O artigo reflete "movimento da cloroquina" no Brasil durante a pandemia de covid-19, a partir do material empírico gerado pela pesquisa realizada entre 2022 e 2023. Foram entrevistados pesquisadores do Sudeste brasileiro que investigaram a eficácia da hidroxicloroquina (HCQ) para o tratamento da covid-19. Realizou-se, ainda, análise documental de notícias publicadas durante a pandemia no Brasil, focando na trajetória da HCQ antes e depois de seu uso controverso na pandemia. Os resultados destacam práticas médicas questionáveis, como a prescrição de medicamentos sem comprovação científica fora de contextos formais de pesquisa, a pressão sobre a ANVISA para autorizar o uso da HCQ sem ensaios clínicos adequados e o financiamento de estudos por indústrias interessadas em alterar bulas sem novos testes. Conflitos surgiram entre cientistas que defendiam o rigor metodológico e médicos que, apoiados pelo Conselho Federal de Medicina, alegavam autonomia para prescrever o "kit covid", mesmo diante da ineficácia comprovada. A eficácia simbólica da HCQ foi reforçada por discursos políticos e pela confiança médico-paciente. Conclui-se que o negacionismo científico se manifestou não apenas na negação de evidências, mas também na criação de narrativas que conferiram legitimidade a práticas no nível assistencial médico que omitiam a condição de testagem.
Palavras-chave:
Negacionismo; Covid-19; Antropologia da Ciência; Antropologia Médica