RESUMO
Este trabalho busca realçar a implicação política da socionomia em uma perspectiva crítica e decolonial. Ainda, questiona o papel do psicodrama na atual distopia neoliberal, em um mundo em ruínas, ameaçado pela ascensão de políticas antidemocráticas. A Teoria da Criatividade é revisitada: o que acontece quando é experimentado um estado de criação? Como ele pode ser pensado de forma situada, sensível às desigualdades que atravessam as relações sociais e históricas? Buscamos uma proposta de delineamento do ato criador, em diálogo com a realidade suplementar, espaço de criação de novas formas de estar no mundo, considerando a alegria enquanto afeto encharcado de politicidade. Retomar aspectos teóricos integra o movimento de mútua constituição entre teoria e prática que caracteriza a socionomia.
PALAVRAS-CHAVE
Psicodrama; Criatividade; Política
ABSTRACT
This work seeks to highlight the political implications of socionomy from a critical and decolonial perspective. It questions the role of psychodrama within the current neoliberal dystopia—in a world in ruins, threatened by the rise of anti-democratic politics. Creativity theory is revisited: what happens when a state of creation is experienced? How can it be conceptualized in a situated manner, sensitive to the inequalities that permeate social and historical relations? We aim to outline the creative act in dialogue with “surplus reality”—a space for creating new ways of being in the world—while considering joy as an affect deeply imbued with political significance. Revisiting theoretical aspects is part of the process of the mutual constitution of theory and practice that characterizes socionomy.
KEYWORDS
Psychodrama; Creativity; Politics
RESUMEN
Este trabajo busca resaltar las implicaciones políticas de la socionomía desde una perspectiva crítica y decolonial. Cuestiona el papel del psicodrama en la actual distopía neoliberal, en un mundo en ruinas, amenazado por el auge de políticas antidemocráticas. Se retoma la teoría de la creatividad: ¿qué sucede cuando se experimenta un estado de creación? ¿Cómo se puede concebir de manera situada, sensible a las desigualdades que impregnan las relaciones sociales e históricas? Buscamos una propuesta para delinear el acto creativo, en diálogo con la realidad suplementaria, un espacio para crear nuevas formas de ser en el mundo, considerando la alegría como un afecto imbuido de conciencia política. La revisión de los aspectos teóricos integra el movimiento de constitución mutua entre teoría y práctica que caracteriza a la socionomía.
PALABRAS-CLAVE
Psicodrama; Creatividad; Politica
AS VEIAS POLÍTICAS DO PSICODRAMA: O PSICODRAMA EM TEMPOS NEOLIBERAIS
O mal não está em nós, nem fora de nós. Ele está no tecido que tecemos entre nós.
— Maurice Merleau-Ponty, A guerra aconteceu
Este trabalho tem como objetivo realçar o caráter político do psicodrama, de acordo com alguns conceitos que já foram ressignificados em leituras críticas e decoloniais e outras ideias psicodramáticas que apontam para políticas da criação diante de um mundo em decomposição. Por exemplo, Vomero (2022) ressignificou o conceito de conserva cultural, propondo a ideia de conserva colonial. No plano psicossocial, teríamos, no Brasil, dominações e opressões que produzem continuidades ao sistema colonial e escravagista.
Vieira (2017) buscou realçar a dimensão política no conceito de espontaneidade, como a busca insurgente de outros modos de estar no mundo, alternativos aos modos de subjetivação neoliberal. O presente artigo questiona qual o papel do psicodrama na atual distopia neoliberal, em um mundo de ruínas provocado pela ascensão de políticas antidemocráticas. O neoliberalismo engendra a distopia, na medida em que dissemina o desamparo social, ao enaltecer o mais forte e abandonar grupos sociais que demandam cuidados solidários (Vieira, 2025).
As ideias de Ignácio Martín-Baró nos inspiram. Ele argumenta que não é possível pensar em trabalhar com saúde mental no âmbito da América Latina “sem tentar contribuir para mudar todas as condições que mantém as maiorias populares desumanizadas, alienando sua consciência e bloqueando o desenvolvimento de sua identidade histórica” (Martín-Baró, 1996, p. 18). De outra forma, as práticas psi se tornam adaptacionistas e apaziguadoras, buscando mudanças individuais que preservam a ordem social. Para que existem psicodramatistas? Quais são os efeitos que a atuação dos psicodramatistas produz no Brasil? Quais mudanças históricas estamos produzindo? Quais grupos sociais estão sendo beneficiados com a atuação dos psicodramatistas?
Este artigo aborda os aspectos distópicos do contexto histórico atual latino-americano, problematiza o psicodrama como saber da margem e em movimento e apresenta um aprofundamento na compreensão do processo de criação inspirado nas ideias de Henri Bergson. Ainda, discute a alegria e a realidade suplementar como aspectos em disputa política atualmente. A partir da compreensão mais ampliada do ato criador, situamos o psicodrama como um saber vitalista, que percebe o ser e o mundo como realidades de escoamento perpétuo de mudanças qualitativas. A vida seria o movimento contínuo de diferenciações criativas.
Por meio da exposição de conceitos e ideias do campo da filosofia, da sociologia, do psicodrama e das artes, buscamos incentivar uma discussão coletiva sobre os aspectos que constituem um mundo em decomposição e em transição. Além disso, refletir sobre conceitos e práticas do psicodrama, realçando seu caráter político-crítico, pode ser ferramenta de luta nesses contextos com aspectos distópicos. Escrever considerando os cenários latino-americanos também é questionar os parâmetros da colonialidade que se atualizam pela imposição de uma forma única de conhecer, alienando as construções de acordo com os contextos locais (Dulci & Malheiros, 2021).
Vivemos atualmente uma política da inimizade em escala planetária, reencenação atual do colonialismo, baseada no nós e eles (Lowy, 2015), com suas forças de divisão e de separação. A exploração, eliminação e escravização do outro é ainda uma forte proposta relacional distópica que permanece escondida na aparente civilização em que vivemos.
O neoliberalismo, ao demonizar a justiça social e as questões políticas, coloca a moralidade tradicional e as leis do mercado como seus substitutos, contribuindo para a desintegração da sociedade e para o descrédito com o bem comum, com o desmoronamento dos espaços coletivos. A sociedade se desintegra com a perda progressiva da ideia de comunidade e da solidariedade, ideais que contribuem para a construção de políticas públicas de cuidados e de direitos a uma vida digna.
Com o abandono do Estado e a atomização das pessoas, abre-se caminho para ressentimentos, desamparo e uma sensação coletiva de falta de futuro. Abordar a espontaneidade como categoria política, que nos possibilita a recusa das subjetividades impostas pelos poderes dominantes, representa um bom horizonte de lutas para os psicodramatistas e para o campo progressista da sociedade (Vieira, 2017, 2025). Os poderes dominantes se manifestam na exploração capitalista que extrai recursos naturais e a nossa vitalidade para gerar lucro para uma pequena camada dominante. O capitalismo é um sistema conservador que interdita o impulso criativo, pois está mais interessado na reprodução de hábitos como a aceleração, um agir obsessivo da sociedade do desempenho. Nessa perspectiva, a espontaneidade seria a diferenciação subjetiva e relacional em relação aos modos dominantes de produção de subjetividades.
O neoliberalismo é uma manifestação atual do capitalismo que propõe a deterioração do coletivo e da comunidade, colocando luz nos desempenhos individuais por meio do modelo da empresa. Políticas neoliberais engendram uma forma de ordenação social distópica ao insistir na privatização dos serviços públicos, no encolhimento do Estado social, na precarização das leis trabalhistas, para desregular o capital e concentrar ainda mais a riqueza. O capital é liberado para buscar mão de obra barata e locais de investimentos com menos entraves, criando padrões de vida cada vez mais rebaixados para a classe popular e para a classe média.
O assalto neoliberal à democracia e à justiça social despertou monstros e imaginários coloniais e escravagistas que cozinhavam em fogo brando. A tão propagada liberdade somente é intensificada entre os ditos mais fortes, aqueles que possuem mais recursos materiais para o alcance de uma ação efetiva no mundo (Vieira & Stengel, 2012). Aqueles que se sentiam como um ninguém foram capturados por um novo populismo de extrema direita que oferecia o resgate dos privilégios para uma branquitude cristã masculina que se sentia destronada (Lowy, 2015). Nesse contexto, a extrema direita representa um movimento de alcance mundial no qual lideranças políticas disseminam respostas às crises econômicas e sociais atuais a partir de alguns elementos como: a desumanização de grupos de pessoas vulneráveis, o culto à violência, a ideia de sobrevivência dos mais fortes, um desprezo pela diversidade humana, entre outros aspectos.
O tempo neoliberal é o tempo da produção, do consumo, de nunca se sentir o suficiente, de existências capturadas pela lógica empresarial, do desencantamento da vida sem os poderes da imaginação. O capitalismo se apodera do indivíduo por dentro. Além dos mecanismos tradicionais de coerção, temos a cumplicidade ou o consentimento passivo dos indivíduos. A extrema direita vai dirigir o ódio de parte da sociedade já entristecida. Geralmente, esse ressentimento transformado em ódio é escoado tendo como alvo grupos populares, constituídos por pessoas da classe trabalhadora e pessoas marginalizadas, além de grupos que não se encaixam em uma concepção de mundo patriarcal tradicional, como as pessoas LGBTQIAPN+.
A noção psicodramática de correntes sociométricas necropolíticas proposta por Vieira (2025) pode ser útil para entender o destino psicossocial dos afetos. Afetos e representações de desprezo dirigidos às pessoas que vivem na margem, cultivados historicamente no Brasil. Pensando em um coinconsciente mais amplo, um coinconsciente social brasileiro, podemos perceber representações antipopulares no imaginário social que foram se sedimentando ao longo da história do nosso país. O coinconsciente social seria formado por estados subjetivos produzidos por um grande grupo social, por meio de um contato indireto.
As opressões escravocratas e classistas são elementos que estariam construídos historicamente no Brasil, elementos coinconscientes sociais brasileiros que constroem percepções desqualificadoras em relação aos pobres e negros. Tais elementos se atualizam na forma de correntes afetivas de repulsa e desprezo que percorrem as redes socioafetivas, atingindo cotidianamente pessoas de grupos populares através de mensagens de desqualificação – as correntes sociométricas necropolíticas. Essas correntes podem operar diminuindo a capacidade de ação no mundo destas pessoas (Vieira, 2025).
A progressiva atomização da vida e a destruição do espaço de bem comum produzem desamparo e desenraizamento – e, consequentemente, ressentimento, desencanto e uma sensação de ser ninguém. A perspectiva de um mundo sem futuro gera desvinculação com a vida, busca de sobreviver com escassas possibilidades de criação, existências impotentes, produção social de tristeza. Modos de vida que podem ser facilmente capturados por orientações fundamentalistas e neoliberais. A proposta psicodramática de criação, de um ser humano que faz história, encontra bloqueios significativos nesse contexto.
O presente trabalho objetiva trazer reflexões sobre o psicodrama como um saber da margem que, em suas origens, questionou e permanece se insurgindo diante de contextos sociais que interditam as possibilidades criativas do humano. Buscamos aprofundar a ideia de ato criador fundamentados nas contribuições de Henri Bergson, tendo em vista que Moreno mais combateu a falta de criatividade do que definiu o que representa a criação.
No primeiro item, serão discutidas as potências do psicodrama como um saber à margem. Depois, buscaremos delimitar os aspectos constituintes de um ato criador: o esforço criador, a emoção criadora, um estado de abertura do corpo, um regime de percepção do mundo ampliado. A intenção é a de que a comunidade psicodramática possa vislumbrar vivências e estados que facilitem a compreensão dos elementos do ato criador. Por fim, a realidade suplementar será problematizada como espaço de criação de novas formas de estar no mundo, através dos mergulhos no imaginário de corpos em comunidade.
PSICODRAMA: POTÊNCIAS DE UM SABER DESTERRITORIALIZADO
Moreno descreve seu nascimento entre mares, em uma noite de tempestade, como um “erro honroso”, sobre e sob águas, em um navio entre continentes. Ao menos, assim escolhe contar essa história. Sem a materialidade de um registro que pudesse dizer de onde vinha, ele transita. Cria e transforma uma teoria, a partir das experiências e dos encontros vividos. Do continente das artes cênicas e da psiquiatria ao aprofundamento das relações, a socionomia também navega entre territórios, se lança a espaços incertos e abertos, errando honrosamente em se encaixar a determinados parâmetros e a permanecer imutável, orientada pela alegria intersubjetiva e política. Escolhemos também refletir e sentir a partir do movimento.
Diversos autores têm se atentado para essa característica de desencaixe da teoria psicodramática, que ora parece remeter à movimentação; ora a algo que escapa, recusa totalizações ou definições permanentes, que está entre ou acontece longe dos espaços privilegiados. Entre teatro e psicologia, entre psicologia e sociologia. Mesmo que possa ser justamente ela que implique uma marginalização no contexto dominante de ensino da Psicologia, ainda permeado por noções importadas das ciências exatas, tem sido possível refletir que o problemático seria a concepção de uma visão única. Entre a reprodução de paradigmas construídos de acordo com um modo de existir branco, masculino e europeu tomado como universal, há fissuras provocadas por perspectivas que denunciam essa monovocalidade e buscam arejamentos das possibilidades de estar no mundo (Pereira et al., 2022). Nesse sentido, falhar em atender ideais positivistas e evidenciar práticas de poder podem ser outros erros honrosos da socionomia.
Por mais que tenham sido realizadas tentativas de adequação às noções positivistas, vigentes no contexto estadunidense na década de 1920, o que Ribeiro (2023) entende como negociações para que a teoria pudesse atravessar o século, a autora observa na visão de mundo originária moreniana elementos que aproximam a epistemologia psicodramática das perspectivas decoloniais. A centralidade do corpo em ação, as emoções integradas às práticas e a abertura a sensibilidades outras para além do discurso verbal seriam outros horizontes possíveis na coconstrução de conhecimento (Ribeiro, 2023).
Talvez seria na desterritorialização que a teoria psicodramática permaneceria viva e potente, se recriando por meio da multiplicidade das práticas. Além disso, não estabelecer morada fixa nos campos da ciência moderna, que operam com base em uma compartimentalização e em atuações que buscam normatizar, institucionalizar ou gerenciar, representa uma forma de manter o que o autor entende como clandestinar. Nesse sentido, reconhecer engessamentos teóricos e propor atualizações é uma ação política que retoma e recria o compromisso social originário de combate aos sistemas de opressão de Moreno com sua revolução criadora e suas críticas à civilização da conserva. Esse compromisso também esteve presente na chegada do psicodrama no Brasil, mediada por Guerreiro Ramos no Teatro Experimental do Negro nos anos 1940 em uma implicação com o enfrentamento ao racismo (Oliveira, 2025).
Buscamos direções decoloniais, desterritorializadas, desviantes e desobedientes para pensar e sentir um psicodrama em trânsito, nas brechas, bordas, fronteiras, em espaços entre. Das grandes rodovias de mão única e velocidade acelerada, desejamos os descaminhos, estradas de terra, em que é preciso estar com o corpo em travessia para vislumbrar, por meio de outras temporalidades. Convite-provocação com espaço aberto para se mover entre os territórios conhecidos, que não busca desvendar uma verdade, mas aprofundar nas experiências a partir de uma leitura crítica e política da teoria psicodramática. O que não se apreende é o que nos interessa: o que não é domado e se transforma; erros que escapam e enfrentam a colonização, o neoliberalismo, o racismo e o patriarcado.
A desterritorialização do psicodrama nos abre possibilidades de abordarmos as políticas da criação, buscando entender melhor o ato criador para o diferenciarmos das inovações neoliberais e mercantilistas (Merengué, 2009). Compreendemos o psicodrama como um saber vitalista e o ato criador como possibilidade de fazer história através das diversas camadas que o compõem, como veremos a seguir.
POLÍTICAS DA CRIAÇÃO: ATO CRIADOR, REALIDADE SUPLEMENTAR E ALEGRIA POLÍTICA
O homem é uma corda estendida entre o animal e o Super-homem: uma corda sobre um abismo; perigosa travessia, perigoso caminhar; perigoso olhar para trás, perigoso tremer e parar... O que é de grande valor no homem é ele ser uma ponte e não um fim: o que se pode amar no homem é ele ser uma passagem e um ocaso.
— Friedrich Nietzsche, Assim falou Zaratustra
Criação e política
O que acontece (ou deixa de acontecer) quando é experimentado um estado de criação? Moreno denunciava as tentativas de padronizações sociais e a busca das pessoas em se conformarem aos padrões impostos, conservados e rígidos. Dissociar-se dos rótulos e destinos impostos seria um movimento artesanal de contar outras histórias sobre si, reflete o autor. Questionar a realidade como ela é, desimaginá-la, estaria relacionado ao que é concebido como criatividade na teoria socionômica?
Em que consiste essa noção? Como ela pode ser pensada a partir de uma perspectiva contextualizada, contemporânea e que leva em conta os contextos sociais e históricos?
Ao se esvaziarem de sua profundidade, ou congelarem no tempo histórico em que foram desenvolvidos, os conceitos do psicodrama podem consonar com as propostas neoliberais, como reflete o jargão de ser o protagonista da própria vida, fórmula que corrobora a meritocracia e hiperboliza o indivíduo. O protagonismo é uma proposta essencialmente relacional, em que uma história representa muitas outras.
Han (2018) discute que a celeridade da circulação de informações na contemporaneidade implica em perda da sua dimensão contextual e em certo achatamento: “a comunicação sofre uma aceleração quando se aplaina, isto é, quando todos os limiares, os muros e os abismos são eliminados” (Han, 2018, p. 20). Nesse sentido, ao passo que existe uma intensa repetição da necessidade de ser criativo nos meios psicodramáticos, tendo em vista a centralidade dessa proposta teórica, observamos uma certa imprecisão do que seria essa experiência.
Em sociedades hiperestimuladas que compelem à impossibilidade da pausa e nas quais se cultiva o horror ao fracasso, a aposta na criatividade individual pode ser uma solução muito conveniente para o apaziguamento de contradições produzidas socialmente, fomentando práticas acríticas. Por meio de uma leitura desconectada dos sistemas de assujeitamento, a convocação à criatividade pode favorecer individualizações do sofrimento e ocultamento de sua relação com violências estruturais, como o racismo, o patriarcado e a colonialidade, por exemplo.
Buscaremos, assim, nos aproximar do que seriam os processos criativos na atualidade, relacionando-os aos contextos brasileiro e latino-americano. Não é pretendida, contudo, uma proposta definitiva, totalizadora ou meramente descritiva. Pensamos em reflexões que indiquem direções, tangenciem, se movam, que suportem certa indeterminação, mas que abram espaço para o aprofundamento sobre como criatividade e política podem se relacionar. Nossa busca será em travessia-mar; entre as terras asseguradas, mergulharemos nas perguntas.
O ato criador e suas faces
A experiência de criar estaria relacionada ao movimento. Justamente de sua parcialidade e provisoriedade pode emergir uma contínua abertura que “instaura um novo passo nesse movimento de explicitação, superação e transformação da existência” (Naffah, 1997, p. 87). A ação e a corporeidade permeiam a concepção existencial moreniana, “pura abertura de um horizonte que se desloca a cada passo do caminho percorrido, arco íris que se desmancha quando dele nos aproximamos, mas que nos estimula a andar” (Naffah, 1997, p. 86). Esse esforço transformativo seria um ímpeto para além da repetição de enredos alienantes, ofuscamentos que compõem os estados coinconscientes (Naffah, 1997).
O mergulho nos conteúdos ambíguos e opacos do imaginário e sua concretização, entrelaçada às condições históricas e sociais da realidade percebida no palco psicodramático, possibilitariam sua revelação (Naffah, 1997). No coinconsciente social brasileiro, nas nossas vivências compartilhadas traumáticas, como a ditadura militar e a escravidão (Vieira, 2025), as tramas ideológicas produzidas socialmente buscam se ocultar e conservar as dinâmicas relacionais entre os papéis. Atravessam a corporeidade e, através dessa mesma dimensão, nas cenas, seria possível vivenciar aberturas recriadoras das existências (Naffah, 1997).
Nesse universo psicodramático, nos interessa uma compreensão mais profunda do ato criador, dos processos da criação e suas possíveis implicações políticas. A obra de Moreno seria uma continuidade do bergsonismo (Naffah, 1997). A filosofia da espontaneidade e da criatividade representa uma tradução e uma modificação criativa das ideias de Henri Bergson sobre a emoção criadora, sobre o élan vital, a duração e mesmo a visão de um mundo em constante devir.
O élan vital é a ideia bergsoniana de impulso vital como a força da vida que busca incessantemente inserir indeterminação na matéria. O mundo e a vida como um escoamento perpétuo de mudanças qualitativas. De que maneira os seres humanos podem tomar parte ou retomar a vivência de ser um fluxo e não um ser estático? Nos percebemos como uma potência que se diferencia de si mesma no tempo? Como tomar posse das mudanças qualitativas permanentes que acontecem conosco? Tudo é mudança, tudo é devir para Bergson. Vemos Moreno também propondo a concepção de um universo em permanente mudança.
A criação, na verdade, não seria uma propriedade humana, aspecto antropomórfico que colocaria o ser humano como um agente criativo, mas representa um impulso criador que seria a essência da vida. Não somos nós o centro do ato criador, mas podemos abrir espaço para a vida criar através de nós. Ou podemos retomar o impulso vital que sempre busca imprimir uma indeterminação na matéria. Bergson, assim como Moreno, teria uma compreensão de mundo vitalista. O mundo é um escoamento infinito de criação, tendo em vista que a vida pode ser vista como uma potência virtual de criação. Os seres vivos buscam se adaptar e sobreviver. Mas a vida não é só adaptação, ela busca também a criação com seu impulso inesgotável de produzir devir no mundo.
A ideia de abertura para a criação, de retomada de uma atitude espontânea e criativa no mundo, é central em toda a obra de Moreno; era mesmo uma ideia fixa moreniana a busca em popularizar a criação e tornar este processo acessível para todos. Moreno contestou o modelo burguês de que poucos poderiam criar, na busca de democratizar um processo vital. No entanto, há certas lacunas em relação à descrição do que seria o ato criador, quais seriam seus elementos constituintes: “Moreno preocupou-se mais em criticar a falta de criatividade, a passividade e a acomodação do homem moderno, do que em descrever o esforço criador” (Naffah, 1997, p. 79). Apoiados por Bergson (2006), Naffah (1997), Moreno et al. (2001) e Merengué (2009), buscamos mergulhos um pouco mais profundos, contemplando as lutas criativas do psicodrama, vislumbrando o lugar da imaginação, do corpo, da liberdade e da alegria contidos no ato criador.
Pretendemos abordar o ato criador como uma ação transformadora do mundo a partir de alguns elementos que constituem essa ação criativa. Existem ações no mundo que não são criativas, que seriam os hábitos. Posteriormente, abordaremos os hábitos como ações mecânicas adaptativas. A ação criativa pressupõe uma percepção mais ampliada por meio de uma conexão mais profunda entre sujeito e objeto, mergulho em outra temporalidade (uma temporalidade diversa da aceleração capitalista); uma abertura de uma corporeidade em ação e em uma situação; uma luta para superar a resistência da matéria (esforço criador); uma emoção criadora que busca prolongar o impulso vital criativo – surge uma nova ideia ou um novo problema que incita a pessoa a criar, resultando em uma superação de um estado ou uma autossuperação. Vamos nos deter um pouco mais em cada um destes aspectos: abertura, percepção ampliada, esforço criador, emoção criadora. Esses elementos podem produzir uma superação de um estado ou uma autossuperação de si mesmo.
Para criar, é necessária uma percepção mais ampliada como uma forma de relação com o mundo com uma atenção mais profunda, uma apreensão mais contemplativa do que reativa. Uma vivência na temporalidade, um mergulho nos objetos percebidos para contemplá-los como eles realmente são, e não como algo que possa ser útil (Bergson, 2006). O reconhecimento habitual do mundo ocorre pela necessidade de ações úteis para a nossa adaptação. Há pouca espera, pouca hesitação, pouca contemplação. A preocupação em viver, ou melhor, se adaptar à realidade, orienta nossa percepção para classificar rapidamente os objetos, etiquetar as coisas, para podermos agir sobre o mundo.
As ações estímulo-resposta são mais próximas desse tipo de abordagem da vida. Os aspectos da realidade que interessam para a ação útil são realçados. As lembranças úteis para o momento são ativadas: estímulo-resposta. Uma tensão contínua para agir e reagir no mundo, visando à adaptação e à sobrevivência. Agir o mais rápido possível. Nesse modo de ação, há pouco espaço para nos vermos com um fluxo, ficamos reduzidos às conservas culturais da realidade. As conservas culturais seriam os resultados de processos outrora criadores. Não possuem valoração negativa intrínseca, mas Moreno observou uma supervalorização desses resultados, em detrimento dos processos de criação.
Outro tipo de percepção do mundo seria o reconhecimento atento das imagens. Vejamos o que diz Bergson (2006, p. 155):
Como pedir aos olhos do corpo ou aos do espírito que vejam mais do que aquilo que veem? […] Com efeito, há séculos que surgem homens cuja função é justamente a de ver e de nos fazer ver o que não percebemos naturalmente. São os artistas.
Suspendemos a ação utilitária, adiando as reações, buscando ter uma atenção sobre as coisas observadas; vendo como os artistas, percebendo os objetos por si mesmos, e não visando uma utilidade.
Quando percebemos os objetos a partir de uma necessidade prática, somente os aspectos desses objetos que servem a esta necessidade serão percebidos. Perceber de forma utilitária seria fazer um recorte da realidade, perceber menos a realidade. Perceber como os artistas significa contemplar mais, cultivar uma paciência e buscar uma percepção mais rica do mundo. Neste outro trecho, Bergson continua falando do artista como alguém que consegue se desvencilhar das necessidades práticas:
Notemos que o artista sempre passou por um “idealista”. Por que consegue ele, sendo mais desprendido da realidade, ver nela mais coisas? […] De fato, não seria difícil mostrar que, quanto mais estamos preocupados em viver, tanto menos estamos inclinados a contemplar, e que as necessidades da ação tendem a limitar o campo da visão
(Bergson, 2006, p. 156).
As necessidades de adaptação e sobrevivência nos colocam a exigência de recortar a realidade, com a perda de uma visão mais panorâmica e contemplativa do mundo. Uma percepção que isola da realidade aquilo que interessa, classifica os objetos rapidamente. Nos artistas, por outro lado, percebemos uma visão mais direta da realidade. Para Bergson (2006), a tarefa da filosofia seria a de produzir um deslocamento da nossa atenção para que alcancemos uma percepção mais ampliada da realidade. De forma semelhante a Moreno, Bergson pretendia que essa percepção mais completa da realidade não fosse privilégio de alguns, mas que pudesse ser mais disseminada entre as pessoas. Tal era a tarefa do filósofo. Moreno também buscava a popularização do processo criativo, conforme já dito.
O esforço criador é outro aspecto importante do ato criador. Para a superação de um estado, é necessário um esforço de invenção e de criação como uma luta para lidar com a resistência da matéria. O élan vital como o impulso criador da vida busca superar a resistência bruta da matéria para inserir cada vez mais indeterminação na vida.
Desde as primeiras formas de vida que carregavam uma imensa simplicidade até o ser humano como uma forma complexa de vida, o impulso criador percorreu estradas, enfrentou obstáculos, muros e foi abrindo caminho para fazer florescer o sopro da vida que busca se expandir infinitamente. A força vital enfrenta o atrito da matéria para produzir mais formas de vida, nunca contente com moldes, com movimentos de conservação e de cristalização.
A vida quer criar, busca inserir mais indeterminação na matéria. A criação e a novidade são a essência da vida. A vida é criação incessante do novo. Nós seríamos apenas veículos para a vida se intensificar; quando criamos algo, somos vias para a vida se superar. Essa abertura é realizada por meio da ampliação da percepção de si e do mundo e do esforço criador. Criar, portanto, pressupõe luta, angústia, paciência e persistência na demora em viver e pensar em algum problema. Não seria algo da ordem da inspiração, mas do esforço empregado na superação da resistência de uma ordem conservada. Colocar movimento na conserva, restaurar o fluxo onde antes estava a cristalização, é algo que demanda esforço, contemplação, permanência na tarefa. Tal permanência duradoura é bastante desestimulada no contexto neoliberal atual.
O esforço criador é colorido afetivamente pela emoção criadora. Sem esta, seria um movimento mecânico, não orgânico. Não basta somente o reconhecimento atento e o esforço criador. A emoção criadora seria um estado que nos incita a materializar, a concretizar uma nova ideia; ela expande a nossa intuição da duração em nós mesmos, ou seja, nos coloca em contato com o fluxo que somos nós, mudanças qualitativas ininterruptas. Eu me percebo como fluxo. Tomado pela emoção criadora, busco intensificar o impulso criador (élan vital) da vida em mim. A necessidade de criação, de expressar uma ideia nova, uma emoção nova, talvez algo novo que está nascendo ainda sem forma, mas que me impele a criar. Como já foi dito, nós não somos a fonte da criação, mas abrimos espaço para esse impulso da vida.
O ato criador traz consigo a possibilidade de experimentarmos uma liberdade superior. A liberdade como posse de nós mesmos como potência de criação, como fluxos que mudam qualitativamente o tempo todo. A ordem vigente propõe a busca incessante do prazer, roubando nosso tempo e nossas experiências contemplativas. A alegria surge a partir da liberdade superior na retomada de nós mesmos na duração – escoamento infinito de mudanças qualitativas. A alegria de fazer parte do impulso criador da vida, entusiasmo por expandir o élan vital. Contraponto a um desejo conservador de prazer, de estabilidade e bem-estar.
A necessidade de conservação no capitalismo coloniza o ato criador. A arte se torna massificada, deixando de ter um potencial revolucionário. O que se cria não parte de uma emoção criadora, mas são rearranjos do que já existe. Seriam mais inovações do que criação, no sentido de que, como pontua Merengué (2009), se no tempo de Moreno o padrão se relacionava à manutenção, atualmente a mudança constante e desenfreada e a descartabilidade parecem ditar as relações e moldar subjetividades.
O desejo revolucionário aparece como uma aliança com o impulso criador que quer progresso e expansão. A pessoa não quer o poder, a autoridade, mas busca se diferenciar de si mesma e se ligar com as forças criadoras da vida. A alegria seria um estado com um potencial político disruptivo, pois a pessoa se experimenta como uma potência em fluxo, que se diferencia de si mesma e busca ligações com outras potências. Acolhe criações parciais, contingentes, temporárias, em um movimento constante de desterritorialização. Não adora suas conservas e suas criações, mas se mantém em movimento.
As políticas da criação da realidade suplementar
O estado de criação experimentado de forma coletiva pode contribuir com a desnaturalização das estratificações sociais, tidas como imutáveis. Assim, a criatividade se apresenta como percepção daquilo “que faz da existência uma ‘possibilidade de se constituir a si própria’” (Naffah, 1997, p. 89). O movimento criador desmantela a ilusão da imutabilidade, desloca a percepção da realidade como é, para uma realidade que está sendo – portanto, permeável à sua reinvenção.
As ordens hegemônicas buscam sustentar suas repetições. Atualizam-se mantendo as condições de subalternização e extermínio de pessoas negras, LGBTQIAPN+, povos indígenas, populações tradicionais, periféricas, mulheres, com deficiência – o que ressalta a importância de uma leitura crítica e atenta dos atravessamentos sociais e históricos para não homogeneizar experiências desiguais (Vomero & Nery, 2023). Nesse contexto de crise civilizatória é fomentado um certo desencanto, sempre será assim, o fim do mundo como destino em virtude da exploração e do esgotamento do planeta, da terra, dos seres e das águas, enquanto genocídios são televisionados, seja na Faixa de Gaza ou no Rio de Janeiro. Se a criatividade se relaciona a uma ação que lança à existência e à possibilidade de constituí-la, o psicodrama pode se configurar como uma tecnologia criativa que busca viabilizar esse processo atualmente? Como a imaginação e a realidade suplementar se relacionam com a criação? A contemplação e a imaginação podem ser ações que produzem aberturas e atualizações das relações com o mundo?
Zerka Moreno comenta que a realidade suplementar representa uma experiência ampliada, em parte desconhecida (Moreno et al., 2001). Consiste em uma realidade cósmica, não delimitada pelo tempo e pelo espaço, em que construções rígidas podem desmoronar e o impensável se torna plausível (Moreno et al., 2001). Viver o não vivido, concretizar o impossível “permite que acessemos a coragem para nos encontrarmos com águas internas outrora barradas pelas normas regulatórias, transforma um corpo-não-rio em corpo-vivo” (Vomero, 2024, p. 49). Seria a realidade suplementar um (não) lugar do desencaixe, do descaminho, do desvio? Talvez certa indeterminação conceitual expresse sua amplitude. Talvez a amplitude expresse essa realidade excedente como horizonte utópico que foge a cada aproximação, cuja caminhada é movida pela ação criadora. Aquilo que não é, pode passar a ser.
Segundo Moreno et al. (2001), a realidade suplementar pode ser habitada, compartilhada, e Moreno convidava as pessoas a levarem seus mundos para o palco, “achava que a realidade suplementar está ‘aí fora’, deve ser concretizada e especificada e devolvida ao centro do protagonista, onde tem significado e propósito” (Moreno et al., 2001, p. 46). Segundo Vasconcelos et al. (2023), clínica, política e arte com as linhas fluidas da realidade suplementar. Essa dimensão, enriquecida pela imaginação, não só inaugura e acende outros mundos, mas incendeia a realidade como ela é. No entanto, “a imaginação, coisa de criança, é eliminada no conhecimento como irreal, sendo entendida como faculdade de inteligência inferior à razão [...] a imaginação e a experiência de abertura de mundos tendem a ser desvalorizadas” (Vasconcelos et al., 2023, p. 7).
Dessa forma, as possibilidades de vislumbre, de imaginação, de reconhecimento da existência como aberta à recriação da realidade social podem ficar capturadas pela realidade como ela é. Se pensamos em uma realidade ampliada, quais seriam os mecanismos que buscam estreitá-la de acordo com a realidade vivida? Ainda, refletindo sobre o paralelo entre a mais-realidade e a mais-valia marxista, também seria essa dimensão explorada e esvaziada, empobrecida pelas dinâmicas históricas de privilégios e exploração no contexto brasileiro e latino-americano?
Ao conceber a criação como movimento encarnado no corpo, abertura humana de rever a relação com o mundo, Moreno a entende como acessível a todas as pessoas (Naffah, 1997). O psicodrama pode ser entendido como um saber que se orienta a partir dessa premissa ampla, democrática e popular, ainda que os sistemas de opressão possam minar as possibilidades de criação de si e de outros mundos – o que é experimentado em realidade suplementar pode enriquecer a realidade vivida. Caminhos desviantes e desencaixados percorridos nas cenas podem constituir encontros “em que o impossível faz morada, em que coabita aquilo que nos é mais caro e, talvez, ainda não capturado pela lógica neoliberal” (Vomero & Malaquias, 2025, p. 2).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Qual o lugar do psicodrama em um mundo sem futuro? Qual o papel das(os) psicodramatistas diante de um mundo em decomposição? O psicodrama, como saber sensível, que aposta na coletividade e nas potências de ação transformadoras, pode ser um saber contra-hegemônico que contribua de alguma forma para produzir resistências criativas no mundo neoliberal? Um psicodrama rebelde e insurgente, errante e nômade, situado entre territórios e marginal para andar nos destroços. Rebelde como contraposição à produção de subjetividade do capitalismo, buscando brechas e desvios.
Em tempos de ascensão da extrema direita, do entorpecimento das consciências e do rebaixamento do pensamento efetuados pelo neoliberalismo e pela colonização dos imaginários, como escapar à domesticação e ao controle? Percebemos a necessidade de espaços de sensibilidade poética, de instauração de outros olhares sensíveis para a vida. Possibilidades de instaurar outras temporalidades artesanais; do cultivo da imaginação e da realidade suplementar como potências criativas que produzem outros mundos, e de políticas de reencantamento da vida em meio ao deserto do real.
Qual o papel do psicodrama, das artes, da filosofia, do espectro progressista que aposta nas forças da vida e da partilha, nesse mundo apocalíptico? O modo de vida atual precisa morrer, um mundo precisa acabar. Parece necessária a radicalização das potencialidades revolucionárias do psicodrama. A noção de fluxo e movimento como posicionalidade que busca escapar da civilização da conserva, tecer encontros e possibilidades de produção de vida diante de uma ordem vigente conservadora e autoritária.
O movimento contido no ato criador pode ser uma importante resistência diante da ordem violenta e desumanizadora, máquina de comer corpos e sugar almas que tentam paralisar fluxos de vida. Ondas necropolíticas que dão origem ao mal-estar difuso nas experiências de desencontros de desamor e de morte lenta da solidariedade social. Estamos na busca do horizonte utópico que foge a cada aproximação, em que o psicodrama pode ser um espaço, assim como a arte, de tessitura do coletivo, de criação de novas poéticas sobre a existência.
Por fim, a socionomia apresenta concepções inovadoras que transgridem binarismos tradicionais: entre teoria e prática, corpo e racionalidade, emoções e conhecimento. O saber criado por Moreno foi tecido a partir de seus trabalhos e não dissociado deles. Colaborar com a construção e com a atualização da teoria não é um movimento apartado da prática, pelo contrário: buscamos que as proposições sobre a criatividade possam contribuir com a atuação dos psicodramatistas.
A concepção existencial moreniana está profundamente vinculada à teoria da espontaneidade e criatividade, de forma que os métodos de ação derivam dessa perspectiva. Dessa maneira, entendemos que propostas teóricas se conectam intimamente às práticas: o contorno conceitual possibilita que o psicodramatista possa localizar o que (não) está sendo experienciado em seus trabalhos. Evita capturas e esvaziamentos dos conceitos. O movimento contrário também acontece: os fazeres revelam necessidades de alargamento teórico. Teoria e prática se complementam e se retroalimentam, em um fluxo situado.
AGRADECIMENTOS
Não se aplica.
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DECLARAÇÃO DE USO DE FERRAMENTAS DE INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL
Os autores declaram que nenhuma ferramenta de inteligência artificial foi usada na preparação, redação, análise de dados ou revisão deste manuscrito.
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FINANCIAMENTO
Não se aplica.
DISPONIBILIDADE DE DADOS DE PESQUISA
Não se aplica.
REFERÊNCIAS
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Editora de seção:
Luzia Lima-Rodrigues https://orcid.org/0000-0003-2021-9467
