RESUMO
As noções de estética e de beleza são construídas desde a primeira infância e atravessadas por questões raciais e de gênero. A partir disso, esta revisão sistemática buscou analisar artigos empíricos de circulação internacional revisados por pares, publicados entre 2009 e 2020, que articulassem a temática estética e primeira infância. Foram selecionados estudos que continham, nos títulos, os descritores: Vanity, Appearance, Esthetic e Self esteem, combinados separadamente com os descritores Infancy; Childhood e Children. A busca foi realizada nas bases de dados Periódicos CAPES, Web of Science, PubMed e Scielo e seguiu as recomendações metodológicas do Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses [PRISMA]. Um total de 12 estudos compôs o corpus final desta revisão sistemática. Os resultados indicaram que questões estéticas fazem parte da vida das crianças e podem causar impactos positivos ou negativos em seu desenvolvimento, a depender da forma como são conduzidas. A discussão contribui para problematizar melhor o fenômeno.
Palavras-chave:
Primeira infância; revisão sistemática; estética
ABSTRACT
The notions of esthetics and beauty are built as of early childhood and permeated by racial and gender issues. By this assumption, this systematic review aimed to analyze empirical articles of international circulation reviewed by peers, published between 2009 and 2020, which are able to articulate the esthetics and early childhood themes. Studies whose titles contained the descriptors ‘Vanity’, ‘Appearance’, ‘Esthetic’ and ‘Self esteem’, combined separately with the descriptors ‘Infancy’, ‘Childhood’, and ‘Children’ were selected. The search was carried out in the following databases: Capes Periodicals, Web of Science, PubMed and Scielo; and followed the methodological recommendations by Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses [PRISMA]. A total of 12 studies composed the final corpus of this systematic review. The results indicated that esthetic issues are part of children’s lives and can have a positive or negative impact in their development, depending on how they are handled. The discussion helps to problematize the phenomenon in a better way.
Keywords:
Early childhood; systematic review; esthetics
RESUMEN
Las nociones de estética y de belleza son construidas desde la primera infancia y atravesadas por cuestiones raciales y de género. Así, esta revisión sistemática buscó analizar artículos empíricos revisados por pares de circulación internacional, publicados entre 2009 y 2020, que articulasen la temática estética y primera infancia. Fueron seleccionados estudios que contenían, en los títulos, los descriptores: Vanity, Appearance, Esthetic y Self esteem, combinados separadamente con los descriptores Infancy; Childhood y Children. La búsqueda fue realizada en las bases de datos Periódicos CAPES, Web of Science, PubMed y Scielo y siguió las recomendaciones metodológicas del Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses [PRISMA]. Un total de 12 estudios componen el corpus final de esta revisión sistemática. Los resultados indicaron que cuestiones estéticas son parte de la vida de los niños y pueden causar impactos positivos o negativos en su desarrollo, dependiendo de la forma como son conducidas. La discusión contribuye para problematizar mejor el fenómeno.
Palabras clave:
Primera infancia; revisión sistemática; estética
Introdução
As habilidades sociais, as capacidades linguístico-cognitivas e a saúde física e emocional são desenvolvidas desde os primeiros anos de vida e são importantes para o desenvolvimento humano em todas as áreas sociais (Venâncio, 2020). De acordo com o Fundo das Nações Unidas para a Infância - UNICEF (2011), esse primeiro período de vida, que vai desde o nascimento até os seis anos de idade de uma criança, corresponde à primeira infância e é fundamental para seu desenvolvimento nos anos subsequentes.
Na primeira infância, um campo pouco discutido é o da estética, da aparência física e da vaidade. A estética, ao longo da história, ocupou lugar relevante nas sociedades humanas. Este conceito está ligado a princípios culturais de beleza compartilhados, os quais determinam critérios de apreciação do que é considerado belo, com ênfase em suas qualidades (Moreira et al., 2023). Nessa perspectiva, Mello et al. (2020) enaltecem que a estética revela ênfase em hábitos que evidenciam o cuidado com a aparência física, como expressão de autodeterminação, autoconhecimento, expressão de liberdade e inserção social, proporcionando a elevação da autoestima, satisfação, confiança, bem-estar social, bem-estar psíquico, felicidade e liberdade. Entretanto, ainda segundo os autores, a estética, no tocante à aparência física, está intrinsecamente ligada a sentimentos, pensamentos e percepções advindos de experiências vivenciadas e à influência sociocultural. A aparência física, por sua vez, frequentemente, é considerada como uma grande facilitadora de aceitação em determinados grupos sociais (Santos & Silva, 2021), e uma boa aparência é concebida como um meio eficaz de integração social e familiar (Mello et al., 2020).
Já o conceito de vaidade se refere a um cuidado positivo com a beleza e o corpo e se relaciona com os cuidados estéticos e o envolvimento do indivíduo com a beleza, representando um cuidado consigo mesmo. Assim, a vaidade se constitui em um antecedente da aparência e está ligada ao nível de autoestima corporal e à frequência dos cuidados e envolvimento com a beleza. Portanto, a vaidade leva os indivíduos a perceberem-se mais bonitos, estimulando a busca pela melhora (Strehlau et al., 2015).
Nesse campo de estudos, discutir sobre a autoestima e a autoimagem também pode contribuir para se entender o assunto, uma vez que ambos os constructos, diferentemente dos de estética e de vaidade, são mais pesquisados durante a infância, apesar de serem conceitos distintos. O conceito de autoestima se refere à valorização própria que cada indivíduo realiza de si mesmo em distintos eventos ou situações da vida, com base em propriedades intrínsecas de um ser, como os valores, crenças e atitudes determinados por ele como negativos ou positivos (Schultheisz & Aprile, 2013). Assim, o conceito de autoestima está ligado ao desenvolvimento da autoconsciência, se desenvolve em conjunto com aspectos mais estáveis da personalidade (Hair & Graziano, 2003) e inclui uma avaliação da própria personalidade, das habilidades, das características, das qualidades e do lugar entre as pessoas. Um bom nível de autoestima serve como uma importante força motivacional, já que pessoas com nível de autoestima elevado apresentam uma maior confiança e segurança em si mesmas (Albuquerque et al., 2022). É importante frisar que a autoestima de um indivíduo pode variar à medida que ele enfrenta desafios sucessivos ao longo do desenvolvimento (Huang, 2010).
A autoimagem, por seu turno, é extremamente relevante para a saúde geral e relaciona-se com a autoaceitação. Uma pessoa que apresenta percepções equivocadas da própria imagem ou insatisfação com a forma corporal, geralmente, apresenta sintomas depressivos, ansiedade e queixas somáticas (Justino et al., 2020).
Vê-se, pois, que estética, vaidade, autoestima e autoimagem, apesar de serem constructos diferentes, estão interrelacionados e precisam ser abordados em relação às construções sociais sobre gênero e raça. De acordo com Campos (2017), gênero e estética estão interligados. A autora afirma que, desde a tenra idade, as crianças são direcionadas ao tipo de roupa, a comportamentos e a brinquedos que lhes são atribuídos de acordo com o gênero. Aos meninos são oferecidos carrinhos, bolas e brincadeiras que estimulam a exploração do mundo exterior. No entanto, as meninas são ensinadas a brincar de casinha, a estar sempre arrumadas e a ser delicadas. Nesse sentido, Garbarino (2021) comenta que meninas vivem a imposição do ‘ser bela’ e que a partir disso, as próprias crianças demarcam diferenças e reforçam a segregação entre meninas e meninos, reforçando uma divisão estereotipada em que se atribui a beleza para as meninas e a força física para os meninos. Tais divisões, por sua vez, interferem na forma como cada criança se sente pertencente ao grupo.
Além disso, questões raciais também podem interferir na vaidade, na estética, na autoestima ou na autoimagem das crianças, desde a primeira infância, pois como Ziersch et al. (2011) apontam, quando o racismo é vivenciado regularmente, tem um impacto negativo na saúde, no bem-estar e na autoestima do indivíduo. Assim, o racismo na infância favorece conflitos identitários, sentimentos recorrentes de inferioridade (Schoolz et al., 2014), baixa autoestima, dificuldades socioemocionais, sintomas depressivos e de ansiedade (Heard-Garris et al., 2018). Dessa forma, essas questões ensejam mais problematização entre os constructos aqui abordados uma vez que, de acordo com a UNICEF (2010), o racismo causa impactos negativos em nível psicológico e social e interfere no desenvolvimento pleno das crianças.
Tendo em vista o exposto, este estudo tem o objetivo de analisar como o tema ‘estética e primeira infância’ está sendo articulado em artigos empíricos de circulação internacional, por meio de uma revisão sistemática. Para isso, foram utilizados outros constructos como vaidade, autoestima e aparência, a fim de ampliar as possibilidades de discutir e analisar as lacunas e as considerações apresentadas nos estudos analisados.
Método
A presente pesquisa trata-se de um estudo de revisão sistemática que utiliza como fonte de dados a literatura sobre um tema determinado, resultando em um resumo de evidências associadas a uma estratégia, por intermédio de métodos sistematizados de busca (Sampaio & Mancini, 2007).
O estudo considerou a estratégia PICOS que, segundo Santos e Galvão (2014), se trata de um acrônimo de língua inglesa (em que ‘P’ se refere a População/participantes; ‘I’ a Intervenção; ‘C’ a Comparação/Controle; ‘O’ Resultados; e S para Tipos de estudo) e favorece uma melhor recuperação dos resultados uma vez que permite que as buscas se tornem mais claras e eficientes. No entanto, como a presente pesquisa envolve artigos que utilizaram diferentes metodologias para abordar o tema pesquisado, tal estratégia foi utilizada de forma adaptada, pois a aplicação do PICOS apresenta-se limitada quando o estudo analisa pesquisas de natureza qualitativa e envolve uma diversidade de variáveis (Oldenburg et al., 2020).
Ademais, esta pesquisa seguiu as orientações recomendadas pelo Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses [PRISMA] (Page et al., 2021) e foi registrada no banco de dados Internacional Prospective Register of Ongoing Systematic Reviews [PROSPERO] (2015), sob o número CRD42021288112.
Estratégias de busca
Os artigos foram pesquisados nas seguintes bases de dados: PubMed, Periódicos CAPES, SciELO (Scientific Electronic Library Online) e Web of Science. A consulta às bases se deu a partir da identificação da Comunidade Acadêmica Federada (CAFe), que facilita a busca tanto a artigos de acesso aberto, quanto de acesso restrito. Para isso, foram selecionados estudos cujos títulos continham a seguinte combinação de descritores: Self esteem e Childhood; Vanity e Childhood; Appearance e Childhood; Esthetic e Childhood; Self esteem e Infancy; Vanity e Infancy; Appearance e Infancy; Esthetic e Infancy; Self esteem e Children; Vanity e Children; Appearance e Children; Esthetic e Children. Tais combinações foram feitas utilizando-se o operador booleano and, que, por meio dos termos da pesquisa/busca, relaciona os assuntos pesquisados.
A estratégia de busca a partir dos títulos foi empregada por poder filtrar, de forma mais específica, o tema a ser pesquisado, porquanto se trata de constructos amplos. Ademais, nas pesquisas realizadas, não houve restrições de idiomas e o período de tempo de publicação dos artigos analisados foi de 2009 a 2020. O processo de busca e de seleção dos estudos se deu nos meses de novembro e dezembro de 2020 e janeiro e fevereiro de 2021.
Critérios de elegibilidade
Foram estabelecidos os seguintes critérios de inclusão: estudos que contemplassem a primeira infância no período de zero a seis anos de idade; artigos revisados por pares e que contemplassem o intervalo de ano estabelecido; artigos que foram publicados em qualquer país ou idioma; e, artigos empíricos que utilizaram dados primários.
Em contrapartida, os critérios de exclusão foram: artigos que não foram revisados por pares; artigos repetidos ou não localizados; estudos que não atendessem ao formato de artigo científico; artigos que não correspondiam a pesquisas empíricas e que utilizaram dados secundários; e, artigos que abordavam em seus estudos desenvolvimento atípico.
Seleção dos estudos
No que diz respeito à seleção dos artigos, eles foram classificados de acordo com os critérios de inclusão por duas pesquisadoras e de forma independente. Esse processo foi acompanhado por uma terceira avaliadora visto que, se houvesse discordância entre as duas primeiras, ela leria o artigo e, em consenso, as três decidiriam sobre a elegibilidade do estudo.
Extração de dados
Depois dessa etapa, foram extraídos dos artigos os seguintes dados: autor, ano, local, participantes, tipo de análise (qualitativa ou quantitativa), área da revista, instrumentos utilizados na coleta dos dados, objetivos e resultados.
Risco de viés
Com o objetivo de avaliar o risco de viés e de selecionar estudos de melhor qualidade, para os estudos qualitativos, utilizou-se a escala Appendix H Quality appraisal checklist - qualitative studies, do National Institute for Health and Care Excellence [NICE] (2012), e para analisar os estudos quantitativos, a ferramenta de avaliação Quality assessment tool for quantitative studies do Effective Public Health Practice Project [EPHPP] (1998). Para os estudos mistos, qualitativos e quantitativos, foram utilizadas ambas as escalas.
Resultados e Discussão
De acordo com as estratégias de busca estabelecidas, foram encontrados nas bases de dados pesquisadas 1.421 estudos. Depois de aplicados os critérios de exclusão e inclusão, 12 estudos compuseram o corpus final desta revisão sistemática, como demonstra a Figura 1.
Com o objetivo de fazer uma análise crítica e ampla dos doze artigos incluídos nesta revisão sistemática, foram extraídas algumas informações e características estruturantes dos artigos, como exemplificado no Quadro 1.
Os 12 artigos que compuseram o corpus final da pesquisa foram divididos em estudos de caráter qualitativo (seis: artigos 1, 4, 7, 8, 9, 10), quantitativo (quatro: artigos 3, 6, 11, 12) e mistos (dois: artigos 2, 5). Os seis estudos qualitativos e os dois qualitativos/quantitativos foram analisados por meio da ferramenta crítica NICE (2012), no que concerne às abordagens teóricas, ao design de estudo, à coleta dos dados, à confiabilidade dos estudos, à análise dos dados e à sua avaliação geral.
Nesse viés, dois estudos foram classificados como bons (artigos 1, 2); cinco, razoavelmente bons (artigos 4, 5, 7, 8, 9), e apenas um não contemplou as exigências especificadas e foi classificado como ruim (artigo 10). Quanto aos critérios menos atendidos, destacam-se o fato de o papel do pesquisador não estar claramente descrito (artigos 4, 5, 7, 8), a não confiabilidade dos métodos (artigos 4, 8, 10), a imprecisão das informações em relação ao relato da ética da pesquisa (artigos 4, 5, 9), a imprecisão na análise e na coleta dos dados (artigo 2) e a falta de clareza na abordagem teórica (artigo 10).
Os quatro artigos quantitativos e os dois classificados como quantitativo e qualitativo foram analisados de acordo com os critérios estabelecidos na ferramenta de avaliação para estudos quantitativos do EPHPP (1998). Para isso, os critérios analisados basearam-se basicamente no viés de seleção, no design do estudo, nas possíveis variáveis de confusão, na cegueira para as avaliações dos resultados, no método de coleta de dados e nas retiradas e quedas nos números dos participantes. Tudo isso, visando a um indicativo de qualidade dos artigos. Nessa perspectiva, dois estudos foram classificados como fortes (artigos 11, 12), porque atenderam a todos os critérios estabelecidos na ferramenta de avaliação; três, como moderados (artigos 3, 5, 6), visto que atenderam parcialmente aos critérios estabelecidos, e um foi classificado como fraco (artigo 2). Dentre os critérios menos contemplados, destacam-se a falta de informações referentes a retiradas e desistências dos participantes dos estudos (artigos 2, 3, 5, 6) e a falta de informações referentes ao controle dos co-fundadores entre os participantes antes das intervenções da pesquisa (estudo 2). Portanto, de uma forma geral, os estudos desta pesquisa foram avaliados positivamente, uma vez que apenas dois foram classificados como fracos, evidenciando-se a qualidade dos artigos. A partir disso, verificou-se o baixo risco de viés nos estudos, o que demonstra sua qualidade metodológica.
Nessa perspectiva, Barbosa et al. (2019) ressaltam a importância de analisar o risco de viés dos estudos incluídos, pois aumenta a confiabilidade dos resultados de uma revisão sistemática. No entanto, nesta revisão, foi empregada a análise do risco de viés como um norteador da qualidade dos estudos e incluiu todos os artigos, inclusive os com alto risco de viés, no corpus final da pesquisa. Essa ação visa favorecer uma compreensão mais ampla acerca do tema que compõe a revisão sistemática.
No que diz respeito ao período em que os artigos analisados foram publicados, o intervalo foi de 2009 a 2020. O ano de 2016 foi o em que houve mais publicações sobre o tema, com quatro estudos. Os demais anos não apresentaram ou tiveram apenas um artigo sobre o tema. Nos anos de 2011, 2013 e 2018, não houve publicações, e os anos de 2009, 2010, 2012, 2014, 2015, 2017, 2019 e 2020 apresentaram um artigo cada.
Dentre os estudos datados entre os anos de 2009 a 2020, constatou-se que eles não apresentaram uma linearidade em termos temporais. De acordo com Miller et al. (2009), constructos como ‘aparência’ e todos os seus pressupostos apresentam pouca atenção na literatura. Essa afirmação se acentua mais notavelmente quando esses constructos são problematizados entre crianças da primeira infância. Apesar de o ano de 2016 ter apresentado uma quantidade relevante de estudos, dos onze anos analisados, oito só apresentaram um estudo, e quatro não apresentaram nenhum estudo sobre a temática. Tais fatos evidenciam que essa temática não é muito pesquisada na faixa etária analisada, o que aponta para a importância de problematizá-la ainda durante a primeira infância.
Em relação à análise da autoria dos artigos, observou-se uma diversidade de autores, entretanto as pesquisadoras Maria Hatzigianni e Kay Margetts publicaram dois artigos em coautoria sobre o tema (artigos 1, 2), em que buscaram compreender a possível relação entre a autoestima e o uso de computadores. Esses estudos foram realizados na Austrália e publicados nos anos de 2010 e 2012, o que evidencia uma aproximação entre a produção delas.
A autora May Ling Halim também participou da produção de dois artigos (9, 12), um discutiu sobre a rigidez na aparência infantil, e o outro tratou da aparência de gênero em relação a comparações culturais. Ambos os estudos foram produzidos nos Estados Unidos: o primeiro, em 2014, e o segundo, que também teve a participação da China, em 2020. Verifica-se que, apesar do número reduzido de estudos sobre esse tema, é possível encontrar autoras que se dedicam de forma mais sistemática ao assunto.
Em relação às áreas das revistas que publicaram sobre a temática, observou-se que duas tiveram mais participação: Psicologia (4, 6, 7, 8, 9, 12) e Educação (1, 2, 3, 5), com seis e quatro artigos, respectivamente. Além dessas, as áreas de Odontopediatria (10) e Pediatria (12) também contribuíram com um artigo cada.
Dentre os estudos analisados, a área da Psicologia foi considerada um importante eixo norteador para este tema. Tal fato pode ser compreendido acerca do fazer dessa área, uma vez que a Psicologia aborda as crenças e as expectativas sociais. A área de Educação foi outro campo que contribuiu com a análise dessa temática, o que indica que, recentemente, essa área tem ampliado suas discussões e seu escopo de pesquisa acerca de questões atuais, principalmente quando se trata de assuntos referentes à infância. Além disso, o fato de as áreas da Pediatria e Odontopediatria trazerem pelo menos um estudo sobre o tema pode indicar que esse campo está se constituindo como uma área de interesse multidisciplinar.
No que diz respeito à análise dos dados das pesquisas, predominaram os estudos qualitativos, que trataram exclusivamente da participação das crianças, exceto dois (10, 7), que também tiveram a participação de pais e de outros adultos. Nessa perspectiva, Kauark et al. (2010) afirmam que as pesquisas qualitativas consideram um vínculo entre a subjetividade e o mundo do sujeito, o que pode justificar o foco nos atores principais das pesquisas - as crianças.
Das quatro pesquisas quantitativas, somente em uma (artigo 3) o foco não foram os pais. As pesquisas quantitativas lidam com tudo o que pode tornar-se objetivo. Isso pode justificar a predominância de pais e adultos nas pesquisas quantitativas, devido à possível dificuldade de escutar as crianças usando instrumentos mais estruturados e padronizados (Kauark et al., 2010). Em relação aos estudos que utilizaram os métodos qualitativo e quantitativo, um estudo (artigo 2) teve como foco as crianças, e outro (artigo 5), as crianças, os pais e os educadores.
No tocante aos participantes das pesquisas analisadas, seis artigos focaram exclusivamente as crianças (1, 2, 3, 4, 8, 9), enquanto outros tiveram como participantes, além das crianças, os pais - três artigos (6, 10, 11) - e um artigo teve como participantes apenas os pais (12). Além disso, dois artigos (5, 7) tiveram a participação de pais, crianças e educadores.
É importante ressaltar que, na maioria dos estudos, as crianças foram participantes principais ou protagonistas. Segundo Ramos e Barbato (2014), durante muito tempo, estudos evidenciaram uma maior participação dos adultos falando sobre a criança ou por ela, porém, atualmente, vem aumentando a consideração sobre a participação dos infantes nas pesquisas realizadas. Esses dados extraídos da presente revisão sistemática ratificam essa premissa e deixam claro que se tem focado mais as crianças. Ademais, figuras que fazem parte do contexto socializador da criança, como pais e educadores, continuam participando dos estudos, o que corrobora para a ampliação do entendimento acerca da presente temática.
Em relação ao lugar onde os estudos foram realizados, a maioria foi realizada nos Estados Unidos da América, que apresentou quatro artigos (artigos 4, 7, 9, 12). Em seguida, veio a Austrália, com dois (1 e 2). Os demais países apresentaram um estudo cada: Coreia do Sul (artigo 3), Rússia (artigo 5), Portugal (artigo 6), Alemanha (artigo 8), Israel (artigo 10), Brasil (artigo 11) e China (artigo 12), que se dedicou ao artigo juntamente com os EUA.
Como a maioria dos estudos foram desenvolvidos nos Estados Unidos, o interesse por esse tema pode ser atribuído a questões socioculturais. Gutierrez et al. (2020) afirmam que os EUA têm se dedicado a abordar questões como a relação entre a aparência e o desenvolvimento de gênero. Ademais, os resultados indicaram que muitas regiões não apresentaram nenhum estudo sobre o tema a partir dos critérios de inclusão no escopo da pesquisa, o que revela que esse ainda é um campo pouco abordado, portanto, pouco conhecido pela ciência.
No que se refere aos instrumentos de coleta dos dados, foram utilizados nove tipos de instrumentos distintos nos doze estudos, que foram categorizados de forma não excludente, uma vez que um único estudo pode ter utilizado mais de um. Os instrumentos foram os seguintes: questionário (2, 3, 5, 8, 10, 11); entrevista (2, 5, 6, 9, 12); teste (1, 4, 7, 2); observação (2, 6, 12); escala (3, 6); exames clínicos (10, 11); atividades manuais (8) e experimento (5). Constatou-se que nove pesquisas utilizaram mais de um instrumento. Essa estratégia serve para que um instrumento de coleta complemente o outro e favoreça uma compreensão do fenômeno.
Em relação aos objetivos das pesquisas, foram classificados em quatro categorias: 1) Analisar a autoestima em relação a fatores externos (artigos 1, 2, 3, 6). 2) Analisar a identidade e a preferência de gênero, a autoestima e a rigidez na aparência (artigos 4, 9, 12). 3) Investigar a estética em relação ao trauma dental e à qualidade de vida (artigos 10, 11). 4) Investigar a influência da aparência física no comportamento imitativo e social (artigos 7, 8).
De modo geral, os artigos analisados abordaram questões como autoestima, aparência, estética e gênero em crianças da primeira infância. Nesse sentido, Müller e Hassen (2009) afirmam que é necessário compreender os fenômenos que hoje cercam as crianças e dar-lhes voz na vida social e nas pesquisas. Assim, estudos sobre a infância precisam ser discutidos a partir dos conceitos presentes na sociedade que atravessam seus corpos e seus processos de socialização.
A partir dos quatro eixos temáticos criados nos objetivos, foi possível fazer uma relação com os resultados obtidos, que foram organizados nas mesmas quatro categorias:
1ª categoria: Aqui estão reunidos os resultados em relação à autoestima e a fatores externos e suas correlações. No entanto, esses resultados apresentaram diferenças entre as pesquisas. Em três artigos, a autoestima teve um aumento significativo quando um programa escolar possibilitou o uso de tecnologia (artigos 1, 2) e foram utilizados procedimentos psicopedagógicos (artigo 3). Outra pesquisa concluiu que o relacionamento parental é um preditor da autoestima (artigo 6). Ademais, o quinto estudo revelou que um bom nível de autoestima reduz o comportamento problemático, estimula a autoconfiança e influencia reações positivas nas situações vivenciadas (artigo 3).
Nesse viés, Fedorenko e Bykova (2016) (artigo 5) enunciam que a autoestima contribui para que a personalidade mantenha uma estabilidade, independentemente da mudança de situações. De acordo com Hatzigianni e Margetts (2012, 2010) - (artigos 1 e 2, respectivamente), o uso de computadores na primeira infância traz benefícios para a autoestima, estimula a confiabilidade e melhora o desenvolvimento. Pinto et al. (2015) (artigo 6) concluíram que a qualidade do apego aos pais e a aceitação social são fortes preditores para elevar a autoestima em crianças que estão na primeira infância. Ademais, crianças com alta autoestima tendem a desenvolver autoconfiança e alta criatividade (artigo 3) (Chi et al., 2016).
Os resultados dessa categoria focaram a autoestima e suas variações de acordo com as vivências. Essas pesquisas vão ao encontro do pensamento de Miranda (2007) de que é necessário ampliar as possibilidades de compreender os fenômenos que direcionam o processo de construção da autoestima e a dimensão do afeto em crianças em situações de aprendizado.
2ª categoria: Os resultados referentes à autoestima e à relação com o desenvolvimento de gênero mostraram que a autoestima exerce forte impacto no desenvolvimento precoce de gênero e que o comportamento relacionado à aparência de gênero rígido pode ser observado em crianças da primeira infância de diferentes origens (artigos 9, 4). Por fim, um estudo comparativo (12) mostrou que crianças do Leste Asiático apresentaram rigidez na aparência menos acentuada do que as crianças dos Estados Unidos, que apresentaram uma forte rigidez na aparência. Esses resultados indicam que essa dimensão da rigidez na aparência sofre grande influência do contexto cultural correlato.
Halim et al. (2014), (artigo 9), afirmam que meninos e meninas, ainda durante a primeira infância, demonstram interesse em se vestir de acordo com as expectativas sociais de gênero atreladas ao seu sexo biológico. Sob o ponto de vista de Cvencek et al. (2016), (artigo 4), a partir de cinco anos de idade, as crianças apresentam uma identidade de gênero própria, rigidez na forma de perceber a aparência e já têm uma autoestima. Assim, crianças que têm preferências de gênero consonantes com seu sexo biológico apresentam um alto nível de autoestima. Gutierrez et al. (2020), (artigo 12), que realizaram um estudo comparativo entre crianças dos Estados Unidos e de Hong Kong, demonstraram que as crianças dos EUA demonstraram mais rigidez na aparência do que as de Hong Kong, o que denota a influência sociocultural sobre o desenvolvimento das crianças.
De modo geral, os resultados desta análise apontaram que questões como vaidade e aparência fazem parte da vida das crianças ainda na primeira infância e podem estar relacionadas a questões de gênero. Esse resultado vai ao encontro do pensamento de Miller et al. (2009), que afirmam que, ainda na primeira infância, estereótipos de aparência, como estar sempre arrumadas e belas, vêm à mente mais prontamente quando se refere às meninas. Ainda segundo os autores, os estereótipos de aparência mostram que as crianças respondem mais duramente aos meninos que violam as normas de aparência em relação ao gênero e estão mais propensos aos julgamentos sociais. Por isso, é preciso estar atento ao pensamento de Buss e Stoltz (2020) de que quanto mais inserido um ser está em sua cultura, mais os padrões de beleza culturais influenciam suas práticas.
3ª categoria: Os estudos que se referem à estética dentária e sua relação com a qualidade de vida e com a aparência física divergiram entre si. O primeiro (artigo 10) evidenciou que os pais não consideraram os defeitos dentários de seus filhos como problemas estéticos, no entanto, o segundo (artigo 11) mostrou que o comprometimento estético, advindo de um trauma, como uma queda, por exemplo, impactou negativamente a qualidade da vida das crianças e de seus pais.
No estudo de Holan et al. (2009) (artigo 10), os pais das crianças relataram que, depois de processos de extração de dentes, por exemplo, elas não apresentaram mudanças de comportamento ou problemas de socialização. Todavia, o estudo de Gonçalves et al. (2017), (artigo 11), evidenciou que o comprometimento estético exerce um impacto negativo na vida das crianças e de suas famílias.
Os resultados dessa categoria, em parte, indicaram que a qualidade de vida pode estar relacionada não apenas à saúde bucal, em sua dimensão biológica e física, entendida como uma parte integradora da saúde humana, mas também à sua dimensão estética. Segundo Bastidas (2018), o comprometimento dentário pode gerar problemas psicossociais, associados à autoestima e à estética.
4ª categoria: Os resultados dizem respeito à percepção da aparência física e sua influência no comportamento imitativo e social. Os resultados, frutos da análise de pessoas do mesmo grupo étnico e social, mostraram que a aparência física e questões como gênero e raça não influenciaram o comportamento imitativo de crianças (8). No entanto, outro estudo apontou que a aparência física e os traços faciais influenciaram o comportamento social de prejulgamento. Os resultados mostraram que crianças que ainda estão na primeira infância já definem, por exemplo, quem seria confiável ou não, com base na aparência (7).
Nesse sentido, percepções sociais possibilitam um rápido julgamento de caráter em detrimento da fisionomia e das formas faciais. Segundo Charlesworth et al. (2019) (artigo 7), esses julgamentos passam a ocorrer desde os primeiros anos. Em experimentos, crianças ainda na primeira infância passaram a observar quem poderia ser confiável ou quem executaria comportamentos competentes, como tirar as melhores fotos, com base apenas nos traços faciais. Entretanto, Krieger et al. (2016) (artigo 8) referem que questões de gênero, raça, idade ou idioma não influenciam comportamentos imitativos de crianças da primeira infância.
Em linhas gerais, conceitos envolvidos na formação dos padrões de beleza podem influenciar o comportamento de julgamento. Segundo Buss e Stoltz (2020), a escola e a família, primeiras instâncias socializadoras das crianças, contribuem para formar constructos utilizados no julgamento da aparência em detrimento dos traços faciais, como noções de ‘bonito’ e ‘feio’. Ainda segundo as autoras, a mídia também está presente na construção desses conceitos.
Essas noções de estética se relacionam a como um grupo é representado socialmente, e os negros historicamente foram representados como diferentes e inferiores, o que acaba por influenciar a constituição de uma autoimagem que tem por base a subalternidade (Abramowitz & Oliveira, 2012). Tais representações são reforçadas ainda na infância por diferentes contextos, como o da escola, que por vezes mantém uma estrutura racializada que apresenta efeitos negativos na construção da identidade e da autoestima das crianças negras (Moreira-Primo & França, 2020), e pela literatura infantil, que representa o negro como algo negativo e acaba por deturpar sua imagem. Portanto, é necessária uma maior problematização e discussão entre a temática e os contextos socializadores que também incluem influências midiáticas.
Considerando os resultados obtidos neste estudo, observou-se que questões raciais não foram abordadas quando direcionadas à vaidade e à estética na primeira infância, e pesquisas como a de Ziersch et al. (2011) apontam que o racismo impacta negativamente a autoestima do indivíduo. Além disso, os constructos aqui investigados não foram relacionados a possíveis diferenças entre as crianças de classes sociais diferentes. Por isso, reitera-se que a infância é produzida na interseção entre aspectos sociais e biológicos, que esse é um processo híbrido e que, para compreendê-lo, é necessário mais integração entre as ciências naturais e as sociais (Müller & Hassen, 2009). Diante do exposto, os resultados, de uma forma geral, mostraram que questões como ‘estética’, ‘aparência’ e ‘vaidade’ podem afetar a vida das crianças positivamente ou negativamente, a depender das situações e experiências que elas vivenciam.
Considerações finais
A partir dos resultados obtidos, foi possível constatar que o número de pesquisas empíricas que abordam esse tema ainda é reduzido, visto que apenas 12 artigos compuseram o corpus final da pesquisa. Portanto, é preciso ampliar os estudos acerca desse tema na primeira infância, pois é nesse período que as bases para o nível de autoestima, padrão de beleza e construção das primeiras noções da própria autoimagem são construídas e irão impactar todo o desenvolvimento humano.
De forma geral, observou-se que o tema foi mais estudado pela área da Psicologia, principalmente nas discussões acerca da autoestima e da aparência, e foi mais pesquisado nos Estados Unidos. Os resultados reunidos neste estudo evidenciaram que, quando as noções de estética, aparência e vaidade são direcionadas às crianças, ainda na primeira infância, podem afetar-lhes diretamente a autoestima, a autoimagem e a qualidade de vida. Um olhar atento para como tais aspectos estão sendo desenvolvidos nos primeiros anos de vida é fundamental para que se possa trabalhar de forma preventiva, de modo a evitar o sofrimento de crianças e futuras dificuldades de aceitação da própria aparência nas fases seguintes.
Esta pesquisa apresenta resultados relevantes, no entanto, tem suas limitações. Os constructos utilizados para a busca na base de dados foram limitados aos títulos dos estudos, o que pode ter comprometido uma seleção mais abrangente de pesquisas. Além disso, existem outros tipos de estudo, como teses e dissertações, que podem ser incluídos em futuros estudos.
Por fim, verificou-se que poucos estudos adotaram uma perspectiva de gênero e que não há estudos que tratem do tema considerando as questões relativas à raça nem análises que considerem as diferenças socioeconômicas na faixa etária estudada. Além disso, não foram identificados estudos que visem mostrar como a mídia pode contribuir para a construção de noções de estéticas estereotipadas. Essa escassez é um fator que pode contribuir para invisibilizar o problema experienciado nos primeiros anos de vida. Portanto, em estudos futuros, devem-se fazer investigações que considerem esses aspectos. Convém enfatizar, ainda, a importância de se continuar a fazer pesquisas direcionadas ao tema e adotar intervenções preventivas focadas no problema, para que a diversidade estética seja vivenciada de forma saudável desde a mais tenra idade.
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O conjunto de dados de apoio aos resultados deste estudo está citado no próprio artigo.
Citações de dados
International Prospective Register of Systematic Reviews (PROSPERO). (2015). University of York. http://www.crd.york.ac.uk/PROSPERO/



Fonte: Elaborado pelos autores (2026), adaptado de
Fonte: Elaborado pelos autores (2026).