhas preventivas enfocam muito mais o "sexo seguro", para evitar a transmissão de doenças sexualmente transmissíveis e Aids, além da gravidez precoce; portanto, ter intercurso sexual antes dos 16 anos de idade não é um aspecto recomendável ou incentivado no país, mas é tolerado.

    Em relação ao uso de álcool, apesar de a legislação vigente não permitir a venda e o consumo de bebidas alcoólicas por menores de 18 anos, os jovens compram e consomem bebidas, especialmente em ocasiões de confraternização grupal. O comportamento de beber é normalizado e assume um significado positivo, associado às baladas e ao lazer.

    Muitos comportamentos considerados "de risco" pelos critérios do Search Institute estão presentes na amostra de jovens pesquisados, sendo alguns índices percentuais bastante preocupantes, como se observa a seguir:

    - 63,7% dos jovens faltaram às aulas ao menos uma vez no último mês, índice este que denota uma falta de comprometimento com a escola. Como já observamos anteriormente, a escola, para muitos jovens, é muito mais um ponto de encontro social e de vida em grupo do que um espaço de aprendizagem formal e desenvolvimento pessoal, o que talvez possa explicar os índices encontrados;

    - Comportamentos "delinquentes" como roubo e envolvimento com a polícia, aparecem em índices baixos, mas não menos preocupantes.

    - Os índices obtidos em relação a comportamentos ou atitudes violentas, como forma de resolver conflitos ou obter algo desejado, parecem ser significativos, pois em torno de um quarto dos jovens pesquisados já se envolveu com algum tipo de violência contra pessoas ou propriedades alheias.

    - O uso de álcool revela-se também um comportamento ou hábito bastante disseminado entre os jovens. Temos observado que, em resposta a amplas campanhas antitabagistas dos últimos anos, os índices de uso de cigarro têm caído sensivelmente entre os jovens (13%), porém 31,5% afirmam já haver tomado uma bebedeira.

    - Em decorrência, outro comportamento de risco – dirigir após beber – também aparece com muita frequência (11,3%), além de pegar carona com quem bebeu (27,8).

    - O uso de drogas ilícitas é referido por uma porcentagem significativa dos jovens pesquisados (3,1%). Em relação à maconha, talvez a droga ilícita mais popular e de baixo custo para os jovens - portanto, mais acessível - o uso ao menos uma vez na vida está restrito a aproximadamente 7,3% dos jovens.

    - Comportamentos de risco considerados ameaças à saúde mental do jovem, como depressão (19,2%), pensamentos suicidas (13,3%) e distúrbios alimentares (26%), apresentam-se em índices preocupantes.

    - A análise dos comportamentos de risco relacionados à vivência da sexualidade pelos jovens revela algumas características que fazem parte do rol de comportamentos "tolerados socialmente". Aproximadamente 45% dos jovens pesquisados já mantiveram relações sexuais.

    O alto risco é aqui compreendido como um envolvimento recorrente do jovem em comportamentos que diferem daqueles de risco, por sua frequência e intensidade. Os resultados indicam que os comportamentos de alto risco distribuem-se de forma semelhante aos de risco: o índice mais alto refere-se a apresentar padrão de muitos problemas na escola (49%), seguido de alto consumo de álcool (36,2%), comportamento sexual de risco (29,3%), depressão e tentativa de suicídio (26,2%), comportamento violento (18,5%), beber e dirigir (13,1%). Em menor grau foram observados comportamentos antissociais, jogar jogos de azar, consumir tabaco e usar drogas ilícitas.

    Desafios a serem enfrentados

    De forma ideal, todos os jovens deveriam possuir entre 31 e 40 dos valores investigados, porém são inúmeros os motivos que podem impedir ou dificultar-lhes vivenciar de forma ideal os contextos familiar, escolar, de sua comunidade e da sociedade em geral. Cabe, assim, a cada comunidade ou organização, estabelecer como meta que porcentagem de seus jovens deseja que possua esse nível ideal. Neste sentido, este projeto de investigação se apresenta como uma oportunidade para que organizações e comunidades possam, juntas, criar uma visão do que esperam construir para seus jovens, já que, na experiência do Search Institute, os jovens com altos índices de valores positivos envolvem-se menos em comportamentos de risco.

    Apresentamos aqui as porcentagens de jovens paulistanos que se encontram em cada um dos quatro níveis referentes à presença de valores positivos: (1) 0 a 10 valores – 5%; (2) 11 a 20 valores – 53%; (3) 21 a 30 valores – 39% e (4) 31 a 40 valores – 3%. Foram observadas diferenças significativas entre os sexos no que tange ao número de valores presentes, assim como diferenças importantes entre as idades estudadas, estatisticamente significativas (2,1 e p=0,012). A média geral de valores permaneceu equilibrada entre os jovens de 14, 15 e 16 anos, havendo uma diminuição entre os de 17 e 18 anos. Não foram encontradas diferenças significativas na média (t=3,56 e p=0,16) de valores apresentada por jovens que compuseram os grupos relativos aos diferentes índices de vulnerabilidade estudados, o que nos remete a importantes reflexões, em especial sobre alguns estigmas sociais de que os jovens das camadas menos favorecidas economicamente também seriam, necessariamente, aqueles com maior índice de dificuldades e em mais "alto risco" para o desenvolvimento de comportamentos que ameaçam seu desenvolvimento saudável.

    O que os resultados sugerem é que, independentemente da condição social e da comunidade onde vive, o jovem paulistano possui um número médio de valores abaixo do desejado, e que parece existir uma relação inversa entre a presença de valores positivos e comportamentos de risco. Assim, os jovens que possuem de 0 a 10 valores apresentam, em média, 7,1 comportamentos de risco. Nas outras faixas de valores, observamos: de 11 a 20, 4,4 comportamentos de risco; de 21 a 30 valores, 3 comportamentos de risco; e na presença de 31 a 40 valores, 1,8 comportamento de risco.

    Conclui-se que nossa juventude, de modo geral, necessita de intervenções que revertam este quadro. O desenvolvimento intencional de valores positivos pode ser uma resposta consistente à questão.

    CONSIDERAÇÕES FINAIS

    Podemos afirmar que nossos jovens percebem: pouco apoio positivo nas relações intergeracionais; falta de oportunidades para o desenvolvimento de liderança; falta de valorização pela comunidade, que não lhes proporciona espaço; inconsistência de sua experiência com limites; falhas na construção de competências sociais e de valores positivos. Tais experiências ilustram aspectos destacados na literatura, como a questão dos estereótipos (Castro & Abramovay, 2005), as dificuldades na comunicação familiar e com outros adultos em um contexto de valores mutantes (Petrini, 2005), assim como a forma de conceituar a adolescência que a desconecta da comunidade (Abad, 2003).

    Acreditamos que tal cenário dá corpo à espiral de vulnerabilidade na adolescência, mantida e ampliada por fatores como: questões de gênero, idade e vulnerabilidade social; falta dos pais na vida dos filhos; o silêncio dos adultos em torno de limites e valores; segregação por idade em nosso meio e a falta de empenho dos adultos para a construção de vínculos significativos com os jovens; superexposição dos jovens à mídia e na mídia, de forma negativa; a pobreza, que impede o acesso a programas e serviços e famílias não equipadas para cuidar de suas crianças; medo dos adultos de envolver-se com os jovens, pela crença corrente de que estes são responsabilidade de outros; instituições não equipadas para tornarem-se espaço de suporte, cuidado e desafio positivo.

    Tal combinação de fatores sugere que estamos perdendo nossa capacidade de sermos comunidades nas quais o cuidado, as ligações e os propósitos compartilhados significam um compromisso com crianças e jovens na vida pública e privada. O uso do "nós" é aqui intencional, pois a construção de valores nas comunidades não depende de profissionais, mas é um empreendimento conjunto que mobiliza pessoas, famílias, organizações, instituições e sistemas para agir em torno de uma compreensão compartilhada do que significa um processo de desenvolvimento saudável para crianças e jovens.

    Considerando-se que nossas práticas de promoção de saúde estão tradicionalmente pautadas na prevenção de comportamentos de risco (Valadão, 2003), que a amostra da presente pesquisa foi composta por adolescentes de instituições que desenvolvem estratégias destinadas a minorar tais comportamentos e que esses jovens apresentam baixos índices de valores positivos e altos índices de comportamentos de risco, assim como a grande maioria dos participantes, trona-se evidente a necessidade de atentar para nossas definições de juventude e as estratégias de promoção de saúde que delas decorrem. O desenvolvimento de valores positivos parece ser uma resposta bastante pertinente a essa questão.

  • Endereço para correspondência
    Rosa M. S. de Macedo. Rua Ministro Godói, 969, 4º. Andar, sala 4E-05. Perdizes, CEP 05015-001, São Paulo-SP, Brasil.
    E-mail:
  • Recebido em 14/05/2007

    Aceito em 06/11/2008

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    Endereço para correspondência Rosa M. S. de Macedo. Rua Ministro Godói, 969, 4º. Andar, sala 4E-05. Perdizes, CEP 05015-001, São Paulo-SP, Brasil. E-mail: romacedo@pucsp.br

    Datas de Publicação

    • Publicação nesta coleção
      11 Fev 2010
    • Data do Fascículo
      Dez 2009

    Histórico

    • Aceito
      06 Nov 2008
    • Recebido
      14 Maio 2007
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