Open-access Afinal, o que é divulgação científica? Explanação e proposição de uma definição plural

Resumo

A expressão divulgação científica parece consagrada nas políticas e nas pesquisas que tratam das relações entre ciência e público no Brasil. No entanto, a diversidade de veículos e atores pelas quais opera, e de processos de comunicação e intencionalidades que a regem, exigem demarcações históricas, teóricas, políticas e idiomáticas. Comunicação, difusão, dispersão, vulgarização e popularização são alguns termos que, ora divergem, ora são apresentados como sinônimos de divulgação. Este ensaio propõe uma reflexão sobre essa pluralidade conceitual, reforçando a importância de aprofundar os entendimentos da divulgação científica como um esforço cultural pedagógico, conjunto de práticas sociais de comunicação, campo de estudo acadêmico e base de políticas públicas. Inspirado pelas formulações teóricas de comunicadores e educadores, propõe-se uma definição que considera cinco elementos: fontes, atores, veículos, linguagens e intenções da divulgação científica.

Palavras-chave
Comunicação e Educação; Cultura Científica; Educação Não Formal

Abstract

The term science popularization is an established nomenclature in policies and research studies that focus on the relationships between science and the public in Brazil. However, the multiplicity of means and players through which it operates, and of communication processes and intentionalities that guide it, require historical, political, theoretical, and linguistic boundaries. Communication, diffusion, dispersion, and dissemination are some terms that are sometimes considered different and, at other times, synonyms for popularization. This text proposes a reflection on this conceptual plurality, emphasizing the importance of improving the understanding of science popularization as a pedagogical and cultural effort, a set of social communication practices, an academic field of study, and a basis for public policies. Inspired by theoretical formulations by communicators and educators, we propose a definition considering five aspects: sources, players, vehicles/means, languages, and intentions of science popularization.

Keywords
public communication of science; science and society; non-formal education

Comunicação, educação e cidadania científica

Segundo Mansur et al. (2021), a pandemia do novo coronavírus (Covid-19 ou Sars-Cov-2) demoliu os muros que separavam a sociedade e os cientistas, e expôs a emergência de que as ciências aproximassem, às pressas, a linguagem hermética dos artigos científicos às do jornalismo, das redes sociais, dos áudios e dos vídeos que circulam entre as pessoas “não iniciadas”. Para estes autores, iniciativas dessa natureza vêm “ganhando importância crescente no mundo. Isso ocorre, em parte, como resposta intuitiva dos cientistas aos movimentos anticiência, mas também e principalmente em virtude da compreensão dos interesses políticos e econômicos relacionados ao questionamento das evidências científicas” (p.1).

Contudo, desde os trabalhos fundantes de Ziman (1991) e Miller (1992), dedicar-se a compreender as relações entre ciência e público segue uma tarefa deveras complicada para educadores, pesquisadores, comunicadores e para as próprias comunidades, acadêmica ou leiga. Se durante as últimas décadas as ciências passaram a ser vistas e produzidas sob novas óticas epistêmicas, também as práticas com as quais elas se faziam comunicadas, interna ou externamente, transformaram-se, principalmente por força das novas Tecnologias Digitais de Informação e Comunicação (TDIC).

A sociedade da informação não se confirmou como uma democracia do conhecimento, mas, pelo contrário, em tempos de algoritmização de conteúdos em redes digitais, passou a haver menos dispositivos sociais e técnicos capazes de gerar e regular alguma “verdade segura”. O contexto atual é de disputas epistêmicas e comunicativas: lugares de fala, narrativas, saberes, fontes de informação. E é também tempo da reinvenção de conhecidas fraudes e crimes: charlatanismos, fofocas, desinformação, falsos debates, maquiagem de dados, ofensas, calúnias e difamações (Brockington & Mesquita, 2016; Castelfranchi, 2018; Oreskes & Conway, 2010; Posetti & Bontcheva, 2020).

O conhecimento público, sobre as formas como a ciência e a tecnologia são elaboradas como construtos humanos, teóricos e materiais, torna-se ainda mais central à compreensão da sociedade e ao exercício pleno da cidadania em nosso tempo. As sínteses de Laugksch (2000) e Valladares (2021) e as contribuições, como as de Gil e Vilches (2001) e Lorenzetti (2017), nos permitem entender que uma mínima Alfabetização Científica e Tecnológica (ACT) faz-se imperativa, e exibe-se no domínio dos conceitos básicos das ciências, de sua história e natureza, de suas relações com outros aspectos da cultura, e na capacidade de operar a compreensão desses conceitos na vida pública, privada e coletiva, de modo ético e altruísta, projetando a possibilidade de uma cidadania politicamente atuante, individualmente autônoma, coletivamente comprometida, e não submissa aos especialistas.

Acontece que, durante mais de dois séculos, desde a expansão dos grandes sistemas de ensino e da massificação da educação escolar, acreditou-se que a formação propedêutica aconteceria nessas instituições, mas o cenário mudou em definitivo. Desde o final do século 20, evidenciou-se a exaustão da educação formal como espaço educativo por excelência, com os ambientes não escolares (outros espaços e atividades da cultura) passando a ser requisitados como responsáveis e capazes de contribuir com a formação dos sujeitos e da comunidade (Falk & Dierking, 2002; Gohn, 1999; Marandino, 2017; Rogers, 2004). Meios de comunicação, manifestações artísticas, espaços culturais e, mais recentemente, ambientes virtuais, compõem, agora, o cenário da educação e da comunicação pública da ciência e da tecnologia. Eis o lugar de sentido do que convencionamos chamar de divulgação científica.

Divulgação científica: um conceito frágil?

Em 1954, quando o médico e microbiologista José Reis, um dos fundadores da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SPBC) e também da Associação Brasileira de Jornalismo Científico (ABJC), publicou seu artigo intitulado “Divulgação Científica”, na Revista Ciência e Cultura, ainda não tinha como saber que as gerações seguintes de pesquisadores e divulgadores chegariam ao século 21 academicamente indecisos e/ou virtualmente animosos, ao debater o que é, por que se faz, de que modos, e quem estaria autorizado a divulgar ciência e tecnologia. Nas redes sociais, acaloradas disputas têm espaço, sazonalmente, cada vez que alguém não cita suas fontes, produz conteúdo para públicos “nichados”, usa a ciência como verniz legitimador de opiniões pessoais ou insinua que sua intenção não é educativa1.

Há meio século, o próprio José Reis (1982) já definiu a divulgação científica como “veiculação em termos simples da ciência como processo, dos princípios nela estabelecidos, das metodologias que emprega” (p. 116). Mas à medida que as ciências, a educação e a comunicação foram se transformando, outras definições apareceram. Em meados da década de 1980, por exemplo, o jornalista Wilson da Costa Bueno (1985) sugeriu que a atividade se definia como um processo de transmissão de informações científicas e tecnológicas ao grande público, em linguagem decodificada e acessível. Já no século 21, Germano e Kulesza ( 2007) apontaram para a intenção de “fazer com que a ciência seja conhecida, estendendo-a até o público” (p. 20).

Wilson Bueno (1985), autor da primeira tese de doutoramento sobre jornalismo científico no País, reconheceu, mais tarde, o amadurecimento das práticas e da área (de estudo e de investigação acadêmica a seu respeito) e, com isso, a instalação de uma celeuma ou, no mínimo, uma fragilização conceitual. Diz Bueno (2010) que a “literatura brasileira em comunicação e divulgação científica não tem contribuído, ao longo do tempo, para o refinamento de alguns conceitos básicos de comunicação científica e divulgação científica: aproximações e que dão suporte à teoria e à prática nessas áreas” (p. 1).

Barata et al. (2018) apontam no mesmo sentido, ao acusar que se trata de “um campo em desenvolvimento que precisa desenvolver contribuições teóricas mais fortes, bem como resolver problemas de fronteira com outros campos do conhecimento” (p. 2539). Assim, tal qual Magalhães et al. (2017) interpretam, essa falta de aprofundamento impede que estejam definidos, com clareza, os limites e a abrangência do conceito.

Aliás, a pesquisa de Rocha et al. (2017) reavaliou os conceitos utilizados em trabalhos da América Latina e encontrou nove expressões diferentes2, sugerindo ainda não haver consenso sobre as aproximações e os afastamentos dos diferentes termos. O estudo sistematizou as oscilações de uso do termo geograficamente e ao longo do tempo, bem como suas dissidências semânticas em relação aos diferentes cenários e às áreas que comporiam o campo (meios de comunicação ou museus de ciência e arte, por exemplo).

Ogawa (2012) foi além, interpretando que as

dificuldades em se definir podem surgir não apenas da própria complexidade da área, mas também da diversidade de visões e sonhos dentro da comunidade de comunicação de ciências. Indivíduos, grupos e organizações dentro dessa comunidade têm seus próprios ideais do que enxergam como o “futuro” em termos de relação entre ciência e sociedade; mas geralmente eles não expressam esses ideais e podem até mesmo não estarem conscientes deles. Nem é preciso dizer que tais imagens de um “futuro” ideal emergem de seus próprios valores. Diferenças nos valores ou na orientação dos valores dentro da comunidade de comunicação de ciências não têm sido, geralmente, consideradas seriamente até aqui [ênfase no original]. (p. 4)

Não à toa, em um editorial intitulado “Por uma crítica à divulgação científica”, publicado na Revista Psicologia, da Universidade de São Paulo, os professores Massola, Crochík e Svartman (2015) questionam de onde viria a força da expressão divulgação científica, visto que não é possível compreendê-la sob um movimento único e não há algo que a caracterize em específico.

Aqui, é relevante acusar a questão idiomática apontada por Caribé (2015): as derivações de vulgus são encontradas apenas nos idiomas de origem latina, como o francês, o espanhol e o português. Assim, nos países de língua inglesa o termo divulgação científica, com o sentido de vulgarizar a ciência, torná-la popular, não é utilizado (Caribé, 2015; Mueller & Caribé, 2010). Em inglês, expressões como “science popularization” ou “scientific dissemination”, por vezes, é que são usadas como sinônimos de divulgação científica. Mais recentemente, “science communication” (SciCom) ou “public communication of science and technology” (PCST) parecem estar se estabelecendo como preferenciais nas referências acadêmicas.

Não obstante, nas produções brasileiras o termo divulgação científica segue sendo o mais frequente (Fetter, 2022; Germano & Kulesza, 2007; Rocha et al., 2017), mas a fundamentação e a teorização sobre o que vem a ser a divulgação científica como prática permanecem polissêmicas e, mesmo, polêmicas. Essa conclusão está, também, no estudo de Fetter (2022), que avaliou 114 artigos brasileiros a partir da Teoria Comunicativa da Terminologia. A variedade de aportes teóricos, sobretudo da comunicação e da educação, exige que o discurso seja sempre recortado, situado e contingenciado. Jornalistas falam a partir dos referenciais da Comunicação; enquanto educadores, a partir da Educação, claro. Infelizmente, os atravessamentos e as permeabilidades que acontecem não têm sido debatidos e conciliados a contento.

Permanecem, portanto, interrogações sobre como as ações de divulgação científica foram se constituindo (e seguirão sendo) como políticas públicas de educação e cultura. No Brasil, onde a atividade é reconhecidamente pujante (Entradas et al., 2020), o próprio Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) faz uso do termo para identificar ações relacionadas ao tema ‒ como denominar um de seus comitês assessores e laurear ações na área (o Prêmio José Reis de Divulgação Científica e Tecnológica) (CNPq, 2022). Já no âmbito do Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), ao qual o CNPq está vinculado, o setor dedicado à área se refere à Popularização da Ciência, expressão comum nos países de língua espanhola. Exemplar, também, é o texto do decreto do Programa Nacional de Popularização da Ciências (PopCiência), que faz uso do termo “popularização” como mote, mas sem abandonar a expressão “divulgação científica (e tecnológica!), ao citar as pesquisas e as ações em espaços não formais de educação. Além disso, a expressão “comunicação pública da ciência” também ganha importância no documento, tanto como objetivo, quanto como forma de atuação (Brasil, 2023).

A intenção deste ensaio é, portanto, expor e situar os termos dessa variedade terminológica e dos debates sobre a definição de divulgação científica na atualidade, buscando alguma conciliação a partir das referências já consolidadas nos campos da educação e da comunicação. Afinal, não havendo uma definição que acolha a profusão da expressão, considerando a dimensão institucional, os aportes teóricos das diferentes áreas relacionadas, as elaborações já disponíveis na produção acadêmica, a historicidade das políticas públicas e, claro, a diversidade de ações, práticas e iniciativas que se caracterizam como divulgação científica no país, compromete-se o desenvolvimento da área como campo de pesquisa e atividade profissional (Barata et al., 2018; Fetter, 2022; Moreira & Massarani, 2002; Reynoso, 2012; Rocha et al., 2017; Silva, 2007).

As definições que nos orientaram até aqui

No Brasil, as primeiras elaborações teóricas sistematizadas e publicadas sobre divulgação científica resultam dos trabalhos de José Reis. Há três artigos de sua autoria, publicados entre 1954 e 1967 com o lacônico, mas, eloquente, título de “Divulgação Científica”. Desde então, este autor já situa uma diferenciação entre a comunicação científica intrapares e a comunicação da ciência para o público em geral. José Reis remete esse processo às origens da ciência moderna e sua institucionalização nas sociedades e nas academias científicas europeias. Mas, é no início do século 19, na França, que o autor localiza o gérmen da divulgação científica. Seu olhar teórico se volta à intencionalidade e se materializa em trechos como:

É importante que a imprensa e os meios de comunicação se capacitem de que a ciência não vale apenas pela manchete que eventualmente pode dar (e quem costuma dá-la nem sempre é a ciência), mas pelo valor mesmo da informação, que é preciso deixar claro no espírito do público. Não se confundirá ciência com meia ciência e muito menos com charlatanismo.

(Reis, 1967, p. 48)

Trata-se, portanto, de uma atividade a ser organizada, sistematizada e desenvolvida a partir de uma intencionalidade, devendo ser, segundo Reis (1976), “mais do que a apresentação do fato científico, implicando a investigação paciente dos problemas de filosofia, história, política, sociologia e organização da ciência” (p. 61).

Todavia, foi a Wilson Bueno (1985) que a comunidade e a literatura se reportaram com mais frequência ao definir divulgação científica3. Para o autor, a prática consiste na “utilização de recursos, técnicas, processos e produtos (veículos ou canais) para a veiculação de informações científicas, tecnológicas ou associadas a inovações ao público leigo” (p. 1421). Diferente das de José Reis, essa definição não focaliza a intencionalidade da prática, mas suas formas e conteúdos. A concepção de veiculação dialoga diretamente com o consolidado alcance dos meios de comunicação de massa; e a de informação, com um modelo comunicacional direcional de onde a informação existe “sobrando” para onde ela estaria “em falta”.

Ainda antes da virada do século, outro jornalista, Manuel Calvo Hernando, recuperou a clássica obra de Phillipe Roqueplo, “Le partage du savoir. Science, culture, vulgarisation”, de 1974, e fez repercutir amplamente uma definição em negativo para a divulgação científica. Roqueplo (1974) cita Le Lionnais (1958), ao explicar que a divulgação científica (vulgarização, no caso) seria a

atividade de explicação e difusão do conhecimento, da cultura e do pensamento científico, sob duas condições, duas reservas: a primeira é que essas explicações e difusão do pensamento científico e técnico sejam feitas fora do ensino oficial ou do ensino equivalente [e] que essas explicações extra-escolares não se destinem a formar especialistas, nem mesmo aperfeiçoá-los em suas especialidades, porque pretendemos, ao contrário, completar a cultura especializada fora de sua especialidade. (p. 21)

A partir dos anos 2000, enfim, amadurecem também as discussões sobre como fazer a divulgação científica, e as definições passam a repercutir a necessidade de um processo intencional e sistemático de transpor a linguagem restrita para uma linguagem mais coloquial, inteligível por públicos não iniciados. Como um sinônimo de divulgação científica, a comunicação pública da ciência (science communication) começa a frequentar a literatura em língua inglesa. Schiele e Landry (2012) elaboram o conceito nessa perspectiva, descrevendo que a comunicação pública de ciências (CPCT) inclui “todas as atividades de mediação, interpretação, disseminação e explicação das ciências - a amplitude dos esforços, entre outros, de informar, sensibilizar e mobilizar o público” (p. 34). Em outra perspectiva, Germano e Kulesza (2007) retomam referenciais da educação popular latino-americana para privilegiar o uso do termo popularização, em detrimento de divulgação, valorizando ações culturais libertadoras e o povo como foco de uma comunicação reflexiva e dialógica.

Essa variedade de elaborações, quando reunidas, nos ensina que há um conjunto de elementos sendo considerados para que a divulgação científica seja reconhecida (e se reconheça) como atividade: suas origens ou fontes; os meios ou veículos pelos quais opera ou circulam; os atores ou personagens que a desenvolvem; o público ao qual se dirige; a construção de um novo discurso pela transformação da linguagem; e, finalmente, os valores e as intenções que motivam ou regem a prática.

Os cinco elementos essenciais para definir divulgação científica

Partindo dos referenciais citados até aqui, de muitas vivências produzindo e consumindo divulgação científica e de intensos debates em grupos de pesquisa, coletivos de prática, e classes de graduação e pós-graduação, entendemos e defendemos que a divulgação científica possa e deva ser reconhecida em qualquer manifestação cultural que, 1) sem configurar atividade formal de ensino, propedêutica e sistematizada; 2) se origine ou tenha como fonte a ciência acadêmica; 3) se dirija e se destine a públicos não iniciados; 4) se caracterize pela adaptação ou transposição da linguagem científica; e, que, 5) intencione a democratização da racionalidade e da cultura científica.

Não cabe considerar como divulgação científica, portanto, atividades que não se situam ou se vinculam ao conhecimento científico institucionalizado, seja literatura acadêmica ou profissionais do campo científico. Publicações em periódicos, comunicações em eventos, bancos de dados públicos, entrevistas e manifestações públicas feitas ou concedidas por instituições e atores do “círculo” é que definem as fontes da divulgação científica. Mesmo a divulgação científica mediada por profissionais da comunicação, como equipes de relações públicas de uma instituição ou jornalistas especializados, estarão mais próximos da prática da divulgação científica quanto mais fiéis e comprometidos com a compreensão de suas fontes o forem. Decorre, daí, que se a origem ou a fonte do diálogo social tiver por referência declarada as práticas ou os personagens acadêmicos, ou estiver intimamente relacionada com o contexto de produção do conhecimento científico formal e institucionalizado, trata-se, potencialmente, de divulgação científica em andamento.

No entanto, como sugerido por Vogt e Morales (2018), a divulgação é o ponto de encontro da ciência com a sociedade – o que, em regra, não acontece nos periódicos ou nos congressos acadêmicos. As fontes sim, mas os meios, os veículos ou as formas da divulgação não têm sede na ciência institucional, estando dispersos na cultura: a divulgação científica acontece por meios e as práticas de comunicação que circulam fora do cenário de difusão e disseminação acadêmica. Portanto, é pelas Artes, como a Literatura ou o Teatro, ou pelos meios jornalísticos, por exemplo, que a divulgação se faz presente na sociedade. No caso específico dos midia, aliás, além da tradição do broadcast, a última década foi de migração das relações entre ciência e público para as redes sociais (Brossard & Scheufele, 2013; Brossard & Scheufele, 2022).

Já a comunicação científica, no sentido de disseminação, ocorre intrapares, entre os iniciados, em ritos e linguagens próprias. Ou seja, um artigo ou um simpósio não devem ser confundidos com divulgação científica.

O terceiro elemento fundamental são os atores da prática de divulgação científica. A atividade pode ser feita de modo direto, por pessoas que compõem e atuam dentro do campo científico (pesquisadores, estudantes, técnicos); ou de forma mediada, por profissionais da comunicação que tomam os primeiros como fontes. Mesmo entusiastas da ciência, como astrônomos ou entomólogos amadores, observadores de pássaros, colecionadores de fósseis, ou, ainda, uma criança que participa de um projeto de ciência cidadã, poderiam ser considerados potenciais divulgadores. Afinal, suas atividades dialogam intimamente com a “ciência processo” e estarão submetidas à crítica dessa comunidade.

O quarto elemento diz respeito ao fato de que, tão ou mais importante do que o perfil do divulgador, é a identidade do público mirado pelas iniciativas. Não se trata de comunicar com audiências já interessadas e iniciadas nos assuntos veiculados, mas, sim, de uma comunicação secundária (Epstein, 2012) com pessoas que não circulam no cenário de produção daquele conhecimento científico específico; ou, ainda, que estão afastadas ou distantes de ambientes formais de ensino, o que se convencionou chamar de público leigo.

Embora este conceito pareça trivial, sua compreensão é mais desafiadora na prática, quando divulgadores precisam planejar e dimensionar audiências. Segundo Warner (2002), a “circulação reflexiva de um determinado discurso” (p. 420) precisa ser situada no espaço social e no contexto histórico em que se dá ou que se está criando. Isto é, os públicos “não existem à margem do discurso que se dirige a eles” (p. 416, tradução nossa).

Também a esse respeito é expressivo o que se lê no prefácio de Science in the Public Sphere: A history of lay knowledge and expertise:

Uma vez abalados os muros entre quem sabe e quem não sabe, todos nós, em algum momento, nos tornamos públicos ativos da ciência, como estudantes, visitantes, espectadores, usuários ou pacientes, mas também como divulgadores, amadores e especialistas de um determinado corpus de conhecimento. Mesmo os maiores especialistas mundiais em partículas subatômicas ou biologia molecular, para citar apenas dois exemplos emblemáticos das últimas fronteiras da ciência, são também ignorantes noutras esferas do conhecimento ou noutras competências humanas. Esta visão dinâmica da construção do conhecimento baseia-se, portanto, neste uso flexível da ideia de “públicos” [ênfase no original].

(Nieto-Galan, 2016, p. 08, tradução nossa)

Não há, portanto, uma separação absoluta entre doutos e leigos, mas, sim, uma gradação contínua e flexível da audiência, levando ao fenômeno de “nichamento” de algumas ações de divulgação científica – desafio este, diretamente ligado aos processos de transposição da linguagem.

A esse respeito, Semir (2002) aponta para o fim do século 17, ao resgatar a referência de Bernard de Boyer de Fontenelle sobre a necessidade de se buscar uma linguagem explicativa que satisfizesse tanto o “mundo sábio” quanto o “público leigo”. O autor situa, aí, os primórdios da definição de divulgação científica. Nieto-Galan (2016) explica que, nos dois séculos seguintes, a profissionalização e a especialização da ciência criariam um fosso crescente entre especialistas e leigos. Esse fenômeno de especialização e profissionalização da linguagem científica é discutido também em artigo de Sun et al.(2021), que analisaram o primeiro periódico científico da história, a Philosophical Transactions of Royal Society.

Recorrendo à epistemologia de Gaston Bachelard, Nieto-Galan (2016) declara que o progresso científico se baseou na vitória do conhecimento especializado (episteme) sobre a opinião pública (doxa), com o século 20 ampliando a lacuna entre o discurso de autoridade da ciência e a opinião pública. Silva (2007) alertava a respeito, sugerindo que a divulgação científica, talvez, não tenha aproximado a ciência e o público, mas, pelo contrário, circunscrito os espaços de interlocução. De qualquer modo, um certo tipo de ciência “popular” se manteve vivo em livros, conferências públicas, jogos e apresentações, com divulgadores profissionais procurando a linguagem adequada para compartilhar conhecimento a todos os setores sociais emergentes (Mueller & Caribe, 2010; Nieto-Galan, 2016). Por isso, deve ser bem compreendido, inclusive, por cientistas e divulgadores, que uma certa ciência, ainda que introdutória e apodítica (Fleck, 2010), se faz presente na sociedade e, em maior ou menor monta, sempre surtirá efeito na ciência acadêmica.

Sob esta ótica, o coletivo de pesquisadores liderado pela professora Martha Marandino, da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, por exemplo, tem contribuído para compreender a divulgação científica em museus e centros de ciência e tecnologia. Em seus trabalhos, recorrem à Teoria da Transposição Didática, de Yves Chevallard, e sua derivação, a Teoria Antropológica do Didático, originadas nos campos da Educação e do Ensino das Ciências, como base para investigar o que se ensina e como se aprende nesses espaços (Marandino et al., 2003; Marandino et al., 2016).

A ciência acadêmica não é a ciência divulgada. O saber sábio, objeto de referência, passa por uma reformulação para se tornar um saber passível de gerar interesse e ser entendido por audiências alheias ao seu contexto de produção e significação. Este novo saber é fruto de recontextualização, sincretismo com outras formas de saber, simplificação ou extrapolação, a partir de técnicas e criatividade comunicacional.

A partir do campo da comunicação, Epstein (2012) oferece conceitos que permitem diferenciar a linguagem da comunicação intrapares e a divulgação científica. Enquanto a primeira é “predominantemente referencial”, a segunda transita pela fantasia e pela imaginação como instrumentos de persuasão, exercendo, portanto, uma função emotiva, poética e fática. São diferentes linguagens e estilos, mas ambas com compromisso com a “verdade” científica. Conforme define Zamboni (2001), ao tratar do jornalismo científico, este fenômeno linguístico acaba por constituir um novo gênero textual, diferente daquele que lhe dá origem. A definição de divulgação científica de Sánchez-Mora (2002) se baseia, justamente, nesta questão: a divulgação deve ser uma atividade multidisciplinar que tem por objetivo comunicar o conhecimento científico a diversos públicos, recriando esse conhecimento com fidelidade e contextualização para torná-lo acessível.

Da Educação, soma-se uma perspectiva relacionada aos Estudos Sociais da ciência e da tecnologia, e do conceito de Discurso. A partir do que propõem Ramos et al. (2006) e Magalhães et al. (2017), a divulgação científica precisa desfazer a concepção de transparência da linguagem, como forma de melhor compreender e planejar os efeitos produzidos no público, a partir do que se diz - e não se diz - sobre a ciência e a tecnologia. Afinal, a produção de sentido não ocorre somente com base no emissor da mensagem; e a transposição da linguagem científica para a da divulgação científica é, obviamente, um processo investido de poder.

Reside nessas questões, da compreensão das relações recíprocas entre ciência e público e dos processos de transformação do conhecimento científico em um novo discurso, o foco do estudo original de Valle e Andrade (2022), que, usando o conceito de Pierre Bourdieu, avaliam a divulgação científica como um “campo”.

Nesse ponto, enfim, acentuamos o papel dos valores e das intenções que regem as iniciativas ou práticas de divulgação científica para sua definição nem sempre claros, conscientes ou declarados, como descrito anteriormente por Ogawa (2012). Eis o quinto elemento de nossas reflexões, a intencionalidade.

Historicamente, Bucchi e Trench, 2014, em seu Manual de Comunicação Pública em Ciência e Tecnologia indicam que a divulgação científica começa como um esforço de popularização pela via da espetacularização, entre os séculos 18 e 19, e culmina com uma ideia de ode à ciência durante a primeira metade do século 20. Somente após a Segunda Guerra Mundial, a cobertura e a exposição pública da ciência tornar-se-iam mais críticas, até insinuar a necessidade de alguma participação e controle públicos nos anos 1980. E uma transformação da perspectiva viria, mesmo, somente no final dos anos 1990 com a superação do modelo paternalista, de relação vertical, de cima para baixo; até que o século 21 repercutisse proposições de envolvimento, engajamento, na perspectiva da participação política e da ciência cidadã.

Estes mesmos autores sugerem que a primeira década dos anos 2000 colocou em crise a mediação tradicional (revistas, museus, e principalmente os meios de massa, televisão e jornais), descortinando a democratização da expertise via redes sociais e a possibilidade de transparência e visibilidade para as instituições e profissionais da ciência.

Durante a convivência e disputa desses modelos, Caribé (2015) aponta haver uma espécie de subordinação da divulgação científica (e outras práticas) à comunicação científica, centralizando sua intencionalidade e pertinência no emissor. A representação máxima dessa relação estaria no modelo informacional, ou modelo do déficit. Então, seriam outras áreas de interlocução, como o campo do entendimento público da ciência (PUS) e da ACT que conduziram o olhar da comunidade para o receptor, para os públicos.

Desde Bodmer (1985) até Bucchi e Trench (2021), tem se estabelecido uma relação clara e necessária entre a percepção e a compreensão pública da ciência, da comunicação e a educação científica com a cultura científica. Assevera-se, aqui, a já citada exaustão da educação formal, escolar, e resgata-se José Reis para novamente conferir pertinência ao sentido pedagógico da divulgação científica e de suas formas de manifestação.

Reynoso (2012) sustenta que a retomada do conceito de popularização reafirma a intencionalidade pedagógica e social da divulgação, materializada no objetivo de alfabetização científica e de apropriação social da ciência e da tecnologia. Essa dimensão formativa ou educacional aparece também em teorizações como a de Burns et al. (2003), que definem divulgação científica como uma busca por “produzir uma ou mais das seguintes respostas pessoais à ciência [fazendo uma analogia com as vogais AEIOU]: consciência [Awareness], entretenimento [Enjoyment], interesse [Interest], formação de opinião [Opinion-forming] e compreensão ou entendimento [Understanding]” (p. 183).

Finalmente, Bueno (2010) amplia suas propostas anteriores e demarca que, mesmo a dimensão pedagógica (no sentido de ensinar) deve ir além da tradição enunciativa, de quem sabe para quem não sabe, pautando-se pela dialogicidade e pela interação. Esta, uma proposta oriunda da comunicação que encontra absoluta guarida também nos referenciais da educação, indicando que permeabilidades e conexões entre as áreas são possíveis.

Definir sem demarcar: a divulgação científica como um conceito plural

Como visto até aqui, os muitos levantamentos e revisões da literatura evidenciam que não há uma definição peremptória, de senso estrito, passível de ser aplicada a todos os contextos, meios, práticas e ações que reivindicam ou são apontadas como tal como divulgação científica.

Como bem aponta Bueno (2010), talvez não possamos nem devamos tentar superar o imbróglio conceitual em torno do termo via disputas históricas ou de filiação. Mas, pelo contrário, seria necessário e adequado considerar algumas rupturas e aproximações, assumindo que se trata de um conceito flexível, graduado, contingenciado e plural. Assim como os biólogos, que formularam e fazem uso de, pelo menos, cinco definições diferentes para o conceito de espécie (tipológico ou fenético, biológico, evolutivo, filogenético e ecológico), talvez os divulgadores e pesquisadores da divulgação científica precisem conviver com a pluralidade e as permeabilidades de diferentes domínios.

Caso concordemos pela prescindibilidade de uma formulação definitiva, poderíamos analisar a divulgação científica a partir de algo como uma escala orientadora, mais acolhedora da profusão de variáveis em torno da expressão. Por isso, usando os elementos apresentados na seção anterior, propomos um espectro conceitual com o qual seja possível pensar e até caracterizar a divulgação científica. A Figura 1 mostra que as ações e as iniciativas se caracterizam como divulgação científica à medida que se aproximam do extremo direito do espectro

Figura 1
Espectro de reconhecimento de práticas de divulgação científica a partir de uma definição plural

Em meio à diversidade de ações possíveis (manifestações culturais e veículos de comunicação), vários elementos podem e devem ser considerados para que se proponha uma definição. Afinal, ao passo que distinguimos a divulgação científica de práticas educativas formais, também é preciso afastá-la de iniciativas descomprometidas, por exemplo, com fontes fidedignas de conhecimento científico. Assim, os públicos podem ser “nichados”, mas não se trata de comunicação intrapares; as fontes não precisam se situar na publicação mais atual, contudo devem preservar intimidade com a cultura e as práticas científicas institucionais; a linguagem não necessita extinguir a terminologia científica, porém se afasta do hermetismo e se aproxima do coloquial; e mesmo ações pictóricas ou de entretenimento, por seu potencial, poderiam ser assumidas como divulgação à medida que pressuponham ou permitam reconhecer alguma intencionalidade pedagógica.

A partir disso, legitimam-se as mais diversas formas pelas quais a divulgação científica pode se fazer presente na cena pública: um lambe em uma parada de ônibus, uma manifestação em uma audiência pública, um papel-bandeja com informação nutricional em um restaurante ou um conto literário com temática científica, estariam todos contemplados. Aliás, parece não haver limites de meios e formas pelas quais a ciência possa encontrar o público, dentro de uma perspectiva de interação comunicacional e intencionalidade pedagógica.

Dessa interpretação e demais referenciais trazidos à discussão, insistimos que a divulgação não é (e não deve ser) apenas de conceitos, mas de práticas, processos, personagens, histórias, valores e posturas da ciência. Tanto o cientista, o estudante, o entusiasta iniciado, quanto um comunicador, que se disponham a mediar o processo, são legítimos divulgadores.

Reflexões adicionais e outros debates

O ponto nevrálgico da discussão sobre o conceito de divulgação científica parece ser a motivação ou a intenção presentes em suas diferentes manifestações. Por um lado, iniciativas, como a produção de uma nova instalação museal ou a elaboração de um vídeo para uma rede social, costumeiramente partem do pressuposto de que veicular amplamente determinado conhecimento tem valor social traduzido em educação e democracia. Por outro, porém, essa premissa não é o que motiva a existência de ações como o jornalismo científico, que tende a se pautar de modo mais evidente por dimensões profissionais e corporativas. Isto posto, é preciso reconhecer que a definição de divulgação científica não é alheia a quem a pratica, - conscientemente, ou não.

Em uma outra ilustração, ações, como as conferências públicas do Pint of Science ou as inúmeras iniciativas universitárias de pôr a “ciência na rua”, se diferem de manifestações como uma obra literária ou cinematográfica que trate de um tema científico. Mesmo entre manifestações congêneres, como no caso dos filmes, por exemplo, há evidentes diferenças entre um clássico como Jurassic Park e de uma película como Interestellar. E por isso não é tão simples estabelecer demarcações generalistas. Aquilo que chamamos de ficção científica é um ponto de cruzamento entre pensamento e sentimento, razão e emoção, ceticismo e crença, mas que dissolve esses dualismos. Não é claro se, para definir a divulgação científica, então, deveríamos considerar a ciência como personagem ou coautora; se poderia a ciência ser matéria-prima para a ficção e ainda assim a estarmos divulgando; se quando Kip Thorne, físico americano, se colocou como consultor e produtor do filme Interestellar, ele transformou a obra em algo além de entretenimento cinematográfico… são questões ainda em aberto para nossa comunidade de pesquisa e prática.

Particularmente, em meio à cultura, à ciência e à tecnologia, quer sejam textos ou pretextos, há muitas nuances de intencionalidade entre o que as manifestações culturais desejam. Os trabalhos do artista gráfico holandês Escher, por exemplo, estão repletas da mais refinada matemática, todavia são obras de arte antes de se tornarem, possivelmente, obras de divulgação científica da matemática. Estes produtos culturais não são transparentes só porque queremos. E ainda que fizéssemos uma curadoria organizando as obras de Escher mediante os conceitos nela contidos, o que poderíamos mais claramente definir como divulgação científica, esta seria apenas uma entre as muitas possibilidades de compreender e expor a produção do artista.

Ou seja, é difícil e provavelmente inadequado estabelecer a priori uma medida sobre se poesia ou música são mais (ou menos) capazes de cativar ou aproximar, informar ou esclarecer, vocacionar ou seduzir, ensinar ou educar, que uma notícia jornalística ou um episódio de podcast. Por consequência, uma definição de divulgação científica parece só ser possível situando individualmente as iniciativas, ressaltando suas características, revelando ou interpretando suas intenções originais ou mediadas e, quiçá, avaliando seus resultados.

Tal como Calvo Hernando (1992), cremos que uma definição em negativo para a divulgação científica possa ser profícua para casos em que cabe alguma forma de demarcação. Há de se reconhecer a atividade como uma prática pedagógica, mas que não se organiza nos termos didáticos da educação formal (sistemática, sequencial, somativa, propedêutica, avaliativa e certificadora). Nesse sentido, a divulgação científica se insere no que se convencionou, em língua portuguesa, chamar de práticas e/ou ambientes de educação não formal (Calvo Hernando, 2012; Gohn, 1999; Gohn, 2006; Jacobucci, 2008; Marandino et al., 2003).

Considerando a escola na equação da divulgação científica, Argüello (2001) dá conta de que se as escolas e os professores de ciências educam pobremente. Igualmente é verdade que poucos divulgadores conhecem ciências e educação, e que poucos cientistas sabem divulgar e educar. Obviamente, tal precariedade foi minimizada nas últimas décadas, mas ainda devemos considerar as distâncias e as barreiras entre quem produz, quem comunica com o público e quem ensina ciências na escola. O que temos por certo é a íntima relação da divulgação científica com o ensino escolar das ciências. Elas compartilham o objetivo de ampliar a alfabetização científica e tecnológica de toda a sociedade e, consequentemente, consolidam uma cultura e uma cidadania científica. A divulgação científica pode complementar, enriquecer, ampliar, ilustrar, contextualizar e atualizar a educação formal, embora isso dependa da qualidade da divulgação e da didática escolar. O “porém” está no fato de que a ciência veiculada pela divulgação costuma ser mais atual e polêmica do que a escolar, e que a presença da divulgação científica na escola se dá, ainda, fundamentalmente como recurso formativo e material paradidático (Baldinato & Porto, 2008; Batistele et al., 2018).

Em outra seara, ao retomar a distinção entre divulgação e difusão ou disseminação científica, merece atenção também o contexto das instituições. Por motivações da própria prática científica, além da comunicação específica intrapares, as instituições científicas se pautam por interesses institucionais e não pelo interesse público. A esse respeito, aliás, Fonseca (2019) produziu um texto denunciando como a comunicação institucional (no caso, das universidades brasileiras) despreza o interesse público e favorece a circulação de informação ou de interesses internos, ou baseadas em uma premissa de relações públicas.

Parece-nos importante, todavia, situar a divulgação científica como possível prática acadêmica, vinculada às atividades-fim dessas instituições (quando públicas, sobretudo). É no conceito de extensão universitária que a divulgação científica deve ser acolhida e incorporada como prática acadêmica de valor, dado o papel das universidades como produtoras de ciência e tecnologia e os princípios comunitários de impacto social e dialogicidade das ações extensionistas (Valério, 2006). No Brasil, em algumas instituições esse vínculo já se apresenta, como no caso da Diretoria de Divulgação Científica da Universidade Federal de Minas Gerais, lotada na Pró-Reitoria de Extensão da instituição.

À guisa de conclusão, cremos ter aprofundado algumas e proposto novas questões nas quais a área da divulgação científica precisa se debruçar, de modo que os debates acadêmicos e sociais sobre as relações entre ciência e público via divulgação científica se tonifiquem. Por isso, também, apresentamos uma possível definição de divulgação científica sem pretensões demarcadoras ou peremptórias, evitando cisões entre as ações ou o enfraquecimento do mérito e da potência da prática como fenômeno cultural. Ao contrário disso, uma definição plural, mais ampla e acolhedora, torna a divulgação científica ainda mais relevante no contexto de liquidez filosófica e epistêmica, inerente às ciências na contemporaneidade.

  • 1
    Em 2020, a plataforma de streaming Netflix anunciou uma série intitulada Mundo Mistério, apresentada pelo youtuber Felipe Castanhari. O conteúdo e a forma do programa deram início a um debate intenso o que é divulgação científica na área de História e quem deve ou pode fazê-la.
  • 2
    Os nove termos reconhecidos no idioma original do artigo citado são: Divulgación de la ciência; Comunicación de la ciência; Educación no formal en ciência; Popularización de la ciência; Alfabetización científica; Comunicación Pública de la Ciência; Percepción social de la ciência; Democratización de la ciência; Apropiación social del conocimiento científico / apropiación de la ciência.
  • 3
    Wilson da Costa Bueno tem uma produção acadêmica repercutida mais 4700 vezes pela comunidade. Seus artigos de meados da década de 1980 foram citados mais de 150 vezes, cada; e o artigo “Comunicação cientifica e divulgação científica: aproximações e rupturas conceituais”, de 2010, tem mais de 770 citações.
  • Apoio e financiamento:
    Programa de Pós-Graduação em Educação em Ciências e em Matemática (PPGECM), da Universidade Federal do Paraná.

Disponibilidade de dados:

Os conteúdos subjacentes ao texto da pesquisa estão contidos no manuscrito.

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Editado por

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    23 Maio 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    09 Ago 2024
  • Revisado
    04 Nov 2024
  • Aceito
    16 Fev 2025
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