Resumo
Investigamos experiências de jovens que compartilham ficções literárias em comunidades digitais de fãs na intenção de desvelar o potencial da produção de textos descentralizada de ordenamentos sociais que ecoam na didática escolar. Para esta pesquisa, adotamos a cartografia e mapeamos atividades, cujos conteúdos consumidos e produzidos seguem a transmidiação que movimenta a cultura da convergência. Porém, nesse percurso, esses jovens alteram seus modos de pensar, de se relacionar e de aprender em rede, adquirindo multiletramentos e formulando o que se compreende por inteligência coletiva. Como resultado, antevemos que a elaboração textual em coautoria abre passagem para um tipo de aprendizagem solidária, em que prevalecem o espírito colaborativo e relações não estratificadas de poder.
Palavras-chave
cartografia; produção de texto; multiletramentos; cultura da convergência; inteligência coletiva
Abstract
We investigated experiences of young individuals who share literary fictions in digital fan communities aiming at unveiling the potential of texts production that are decentralized from social orders echoing in school didactics. For this research, we adopted cartography and mapped activities whose consumed and produced contents follow transmediation that drives the convergence culture. However, along this journey, these young individuals change their ways of thinking, relating, and learning within a network, acquiring multiliteracies and formulating what is understood as collective intelligence. As a result, we anticipate that collaborative textual elaboration paves the way for a form of cooperative learning, in which the collaborative spirit and non-stratified power relations prevail.
Keywords
cartography; text production; multiliteracies; convergence culture; collective intelligence
Introdução
A escrita tem um poder de tratamento em relação àquilo que chamo de “marcas-ferida”. Refiro-me a marcas de experiências que produzem em nós um estado de enfraquecimento de nossa potência de agir que ultrapassa um certo limiar, uma espécie de intoxicação. Uma marca deste tipo permanece portadora de um veneno que pode a qualquer momento vir a se espalhar e contaminar tudo. Ora, a escrita, enquanto instrumento do pensamento, tem o poder de penetrar nestas marcas, anular seu veneno e nos fazer recuperar nossa potência.
(Rolnik, 1993, p. 247)
O título deste artigo é uma pergunta sobre o poder da escrita e a citação introdutória nos mostra uma de suas muitas possibilidades de potência, razão pela qual o trecho em destaque inspirou nossos argumentos durante a investigação de processos criativos de literatura amadora em comunidades digitais de fãs, espaços conhecidos por fandoms, ou domínios de fãs.
O termo amador é adequado às produções textuais com as quais nos deparamos, pois sua etimologia advém do latim amatorem, ou seja, aquele que faz algo por amor, por deleite, caso dos jovens que convivem em plataformas digitais criadas para a troca de experiências literárias entre fãs.
Sobre as comunidades digitais, duas plataformas brasileiras multifandoms apresentavam, em conjunto, um acervo de mais de um milhão de produções até janeiro de 2023, dando indícios da relevância da escrita como atividade lúdica para usuários notadamente jovens, visto que muitos indicam suas idades no campo de cadastramento de seus perfis. Além disso, na seção dos comentários estão mais pistas sobre a pretensa condição juvenil, em vista de alguns trechos de conversas sobre escola, faculdade, dividir quarto com irmão e início de aulas.
Como imergimos em experiências juvenis de elaboração textual distanciada dos modelos de escrita escolar, consideramos o método1 da cartografia o mais propício para investigar os processos criativos de literatura amadora, em razão desses movimentos estéticos estarem muito mais carregados de forças e intensidades do que de regras e técnicas.
Para Deleuze e Guattari (1995), a produção de qualquer mapa da vida é feita enquanto se desbrava caminhos existenciais ou se busca encontrar caminhos percorridos. Por isso, a cartografia investiga processos de subjetivação, especialmente quando proporcionam experiências com poder de resistir à redundância, à repetição de regras e às convenções por vezes castradoras de outros modos de sentir e de viver.
Diante do vasto repertório teórico constituinte do método cartográfico, consideramos suficiente mapear as atividades relatadas amparadas pelos conceitos de linhas molares, moleculares e de fuga, bem como pelos de raiz, radícula e rizoma. Utilizamos, ainda, os entendimentos de território, de máquinas desejantes e de espaços lisos e estriados, todos tratados mais à frente. Por ora, discorremos sobre procedimentos escolares de leitura e produção de textos, introduzindo o leitor à crítica e à repetição do status quo em ambientes formais de aprendizagem.
A literatura ficcional é comumente trabalhada nas escolas de educação infantil e de ensino fundamental como suporte para o aprimoramento da leitura e da escrita e o próprio desenvolvimento pessoal.
a linguagem imaginativa trazida nos contos de fadas permite a experiência e o contato significativo com diferentes realidades, sentimentos e situações e exterioriza necessidades do universo interno da criança. A narração de histórias na infância funciona como estímulo para a subjetividade, e é fonte fecunda para a linguagem imaginativa.
(Kielb & Silva, 2023, p. 14)
Entretanto, ao chegar ao ensino médio, a ludicidade na aprendizagem juvenil é reprimida pela sobrecarga de redações técnicas, quando a poesia e a ficção literária são substituídas por dissertações argumentativas, um esboço de escrita adulta fundamentada na discriminação da “linguagem imaginativa” em favor de atender determinadas ordens curriculares.
Porém, imergindo no acervo de jovens fãs enquanto educadoras, deparamo-nos com práticas de escrita e de leitura colaborativas distanciadas da didática de muitas escolas brasileiras de ensino médio, em que predominam atividades de leituras individuais e escritas competitivas, para as quais as produções textuais dos alunos são vistas como adversárias, dependentes da lógica de ranqueamento da aprendizagem exigida principalmente pelo Exame Nacional do Ensino Médio (Enem).
As experiências de escrita ficcional de fãs já expõem a força que o texto em coautoria tem para estremecer o hábito da competição social, postura atrelada a atitudes excludentes que causam “marcas-ferida” na sociedade e produzem em nós, conforme Rolnik (1993, p. 247), um “estado de enfraquecimento de nossa potência de agir que ultrapassa um certo limiar, uma espécie de intoxicação.”
Para o mapeamento dessas experiências, selecionamos o acervo das plataformas multifandom2 Spirit Fanfic e Histórias e a Nyah! Fanfiction, planejadas para publicação de ficções desdobradas de obras originais, especialmente animações, filmes ou livros. Ainda nesse recorte, selecionamos fãs escritores apreciadores de produções culturais do Japão, conhecidos entre eles como otakus, escolha que nos permitiu deslocamento do entretenimento ocidental, tipo de consumo que ainda comanda o lazer brasileiro.
Com o crescimento da distribuição mundial de produtos orientais, principalmente por meios digitais, cada vez mais surgem no Brasil comunidades otakus, fãs de mangás (tipo de revista em quadrinhos), animes (tipo de desenho animado) e de seus personagens. Independentemente do formato de consumo, fãs de determinado conteúdo têm fortes possibilidades de se encontrarem em multifandoms para apreciar e confabular sobre histórias e personagens.
Durante esses encontros, criam suas próprias histórias e aprendem colaborativamente a produzir ficções de fãs (fanfiction, fanfic ou fic), artes de fãs (fanart) e roupas de fantasia (cosplay) com o apoio de diferentes aparatos tecnológicos e multimodos de linguagem, razão pela qual refletimos sobre práticas de lazer literário e sobre aprendizagens sob o aporte dos conceitos de multiletramentos (Rojo, 2012, 2017), cultura da convergência (Jenkins, 2009) e inteligência coletiva (Lévy, 1997).
A partir do exposto, este texto se organiza pelos conceitos teóricos que sustentam nossos argumentos, apresentando ao leitor a juventude escritora, o que ela elabora e o que podemos aprender com suas experiências de escrita colaborativa e modos de convivência em territórios digitais. Mas, antes disso, detalhamos o sentido ampliado de território para aqueles que adotam a cartografia inspirada pela filosofia da diferença.
Para Deleuze e Guattari (1997), território é uma forma de expressão que delimita um espaço, uma cultura e mesmo um algo ou alguém, estando sujeito a processos mutantes, abertos a devires. Por não ser um conceito fixo ou estático, mas um plano de experimentação e composição, a criatividade pode despontar a qualquer instante. Sendo assim, todo território é um campo de possibilidades, que, no caso das produções textuais mapeadas neste artigo, apontam para oportunidades de resistência à aprendizagem subordinada à competição social.
O território é feito de fragmentos descodificados de todo tipo, extraídos dos meios, mas que adquirem a partir desse momento um valor de “propriedade”: mesmo os ritmos ganham aqui um novo sentido (ritornelos). O território cria o agenciamento. O território excede ao mesmo tempo o organismo e o meio, e a relação entre ambos; por isso, o agenciamento ultrapassa também o simples “comportamento” (donde a importância da distinção relativa entre animais de território e animais de meio).
(Deleuze & Guattari, 1997, pp. 192-193)
Como campo de possibilidades, territórios animam o pensamento a selecionar informações pelo encontro dessas com nossos íntimos repertórios ou nossas imagens premeditadas, a senti-las e a refletir sobre elas, convocando a inteligência a criar outros sentidos, outros signos para a mesma informação, pois, segundo Deleuze (2003, p. 95), primeiro vêm os signos, as imagens, as representações no pensamento e depois a inteligência: “ela é boa quando vem depois”.
Deleuze (2003, p. 4) discorreu sobre esse processo e refletiu: “Tudo que nos ensina alguma coisa emite signos, todo ato de aprender é uma interpretação de signos”. Todavia, não há aprendizagem quando o pensamento mantém os signos em estado de representação, reprodução e mimetismo.
Ser sensível aos signos, considerar o mundo como coisa a ser decifrada é, sem dúvida, um dom. Mas esse dom correria o risco de permanecer oculto em nós mesmos se não tivéssemos os encontros necessários; e esses encontros ficariam sem efeito se não conseguíssemos vencer certas crenças.
(Deleuze, 2003, p. 25)
Em Proust e os Signos, Deleuze (2003) mostrou que a literatura é uma forma de pensamento que proporciona a criação de signos capazes de expressar a singularidade do mundo. Por ser singular, projeta-se a partir de um “pensamento sem imagem”3. A literatura, portanto, enquanto manifestação artística, é uma forma de produção de conhecimento porque também cria conceitos, signos, imagens, tal como a ciência e a filosofia. Entretanto, o ato de pensar não é instantâneo, ele flui por motivações, por pressões: “é sempre através de uma intensidade que o pensamento nos advém.” (Deleuze, 2006, p. 144)
Também na obra Diferença e Repetição, Deleuze (2006) argumentou sobre a relação entre pensamento e criação, culminando em uma série de questões, com destaque para a problematização do próprio ato de pensar. Nos termos do autor, o pensamento não é algo que ocorre exclusivamente no interior de uma pessoa, mas é produzido por um movimento que envolve a relação entre o pensamento e o fora. Nesse sentido, o ato de pensar não é uma atividade solitária, pois acontece em colaboração com o mundo, com os signos, com o que já existe ou já está representado. Contudo, aprender sobre algo exige que o pensamento crie outros signos, outras imagens, demandando, para tanto, o direito de recusar verdades embutidas nos signos, nas imagens predeterminadas.
Não por acaso, escolhemos cartografar processos de criação literária qualificada como amadora pela intensidade que esse adjetivo carrega: fazer algo por amor, por fruição; atividade oportuna para abandonar signos predeterminados, para se entregar ao desconhecido dos sentidos e para inventar outros signos pelo pensamento criativo, produzindo conhecimentos; experiência que sintetiza o que desejamos para a educação da juventude.
A educação, como a realidade à qual se vê colada, é aberta e múltipla, e por isso se faz necessário buscar pensamentos fiéis ao devir, com capacidade de pensar a diferença sem representá-la a priori, pois o vir a ser em sua forma pura é insubmisso aos liames mediadores da representação, já que não se reapresenta, ao passo que a sua natureza caótica não lhe informa uma imagem que se mantenha a nosso dispor em quietude para ser reconhecida.
(Vitorino & Felix, 2021, p. 2)
Com isso, expomos movimentos relevantes do pensamento durante encontros entre signos exteriores e interiores, imagens e sentidos materiais e imateriais conjugados por linhas existenciais, responsáveis por quem estamos sendo a cada instante.
O pensamento atravessado por marcas da vida
somos atravessados por linhas, meridianos, geodésicas, trópicos, fusos, que não seguem o mesmo ritmo e não têm a mesma natureza. São linhas que nos compõem, diríamos três espécies de linhas. Ou, antes, conjuntos de linhas, pois cada espécie é múltipla. Podemos nos interessar por uma dessas linhas mais do que pelas outras, e talvez, com efeito, haja uma que seja, não determinante, mas que importe mais do que as outras … se estiver presente.
(Deleuze & Guattari, 1996, p. 70)
Essa citação nos ajuda a perceber que é no plano invisível de nossa intimidade que se realizam agenciamentos de linhas de vida que nos compõem, linhas que vêm de fora, invadem o ser, enleiam-se com linhas já entranhadas em nós e nos (re)modelam. A cartografia permite traçar mapas de experiências da vida pelo movimento dessas linhas, que são distintas, complexas e emaranhadas, mas podem ser agrupadas em três tipos: duras como pedras de moinho, denominadas linhas molares; moleculares, de compleição flexível e mais abertas ao inusitado; e de fuga ou de ruptura, capazes de modificar nossa composição ao formular outras marcas, criando outros signos para a vida.
O novelo molar é formado por ordenamentos que nos regem, como leis, crenças e convenções, produzindo marcas guiadoras de pensamentos e de atitudes. “São linhas mantidas por mecanismos de controle e captura, sempre disponíveis ao reconhecimento, às valorações morais” (Costa & Loureiro, 2019, p. 918). Como a raiz de uma planta, linhas molares se originam de um único ponto central, expandem-se de maneira linear e vertical e apresentam estrutura fixa, sendo responsáveis pela rigidez das relações sociais e do conhecimento instaurado.
A tecitura de linhas moleculares nos remete ao meio do campo existencial, em um entra e sai de experiências disciplinadas ou mais livres. “As mudanças e os movimentos causados por essas linhas são, em sua maioria, imperceptíveis à linguagem e mesmo ao olhar” (Costa & Loureiro, 2019, p. 921). Por não seguirem uma estrutura fixa e hierárquica, essas linhas se espalham em várias direções e podem criar conexões entre diferentes elementos, abrindo caminhos para outras formas de pensamento e ação. À vista disso, Deleuze e Guattari (1995) as relacionaram à radícula, embrião de uma raiz que, ao romper, perde o formato único e se ramifica com variadas compleições, tal qual uma história apreciada por um fã, que desdobra a obra raiz em infindáveis conteúdos.
Porém, linhas de fuga ou de ruptura produzem marcas criativas quando abrimos o pensamento para o inusitado da vida, para a diferença que nunca está em nós. Isso acontece quando, em (in)certo momento, fluxos lineares, contínuos e inevitáveis, desacomodam-nos a ponto de gerar inéditos modos de ser. É quando “rompe-se assim o equilíbrio desta nova atual figura, tremem seus contornos” (Rolnik, 1993, p. 242). Linhas de fuga, portanto, “são vetores que desafiam radicalmente as capturas apriorísticas dos métodos, as categorizações, as classificações, os julgamentos morais.” (Costa & Loureiro, 2019, pp. 922-923).
Decorrente de linhas de fuga, o rizoma, espécie botânica de crescimento horizontal e de ramificação não organizada e imprevisível, corresponde a um desvio das estruturas dominantes e a uma abertura para novas trajetórias e conexões. Com uma expansão não direcionada, o rizoma brota em locais inesperados, como a erva que acompanha a rachadura de uma parede ou como um fã escritor que, ao ser tocado por uma obra, inventa sua própria ficção.
Em suma, a relação entre raiz, radícula e rizoma com linhas molares, moleculares e de fuga é uma maneira de entender diferentes modos de organização, expansão e desvio nas relações de conhecimento, poder e subjetividade. Se raízes, oriundas de linhas molares, visam à estabilização e à fixação; radículas, constituídas por linhas moleculares, ampliam a multiplicidade e a complexidade; e rizomas, criados por linhas de fuga, escapam da repetição e criam insólitas experiências, vivenciadas no mesmo território pelo qual circulam as demais linhas, que sempre se entrelaçam ou se sobrepõem.
Desse modo, quanto mais a pessoa se entrega às estranhezas de incessantes conexões lineares, mais chance tem de afirmar sua existência conforme a potência dessa entrega de efeito ondulatório, pois mexe com os sentidos que influenciam o pensamento, por sua vez, estimulante da inteligência. Portanto, se somente nos tornamos diferentes pelas marcas advindas de encontros (entre humanos ou entre eles e objetos materiais e imateriais), se são elas as constituidoras por insistência do pensamento, também a inteligência se move pela potência de marcas sobre marcas.
E, ainda, não há como ignorar o plano visível de nossa intimidade (Rolnik, 1993), que corresponde à vida em sociedade, nem se deve compreender as linhas molares, moleculares e de fuga pelos dualismos bom e mau, frutuoso e estéril, melhor e pior, conforme abordamos mais à frente, pois a pretensão é de destacar o quanto essas linhas nos subjetivam, ou seja, tornam-nos quem estamos sendo, já que, apesar de termos um único corpo, estamos acoplados a tudo que nos cerca e nos marca, e por isso somos plurais.
Pelo raciocínio das linhas que delineiam nosso íntimo e nos ligam à sociedade e à natureza, Deleuze e Guattari (2010) argumentaram que nosso corpo é, ao mesmo tempo, uma máquina orgânica e social desejante e só funciona porque desejamos, logo, esse desejo é o combustível que aciona o maquinário da vida. Entretanto, para os dois filósofos, é comum que os desejos não sejam nossos, mas subjetivados pela máquina capitalista que opera a sociedade.
Esses autores entenderam que o processo de produção das máquinas desejantes corporais, políticas, estéticas e sociais se alicerça no regime capitalista, o qual encontrou no dinheiro o mecanismo mais eficaz de sua manutenção pela reinvenção de seus usos, usufrutos e desejos, lançando a moeda aos códigos preexistentes e remodelando oportunamente a sociedade, que precisa sempre ser reinventada em um ciclo sem fim.
O capitalismo instaura ou restaura todos os tipos de territorialidades residuais e factícias, imaginárias ou simbólicas, sobre as quais ele tenta, bem ou mal, recodificar, reter as pessoas derivadas das quantidades abstratas. Tudo repassa ou regressa, os Estados, as pátrias, as famílias. É isto que faz do capitalismo, na sua ideologia, a pintura mesclada de tudo aquilo em que se acreditou.
(Deleuze & Guattari, 2010, p. 54)
Por isso, o sistema capitalista é a grande fábrica de desejos universais e seu funcionamento depende dos três tipos de linhas que tecem a vida: linhas molares ajudam na manutenção do status quo social por meio de regras e consensos, pois, quando todos desejam ou aceitam uma mesma decisão, ela se torna válida e verdadeira, como a regra de que a aprendizagem deve ter uma nota de zero a dez e quem atende à prescrição da nota máxima será considerado líder entre os demais.
Linhas moleculares, por seu turno, permitem certa flexibilização e auxiliam aqueles que não cumprem os requisitos de liderança a suportarem determinismos sociais, enquanto linhas de fuga, apesar de chacoalharem a sociedade com comportamentos ou ideias desregradas, também são propícias à máquina capitalista, que vê na novidade uma oportunidade monetária para ampliar o escopo dos desejos. Nesse caso, a novidade é capturada pela máquina e transformada em produto de consumo ou mesmo em mais uma regra comportamental.
Por conseguinte, não é possível preestabelecer quais linhas são afirmativas, castradoras ou destrutivas, já que tanto há linhas ordenadoras de condutas que preservam a vida e os direitos de existência como há linhas de fuga que põem a vida em risco. Contudo, em qualquer circunstância, a trama dessas linhas cria no corpo (do homem e da sociedade) um mapa singular, com cartografia ora predeterminada por ordenamentos, ora aberta ao devir, ao inusitado. Em qualquer dos casos, há sempre perguntas: “quais são suas próprias linhas, qual mapa você está fazendo e remanejando, qual linha abstrata você traçará, e a que preço, para você e para os outros? “ (Deleuze & Guattari, 1996, p. 71).
Considerando que a cartografia está engajada com as possibilidades criativas de inusitados encontros como tática para a simetria entre os direitos de existência e a afirmação da vida, o que importa na investigação dos atravessamentos de linhas são os devires. No caso desta investigação, investimos no devir-escrita como processo de cura de marcas-ferida por acreditar nos agenciamentos de fãs pela escrita coletiva de suas ficções amadoras, já que colocam sentidos, pensamentos e inteligências em circuito. Desse mesmo modo, a escrita é resultado de marcas, sendo o registro visível do invisível.
Mas, sobretudo, a escrita inventa marcas quando se desenvolve pela fantasia, criando singulares modos de ver e de sentir o mundo, experiências que, a partir de toda a compreensão exposta, transformam o pensamento em celeiro de deslizantes devires e abrem passagem para a instituição de marcas saneadoras, signos solidários, advindos da aprendizagem em coautoria pelo compartilhamento dos saberes.
O traço comum entre os diferentes processos de singularização é um devir diferencial que recusa a subjetivação capitalística. Isso se sente por um calor nas relações, por determinada maneira de desejar, por uma afirmação positiva da criatividade, por uma vontade de amar, por uma vontade de simplesmente viver ou sobreviver, pela multiplicidade dessas vontades. É preciso abrir espaço para que isso aconteça. O desejo só pode ser vivido em vetores de singularidades.
(Guattari & Rolnik, 1996, p. 47)
Ponderamos que o processo criativo de fãs escritores é um desses “vetores de singularidade” e externaliza os conceitos das três linhas existenciais, pois por ele fluem linhas molares, que se fincam na literatura amadora como raízes, tal qual a ética de fidelidade entre fãs para a manutenção de personagens ou trechos de uma obra original. Mesmo criando ficções enraizadas em um cânone, há sempre buracos causados por linhas moleculares que possibilitam o inesperado e criam contornos diferentes, consoante às radículas fanfics, histórias provenientes de conteúdos originais e elaboradas por fãs escritores, denominados fanfiqueiros (Lima, 2020).
Entretanto, os agenciamentos nas duas plataformas digitais investigadas se mostraram tão potentes que esses fãs se tornaram capazes de produzir suas próprias ficções quando saíram da simples condição de consumidores. Assim como rizomas, seus textos brotaram de singulares linhas de fuga, as mais propensas a abalar determinismos.
Considerando que nossa cartografia se debruça sobre escrita ficcional em ambientes digitais, não há como ignorar ferramentas tecnológicas, linguagens multimodais acionadas no contexto cibernético e seus impactos nos processos do pensamento e da criatividade textual, campo de estudo com vasta produção científica, do qual selecionamos os conceitos de multiletramentos, cultura da convergência e inteligência coletiva.
A criatividade agenciada por tecnologias digitais
Atravessados pela contemporaneidade digital em vivência, estamos imersos na multimodalidade de aparatos tecnológicos, na qual nos apropriamos de conteúdos e também os produzimos, consoante ao conceito de multiletramentos (Rojo, 2012, 2017). Por isso, mesmo sem perceber, construímos sentidos mediados por artefatos digitais e nos apoiamos cada vez mais em diferentes linguagens, seja para atender determinismos, seja para entender os atuais formatos comunicacionais ou mesmo para nos fazer compreender.
Dessa maneira, a aprendizagem da leitura e da escrita desenvolvida nesse contexto é compreendida como processo de letramento, cuja correlação entre o ser e o outro, manifestada em ambientes diversos e plurais, especialmente em ambientes digitais ou fortemente dependentes de tecnologias multimodais, suscitou a concepção de multiletramentos amparada por Rojo (2017, p. 4):
Multiletramentos são as práticas de trato com os textos multimodais ou multissemióticos contemporâneos – majoritariamente digitais, mas também impressos –, que incluem procedimentos (como gestos para ler, por exemplo) e capacidades de leitura e produção que vão muito além da compreensão e produção de textos escritos, pois incorporam a leitura e (re)produção de imagens e fotos, diagramas, gráficos e infográficos, vídeos, áudio etc.
Entretanto, adotamos o conceito de multiletramentos sem intenção de prescrever modelos de ensino, já que nosso objetivo é desvelar possibilidades de resistência a capturas de experiências criativas que fogem de currículos e didáticas reprodutivistas, a fim de dificultar o processo de formatação do jovem adaptado, conforme expresso em um dos objetivos para o ensino médio promulgado pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei nº 9.394, 1996, grifo nosso): “II – a preparação básica para o trabalho e a cidadania do educando, para continuar aprendendo, de modo a ser capaz de se adaptar com flexibilidade a novas condições de ocupação ou aperfeiçoamento posteriores”.
Fugir de reprodutivismos é uma tentativa de “revolução molecular” ou “atrevimento de singularizar” (Guattari & Rolnik, 1996, p. 45), de passar de um estado de ser para outro pela composição coletiva de um outro modo de sentir e de agir.
A tentativa de controle social, através da produção da subjetividade em escala planetária, se choca com fatores de resistência consideráveis, processos de diferenciação permanente que eu chamaria de “revolução molecular”. Mas o nome pouco importa.
O que caracteriza os novos movimentos sociais não é somente uma resistência contra esse processo geral de serialização da subjetividade, mas também a tentativa de produzir modos de subjetividade originais e singulares, processos de singularização subjetiva.
(Guattari & Rolnik, 1996, p. 45)
Nesse caso, consideramos que a ideia pedagógica dos multiletramentos é um “atrevimento de singularizar”, pois seu fundamento principal é acreditar na potência de resistência à reprodução da subjetividade significante pela existência de códigos de vida diferentes, ainda que estejam sempre entrelaçados a signos dominantes. Isso acontece porque “Os criadores de significado não usam simplesmente o que receberam; eles são totalmente criadores e refazedores de signos e transformadores de significado” (Cope & Kalantzis, 2009, p. 175, tradução nossa).
Com base no entendimento de “refazedores de signos”, elaboramos um mapa dos multiletramentos para destacar o processo de remix de letramentos, que é o reuso ou a customização de conteúdo digital original, cujo potencial é defendido por Silva (2022, p. 82):
o letramento por meio do remix, com sua capacidade de desestabilizar perspectivas estanques e multiplicar pontos de vistas, é, decerto, o ponto crítico do letramento participativo. Esse aspecto, pensamos que também possa ser compreendido como componente da aprendizagem colaborativa em rede.
O mapa foi formulado durante nossa jornada nos dois multifandoms, cujos hiperlinks disponibilizados por um ou outro fanfiqueiro nos transportou para blogs (portais digitais comumente gerenciados por amadores) e para variadas redes sociais, ou seja, seguimos a transmidiação, ação que integra a Cultura da Convergência (Jenkins, 2009), surgida em torno da inteligência coletiva (Lévy, 1997).
A convergência das mídias é mais do que apenas uma mudança tecnológica. A convergência altera a relação entre tecnologias existentes, indústrias, mercados, gêneros e públicos. A convergência altera a lógica pela qual a indústria midiática opera e pela qual os consumidores processam a notícia e o entretenimento.
(Jenkins, 2009, p. 43)
No âmbito da cultura da convergência, a transmidiação se refere a uma ação intencional e organizada para distribuição de histórias ou acontecimentos articulados por diferentes mídias e estratégias, estruturando-se e agindo por um fluxo de conhecimentos em cooperação. E, ainda, histórias distribuídas e expandidas pelo uso mercadológico da transmidiação são denominadas narrativas transmídia, que podem ser compreendidas como radículas porestarem atreladas a raízes, a uma história original.
Narrativas transmídia, contudo, não são complementos de uma obra original, porquanto apresentam sua própria totalidade e singularidade, conforme Lima (2020, p. 37): “a narrativa presente em cada mídia pode ser consumida de forma individualizada, pois sua construção deve apresentar características do universo narrativo, mas ter uma história que pode ser entendida se consumida individualmente”.
A distribuição de um mesmo conteúdo em diferentes mídias e histórias integra um plano de transmidiação, como o jogo japonês Pokemón, da década de 1990, que se transformou em anime com mais de mil episódios, teve narrativa contada em filme, possui vários jogos digitais com sua temática e inumeráveis fanfics por todo o mundo.
Estreando na TV japonesa no dia 1º de abril de 1997 pela TV Tokyo, o desenho seguiu basicamente o roteiro idealizado pelo jogo, porém algumas coisas do game que poderiam ser aproveitadas foram dispensadas. Mesmo assim, os elementos principais estavam lá representados: o continente fictício, suas cidades, os líderes de ginásio e os 150 monstrinhos que fizeram do jogo um sucesso.
(Pokémon, 2013)
Independentemente do teor comercial e do alcance digital, o lazer de otakus vai além do consumo comum. Sobre isso, Ishida (2010) se interessou em descobrir quando e como jovens da Finlândia da era da internet se tornaram fãs de animes, mangás e do rock japonês, já que, inicialmente, quando tais produtos chegaram ao país, foram percebidos como “mercadorias perigosas que deveriam ser mantidas longe das crianças” (Ishida, 2010, p. 71, tradução nossa). O pesquisador concluiu que o compartilhamento em rede de opiniões de fãs e de seus conteúdos desdobrados foram os principais acionadores de outro modo de perceber esse entretenimento no país.
A relação de fãs com mangás e animes também foi o foco da pesquisa de Saniyah (2011) com jovens indonésios. Segundo ele, o que difere a leitura de um simples consumidor da leitura de um fã é a transformação dessa ação em experiências, sendo uma delas a de integrar comunidades para apreciação e atividades compartilhadas em torno desse material e de todo desdobramento comercial produzido pela indústria cultural.
No Brasil, Urbano (2018, p. 111) destacou a força dos encontros de otakus por meio digital, atualmente o principal veículo de narrativas e personagens desses conteúdos, tendo em vista a baixa circulação de animes em canais abertos e pagos e a retração nas vendas de mangás impressos, em que apontou:
elevada importância na constituição de um circuito fortemente produtivo e estruturado – administrado e mediado pelos fãs – localizado na internet, com uma gama considerável de comunidades e de fóruns de discussão virtuais, dedicados à(s) série(s) nipônica (s) e aos demais produtos da cultura pop japonesa (URBANO, 2013). Através das redes digitais tornou-se possível participar desses fóruns de discussão, consumir os últimos lançamentos do mercado e, até mesmo, se envolver de maneira mais comprometida com o pop japonês.
Esses conteúdos, distribuídos às margens do entretenimento dominante da cultura de cada país, instigam experiências por vezes transgressoras, mas que, no âmbito das comunidades digitais transnacionais, são corriqueiras. Assim, parece que o distanciamento cultural e social insere o fã em um forte estado de fantasia, oportunizando a invenção de um eu-outro construído pelo coletivo dos fandoms. Nesses agenciamentos, o fã se sente estimulado porque não está sozinho, pois há vários como ele desejando um jeito diferente de ver, sentir e agir no mundo.
Animes e mangás remixados domesticamente são um exemplo do quanto os fãs colaboraram na desconstrução do modelo raiz de comercialização, cujo consumo vertical e de direção única, do produtor ao consumidor, foi redirecionado para redes de múltiplas entradas, a ponto do conteúdo original perder o status de protagonista e os conteúdos desdobrados, reformulados por uma incalculável parcela de produtores amadores, serem distribuídos livremente, sem autoria formal, momento em que o conhecimento passou a ser coletivo e circulante.
Lévy (1997) estudou essas produções e concluiu que o conhecimento subjacente não se limitava ao nível da ideia do outro, mas a algo maior, na grandeza de uma inteligência coletiva, a qual chamamos de uma espécie de patrimônio digital da humanidade, cujo acervo de ideias, práticas, comportamentos e tensões só poderá ser arquivado quando a norma técnica identificar a autoria apenas pelo et al; aliás, esse patrimônio não se constituiu para ser arquivado, mas para ser livre e distribuído, pois tem como “base e objetivos o reconhecimento e o enriquecimento mútuo das pessoas” (Lévy, 1997, p. 29).
É possível perceber que os conceitos abordados se fundamentam no compartilhamento de saberes e na consequente transformação de costumes e de hierarquias naturalizadas como verdadeiras e imutáveis. Consequentemente, juntam-se ao conceito de multiletramentos, que contém três características básicas (Rojo, 2012):
-
a) são interativos ou colaborativos, pois aglutinam culturas e linguagens durante o consumo e a produção de conteúdo digital;
-
b) transgridem relações de poder ao se apropriarem de conteúdo patenteado ou de ideias;
-
c) são mestiços ou híbridos, por serem multimodais.
No que se refere à potência da colaboração correspondente à alínea (a), aparentemente a principal motivação de jovens escritores em fandoms é o incentivo contínuo a cada postagem de um trecho de suas histórias, que se inicia com uma sinopse da obra, além de: curtidas dos leitores, que são o registro digital de apreciação da postagem; comentários e sugestões nos espaços de conversa disponíveis abaixo da sinopse ou dos capítulos publicados; e mesmo por inclusão de escritores, à convite ou a pedido, para elaboração em coautoria da história proposta. Em menor ou maior escala de conexão, autores e leitores nunca consomem ou produzem conteúdo cultural solitariamente.
A força da transgressão das relações verticais de poder, disposta na alínea (b), está presente nos criativos desdobramentos realizados pelos fãs em produções originais, cujo modus operandi se tornou mundial, alçando informalmente as narrativas de fanfics a gênero literário, que não são consideradas plágios porque os detentores do copyright concluíram que seu consumo e sua produção não têm fins financeiros, que a circulação desses produtos secundários é publicidade gratuita e, talvez, porque se tornou quase impossível controlar essa distribuição no ciberespaço, situação insustentável para as finanças das empresas editoriais (Jenkins, 2009).
Desse modo, sem (quase) poder de propriedade, conteúdos remixados quebram hierarquias e contratos e seus desdobramentos se transformam em produtos únicos, apreciados conforme sua reconfiguração – abertos à estética de escritores amadores, carregados de um posicionamento ético consensualizado pelos próprios habitantes dos fandoms e marcados por uma história de luta entre a indústria do entretenimento e os fãs, nos termos da cultura da convergência.
Quanto à mestiçagem dos multiletramentos, alínea (c), observamos o entrelaçamento de diferentes linguagens propiciando multiplicidade, a “conjunção de heterogeneidades” a que se referem Deleuze e Guattari (1995, p. 14), compondo multiletramentos sem se isolarem de expressões estéticas clássicas, como a pintura e o desenho, ou mesmo de sua locução mais primitiva, o corpo, território de criatividade e de externalização de sentimentos, como o de jovem fã da protagonista do anime franco-nipônico Ladybug, que desenha (fanart) a obra originalmente criada para distribuição digital e abraça o produto de seus heróis vestindo roupa de fantasia (cosplay) (Figura 1).
Fanarts, cosplays e fanfics são produtos conjugados, pois comumente um inspira a criação do outro. Embora o cosplay seja usado em momentos presenciais, fanarts e fanfics constroem uma única narrativa, acoplando texto e imagem para apoiar principalmente a sinopse da obra, conforme apresentamos a seguir.
Fãs, fanfics e linhas de fuga
Multiletramentos textuais de fãs criam mapas literários com produção não limitada à ficção, por ser livre à possibilidade de ser atravessada pelas manifestações reais de seguidores que surgem pelas bordas e podem ter força suficiente para alterar o percurso de narrativas não concluídas, como ocorreu com a fanfic Ladybug: a rebelde da rádio (Figura 2), narrativa hibridizada do anime Ladybug com o filme ocidental Radio Rebel, elaborada por Clarasdasideias e Cherry na plataforma Nyah! Fanfiction, criativas escritoras amadoras atuantes em variados territórios digitais.
Nas notas iniciais do capítulo 10 – Colocar à prova (Claradasideias & Cherry, 2021), uma das autoras registrou o quanto o pedido de um seguidor, linha flexível reativadora de desejos, deixou marcas nas duas escritoras a ponto de incentivá-las à retomada do texto:
claradasideias: Eu e a Cherry sumimos legal, né? Estava praticamente acordado que íamos abandonar a história, ou enrolar um bocado para terminar. É que agora eu estou postando histórias originais no Wattpad e ela AUs de JATP no Twitter. He, he, he… Mas alguém especial veio nos pedir para continuar e nós aceitamos o desafio. Somos eternamente gratas por estarem acompanhando essa história e entrando em contato conosco :D.
A caminhada do fluxo fantasia-realidade pode inverter o percurso e correr livre entre a realidade e a fantasia, como aconteceu com a fã do anime e também mangá Naruto, Choientist4, que, inspirada pela disciplina de Libras oferecida no seu curso de Pedagogia, foi tocada pelo tema e resolveu criar uma fanfic para repudiar a exclusão e o preconceito com pessoas surdas ao longo do tempo.
A escritora manteve o cenário de Naruto em seu enredo, o Japão feudal, e pesquisou a história da educação de surdos no contexto nipônico, elaborando a ficção Gestualistas na plataforma Spirit Fanfic e Histórias, na qual registrou em notas como a história foi se formando lentamente após a aula de Libras, mas demorou meses até ser fabulada – linhas querendo romper, marcas se sobrepondo ao antes e desassossegando o pensamento, uma vontade enorme de criar um devir-outro para a história dos surdos, por isso “as marcas são sempre gênese de um devir” (Rolnik, 1993, p. 242).
Com pouco material para orientar o pensamento, Choientist resolveu abraçar a fantasia sem renunciar ao engajamento social, esclarecendo os leitores sobre a condição dos surdos.
No Japão eu não consegui achar muito material sobre a forma que a Língua de Sinais se desenrolou lá, no entanto, tudo leva a crer que havia pessoas que apoiavam os Gestualistas e aqueles que apoiavam os Oralistas. Eu sei que até 1970 eles eram considerados deficientes mentais e quase não tinham direitos de cidadãos, e só em 2011 que o Nihon Shuwa foi reconhecido oficialmente.
Pessoas escrotas sempre existiram, então em tempos remotos devia ser como no resto do mundo: forçavam a ser algo (a falar) apenas por preconceito, assim invalidando todo a cultura e singularidade dos indivíduos, e os fazendo sofrer.
(Choientist, 2020)
Pelo breve relato, consideramos que a emoção de indignação causada em Choientist criou linhas de fuga que inspiraram uma história de superação. Se, para a escritora, o mundo real é perverso (“pessoas escrotas sempre existiram”), fantasiar com a ação de personagens ninjas lhe trouxe conforto e ela inventou um mundo melhor para os surdos, ao transformar personagens guerreiros e fortes em crianças gestualistas. Fisicamente, os dois guerreiros ninjas se tornam frágeis, mas o espírito de luta permanece. Entregue à fantasia, Choientist nos mostrou um tipo de escrita saneadora, carregada de signos solidários.
Ainda sobre linhas existenciais, lembramos que não há como estabelecer valores de quais linhas são boas ou ruins, já que suas marcas não são carimbos pré-formatados e cada pessoa as internaliza de modo singular. Por exemplo, mesmo a realidade de uma tragédia pode despertar inspirações e produzir fabulações em autoria.
Ficções colaborativas produzem mapas ainda mais improváveis pelas fanfics self-insert, nas quais escritores e seguidores se transformam em personagens da trama, adentrando no mundo da fantasia conforme o desenrolar da história e dos pedidos de participação de voluntários na sessão de comentários.
Também há histórias interativas, nas quais voluntários, gerenciados por um escritor mentor, assumem o compromisso de construir o enredo segundo o perfil adotado por cada fã participante, tal como a experiência da fic Tudo menos quarentena5, criada a partir do cânone do mangá e anime Cavaleiros do Zodíaco (CdZ) e tendo como contexto a pandemia do coronavírus de 2020.
Os capítulos iniciais foram elaborados apenas por TOTOROamigo, mentora da fic, que selecionou poucos personagens de CdZ. Com o desenrolar da ficção, quatro voluntários desenvolveram mais personagens, totalizando 41 deles até janeiro de 2022, data de postagem do 29º capítulo.
Um dos capítulos atrasou porque a mentora foi para a casa da irmã, que não tinha computador. Contudo, o desejo de inventar guiou a fã e ela procurou uma solução: “ok, por que o capítulo não saiu? Por que [sic] eu sou uma BURRA e não sabia escrever no celular, mas finalmente eu aprendi” (TOTOROamigo, 2020).
Apesar de ter apenas 12 anos, a garota se considerou incompetente por não dominar funcionalidades do celular destinadas à elaboração de textos. Porém, foi confortada por seguidora da mesma faixa etária, que demonstrou solidariedade ante o desabafo6.
[Sra. Misty de Lagarto escreve para TOTOROamigo]
Tudo bem, meu anjo! Eu te entendo! Faça tudo no seu tempo, você é uma só e precisa ter tempo pra fazer as lições, cuidar de seus sobrinhos e escrever novos capítulos. Estou esperando o próximo!
O que acontece na casa de libra fica na casa de libra! Parece com o ditado: roupa suja se Lava em casa. Já ouviu falar? (Tô me sentindo mó velha de estar falando um ditado bem antigo com apenas doze anos. Kkkk) Beijooos!
Embora tenhamos detectado experiência autodidata de multiletramentos (elaboração de texto mediada por funcionalidades disponíveis em celulares), também verificamos raízes do ainda dominante padrão de vencedores, dada a forte autocrítica da fanfiqueira (“sou uma BURRA”), por não atender antecipadamente o modelo idealizado de sucesso. Percebemos, ainda, que a fanfic interativa se transformou muito mais em oportunidade de fazer amizades, talvez um dos motivos de TOTOROamigo não ter concluído a história, que se encontra com o indicativo “em andamento”, tal como amizades que nunca se acabam.
Os registros destacados apontam que as características dos multiletramentos presentes nos processos coletivos de ficções de fãs – interatividade, transgressão e mestiçagem – são potências remodeladoras de crenças e de comportamentos, sendo imprescindíveis para o nivelamento de espaços lisos, mesmo que eles se estabeleçam entre espaços estriados, conceitos teorizados por Deleuze e Guattari (1997), para refletiram sobre disparidades de poder e mecanismos de exclusão. Enquanto o espaço liso é favorável à reciprocidade das relações de convivência, espaços estriados favorecem regras e hierarquias para a manutenção do status quo.
O espaço liso e o espaço estriado, — o espaço nômade e o espaço sedentário, — o espaço onde se desenvolve a máquina de guerra e o espaço instituído pelo aparelho de Estado, — não são da mesma natureza. Por vezes podemos marcar uma oposição simples entre os dois tipos de espaço. Outras vezes devemos indicar uma diferença muito mais complexa, que faz com que os termos sucessivos das oposições consideradas não coincidam inteiramente. Outras vezes ainda devemos lembrar que os dois espaços só existem de fato graças às misturas entre si.
(Deleuze & Guattari, 1997, p. 157)
Encontramos espaços estriados e lisos entre produções do escritor profissional e do amador, já que um produto com copyright depende de autorização para ser manuseado, e, por mais que seu autor almeje a contemplação do leitor, a relação entre ambos é subordinada a regras editoriais de comercialização. Todavia, variadas possibilidades tecnológicas permitiram aos fãs outros modos de contemplação pela apropriação digital e reuso da obra original, transformando-a em obra et al.
Embora esse tipo de apropriação gere polêmica, a intenção do escritor amador em comunidades de fãs é de ampliar as possibilidades do cânone que lhe motivou, segundo a intensidade das relações de outros fãs com a obra original reformatada, já que seu desdobramento em fanfic é quase inteiramente dependente da interação comunitária, uma de tantas motivações do fã amador a continuar escrevendo. Além disso, o encontro com outros fãs para o compartilhamento de conteúdo remixado promove amizades e emoções solidárias.
O estreitamento de relações durante a remixagem de uma obra original e o desejo do escritor amador por companhia são exemplos de espaços lisos de convivência e os encontramos ao acompanhar o depoimento de uma administradora da plataforma Spirit Fanfic e a interação entre fãs na seção comentários de A lua e o Bonbori (KimiHina)7, elaborada no estilo poético haicai8 e criada pelo escritor que usa dois nicknames9: Sennin e Uchiha_Sasuke. A ficção se desenvolveu com o sequestro de personagens do mangá e anime Naruto, foi acompanhada por 154 leitores e recebeu 28 comentários até a data de elaboração deste artigo.
Nessa ficção, destacada pela administradora @3tangfei, Uchiha_Sasuke elaborou versos formando o acróstico KimiHina forever, aglutinação dos nomes dos personagens Kimimaro e Hinata, cujos domínio de linguagem e criatividade poética tocaram a administradora, que assim se pronunciou: “se apaixone pela obra e pelo obreiro através de uma história contada em versos, estruturada com cuidado e com uma riqueza de sentimentos que quem ama a literatura como arte lê e se sente transbordar completamente”10.
Ao responder um de muitos comentários, o escritor compartilhou suas emoções com a elaboração da obra para a seguidora HeyMistyS211:
Essa foi uma das obras que mais gostei de escrever, uma das mais ousadas na época (considerando que juntei Kimimaro e Hinata, até então algo nunca feito, hahahaha) – daí desembestei para as heresias da vida, sempre buscando fazer alguma peculiaridade narrativa (um poema, um anagrama, etc). Eu adoro brincar com as palavras, seus sentidos, seus sons, seus contextos. Adoro. Diverti-me muito escrevendo esse poema – e espero que tenhas percebido a frase formada pelas letras em negrito, hahahaha!
A brecha entre as relações, que movimenta a fantasia, e o desejo de inventar coletivamente criam um espaço liso pelo qual deslizam intensidades, tornando-se um tipo de relação composta pelo prazer/fruição de Barthes (1987, p. 8) sobre a leitura de um texto, visto que “Não é a ‘pessoa’ do outro que me é necessária, é o espaço: a possibilidade de uma dialética do desejo, de uma imprevisão do desfrute: que os dados não estejam lançados, que haja um jogo”.
De acordo com Barthes (1987), algumas leituras geram prazer ao leitor, mas nem todas apresentam fruição. A fruição existe quando o leitor se apossa do texto que não é dele, interioriza-o, chacoalhando seu âmago até transformá-lo em seu. No caso das ficções de fãs, esse movimento vai um pouco além, porque comumente os textos se externalizam, circulam, chacoalham e se transformam em nosso, nos termos da Inteligência Coletiva (Lévy, 1997).
Embora o autor de uma obra editorial também deseje que seu texto se conecte com o leitor, seu prazer é genérico e impessoal: “O senhor se dirige a mim para que eu o leia, mas para si nada mais sou que essa direção; não sou a seus olhos o substituto de nada, não tenho nenhuma figura” (Barthes, 1987, p. 10). Desse modo, a obra original tem um fim para o autor ou para a editora, enquanto a ficção de fã é um processo imprevisível que oportuniza inusitadas experiências e, consequentemente, aprendizagens.
Também é recorrente nos multifandoms que fãs cadastrados compartilhem em seus perfis informações sobre suas vidas e seus anseios. Entre essas, encontramos registros sobre o poder da escrita e da fantasia textual como mecanismos de fortalecimento de si mesmos, conforme expôs m_lalalalisa12 no campo de seu perfil na Spirit Fanfic, “ficção: o oceano em que mergulho de cabeça quando não posso mais respirar na realidade.”
Ou como desabafou Selene13, na Nyah! Fanfiction:
Olá! Sou uma aspirante a escritora de dezoito anos escondida sob o pseudônimo de Selene Healer (SellyBee no Nyah!). Comecei a escrever aos nove, e me alivia muito dizer que de lá pra cá aprendi muito e melhorei em muitos aspectos. Sonho em um dia conseguir publicar meus livros, além de me formar em Direito na UFPR (na real eu quero ser atriz, mas a família não deixa).
Ainda na seção destinada a informações sobre o perfil de fãs, observamos a presença de links que levam a outras redes sociais, como meio de ampliar relacionamentos que extrapolam o compartilhamento de conteúdo de fãs, já que alguns links transportam para contas pessoais ou mesmo para blogs de produções profissionais. Sobre isso, percebemos linhas da vida de diferentes naturezas movimentando as atividades desses jovens no ciberespaço: ora precisam conversar, fazer amigos, ora o mundo cobra a sobrevivência e eles organizam táticas de divulgação de seus serviços, em que predomina o serviço de arte digital, sendo a fanart uma delas.
Considerações finais
As produções analisadas apontaram alguns percursos domésticos de projetos de consumo da transmidiação do entretenimento comercial e mostraram linhas de fuga da subjetivação capitalista quando conteúdos culturais chegam às mãos de consumidores, segundo as três características dos multiletramentos: colaborativos, transgressores e mestiços (Rojo, 2012). Essas linhas, impulsionadas pelo desejo de fantasiar, emaranharam-se pelo íntimo e pela convivência de jovens em fandoms e produziram colaborativamente fanarts, cosplay e fanfics, consoantes ao conceito de inteligência coletiva (Lévy, 1997), expondo marcas de um devir-outro ao registrarem, principalmente em textos, vontades de inventar outros mundos, outros modos de relacionamento e de ação.
Depreendemos que atividades lúdicas de elaboração em coautoria de textos ficcionais são brechas para o surgimento de signos saneadores, potentes para dar passagem a processos de singularização, mesmo que entrelaçados por linhas molares ordenadoras de territórios existenciais. Porém, se a aprendizagem mediada pela fantasia é um campo de estudo consolidado e sua prática é corriqueira em escolas de educação infantil e de ensino fundamental, ela ainda é estranha às didáticas do ensino médio, etapa da educação básica destinada à educação da juventude, lacuna que nos incentivou a investigar, por meio desta cartografia, do que a escrita é capaz quando elaborada pela fantasia juvenil.
Diante da potência das fabulações textuais apresentadas, esperamos que mais pesquisadores se interessem pela relação juventude-fantasias-aprendizagem colaborativa, a fim de fortalecer possibilidades cognitivas afastadas de fundamentos educacionais competitivos, dependentes da lógica capitalista em que predomina o desejo individual para o acúmulo de capital financeiro, talvez o principal suscitador de marcas-ferida.
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1
Não é consenso que a cartografia seja um método, mas, como não temos pretensão de aprofundar esse assunto, resolvemos usar o termo segundo a compreensão de Guattari (1992), ao afirmar que esse tipo de prática investigativa não é uma “doutrinação científica”, pois, “ o importante, nesse caso, não é o resultado final, mas o fato de o método cartográfico multicomponencial coexistir com o processo de subjetivação e de ser assim tornada possível uma reapropriação, uma autopoiese, dos meios de produção da subjetividade” (Guattari, 1992, p. 23-24, grifo nosso).
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2
As duas plataformas possuem fãs apreciadores tanto do entretenimento ocidental quanto do oriental, com acesso por https://www.spiritfanfiction.com/ e https://fanfiction.com.br/ .
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3
Para Deleuze (2003), o pensamento sem imagem acontece quando o desconhecido nos invade e quebra o raciocínio premeditado (imagem do pensamento), forçando-nos a pensar e a criar outras imagens, outros signos.
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4
Para dados sobre a escritora, ver: Perfil de choientist – Spirit Fanfics e Histórias (spiritfanfiction.com)
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5
Disponível em: https://www.spiritfanfiction.com/historia/tudo-menos-quarentena-interativa-18838553 . Acesso em 22 jan. 2024
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6
A postagem está disponível na sessão de comentários, logo abaixo do Cap. 5
- 7
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8
Haicai, em japonês romanizado, é uma poesia japonesa composta por três versos em cada estrofe e bonbori é um tipo de lanterna ou luminária tradicional.
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9
Tradução: apelido, denominação usada originalmente por jogadores digitais em substituição ao termo pseudônimo e adotada por fãs cadastrados nas plataformas Spirit Fanfic e Histórias e Nyah! Fanfiction.
- 10
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11
Ver na seção comentários, logo abaixo do capítulo único da fanfic A lua e o bonbori. https://www.spiritfanfiction.com/historia/a-lua-e-o-bonbori-kimihina-20319798/capitulos/20319820
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12
Disponível em: https://www.spiritfanfiction.com/perfil/libernard
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13
Disponível em: https://fanfiction.com.br/u/80035/
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Apoio e financiamento:
Decanato de Pós-Graduação (DPG) da Universidade de Brasília (UnB), Edital DPG Nº 0011/2022
Referências
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Editores responsáveis:
Editor Associado: Cesar Donizetti Pereira Leite https://orcid.org/0000-0001-8889-750X.Editor Chefe: Antônio Carlos Rodrigues de Amorim https://orcid.org/0000-0002-0323-9207.



Da esquerda para a direita: 1) Fanart do anime Ladybug contida em página de fã na rede social Instagram. Fonte:
Fanart com lápis de cor que ilustra a capa da fanfic Ladybug: a rebelde da rádio, escrita em coautoria por Claradasideias e Cherry. Fonte: