Open-access TikTokdrama: Quando o mundo idealizado toma o lugar do real

TikTok drama: When the idealized world takes the place of reality

Drama de TikTok: cuando el mundo idealizado reemplaza a la realidade

RESUMO

Este artigo apresenta um relato de experiência fundamentado na observação sistemática de interações no TikTok, entre janeiro e junho de 2025, e em uma vivência psicodramática realizada com psicodramatistas em dezembro de 2025. Distingue-se o espaço virtual do TikTok, marcado pela ausência de direção e de intencionalidade terapêutica, da realidade suplementar própria do método psicodramático. Analisa-se, à luz dos conceitos de palco, papel, espontaneidade e realidade suplementar, práticas de acolhimento, exposição e conflito, incluindo vínculos afetivos virtuais, disputas políticas e de gênero, violência simbólica e ameaças à vida. Propõe-se o conceito de TikTokdrama para nomear o fenômeno pelo qual o mundo idealizado digital passa a ocupar o lugar da realidade vivida. Conclui-se que o psicodrama oferece ferramentas teóricas e metodológicas relevantes para compreender as formas de sociabilidade mediadas por plataformas digitais.

PALAVRAS-CHAVE
Psicodrama; TikTok; Realidade Suplementar; Relações Virtuais; Acolhimento

ABSTRACT

This article presents an experience report based on systematic observation of TikTok interactions between January and June 2025, and on a psychodramatic experiential activity conducted with psychodramatists in December 2025. The virtual space of TikTok, characterized by the absence of direction and therapeutic intentionality, is distinguished from the surplus reality proper to the psychodramatic method. Drawing on the concepts of stage, role, spontaneity, and surplus reality, practices of emotional support, exposure, and conflict are analyzed, including virtual affective relationships, political and gender disputes, symbolic violence, and threats to life. The concept of TikTokdrama is proposed to describe the phenomenon in which the idealized virtual world occupies the place of lived reality. It is concluded that Psychodrama offers relevant theoretical and methodological tools to understand forms of sociability mediated by digital platforms.

KEYWORDS
Psychodrama; TikTok; Supplementary Reality; Virtual Relationships; Emotional Support

RESUMEN

Este artículo presenta un relato de experiencia basado en la observación sistemática de interacciones en TikTok entre enero y junio de 2025, y en una vivencia psicodramática realizada con psicodramatistas en diciembre de 2025. Se distingue el espacio virtual del TikTok, caracterizado por la ausencia de dirección e intencionalidad terapéutica, de la realidad suplementaria propia del método psicodramático. A la luz de los conceptos de escenario, rol, espontaneidad y realidad suplementaria, se analizan prácticas de acogida, exposición y conflicto, incluyendo relaciones afectivas virtuales, disputas políticas y de género, violencia simbólica y amenazas a la vida. Se propone el concepto de TikTokdrama para nombrar el fenómeno en el cual el mundo virtual idealizado pasa a ocupar el lugar de la realidad vivida. Se concluye que el Psicodrama ofrece herramientas teóricas y metodológicas relevantes para comprender las formas de sociabilidad mediadas por plataformas digitales.

PALABRAS CLAVE
Psicodrama; TikTok; Realidad Suplementaria; Relaciones Virtuales; Acogida

INTRODUÇÃO

Nas últimas décadas, as redes sociais têm se consolidado como espaço de interação, expressão subjetiva, construção de vínculos e busca por grupos identitários (Trindade, 2024). Nesse contexto, a plataforma TikTok destaca-se por sua lógica

de produção de vídeos curtos, transmissões ao vivo por meio das lives e forte engajamento em tempo real, alcançando milhões de usuários em escala global. Esses aspectos relacionam-se com a matriz de identidade, na medida em que a plataforma se configura como um espaço de constituição e experimentação de papéis sociais.

Para além do entretenimento, o TikTok abriga experiências de acolhimento, aconselhamento, militância, exposição afetiva e produção de sentidos coletivos que desafiam concepções tradicionais sobre relações humanas, cuidado e pertencimento. Nesse contexto, baseados na busca de validação, como aborda Malaquias (2023), os sujeitos encontram no ambiente virtual um espaço para experimentar papéis, narrar sofrimentos e construir laços simbólicos.

Do ponto de vista psicodramático, tais interações podem ser compreendidas como dramatizações espontâneas, nas quais os indivíduos encarnam papéis, projetam desejos e ensaiam modos de existir no espaço virtual. Diferentemente da realidade suplementar construída no contexto do método psicodramático, marcada pela intencionalidade terapêutica e pela presença do diretor (Tarashoeva, 2022), essas dramatizações ocorrem sem direção, sem contrato de cuidado e sob a lógica do consumo, da visibilidade e da monetização da atenção.

Dessa forma, o espaço virtual torna-se ambíguo: simultaneamente produtor de vínculos solidários e reprodutor de violências simbólicas. É nesse cenário que emerge o fenômeno que denominamos TikTokdrama, entendido como o processo pelo qual o mundo idealizado no ambiente digital ultrapassa o caráter simbólico e passa a ocupar o lugar da realidade vivida, influenciando decisões, afetos e modos de existir.

Importa destacar que esse processo não é exclusivo do TikTok: fenômenos análogos têm sido identificados em outras plataformas digitais e em contextos de games, como demonstram Vidal e Dias (2023) ao analisar como dinâmicas de gênero e violência da realidade concreta se repetem e se intensificam no espaço virtual dos jogos eletrônicos. O conceito de TikTokdrama ancora-se nas especificidades dessa plataforma, especialmente em sua lógica algorítmica de engajamento por conflito e sua estrutura de lives como palco dramático sem direção, sem com isso desconsiderar que a dinâmica que ele nomeia se manifesta de formas análogas em outros espaços digitais.

Este artigo, de natureza qualitativa e descritiva, configura-se como um relato de experiência oriundo da observação sistemática de interações no TikTok, entre janeiro e junho de 2025, e de uma vivência psicodramática posterior, realizada em dezembro de 2025 com psicodramatistas. O objetivo é analisar, à luz do referencial psicodramático, as dinâmicas de acolhimento, conflito e sofrimento psíquico observadas nas interações da plataforma, propondo o conceito de TikTokdrama para nomear o fenômeno pelo qual o mundo virtual idealizado passa a ocupar o lugar da realidade vivida.

MÉTODO

Trata-se de um estudo qualitativo, de caráter descritivo-reflexivo, configurado como relato de experiência, conforme orientações metodológicas para pesquisas em psicodrama e práticas psicossociais (Coelho, 2025).

Contexto e procedimento

A experiência foi composta por dois momentos complementares e sequenciais. O primeiro momento consistiu na observação sistemática de interações no TikTok, realizada entre janeiro e junho de 2025. A observação foi conduzida por meio de acesso à plataforma pela conta nominal da pesquisadora, utilizando a funcionalidade For You, que entrega conteúdo de forma algorítmica conforme o padrão de interação do usuário. O foco recaiu exclusivamente sobre transmissões ao vivo, as lives, acompanhadas em período noturno, com duração de até duas horas por sessão, em frequência diária. As lives observadas abordavam temáticas variadas, incluindo política, religião, relacionamentos afetivos e conhecimentos gerais.

A seleção das lives observadas seguiu o próprio funcionamento do algoritmo da plataforma, que privilegia e distribui conteúdos com maior engajamento, especialmente aqueles que geram debate, conflito ou alta interatividade nos comentários. A observação foi de natureza participativa, registrada em diário reflexivo, com atenção às formas de interação entre os participantes; aos papéis assumidos pelos anfitriões e pelos usuários que ingressavam nas lives; e às dinâmicas de acolhimento, conflito e sofrimento que emergiam nesses espaços.

Em respeito aos princípios éticos, não foram identificados nomes de usuários, canais ou situações individuais específicas, preservando o anonimato dos participantes observados. A fase observacional enquadra-se nas exceções previstas na Resolução n.º 510 (2016) do Conselho Nacional de Saúde (CNS), art. 1º, inciso VII, em consonância com Silveira (2024), por se tratar de pesquisa que objetiva o aprofundamento teórico de situações emergentes da prática profissional, realizada a partir de informações de domínio público sem identificação de sujeitos e não tendo sido submetida a Comitê de Ética em Pesquisa.

O segundo momento consistiu em uma vivência psicodramática presencial, intitulada “Entre o real e o virtual: o palco que me habita”, realizada em 9 de dezembro de 2025 com um grupo de 15 psicodramatistas. A vivência teve como objetivo explorar, por meio da experiência dramatúrgica, a construção do avatar virtual como extensão social e cultural da identidade, utilizando o material coletado na fase observacional como disparador reflexivo.

Os participantes da vivência psicodramática foram previamente informados sobre o caráter da atividade e consentiram com a utilização de seus relatos e experiências para fins deste artigo, em conformidade com Silva et al. (2025), que abordam os princípios éticos estabelecidos pelo CNS na resolução n.º 466/2012, que regulamenta pesquisas envolvendo seres humanos diretamente. A vivência seguiu as etapas estruturais do método psicodramático: aquecimento inespecífico e específico, dramatização e compartilhamento reflexivo – descritas em detalhes na seção seguinte.

Os dados foram registrados por meio de diário reflexivo, observação participante no ambiente digital e registros da vivência psicodramática. A análise fundamentou-se nos conceitos centrais do psicodrama moreniano, especialmente palco, papel, espontaneidade, realidade suplementar, átomo social e conservas culturais.

Relato da vivência

Observação no ambiente virtual: TikTok – janeiro a junho de 2025

A experiência observacional foi realizada entre janeiro e junho de 2025, por meio do acompanhamento de transmissões ao vivo no TikTok. Observou-se que determinadas lives reuniam grupos recorrentes de usuários em torno de figuras que assumiam papéis de acolhedores, conselheiros ou mediadores afetivos, oferecendo escuta, orientações e apoio emocional. Nessa perspectiva, é importante perceber que nesses espaços vivenciais há muitos desafios, sendo o maior deles justamente compreender a representatividade de cada papel desempenhado, seja no contexto do psicodrama interno ou na experiência após exposição ao mundo virtual (Fleury, 2020).

Para compreender como essas interações se situam em relação à estrutura psicodramática, é necessário descrever a configuração das lives no TikTok e, ao mesmo tempo, demarcar suas diferenças em relação ao palco psicodramático. No TikTok, a janela principal é ocupada pelo anfitrião, que conduz a transmissão com autonomia, mas sem intencionalidade terapêutica e frequentemente orientado pela lógica do engajamento e da monetização. Diferentemente do diretor psicodramático, que orienta o processo em direção ao psiquismo do protagonista e sustenta um contrato de cuidado com o grupo, o anfitrião da live não possui esse compromisso estrutural.

Os usuários que ingressam na live e se tornam visíveis nas janelas laterais ocupam um lugar de visibilidade, mas não o papel de egos-auxiliares no sentido moreniano, uma vez que não foram escolhidos pelo protagonista nem estão a serviço de seu processo interno. O chat, por sua vez, pode abrigar expressões de acolhimento coletivo, mas sem a proteção, a direção e o contrato que caracterizam o compartilhamento psicodramático. É precisamente essa ausência de mediação, direção e contrato de cuidado que distingue o espaço das lives do palco psicodramático e torna o TikTok um território fértil para dramatizações espontâneas, mas estruturalmente distinto da realidade suplementar construída no método.

Muitos usuários relatavam sofrimentos pessoais, conflitos familiares, solidão e crises emocionais, encontrando na interação virtual uma forma de pertencimento e acolhimento, nos remetendo a uma espécie de aquilombamento digital (Silva & Soares, 2025). Entretanto, o mesmo espaço revelou-se intensamente conflitivo: disputas políticas, ideológicas e de gênero emergiam de maneira abrupta, frequentemente culminando em ataques pessoais, linchamentos virtuais e cancelamentos coletivos – dinâmica já identificada no psicodrama em ambiente tecnológico (Vidal & Vitali, 2022). Relações amorosas iniciadas exclusivamente no ambiente virtual eram expostas como espetáculo: declarações públicas de afeto em lives, rompimentos transmitidos em vídeos, acusações mútuas e disputas narrativas por seguidores e legitimidade (Soares, 2023). Em situações mais graves, observaram-se transmissões de ameaças à própria vida, relatos de automutilação e pedidos explícitos de socorro, evidenciando o caráter de exposição radical desse palco digital (Altinay, 2023).

O TikTok revelou-se, assim, como um espaço de dramatização coletiva espontânea, estruturalmente distinto do psicodrama enquanto método, mas passível de ser lido à sua luz. A ausência de mediação, direção e contrato de cuidado distingue essas dinâmicas do sociodrama e do psicodrama público tal como descritos por Moreno, ao mesmo tempo que evidencia o que se perde quando a espontaneidade coletiva ocorre sem continência: favorece-se tanto a expressão criativa e solidária quanto a repetição de violências e a intensificação do sofrimento psíquico. É nesse contraste que o referencial psicodramático encontra sua maior potência analítica para compreender o fenômeno do TikTokdrama.

Vivência psicodramática aplicada ao vivido – dezembro de 2025

Como desdobramento da experiência observacional, realizou-se uma vivência psicodramática presencial intitulada “Entre o real e o virtual: o palco que me habita”, em 9 de dezembro de 2025, com um grupo de 15 psicodramatistas. A proposta consistiu em explorar a construção do avatar virtual como extensão social e cultural da identidade, utilizando o referencial psicodramático como lente analítica para compreender as implicações subjetivas da presença digital (Fonseca, 2022).

A vivência seguiu as etapas estruturais do método psicodramático: aquecimento inespecífico e específico, dramatização e compartilhamento reflexivo.

Aquecimento

No aquecimento inespecífico, os participantes foram convidados a refletir sobre a última experiência marcante vivida no TikTok, identificando sentimentos associados à exposição digital, como prazer, vergonha, ansiedade ou desejo de reconhecimento. Conforme Formiga et al. (2025), o aquecimento inespecífico promove o relaxamento das tensões e conecta os participantes por um elo comum que lhes confere proteção e seguridade na vivência, demarcando o lugar da relação Eu-Tu e possibilitando que os indivíduos se vejam por outra perspectiva no simbólico. Fundamenta-se também na relação télica que culmina na reciprocidade característica do encontro experienciado (Naffah, 1997).

No aquecimento específico, realizou-se a criação de um avatar simbólico baseado em figuras representativas escolhidas pelos participantes, tais como cobra, carinha sorridente, mãos erguidas, entre outras, simbolizando aspectos performáticos do eu digital. A escolha de personagens como recurso psicodramático não é nova: Vidal et al. (2021) já explorou sua potência terapêutica, e Contro (2020), em Nós e nossos personagens: histórias terapêuticas, aprofunda como os personagens que habitamos revelam estruturas internas de funcionamento, forças que nos constituem ou que momentaneamente nos atravessam. No contexto desta vivência, o avatar digital funcionou como um personagem contemporâneo, externalizando aspectos do eu que se performatizam no ambiente virtual e raramente são nomeados fora dele.

Dramatização

É no drama colocado no palco que os indivíduos conseguem expressar suas realidades suplementares e desempenhar novos papéis (Gonçalves et al., 2023). Cada participante apresentou seu avatar como se estivesse em uma live, assumindo postura corporal e enunciando uma frase curta de impacto. Posteriormente, encenou-se a “cena do eu fora da câmera”, representando aquilo que não é postado, editado ou exibido, contrastando a performance digital com a experiência subjetiva não publicizada.

As cenas que emergiram na dramatização foram construídas por meio de expressão facial e corporal: cada participante foi convidado a representar, em forma de escultura viva, quem é e como age fora do ambiente virtual. O processo iniciou-se com uma reflexão interna sobre a própria identidade fora da tela, que se materializou em seguida por meio de semblantes e movimentos corporais diversificados, contrastando a performance do avatar digital com a expressão autêntica do eu não editado. Essa técnica de escultura psicodramática permitiu que aspectos subjetivos habitualmente silenciados pela lógica da visibilidade digital emergissem no palco da vivência, tornando-se objeto de observação e reflexão coletiva.

Foram utilizadas perguntas orientadoras, às quais os participantes respondiam apenas com gestos, dedo para cima ou para baixo, sem julgamento ou verbalização: “Quem se reconheceu no avatar exagerado?”; “Quem já sofreu rejeição digital?”; “Quem já esperou validação por curtidas?”.

Compartilhamento

No compartilhamento, os participantes relataram que o olhar para o avatar possibilitou compreender estruturas internas de funcionamento, revelando fragilidades não publicizadas, potências criativas reprimidas e novos significados atribuídos à visibilidade e ao pertencimento. O compartilhamento e seus desdobramentos vinculares na dramatização propiciam, conforme Sória (2025, p. 4), “lembranças de situações semelhantes vivenciadas e reações como não conseguir agir diferentemente na dramatização em relação à vida real”.

Também emergiu a percepção de que os aprendizados da vivência extrapolavam o universo digital, sendo aplicáveis a outros contextos da vida, como trabalho, relações familiares, produção estética e redes de afeto. O processo evidenciou o avatar como extensão psicodramática da identidade, articulando criação espontânea e conservas culturais (Nascimento, 2023).

ANÁLISE PSICODRAMÁTICA

A observação do TikTok permite a aplicação de conceitos fundamentais do psicodrama. O palco, conforme Cardoso (2021), definido por Moreno, materializa-se no espaço virtual da plataforma, onde sujeitos atuam diante de uma plateia que reage em tempo real. O papel desempenhado intensifica-se por meio de filtros, narrativas cuidadosamente construídas e performances voltadas à aceitação do público.

O conceito de realidade suplementar (Khouri, 2024), entendido como o espaço de acesso ao psiquismo do protagonista construído intencionalmente no palco psicodramático, ilumina por contraste o que ocorre no TikTok. No ambiente digital da plataforma, os usuários experimentam papéis e vínculos que muitas vezes não encontram espaço na vida cotidiana, mas sem a intencionalidade terapêutica, a direção e o contrato de cuidado que caracterizam a realidade suplementar no método psicodramático (Tarashoeva, 2022).

Essa distinção é central para compreender o TikTokdrama: o fenômeno não consiste em uma realidade suplementar que se torna substitutiva, mas sim em um espaço de realidade virtual que, pela ausência de mediação e pela lógica algorítmica de amplificação do engajamento, passa a ocupar o lugar da realidade vivida, influenciando identidades, vínculos e experiências emocionais.

A sociometria digital manifesta-se por meio de curtidas, seguidores e comentários, funcionando como indicadores de aceitação, rejeição e pertencimento (Vidal & Vitali, 2022). A popularidade passa a operar como critério de validação subjetiva, influenciando diretamente a autoestima e a percepção de si. Esse fenômeno não é aleatório: insere-se em uma lógica neoliberal de monetização da atenção e da subjetividade, na qual o sujeito é simultaneamente produtor e produto de sua própria imagem (Vieira, 2017). As relações digitais tornam-se, assim, expressão contemporânea das chamadas relações líquidas, nas quais os vínculos se constroem e se dissolvem com a mesma velocidade com que o algoritmo distribui e descarta conteúdos.

Outro conceito relevante é o átomo social (Feijó, 2021), transposto para o digital e entendido como a rede de vínculos afetivos simbólicos que passa a sustentar a identidade do sujeito no ambiente virtual. Seguidores tornam-se fontes de afeto; curtidas representam reconhecimento; e a estética postada adquire valor relacional, moldando modos de existir.

A espontaneidade, conceito central no psicodrama (Vitali, 2024), apresenta-se de forma ambígua no contexto do TikTok. Pode gerar criatividade, acolhimento e denúncia, mas também impulsividade, julgamentos e ataques coletivos. O mesmo gesto espontâneo que acolhe pode humilhar e ferir. Conforme Vieira (2017), a espontaneidade, quando capturada pela lógica das conservas culturais digitais, perde sua potência criadora e passa a reproduzir padrões cristalizados de comportamento, funcionando como instrumento de conformação e não de transformação.

Surge, assim, a cisão entre o eu imagético, performático e visível, e o eu emocional, frequentemente silenciado. As conservas culturais do TikTok, expressas pelas trends, estéticas normativas e pelos discursos prontos, tensionam constantemente a espontaneidade criadora, limitando ou canalizando a expressão subjetiva. É nessa tensão que o TikTokdrama encontra sua potência mais reveladora: ao expor a distância entre o que se posta e o que se vive, entre o avatar construído e o sujeito que o habita, a plataforma torna visível um sofrimento que, embora sentido individualmente, denuncia uma falha coletiva nos modos contemporâneos de reconhecimento e pertencimento.

DISCUSSÃO

A análise das experiências observadas no TikTok e da vivência psicodramática realizada permite organizar a discussão em três eixos articulados: as potencialidades e os riscos do TikTok como palco psicodramático; o deslocamento identitário e o sofrimento psíquico decorrentes do TikTokdrama; e as possibilidades de intervenção e uso intencional da plataforma a partir do referencial psicodramático.

Potencialidades e riscos do Tiktok como palco psicodramático

O TikTokdrama revela tanto potencialidades quanto riscos. Se, por um lado, a plataforma amplia possibilidades de acolhimento, experimentação de papéis e construção de vínculos solidários, por outro, intensifica a dependência da aprovação externa, a exposição excessiva e a vivência de violências simbólicas. Conforme Vieira e Silva (2022), as vulnerabilidades subjetivas começam a ressoar no ambiente digital e desaguam em risco social quando não há mediação adequada.

Essa ausência de mediação é um elemento central do fenômeno observado. Nas lives acompanhadas, identificou-se com frequência a omissão da figura do diretor: o anfitrião, que poderia exercer essa função, frequentemente se abstém de intervir nos conflitos porque o engajamento gerado pelas brigas e tensões aumenta a audiência e, consequentemente, a monetização da live. Essa lógica, estruturalmente oposta aos princípios do psicodrama, faz com que as dramatizações ocorram sem elaboração, sem integração e sem cuidado coletivo, potencializando o sofrimento em vez de elaborá-lo.

Deslocamento identitário e sofrimento psíquico

Quando o sujeito passa a ser reconhecido predominantemente pelo alcance imagético de sua presença digital, ocorre um deslocamento identitário que pode gerar sofrimento psíquico, ansiedade e exclusão (Silva, 2023). O avatar construído para o ambiente virtual deixa de ser uma extensão criativa do eu e passa a funcionar como substituto da identidade, aprisionando o sujeito em uma performance que demanda validação contínua.

Esse deslocamento articula-se com o que Vieira (2017) identifica como captura da espontaneidade pelas conservas culturais digitais: as trends, os formatos e os discursos prontos que circulam na plataforma constrangem a expressão subjetiva, limitando a criatividade e reproduzindo padrões cristalizados de comportamento. O resultado é a cisão já descrita entre o eu imagético e o eu emocional; cisão que se manifesta clinicamente como dificuldade de habitar a própria experiência fora das telas, dependência de validação externa e empobrecimento dos vínculos presenciais.

Nesse cenário, o sofrimento experimentado individualmente denuncia uma falha coletiva nos modos contemporâneos de reconhecimento e pertencimento, inserida em uma lógica neoliberal que monetiza a subjetividade e transforma a visibilidade em critério de valor humano (Vieira, 2017). A demanda por acolhimento que emerge nas lives não é, portanto, apenas uma demanda individual: é um sintoma social que o psicodrama, em sua dimensão sociátrica, está particularmente bem posicionado para compreender e nomear (Souza & Vieira, 2025).

Possibilidades de intervenção e uso intencional da plataforma

O TikTok pode ser compreendido como um campo fértil para práticas psicodramáticas contemporâneas, desde que utilizado com intencionalidade e respeito à integridade das pessoas. Conforme Berquó et al. (2024), é necessário pensar a prática psicodramática de maneira mais ética, propiciando saúde social e coletiva. A plataforma dialoga com princípios fundamentais do psicodrama, como protagonismo, expressão de papéis e construção narrativa, oferecendo possibilidades concretas de reflexão sobre o que é postado e o que é vivido, sobre a espontaneidade e as conservas culturais, sobre a autenticidade e a performance.

O psicodrama pode auxiliar na diferenciação entre criação genuína e repetição automática, fortalecendo a autonomia, a consciência de papéis e o cuidado consigo e com o outro. A vivência realizada em dezembro de 2025 demonstrou que o encontro entre o referencial psicodramático e as experiências digitais produz elaboração subjetiva significativa: ao nomear

o avatar como personagem e contrastar a performance digital com a expressão autêntica do eu fora da câmera, os participantes acessaram aspectos de sua identidade habitualmente silenciados pela lógica da visibilidade. Esse movimento, de acordo com Boscolo e Oliveira (2025), revela que no psicodrama tudo é possibilidade de criar e inovar, inclusive no território das plataformas digitais.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O TikTok, enquanto palco contemporâneo, evidencia a potência dramatúrgica das redes sociais e os desafios que o ambiente digital impõe à subjetividade contemporânea. A experiência relatada neste artigo indica que, embora a plataforma funcione como espaço de acolhimento, experimentação de papéis e construção de vínculos, ela também amplifica conflitos, intensifica o sofrimento psíquico e produz deslocamentos identitários que merecem atenção clínica e teórica.

Ao nomear esse fenômeno como TikTokdrama, este trabalho buscou dar visibilidade ao processo pelo qual o espaço de realidade virtual do ambiente digital, distinto da realidade suplementar construída intencionalmente no método psicodramático, passa a ocupar o lugar da realidade vivida, influenciando identidades, afetos e modos de existir. Esse deslocamento, conforme demonstrado na análise, não é um fenômeno isolado ou individual: insere-se em uma lógica estrutural de monetização da subjetividade e de ausência de mediação que o psicodrama, em sua dimensão sociátrica, está particularmente bem posicionado para compreender e nomear.

Fica evidente o potencial do referencial psicodramático para promover processos de elaboração subjetiva diante das experiências digitais contemporâneas. O avatar como personagem gera a possibilidade de refletir sobre as diferenças entre a performance construída no ambiente digital, a expressão autêntica do eu para além da câmera e a ampliação da compreensão de aspectos de sua identidade que, muitas vezes, permanecem obscurecidos pela visualização lógica sobre os impactos das interações digitais na constituição da subjetividade e ainda demsontarndo que os instrumentos do psicodrama, como o palco, o papel, a espontaneidade e o compartilhamento, mantêm sua potência transformadora também no território das plataformas digitais.

Cabe ao psicodrama, enquanto teoria e prática consolidada, continuar desenvolvendo e adaptando seus instrumentos para compreender e intervir nas novas formas de dramatização da vida contemporânea, reafirmando a centralidade da mediação, da direção e do cuidado coletivo nas experiências humanas, sejam elas presenciais ou virtuais. O TikTokdrama não é um diagnóstico pessimista sobre as redes sociais: é um convite à reflexão sobre como o psicodrama pode contribuir para que a espontaneidade criadora prevaleça sobre as conservas culturais digitais e, ainda, para que o encontro genuíno com o outro não seja substituído pela performance da visibilidade.

AGRADECIMENTOS

Aos nossos familiares e amigos, em especial Elias Rodrigues da Silva Neto (pai de Pettra Roque Araújo da Silva) e Rodney Gonçalves de Lima (esposo de Frankisley Miranda), pelo acolhimento, motivação e torcida.

  • DECLARAÇÃO DE USO DE FERRAMENTA DE INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL
    Declaramos que foi utilizada a ferramenta de inteligência artificial ChatGPT na data inicial da produção para a revisão deste manuscrito. Após o uso desta ferramenta, as autoras revisaram e editaram o conteúdo conforme necessário, assumindo total responsabilidade pelo conteúdo da publicação.
  • FINANCIAMENTO
    Não se aplica.

DISPONIBILIDADE DE DADOS DE PESQUISA

Não se aplica.

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Editado por

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    10 Ago 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    14 Fev 2026
  • Aceito
    08 Jul 2026
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