Resumo
O texto faz uma reflexão sobre o conceito de sacrifício presente no esporte. Recorre à filosofia de Nietzsche e aplica o método da suspeita quanto aos modos de submissão da vida aos valores da moral judaico-cristã. Inferimos que o esporte, como elemento simbólico da vida, pode absorver valores morais nos quais o sucesso esportivo é entendido como recompensa para os sacrifícios do treinamento. Pela filosofia de Nietzsche, seguimos a recomendação de propor uma transvaloração, no caso, de pensarmos como o sacrifício poderia se apresentar não como um eco desse vício metafísico, mas, antes, uma afirmação da vida e do presente. Nesse sentido transvalorado, o sacrifício esportivo não seria visto como um meio para se atingir um fim, mas a elaborada formação da excelência.
Palavras-chave
sacrifício; esporte; Nietzsche; estética; ética
Abstract
The text reflects on the concept of sacrifice as it appears in sport. It draws on Nietzsche's philosophy and applies the method of suspicion to the ways in which life is submitted to the values of Judaeo-Christian morality. We infer that sport, as a symbolic element of life, may absorb moral values in which sporting success is understood as a reward for the sacrifices of training. Following Nietzsche's philosophy, we take up the recommendation to propose a transvaluation, in this case to consider how sacrifice might present itself not as an echo of that metaphysical vice, but rather as an affirmation of life and of the present. In this transvalued sense, sporting sacrifice would be seen not as a means to an end, but as the elaborate formation of excellence.
Keywords
sacrifice; sport; Nietzsche; aesthetics; ethics
Resumen
El texto reflexiona sobre el concepto de sacrificio presente en el deporte. Recurre a la filosofía de Nietzsche y aplica el método de la sospecha a los modos de sometimiento de la vida a los valores de la moral judeocristiana. Inferimos que el deporte, como elemento simbólico de la vida, puede absorber valores morales en los que el éxito deportivo se entiende como recompensa por los sacrificios del entrenamiento. Por la filosofía de Nietzsche, seguimos la recomendación de proponer una transvaloración, en este caso, de pensar cómo el sacrificio podría presentarse no como un eco de ese vicio metafísico, sino, antes bien, como una afirmación de la vida y del presente. En ese sentido transvalorado, el sacrificio deportivo no sería visto como un medio para alcanzar un fin, sino como la elaborada formación de la excelencia.
Palabras clave
sacrificio; deporte; Nietzsche; estética; ética
Introdução
Friedrich Nietzsche, filósofo alemão do século XIX, tornou-se conhecido pelo seu modo peculiar de filosofar a “marteladas”. Seu pensamento e sua filosofia têm como características a crítica radical às construções religiosas e morais que exercem efeitos deletérios no corpo e na vida do sujeito, tanto em sentido estético como ético, o que ele frequentemente aponta como inseparáveis.
O filósofo propõe que mantenhamos nossas crenças e nossos valores sempre sob suspeita, pois tais verdades são apenas o fruto da criação humana a partir de determinadas relações de forças (Nietzsche, 2009). Conhecido como o pensador da suspeita, o alemão nos convida a duvidar de todas as nossas convicções, certezas e juízos: “Sou muito inquiridor, muito duvidoso, muito altivo para me satisfazer com uma resposta grosseira” (Nietzsche, 2008, p. 33).
Em termos de uma filosofia do esporte, cabe-nos suspeitar se o princípio de sacrifício, tão presente no contexto esportivo, representa de fato aquilo que se associa corriqueiramente a ele, ou se carrega, sob este véu de aparência, todo um pesado dispositivo moral pouco questionado pelos atores esportivos. No interior dessa discussão, parece-nos que o sacrifício se tornou um critério para uma percepção subjetiva da qualidade do esforço no esporte. A dor e o sofrimento diários oriundos de lesões e desconfortos físicos precisam ser superados por meio de sacrifícios, e disso resulta uma sensação de tarefa realizada em virtude da melhora do rendimento (Gonçalves & Vaz, 2012; Torri etl al., 2007; Vaz, 1999).
Sobre a variável do sofrimento, Dostoiévski (2017) aponta que ela adquiriu uma relação com a beleza e assim passou a ser proclamada e enaltecida dada a sua dimensão da razão. Dessa forma, deslocaríamos esses elementos da esfera existencial para a dimensão do quantificável e ordinário. Um suposto entendimento seguro sobre a vida passou a ser superior à própria vida. Destarte, o sofrimento passa a ser uma condição basilar e valorativa para a atribuição de sentido nas ações realizadas (Brady, 2019). Ademais, a equação dor + sofrimento = sacrifício adquire um caráter familiar na rotina dos treinamentos.
Sacrifício e filosofia do esporte
Este estudo caracteriza-se como uma investigação teórica de caráter bibliográfico, orientada pela filosofia da suspeita e pelo perspectivismo nietzschiano. O percurso metodológico foi desenvolvido em duas etapas complementares.
Inicialmente, realizou-se um levantamento bibliográfico nos dois principais periódicos internacionais dedicados à filosofia do esporte, o Journal of the Philosophy of Sport (JPS) e o Sport, Ethics and Philosophy (SEP). Como estratégia de busca, utilizou-se o termo "sacrifício" (sacrifice) como palavra-chave. Foram identificados 97 textos no JPS e 91 textos no SEP que apresentavam a ocorrência do vocábulo ao menos uma vez no corpo do texto.
Em seguida, procedeu-se à leitura dos títulos e resumos dos trabalhos encontrados, com o objetivo de identificar aqueles que efetivamente abordavam o conceito de sacrifício no contexto esportivo. Foram selecionados trinta e sete artigos considerados pertinentes ao campo conceitual investigado. Excluíram-se os textos em que o termo aparecia apenas de maneira incidental, como recurso linguístico para expressar ideias de abnegação ou renúncia, bem como ocorrências restritas às referências bibliográficas ou notas de rodapé.
Os artigos selecionados foram submetidos a uma análise interpretativa de inspiração hermenêutica, buscando identificar os diferentes sentidos atribuídos ao conceito de sacrifício na literatura especializada. A partir dessa leitura, foram mapeadas distintas perspectivas de compreensão do fenômeno, tais como o sacrifício associado à dedicação ao treinamento, à busca da vitória, à observância das regras, às relações coletivas e às heranças simbólicas da tradição grega. Esse conjunto de interpretações constituiu o material analítico utilizado para o diálogo com a filosofia de Friedrich Nietzsche e para a elaboração da proposta de transvaloração do conceito de sacrifício esportivo apresentada neste estudo. Esse esforço se deu em três direções: expor a fortuna crítica já existente na área; ratificar o conceito de perspectivismo nietzschiano quando este afirma que não há uma Verdade e sim interpretações; e, por fim, apresentar a nossa contribuição sobre o conceito de sacrifício a partir de uma perspectiva nietzschiana.
Corlett et al. (2013, p. 44) se apropriam do termo para abordar a temática dos testes antidoping e afirmam: “Os procedimentos de teste garantem que o trabalho duro e o sacrifício dos atletas “limpos” não é em vão como aqueles que fazem uso de doping e são descobertos e punidos adequadamente”1. Percebemos, nesse excerto, um flerte com um possível purismo e uma busca por justiça e igualdade. O sacrifício, por sua vez, não será em vão, e vem acompanhado de uma promessa para uma suposta recompensa (Cléret & MacNamee, 2012). Uma forma de demonstração e chancela de êxito, de validação. Uma certa indução para a manutenção desse comportamento cíclico. O que nos resta é indagar se é realmente possível garantir essa recompensa. Uma vez que a resposta seja negativa, haveria, ainda assim, o mesmo ímpeto para realizar determinados sacrifícios?
Outros autores, em várias modalidades esportivas, também realizam essa aproximação (Austin, 2012; Ávila da Costa & Lacerda, 2016; Bellieni, 2015; Boxill, 2006; Cudd, 2007; Gorichanaz, 2019; Hochstetler & Hopsicker, 2016; Ilundáin-Agurruza, 2014, 2017; Kretchmar, 2012; Macrae, 2018; Martínková, 2012; McNamee, 2006; Reid, 2010a; Sampedro, 2015; Sarremejane, 2015; Scarpa & Carraro, 2011; Tuncel, 2015). Nessas obras, os usos do conceito de sacrifício dirigem-se a vários objetos associados, tais como: tempo, família, diversão ou estudo. Enfim, uma redução ou inviabilidade de exercer outras atividades sociais que possam diminuir ou comprometer o desempenho. Os trechos a seguir seguem como amostras desses achados: “Da mesma forma, atletas de endurance sacrificam tempo com seus entes queridos e, talvez, carreiras relacionadas ao trabalho também, a fim de perseguir seus próprios objetivos atléticos”2 (Hochstetler & Hopsicker, 2016, p. 343):
O esporte pode representar uma oportunidade de se desenvolver plenamente como indivíduo, desde que não perca sua dignidade, tornando-se apenas um anseio por resultados. Sobre esporte de verdade, uma série de valores devem estar presentes: tenacidade, espírito de sacrifício, disciplina interior e exterior e novamente um senso de justiça, consciência dos limites e respeito pelos outros
(Scarpa & Carraro, 2011, p. 120)3.
O treinamento exige o comprometimento ou sacrifício de outros benefícios de uma vida completa, como desenvolver amizades e buscar outras oportunidades sociais, juntamente com oportunidades educacionais e com elas oportunidades de cultivar interesses na aprendizagem ao longo da vida (para não mencionar melhores perspectivas de vida econômica)
(Macrae, 2018, pp. 63-64)4.
Muitos atletas estão dispostos a realizar grandes sacríficos para atingir a vitória (Gilbertson, 2016). Alguns pesquisadores corroboram e fazem essa aproximação:
As ‘virtudes’ do atleta moderno são aquelas características típicas dos vencedores; as figuras esportivas são glorificadas por seus excelentes desempenhos, autodisciplina, ambição, e capacidade de trabalho duro e sacrifício. Em uma sociedade que se concebe como uma meritocracia, e cuja economia é impulsionada pela concorrência aberta, a atração para o esporte é como uma oportunidade compreensível de sofrer indiretamente formas de vitória e derrota altamente visíveis. Para muitos fãs de esportes modernos, a competição atlética possui qualidades catárticas que antes eram consideradas únicas do drama
(Mitchell, 2004, p. 66)5.
Ainda na mesma esteira, Jones (2015) comenta sobre a predisposição dos atletas em realizar sacrifícios com vistas ao pódio, por meio da lembrança dos sacrifícios que realizaram até o momento da competição. Também Archer (2017, p. 370) anuncia uma série de indagações que nos interessam:
Quanto desportivismo devemos exigir de atletas? Existem limites nas demandas que podemos fazer aos atletas para sacrificar seus próprios interesses no interesse do espírito esportivo? Se sim, quais são esses limites e como eles podem ser justificados?6.
Ainda que seja semelhante à ideia exposta acima, de abrir mão de algo em detrimento da vitória, Gaffney (2015), Hemphill (2005), Cudd (2007) e Brady (2019) abordaram o conceito de sacrifício de uma maneira mais restrita ao contexto dos esportes coletivos. Para atingir determinado objetivo do jogo, é comum que alguns atletas exerçam determinadas ações a fim de que outro companheiro consiga atingir a meta, como é o caso do bloqueio, no basquete e no handebol, ou até mesmo o “corta luz”, no futebol. Dessa forma, o conceito de sacrifício se apresenta como uma espécie de abrir mão ou realizar uma ação secundária que possibilite e facilite que um companheiro, em melhor condição, execute a jogada ou marque um gol ou um ponto.
Já Ciomaga (2013, p. 29) aproxima o conceito de sacrifício das regras presentes no contexto esportivo para traçar um excelente paralelo:
Primeiro, os jogos são possíveis apenas se todos ou pelo menos a maioria dos participantes cooperam o tempo todo ou pelo menos na maioria das vezes, onde a cooperação significa seguir as regras do jogo. Segundo, cooperação (na forma de regra a ser seguida) pressupõe sacrifícios dos participantes, seja porque regras esportivas limitam a liberdade dos jogadores ou, mais especificamente, porque elas tornam mais difícil alcançar os objetivos preliminares do jogo do que seria na ausência dessas regras7.
O sacrifício se apresenta de forma tácita como condição basilar para a execução da atividade proposta, para o estabelecimento de um consenso mínimo e uma convenção necessária. Caso contrário, não haveria uma organização elementar, e a própria estrutura ficaria comprometida, dada a incapacidade de compreensão.
Além dessas perspectivas já apresentadas, há uma vasta produção nos periódicos que se debruçam sobre a questão grega clássica. Destacamos, entre os muitos estudos sobre a temática, as contribuições de Reid, que tem uma extensa publicação sobre tal contexto. O termo sacrifício, nessa seara, é perspectivado de vários modos, mas todos circunscritos às contribuições simbólicas de origem na Grécia antiga (Adluri, 2015; Carlson, 2018; Reid, 2006, 2007, 2010a, 2010b, 2017; Tuncel, 2015, 2016).
Reid (2010c) comenta que os rituais de sacrifício estão presentes na gênese dos jogos olímpicos, com o atletismo na Grécia antiga, tendo permanecido por muito tempo no interior desse contexto. A mesma autora, em outro estudo, afirma que o sacrifício, não só de animais, mas também o sacrifício individual, está presente como um dos mais antigos e celebrados rituais na tradição do esporte (Reid, 2013). A partir dessa afirmação, Reid (2013) tece uma crítica ao contexto moderno e à sua exacerbada dimensão comercial. A sobreposição e a supervalorização dessa esfera poderiam acarretar uma conversão da dimensão social e comunitária do esporte para o individualismo. A autora pensa que o espírito grego de servir a comunidade, bem como o de retribuir sempre que possível, merece ser reavivado no contexto esportivo moderno.
Sobre os propósitos, as funções e as relações religiosas existentes nos rituais de sacrifício, como agradar, cultivar e barganhar com os deuses e deusas no intuito de ser por eles agraciados, destacamos alguns excertos:
A função central dos festivais religiosos gregos antigos, incluindo os Jogos Olímpicos, era o sacrifício: uma oferta de presentes em gratidão pelos benefícios obtidos e na esperança de benefícios por vir. O sacrifício parece ser o oposto do lucro: o objetivo aparente de nossa economia esportiva moderna
(Reid, 2010c, p. 137)8.
O sucesso de tais trocas dependia, é claro, de atrair a atenção dos deuses. Talvez tenha sido por esse motivo que os jogos atléticos tenham sido, em algum momento, adicionados ao ritual de sacrifício em Olympia - um espetáculo como esse que atraísse deuses e mortais. Como todos os outros rituais religiosos, os Jogos Olímpicos eram separados das preocupações e conflitos mundanos
(Reid, 2006, p. 208)9.
Parece-nos que a partir da leitura desses trechos é possível ensaiar duas formas de se compreender o sacrifício no contexto grego antigo. Uma perspectiva denota uma forma mais passiva, uma espécie de oferenda com o intuito de agradar os deuses e as deusas. Ainda que o fato de atrair a atenção de um determinado deus ou de uma deusa pudesse culminar em um desagravo a outro (Reid, 2010c).
Todavia, também é possível extrair uma dimensão mais ativa, mais vitalista e imanente desse ritual de sacrifício. Uma espécie de celebração da vitória, da conquista, do enfrentamento, da força e da coragem de se colocar perante o devir sem a necessidade ilusória de supostas garantias. Um mergulho no escuro do acaso. Desse modo, não há uma interpretação de culto ou devoção aos deuses como algo transcendente, mas como uma comemoração do corpo e um cultivo dos instintos.
Na mesma direção de uma interpretação dupla, temos a ideia de purificação. Se, por um lado, ela não dialoga necessariamente com uma catarse metafísica, semelhante a uma assepsia moral dos vícios, por outro, ela pode ser concebida como uma ação ativa de afirmação integral do viver. Conforme vemos:
Os Jogos Olímpicos foram uma manifestação de uma experiência religiosa, não profana. O esforço do corpo, cujo objetivo era vencer uma competição esportiva, foi um sacrifício dedicado aos deuses. Os elementos sagrados dos jogos incluíam o ritual de purificação dos competidores e a estrutura geral do culto. Também deve ser mencionado que o estádio se localizava no distrito dedicado a deveres religiosos, parte inseparável na qual não apenas o ginásio, mas também o templo e outras áreas onde os ritos religiosos eram realizados
(Jirásek, 2018, p. 41)10.
Em um sentido mais imanente, encontramos ainda um certo tipo de sacrifício necessário para se entrar na batalha sem grandes certezas, mas movido pelo espírito da disputa.
Por outro lado, entre os aspectos e funções do agon, podem ser listados: sacrifício, grandeza, força, conflito, luta e lutar, competir entre iguais, ser animado pelos sentimentos de ambição, inveja e ódio em disputa, ataque, desejo de ter inimigos ou oponentes, crueldade e inflição de sofrimento, autodomínio e vitória
(Tuncel, 2016, p. 355)11.
Tuncel (2015) nos convida a pensar a lógica da derrota no contexto esportivo e as suas possíveis perspectivas a partir da matriz conceitual de alguns filósofos, entre eles, o alemão Friedrich Nietzsche. Ainda que o tema e o objeto de análise em seu artigo sejam distintos do nosso, Tuncel tangencia o tema do sacrifício e corrobora a nossa abordagem em alguns pontos.
O autor compreenderá a derrota como uma espécie de sacrifício necessário para uma transformação de si ou até mesmo para que grandes obras possam ser criadas. Nas palavras de Tuncel: “Erros são inevitáveis no caminho da grandeza, assim como derrotas, perdas e sacrifícios” (2015, p. 415)12. Toda derrota pressupõe alguma forma de sacrifício, entendido no seu sentido mais genérico. O autor anuncia que Nietzsche reconhece essa conexão inseparável entre derrota e vitória e que não estabelece um juízo de valor sobre esses polos, faces da mesma moeda. Ainda no que diz respeito às contribuições de Nietzsche, Tuncel (2015) retoma a discussão sobre o termo agon e ratifica não só a necessidade, mas a importância da derrota e do sacrifício na competição. Inspirado na obra de Tuncel, Adluri (2015) menciona a ausência desse espírito agonista no mundo moderno, que insiste em preconizar uma igualdade ilusória.
Percebemos que, embora haja uma pluralidade de interpretações, em todas permanece uma prevalência da utilização do termo sacrifício segundo uma noção de retirada, de abdicação, o que dialoga com o aspecto cristão da renúncia, destacado em nossas hipóteses.
Perspectivar para transvalorar o ideário de sacrifício no esporte
O projeto de transvaloração13 nietzschiano tem lugar de destaque em sua filosofia (Abbagnano, 2003; Beardsworth, 2003; Nietzsche, 2005b). Desconfiar dos valores vigentes, aqueles que sustentam a moral de rebanho à qual a tradição judaico-cristã nos submeteu, é o ponto de partida dessa operação. Tal projeto denuncia o comportamento doentio e decadente da moralidade dos costumes regulares e repetitivos que reduzem a vida moderna.
Ao tomarmos esse ponto de partida para a reflexão sobre a vida moderna e nos debruçarmos nos diversos fenômenos sociais que representam as disposições morais identificadas, é inevitável que o esporte apareça com destaque, pois se trata de uma prática que reúne uma intensidade peculiar de desejos e que, de certo modo, pode representar um simulacro da existência humana.
O senso comum sobre o esporte acredita que os esforços e as dedicações exaustivas aos treinamentos são recompensados com bons desempenhos, vitórias e excelência esportiva (Cléret & McNamee, 2012). Não é nossa intenção discordar do conteúdo essencial dessa ideia, pois há certo teor óbvio na observação de que quanto mais se praticam certas habilidades e técnicas, é de se esperar que sejam obtidos melhores resultados. Contudo, a forma como tal dedicação é incorporada na conduta pode revelar mais do que apenas uma opção por uma maior excelência esportiva. Em muitos casos, pode estar carregada dos valores morais que se debruçam sobre as atividades humanas. Como já anunciamos ser próprio da filosofia de Nietzsche, uma inferência como esta não anseia por dados conclusivos, mas habita o campo da “suspeita”, o que nos permite apresentar um cenário provocativo para a reflexão estética-ética do esporte.
Em outros termos, a ideia de que o sacrifício é uma prática eficiente, capaz de inspirar a conduta, bem como purificar, dignificar e até mesmo corrigir moralmente as ações humanas – concepção própria de um certo imaginário judaico-cristão –, pode estar influenciando o cenário esportivo, de modo a gerar a esperança de ganhos esportivos objetivos com os sacrifícios despendidos em termos de merecimento moral.
Essa moral aposta em uma suposta purificação dos sentidos e uma pasteurização das emoções e dos instintos (Barrenechea, 2014). Diante de uma visão em que o mundo é visto sob o binarismo do bem e do mal é preciso corrigir suas falhas, erros e contradições, excluindo os seus aspectos negativos, na tentativa de postular um mundo positivo e idealizado. O atleta, por sua vez, deverá modificar-se radicalmente para tornar-se melhorado e moralizado. Para tanto, o seu corpo será analisado, explicado e rigidamente avaliado pelos ditames da razão, para atingir um destino escatológico, apenas realizável no mundo verdadeiro (Barrenechea, 2014). Tais pressupostos corroboram o fomento e a produção de sentidos que transcendem o mundo do instante, do momento presente.
Nietzsche, em sua proposta de transvaloração, insiste na necessidade de retomada de alguns valores gregos da força, convertidos à fraqueza pelo advento cristão, o que nos faz reencontrar Reid e Tuncel como já tratamos. A nobreza grega, expressa em Homero, é aquela que mostra os deuses ao lado dos corajosos, revelando que essas divindades frequentemente reconhecem virtudes, mas raramente agem com mera piedade ou se resumem a querer uma adoração passiva dos mortais. Valores como glória e coragem habitam o universo do guerreiro grego, porém o uso virtuoso dessas qualidades é sempre mediado pela prudência (phrônesis) e pela astúcia (métis), o que coloca os mortais em uma espécie de “negociação” com os deuses.
Uma das virtudes mais valorizadas no contexto grego clássico era a coragem, exatamente pelo fato de ela não se limitar e nem tampouco se reduzir à esperança de algo ancorado no futuro. Todavia, há uma afirmação e uma aceitação do presente, de forma ativa, sem ter, a priori, nenhuma segurança ou certeza prévia, o que nos permite associar o elemento da coragem à dimensão do risco. O sacrifício, visto por uma ótica imanente, contemplaria essa dimensão na medida em que se entrega à incerteza, ou seja, não se trata de sacrifício como meio instrumental para a vitória e sim uma afirmação jubilatória da existência. Na degeneração dos valores gregos clássico, o sacrifício perdeu essa característica de afirmação da vida na sua integralidade para adotar uma forma romantizada e, sobretudo, racionalizada, na tentativa inglória de estabelecer um grau de controle.
Exemplar é a narrativa sobre o sacrifício de Ifigênia, filha de Agamenon, nos primeiros movimentos da viagem a Troia. O grande líder da frota grega não conseguia sair de Áulis com seus exércitos, por conta dos fortes ventos contrários que a deusa Ártemis enviava incessantemente contra os navios, tudo em razão da ofensa de Agamenon, que dissera ser superior à deusa nas artes da caça. Para resolver esse impasse, o vidente e conselheiro Calcas propôs uma imolação: que Agamenon sacrificasse a própria filha, Ifigênia, em honra à deusa. Obcecado pela ideia de vitória contra os troianos, para a surpresa de Clitemnestra, sua esposa, Agamenon aceita o sacrifício de matar a própria filha e, assim, inicia um ciclo de desgraça e declínio para si mesmo, ainda que os ventos tenham se abrandado. Teria Ártemis exposto Agamenon a um teste?14 Teria a filha de Zeus verificado que a arrogância, que fez com que Agamenon a ofendesse, mantinha-se no rei a ponto de ele sacrificar a própria filha na obsessão pela vitória?15 A compulsão de Agamenon caracterizou o que os gregos nomeavam de Hybris, o espírito (daemon) do descomedimento. Ora, os deuses gregos não são piedosos, de tal modo que o sacrifício por si só não é um valor positivo, mas apenas um recurso a mais da virtude (areté).
O contraponto nessa narrativa é o virtuoso Aquiles, pois o artifício para que Clitemnestra trouxesse a filha a Áulis foi a promessa falsa de Agamenon de que ela se casaria com Aquiles. Ao saber da farsa, Aquiles se revolta contra Agamenon e com o sacrifício de Ifigênia. A piedade e o sacrifício como esperança passiva não são valores da virtude exibida por Aquiles. Um projeto de transvaloração nietzschiano talvez corresponda, então, à retomada da areté e da força aos seus papéis protagonistas.
Retornando ao contexto contemporâneo do esporte, o clichê “no pain no gain” resume, de certo modo, a exaltação das práticas esportivas pautadas por um preceito moral da dor e do sacrifício; um convite à dedicação certamente, mas possivelmente também uma imolação em busca de recompensa (Machado, 2015; Sabino & Luz, 2014; Silva & Ferreira, 2019). E, dessa maneira, entender a dor e o sacrifício como um caminho inevitável em prol da aquisição de determinadas conquistas (Lima, 2017).
Nesse sentido, os discursos da aceitação da dor e a prática de autoimposições são altamente aceitáveis e explicáveis, desde que se realize a manutenção do desejo e que se alcance um corpo considerado perfeito. O que sugere o discurso ‘No Pain, No Gain’, ao ser considerado uma espécie de mantra que retrata os sacrifícios corporais, sociais, fisiológicos e mecânicos relacionados à dor e ao prazer de se obter um corpo perfeito ou uma alta performance
(Pessoa et al., 2018, p. 65).
Uma vez estabelecida essa prerrogativa e, por meio dela, considerando também os dispositivos que seduzem o sujeito em torno dessa expectativa, podemos inferir que o que realmente passa a induzir o comportamento são os estímulos morais. Se não houver dor, não há progresso, não é possível sequer manter os objetivos já atingidos, fazendo com que a eficácia dos protocolos de treinamento seja questionada. O sacrifício, nesse mecanismo, passa a adquirir um caráter mediador e legitimador do processo de conquista da vitória ou da excelência esportiva. Lessa (2016) comenta que muitos atletas, mais precisamente montanhistas e ciclistas que participam do Tour de France, passam a gostar dessa sensação, estabelecendo uma relação dialógica com a construção estética das modalidades. A tolerância à dor passa a ser um indício do sacrifício. Uma espécie de racionalização manipulável na busca da ampliação do rendimento humano.
A imolação simbólica, as renúncias, as abnegações, os desapegos e mesmo a tolerância à dor migram do contexto moral do sacrifício religioso para a prática real do esporte. Todos nós conhecemos histórias de esportistas que passaram por essas privações em prol do esporte, o que geralmente é visto como grandeza de espírito, ao menos do “espírito esportivo”; por vezes, uma produção moral-midiática de sucesso na modernidade. A grande chave de leitura presente nessas assertivas é a prerrogativa moral. Como já dito, são renúncias, supressões – e é importante destacar para o que estamos suspeitando –, são privações “em nome de algo”, submissões com vistas a uma graça. O sacrifício para suportar a dor e o sofrimento não é concebido como constituinte da existência, mas como investimento com pretensões futuras.
Todo atributo ou mecanismo de distanciamento da vida soa para Nietzsche como uma fuga da própria existência. A religião, para o filósofo alemão, apresenta-se como um grande território de saber servil a uma fé no invisível, que quando se materializa no mundo dos instintos, dos conflitos e das adversidades do viver enlouquece com o peso do corpo de carne e osso.
Para Nietzsche (2009, 2012, 2016), o racionalismo socrático-platônico, as religiões, a metafisica e a moral são criações do ressentimento. A sombra do deus morto resiste pela modernidade. Os efeitos causados por essa sombra ainda geram novos efeitos e influenciam nossa forma de lidar com a vida.
Algumas noções são basilares na concepção de afirmação da vida em Nietzsche, como a disciplinação e o cultivo.16 Endossamos a ideia de que ambos os conceitos estão diretamente imbricados à concepção de experimentação (Nietzsche, 2016). O que o filósofo alemão propõe com essa sua concepção ética é a experimentação e a afirmação dos grandes desafios. Suportar e, sobretudo, transfigurar as vicissitudes da existência humana em estimulantes para potencializar a vida. Para tanto, são necessários um rigor e uma dura disciplina, de tal modo que possibilitem a transfiguração sem sucumbir aos preceitos moralizantes presentes na sociedade (Barrenechea, 2014). O sacrifício, assim entendido, não se tornaria transitório ou algo descolado da existência, mas seria apresentado - como um elemento potente de afirmação da vida em sua integralidade, uma parte imprescindível do viver, sem a atribuição de sentidos transcendentes, sejam eles a recompensa do além-mundo ou apenas o êxito nos objetivos esportivos. Chegamos a um ponto então em que se faz presente uma tentativa de transvaloração do conceito de sacrifício. Se o que vínhamos comentando era uma noção própria da moral judaico-cristã, que associada ao esporte moderno produzia uma espécie de sombra do deus morto, um outro entendimento do sacrifício seria aquele que extrai vitalidade e afirmação da disciplina do sacrifício. Nos termos que anunciamos no início deste texto, quando apontamos o sacrifício como uma espécie de extensão virtual da dedicação, trata-se de uma inversão, ou seja, a compreensão da dedicação como uma extensão do sacrifício. O “sim à vida” é uma afirmação de opção estética-ética que assume o conjunto das afecções e não apenas da parte instrumental.
É ainda interessante notar como os contornos dessa discussão são especialmente oportunos na chamada sociedade tecnológica da informação, tão acostumada a um sentido de progresso mediado pela inovação, pela criação incessante de novos objetos e de processos que sustentam nossas relações. O que estamos apontando, em termos estéticos-éticos, não é uma transvaloração no sentido de uma invenção, mas antes, de uma revitalização dos valores tendo como princípio basilar a vida e a força.
Compreendendo a nossa própria vida como um grande experimento, Nietzsche (2016, p. 208) afirma: “Nós somos experimentos: sejamo-lo de bom grado”. Ademais, é necessário passar por extremadas experiências para vivenciar outras formas de agir, de pensar e de sentir. O intuito não é a conservação de modos de viver já existentes, que ocupam lugares hegemônicos, mas é a suspeita de tais verdades, questioná-las com o intento de destruí-las e, posteriormente, criar novos caminhos, novas formas de vida. O movimento da suspeita é constante.
Possíveis transvalorações
A suspeita, conduta recorrente na filosofia e no pensamento de Nietzsche, caracteriza-se por colocar em suspensão interpretações vigentes e hegemônicas, com possíveis associações e interferências de elementos da moral, para, posteriormente, dar-lhes outras perspectivas. Perspectivar é analisar atentamente o conflito entre as forças, pois cada interpretação só encara os fatos a partir do ponto de vista do seu próprio crescimento (Kossovitch, 2004). É observar, portanto, de formas distintas e sobre outros prismas, posições com pretensões absolutas e universalizantes. Logo, toda interpretação é perspectivista. Inspirados nesse procedimento da suspeita – e com o intuito de atingir os fins aqui pretendidos –, invertemos a interpretação corrente do termo sacrifício para almejar uma possível transvaloração, com vistas a uma dimensão mais vitalista do termo e distante dos ideais da moralidade cristã. Encontramos em Nietzsche também a noção de sacrifício, mas atendendo às premissas da filosofia da vontade e do sentido trágico.
Reiteramos que a denúncia e a suspeita aqui realizadas atentam ao peso moral atribuído ao sacrifício. A moral se caracteriza, de certa forma, como um dever-ser, uma espécie de código balizador de condutas que deve ser seguido. Nessa conjuntura, a resignação aos ditames morais convida para uma afirmação ou uma negação da vida? Qual é o valor do valor da moral cristã? Como desdobramento desses questionamentos, percebemos que a relação estabelecida entre o esporte e os elementos da dor, do sofrimento e do sacrifício passam a subsidiar condutas valorizadas e aceitas no contexto esportivo. Uma espécie de estética-ética do atleta, que não mais questiona tal associação, mas convive e até enaltece a presença e a consequente superação da dor, do sofrimento e do sacrifício.
Se, a partir do diagnóstico nietzchiano de reconhecer que a modernidade é atravessada por valores decadentes, nós assumirmos a postura de que não há saída possível, adentraríamos em uma seara que nega a vida. O convite então se dá em outra direção, qual seja, na afirmação contundente do viver. Sob uma perspectiva nietzschiana, a dimensão do sacrifício não é unívoca e pode ser associada, diretamente, à vida sem mediações abstratas ou intuitos metafísicos.
Intentamos trazer uma outra dimensão e perspectivar o conceito a ponto de compreendê-lo como uma condição pertinente à existência humana e como um convite que promove a vida, celebrando o momento presente, sem pretensões e buscas de um outro mundo. Nietzsche (2017, p. 26) diz: “Vocês querem dizer que a marca da ação moral é o sacrifício? – Reflitam, porém, se não há sacrifício em toda ação que é realizada com deliberação, tanto na pior como na melhor”. Essa dessacralização do sacrifício, nas palavras de Nietzsche, abdica da eficácia apotropaica e da solução transcendente por extensão; o sacrifício é reapresentado como imanência do corpo, lógica ativa de um sentido trágico da existência. Todo esforço humano exige sacrifício e tanto mais quanto mais excelente for, o que o esporte exibe com exuberância. Mas tal esforço não significa nada mais do que afirmação, e não um dízimo a espera de qualquer graça. Em outros termos, o esportista sacrifica-se pelo esporte, não pela vitória ou por uma vida mais justa.
Aproximando essas interpretações e o esporte, notamos como tal discussão pode ser profícua para adensar debates de inspiração valorativa em filosofia do esporte, como vitória e derrota, doping, ontologia esportiva, valores morais, espírito esportivo, entre outros temas estéticos e éticos. A herança racionalista e moralizante ainda persiste e tem ganhado notória força ao alinhar-se aos modelos de perfeição e utopia, típicos da modernidade. A lógica do sacrifício, ancorada em uma dimensão cristã, comunga com alguns preceitos do esporte moderno, como a abdicação de certos conteúdos em detrimento de uma glória ou vitória por vir. Contudo, sob a filosofia da suspeita de Nietzsche, o sacrifício adquire uma conjuntura que retira esse conceito de uma dimensão passiva para lhe dar uma forma mais ativa. Uma ação de enfrentamento e afirmação da vida perante os agravos inevitáveis da existência.
Concluímos que as interpretações por nós realizadas são apenas um esforço de aplicação do pensamento de Nietzsche ao contexto do sacrifício, especificamente, ao sacrifício esportivo, para assim pensarmos em termos de uma ética aplicada ao esporte. O elemento de distinção aqui apontado é uma corrente atribuição e associação de um caráter transcendente ao conceito. Sob a ótica vitalista, tentamos descolar e perspectivar o termo a partir de uma chave mais imanente. Reinvindicamos, assim, toda a potência do sacrifício esportivo ao próprio esporte.
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