Oficinas em Instituições de Educação Infantil: compromisso ético da vinculação pesquisa-extensão

Talleres en las instituciones de educación de la primera infancia: el compromiso ético de la vinculación de la investigación-extensión

Workshops in Early Childhood Education Institutions: ethical commitment of the linkage research-extension

RELATO DE PRÁTICA PROFISSIONAL

Oficinas em Instituições de Educação Infantil: compromisso ético da vinculação pesquisa-extensão

Workshops in Early Childhood Education Institutions: ethical commitment of the linkage research-extension

Talleres en las instituciones de educación de la primera infancia: el compromiso ético de la vinculación de la investigación-extensión

Lauren Beltrão GomesI; Simone Dill Azeredo BolzeII; Carina Nunes BossardiIII; Beatriz SchmidtIV; Maria Aparecida CrepaldiV; Mauro Luís VieiraVI

IUniversidade Federal de Santa Catarina

IIUniversidade Federal de Santa Catarina

IIIUniversidade Federal de Santa Catarina

IVTribunal de Justiça do Estado do Paraná

VUniversidade Federal de Santa Catarina

VIUniversidade Federal de Santa Catarina

A pesquisa científica envolve, além do rigor metodológico, comprometimento com princípios éticos e responsabilidade social. Durante ou após a realização da pesquisa é importante considerar o papel ativo dos participantes no processo de produção do conhecimento (Szymanski & Cury, 2004). Assim, as universidades têm se preocupado em realizar projetos que ampliem conhecimentos e prestação de serviços à comunidade (Rodrigues, Pereira, & Souza, 2011).

No tocante à criança, dois campos propícios favorecem a adoção do princípio de produção e aplicação do conhecimento de modo simultâneo: a família e a escola. Uma relação dinâmica entre esses contextos traz implicações decisivas ao desenvolvimento infantil saudável e ao sucesso escolar, de modo que a existência de canais de comunicação e de espaços de integração entre a família e a escola é positiva para a criança (Dessen & Polonia, 2007; Silveira & Wagner, 2009). Em termos teóricos, a perspectiva sistêmica tem se mostrado eficiente para entender as inter-relações entre os contextos de inserção da pessoa (Dessen & Costa Jr., 2005).

Nesse sentido, o "Ciclo de Oficinas sobre Psicologia do Desenvolvimento em Instituições de Educação Infantil" é um projeto de extensão realizado por alunos de pós-graduação e de graduação em Psicologia com a finalidade de promover o debate com familiares de pré-escolares e profissionais da Educação Infantil acerca de aspectos individuais e sociais de temas ligados à infância e aos cuidadores.

Essa atividade está vinculada ao projeto de pesquisa "Transmissão intergeracional da violência: a relação do conflito conjugal e parental com a agressividade entre pares de crianças de quatro a seis anos" (TIV), desenvolvido desde 2009 por pesquisadores da Universidade Federal de Santa Catarina em parceria com pesquisadores de duas instituições canadenses (Universidade de Montreal e Universidade do Quebec, em Montreal). Foram entrevistados 150 casais (pais e mães) de crianças de idade entre quatro e seis anos e 54 professores, com o objetivo de estabelecer um elo entre violência conjugal, violência parental e agressividade das crianças com seus pares, propondo um modelo de transmissão intergeracional de estratégias de gestão de conflitos. São parceiras desse projeto 26 Instituições de Educação Infantil (IEIs) (dezesseis públicas e dez privadas) situadas em quatro municípios do Estado de Santa Catarina.

Os pesquisadores ofereceram oficinas a todas as IEIs participantes. Sete instituições públicas localizadas em um dos municípios nos quais se desenvolveu o projeto TIV, manifestaram seu aceite. Tendo-se identificado as principais demandas sinalizadas por educadores das IEIs, tiveram início as oficinas, as quais tiveram como temas o desenvolvimento da agressividade na infância e a imposição de limites ao comportamento agressivo, bem como a importância da boa relação entre a família e a escola para o desenvolvimento saudável das crianças.

Entre os meses de março e outubro de 2012 realizou-se uma oficina em cada uma das sete IEIs. Tal atividade contou com pelo menos dois ministrantes, alunos de pós-graduação e de graduação em Psicologia, e teve cerca de uma hora e trinta minutos de duração. Participaram 135 pessoas, sendo a maioria mães (65%). Os pais, embora em número menor (10,4%), também se fizeram presentes. Os profissionais das instituições corresponderam a 24,6% do total de participantes. Em uma das IEIs, conforme solicitação da direção, apenas professores e membros da coordenação participaram da oficina. Crianças também estiveram presentes, em virtude de muitos pais não contarem com cuidador para os filhos no período dos encontros. Para envolvê-las em atividades e garantir a atenção dos pais, foram oferecidos materiais para desenho e pintura, paralelamente às oficinas.

Os coordenadores propunham a dinâmica inicial apresentando um vídeo que trazia cenas de um contexto familiar conflituoso, em que os pais enfrentavam dificuldades em lidar com o comportamento agressivo dos filhos. A seguir, os participantes eram questionados sobre suas percepções acerca do vídeo, buscando-se refletir a respeito dos comportamentos que a criança pode manifestar em diferentes fases do desenvolvimento e atitudes a serem tomadas em cada situação.

Procurou-se debater sobre até que ponto e em quais circunstâncias a agressividade faz parte dos processos de adaptação e maturação da criança, evitando-se a armadilha de entender todos os comportamentos agressivos como patológicos (Picado & De Rose, 2009). Para tanto, foram utilizados exemplos de situações reais trazidos por participantes e ministrantes, bem como histórias em quadrinhos que expressavam, ilustrativamente, a importância do diálogo entre pais e filhos, de dizer "não" e de permitir que as crianças tomem pequenas decisões. Ao final, discutiu-se sobre as funções e os papéis da família e da escola como contextos de desenvolvimento fundamentais para a trajetória de vida das pessoas.

Embora houvesse planejamento prévio, os ministrantes procuraram estar atentos às demandas de cada grupo, de forma a nortear a oficina em função da realidade local, identificando potencialidades e recursos familiares, institucionais e comunitários. Pais e professores relataram que os assuntos abordados foram úteis para lidar com a criança no dia a dia e evidenciaram a necessidade de aprofundar discussões sobre temas como limites, disciplina, agressividade e formas de agir nas diferentes fases da trajetória desenvolvimental infantil. Esse procedimento vai ao encontro do princípio segundo o qual os participantes têm papel ativo no processo da produção e socialização do conhecimento (Szymanski & Cury, 2004).

Conclui-se que o projeto de extensão atingiu seu objetivo central: tornar dinâmica a produção do conhecimento gerado pela pesquisa científica entre pesquisadores de distintos níveis (professores, alunos de pós-graduação e de graduação), famílias e instituições participantes, a fim de alavancar mudanças nas práticas parentais e educacionais, no sentido de promover o desenvolvimento infantil. A partir do pressuposto anunciado no início deste relato sobre a responsabilidade ética e social da produção científica, evidencia-se a importância de criar e fortalecer ações que favoreçam a comunicação entre a academia e a população investigada. Assim, possibilita-se a aplicabilidade prática do conhecimento científico por meio de cursos ou palestras aos participantes de pesquisas, o que também contribui para a formação profissional dos estudantes e a promoção da cidadania de todos os atores envolvidos no processo de produção do conhecimento.

Agradecimentos:

À Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) e ao Conselho Nacional de Pesquisa (CNPQ).

Às Secretarias Municipais de Educação, às instituições de educação infantil, às famílias participantes e aos pesquisadores e colaboradores envolvidos na pesquisa intitulada "A transmissão intergeracional da violência: a relação do conflito conjugal e parental com a agressividade entre pares de crianças de quatro a seis anos", notadamente Elisangela Boïng, Natália Pinheiro Scatamburlo, Rovana Kinas Bueno e Liziara Portela.

Recebido em: 17/10/2012

Reformulado em: 01/11/2012

Aprovado em: 29/01/2013

Sobre os autores

Lauren Beltrão Gomes (laurenbeltrao@yahoo.com.br)

Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Mestre em Psicologia (UFSC), Doutoranda em Psicologia (UFSC)

Endereço: Rua Regente Feijó, 251/102, Itoupava Seca, Blumenau, Santa Catarina, Brasil, CEP 89035-410.

Simone Dill Azeredo Bolze (simoneazeredo@yahoo.com.br)

Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Mestre em Psicologia (UFSC), Doutoranda em Psicologia (UFSC)

Endereço: Rua Desembargador Pedro Silva, 1952/102/T3, Coqueiros, Florianópolis, Santa Catarina, Brasil, CEP 88080-700.

Carina Nunes Bossardi (carinabossard@yahoo.com.br)

Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Mestre em Psicologia (UFSC), Doutoranda em Psicologia (UFSC)

Endereço: Rua Capitão Romualdo de Barros, 776/BlA-204, Carvoeira, Florianópolis, Santa Catarina, Brasil, CEP 88040-600.

Beatriz Schmidt (psi.beatriz@gmail.com)

Tribunal de Justiça do Estado do Paraná (TJ/PR), Mestre em Psicologia (UFSC), Psicóloga Judiciária (TJ/PR)

Endereço: Rua Visconde de Guarapuava 140/03, Brejatuba, Graratuba, Paraná, Brasil, CEP 83280970,

Maria Aparecida Crepaldi (maria.crepaldi@gmail.com)

Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Doutora em Saúde Mental pela Universidade de Campinas (UNICAMP), Docente do Departamento de Psicologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)

Endereço: Rua Volny Martins 115/04, Córrego Grande, Florianópolis, Santa Catarina, Brasil, CEP 88037-245,

Mauro Luís Vieira (maurolvieira@gmail.com)

Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Doutor em Psicologia Experimental pela Universidade de São Paulo (USP), Docente do Departamento de Psicologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Campus Universitário - Trindade, Florianópolis, Santa Catarina, Brasil, CEP 88049-900,

  • Dessen, M. A., & Polonia, A. C. (2007). A família e a escola como contextos de desenvolvimento humano. Paidéia, 17(36), p. 21-32.
  • Dessen, M. A., & Costa Jr., Á. L. (Orgs.). (2005). A ciência do desenvolvimento humano: tendências atuais e perspectivas futuras Porto Alegre, RS: Artmed.
  • Picado, J. R., & De Rose, T. M. S. (2009). Acompanhamento de Pré-escolares Agressivos: Adaptação na Escola e relação professor-Aluno. Psicologia, Ciência e Profissão. 29(1),132-145.
  • Rodrigues, M. R. F., Pereira, B. K., & Souza, R. L. (2011). A estratégia de mediação na intervenção do projeto de extensão "competências de bebês". Revista Diálogos: pesquisa em extensão universitária, 15(1),52-62.
  • Silveira, L. M. O. B., & Wagner, A. (2009). Relação família-escola: práticas educativas utilizadas por pais e professores. Psicologia Escolar e Educacional, 13(2),283-291.
  • Szymanski, H., & Cury, V. E. (2004). A pesquisa intervenção em psicologia da educação e clínica: pesquisa e prática psicológica. Estudos de Psicologia, 9(2),355-364.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    13 Jan 2014
  • Data do Fascículo
    Dez 2013
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