Resumo
Este artigo é fruto de discussões desenvolvidas em um grupo internacional de pesquisa, composto por estudiosos suíços, brasileiros e italianos, em torno dos textos vigotskianos sobre deficiência. O objetivo central do estudo é examinar as diferenças existentes nas traduções do texto “O problema do retardo mental” em quatro línguas ocidentais — português, inglês, francês e espanhol —–, destacando, em perspectiva comparativa, as escolhas terminológicas, as reformulações e outros elementos que, ao serem cotejados, produzem sentidos divergentes. A questão que orienta a investigação pode ser assim formulada: existem diferenças significativas nas escolhas terminológicas entre as traduções desse texto? Em caso afirmativo, quais são elas? A análise comparativa permitiu identificar problemas relacionados a reformulações sintáticas, omissões e acréscimos, bem como variações terminológicas que impactam diretamente o sentido das passagens. Os resultados evidenciam um conflito de critérios nas escolhas tradutórias: de um lado, a necessidade de manter o rigor terminológico do original; de outro, as adaptações exigidas para que o texto possa ser compreendido por leitores de outra língua, cultura e época histórica.
Palavras-chave
tradução; diferenças terminológicas; Vigotski; deficiência; educação inclusiva
Abstract
This article is the result of discussions held within an international research group, composed of Swiss, Brazilian, and Italian scholars, concerning Vygotskian texts on disability. The central objective of this study is to examine the differences found in the translations of the text The Problem of Mental Retardation into four Western languages — Portuguese, English, French, and Spanish — highlighting, from a comparative perspective, the terminological choices, reformulations, and other elements that, when compared, produce divergent meanings. The guiding question of this investigation can be formulated as follows: are there significant differences in the terminological choices among the translations of this text? If so, what are they? The comparative analysis allowed for the identification of problems related to syntactic reformulations, omissions, and additions, as well as terminological variations that directly impact the meaning of the passages. The results reveal a conflict of criteria in translational choices: on the one hand, the need to maintain the terminological rigor of the original text; on the other, the adaptations required for the text to be understood by readers from a different language, culture, and historical period.
Keywords
translation; terminological differences; Vygotsky; disability; inclusive education
Resumen
Este artículo es fruto de discusiones desarrolladas en un grupo internacional de investigación, compuesto por estudiosos suizos, brasileños e italianos, en torno a los textos vygotskianos sobre discapacidad. El objetivo central del estudio es examinar las diferencias existentes en las traducciones del texto “El problema del retraso mental” en cuatro lenguas occidentales —portugués, inglés, francés y español—, destacando, en perspectiva comparativa, las elecciones terminológicas, las reformulaciones y otros elementos que, al ser cotejados, producen sentidos divergentes. La cuestión que orienta la investigación puede ser formulada de la siguiente manera: ¿existen diferencias significativas en las elecciones terminológicas entre las traducciones de ese texto? En caso afirmativo, ¿cuáles son? El análisis comparativo permitió identificar problemas relacionados con reformulaciones sintácticas, omisiones y adiciones, así como variaciones terminológicas que impactan directamente el sentido de los pasajes. Los resultados evidencian un conflicto de criterios en las elecciones de traducción: por un lado, la necesidad de mantener el rigor terminológico del original; por otro, las adaptaciones exigidas para que el texto pueda ser comprendido por lectores de otra lengua, cultura y época histórica.
Palabras clave
traducción; diferencias terminológicas; Vygotski; discapacidad; educación inclusiva
Introdução
Este artigo é fruto das discussões decorrentes de nossa participação em um grupo de estudos avançados sobre os textos vigotskianos composto por pesquisadores suíços, brasileiros e italianos1. Os encontros, que ocorrem desde 2018, têm como objetivo traduzir, do russo para o francês, textos de L.S. Vigotski2 ainda não conhecidos — ou com visíveis problemas de tradução — pela comunidade francófona. Nos últimos três anos, o grupo tem se dedicado aos trabalhos do campo que se denominava, à época, defectologia, debruçando-se sobre textos que discutem a relação entre normalidade e anormalidade na obra do autor. Para além do esforço de tradução, os encontros têm se orientado por um estudo pormenorizado das contribuições conceituais desse campo, buscando apreender suas determinações teóricas no interior da totalidade da obra do autor. Nesse movimento, torna-se possível compreender que a problemática da deficiência não constitui um domínio marginal ou aplicado, mas um ponto privilegiado de elaboração das leis gerais do desenvolvimento humano.
Durante os encontros, deparamo-nos com diversas dificuldades de tradução e interpretação dos textos escolhidos. Um dos textos que apresentou maior desafio de tradução e interpretação é, sem dúvida, aquele intitulado “O problema do retardo mental”3. No decorrer das reuniões, percebemos que parte das controvérsias apresentadas na leitura desse texto devia-se a diferenças lexicais, e também conceituais, entre as versões do texto em traduções existentes nas línguas ocidentais.
Nesse horizonte, o texto “O problema do retardo mental” adquire centralidade, ocupando uma posição estratégica na compreensão da produção vigotskiana ao condensar, de forma particularmente elaborada, o movimento de maturação teórica que caracteriza seus últimos anos. Trata-se de um texto que, ao mesmo tempo em que se ancora nas discussões do campo da defectologia, tensiona seus próprios limites, deslocando o problema da deficiência para o plano mais amplo da constituição da consciência.
Esse deslocamento assume centralidade no cenário educacional atual em razão das políticas que têm se dedicado à inclusão de pessoas com deficiência no contexto do ensino comum. O olhar positivo de Vigotski sobre a deficiência reposiciona esse público na perspectiva dos direitos à educação em termos de suas potencialidades de aprendizagem (Vygotski, 1929/1997). Tal perspectiva confere relevância ao papel docente ao explicitar o papel ativo, mediador e criador do professor na elaboração de estratégias pedagógicas orientadas ao desenvolvimento potencial dos estudantes, sejam eles considerados atípicos ou típicos (Mendonça et al., 2020).
Frequentemente considerado um dos textos finais do autor, ele expressa não apenas um aprofundamento analítico, mas uma inflexão decisiva em seu projeto científico ao deslocar o foco das funções isoladas para a unidade dinâmica entre intelecto e afeto, rompendo com tradições psicologizantes e biologizantes que marcaram o estudo da deficiência. A unidade entre intelecto e afeto se afirma como princípio estruturante dos processos de construção conceitual de modo geral, devendo orientar a organização das práticas pedagógicas tanto no ensino especial quanto na educação comum. Ainda que, no texto analisado para os fins deste artigo, Vigotski não trate diretamente do papel do professor ou da escola no trabalho com crianças com deficiência, como o faz em outros escritos (Vigotski, 1927/1929/1931/1997), os fundamentos conceituais ali propostos mostram-se decisivos para a atuação docente em contextos inclusivos. “O problema do retardo mental” apresenta, portanto, uma elevada complexidade conceitual e terminológica, sendo frequentemente considerado um texto inconcluso, pois mantém em aberto inúmeras questões que atravessam a totalidade de sua obra.
Nessa linha, as escolhas de tradução, amplamente debatidas pelo grupo supracitado, mostraram-se de grande relevância, uma vez que cada opção textual carregava, de maneira inevitável, um viés interpretativo particular. Por isso, imbuídas desse esforço interpretativo, decidimos neste artigo apresentar as diferenças na tradução do referido texto a partir do cotejo das traduções realizadas em quatro línguas ocidentais: português, inglês, francês e espanhol4. São elas:
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Vigotski, L. S. (2022). Obras Completas – Tomo Cinco: Fundamentos de Defectologia. EDUNIOESTE. Tradução atribuída ao Programa Institucional de Ações Relativas às Pessoas com Necessidades Especiais (PEE). Revisão feita por Guillermo Arias Beatón.
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Vygotsky, L. S. (1896-1934/1993). The Collected Works of L. S. Vygotsky. Volume 2 – The Fundamentals of Defectology (Abnormal Psychology and Learning Disabilities). Springer Science & Business Media. Tradução de Jane E. Knox, Bowdoin College, e Carol B. Stevens, Colgate University.
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Vygotsky, L. S. (1928-34/ 1994). Défectologie et déficience mentale. Delachaux et Niestlé. Organização por K. Barisnikov e G. Petitpierre.
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Vigotski, L. S. (1997). Obras Escogidas – Tomo V: Fundamentos de Defectología. Visor Dis. Tradução de Julio Guillermo Blank. Revisão e adaptação por Jesus Vidarte Vargas e Irina Filanova.
Nosso estudo parte de uma leitura comparativa dos textos, destacando as reformulações sintáticas, omissões, acréscimos e diferenças terminológicas que influenciam o sentido dos textos. Além disso, decidimos analisar os eventuais paratextos adicionados, como notas de tradução e prefácios dos tradutores, que podem explicar as escolhas feitas ao longo do processo de tradução. Como poderá ser visto na leitura do material, esse procedimento permite identificar diferenças nas escolhas de tradução que podem levar a compreensões conceituais divergentes, e até mesmo equivocadas, das questões discutidas por Vigotski.
Em linhas gerais, este artigo se propõe a investigar algumas questões fundamentais: i) Existem diferenças significativas nas escolhas terminológicas entre as traduções deste texto?; ii) Que tipo de explicação informativa é fornecida ao leitor por cada edição?; e iii) Como os textos atuais reinterpretam e atualizam os antigos termos para a contemporaneidade, considerando o panorama acadêmico atual?
Nossa hipótese é que o processo de tradução de qualquer texto envolve uma leitura interpretativa do original e, entre outros fatores, um conflito de critérios nas escolhas de tradução que oscilam entre a rigorosidade terminológica e as adaptações necessárias para tornar o texto acessível a leitores de outra língua, cultura e época. Em outras palavras, enquanto algumas traduções optam por manter uma correspondência mais estrita com as palavras e construções sintáticas do texto original, mesmo que isso possa gerar dúvidas nos leitores, outras buscam adaptar o texto aos parâmetros de recepção nas línguas-alvo, correndo o risco de distorcer o sentido original.
Tendo em vista a importância e a amplitude da obra vigotskiana para diversos campos do saber, nosso estudo coloca em evidência aspectos do processo de tradução e edição das obras que podem ajudar a compreender as discrepâncias entre a apresentação dos textos nas diferentes línguas analisadas. Desse modo, após esta introdução, na seção 2, teceremos algumas considerações sobre o trabalho de tradução da obra de Vigotski, para, na seção 3, examinarmos o contexto de publicação do texto analisado em suas diferentes edições e sua relevância não apenas para o campo dos estudos sobre inclusão, mas também para a compreensão de conceitos fundamentais da obra de Vigotski. Nesta mesma seção, detalharemos os procedimentos metodológicos adotados para o cotejamento das edições do texto, a seleção e o tratamento dos excertos que serão apresentados na seção 4, no formato de análise. Em nossas considerações finais, além de ressaltarmos a importância desse texto para o campo da educação, teceremos alguns comentários sobre as dificuldades de tradução do texto “O problema do retardo mental” e sobre os cuidados que devem ser tomados nas questões relacionadas à tradução de uma forma geral.
Traduzir e retraduzir Vigotski
O olhar para as traduções de Vigotski proposto neste artigo considera como ponto de partida a recepção desses textos no meio acadêmico ocidental. Nesse sentido, é inegável a importância da tradução dos textos vigotskianos para a disseminação da obra do autor além dos limites da antiga União Soviética. Ao revisitarmos a história da tradução dos textos de Vigotski, partimos do pressuposto de que a tradução, assim como a escrita de um texto, é sempre situada, influenciada por múltiplos fatores contextuais e que, para além de problemas de tradução próprios da não-equivalência entre as línguas, a revisão sistemática dos textos pode revelar escolhas tradutórias pautadas por pressões do contexto editorial. No caso da obra de Vigotski, é amplamente aceita e apontada por diversos autores a necessidade de produzir, não apenas novas edições de textos ainda não publicados, mas também novas traduções dos textos vigotskianos que sejam mais fiéis aos textos originais (Mecacci, 1990; Van der Veer & Yasnitsky, 2011; Yasnitsky, 2012; Prestes, 2012; Marques, 2018).
Em sua introdução à tradução italiana de Pensamento e Linguagem5, Mecacci (1990) faz um levantamento das três edições russas, de 1934, 1956 e 1982, e de diversas traduções ocidentais do livro, no intuito de esclarecer para o leitor o texto fonte de cada tradução e a fidedignidade ao original. Para Mecacci, no caso de Pensamento e Linguagem, é preciso considerar preferencialmente a publicação original, de 1934, pois as edições russas seguintes têm a marca de uma operação editorial de supressão de repetições no intuito de tornar a leitura mais palatável, o que, segundo o teórico e tradutor italiano, constitui uma verdadeira “reescrita do texto original” (Mecacci, 1990, p. X6). A partir dessa constatação, o autor faz um levantamento comentado das publicações de Pensamento e Linguagem, separando-as entre edições traduzidas, a partir: (i. do original russo de 1934, como a sua tradução para o italiano, publicada em 1990; (ii. da edição russa de 1956, como a primeira tradução alemã, publicada em 1964; (iii. da edição dinamarquesa, de 1982; (iv. da edição russa de 1982, com a tradução de Françoise Sève em francês, publicada em 1985; e do livro Thinking and Speech, de 1987.
Van der Veer e Yasnitsky (2011) atribuem a grande divergência entre as três edições russas de Pensamento e Linguagem (de 1934, 1956 e 1982) a uma provável contaminação dos textos mais recentes. Corroborando com Mecacci (1990), os autores reforçam a necessidade do cuidado com os originais dos textos vigotskianos, cujos manuscritos são muitas vezes deturpados por erros de edição, em alguns casos por razões políticas e ideológicas (Prestes, 2012). Nas edições russas dos Collected Works (Sobranie Sochinenij), observa-se a supressão de diversas passagens, fruto da censura editorial. Um exemplo marcante ocorre na edição russa de 1965 de Psicologia da Arte, na qual foram eliminadas referências a Trotsky, Bukharin e outros autores então considerados “inimigos do povo” (Fraser & Yasnitsky, 2016; Van der Veer & Yasnitsky, 2016). Entre os problemas das várias traduções publicadas em línguas ocidentais, foram encontradas omissões de termos ou excertos, substituições de termos-chave, imprecisões, supressões de autores mencionados ou de citações, e até acréscimos, seja por escolhas editoriais equivocadas, seja por erros crassos de tradução (Mecacci, 1990; van der Veer & Yasnitsky, 2011).
Para o pesquisador brasileiro mais rigoroso, é preciso, ainda, considerar o efeito em cascata das possíveis deturpações do texto original. No Brasil, os primeiros estudos baseados na obra de Vigotski foram produzidos na década de 80, sobretudo nos campos da educação e da psicologia escolar, a partir da publicação argentina (1964), em português europeu (1979) e em português brasileiro (1987) de Pensamento e Linguagem, todas feitas a partir de edições em língua inglesa.
Até então, o acesso aos textos de Vigotski por pesquisadores falantes de línguas ocidentais se dava por uma tradução americana, de 1962, publicada pela MIT Press, com subtrações importantes de textos, o que pode ser facilmente constatado pela sua extensão reduzida — 164 páginas — em relação à obra original — 324 páginas (Prestes, 2012; Duarte, 2000). O mesmo pode ser dito da coletânea Mind in Society (Vygotsky, 1978), composta por fragmentos ou resumos de textos de Vigotski amalgamados a fontes adicionais, como textos de seus colaboradores, conforme apontam van der Veer e Yasnitsky (2011). Pode-se dizer, portanto, que até meados da década de 80, o falante de línguas ocidentais que se interessasse pela obra vigotskiana tinha acesso a fragmentos de texto e a comentários e análises feitos com base nesses mesmos fragmentos.
No caso da primeira tradução americana de Pensamento e Linguagem, de 1962 (Vygotsky, 1962), é interessante notar que as supressões e alterações feitas no texto original foram apontadas e até justificadas pelos próprios editores, como se vê na introdução do livro feita pelos tradutores:
No final da década de 30, uma das tradutoras da presente edição, E. Hanfmann, em colaboração com J. Kasanin, repetiu alguns dos estudos de Vigotski sobre a formação de conceitos e ela se lembra vividamente da dificuldade de percorrer seu texto. Quando o colaborador e amigo de Vigotski, Professor A. R. Luria, a procurou em 1957 pedindo-lhe que participasse da tradução de Thought and Language, ela expressou sua convicção de que uma tradução literal não faria justiça ao pensamento de Vigotski. Foi acordado que a repetição excessiva e certas discussões polêmicas que seriam de pouco interesse para o leitor contemporâneo deveriam ser eliminadas, em favor de uma exposição mais direta. Ao traduzirmos o livro, simplificamos e esclarecemos o estilo complicado de Vigotski, ao mesmo tempo em que nos esforçamos para sempre reproduzir seu significado com exatidão. A organização interna dos capítulos foi preservada, exceto no Capítulo 2, onde omissões extensas resultaram em um rearranjo do texto e em um número bastante reduzido de subdivisões
(Hanfmann & Vakar, 1962, p. XI-XIII, tradução nossa)7.
Note-se que os fatores apontados para as alterações no texto dizem respeito, por um lado, à compreensão textual das próprias tradutoras e, por outro, à imagem que elas possuem do potencial leitor do livro na contemporaneidade. Poderíamos nos perguntar a qual contemporaneidade se referem e se outras razões poderiam pesar nas escolhas do que foi suprimido dos textos originais? De todo modo, fica claro que, no caso desta edição, a preocupação com a recepção da obra no contexto americano8 e com a sua maior circulação levou a estratégias editoriais hoje consideradas indevidas, mas que na época surtiram efeito.
Particularmente, no caso da obra vigotskiana, as subtrações que envolvem sua ênfase no materialismo histórico-dialético parecem ser um ponto de destaque sinalizado pela maioria dos autores, e isso também traz consequências que ultrapassam o contexto norte-americano (Tuleski, 2010; Prestes, 2012, entre outros). No levantamento bibliográfico realizado por Mainardes e Pino, em 2000, os autores comentam a recepção e a rápida difusão, no Brasil da década de 80, das primeiras traduções de textos vigotskianos em português, feitas a partir de traduções americanas incompletas e soltas. Para os autores, a baixa qualidade dessas primeiras traduções, somada à incompreensão dos fundamentos marxistas, levou a uma grande diversidade de leituras, por vezes bastante superficiais, da obra de Vigotski no panorama acadêmico brasileiro (Mainardes & Pino, 2000).
O exemplo das edições de Pensamento e linguagem nos leva a examinar o processo de publicação de traduções enquanto trabalho coletivo, situado em um momento histórico e condicionado às limitações do mercado editorial. Desse modo, a consolidação da edição de uma obra é permeada por conflitos que não se restringem às habilidades do tradutor. Para além do excelente conhecimento da língua de origem e da língua-alvo, do amplo repertório linguístico e cultural e do aprofundamento teórico esperados do tradutor (e também do revisor, muitas vezes responsável pela inserção de novas imprecisões ao texto), as condições de trabalho impostas pelas editoras, como prazos exíguos e exigências relativas ao estilo do texto, são fatores que comprometem a qualidade do resultado final, conforme explica Prestes (2012).
Nessa perspectiva, torna-se evidente que o rigor tradutório ultrapassa a dimensão técnica e demanda um esforço permanente de reconstrução de sentidos (Benjamin, 2008). Resumidamente, traduzir significa buscar expressar, de modo o mais fidedigno possível, as múltiplas camadas de significados e sentidos, se assim podemos dizer, presentes no texto original. No entanto, é preciso considerar que, de um lado, a tradução só se completa na sua recepção, quando lida e reinterpretada por um leitor que, dialeticamente, a reflete e refrata a partir de sua própria experiência. De outro, é necessário reconhecer que a matéria-prima do trabalho tradutório permanece sendo a materialidade textual da língua original (Prestes, 2012). Podemos tentar apreender o que o autor quis dizer e até traduzir o que disse, mas, em rigor, o que foi dito e como foi dito só existem plenamente em sua língua de origem.
É interessante notar que algumas dessas premissas sobre a linguagem, a tradução e a construção de sentido são expressas pelo próprio Vigotski, em “Pensamento e Palavra” (1934/2001). No texto, Vigotski critica a perspectiva associacionista na psicologia, baseada em um suposto vínculo direto que a consciência estabelece entre palavra e objeto designado por ela. Nessa perspectiva, “A palavra lembra o seu significado da mesma forma que o casaco de um homem conhecido lembra esse homem ou o aspecto externo de um edifício lembra os seus moradores” (Vigotski, 1934/2001 p. 399). Em contraposição a essa perspectiva, Vigotski enfatiza que o significado da palavra se estabiliza ao longo do desenvolvimento ontogenético e continua a evoluir, a se transformar historicamente de acordo com o próprio uso da palavra nas relações sociais. Segundo ele,
O significado da palavra é inconstante. Modifica-se no processo do desenvolvimento da criança. Modifica-se também sob diferentes modos de funcionamento do pensamento. É antes uma formação dinâmica que estática. O estabelecimento da mutabilidade dos significados só se tornou possível quando foi definida corretamente a natureza do próprio significado. Esta se revela antes de tudo na generalização, que está contida como momento central, fundamental, em qualquer palavra, tendo em vista que qualquer palavra já é uma generalização.
(Vigotski, 1934/2001 p. 408).
Considerar a transformação dos significados no trabalho de tradução de textos antigos é essencial não apenas na compreensão da polissemia dos termos, mas também para abordar com propriedade a transformação diacrônica do sentido das palavras. Do ponto de vista dos estudos da linguagem e sua filologia, assume-se que a língua, em sua historicidade, também muda e demanda uma contextualização histórica de seu uso, o que também consideramos ao refletirmos sobre o trabalho de tradução dos textos vigotskianos. Assim, termos como retardo mental, debilidade, defeito, amplamente usados nos estudos da época e também presentes nos escritos vigotskianos ligados ao campo da defectologia russa, podem causar estranhamento ao leitor da atualidade. Isso se deve não apenas ao caráter anacrônico da conotação pejorativa que carregam, mas também por não refletirem, nos dias de hoje, os argumentos sustentados pelo próprio Vigotski. Em diversos escritos, o autor defende um olhar para a criança com deficiência pautado nas potencialidades do seu desenvolvimento, considerando as limitações que uma psicologia fundamentada no déficit poderia impor ao desenvolvimento dessas crianças (Vigotski, 1997). De mesmo modo, admitir o caráter socialmente construído da linguagem impõe a observação do contexto do dizer na constituição dos significados.
“O problema do retardo mental”: considerações gerais e metodológicas sobre as edições do texto
Embora “O problema do retardo mental” seja um texto sobre retardo mental, ele não deve ser considerado uma obra puramente defectológica. Nesse texto de 1934, o tema serve como ponto de partida para ampliar a centralidade da dimensão semântica na formação da consciência, como afirmamos anteriormente. Em nossa opinião, esse texto não pode ser lido de forma isolada, sendo fundamental articulá-lo com o capítulo 7 de Pensamento e Linguagem, visto que ambos se interpenetram. Trata-se, portanto, de um trabalho que visa a discutir uma questão central da teoria psicológica de Vigotski: a unidade entre intelecto e afeto, uma problemática relacionada ao significado destacada em Pensamento e Linguagem (Silva, 2024)9.
A tradução em português foi publicada como: Obras Completas, Tomo 5: Fundamentos de Defectologia, organizada pelo Grupo de Estudos Educação da Pessoa com Deficiência na Perspectiva de Vigotski, da Universidade Unioeste, com o apoio do Ministério da Educação brasileiro (MEC/SESU). O texto não é diretamente traduzido do russo; parte de uma edição do espanhol cubano. Mesmo assim, os autores ressaltam na nota editorial a dificuldade de traduzir a obra a partir do espanhol cubano (edição de 1977, 2ª reimpressão).
A tradução em inglês, por sua vez, faz parte do 2º volume das Collected Works e é precedida por um texto de quatro páginas (Foreword and Acknowledgments), que comenta a tradução, reconhece a participação de diversos pesquisadores na leitura das primeiras versões e destaca algumas dificuldades na tradução de termos amplamente utilizados nas décadas de 1920 e 1930, mas que atualmente são considerados inadequados:
Assim, termos como “atraso mental” (umstvennaia otstalost’), “mente fraca” (slaboumie) e “oligofrenia”, com seus três graus de retardo mental — debilidade, imbecilidade e idiotia —eram, talvez, adequadamente descritivos e decorosos na década de 1920, mas podem parecer um tanto obsoletos, não científicos ou até mesmo um pouco inadequados e insensíveis hoje em dia
(Knox & Stevens, 1993, p. 7, tradução nossa10).
Com efeito, as mudanças terminológicas no campo semântico das deficiências, graças aos avanços promovidos pelos estudos acerca da inclusão, ressaltam a necessidade do uso de uma terminologia adequada. Afinal, como reforça Sassaki (2003, p. 160), “na linguagem se expressa, voluntariamente ou involuntariamente, o respeito ou a discriminação em relação às pessoas com deficiência”.
Entretanto, é preciso salientar que, apesar de usar termos considerados anticientíficos ou insensíveis aos olhos de hoje, as ideias defendidas por Vigotski em seus textos dedicados à defectologia introduzem avanços em relação ao pensamento da época e princípios pertinentes aos estudos contemporâneos sobre a deficiência. Como explicam Silva et al. (2024), ao considerar que as mesmas leis de desenvolvimento se aplicam às pessoas com e sem deficiência e que a atividade social, sobretudo a intervenção educacional, é a fonte de desenvolvimento das funções psíquicas superiores, Vigotski fornece os alicerces para estudos e intervenções que visem à transformação das condições desenvolvimentais em termos de potência.
O mesmo rigor na apresentação dos termos da época não se verifica nas demais edições da obra. Na introdução da edição francesa, os editores e tradutores explicam as razões que os levaram a traduzir — e selecionar — os textos que compõem o volume. Conforme destacam Koviljka Barisnikov e Geneviève Petitpierre, responsáveis pela publicação, além de seu interesse pessoal no estudo do desenvolvimento de pessoas com deficiência mental, havia, até então, pouquíssimas traduções da obra vigotskiana para o francês. Essa edição reúne seis textos extraídos do livro original de L. S. Vygotski, intitulado Fundamentos da Defectologia, publicado em Moscou, em 1983, pela editora comercial Delachaux et Niestlé.
Por fim, a tradução espanhola não apresenta nenhuma informação ou texto introdutório por parte dos editores/tradutores. Somente os nomes do tradutor, Julio Guillermo Blank, e dos revisores Napóleon Jesús Vidarte Vargas e Irina Filanova são mencionados. Consta também nas informações editoriais o título original da obra em russo, bem como a editora: Sobrante Sochinenii Tom Piatii Osnovi DeJéktologuii - Editorial Pedagógica, Moscú 1983.
Para o presente estudo comparativo, realizamos o cotejamento das quatro versões indicadas. O trabalho de análise por cotejamento envolve a comparação detalhada entre os textos escolhidos. Nesse processo, o pesquisador, ou tradutor, analisa cada segmento dos textos e/ou versões traduzidas, identificando possíveis divergências, inconsistências ou adaptações necessárias.
Neste estudo, para realizar essa leitura, inicialmente identificamos termos polêmicos que normalmente geram debates nos círculos vigotskianos, como, por exemplo, sistemas dinâmicos semânticos/sistemas dinâmicos de pensamento/sistemas dinâmicos de raciocínio. A partir daí, realizamos uma leitura comparada das quatro versões, observando as escolhas lexicais, sintáticas e estilísticas. Em síntese, analisamos como cada tradução lida com construções sintáticas complexas, desmembramento de frases, adaptação de termos, omissões e/ou acréscimos
Quanto à ordem de apresentação dos resultados, primeiramente buscamos entender o contexto de produção e edição de cada uma das traduções, começando com a leitura das introduções e notas dos tradutores, que podem ou não fornecer informações relevantes sobre suas abordagens e intenções. Em seguida, passamos à leitura comparada dos textos, cotejando excertos específicos para identificar variações e similaridades.
Importante ressaltar que, para fins deste artigo, não tomamos o texto no original em russo. Nosso foco está na análise das quatro versões/traduções ocidentais com o objetivo de indagar sobre a recepção destes textos e, por conseguinte, dos aportes e conceitos de Vigotski. Brevemente, ainda em fase de produção, um novo estudo será dedicado ao exame minucioso do texto russo para fins de análise comparativa.
Análise e resultados dos eixos
A análise foi dividida em três categorias principais: reformulações sintáticas, omissões ou acréscimos e diferenças terminológicas. Para a apresentação de nossas análises, destacamos as partes comparadas em negrito e utilizamos a marcação de omissões com barra oblíqua (//). Ainda, optamos por destacar alguns exemplos mais representativos de cada categoria, sem a pretensão de esgotar todas as variações possíveis. O objetivo principal dessa análise é discutir como essas diferentes traduções foram recebidas pela comunidade acadêmica e como as escolhas dos tradutores podem influenciar essa recepção.
Reformulações Sintáticas
Reformulações sintáticas são um procedimento comum no processo de tradução, uma vez que as línguas raramente apresentam correspondência exata em termos de estrutura sintática. Isso se manifesta em diversas adaptações que o tradutor deve realizar, como a inversão de termos, o reposicionamento de locuções temporais dentro da frase, alterações na ordem de sujeito e verbo e o uso de pronomes relativos ou conectores lógicos específicos para o encadeamento das ideias. Além disso, em alguns casos, há a necessidade de desmembrar frases complexas e ajustar a pontuação para garantir maior clareza e fluidez no texto traduzido. Quando inevitáveis, seja por limitações na língua alvo, seja por imprecisões no texto de origem, essas mudanças visam a preservar o sentido original, respeitando as particularidades de cada idioma. Em outros casos, porém, as alterações sintáticas parecem ser fruto de escolhas estilísticas que alteram consideravelmente a dicção do autor. Nesses casos, entendemos a importância destas reformulações (e também escolhas) virem acompanhadas por uma nota explicativa por parte dos tradutores, a fim de informar aos leitores sobre os caminhos percorridos e possibilitar-lhes a busca por outras possibilidades de interpretação, em um diálogo autor-tradutor-leitor.
Neste eixo, nossas análises se iniciam na primeira frase do texto. A frase de abertura é fundamental porque estabelece o ponto de ancoragem de Vigotski em relação à relevância do tema que pretende desenvolver: o problema do retardo mental. No cotejamento das traduções supracitadas, observamos nuances importantes nas diferentes versões do parágrafo, como destacamos abaixo:
Essas traduções revelam diferentes abordagens na formulação do conceito central do texto. Esta frase do texto em português apresenta uma construção sintática truncada, o que dificulta a compreensão especialmente quando se utiliza o termo estabelece para descrever a deficiência intelectual da criança. O uso do verbo estabelecer, por exemplo, transmite a ideia de determinação fixa, como se o problema do atraso mental fosse uma realidade dada, invariável e universal. Essa escolha produz um sentido que naturaliza a deficiência intelectual como essência da criança, apagando o caráter histórico e social da construção dessa concepção. Sugere, portanto, uma fixação conceitual que contraria a própria perspectiva vigotskiana, correndo o risco de adotar uma visão reducionista e biologizante, que compreende o atraso apenas pela via do déficit orgânico ou intelectual, desconsiderando as mediações culturais e sociais que, para Vigotski, são centrais no desenvolvimento humano.
Já o parágrafo em francês adota uma reformulação que, embora mais fluida, explica o conceito de forma diferente, afirmando: “Quando se fala do problema do atraso mental, dá-se prioridade ao...”. Essa reformulação desloca o sentido quando comparamos as demais traduções pela ideia de prioridade e atenua o caráter estrutural atribuído à deficiência intelectual, especialmente, quando nos voltamos às tradições médico-pedagógicas da época. Com isso, o texto francês perde a densidade crítica presente nas demais versões, reduzindo a afirmação de Vigotski a uma simples ênfase circunstancial, em vez de evidenciar o processo histórico de naturalização da deficiência como essência da criança — justamente o ponto que Vigotski buscava problematizar.
Enquanto a versão em português sofre com a falta de clareza, a versão em francês, ao suavizar a construção, dilui a ênfase no conceito de elemento fundamental, uma ideia que é mantida nas versões em inglês e espanhol. Isso demonstra como as reformulações sintáticas podem influenciar a interpretação e o entendimento do argumento de Vigotski.
Omissões ou acréscimos
No processo de tradução, foram observadas divergências na construção dos textos que indicam a presença de omissões ou acréscimos significativos que impactam a compreensão do texto original, especialmente, em relação aos termos fantasia e imaginação. No parágrafo que explora os estudos de Lewin (Levin em francês), as palavras de Vigotski são traduzidas de maneiras consideravelmente diferentes:
Vale salientar que, enquanto todas as outras versões mantêm o termo fantasia, na tradução em francês, optou-se por imaginação. Essa escolha altera sutilmente o sentido original, assim como a omissão da palavra essencial na descrição da característica, o que também muda o significado da frase.
Um outro problema marcante é a omissão da segunda frase na tradução em português, que constitui parte essencial da passagem. Ao afirmar que a falta de fantasia não significa ausência de representações, Vigotski (citando Lewin) introduz uma distinção fundamental entre dois processos psíquicos distintos: de um lado, a capacidade de produzir imagens e representações mentais ligadas à memória e à experiência vivida; de outro, a função criadora da imaginação, responsável pela combinação e recombinação de imagens para elaboração do novo (Vigotski, 2009). A supressão dessa segunda frase apaga justamente essa nuance crítica, reduzindo a análise ao déficit, quando, na verdade, o autor busca diferenciar níveis qualitativos do funcionamento psíquico.
Além disso, a tradução francesa substitui fantasia por imaginação, e elimina o adjetivo essencial. Em Vigotski, os termos fantasia e imaginação aparecem, na maioria dos textos, como sinônimos. Entretanto, em alguns escritos, como na “Pedologia do adolescente”, a fantasia assume um lugar conceitual mais específico, associado ao devaneio ou a tudo aquilo que se afasta mais da realidade (Vigotski, 2025).
De um modo geral, a imaginação não é assumida em Vigotski como lugar do ilusório, mas é compreendida em sentido mais amplo, como a atividade, função e sistema psicológico responsáveis por reorganizar dialeticamente as experiências culturais em novas bases e ampliar o horizonte do possível em termos de criação (Leopoldoff, Cordeiro & Thévenaz, 2025). Nesse ponto, a tradução torna-se problemática: ao perder a palavra essencial, atenua-se o peso da afirmação de Lewin sobre a ausência de fantasia na criança com retardo mental como seu traço característico. Ao trocar fantasia por imaginação, dilui-se a precisão conceitual, pois se apaga justamente a fronteira que Vigotski estabelece entre representação, imaginação e criação. Esses deslocamentos tradutórios conduzem a uma leitura menos rigorosa do argumento vigotskiano, justamente num ponto em que ele articula sua tese central: a imaginação não é mero acúmulo de imagens, mas função criadora que se desenvolve historicamente e que constitui base para o pensamento criador, a arte, a ciência e a vida social.
Divergências terminológicas
Conforme apresentamos acima, é interessante refletir sobre como a tradução de termos pode alterar o significado original de um texto e influenciar a interpretação de conceitos centrais em uma obra teórica. No exemplo a seguir, notamos que o termo irrealidade é substituído, na tradução brasileira, por imaginação (ver tabela 3).
Como explicado na subseção anterior, o conceito vigotskiano de imaginação não se confunde com irrealidade; ao contrário, no caso de Vigotski, a imaginação é um conceito profundamente articulado à realidade. Essas diferenças terminológicas revelam uma variação significativa na interpretação do texto, potencialmente levando a compreensões divergentes do que Vigotski pretendia transmitir.
Um outro ponto crítico surge quando Vigotski discute a análise antidialética de Lewin sobre o afeto. Vigotski enfatiza a base dinâmica do desenvolvimento e a interdependência entre o psíquico e o físico, criticando Lewin por não considerar o desenvolvimento físico no desenvolvimento psíquico. No entanto, na tradução em inglês, a expressão “atividade/vida/desenvolvimento físico” foi substituída por psychological life. Essa alteração pode ser resultado de um erro de edição ou revisão, ou pode refletir um problema de compreensão teórica, o que levanta questões sobre a recepção correta do texto. Vejamos:
Na passagem a seguir, Vigotski empresta à física a metáfora do pensamento como um prisma que refrata as ações e os eventos, transformando-os por meio da consciência, processo que está na base de seu conceito de perejivanie. Mas as traduções divergem conceitualmente daquilo que Vigotski quis dizer. Vejamos:
Como apresentamos acima, Vigotski lança mão da metáfora do pensamento como um prisma que refrata as ações e os acontecimentos, transformando-os qualitativamente ao atravessarem a consciência, processo que fundamenta seu conceito de perejivanie (Vigotski, 2018). Essa metáfora ressalta não apenas uma filtragem de conteúdos, mas uma verdadeira reorganização dinâmica que altera a relação da ação com a situação. As traduções em português e espanhol parecem conservar essa imagem do prisma e da refração, reforçando a ideia de transformação dialética da experiência na consciência. Já a tradução francesa, ao optar pela metáfora do crivo, desloca o sentido: o que em Vigotski aparece como refração e recomposição torna-se simples filtragem, como se o pensamento apenas selecionasse ou peneirasse os elementos da ação. Já na versão em inglês, há um erro conceitual que desfaz a metáfora construída. Um prisma não reflete as imagens do mundo como um espelho; ele deixa a luz penetrar, transformando-a, e é justamente nesse processo de refração que se encontra a chave da explicação vigotskiana: a ação, ao atravessar o prisma do pensamento, modifica e, ao mesmo tempo, é modificada, alterando os processos de desenvolvimento na medida em que por eles também se transforma. Essa tradução atenua a densidade conceitual da passagem e pode induzir a uma compreensão empobrecida da dimensão transformadora que está no cerne da noção vigotskiana de perejivanie.
E uma passagem seguinte, observa-se uma divergência no uso de termos como sistemas dinâmicos semânticos, nas versões em português e espanhol, enquanto as versões em inglês e francês optam por systhèmes dynamiques de pensée (sistemas dinâmicos de pensamento) ou dynamic reasoning systems (sistemas dinâmicos do raciocínio). Essas escolhas levam a diferentes compreensões e trazem reflexões oportunas. Afinal, o que o texto quer dizer? Trata-se da unidade dos sistemas semânticos (edições em português e espanhol) ou da unidade dos sistemas dinâmicos do raciocínio (inglês) ou mesmo dos sistemas dinâmicos de pensamento? As escolhas são díspares, e algumas são incoerentes com o próprio texto:
O problema da unidade dos sistemas dinâmicos semânticos — seja qual for o termo que o autor realmente quis usar —, assume maior complexidade quando articulamos o primeiro período do parágrafo com o segundo e chegamos à discussão sobre a relação intelecto-afeto em termos de uma unidade dinâmica. Aqui, encontra-se problematizada a relação intelecto-afeto, o problema do significado e a formação das funções psicológicas superiores imbricada à constituição da consciência (termo que só é mencionado na edição em espanhol) e à ampliação das possibilidades de ação. Neste caso, o cotejamento das traduções traz implicações divergentes e deixam o leitor confuso sobre a intenção do autor.
Na versão em inglês, a opção pelo termo raciocínio parece destoar das demais traduções e também do argumento dialético da unidade intelecto-afeto sustentado por Vigotski ao longo do texto, além de tratar-se de uma palavra pouco recorrente em sua obra. Ainda nessa tradução, a escolha por to realize — que poderia ser vertido como dar-se conta, perceber ou tomar consciência — resulta na omissão do termo consciência, presente no excerto anterior (ver tabela 5), atenuando a articulação entre a dinâmica intelecto-afeto e a consciência.
Já a opção francesa por systèmes dynamiques de pensée mostra-se igualmente problemática, por estar impregnada de um “cartesianismo” criticado por Vigotski em todo o texto. Ademais, esta versão apresenta dois outros entraves: a referência à função do conhecimento, incompatível com a epistemologia vigotskiana — dado que conhecimento não é uma função —, e a escolha por connaître, que se distancia de maneira evidente das demais versões e não esclarece para o leitor o que o autor realmente quer dizer.
Na análise da composição do primeiro parágrafo, em espanhol e português, opta-se pelo termo unidade dos sistemas dinâmicos semânticos, que deve estar vinculada à relação entre intelecto e afeto catalisada, se assim podemos afirmar, no significado da palavra. Aqui, encontramos o argumento vigotskiano de que o significado da palavra é elemento constitutivo da consciência, conforme tese sustentada no capítulo 7 de Pensamento e Palavra (Vigotski, 2024). Entretanto, as duas traduções diferem no período seguinte do parágrafo. Em português, a escolha por função interiorizada e interiorizar é a que mais se afasta das demais traduções, introduzindo um termo específico, formado por um verbo nominalizado indicando o processo no qual uma função, supostamente exterior, se tornaria interior. Interiorização seria um conceito desenvolvido (ou mesmo suscitado) por Vigotski nesta passagem? Ou seria tomar consciência, como optou a versão em espanhol, que insere os termos função consciente e tomar consciência?
Não é possível responder a essas indagações. As diversas e divergentes traduções conduzem o leitor a múltiplos enquadramentos conceituais — não é possível afirmar o que foi proposto pelo autor. No cotejamento das traduções, esses quadros, como pedaços de vidros de um caleidoscópio, mudam sua configuração radicalmente ao se moverem, produzindo distorções e efeitos distintos, muitas vezes, incoerentes com a epistemologia assumida e defendida ao longo do texto por Vigotski.
A partir da análise dos eixos apresentados, notamos que as diferenças nas traduções do texto de Vigotski aqui analisado refletem mais do que escolhas estilísticas ou gramaticais; elas revelam interpretações teóricas que podem moldar significativamente a recepção de suas ideias no campo acadêmico. Reformulações sintáticas, omissões e alterações terminológicas não apenas afetam a clareza e a fluidez do texto, mas também influenciam a compreensão de conceitos centrais, como unidade dos sistemas dinâmicos semânticos, perejivanie e prisma do pensamento. Nossa análise ressalta a importância de um cuidado redobrado no processo tradutório, especialmente no que diz respeito à fidelidade ao sentido original e à preservação da riqueza teórica do autor.
Considerações finais
Ao encaminharmos as considerações finais deste artigo, impõe-se retomar a centralidade do texto “O problema do retardo mental” na obra de Vigotski, não apenas como objeto de análise, mas como chave interpretativa para a compreensão de seu projeto teórico em sua fase de maior maturidade. Sem dúvida, o texto revela um movimento de inflexão decisiva, no qual a problemática da deficiência é elevada à condição de via privilegiada para a apreensão das leis gerais do desenvolvimento humano.
Os limites das abordagens tradicionais são problematizados quando Vigotski desloca o foco das funções isoladas para a unidade dinâmica entre intelecto e afeto, reinscrevendo o desenvolvimento no interior de uma totalidade historicamente constituída. Nesse deslocamento, a análise deixa de se organizar em torno da descrição de déficits para se orientar pela investigação da constituição da consciência, compreendida como sistema semântico.
Vigotski se posiciona claramente diante de questões complexas: linguagem, consciência e desenvolvimento. E, nesse sentido, “O problema do retardo mental” afirma-se como um texto estratégico, cujas contribuições atravessam a totalidade da obra de Vigotski e oferecem fundamentos decisivos para o campo da educação e da psicologia.
É precisamente a partir dessa compreensão que, no presente artigo, foram analisadas quatro versões de um mesmo texto, publicadas ao longo de um intervalo de aproximadamente trinta anos. Buscou-se evidenciar como diferentes operações tradutórias incidem sobre a transmissão de seus conceitos e, consequentemente, sobre as possibilidades de apreensão de seu alcance teórico.
As análises indicam a possibilidade de flutuações terminológicas, especialmente nos grupos de termos como imaginação/imaginaire, fantasia, irreal, ideias, representações, e também nos termos usados para se referir ao atraso mental. Ainda, observamos no cotejamento das obras que poucas notas sobre o texto foram incluídas; geralmente, a data de publicação é identificada, mas o contexto e a data de escrita do texto em russo não são mencionados nas traduções. Nas apresentações das edições, há discussões gerais sobre o livro, mas, com exceção da versão em inglês, não se explicitam os critérios de escolha terminológica.
Como vimos, as imprecisões, incoerências e equívocos constituem traços recorrentes na forma como “O problema do retardo mental” foi tratado nas diferentes versões analisadas neste artigo. Diante desse quadro, algumas soluções possíveis para futuras traduções seriam o uso de notas explicativas e comentários críticos em novas edições dos textos de Vigotski. Esse recurso é especialmente necessário no caso dos escritos teoricamente complexos do autor, como é o caso do presente texto, pois contribui para aproximar suas ideias dos leitores contemporâneos sem desvirtuar o conteúdo original. O comentário crítico, nesse sentido, permite assegurar o rigor nas escolhas sintáticas e terminológicas, além de esclarecer referências a outros autores, citações incompletas ou imprecisas, bem como justificar o uso de termos hoje considerados ultrapassados.
As dificuldades recorrentes na consolidação dos textos, como as divergências entre diferentes edições russas ou entre manuscritos e versões publicadas posteriormente, somadas à necessidade de contextualização histórica e bibliográfica, poderiam ser enfrentadas por meio de edições comentadas. No entanto, esse recurso não foi adotado nas versões aqui analisadas. Diante disso, torna-se indispensável a constituição de equipes de trabalho com domínio aprofundado da obra vigotskiana, de seu contexto histórico e do estado da arte das pesquisas da época, a fim de viabilizar traduções mais rigorosas. Ainda assim, a publicação de determinados materiais continua sendo um desafio, pois requer a revisão minuciosa de manuscritos originais e a elaboração de novas traduções — um processo demorado, oneroso e pouco atrativo para editoras comerciais, já que implica custos elevados e, consequentemente, limita a circulação em larga escala (van der Veer & Yasnitsky, 2011).
Outra estratégia fundamental consiste na comparação sistemática entre diferentes versões traduzidas da obra de Vigotski. O cotejamento de textos não apenas contribui para o rigor do processo tradutório, mas também se configura como exercício crítico que favorece a compreensão e a adequada recepção das obras. Nesse sentido, a constituição de grupos de pesquisadores multilíngues dedicados à editoração mostra-se decisiva para reduzir mal-entendidos na leitura das traduções e destacar passagens que, no movimento de transposição linguística, ganham ou perdem sentidos relevantes. Todavia, essa prática enfrenta desafios consideráveis, pois exige qualificação, além de tempo prolongado para o desenvolvimento de debates, revisões e a finalização de edições comentadas.
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Uso de I.A.:
Durante a elaboração do artigo, as autoras utilizaram a ferramenta DeepL, no período entre julho e agosto de 2025, unicamente para apoio na redação dos resumos em língua inglesa e espanhola. As autoras declaram que revisaram, validaram, editaram e supervisionaram o texto final, garantindo sua originalidade, precisão e integridade ética, assumindo total responsabilidade pelo conteúdo da publicação.
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Revisão textual:
Normalização bibliográfica (APA 7ª Ed.), preparação e revisão textual em português: Reinaldo Rodrigues Monção Junior comercial@tikinet.com.brVersão em língua inglesa: Francisco Toledo Corrêa francisco.toledocorrea@gmail.com
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1
O grupo foi formado pelos pesquisadores Bernard Schneuwly (UNIGE), Daniele Nunes Henrique Silva (UnB), Irina Leopoldoff (UNIGE) — coordenadores —, Christiane Moro (UNIGE), Thérèse Thévenaz (UNIGE), Daniel Martin (HEPL – Lausanne), Anne Clerc-Georgy (HEPL - Lausann e), Glaís Sales Cordeiro (UNIGE), Luciane Maria Schlindwein (UFSC), Lavinia Magiolino (Unicamp), Jairo Werner (UFF), Diego di Massi (Universidade de Milão), Simone Maria Dantas-Longhi (UFV) e Flavia Fazion (UnB).
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Diversas grafias podem ser adotadas para transliterar, no alfabeto latino, o nome de Лев Семёнович Выготский. Nas obras em inglês, predomina o uso de Vygotsky, em espanhol Vygotski, em francês Vigotski ou Vigotskij. Ao longo do artigo, ao mencionarmos o trabalho do autor, optamos pela grafia Vigotski, amplamente adotada nas traduções mais recentes em português brasileiro. Nas citações, usamos a grafia de acordo com a obra consultada.
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3
No original, Problema umstvennoi otstalosti. Em português, diferente das demais traduções analisadas, o título escolhido foi “O problema do atraso mental”.
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As primeiras reflexões que deram origem a este artigo foram apresentadas no IX International Seminar “Vygotskij – Beyond Inclusion Towards Transformative Education”, realizado em Turim, Itália (Dantas-Longhi, Fazion & Silva, 2024). Recentemente, tivemos acesso à tradução desse mesmo texto em italiano e à nova tradução do texto em francês, ainda no prelo, que serão objeto de análise em um estudo futuro.
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5
Em língua portuguesa, circulam duas versões principais dessa obra. A primeira, de caráter abreviado, foi publicada pela Editora Martins Fontes em 1987, sob o título Pensamento e Linguagem. A segunda, mais completa, foi lançada pela mesma editora em 2001, com o título A Construção do Pensamento e da Linguagem (Vigotski, 2001). Embora nossos estudos se apoiem nesta versão integral, optamos, neste artigo, por nos referir à obra Michlenie i retch como Pensamento e Linguagem, por ser o título mais difundido e consolidado no cenário internacional, presente também em outras línguas ocidentais, como Thought and Language (primeira edição norte-americana), Pensiero e linguaggio (italiano) e Pensée et langage (francês).
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A numeração de página é algarismos romanos pois é a numeração da introdução, que difere do restante do texto, o qual está em algarismos indo-arábicos.
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No original: In the late thirties, one of the translators of the present edition, E. Hanfmann, in collaboration with J. Kasanin, repeated some of Vygotsky’s studies of concept formation; she remembers vividly the struggle of winding her way through his text. When Vygotsky’s collaborator and friend Professor A. R. Luria approached her in 1957 with the request that she participate in the translation of Thought and Language, she expressed her conviction that a literal translation would not do justice to Vygotsky’s thought. It was agreed that excessive repetition and certain polemical discussions that would be of little interest to the contemporary reader should be eliminated, in favor of a more straightforward exposition. In translating the book, we have simplified and clarified Vygotsky’s involved style, while striving always to render his meaning exactly. The internal organization of the chapters has been preserved, except in Chapter 2, where extensive omissions resulted in a rearrangement of the text and in a greatly reduced number of subdivisions.
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Schneuwly e Leopoldoff (2022, p. 18) formulam a hipótese de que o sucesso da recepção de Pensamento e Linguagem nos Estados Unidos tenha sido influenciado por um contexto acadêmico em que o pragmatismo deweyano estava em voga, o que fomentou uma leitura sociocultural da obra de Vigotski no cenário americano. Segundo os autores, essa é uma leitura equivocada.
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Esta leitura do texto foi mais profundamente abordada por Silva (2024), na conferência “La pathologie est la clé pour comprendre le développement, tandis que le développement est la clé pour comprendre les changements pathologiques”: une présentation chronologique des textes de la défectologie de Vygotskij et de leurs principes conceptuels, proferida no IX Seminário Internacional Vigotski – SIV, em Turin, Itália.
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“Thus terms like mental backwardness (umstvennaia otstalost’), feeble mindedness (slaboumie) and oligophrenia with its three gradations of mental retardation (debility, imbecility, and idiocy) were, perhaps, appropriately descriptive and decorous in the 1920’s but they can seem somewhat obsolete, unscientific or even a touch unseemly and unkind today”.
Disponibilidade de dados:
Os conteúdos subjacentes ao texto da pesquisa estão contidos no manuscrito.
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