Open-access “Isso aqui não é local para aprendiz”: um estudo sobre o trabalho e os saberes dos trabalhadores do setor elétrico

“Este no es lugar para aprendices”: un estudio sobre el trabajo y el conocimiento de los trabajadores del sector eléctrico

Resumo

O artigo apresenta os resultados de uma pesquisa realizada com trabalhadores de uma subestação de geração e transmissão de energia elétrica de uma empresa do setor elétrico brasileiro. O objetivo foi analisar as situações de trabalho e compreender os saberes requeridos, mobilizados e constituídos pelos operadores no desenvolvimento de suas atribuições profissionais. Fundamentada na sociologia do trabalho e na ergologia, a pesquisa de campo foi realizada por meio de entrevistas, observações, consulta de documentos e uso do método de instruções ao sósia. Os resultados evidenciam situações de trabalho complexas e de alto risco, mas que, apesar de fortemente normatizadas, não prescindem dos saberes que os trabalhadores constituem, mobilizam e partilham no cotidiano laboral.

Palavras-chave
saberes dos trabalhadores; setor elétrico; atividade humana; ergologia; educação

Abstract

This article presents the results of a study conducted with workers at a power generation and transmission substation of a Brazilian electrical company. The objective was to analyze work situations and understand the knowledge required, mobilized, and constituted by operators in the performance of their professional duties. Grounded in the sociology of work and in ergology, the field research was conducted through interviews, observations, document review, and the use of the instruction to the double method. The findings highlight complex, high-risk work situations that, despite being strongly regulated, do not dispense with the knowledge that workers constitute, mobilize, and share in their daily work.

Keywords
workers’ knowledge; electrical sector; human activity; ergology; education

Resumen

Este artículo presenta los resultados de una investigación realizada con trabajadores de una subestación de generación y transmisión de energía de una empresa eléctrica brasileña. El objetivo fue analizar las situaciones laborales y comprender los conocimientos que los operadores requieren, movilizan y construyen en el desarrollo de sus funciones profesionales. Con base en la sociología del trabajo y la ergología, la investigación de campo se llevó a cabo mediante entrevistas, observaciones, consulta de documentos y el uso del método de doble instrucción. Los resultados destacan situaciones laborales complejas y de alto riesgo que, a pesar de estar fuertemente reguladas, no prescinden de los conocimientos que los trabajadores construyen, movilizan y comparten en su trabajo diario.

Palabras clave
conocimiento de los trabajadores; sector eléctrico; actividad humana; ergología; educación

Introdução

As representações ordinárias do trabalho moderno comumente o associam ao operário fabril realizando movimentos repetitivos em resposta ao ritmo imposto pelas máquinas no curso do processo produtivo. É o que apontam Rot e Vatin (2022) em um estudo sobre o trabalho de vigilância e controle na indústria química e nuclear. Todavia, conforme destacam os autores, o que fazem os homens e mulheres neste setor de indústrias – indústrias de produção em processo contínuo e nas quais os automatismos desempenham um papel central – é incompreensível se nos orientarmos pelas representações ordinárias sobre o trabalho. Mas, se é assim, a compreensão do trabalho nesse gênero de processo produtivo se torna mais difícil e isto, tanto pela complexidade dos processos em curso (inacessíveis para aqueles que não têm formação no domínio da química ou da física) como pela falta de referentes cognitivos sobre o que é trabalhar nessas indústrias. Essa questão interessa diretamente à presente pesquisa, pois no centro de nossas preocupações está o trabalho no âmbito do setor de energia elétrica no Brasil.

Propondo-se a analisar e compreender o trabalho in situ de operadores de usinas e subestações de geração e transmissão de energia elétrica, a pesquisa relatada neste artigo interroga as situações de trabalho desses operadores, indagando o que, individual e coletivamente, eles realizam, mobilizam e constituem no curso do desenvolvimento de suas atividades laborais. O “agir em competência” não é um fato, mas uma questão (Schwartz, 1998). Sob esta perspectiva, a relação entre trabalho e saber assume o primeiro plano. E isto, como sublinharemos a seguir, por dois motivos fortes.

Primeiramente porque, acompanhando Yves Schwartz, temos consciência de que as situações de trabalho são, por assim dizer, atravessadas por saberes e por uma história. No meio laboral, toda atividade humana “encontra saberes acumulados nos instrumentos, nas técnicas, nos dispositivos coletivos, toda situação de trabalho está saturada de normas de vida, de formas de exploração da natureza e dos homens uns pelos outros” (Schwartz, 2016, p. 180). Em segundo lugar porque, caso considerarmos o par conceitual que está na base da ergonomia da atividade (trabalho prescrito e trabalho real) e a distinção que está em seu fundamento (a constatação que há sempre uma decalagem entre um e outro), temos que o exercício laboral envolve algo da ordem de uma criação por parte daqueles e daquelas que trabalham. Em suma, a realização do que deve ser feito exige as arbitragens da atividade e esta é de uma complexidade irredutível1.

O quadro que estamos descrevendo ganha especial relevância quando, ao lado da complexidade da atividade humana nas situações laborais, também se evidencia que o mundo do trabalho contemporâneo adota práticas de gestão muitas vezes deletérias em relação ao que se propõe a gerir (Thèry, 2010; Clot, 2010; Alves, 2014). Ademais, como no caso do setor de energia elétrica, trata-se de instituições ou empresas públicas ou de serviços públicos regulados (Idec, 2019), cujo funcionamento e destino são afetados pelo ideário neoliberal. Atribuir ao mercado a regulação – ou nele buscar a figura de referência – não fica sem consequências para o conjunto daqueles que trabalham no serviço público. Os trabalhadores da empresa na qual desenvolvemos a investigação bem o sabem: ela estava sendo privatizada naquele momento, com diversas consequências para os operadores e seus coletivos de trabalho.

O que acabamos de destacar coloca uma problemática em que um contexto organizacional singular se enreda com elementos socioeconômicos estruturantes que incidem sobre a própria substância da atividade produtiva da empresa. Isto nos permite retornar ao que pontuamos no início do texto, a questão do caractere próprio das indústrias de processo contínuo e a complexidade da atividade humana. Assim, de um lado temos um setor estratégico e de alta importância para o país; por outro, temos um meio laboral complexo no qual os trabalhadores levam adiante suas atribuições profissionais e que precisa ser melhor compreendido. O esforço investigativo que efetuamos nesta pesquisa visa aportar uma contribuição a esse respeito.

A pesquisa teve como objetivo compreender os saberes requeridos, mobilizados e constituídos pelos operadores de uma subestação de geração e transmissão de energia elétrica de uma empresa do setor elétrico brasileiro. Essa proposição, com contornos abrangentes, visa não apenas compreender a natureza e a dinâmica dos saberes necessários ao desempenho da função de operador de subestação, mas também investigar como estes saberes são mobilizados, transformados e constituídos no contexto das atuais mudanças organizacionais e dos desafios contemporâneos enfrentados pelo setor elétrico.

No texto a seguir, em um primeiro momento, abordaremos os aspectos teórico-metodológicos da investigação. Em seguida, na segunda seção, o propósito é situar o contexto socioeconômico e organizacional da empresa no momento em que a pesquisa foi realizada. Na terceira seção, analisaremos a natureza e a complexidade do trabalho dos operadores de subestações de geração e de transmissão de energia elétrica. Na quarta seção discutiremos o agir em competência dos operadores, pontuando os aspectos individuais e coletivos que o constituem. A quinta seção retoma, discute e analisa o que foi apresentado, colocando o conjunto das questões tratadas em mediação com a fundamentação teórica da pesquisa. Por fim, apresentamos uma síntese do que foi desenvolvido no texto e trazemos as conclusões da investigação realizada.

Aspectos teórico-metodológicos

Esta pesquisa fundamenta-se em dois pilares teóricos: a ergologia e a sociologia do trabalho de matriz navilleneana. A ergologia é uma abordagem do trabalho desenvolvida inicialmente na França pelo filósofo Yves Schwartz e seus colaboradores no começo dos anos 1980. Mobilizando e alargando o par conceitual fundador da ergonomia francesa, nos termos do trabalho prescrito (o que deve ser feito) e do trabalho real (o efetivamente feito na situação concreta), a ergologia se interroga pela complexidade da atividade humana e pelo que se constitui na experiência de vida e trabalho dos homens e mulheres em seus meios profissionais, levantando, por essa via, questões teóricas, epistemológicas e políticas2. O aporte da ergologia nos permite uma compreensão minuciosa do que ganha curso no meio laboral.

No tocante ao aporte da sociologia do trabalho, nossa orientação tem como referência a perspectiva de Pierre Naville (1904-1993). Considerado um dos pais da sociologia do trabalho francesa, Naville é autor de uma obra que se notabiliza pela detalhada análise das mudanças técnicas na produção e por inscrever essas mudanças no quadro mais amplo do salariato – a forma contemporânea de gestão do trabalho na sociedade capitalista. Entre 1958 e 1959, Pierre Naville será encarregado de desenvolver uma ampla pesquisa sobre a automação em diferentes setores produtivos na França, desde a indústria de biscoitos até a de petróleo. O resultado dessas investigações foi publicado em 1963 em livro intitulado Vers l’Automatisme Social? (Naville, 2016), uma obra que se tornou clássica e indispensável para aqueles que estudam as indústrias de processo em fluxo contínuo.

De outra parte, é a perspectiva empreendida por Pierre Naville que inspira os estudos desenvolvidos por Rot e Vatin (2022), dois autores que também estão na base teórica da presente pesquisa. Tais perspectivas teóricas mostram grande pertinência por estarem em afinidade com o objeto de nossa investigação, especialmente por permitirem uma compreensão refinada da dinâmica das interfaces entre o ser humano e os dispositivos técnicos da produção, evidenciando o que é próprio das indústrias de processo em fluxo contínuo e o que é próprio do humano nos meios laborais altamente tecnológicos ou maquinizados.

Esta pesquisa compreende uma investigação qualitativa do tipo estudo de caso, realizada em uma subestação de energia elétrica situada no Estado de Goiás (Brasil), contando com a participação de onze profissionais: nove operadores, um supervisor e um gestor. O Quadro 1 caracteriza o perfil dos participantes da pesquisa. A análise do perfil evidenciou uma composição majoritariamente masculina, com dez operadores do sexo masculino e uma operadora do sexo feminino3:

Quadro 1
Perfil dos participantes

Para garantir uma compreensão abrangente do trabalho dos operadores, utilizamos três diferentes técnicas para a elaboração dos dados. Entrevistas semiestruturadas com todos os participantes da pesquisa, observações in loco realizadas por meio do acompanhamento presencial de diversas jornadas de trabalho na subestação – documentadas por meio de um caderno de registros de campo que detalha rotinas, trocas de turnos, eventos etc. – e o método das instruções ao sósia. Este, precisou ser adaptado diante da situação em que o número de operadores diminuiu com as transformações pelas quais a empresa passava naquele momento derivadas do processo de privatização. Assim, as instruções ao sósia foram realizadas em duplas para os operadores e individualmente para o gestor. Mesmo com os ajustes, elas cumpriram um papel relevante e permitiram acesso a detalhes e nuanças sobre o trabalho e o trabalhar que seriam inacessíveis aos pesquisadores por outra via4.

A organização e a análise dos dados se inspiraram no método de análise de conteúdo desenvolvido por Bardin (2016) e seguiu três etapas: pré-análise, descrição analítica e interpretação inferencial, no qual se estabeleceu constantes idas e vindas sobre o conjunto do material. Na etapa final, realizou-se um processo de interpretação, elaboração de inferências e apresentação dos resultados. Para isso, partiu-se de quatro dimensões de análise definidas com base no contato com o campo e nos dados da pesquisa: (1) as normativas que regem o trabalho dos operadores; (2) os saberes e recursos mobilizados na prática; (3) as relações coletivas e regras implícitas compartilhadas pelo grupo; e (4) os elementos e valores que caracterizam um trabalho “bem-feito”. Por fim, na etapa de síntese e interpretação dos dados da pesquisa, procedeu-se à elaboração sistemática das categorias e a apresentação dos resultados com base nos dados globais da investigação.

Em conformidade com a Resolução nº 466, de 12 de dezembro de 2012, do Conselho Nacional de Saúde, esta pesquisa foi submetida à apreciação do Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Goiás (UFG) e protocolada na Plataforma Brasil. O trabalho de campo e as análises foram realizados entre agosto de 2022 e dezembro de 2023, respeitando todos os procedimentos éticos estabelecidos.

Contexto socioeconômico e organizacional da subestação

A subestação investigada, peça fundamental da infraestrutura energética do centro-oeste brasileiro, foi inaugurada em 28 de outubro de 1972. Sua localização estratégica, a 218 km da usina hidrelétrica de Itumbiara e a 196 km de Brasília, permite otimizar o fluxo de energia, garantindo a estabilidade do fornecimento para a região metropolitana de Goiânia e o Distrito Federal. A história da subestação remonta à criação da instituição à qual pertence, em 1957, por decreto do presidente Juscelino Kubitschek, com o objetivo de solucionar a crise energética que ameaçava o abastecimento dos principais centros socioeconômicos do país.

Originalmente sob controle estatal, a empresa expandiu-se significativamente, abrangendo instalações em 15 estados brasileiros e no Distrito Federal. Seu sistema integrado compreende 22 usinas hidrelétricas, 2 termelétricas e 1 complexo eólico, além de uma extensa rede de transmissão e de subestações. A subestação investigada, uma das 72 da empresa, opera com equipamentos de alta tensão (230 e 345kV) e é considerada a segunda maior do estado de Goiás. Sua infraestrutura inclui cinco transformadores com capacidade total de 1.125 MVA, dois barramentos, quatro linhas de transmissão, cinco linhas de interligação, um banco de capacitores e dois reatores de linha, além de sistemas auxiliares completos.

Em setembro de 2022, período inicial da investigação empírica, a subestação contava com um quadro funcional de 23 profissionais, distribuídos entre gestão, supervisão, operação, manutenção e serviços gerais. Deste universo, 11 colaboradores (47,8% do quadro total) participaram do estudo, provenientes das áreas de gestão, supervisão e operação.

A partir de 2021, os trabalhadores da subestação vivenciaram um cenário de incertezas devido à aprovação da Medida Provisória nº 1.031, de 23 de fevereiro de 2021, que culminou na privatização da Eletrobrás em 2022. Esse processo de desestatização impactou profundamente o ambiente de trabalho, introduzindo um elemento de instabilidade que desafiou a relação estabelecida entre os operadores e suas atribuições profissionais. As transformações organizacionais decorrentes afetaram não apenas os aspectos práticos da profissão, mas também o sentido que os trabalhadores atribuíam ao seu trabalho. A tensão entre o valor que eles próprios atribuíam ao trabalho e as novas realidades impostas pela privatização foi evidenciada durante a realização da pesquisa.

A insegurança quanto à substituição e o sentimento de desvalorização profissional emergiram como temas centrais nos relatos dos operadores. O operador Op. 1, por exemplo, expressando-se com um certo pesar, relatava que no atual contexto a experiência e o conhecimento acumulados ao longo de décadas em nada não garantiam sua permanência na empresa: “eu sempre me vi como uma figura indispensável. Mas a medida em que o tempo vai passando, você vai percebendo que você é substituível, em todo o instante, em todo o momento...” (Op. 1).

Essa percepção é corroborada pelo relato do operador Op. 9, que parece se considerar como descartável e desvalorizado pela empresa:

Hoje eu não me sinto importante pra esse serviço. Eu me sinto assim... mais [sic] é jogado. Tipo assim, não é importante o serviço que eu faço mais. Que a empresa tenta mostrar que a gente não é importante, que pode ser trocado a qualquer hora né. (Op. 9) (sic)

Esses relatos sinalizam uma certa interversão na relação entre esses operadores e seu trabalho, isto é, uma passagem ao sinal contrário na relação de sentido que eles estabeleciam com suas atribuições profissionais. Em uma palavra: os operadores parecem perceber-se não como figuras centrais no âmbito da empresa, mas como estando a reboque das profundas mudanças em curso e diante das quais seu trabalho não parece mais importante para seus empregadores.

Assim, uma estreita lógica empresarial focada na redução de custos, parece sobrepor-se ao reconhecimento do valor do conhecimento e da experiência acumulados pelos trabalhadores, o que não é sem consequências negativas para a própria eficácia e eficiência das empresas, como demonstrado por estudos em diferentes setores, da petroquímica (Lima, 2007) ao ramo da indústria metal-mecânica (Rosa, 2004).

Os relatos dos trabalhadores que participaram do estudo revelam que a privatização não apenas afetou os aspectos práticos da profissão, mas também impactou profundamente o sentido que atribuem à sua atividade de trabalho. A desmotivação e a percepção de não pertencimento à empresa expressos nos relatos evidenciam o impacto subjetivo das mudanças organizacionais, convergindo com aspectos observados também por outras pesquisas (Clot, 2010; Daniellou, 2010; Salvagni & Veronese, 2019) que apontam uma problemática combinação entre alta responsabilidade, potencial de acidentes graves, somados à incertezas organizacionais e de destinos profissionais cuja fórmula amplia riscos invisíveis – como estresse, ansiedade e medo – que afetam a realização do trabalho e a própria saúde dos trabalhadores.

Exigências e complexidade do trabalho numa subestação

Operando com equipamentos de alto potencial de tensão elétrica (230 e 345 kV), a subestação por nós estudada configura uma realidade de trabalho complexa, com forte componente de risco de acidentes graves, porém estrategicamente central para as empresas e os cidadãos goianos. O trabalho na subestação envolve o estabelecimento de rotinas e a realização de inspeções periódicas, tudo isso articulado com a coordenação eficiente das trocas de turnos.

O trabalho em sistemas produtivos que operam em fluxo contínuo apresenta características próprias. Uma dessas características específicas é a exigência do trabalho em turnos. No caso da subestação de energia elétrica investigada, a organização do trabalho nos diferentes turnos – matutino, vespertino e noturno – apresenta demandas e tarefas específicas que constituem um desafio significativo para os operadores, seja pela dificuldade de prever quando ocorrerá a jornada laboral, seja porque o trabalho em turnos afeta a vida familiar. Conforme relatam os próprios operadores:

Quando você trabalha nessa função já tem que saber que vai trabalhar em horários diversos e que o turno é rotativo e alternado. Você vai trabalhar de noite, tarde e manhã e inclusive aos finais de semana. Com isso, você se isenta de eventos sociais, de aniversários da sua família, de datas comemorativas, natal, e do seu próprio aniversário (...) porque operação é 24h e 365 dias. E isso você descobre rapidão, logo nos primeiros anos, segundo terceiro ano se você vai suportar isso daí ou não. (Op. 2) (sic)

O mais frustrante da operação em turno ininterrupto é o fato de você não conseguir estabelecer uma rotina normal “você dormir todas as noites na sua casa”. Hoje eu estou aqui, amanhã eu estou aqui à tarde, depois de amanhã eu vou trabalhar à noite. (Op. 8)

Cada turno de trabalho impõe desafios específicos, destacando-se o turno matutino como o período mais intenso, quando a equipe de manutenção e os prestadores de serviços externos iniciam suas tarefas, os fornecedores entregam equipamentos e os operadores são responsáveis pela abertura, acompanhamento e fechamento de documentação de todas as atividades. O turno vespertino apresenta desafios relacionados à continuidade das operações, exigindo rápida compreensão do status de cada tarefa em andamento. Como expõe um dos operadores: “o turno da tarde você já recebe algo em andamento. Principalmente quando tem desligamento e tudo. Você vai pegar a coisa já em andamento” (Op. 10). O que ele menciona como em andamento refere-se à investigação de possíveis problemas nos equipamentos e às ações de manutenção, atribuídas prioritariamente às equipes do período diurno. O turno noturno, por sua vez, embora raramente apresente trabalhos programados – manutenção, trocas e testagens etc. –, impõe outras exigências significativas. A privação do sono e o cansaço decorrentes da monotonia e dos ciclos fisiológicos tornam esse turno um dos mais desafiadores, como destaca o operador Op. 2: “você precisa desenvolver o seu emocional, para suportar a solidão. De aguentar aquele horário onde o silêncio é ensurdecedor. O silêncio da madrugada, o silêncio do feriado, dos finais de semana. Isso aí é ensurdecedor, né?” (sic). O operador Op. 10 explique que:

[...] com o passar das horas o cansaço vem naturalmente. (...) É na ocorrência de uma explosão, de uma necessidade urgente de ação, a adrenalina é tão intensa, que o sono some. O grande problema, às vezes, é o raciocínio que não acompanha aquela energia. Você tem até que monitorar se as suas ações estão sendo adequadas. Porque o raciocínio, ele fica mais lento.

Esse é um ponto interessante do trabalho em indústrias que operam em fluxo contínuo, pois é um trabalho que exige do corpo e, a seu modo, induz a uma fadiga difícil de ser mensurada, sobretudo nas funções de vigilância e controle das operações. Trata-se de uma fórmula que colide com as representações ordinárias do trabalho e do trabalhar, posto que a mobilização física e a despesa energética gerada pelo movimento não estão no centro dos processos laborais em curso, mas a atenção e as disposições cognitivas, ao passo que, como mostram Rot e Vatin (2022), a produção se torna inversamente proporcional ao trabalho direto despendido.

Do ponto de vista dos trabalhadores, nada é simples. No turno noturno, como dizia um dos operadores, “você tem até que monitorar se as suas ações estão sendo adequadas” (Op. 10), saber lidar “com o passar das horas” quando o trabalho consiste em acompanhar os monitores. Como citou outro operador, é preciso suportar a solidão no “horário onde o silêncio é ensurdecedor” (Op. 2).

Esse traço próprio do trabalho em sistemas produtivos em fluxo contínuo e que faz com que, por vezes, a rotina do trabalho consista em vigiar os monitores e “esperar que algo aconteça ou, em outras palavras, monitorar para que nada aconteça” (Rot & Vatin, 2022, p. 28), não é vivido sem ambiguidades por seus profissionais. Podemos dizer, acompanhando Bidet (2011), que, face às representações ordinárias do trabalho, este parece se dissolver aos olhos dos trabalhadores quando os sistemas informatizados e os dispositivos técnicos se encarregam da produção, mas também aos olhos daqueles que estão de fora desse meio laboral. Os profissionais que participaram de nossa pesquisa demonstram compreender que realizam um trabalho exigente sob vários aspectos, atos profissionais que eles mesmos atribuem valor e que são considerados de grande relevância social5. Por outro lado, esses trabalhadores não deixam de perceber, não sem sinalizarem um certo desconforto, que se trata de um exercício profissional cuja representação se choca com as formas habituais de se conceber o trabalho e o trabalhar: “tem gente que pergunta: você trabalha de quê mesmo? Por que eu nunca vejo você trabalhando?” (Op. 9); “é muito ruim você saber que o pensamento do outro é que você está ocioso, ou seja, não está produzindo” (Op. 3).

Apontamentos como esses, que acabamos de destacar, são bastante reveladores dos conflitos de representação em torno do trabalho. Eles foram frequentes durante a pesquisa, mostrando como o trabalho nesse gênero de sistema produtivo precisa ser melhor compreendido pela sociedade, assinalando, também, a pertinência de investigar mais detidamente o processo de trabalho em curso. É o que procuraremos fazer nas próximas seções.

Um meio laboral fortemente normatizado e de alto risco

Os saberes requeridos dos operadores do setor elétrico brasileiro fundamentam-se, essencialmente, no domínio dos conhecimentos de base da formação em eletrotécnica e em um rigoroso arcabouço normativo que reflete a natureza de alto risco da profissão. Como observaram Rot e Vatin (2022), nos meios laborais em que qualquer erro pode acarretar consequências humanas e ambientais muito graves, a regulamentação torna-se particularmente exigente. Esse contexto de trabalho altamente codificado estabelece diretrizes claras que visam garantir tanto a segurança dos trabalhadores quanto a confiabilidade das operações dos sistemas, no caso específico, o sistema elétrico nacional.

O arcabouço normativo ao qual fizemos referência é definido no exterior das situações laborais e firmado, em larga medida, por três entidades: o Operador Nacional do Setor Elétrico (ONS), responsável pela coordenação das operações; a Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL), que regula o setor; e pelo Ministério do Trabalho, notadamente pelas Normas Reguladoras (NR). Essas são, como sinalizamos, normativas externas à empresa.

Paralelamente, no âmbito interno da empresa, ela própria desenvolve normativas específicas. Estas se consubstanciam em Instruções Normativas (IN) e nos Manuais Operacionais (MO), que definem os modos de uso das instalações e os procedimentos operacionais específicos. Além disso, ainda em consonância com as características das unidades produtivas, as empresas se balizam pela Norma de Operação do Sistema Eletroenergético (NOE). Considerando o seu todo, essas normas constituem um conjunto integrado que orienta e padroniza as atividades operacionais. De modo geral, para os operadores e gestores, trata-se de um agir fortemente regulado.

Para garantir o domínio dos saberes requeridos, estabelece-se um processo contínuo de recertificação trienal, exigido pelo ONS, que envolve testes e avaliações abrangentes que aferem o conhecimento técnico dos operadores. Os depoimentos dos trabalhadores revelam a centralidade dos saberes codificados e das normas em sua prática profissional, evidenciando margens de manobra muito restritas: “o trabalho da operação é um trabalho que é feito sobre regras, sobre normas. Você tem que executar as normas” (Op. 8), no qual o operador deve ser assertivo. Conforme nos relatou o operador Op. 5, não há espaço para hesitar, pois “no nosso serviço, na nossa função, você não tem que ter convicção, você tem que seguir as regras. O que está escrito para fazer” (sic).

Como se pode depreender, os operadores internalizam fortemente o cumprimento dos aspectos normativos que enquadram sua função e suas práticas, configurando nesse ponto um elemento importante de sua identidade profissional, cujo recurso à expressão “no nosso serviço...” permite dimensionar o que está em jogo. É uma responsabilidade de conduta que parece ser assumida no nível individual pelos operadores e pelo seu coletivo profissional, sendo essencial para agir sobre os incidentes e evitar acidentes, bem como para atuar sobre eles caso venham a surgir.

A operação de um sistema elétrico de grande porte revela sua complexidade máxima nos momentos de distúrbios e emergências. É nesses instantes críticos que os saberes dos operadores são verdadeiramente postos à prova, exigindo não apenas conhecimento técnico, mas também controle emocional, capacidade de decisão rápida e gestão da pressão psicológica inerente à responsabilidade de manter o fornecimento de energia para milhares ou milhões de pessoas. A esse respeito vale citar o testemunho dos próprios operadores:

Se ocorre um distúrbio geral, pode apostar que dá um frio na barriga. É como os cantores profissionais que, antes de subir ao palco, sentem aquele frio na espinha, aquela ansiedade no estômago, até conseguirem respirar fundo e entrar no clima. A responsabilidade é enorme! Uma cidade inteira, um estado, várias cidades podem ficar sem energia, dependendo da sua atuação, das suas decisões, do seu conhecimento e da sua capacidade de manter a calma. Porque num distúrbio geral, tudo apaga, os alarmes disparam, é um cenário assustador. Alguns [operadores] podem entrar em pânico, ter vontade de chorar, de se esconder. (Op. 1) (sic)

Mesmo depois de 27 anos de experiência, quando um alarme dispara, meu coração ainda acelera (...). Agir sob pressão, com todos os alarmes soando, a energia oscilando, você precisa pensar e agir rápido, com a adrenalina lá em cima. (Op. 5)

Sintetizando o que foi apontado, os achados do nosso estudo evidenciam que os saberes codificados, as normas e instruções fixadas ex ante às situações de trabalho constituem, em primeira instância, uma espécie de linha mestra do setor elétrico, estabelecendo e fixando a base dos conhecimentos técnicos para a realização das tarefas. Podemos dizer, então, acompanhando a distinção matriz da ergonomia da atividade, que o trabalho prescrito ocupa um lugar cardinal no âmbito desse setor produtivo que atua na geração, transmissão e distribuição de energia elétrica. Mas, como demonstraremos a seguir, essa é apenas uma parte da questão.

Por dentro do processo de trabalho: dos saberes requeridos aos mobilizados

Nossa pesquisa revela que, por detrás dos saberes codificados e altamente normatizados, outros tipos de saberes também ganham lugar e assumem importância decisiva para que o sistema técnico do setor energético funcione sem panes e maiores intercorrências. As entrevistas com os operadores, a análise do trabalho e os registros de campo permitiriam uma melhor compreensão a respeito dessa questão, que envolve perscrutar o trabalho real dos operadores.

Como procuramos demonstrar, a formação em eletrotécnica requerida para o operador marca apenas o início de uma longa trajetória na qual sua qualificação vai se construindo, por meio da experiência do trabalho e das certificações que comprovam a aptidão do operador para o exercício da função. A síntese desse cruzamento é a competência do operador, tornando-o capaz de atuar em coletivo, efetuar ações comuns e, in situ, responder à altura das exigências de suas funções, cujos riscos de acidentes com danos humanos e econômicos são de grandes proporções. Como afirmou um de nossos interlocutores: “a pessoa tem que ser treinada. Não pode ser jogada, porque isso aqui não é local para aprendiz” (Op. 9).

No curso do processo acima mencionado, além das características propriamente técnicas formalizadas nos manuais e nas normas operacionais, os trabalhadores desenvolvem percepções próprias sobre o que sua função efetivamente requer. Com base nas entrevistas individuais e considerando a ênfase e a frequência das falas dos participantes do estudo, foi possível categorizar estas percepções em quatro tipos de características exigidas no exercício da função de operador. Muito apropriadamente, denominaremos de competência tais características ajustadas ao agir profissional.

A primeira delas comporta um conjunto de características que foram muito enfatizadas por nossos interlocutores e que agrupamos sob a denominação de controle emocional. Esta foi a competência mais citada e enfatizada pelos trabalhadores, incluindo o supervisor e o gestor. De fato, pelo que se depreende da natureza da tarefa realizada, trata-se de algo central. Como nos relatava um dos operadores: “na hora da perturbação, o que vai mais apontar, vai ser mais o preparo emocional do que o preparo técnico” (Op. 7).

Junto com a competência mencionada, as habilidades de comunicação e relacionamento foram igualmente muito enfatizadas. Essas dizem respeito ao trabalho em equipe e suas exigências intrínsecas – conduzir coletivamente uma tarefa em comum – e na qual o relacionamento interpessoal parece possuir importante lugar, em especial no caso das equipes que trabalham em turnos, visto se tratar de um modo de organização da jornada laboral na qual a convivência se prolonga e se conforma de modo singular.

De outra parte, surpreendentemente, as competências técnicas da função, isto é, seu corpus formal e específico, apesar de formarem a base fundamental da função de operação, não estiveram na primeira linha dos apontamentos efetuados pelos operadores e gestores, figurando com menor ênfase nas falas e na frequência das menções. Para sermos precisos, comparecem na fala do gestor e em cinco dos dez operadores. No entanto, se menos enfatizadas, tais competências técnicas comparecem, seja na referência ao necessário conhecimento das normas de operação e de segurança, seja na necessidade de possuir senso crítico – compreendido como capacidade de avaliar a situação e tomar decisões fundamentadas – e atributos apurados como visão, audição e olfato. Esses aspectos que retivemos do que relataram nossos interlocutores e que denominamos de competências técnicas estão, todos eles, em afinidade com o preconizado nos Manuais Operacionais (MO) que orientam o agir dos operadores.

Por fim, os operadores, o supervisor e o gestor mencionaram características dispersas e aparentemente pouco palpáveis, mas que, efetivamente, também são operatórias no meio laboral por eles partilhado. Trata-se do que denominamos atitudes profissionais situadas. Estas envolvem componentes éticos, valores e modos de conduta constituídos no interior do coletivo profissional, como a responsabilidade e o comprometimento, elementos identificados como valores fundamentais para esses trabalhadores.

Na mesma linha, o interesse e a curiosidade foram destacados em relação à necessidade de manter-se em permanente busca de conhecimento, como também a adaptabilidade, notadamente face a um trabalho com jornadas compostas por rotinas rígidas e variações de turnos, estas últimas acarretando dificuldades nada simples para a conjugação da vida profissional com a vida familiar. Assim, sob o olhar dos operadores, no curso da realização de suas atribuições profissionais, competências de diversas ordens ganham lugar: controle emocional, habilidades de comunicação e relacionamento, saberes técnicos, atitudes profissionais (comprometimento, responsabilidade etc.).

No que acaba de ser exposto, dois pontos chamam a atenção. O primeiro diz respeito ao fato de que todos os nossos interlocutores enfatizam o componente emocional do trabalho realizado, conferindo-lhe uma espécie de primazia no contexto de um exercício profissional no qual rápidas decisões precisam ser tomadas em um ambiente complexo e que, por isso, demanda forte controle emocional. Não se deve inferir, a partir do que foi dito, que os participantes secundarizam os saberes técnicos – o conhecimento teórico específico, as normas técnicas etc. O que parece é que o trabalho real exige a incorporação e a mobilização de diversos saberes, nos quais os saberes técnicos são condição necessária, mas não suficiente, para realizar o que precisa ser realizado. Ele é pressuposto na operação, porém não se confunde com ela.

O segundo ponto está relacionado ao anterior. Na realização do trabalho, diversos saberes estão presentes no agir do operador e é nesse domínio que se apresenta, com propriedade, a problemática da competência. A competência humana é uma síntese de ingredientes complexos (Schwartz, 1998) na qual certos componentes são mais evidentes e podem até ser mensurados – como os conhecimentos teóricos ou o domínio de uma norma técnica –, ao passo que outros se mostram mais difíceis de apreender, como, por exemplo, a capacidade de mobilizar elementos mais gerais face ao caso singular. Não é face a esse último quesito que, muitas vezes, se advoga que um profissional é ou não é competente?

Entretanto, há também ingredientes da competência, para retomar a Yves Schwartz, que não podem ser medidos e não comportam nenhum critério externo de mensuração. É o caso dos valores. Não são eles que permeiam o que os participantes de nosso estudo disseram a respeito da importância do empenho, da responsabilidade e do compromisso? Mesmo a busca constante pelo aprendizado, não é ela mesma uma relação de valor?6. Alinhando-nos a Schwartz (2004), uma apreciação de valor não pode ser delegada, tampouco deduzida de fora da situação laboral, estando no centro de uma dialética entre o uso de si por si e o uso de si por outros. Por exemplo, diante de um trabalho coletivo, me poupar ou me envolver? O valor aqui não é dimensionado pela temporalidade do mercado, mas pela temporalidade ergológica, isto é, pela da própria atividade humana. A apreciação de valor refere-se, assim, ao ponto de vista daqueles e daquelas que exercem suas atividades profissionais em determinado meio de trabalho e vida. Canguilhem (2009) não diria diferente.

Os saberes mobilizados: a dimensão criativa da atividade

Os saberes codificados – saberes técnicos – são especialmente importantes neste gênero de sistema produtivo complexo e de alto risco de danos ambientais e humanos severos. Todavia, nas situações de trabalho nada vai por si.

A passagem do que deve ser feito – trabalho prescrito – ao efetivamente realizado demanda e exige a mediação da atividade dos trabalhadores, encarnando nas situações laborais as normas abstratas e configuradas ex ante, inscrevendo-as em algo que é da ordem da história (Schwartz, 2016), pois, tal como esta, não é antecipável, o que vai se passar no meio laboral também não é. Se o trabalho prescrito é, então, componente necessário e insuficiente para realizar o trabalho em uma situação concreta, isso quer dizer que algo como uma sorte de criação tem lugar no meio laboral, no sentido de instituir face ao já existente. É a atividade que arbitra entre um ponto e outro. Vejamos tudo isso mais de perto.

Como descrito nas seções iniciais do presente artigo, os operadores participantes do estudo trabalham em uma subestação na qual precisam acompanhar o andamento dos sistemas, realizar manutenção e executar diversos procedimentos que envolvem aferições e testes. Trata-se de uma rotina, certamente, mas na qual a imprevisibilidade e a complexidade dos sistemas criam uma dinâmica própria naquele meio laboral, em que o risco de acidentes está sempre à espreita. Fatores externos, como condições climáticas extremas e demandas flutuantes da rede, conjugam-se com ocorrências imprevistas do próprio sistema que precisa ser mantido pelos operadores em seu estado de funcionamento normal.

De fato, diante das situações de trabalho experienciadas na subestação, a imprevisibilidade parece ser a palavra-chave dos operadores para designar seu cotidiano laboral:

Quando a gente chega na subestação [...] você cria na mente a questão de: “o que eu vou enfrentar hoje?!”, “como será o dia hoje?”, “quais são os problemas?!”. Porque cada dia é um dia que pode ser diferente. Problemas diferentes. (Op. 10)

A inquietação do operador diante da imprevisibilidade das situações se expressa em seus questionamentos reflexivos sobre a labilidade de seu cotidiano: “o que eu vou enfrentar hoje?”, “como será o dia hoje?”. Longe de ser um fator paralisante, essa incerteza convida os trabalhadores a mobilizarem continuamente seus saberes, seus valores e sua experiência para construir o que podemos denominar, muito propriamente, de trama singular de suas atribuições cotidianas.

Na singularidade dessa trama, trabalhar não é executar. Em um meio laboral, trabalhar não é reagir, mas interpretar o que se passa, antecipar, endereçar a outrem. É assim que em uma ocorrência por nós presenciada na sala de controle, um dos equipamentos repentinamente emitiu um sinal sonoro e visual indicando uma falha que foi rapidamente acompanhada por um dos operadores. Passado o episódio e perguntado a respeito, o operador explicou a intercorrência e, apontando para um pequeno visor, fez o seguinte comentário: “observa aqui (indicando o aviso luminoso) o equipamento conversa com a gente” (Op. 2). Mas será que todos os operadores que estão naquele meio laboral podem participar da referida conversa? O que ali é “dito” é algo claro para todos? Idealmente sim, pois as habilitações formais dos operadores atestam isso, contudo, em situação de trabalho as coisas podem se passar de forma bem diferente.

Em nosso caderno de campo, registramos um caso bastante ilustrativo: um operador terceirizado, experiente em subestações de distribuição, mas novo em subestações de transmissão, ao circular pelas instalações e efetuando suas ações de rotina, identificou um sinal luminoso durante uma inspeção. Preocupado com uma possível anormalidade, relatou o problema ao colega de turno. Todavia, o referido colega apontou para uma marcação, a letra “N” gravada à caneta no equipamento – já antigo – e explicou que aquele sinal luminoso era esperado e reconhecido por todos os operadores. Apesar de não estar previsto nos manuais e procedimentos formais, os trabalhadores haviam sinalizado aquele aviso luminoso como algo normal, uma ação resultante dos ajustes e adaptações construídos coletivamente por eles. Como se pode depreender, o meio laboral tem uma história tecida por um coletivo profissional, uma história que precisa ser apropriada por aqueles que pretendem nele se integrar.

Esses aspectos nos dão pistas sobre a densidade do que ganha curso nas situações de trabalho; eles são também reveladores tanto da necessidade do que, mais acima, denominamos de saberes codificados quanto de sua insuficiência. Nas situações de trabalho, as variabilidades dos contextos e das pessoas exigem mais do que uma aplicação de consignas. Os operadores o dizem:

No trabalho real, as coisas fogem da teoria. Pois na teoria é “olha, o equipamento funciona assim, foi planejado, projetado para funcionar dessa maneira”. Porém, quando vamos executar, seja aqui ou em outras estações... subestações antigas que já têm equipamentos obsoletos, nem existem mais peças de reposição. Então, usamos muitos “jeitinhos” para fazer as coisas funcionarem. (Op. 10)

Sempre existe uma forma de fazermos, não é? De darmos um jeito, digamos assim, que foge da norma com a qual trabalhamos, ou seja, que sai do padrão. Essa é a base para a operação e, acredito, para todas as atividades. Por exemplo, as manobras padrão são fundamentais para agirmos de forma rápida e nos protegermos, mas muitas vezes precisamos nos desviar dessas manobras. Temos que nos desviar. Por quê? Caso contrário, não funcionará. (Op. 2)

Tais aspectos que acabamos de destacar compreendem o que Schwartz (2004) denomina renormalizações, assinalando a orientação ativa do trabalhador face ao meio laboral e o modo pelo qual uma diversidade de elementos nele presentes – regras, protocolos, dispositivos técnicos, práticas de gestão etc. – são objeto de retrabalho pela atividade individual e coletiva dos profissionais. De fato, uma complexa alquimia entre a experiência, os saberes e os valores.

Algumas reflexões sobre o que foi apresentado

O exposto nas seções precedentes traz aspectos que, por sua relevância, merecem destaque e discussão. O primeiro deles concerne à constatação de um modo de organização do trabalho que, de facto, colide com as representações ordinárias sobre o trabalho e o trabalhar. O senso comum e as representações doutas muitas vezes associam o trabalho em uma grande indústria ao trabalho parcelar – em migalhas, para lembrar o título de uma das obras de Friedmann (1956) que encontrou importante audiência – cujo ritmo de execução dos movimentos no ato produtivo é comandado pela máquina. Entretanto, nos sistemas produtivos em processo de fluxo contínuo, as coisas se passam de modo diferente.

O aspecto central está no fato de que não há trabalho direto sobre a matéria a ser transformada, mas um ato profissional cada vez mais mediado – por dispositivos técnicos, painéis, teclados de computador, signos etc. – no qual, muitas vezes, o trabalho consiste em interpretar e agir com as medidas necessárias à manutenção da normalidade do processo. Pierre Naville identificou o traço essencial dessa forma laboral. Trata-se de uma forma laboral na qual comumente “o homem se limita a interpretar os sinais dos sinais” (Naville, 2016, p. 97) e ocupa postos centrais de vigilância e controle, tendo em vista manter o funcionamento do conjunto. O elemento cardinal em tudo isso está no automatismo, objeto central das pesquisas de Pierre Naville ao final dos anos 1950 e que, conforme ele, tendia a se tornar um princípio operatório geral7.

O automatismo traz em seu bojo uma questão importante: a do lugar do ser humano no processo produtivo. A questão não é banal. Ela assombra as ciências sociais e as ciências humanas desde longa data, bem como se apresenta como de interesse direto dos primeiros estudiosos liberais do processo de trabalho nas indústrias modernas. Fazer a produção fluir sem a intervenção humana é uma antiga ambição capitalista. Relembremos alguém frequentemente citado por Marx, o britânico Andrew Ure (1836): “a mais perfeita manufatura é aquela que pode se passar inteiramente sem o trabalho das mãos” (p. 1).

Todavia, nas situações concretas, como as coisas se passam verdadeiramente? De fato, com os automatismos, o trabalho imediato declina e se desloca. Sim, também é verdade que a produção deixa de ter correlação com o volume de trabalho imediato despendido. Mas isso não significa, de modo algum, que os sistemas marchem por si.

Como uma sorte de eco de tudo isso, o trabalho humano reaparece como ato produtivo no qual o humano aporta o que lhe é próprio. O trabalho humano oferece o que a máquina não pode oferecer: não uma simples ação, “mas um ato, ou seja, uma ação refletida, motivada e intencional” (Rot & Vatin, 2022, p. 27). Em nossa pesquisa, esse aspecto se mostrou muito evidente, ele informa o sentido da conduta dos operadores sobre o conjunto do sistema na subestação. Por mais perfeitos que sejam, os sistemas técnicos apresentam disfuncionamentos e intercorrências não completamente antecipáveis e sobre as quais os operadores são chamados a decidir. Não se trata de uma ação em resposta a um problema informado, mas de um ato face a um problema contextualmente situado.

Se o ato humano possui tal caráter, faz sentido perguntar pelo que o constitui. Ora, estamos falando de atos profissionais. Atos constituídos por trabalhadores que receberam formação e, juntos, partilharam um meio profissional. Nossa investigação evidencia a complementaridade entre essas duas fontes. A formação recebida no curso de Eletrotécnica, as formações e atualizações sobre a legislação e normas regulamentadoras ganham operatividade, por assim dizer, pela atividade de trabalho dos operadores, e esta é preenchida por um saber experiencial desenvolvido – individual e coletivamente – em um certo meio profissional, ele mesmo portador de uma história.

É a experiência profissional que permite a um operador ir além do que determina o padrão das ações e do determinado pela norma. Como eles mesmos disseram, “no trabalho real, as coisas fogem da teoria” (Op. 10). Porém, aqui é preciso chamar a atenção sobre um ponto: como evidenciaram as décadas de pesquisa em ergonomia, o trabalho prescrito está em decalagem – maior ou menor – com o trabalho real. Há uma diferença entre o que se pede e o que a coisa pede. O trabalhador, pois, não tem escolha. É preciso efetuar arbitragens na realização de sua tarefa, mesmo que numa dimensão pouco visível.

No caso em tela, estamos tratando de um meio profissional com componentes de alto risco, o que coloca um constrangimento ainda maior sobre a atuação dos operadores que investigamos. É justamente nesse ponto que a experiência entra como componente importante, pois funciona como uma espécie de memória coletiva sobre o trabalho e o trabalhar. É saber em trabalho, conforme os termos de Santos (1996). Seu lastro coletivo é o que permite que cada um dos operadores possa se mostrar competente diante de uma situação crítica e responder de modo eficaz à configuração singular do evento em curso.

O que acabamos de dizer nos dá pistas para compreender como a competência humana se constitui no meio laboral, mas também nos fornece elementos para compreender o que a faz arrefecer. A política de gestão da empresa desempenha nesse ponto um papel central. Com a privatização, uma progressiva dispensa dos operadores favoreceu o desmantelamento do coletivo de trabalho cujo refluir não passou desapercebido pelos operadores.

Ora, naquele meio laboral pudemos notar, e isso à medida que as dispensas progrediam, que a percepção do trabalho em comum que se esvaía pesava duramente sobre aqueles profissionais, assinalando uma história coletiva, sua importância para a competência profissional por eles alcançada e seu não-lugar no futuro da empresa. Esses trabalhadores sabiam da alta exigência quanto ao que realizavam no cotidiano da empresa, mas, então, como trabalhar se percebendo supérfluo para a nova gestão? Retomemos o testemunho de um dos operadores já citado: “hoje eu não me sinto importante pra esse serviço. Eu me sinto assim... mais [sic] é jogado. Tipo assim, não é importante o serviço que eu faço mais” (Op. 9) (sic). Caso seguirmos o que dizem os estudiosos da relação entre trabalho e saúde, veremos que, em condições nas quais o trabalho parece perder o sentido para aqueles que o realizam, se está a um passo da psicopatologia do trabalho e de importantes crises na organização (Lima, 1998; Davezies, 2010; Clot, 2010; Cau-Bareille; Lhuilier & Viviers, 2021).

Gostaríamos de adicionar, ainda, um outro ponto sobre as políticas e práticas de gestão da empresa. Nosso estudo constatou algo pouco discutido na literatura sobre as indústrias de processo em fluxo contínuo e que merece ser sublinhado: a questão da intensificação do trabalho8. Essa constatação não é sem paradoxo, visto que, quando se trata de uma indústria nuclear ou petrolífera, a relação entre o volume da produção e a atuação da força de trabalho ganha nuanças muito próprias. Como já discutimos, nesse tipo de indústria o volume da produção não guarda correspondência com o trabalho direto.

Na subestação elétrica por nós estudada, as coisas se passam do mesmo modo: em condição de normalidade, um maior ou menor volume de energia elétrica a circular nos sistemas da subestação não implica aumento ou diminuição dos gestos dos operadores, tampouco, necessariamente, implica redução ou prolongamento de suas jornadas laborais. Entretanto, nós constatamos que as práticas de gestão em curso desde a privatização da empresa e uma política ativa de redução dos efetivos promoveram franca sobreposição de funções e tarefas a cargo dos operadores que não foram dispensados. Por exemplo, antes feita no ritmo da exigência da própria tarefa, a rotina de inspeção agora rivaliza com outras demandas simultâneas – “Eu não fiz... fiz [a rotina de inspeção], mas foi feito assim, mais rápido e tenho que concluir amanhã. Não fiz totalmente, igual deveria, por causa da demanda que estava lançada” (Op. 4). A sobreposição de tarefas induz a uma sobrecarga difícil de ser gerida e, na qual, os atos profissionais arriscam a se desfazer, tal qual relatado pelo operador Op. 8, “eu comecei a fazer uma tarefa um dia e não terminei, eu deixei para o outro dia e eu vim trabalhar de manhã. (...) Aí me ligaram pra ver outra demanda que tinha na sinalização da entrada ali. Aí eu tive que parar, você quebra o raciocínio...”.

Uma caça cega aos custos, conduzida por uma estreita concepção de gestão, faz nesse ponto sérios danos aos trabalhadores e aos coletivos de trabalho, colocando em xeque o próprio ofício, no sentido de um saber, de um saber-fazer e de uma cultura comum e partilhada. Típicas práticas de gestão que não beneficiam ninguém, nem a empresa – cujo risco de intercorrências e acidentes danosos aumenta – nem mesmo os próprios trabalhadores, mas sobre as quais os dirigentes se obstinam, para retomar os termos de um notável conhecedor dos meios laborais, o ergonomista François Daniellou (2010).

Considerações finais

O fio condutor dos aspectos que trouxemos e das reflexões apresentadas diz respeito às diferenças entre indústrias de produção em série e indústrias de produção em processo de fluxo contínuo. Como dissemos no início deste estudo, as representações ordinárias sobre o trabalho e o trabalhar situam-se do lado da primeira forma e não da segunda. Assim, terminam por instituir o operário da indústria de produção em série – em especial no ramo da produção de automóveis – e a realizar um trabalho repetitivo, como o típico trabalhador de nosso tempo, antes sujeito ao taylorismo-fordismo e agora também ao toyotismo. Mas se o holofote se desloca em direção a tais aspectos concernentes às formas de organização da produção e restam sobre eles, não se perde de vista a natureza dos processos técnicos exigidos pelo que é processado – fazer parafusos não é produzir energia numa usina nuclear – e suas implicações para a interface entre humanos e máquinas? Seguindo a perspectiva aberta por Pierre Naville, nosso estudo procurou atentar ao que está em jogo nessa indagação.

Naville (2016) observa que os automatismos possuem um papel cardinal nas indústrias de produção em fluxo contínuo. São processos cujos princípios são muito antigos, como aquecer e permitir que a transformação de estado da matéria – como na produção industrial de álcool desde o século XIX – faça o produto circular por mangueiras, tubulações, tanques, entre outros. Contudo, o mais relevante para o que nos interessa aqui diz respeito ao que Pierre Naville constata, em suas investigações ao final dos anos 1950, em diversos setores nos quais os automatismos se mostravam mais importantes. O automatismo, de acordo com o sociólogo, levava a um desacoplamento entre o tempo da máquina e o tempo daquele que a operava, de modo que uma inversão (sintoma de mudanças importantes) ganhava curso no processo produtivo. Essa inversão pode ser resumida em uma formulação do autor muito conhecida: “em suma, a parada da linha clássica, sobretudo, imobiliza os homens, enquanto a parada da linha integrada os mobiliza” (Naville, 2016, p. 155). Esse é precisamente o caso dos trabalhadores por nós investigados.

Acompanhar os monitores, observar as sinalizações, identificar oscilações, inspecionar a normalidade do funcionamento são ações que compõem o cerne do trabalho realizado pelos operadores da subestação. Esse trabalho de vigilância e controle, no qual o operador resta mais como alguém que acompanha o processo produtivo do que atua sobre ele, é, pois, invertido nos momentos críticos em que incidentes ou acidentes importantes ocorrem e demandam a resposta ativa dos operadores. Como mencionou um deles citado anteriormente, “mesmo depois de 27 anos de experiência, quando um alarme dispara, meu coração ainda acelera” (Op. 5).

Como vimos, trata-se de um trabalho de alto risco, cujo exercício profissional é fortemente regulado pela legislação e por normas técnicas gerais e locais. Esses elementos normativos são, a um só tempo, essenciais e insuficientes para realizar o que precisa ser feito. É que a passagem do trabalho prescrito ao trabalho real exige mais do que uma estrita aplicação de consignas; por isso, a relevância de compreender a atividade humana e sua complexidade nas situações de trabalho. Nossa pesquisa se interessou justamente por esse aspecto. Nesse ponto, acreditamos ter contribuído para a avanço do conhecimento sobre o trabalho contemporâneo, sobre as especificidades do trabalho nas indústrias de processo em fluxo contínuo, sobre as relações entre formação e exercício profissional e, conexo ao anterior, sobre o tema dos saberes dos trabalhadores.

Por último, gostaríamos de pontuar que a investigação contribui para evidenciar um drama de nosso tempo, o do desmantelamento dos coletivos de trabalho e o da dispensa dos trabalhadores. Não foi por incapacidade ou incompetência que parte dos participantes do estudo perdeu o emprego. Contradição inerente de uma sociedade fundada sob o salariato e que segue “por meio do mais gigantesco desperdício de desenvolvimento individual” (Marx, 2017, p. 126).

  • Apoio e financiamento:
    Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Goiás (FAPEG).
  • Ética em pesquisa
    A pesquisa foi submetida e aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Goiás (CEP/UFG) - CAAE: 48691621.6.0000.5083 – Parecer nº 4.832.467
  • Uso de I.A.:
    Com o objetivo estrito de organizar e formatar as referências bibliográficas de acordo com as normas da APA, foi utilizada a ferramenta/serviço Claude Sonnet 4.6. A autora e o autor declaram que revisaram, validaram, editaram e supervisionaram o texto final, garantindo sua originalidade, precisão e integridade ética, assumindo total responsabilidade pelo conteúdo da publicação.
  • Revisão textual:
    Normalização bibliográfica (APA 7ª Ed.), preparação e revisão textual em português: Luísa de Assis Vieira luisadeassisvieira@gmail.com
    Versão em língua inglesa: Guilherme Oliveira Santos traducao@tikinet.com.br
  • 1
    A atividade é um conceito que possui uma longa história, percorrendo – sob a rubrica de Tätigkeit – a filosofia alemã (Kant, Hegel, Marx) e chegando até a psicologia soviética, com Lev Vygotski e Alexei Leontiev, antes de ser posteriormente apropriada pela ergonomia de base francesa. A atividade é de uma complexidade irredutível por ser uma unidade de elementos múltiplos e heterógenos. Por isso, nenhuma disciplina pode monopolizá-la, “ela atravessa o consciente e o inconsciente, o verbal e o não verbal, o biológico e o cultural, o mecânico e os valores...” (Schwartz, 2005, p. 2), impondo dialéticas entre esses domínios, assim como entre o micro e o macro, os elementos locais e os mais globais etc.
  • 2
    Como dissemos, a ergologia guarda certa relação com a ergonomia, mas cada uma delas possui sua especificidade e não se confundem. A ergonomia é uma disciplina mais antiga, se constituindo em meados do Século XX no curso das exigências interdisciplinares impulsionadas pela 2ª Guerra Mundial, focalizando sua atenção no âmbito da eficácia, da saúde e da produção nos distintos espaços organizacionais e meios laborais. Por seu turno, a ergologia considera as aquisições da ergonomia, mas amplia o escopo de sua orientação sobre as situações de trabalho ao incorporar outros referenciais – como a filosofia da vida de Georges Canguilhem – e outras preocupações, como as filosóficas, epistemológicas e políticas. A respeito da ergonomia e de seus fundamentos, ver Daniellou (2004). Uma introdução à ergologia pode ser vista em Schwartz e Durrive (2007).
  • 3
    Apesar do aumento significativo da participação feminina na empresa desde 1994, quando a primeira mulher assumiu o cargo de operadora, o setor elétrico ainda apresenta desafios de inclusão de gênero. Dados da ANEEL (2023) apontam que o quadro de pessoal do setor era composto de 79,19% de homens e 20,81% de mulheres.
  • 4
    As instruções ao sósia compreendem um método no âmbito da psicologia do trabalho para aceder à dinâmica subjetiva e objetiva da experiência dos trabalhadores em um dado meio laboral, possibilitando conhecer e retrabalhar coletivamente a experiência. O método foi criado pelo médico e psicólogo do trabalho Ivar Oddone e sua equipe no contexto das ações de formação que realizavam junto aos operários do sindicato da Fiat, na Itália ao final dos anos 1960 (Oddone, Re & Briante, 2023).
  • 5
    Esses aspectos são mais importantes do que comumente se imagina, pois dizem respeito à orientação de sentido da atividade e dos valores atribuídos a ela pelos seus próprios protagonistas. Como apontam Bidet et al (2013), colocando assento sobre a racionalização, a sociologia – de Max Weber a Jürgen Habermas – com frequência terminou por concebê-la como secretando seus próprios valores. Mas, sob pena de mal compreender o trabalho, não se pode negligenciar os valores constituídos pelos próprios homens e mulheres que o realizam. É perseguindo essa linha de análise que Alexandra Bidet elaborou uma sorte de categoria heurística em suas investigações, a noção de vrai boulot. A autora pergunta: diante de um determinado meio profissional, o que é o verdadeiro trabalho aos olhos daqueles que o fazem? Dito de outro modo, qual é a porção de uma certa modalidade de trabalho que seus profissionais sublinham de valor, buscando, numa direção inversa ao que se apresenta no conceito sociológico de trabalho sujo (Hughes), atribuí-la para si e não para os outros? (Bidet, 2011, p.9). O trabalho de monitoramento e controle realizado pelos trabalhadores que participaram de nossa pesquisa parece ser por eles assumido e valorizado precisamente nesse sentido.
  • 6
    Essa questão relativa à mobilização subjetiva no processo pedagógico foi notavelmente demonstrada pelos estudos de Bernard Charlot sobre o que ele denomina de relação com o saber (Charlot, 2000).
  • 7
    O diagnóstico efetuado por Naville mostrou-se acertado. Naquele momento ele observava uma tendência à “quimização geral da indústria” (Naville, 2016, p.102), no sentido de que, mesmo a indústria de produção em série, parecia tender ao fluxo contínuo. Não é essa a aspiração de fundo do que nas décadas seguintes veio a ser, primeiramente na indústria do automóvel, o modelo japonês buscando funcionar just in time? Alguns sociólogos depois de Naville identificaram a questão, notando uma orientação de conjunto no sistema produtivo conforme o princípio da fluidez industrial, para citar o conceito desenvolvido por Rot e Vatin (2022).
  • 8
    A discussão mais comum nessas pesquisas recai sobre a fadiga induzida pela exigência de atenção às telas e o controle de indicadores, implicando altas exigências cognitivas e corporais. Esse ângulo de análise do problema já estava presente nas pesquisas pioneiras de Naville (2016) ao final dos anos 1950. A questão que destacamos aqui é de outra natureza.

Disponibilidade de dados

Os autores disponibilizam os dados da pesquisa sob solicitação.

Referências

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Editado por

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    28 Ago 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    17 Jan 2026
  • Revisado
    02 Jun 2026
  • Aceito
    26 Jul 2026
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