Proposições metodológicas na intervenção com estudantes com queixa escolar

The center for studies and service for school complaints: reflections on practice

Proposiciones metodológicas en la intervención con estudiantes con queja escolar

Joyce Lúcia Abreu Pereira Oliveira Regina Ingrid Bragagnolo Simone Vieira de Souza Sobre os autores

Resumos

Esta pesquisa descreve uma experiência de intervenção envolvendo estudantes com histórico de fracasso escolar, desenvolvida em um serviço-escola, no curso de Psicologia. O projeto surgiu como extensão universitária, tendo como principais objetivos: 1- compreender o processo de produção do saber de crianças/estudantes encaminhados com queixa escolar; 2- propiciar às crianças/estudantes a possibilidade de dialogar sobre suas necessidades; 3- realizar encontros e orientações com os cuidadores/familiares, no intuito de estabelecer a parceria necessária no atendimento realizado; e 4- refletir com os profissionais da educação as diferentes possibilidades de olhar e pensar a prática junto a crianças/estudantes com dificuldades na escolarização. O trabalho foi estruturado nas três modalidades de atendimento: o atendimento de grupo ao estudante, a escola de pais/cuidadores e o grupo InterAção – realizado com os professores dos estudantes. Conclui-se que a perspectiva teórica e metodológica utilizada promove práticas psicológicas capazes de superar o entendimento dos problemas de escolarização, indo além da lógica patologizante.

fracasso escolar; atuação do psicólogo; psicologia escolar


In this work we describe an investigation conducted by an extension program of the Psychology Course with students who have a history of school difficulties. The project objectives include: to understand the knowledge production process of children-students who have received formal complaints in school; provide the children an opportunity to talk about their needs; organize encounters and orientations with their guardians and family members, to establish the partnership required by the guidance offered; reflect with educational professionals in the schools about different possibilities for seeing and considering the practice in conjunction with the child with difficulties in the schooling process. The work has three modalities: group attendance for students; monthly meetings with parents; and an InterAction group – which includes students and teachers. We argue that the theoretical and methodological perspective promotes psychological practices that go beyond understanding school problems based on a pathological view of students.

academic failure; Psychologist performance; School Psychology


Esta investigación describe una experiencia de intervención abarcando estudiantes con histórico de fracaso escolar, desarrollada en un servicio-escuela, en el curso de Psicología. El proyecto surgió como extensión universitaria, teniendo como principales objetivos: 1- comprender el proceso de producción del saber de niños/estudiantes encaminados con queja escolar; 2- propiciar a los niños /estudiantes la posibilidad de dialogar sobre sus necesidades; 3- realizar encuentros y orientaciones con los cuidadores/familiares, en el intuito de establecer la asociación necesaria en la atención realizada; y 4- reflejar con los profesionales de la educación las diferentes posibilidades de mirar y pensar la práctica junto a niños/estudiantes con dificultades en la escolarización. El estudio fue estructurado en las tres modalidades de atención: el atención de grupo al estudiante, a la escuela de padres/cuidadores y el grupo InterAcción – realizado con los profesores de los estudiantes. Se concluye que la perspectiva teórica y metodológica utilizada promueve prácticas psicológicas capaces de superar lel entendimiento de los problemas de escolarización, y va más allá de la lógica que causa la patología.

fracaso escolar; actuación del psicólogo; psicología escolar


Introdução

O presente trabalho visa descrever os pressupostos teóricos e metodológicos que orientaram a proposta de intervenção do Núcleo de Estudos e Atendimento a Queixa Escolar (NEAQUE), projeto de extensão universitária vinculado ao curso de Psicologia de uma universidade privada.

O projeto iniciou suas atividades em fevereiro de 2010, com o objetivo de atender às necessidades de crianças e adolescentes encaminhados para avaliação e atendimento no Serviço de Psicologia, provenientes, sobretudo, da rede pública de ensino do município. No período de 2000 a 2009 foram triadas 536 crianças com idades entre dois e 12 anos, atendidas por estagiários da 9ª e 10ª fases do curso de Psicologia. Importa esclarecer que se recorreu à pesquisa realizada por Carvalho e Souza (2009) nesta clínica-escola, especificamente no levantamento de prontuários de crianças (com idade entre dois e 12 anos) que passaram pelo processo de triagem e foram atendidas entre 2006 e 2007. Essa pesquisa revelou que a faixa etária que produziu o maior número de encaminhamentos coincide com os primeiros anos de escolarização (sete a dez anos de idade) o maior volume de encaminhamentos é de crianças do sexo masculino e que a tríade de aspectos que produz a quase totalidade dos encaminhamentos se caracteriza por problemas comportamentais, problemas de aprendizagem e problemas emocionais. As principais fontes de encaminhamentos foram as instituições de saúde e escolares.

Desse modo, o NEAQUE surgiu como uma tentativa de responder a duas necessidades observadas no contexto institucional: atender os encaminhamentos de estudantes diagnosticados com dificuldades de aprendizagem com base nas discussões da Psicologia Escolar Crítica e da Psicologia Histórico-Cultural, e e aproximar a discussão relacionada ao tema da queixa escolar com a disciplina Estágio Básico de Observação do Desenvolvimento, cujo foco é analisar as concepções e os procedimentos de observação acerca do desenvolvimento psicológico humano.

Dentro desse espaço de reflexão e formação de futuros psicólogos, desenvolveram-se estratégias teórico-metodológicas baseadas em pesquisas com crianças, pesquisas que se fundaram na perspectiva histórico-cultural (Fernandes, 2007; Souza, 2007; Souza, 2010). Assim, foram problematizadas as práticas que têm pautado as intervenções acerca das dificuldades de escolarização por uma ótica institucionalizadora e patologizante, paradigma que vem mobilizando desafios no que tange às novas perspectivas do olhar sobre a queixa escolar.

Os estudos, as pesquisas e os atendimentos desenvolvidos no NEAQUE dialogam com as novas perspectivas de atendimento ao estudante (Angelucci, 2007; Souza, 2007; Souza, 2002, 2010) e têm como princípio norteador a compreensão do “fracasso escolar” como um fenômeno multifacetado, imbricado numa rede de relações que inclui escola, família e estudante. Com inspiração nesses trabalhos sobre o fracasso escolar, particularmente naqueles referentes às implicações metodológicas de uma abordagem centrada na compreensão das relações em que os estudantes se constituem, optou-se por realizar os atendimentos no NEAQUE, com todos os atores que compõem esse cenário (Patto, 1990; Souza, 2007; Souza, 2010).

Nessa linha de investigação, procurou-se uma definição operacional da queixa escolar que desse conta deste vasto leque de relações sociais estabelecidas pelo estudante e de todo o processo de subjetivação dado pelas dificuldades de escolarização. Por queixa escolar devem-se entender as dificuldades que remetem ao processo de escolarização da criança/estudante e originam encaminhamentos de avaliação psicológica ou atendimento individual. Os pais/responsáveis chegam aos serviços (escola ou postos de saúde) por solicitação dos professores, especialistas ou diretores, algumas vezes como condição de permanência do estudante no estabelecimento escolar. No contexto atual, em pleno século XXI, explicações recorrentes sobre as causas do não aprender da criança/estudante recaem nela e no seu organismo. Assim, a perspectiva de refletir sobre a constituição do sujeito numa trajetória atravessada por uma queixa escolar mobiliza pensá-la numa especificidade: a criança/estudante que se constitui em meio a uma queixa escolar, vivencia, muitas vezes, experiências de humilhação que produzem situações de exclusão, sendo que essas experiências são subjetivadas e geram sentidos a sua existência. A perspectiva em abordar os sentidos expressa a relação do sujeito, criança/estudante com os significados sociais da queixa escolar, partilhados na ação humana.

Dessa discussão, depreendem-se as reflexões de Souza (2007) no estudo sobre os funcionamentos escolares e o sofrimento do estudante, que advém do fracasso escolar. Nos meandros da discussão, a autora imprime, na leitura do fenômeno, a concepção de que o aluno se constitui na relação com o outro, sendo premente pensar o espaço escolar em que a criança está ou esteve. No tensionamento do diálogo, são apontados, com propriedade, os funcionamentos escolares que produzem tanto estudantes fracassados, quanto pais e professores fracassados.

Juntando-se ao debate sobre toda essa trama Fernandes (2007) fez um estudo sobre as práticas dos atores sociais envolvidos na produção do aluno-problema, analisando o projeto de implementação do Serviço de Psicologia em uma escola pública de João Pessoa. Conforme a autora e pesquisas de estudiosos que a precederam, a Psicologia, quando entrou no cenário escolar, reforçou e legitimou a produção de teorias que engendravam explicações sobre o fracasso escolar geridas pelos discursos das diferenças individuais, diagnosticando e tratando o fracasso escolar por meio de discursos e intervenções individualizantes.

Fernandes (2007, p. 147) explicita:

Na escola pública brasileira podem ser identificadas várias práticas que silenciam e petrificam as crianças das camadas empobrecidas atravessadas pela culpa do baixo desempenho escolar e social. As relações são autoritárias, burocratizadas e hierarquizadas e há a cobrança de um conhecimento que a criança pobre só poderá produzir na escola, sendo que esta não fornece condições adequadas para tal. Atualizam-se discursos e ideias preconcebidas sobre as famílias que, vítimas dessa mesma escola, se submetem ao processo de culpabilização.

Diante desse cenário, um volume de pesquisas brasileiras tem construído um referencial teórico no que tange ao tema, localizando-se aí três momentos distintos. O primeiro momento, marcado por uma perspectiva mais clínica e biologizante, traz na pauta as explicações do fracasso conforme a teoria da carência ou a teoria da diferença cultural (a referência crítica a essa perspectiva são os estudos apresentados por Maria Helena de Souza Patto); e no segundo momento, tem continuidade os próprios estudos de Patto e os pesquisadores formados por essa autora; e no terceiro momento (contexto atual), os estudos se voltam para as questões teóricas e metodológicas sobre o porquê de a criança/estudante não aprender, refletindo possibilidades de intervenção. Ao olhar o fracasso, busca-se aqui construir referências para a mudança dessa realidade, com vista a compreender o fenômeno a partir da perspectiva da criança, considerando o seu processo de escolarização, utilizando-se, entre outras, as pesquisas de Adriana Machado Marcondes, Angela Fernandes, Beatriz de Paula Souza, Carla Biancha Angelucci, Flávia da Silva Ferreira Asbahr. Este terceiro momento se constitui por grupos de pesquisadores que se inserem nas discussões da Psicologia Escolar e Educacional crítica, as quais são tomadas como referência nos estudos e pesquisas desenvolvidos no NEAQUE.

Diante do exposto, compreende-se que a exclusão e o fracasso escolar têm resultado de uma concepção de estudante, de sociedade e de educação que ainda entende as diferenças que constituem o sujeito como naturalmente dadas, partindo de uma prerrogativa determinista e biologizante na compreensão do fenômeno. Tem-se então um cenário no qual estudantes em situação de fracasso escolar são sentenciados e as dificuldades de aprendizagem são patologizadas. Por outro lado, um número significativo de estudantes segue com dificuldades que os impedem de efetivar a sua aprendizagem, incluídos nas salas de aula, mas num processo de “inclusão excludente”, visto que as ações promovidas pelos estabelecimentos escolares não conseguem garantir, na maioria das vezes, uma prática que vá além da sua entrada na escola, ou seja, não conseguem assegurar a sua permanência e o acesso ao saber.

Desdobramentos metodológicos: o cenário das intervenções

Nesse momento realiza-se um exercício didático de sistematização das frentes de trabalho do NEAQUE, com a intenção de repertoriar as práticas de atendimento organizadas em três modalidades de pesquisa-intervenção relacionadas à criança com queixa escolar, quais sejam: atendimento de grupo aos estudantes, com periodicidade semanal; grupos de pais/cuidadores, com encontros mensais com os pais/cuidadores das crianças; e o grupo InterAção, realizado com as professoras dos estudantes participantes do núcleo.

Considerando-se as três modalidades de atendimento realizadas pelo NEAQUE e a articulação desenvolvida pela disciplina de Estágio Básico, os principais objetivos são: 1- compreender o processo de produção do saber da criança/estudante encaminhado com a queixa escolar; 2- propiciar às crianças/estudantes a possibilidade de dialogar sobre suas necessidades; 3- realizar encontros e orientações com os cuidadores/familiares, com vista a estabelecer a parceria necessária no atendimento realizado; 4- refletir com os profissionais da educação (escolas) as diferentes possibilidades de olhar e pensar a prática junto à criança/estudante com dificuldades no processo de escolarização; e 5- implementar um espaço de estudo e pesquisa envolvido com a extensão universitária e com as demandas anunciadas pela comunidade.

Vale ressaltar que esses objetivos são constantemente reconstruídos, modificados ou reatualizados, e investidos de novo significado diante das demandas oriundas desse contexto específico. Essas ações de trabalho no atendimento a crianças com queixa escolar têm sido definidas como serviço da Psicologia, no entanto tem-se cuidado de garantir o acolhimento das demandas específicas, com vista a evitar modelos prontos de atendimento em que não é possível encaixar demandas em alguma solução fácil e preestabelecida. Assim, buscou-se refletir sobre a política de encaminhamentos advinda do cenário educacional com a singularidade de cada história, analisando-se o processo de produção de exclusão/inclusão e de fracasso escolar que se constitui no interior do próprio estabelecimento de ensino, bem como as relações estabelecidas no âmbito familiar, contrárias às normas hegemônicas, a fim de compreender o lugar que cada criança ocupava dentro da configuração familiar, e como elas ordenavam suas práticas e entendiam sua existência.

Amostra e instrumentos

No primeiro semestre de 2010 foram organizados dois grupos - um no período matutino e um no período vespertino -, cujos encontros tinham duração de uma hora e trinta minutos e ocorriam, semanalmente, perfazendo um total de aproximadamente treze encontros ao longo do semestre. No grupo matutino havia cinco crianças com idade entre seis e oito anos (quatro meninos e uma menina), enquanto do grupo vespertino participavam cinco estudantes com idades entre treze e catorze anos (três meninos e duas meninas) – todos provenientes de escolas públicas da região da Grande Florianópolis. Além das crianças, participaram dos encontros os pais/cuidadores e as professoras dos estudantes que participavam desse projeto.

Foram utilizados roteiros de entrevista, desenhos, redações, vídeos, diários, fotografias, cartas, brinquedos, jogos, literatura infanto-juvenil, revistas, sites da internet, cadernos escolares e avaliações como recursos técnicos nos encontros com os estudantes. Destaca-se que foram planejadas técnicas a partir das narrativas das crianças, com a intenção de potencializar as diversas ações que marcam o processo de produção do saber da criança. Dessa forma, utilizaram-se, como ponto de partida as reflexões de Pires (2007) e Freller (2001), que permitem discutir os métodos e técnicas utilizados nos estudos e nas observações sobre crianças, problematizando-se o lugar que o adulto deve ter nessa interação.

Assumiu-se, então, o compromisso de ouvir as crianças/estudantes, de ouvir as histórias que contavam sobre si mesmas, ou seja, os sentidos que imprimiam à sua trajetória de escolarização - crianças/sujeitos que expressavam sua compreensão sobre o que se vive na escola. Nesse sentido, rompeu-se com os modelos pautados pela ótica normatizadora e de enquadramentos, presentes nos pedidos que chegavam ao Serviço de Psicologia, indo ao encontro de uma perspectiva que busca “[...] conhecer o que elas pensam e sentem sobre temas que lhes dizem respeito” (Cruz, 2010, p. 11).

Procedimentos

A seguir, descrevem-se as três modalidades de intervenção desenvolvidas no NEAQUE e sua articulação com o Estágio Básico, utilizando-se para isso diferentes procedimentos, os quais são expostos e descritos a seguir.

Modalidade de atendimento individual com o(a) estudante

O primeiro procedimento metodológico realizado denominou-se triagem. Foi realizado pelos(as) estudantes do curso de Psicologia, no Estágio Básico de Observação do Desenvolvimento, com a intenção de identificar a demanda e realizar o encaminhamento para atendimento em grupo no NEAQUE, quando a queixa era relacionada ao universo escolar. Realizava-se, então, uma entrevista inicial com os pais ou responsáveis pelo estudante, com o objetivo de levantar dados sobre as características do contexto sociocultural do sujeito, sobre sua história e vivência, e sobre suas expectativas em relação ao atendimento psicológico.

Após esse contato inicial, eram realizados de cinco a sete encontros de uma hora de observação participante com os estudantes, em horário definido conjuntamente, observando-se os cuidados éticos necessários. Nesses encontros priorizava-se a interação como forma de garantir o estabelecimento do vínculo com o estudante, assim como a observação a partir da técnica de registro contínuo e/ou de registro de observação participante. Ademais, a documentação era centrada nos seguintes aspectos: dinâmica das interações sociais, formas de comunicação e linguagem do(s) sujeito(s) e dinâmica das práticas sociais de que se participava: com quem, como e qual o papel/lugar social desempenhado pelo sujeito por meio dessas práticas. A documentação centrava-se também na identificação das características do contexto cultural em que se inseria: a comunidade, a família, a escola, outras instituições, etc. O foco era centrado na história pessoal e escolar do estudante, ilustrada por seu material escolar, assim como pelas dificuldades que enfrentavam. Além da descrição desses itens, no registro eram descritas as percepções observadas pelo(a) estagiário(a) no desenvolvimento dos atendimentos, visto que se considerava que, no processo, o acadêmico estava inserido num contexto. Neste sentido, as narrativas e os sentimentos partilhados mobilizavam ressonâncias nessa relação intersubjetiva. Ao final dessa primeira modalidade de atendimento, era realizada entrevista devolutiva com todos os envolvidos, às vezes juntos, às vezes em separado, retomando-se as principais questões trabalhadas e dialogando-se coletivamente sobre os desdobramentos, encaminhamentos e orientações.

Modalidade de atendimento em grupo com estudantes

Ao término do atendimento individual alguns estudantes foram encaminhados para o atendimento na modalidade de grupo. Todas as crianças/estudantes tinham em comum uma queixa escolar. Um dos pontos marcantes do trabalho realizado com as crianças foi a ênfase no cuidado com a aproximação realizada, buscando-se uma relação de confiança e oferecendo-se um espaço “seguro” para que elas se sentissem convidadas a ocupar o seu lugar como quisessem e como pudessem, com a garantia de que não estariam sendo julgadas e avaliadas. Registra-se aqui um momento que, de acordo com a percepção das pesquisadoras e da vivência com as crianças, exemplifica como ocorreu o processo de subjetivação da queixa escolar, do fracasso, da vergonha da exposição. Encontravam-se (ali, no grupo) crianças marcadas pelo olhar do “outro”, que as constitui, que as qualifica ou as despersonaliza; e na interdição observada no estudante que falava de si e de suas experiências, o desconforto tocou e afetou as observadoras: algumas crianças, apesar de terem pouco tempo de vida escolar e apenas oito anos de idade, apresentavam - seja nos silêncios, seja nos corpos “fletidos” ou nos olhares vagos -, arranhaduras que as identificavam como sujeitos incapazes, com crianças com problemas. Por subjetivação entendeu-se o movimento no qual o estudante, numa experiência repetida de humilhação, exclusão e palavras pejorativas pronunciadas sobre si pelo “outro”, vai se apropriando desses olhares e discursos e assim passa a ocupar o lugar de incapaz.

No primeiro encontro realizado, solicitou-se a presença dos pais/cuidadores junto aos filhos. Nesse encontro os pais tiveram a oportunidade de expressar suas expectativas e pedidos ao grupo; em seguida, os filhos puderam se posicionar em relação ao que pensavam sobre o que fora dito pelos pais. O encontro foi finalizado com a apresentação da proposta do grupo e com as informações relacionadas à pesquisa de doutorado (que seria realizada no grupo): os objetivos, os procedimentos e a liberdade para desistir. Após os esclarecimentos, os participantes preencheram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, pois, como o trabalho era de pesquisa para doutoramento de uma das autoras, o projeto fora encaminhado ao Comitê de Ética em Pesquisa e por ele aprovado.

Modalidade de atendimento com os familiares – Grupo de pais/cuidadores

A modalidade de atendimento aos familiares foi intitulada Grupo de pais/cuidadores. Partiu-se do pressuposto de que esse seria um espaço onde os sujeitos poderiam compartilhar suas experiências e aprendizagens com o grupo, ou seja, os familiares seriam partícipes do processo. Os objetivos dos encontros consistiam em: 1- promover um espaço de inter-relação entre os integrantes do grupo de pais/cuidadores, e entre estes e as mediadoras, e estabelecer uma relação de parceria com os pais/cuidadores para atender às necessidades de seus filhos; 2- possibilitar aos pais/cuidadores a expressão de suas necessidades quanto ao cuidado com os seus filhos; e 3- criar condições para que os cuidadores pudessem ressignificar experiências relativas às queixas escolares de seus filhos.

Os encontros foram realizados mensalmente e cada um durou aproximadamente duas horas. Os pais/cuidadores foram consultados desde o princípio do grupo, estimulando-se sua participação e enfatizando-se a importância dos encaminhamentos que seriam tomados no percurso das atividades. Em face deste contexto, a escolha do horário e do dia da semana em que aconteceriam os encontros e em que os temas seriam discutidos foi feita pelo grupo, priorizando-se o espaço como exercício de coletividades.

Parceria estabelecida com as profissionais da educação – InterAção

A parceria com os profissionais da educação foi motivada pela necessidade de compreender os temas que se colocavam no intercurso do processo de ensino e aprendizagem (trajetória de escolarização), a forma como a criança lida com o processo de institucionalização, a cultura institucional e outros aspectos da questão. Dessa forma, foram realizados de dois a três encontros com os profissionais da educação (professores, equipe pedagógica e direção) na unidade escolar. O contato inicial na instituição se deu já no início do atendimento individualizado com o(a) estudante, e, na sequência, durante os atendimentos da modalidade em grupo.

Os debates propostos nesses encontros nas instituições educacionais duravam em torno de uma hora e trinta minutos. Destaca-se que a opção pela ida até a instituição escolar foi motivada pela dificuldade dos profissionais de deslocar-se em horário de trabalho, em função das condições do exercício de sua atividade. Assim, tinha-se uma conversa inicial com o(a) estudante sobre essa visita à escola e sobre o diálogo que ali se desenvolveria, e buscava-se acordar um possível encontro nesse espaço. Em algumas oportunidades observou-se que a instituição se relacionava com o estudante de maneira estigmatizante, e, consequentemente, o lugar que o estudante ocupava no cenário escolar revelou a necessidade de se promover sua inclusão escolar.

Alguns aspectos abordados nessas reflexões/diálogos e seus desdobramentos no trabalho de intervenção são descritos na sequência.

Dentre tais aspectos, destaca-se a problematização dos significados que as profissionais de educação, a equipe pedagógica e a direção observaram em relação à dificuldade de aprendizagem. Nas suas narrativas, levantavam a hipótese de que a dificuldade do estudante estaria atrelada às condições socioeconômicas, o que fez com que as críticas se remetessem à carência cultural, aos problemas neurológicos ou ao analfabetismo de algum familiar. A todas essas concepções foram acrescentadas perguntas para confirmar suas hipóteses e legitimá-las pelo saber psicológico.

Nessa direção, um dos primeiros aspectos abordados foi o fato de o(a) psicólogo(a) não possuir hipóteses diagnósticas “verdadeiras” sobre as dificuldades do aluno. Foi proposta, então, uma análise dos(as) estudantes pelo princípio relacional, em que o modo como o(a) aluno(a) opera pode ser entendido a partir das suas significações apreendidas em suas relações afetivas e sociais com a família e a escola.

Outro aspecto evidenciado na fala dos professores esteve atrelado à dificuldade das condições de trabalho e à necessidade de se pensarem recursos metodológicos para cada aluno(a). Tal questão aponta a necessidade de apoio/assessoria sistematizado para se avaliarem coletivamente as práticas pedagógicas e se pensarem subsídios metodológicos que contemplem a especificidade de cada aluno(a).

Resultados e discussão

Não se tem aqui espaço suficiente para repertoriar os resultados desse trabalho de intervenção, em que as trajetórias subjetivas de cada criança fazem pensar em processos de subjetivação marcados pela lógica patologizante e biomédica. Não é por acaso que, para refletir sobre as experiências práticas do NEAQUE, os integrantes dessa proposta têm que realizar um exercício de autorreflexão, conforme sugere Geertz (1999), no sentido de estranhar o familiar. Afinal, como virar a lente analítica quando se fala da própria experiência? A intenção é compartilhar/dialogar sobre as experiências vividas, com a intenção de pensar o posicionamento ético-político inerente a essa prática.

Em relação ao grupo de crianças, teve-se como pressuposto metodológico a iniciativa de mobilizar o estudante para que se colocasse como um ser ativo, pensante e criativo. Assim, a cada encontro esses estudantes se permitiam olhar e refletir sobre a situação que estavam vivendo. Embora não se obtivesse o mesmo resultado da relação de cada criança com o atendimento, devido ao modo singular de cada um lidar com esse atendimento, procurou-se valorizar suas experiências, ressignificando seu olhar sobre a escola, no sentido de que ela se percebesse como sujeito potencialmente capaz. Assim, pensar a criança/estudante como foco dos estudos e atendimentos no NEAQUE trouxe um convite: abandonar a forma como historicamente a criança tem sido percebida e negada, ou seja, como aquela que ela ainda não é, ou que ainda não compreende por ser imatura, e assumir uma compreensão da categoria criança que se filia às pesquisas e aos autores que a problematizam como um ator social, agente e produtor de culturas e de infâncias (Quinteiro, 2007; Sant’ana, 2010).

Em relação aos encontros com os familiares, considerou-se relevante a participação da família no acompanhamento ao estudante, bem como seus relatos acerca da relação estabelecida com a escola. Deve-se destacar que houve uma participação importante dos pais/cuidadores, tanto em número quanto no uso da sua “voz”, seja na verbalização de pedidos, seja no compartilhamento de percepções relacionadas ao universo escolar, que personificaram reivindicações legítimas dessa relação. Pôde-se perceber-se uma mudança – ainda que tímida – na compreensão dos pais/cuidadores e educadores sobre as crianças/estudantes com dificuldades na escolarização, ou seja, houve a produção de novos sentidos e significados para elas no seu desempenho/percurso escolar.

Em alguns encontros, tanto os pais/cuidadores quanto alguns professores sinalizaram que a dificuldade de aprendizagem do estudante não poderia se justificar como um problema somente da criança, enquanto outros, mesmo demonstrando, em sua prática, comprometimento com uma perspectiva de atenção individualizada ao estudante, buscavam, no decorrer dos encontros, o diagnóstico: “Esse menino deve ter algo mais, não sei, uma dislexia, talvez...”. Quanto aos pais, percebia-se, em alguns relatos, uma fala já enviesada sobre as possíveis causas dos “problemas” da não aprendizagem do filho; nesses casos, a fala dos pais reproduzia os discursos da escola.

O grupo de pais/cuidadores trouxe outros fragmentos sobre a história da criança, da sua família e/ou de suas mediações. Em cada fato vivido e partilhado havia algumas surpresas e semelhanças; histórias de vida se repetiam – uma história de interdição que fora vivida pelo pai e se atualizava na história do filho (com expressões de uma infância marcada pela falta). Seria esse um fenômeno hereditário? Não; acredita-se que certamente eram experiências sociais, mediações “datadas” e situadas historicamente, nas quais o sujeito se constitui.

Dentro dos pressupostos em que o projeto se sustentou, foi possível pensar em sua viabilidade enquanto delineamento de uma reflexão, prática e produção de conhecimento que atendessem às demandas observadas nos encaminhamentos das escolas do município de Palhoça, em Santa Catarina, recebidas pelo Serviço de Psicologia, conforme pesquisa realizada nos anos de 2000 a 2009. A tais demandas se contrapunha a política de legitimação dos problemas escolares, buscando-se pensar em práticas de intervenção a partir de análises envolvendo os diversos atores que figuram no cenário escolar (Carvalho, & Souza, 2009).

O contato com os pais trouxe a possibilidade de promover o desvio, deixar suspenso o diagnóstico/sentença e instaurar a dúvida da queixa/problema. Algumas partilhas fizeram redefinir rotas, preparar novas estratégias, escolher outras companhias, descobrir novos sabores, errar, perceber o erro e o limite - mas, indiscutivelmente, também deixar-se conduzir pelo desejo de fazer de novo - e agora, de um jeito novo...

Considerações finais

No atual contexto parece possível afirmar que a queixa escolar e as várias terminologias que a ela remetem tornaram-se um dos temas mais discutidos, tanto na área da Educação quanto na da Psicologia; e no debate das áreas e entre as áreas, surgiram algumas tensões, denúncias, pedidos, desencontros, mas também apareceram novos horizontes possíveis. Em relação à compreensão da temática, algumas indagações se fizeram capturar:

- Como pensar em estratégias de intervenção (com todos os atores envolvidos no processo) comprometidas com uma escola que consiga, de forma mais contundente, dar uma resposta às necessidades prementes dos estudantes com queixa escolar, seus familiares e professores?

- Como viabilizar espaços de diálogo entre e com os atores, intensificando a parceria, a soma -um diálogo que se contraponha às falas acusatórias que mobilizam defesas diante do discurso da culpabilização, de que todos se tornam reféns?

- Como driblar os impasses? Como criar os novos possíveis a partir dos velhos encaminhamentos, dos antigos rótulos (passaportes para a segregação e a exclusão)?

Como descrito, o encontro com os cuidadores/pais dos estudantes que participaram do NEAQUE trouxe elementos para fazer pensar sobre a lacuna existente em relação às atividades relacionadas ao tema. Parece possível afirmar que o vazio e a angústia criaram o desamparo entre todos que estão envolvidos com a cena escolar, sobretudo a angústia relacionada ao estudante que “não aprende”.

Essas reflexões permitiram pensar na construção coletiva de novas concepções e olhares acerca do estudante e da escola. Afirma Martinez (2007, p. 103):

Enxergar a escola, não como uma instituição social que apenas favorece ou desfavorece algo potencial que o indivíduo tem como inerente, mas como um dos espaços sociais de sua constituição, permite valorizar de forma diferente as possibilidades de ações intencionais direcionadas a contribuir para que esse espaço possa brindar possibilidades reais de aprendizagem e desenvolvimento para todos os sujeitos.

Às discussões somaram-se reflexões oriundas da teoria e da prática da Psicologia Escolar e da Educação que têm procurado denunciar o modelo recorrente em que essa área da Psicologia vem atuando, formalizando críticas que expressam a fragilidade do modelo tradicional ao pensar/encaminhar os temas que se relacionam com essa questão. Então, o que fazer dentro das fragilidades anunciadas? Um dos avanços seria deslocar a ênfase do sujeito e, nos diversos contextos em que o estudante está inserido, pautar o olhar e a ação pelo diálogo - necessário a todos os envolvidos - para dar conta do fenômeno complexo da temática da queixa escolar que caracteriza o espaço escolar e as relações que nele se desenvolvem (Patto, 1990; Angellucci, Kalmus, Paparelli, & Patto, 2004). Para isso, faz-se necessário garantir o entrecruzamento das relações com a escola, com a família e com a própria criança no tocante ao processo de desenvolvimento da criança/estudante.

Num retorno ao título do artigo (Núcleo de Estudos e Atendimento à Queixa Escolar: reflexões sobre a prática), entende-se que, na ação de apresentar delineamentos e reflexões, também foi se explicitando uma forma possível de compreender o estudante encaminhado com queixa escolar: o diálogo com os cuidadores/familiares e com a escola, no sentido de estabelecer a parceria necessária no atendimento realizado, a partir de diferentes possibilidades de olhar e pensar a prática com crianças/estudantes que apresentem dificuldades no processo de escolarização.

O NEAQUE permanece em atividade em 2013 e tem se expandido como núcleo de referência no estudo e atendimento ao estudante com problemas na escolarização. Atualmente é uma modalidade de atendimento no serviço de Psicologia que se tornou potente e com visibilidade no município de Palhoça. Tem estabelecido parcerias importantes - por exemplo, com o Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) -, e com isso se produziram avanços nas intervenções, inaugurando-se um diálogo intersetorial.

  • Este trabalho foi apresentado na modalidade oral no II Seminário Internacional “Contributos da Psicologia em Contextos Educativos”, Universidade do Minho, Portugal e publicado nos Anais com o título: Proposições Metodológicas na Intervenção com Estudantes com Histórico de Fracasso Escolar: Desafios da Psicologia no Atendimento junto à Família e à Escola, em Julho/2012.

Referências

  • Angelucci, C., Kalmus, J., Paparelli, R., & Patto, M. H. S. (2004). O estado da arte da pesquisa sobre o fracasso escolar (1991-2002): um estudo introdutório. Educação e Pesquisa, 30(1), 51-72.
  • Angelucci, C. (2007). Por uma clínica da queixa escolar que não reproduza a lógica patologizante. Em B. de P. Souza (Org.). Orientação à Queixa Escolar (pp.353-378). São Paulo: Casa do Psicólogo.
  • Carvalho, D. C. de, & Souza, S. V. de. (2009). Fracasso escolar: um tema ainda atual na formação de professores? Em D. C. de Carvalho, & cols. (Orgs.) Relações interinstitucionais na formação de professores (pp. 85-102). Araraquara, SP: Junqueira & Marin; Florianópolis, SC: FAPEU.
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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    Sep-Dec 2014

Histórico

  • Recebido
    01 Abr 2013
  • Revisado
    12 Dez 2013
  • Aceito
    18 Dez 2013
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