Cuidado infantil na relação entre adultos e crianças na periferia de salvador

Child care in the relationship between adults and children on the outskirts of salvador

Resumos

Realizamos um estudo etnográfico sobre o cuidado infantil no cotidiano familiar de moradores de um bairro popular de Salvador, visando integrar preocupações da psicologia com a discussão antropológica sobre pessoa. Utilizamos observação participante e entrevistas. Tomando como ponto de partida as reflexões de Ayres, defendemos que o cuidado envolve construção permanente de projetos de pessoa em um marco de relações de poder. Como resultados da pesquisa, identificamos a centralidade do trabalho cotidiano com o corpo para alcançar o objetivo de ter uma criança educada e com a natureza dominada, preocupações que são centrais na construção da pessoa. Defendemos a importância de pensar na construção social da pessoa para fortalecer uma agenda de pesquisa em psicologia que contemple a diversidade cultural.

cuidado; crianças; pessoa; parentesco


We conducted an ethnographic study on the construction of child care in everyday family living in a poor neighborhood of Salvador, seeking to integrate concerns of psychology with the anthropological discussion about person. We used participant observation and interviews. Taking as starting point the reflections of Ayres, we argue that care involves ongoing construction of projects of person in a framework of power relations. The research results identified the centrality of the daily work with the body to achieve the goal of having an educated and nature dominated child, and these concerns are central to the construction of the person. We advocate the importance of thinking in the social construction of the person - including contributions from anthropological research - to build a research agenda in psychology that addresses cultural diversity.

care; children; person; kinship


Cuidado infantil na relação entre adultos e crianças na periferia de salvador* * Agradecimentos ao Departamento de Antropologia da London School of Economics, especialmente à Professora Olívia Harris (in memoriam) por ter oferecido o espaço que facilitou o trabalho de pesquisa da primeira autora. Ao CNPq pela bolsa de Doutorado Sanduíche no Exterior e à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado da Bahia (FAPESB) pela bolsa de pós doutorado, ambas recebidas por Vania Bustamante. Aos Professores Estela Aquino, José Ricardo Ayres, Miriam Rabello, e Parry Scott pelos valiosos comentários durante a defesa da tese de doutorado que deu origem ao presente artigo.

Child care in the relationship between adults and children on the outskirts of salvador

Vania Bustamante e Cecilia McCallum

Universidade Federal da Bahia, Salvador, Brasil

RESUMO

Realizamos um estudo etnográfico sobre o cuidado infantil no cotidiano familiar de moradores de um bairro popular de Salvador, visando integrar preocupações da psicologia com a discussão antropológica sobre pessoa. Utilizamos observação participante e entrevistas. Tomando como ponto de partida as reflexões de Ayres, defendemos que o cuidado envolve construção permanente de projetos de pessoa em um marco de relações de poder. Como resultados da pesquisa, identificamos a centralidade do trabalho cotidiano com o corpo para alcançar o objetivo de ter uma criança educada e com a natureza dominada, preocupações que são centrais na construção da pessoa. Defendemos a importância de pensar na construção social da pessoa para fortalecer uma agenda de pesquisa em psicologia que contemple a diversidade cultural.

Palavras-chave: cuidado; crianças; pessoa; parentesco.

ABSTRACT

We conducted an ethnographic study on the construction of child care in everyday family living in a poor neighborhood of Salvador, seeking to integrate concerns of psychology with the anthropological discussion about person. We used participant observation and interviews. Taking as starting point the reflections of Ayres, we argue that care involves ongoing construction of projects of person in a framework of power relations. The research results identified the centrality of the daily work with the body to achieve the goal of having an educated and nature dominated child, and these concerns are central to the construction of the person. We advocate the importance of thinking in the social construction of the person - including contributions from anthropological research - to build a research agenda in psychology that addresses cultural diversity.

Keywords: care, children; person; kinship

Introdução

Neste artigo refletimos em torno da pergunta: Como se dá o cuidado infantil no ambiente familiar entre moradores de um bairro popular de Salvador? Esta questão é trabalhada a partir de uma abordagem etnográfica que se caracteriza por analisar o que é considerado dado – "taken for granted" - buscando entender processos coletivos tal como se apresentam em relações cotidianas entre pessoas particulares (Toren, 1997).

A análise aqui apresentada faz parte de uma pesquisa mais ampla, realizada no âmbito da Saúde Coletiva, sobre o cuidado infantil dentro de um bairro popular de Salvador, incluindo familiares das crianças e profissionais das áreas de saúde e educação. Em tal estudo, dialogamos com a literatura sobre o cuidado nas áreas de saúde e educação e com a discussão antropológica sobre pessoa.

A forma em que abordamos o cuidado está inspirada em Ayres (2001, 2004a, 2004b, 2009). Para esse autor, a categoria "cuidado" pode ser pensada em vários sentidos: ontológico, que remete a Heidegger; genealógico, em relação ao cuidado de si, identificado por Foucault; crítico - porque chama a atenção sobre a falta de atenção nas pessoas que predomina nas tecnologias de saúde - e reconstrutivo porque propõe incluir uma preocupação com o cuidado nas praticas que já existem. Aqui enfatizaremos a reflexão sobre o cuidado em relação com as práticas de saúde. Nesse sentido, Ayres (2009) destaca que o cuidado envolve uma preocupação com os projetos de felicidade das pessoas que são atendidas nos serviços de saúde. Assim:

Encontrando suas ressonâncias profundas nas suas dimensões ontológico-existenciais, é preciso que o cuidado em saúde considere e participe da construção de projetos humanos ... Então é forçoso, quando cuidamos, saber qual é o projeto de felicidade, isto é, que concepção de vida bem sucedida orienta os projetos existenciais dos sujeitos a quem prestamos assistência (Ayres, 2009, p 18).

Segundo o autor, a ideia de "projeto de felicidade" como um horizonte normativo implicado na noção de cuidado, permite aos profissionais compreender o que as pessoas estão buscando nas capacidades instrumentais dos mesmos e permite que as pessoas compreendam o que os profissionais podem oferecer a elas. Por outro lado, Ayres (2009) explica que felicidade não se refere à ideia do senso comum. Trata-se de uma ideia reguladora que orienta nossas decisões, mostrando que estamos nos movendo conforme nossos projetos. É uma ideia contrafática e assintônica, na medida em que nunca se atinge a experiência mais abrangente de felicidade.

Nesta pesquisa, consideramos fundamental entender cuidado como construção de projetos. Nesse sentido, mostramos através da análise etnográfica que, para os sujeitos, o cuidado infantil envolve necessariamente um trabalho centrado na pessoa, tal como Thomas (1993) argumenta. Este trabalho toma a forma de construção de projetos, o que envolve articulações e também diferenças com a perspectiva de Ayres, pois, enquanto esse autor enfatiza o olhar sobre o cuidado na esfera intersubjetiva, nesta pesquisa mostramos que o mesmo é construído cultural e socialmente em relações de poder estruturadas. Os aspectos sócio-históricos do cuidado destacados por Carvalho (1999) e outros autores que trabalham numa perspectiva feminista (Scavone, 2005) são centrais no conceito que aqui se propõe. Assim, argumentamos que o cuidado pode ser pensado como a construção de projetos de pessoa que se expressam em práticas cotidianas, num marco de relações de poder entre agentes em posições sociais diferentes.

Os projetos de pessoa podem estar relacionados com múltiplos interesses - não apenas a preocupação com o sucesso prático - de cuidadores ocupando distintas posições dentro do espaço social, tal como proposto por Bourdieu (1996). Seguindo o conceito de projeto de Rabelo (1999), que se apoia em Schutz e Merleau Ponty, defendemos que os projetos não envolvem apenas uma construção mental ou discursiva. Os projetos podem ter expressão corporal, sem passar pelo plano das representações mentais, e pode ainda haver projetos concorrentes numa mesma situação. Com base nas contribuições de Rabelo e a partir da discussão antropológica sobre a construção social da pessoa, consideramos que o cuidado, e com ele a pessoa, são construídos permanentemente na forma de projetos que nem sempre são explicitados discursivamente. Essa conceituação envolve uma crítica à tendência a universalizar o significado do cuidado e, ao mesmo tempo, a proposta de ampliar essa noção, ao mostrar que o cuidado é construído cotidianamente não apenas como preocupação com a felicidade ou o bem estar.

Para entender as práticas e conceitos que compõem o cuidado para as pessoas do contexto pesquisado, é necessário entender a noção de pessoa que está em jogo. Defendemos que a pessoa é construída permanentemente e que não existe uma entidade biológica anterior a sua existência social (Pina Cabral, 2007a). Criticamos o pressuposto presente em grande parte dos estudos sobre família no Brasil, inspirados na obra de DaMatta (1991), de que nas classes populares predomina o holismo e os interesses do grupo predominam diante dos interesses do indivíduo (Heilborn, 1997; Sarti, 2003), diferentemente das classes médias, em que o individualismo é central (Velho, 1981). Ao contrário do que defendem os referidos autores, aqui mostramos que a individuação é um valor muito importante - assim como descreve Pina Cabral (2007b) em referencia ao baixo sul da Bahia – e que coexiste com processos relacionais. Vários estudos descrevem diversas formas de construção da singularidade individual. Por exemplo, Viegas (2008) analisa o lugar dos nomes no processo de individuação de índios tupinambá que moram no sul da Bahia.

Neste estudo, focalizamos na importância do trabalho com a materialidade do corpo e dos objetos no processo de individuação. Como mostramos nos resultados, isso envolve dar ao corpo da criança uma forma material que se considera adequada. Com isso pretendemos mostrar a maneira em que a materialidade - ou seja, a concretude das pessoas e dos objetos - é constituinte das relações sociais (Pina Cabral, 2005) e destacar a importância de incluí-la nas análises que envolvem também processos discursivos. Assim, buscamos analisar práticas que se dão cotidianamente – por exemplo, rotinas de higiene e arrumação de crianças - junto com as falas que os informantes produzem em torno das mesmas.

Distintamente de trabalhos anteriores (Bustamante, 2005; Bustamante & Trad, 2005, 2007), em que procuramos descrever os cuidados que as crianças recebem com base na categoria pré-construída "modos de cuidar", no presente trabalho organizamos a análise a partir dos dados etnográficos. Através da descrição do cotidiano familiar, mostramos que o cuidado acontece em interações que envolvem a totalidade da pessoa, onde identificar um aspecto que está sendo cuidado é apenas um artifício de pesquisa.

Com este estudo buscamos contribuir para um diálogo entre psicologia e antropologia que favoreça a construção de uma psicologia que contemple a diversidade cultural. Nesse sentido, consideramos que "O desenvolvimento de uma psicologia ética no Brasil supõe o enfrentamento dos desafios de uma agenda própria" (Silva, 2003, p.95), onde é preciso identificar questões cruciais e poder transformá-las em objeto de investigação, visando produzir um conhecimento que contribui para uma melhor compreensão da nossa realidade social. Para trabalhar nessa direção, Silva (2003) chama a atenção sobre a necessidade de repensar o conceito de pessoa presente na psicologia e as ciências sociais:

Reconhecer que as nossas ciências sociais se encontram comprometidas, até certo ponto, aprioristicamente, com alguns pressupostos que identificam naquela concepção particular de "Pessoa" formatada sob o signo do individuo moderno, um universal, é abrir possibilidades para sua relativização e para o acesso às particularidades e singularidades culturais que se produzem na nossa cultura (p.106).

O presente trabalho contribui para a discussão apontada por Silva ao mostrar como acontece a construção social da pessoa em um contexto cultural específico. Por outro lado situamos este trabalho em sintonia a com preocupação expressa por Bastos (2001) com compreender contextos de desenvolvimento disponíveis para a criança brasileira "e de compreender essa realidade a partir dela própria, mais do que pelo confronto com parâmetros externos, muitas vezes espúrios, de avaliação e comparação" (p. 26).

Método

A análise que desenvolvemos aqui se deu com base em três anos de trabalho de campo – entre 2003 e 2006 – com moradores e profissionais de um bairro de baixa renda de Salvador. A escolha do bairro esteve ligada ao contato com técnicos da Secretaria Municipal de Saúde de Salvador que o indicaram por tratar-se de um típico bairro popular, de fácil acesso e que era atendido pelo Programa de Saúde da Família. O trabalho de campo foi realizado principalmente pela primeira autora, por isso em algumas referencias ao mesmo utilizamos a primeira pessoa. Adicionalmente, fazemos algumas referências às notas de campo de Lílian Ferreira, quem atuo como assistente de pesquisa e realizou observação participante centrada nas crianças.

Argumenta-se aqui que a etnografia é algo além de um texto literário em que o etnógrafo mostra ao leitor que de fato "esteve lá" (Geertz, 1989). Dois são os critérios que consideramos fundamentais para pensar sobre a validade das interpretações etnográficas. Por um lado, tal como defende Jackson (1996), a credibilidade do discurso não é decidida pelos fatos falando por si mesmos, mas pela forma em que os fatos e os dados são organizados numa narrativa. Por outro lado, as interpretações devem ser construídas a partir do partilhar de um mundo comum com os pesquisados, tal como destaca Pina Cabral (2005).

Assim como Wolf (1983, citado por Jackson, 1996, p. 43), aqui a etnografia é tida como um trabalho realista motivado "por uma sensação urgente de registrar e testemunhar experiências humanas que 'falam' para nós, sem superficialidade, sobre coisas que importam" (tradução nossa). Desse modo, a etnografia é muito mais do que um tipo de escrita, sendo a melhor forma de entender e mostrar como vivem e como se relacionam pessoas de diferentes grupos.

Para Toren (1997), a observação participante é o método mais característico da abordagem etnográfica e envolve ser ao mesmo tempo um participante e um observador que questiona sua própria participação e a dos outros em eventos ordinários, de maneira que nada do que é dito é considerado irrelevante. Segundo a autora, a análise etnográfica não pretende basear-se em amostras representativas, em contrapartida o desafio é saber o máximo possível sobre as pessoas cujas ideias e comportamentos são objeto de análise, e para isso é importante fazer entrevistas em profundidade com alguns informantes.

A coleta de dados envolveu observação participante e entrevistas, principalmente com membros de sete unidades domiciliares, inclusive crianças. Os critérios de escolha dos participantes responderam aos objetivos de pesquisa e também aos desafios práticos ligados com realizar pesquisa em um bairro de periferia. Assim, os participantes foram escolhidos considerando a conveniência da localização de suas moradias, assim como a afinidade com as pesquisadoras. Por outro lado, procuramos escolher famílias diferentes entre si e no seu conjunto típicas da realidade local.

A análise aconteceu em todos os momentos da pesquisa e caminhou junto com o processo de escrita (Becker, 1994). As entrevistas e as notas de campo foram transcritas, lidas e organizadas em pastas seguindo a sequência temporal. As primeiras leituras do material foram gerais, tendo como objetivo pensar sobre o tema da tese, identificando pontos importantes. Um segundo tipo de leitura se seguiu, envolvendo a identificação de temas importantes, seleção de trechos relacionados e a criação de novos arquivos. Novas leituras do material selecionado – e às vezes retorno ao material original – foram acontecendo conforme construíamos os argumentos de pesquisa. Esse processo aconteceu junto com as reuniões de orientação e a revisão de leitura. Olhares mais aprofundados sobre o mesmo material se foram construindo a partir desse processo. Alguns achados importantes se deram após novas leituras das mesmas notas.

No presente artigo focalizamos em como se da o cuidado no ambiente familiar e para isso organizamos a análise em dois grandes temas: 1) O parentesco como espaço de construção do cuidado infantil e 2) Os aspectos constitutivos do cuidado no cotidiano familiar.

O projeto de pesquisa que deu origem a este artigo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Instituto de Saúde Coletiva da UFBA.

Resultados e discussão

Relações de parentesco e o cotidiano do cuidado infantil

Prainha é um bairro localizado no subúrbio ferroviário de Salvador que possui características comuns a outros populares: serviços insuficientes, infraestrutura urbana precária, algumas ruas sem asfalto, carência de espaços verdes e de lazer, presença de casas "em construção", entre outras. Os moradores têm baixo nível de escolaridade e de renda. Alternam períodos de emprego e desemprego. Entre os homens, os empregos mais comuns são: segurança e serviços gerais; entre as mulheres, vendas e serviço doméstico. Os relatos sobre episódios de violência são frequentes, incluindo violência doméstica, brigas entre vizinhos e violência perpetrada pela polícia. Contudo, há crescente presença de instituições – unidades de saúde da família, escolas, creches, posto de policia - e de programas sociais.

Os parentes – de "sangue" ou de "consideração" - são os principais cuidadores de crianças, alguns convivem com a criança na mesma casa ou na mesma configuração de casas (Bustamante, 2009), outros podem não conviver, mas mantêm contato frequente. Aqui os parentes são denominados cuidadores internos. Por outro lado, consideramos cuidadores externos os profissionais com estudos de nível médio ou superior, que na sua maioria não moram no bairro. Chamamos cuidadores intermédios a pessoas que trabalham com crianças - geralmente mulheres com escasso preparo formal e condições de trabalho precárias -, que frequentemente moram no bairro e que, em alguns aspectos, se identificam com os cuidadores internos e, em outros, com os externos.

A análise que apresentamos a seguir focaliza nas relações de parentesco que envolvem crianças. A autoridade marca as relações entre adultos e crianças, e isso envolve não só os pais, mas os parentes. Às vezes predominam as relações estreitas entre pais e filhos, outras vezes são mais fortes as relações com parentes. Por outro lado, em todos os casos as crianças são ativas na construção de relações de parentesco. A seguir, comparamos o cotidiano de crianças que moram em um arranjo familiar nuclear com outras que convivem com um grupo mais amplo de parentes.

O casal Paula1 1 Para proteger a privacidade dos informantes, este e todos os outros os nomes utilizados aqui são fictícios. e Ed coloca ênfase na própria relação com os dois filhos (Sandra e Jorge) enquanto a relação com parentes é secundária e controlada. No domicílio de Alícia, as crianças têm relações próximas com vários adultos consanguíneos e parentes de consideração, Alícia como mãe é uma figura central na vida dos seus filhos (Bianca, Rique, Anderson e Danielle), mas ela não controla as relações deles com parentes. No entanto, em que pesem as diferenças, nos dois casos as crianças são construtoras ativas das suas relações com adultos e outras crianças.

Paula e Ed acompanham o dia a dia dos filhos, especialmente Paula, que passa mais tempo em casa. Sandra e Jorge pedem autorização aos pais para descer à casa da tia, brincar na rua, ir à casa de outros tios que moram na mesma rua. Costumam brincar com o primo Marcos dentro de casa, e raramente com crianças da rua. As interações com parentes são frequentes, mas esses têm pouca autoridade sobre eles.

Alícia mora com os quatro filhos em uma casa construída na laje da casa da mãe. Ela e os parentes consanguíneos são os principais cuidadores dos filhos dela. Esses parentes dão afeto e têm autoridade. Inclusive têm autoridade para usar o castigo físico quando as crianças cometem faltas ou são desobedientes. Alícia pode estar presente ou não. Quando ela não está, os parentes – especialmente a mãe e os irmãos, que moram na mesma configuração de casas – "olham" as crianças, o que envolve "dar comida", acompanhar o que eles estão fazendo, corrigir o comportamento, entre outras coisas.

O pai de Rique (7 anos) e Anderson (5) mora em Prainha, a mais ou menos 300 metros da casa de Alícia, na casa da mãe, no entanto, ele tem pouco contato com os filhos. O escasso interesse mostrado pelo pai não deve ser associado com sofrimento ou precariedade econômica. É importante notar que essa situação demanda uma postura mais ativa por parte das crianças, o que pode relacionar-se com a habilidade de Rique e Anderson para construir relações de parentesco e amizade. Ambos têm relações com muitos parentes de consideração dentro do bairro. Os vizinhos gostam muito de Rique e vários já tentaram incluí-lo na própria família. Nesse sentido, a avó de Rique relatou "Todo mundo gosta dele. As pessoas aqui pedem para dar ele, mas eu não quero dar".

Alícia, a mãe dela e outros parentes concordam em não querer "dar" Rique, apesar de todos terem uma situação econômica muito precária. No entanto, isso não impede que Rique construa relações com vários amigos e parentes. Dentre essas relações é especial o vínculo com o "avô de consideração", que começou quando Rique tinha 4 anos.

Embora tivesse a presença cotidiana dos pais biológicos, também Sandra (7) reivindicava a possibilidade de ter parentes de "consideração". Um dia Lílian conversou com Sandra e outras duas meninas, todas de aproximadamente sete anos (Vanessa e Daniela eram primas e viviam na mesma casa):

Vanessa falou que tem três mães, uma que é a de verdade, outra que é uma tia e outra que também é tia. Sandra então falou que também tem três mães, e então indaguei: "Você tem três mães?!". Ela disse que sim, que tinha a mãe dela, Paula, a tia dela, que às vezes ela chama de mãe, e a avó. Não senti tanta firmeza, achei que ela falou isso só para ter três mães como a colega. (Notas de campo de Lílian)

Os parentes de consideração são importantes no cuidado, ainda que nem sempre tenham um envolvimento direto com as atividades cotidianas das crianças. Nessa relação há uma troca que está permeada por um mútuo reconhecimento, onde duas pessoas se gostam, são importantes uma para a outra. A consideração também permite a construção de relações que oferecem afeto para as crianças – ou reconhecimento, no sentido proposto por Dalsgaard (2006), ao sentir-se importante para alguém –, algo que em Prainha se relaciona com "dar amor" – o que envolve manifestar afeto em forma material através de beijos e abraços – e com "dar as coisas", e ambas são formas de cuidar. Nesse sentido, Anderson sente que o pai não gosta dele, mas sabe que outros parentes gostam e que alguns deles "dão as coisas", algo que o pai raramente faz. Assim, a existência material da criança inclui ter "as coisas", ou seja, objetos necessários para tomar sua forma corporal adequada.

O cuidado não se restringe a uma relação entre adultos e crianças. As crianças se cuidam entre si e também cuidam dos adultos. Por exemplo, meninas mais velhas realizam tarefas dentro da casa, algumas das quais envolvem cuidar de outras crianças. Tanto Bianca (9) quanto Sandra (7) assumem mais responsabilidades que os irmãos, dado que são meninas e filhas mais velhas. Ambas ajudam os adultos na arrumação e limpeza da casa, às vezes lavam roupas ou louça e participam do preparo de alimentos. No entanto, há importantes diferenças entre as duas. Enquanto Sandra tem responsabilidades pré-estabelecidas, que fazem parte da sua rotina diária, Bianca é constantemente demandada e frequentemente cabe a ela cuidar dos irmãos mais novos, especialmente da pequena Danielle.

Sandra tem uma rotina que é acompanhada pelos pais. Eles pensam que assim ela aprende coisas úteis e se torna mais responsável. Em 2006, Sandra estudava de manhã e, à tarde, ficava em casa sozinha enquanto a mãe trabalhava, fazendo atividades tais como tomar banho, fazer o dever, lavar louça, varrer o tapete, forrar a cama. No caso de Bianca, é mais claro que sua participação nas atividades cotidianas é de grande ajuda para Alícia e seus parentes. Por outro lado, as demandas que se fazem a Bianca são mais intensas e constantes, e isso está relacionado com como é o cotidiano na casa de Alícia: o controle sobre as crianças está distribuído entre vários parentes, ao contrário do que acontece com Paula e Ed.

Acompanhei o desacordo entre Alícia e a irmã Lucineide em relação com a forma em que ambas consideravam que Bianca devia ser tratada. Um dia Lucineide contou que Alícia tinha saído de manhã, apesar de estar no seu dia de folga, e quem terminava arcando com a responsabilidade dos meninos era Bianca. Que, apesar de ela "dar uma olhada", não é a mesma coisa, porque ela tem que cuidar do próprio filho. Disse ainda que quem coloca a comida e fala para tomar banho é Bianca também. Em outra ocasião Alícia relatou que estava tendo problemas com a irmã e com a mãe. Lucineide fala mal dela para Bianca, diz que ela não a trata bem e que "faz a menina de empregada". Alícia acha que, tendo Bianca nove anos, ela já pode ajudar. Pode carregar e alimentar Danielle (de 1 ano), carregar água e fazer algumas coisas na casa. Lucineide não concorda com isso, e Alícia argumenta: "Essa foi a educação que minha mãe me deu. Estou fazendo o que minha mãe me ensinou".

A participação de crianças no trabalho doméstico e no cuidado dos irmãos responde a necessidades práticas no cotidiano dos cuidadores internos. Não é o propósito deste estudo julgar a forma com que Bianca é tratada por Alícia ou especular sobre os efeitos dessa experiência no futuro da menina, mas pensar essa situação em relação com o cuidado. Na perspectiva de Alícia, responsabilizar Bianca por tarefas domésticas e pelo cuidado dos irmãos não é só uma necessidade prática, mas uma experiência importante na sua construção como pessoa, e nesse sentido uma maneira de cuidá-la, de torná-la uma adulta capaz de lidar com as situações que se apresentam. Por isso Alícia diz não só que a mãe dela lhe fazia as mesmas demandas, mas que isso permitiu que ela posteriormente soubesse cuidar da própria casa e dos filhos. Essa discussão se aproxima do trabalho de Bastos (2001), na sua pesquisa sobre os "modos de partilhar" de crianças no cotidiano familiar. A referida autora realizou uma pesquisa de campo em um bairro de baixa renda de Salvador, visitando grupos que ela denominou "famílias", em que havia crianças. A autora inclui a realização de tarefas consideradas domésticas, assim como o cuidado de irmãos mais novos, no que denomina "modos de partilhar", e argumenta que essas práticas fazem parte de interações entre adultos e crianças que são importantes para o desenvolvimento infantil.

Meninos também podem cuidar dos irmãos mais novos. A seguinte observação é ilustrativa da atitude cuidadora que pode estar presente também entre meninos:

Íamos comprar pirulitos, Rique [7 anos] e eu, mas Danielle [1 ano] chorou para ir. Perguntamos a Lucineide se [Danielle] podia ir e ela disse que sim, e pediu que calçasse os pés de Danielle. Rique calçou a irmã e então fomos. Depois Rique disse que para ela tinha que ser um pirulito sem chiclete, disse que ela ainda não podia, não, porque era pequena, e fomos segurando a mão dela e ele sempre cuidando onde ela pisava. (Notas de campo de Lílian)

A seguir, descrevemos momentos cotidianos de cuidado que se dão como parte das relações já descritas entre adultos e crianças.

Cuidado, materialidade e construção da pessoa

Através de cuidados corporais cotidianos, os cuidadores internos visam ao mesmo tempo dar ao corpo da criança sua forma adequada e construí-la como indivíduo singular e como pessoa relacional, com sua "natureza" dominada. As seguintes notas de campo são ilustrativas de como o cuidado é permanente e se dá em atividades cotidianas, especialmente as que envolvem lidar com o corpo:

Fui visitar Dona Rita. Fiquei com receio de ser inconveniente, pois era quase o horário de preparar as crianças para a escola. Cheguei na porta e ouvi Viviane, a neta dela de sete anos, gritando. Aí João, o filho dela de 11 anos, disse que eu podia entrar. Dona Rita estava com um pente na mão e estava gritando com Viviane. Ela me viu, mandou entrar, e me explicou que Viviane está muito "retada", que ela tem uma natureza ruim, que não obedece, que quer impor a vontade dela. Como parte dos preparativos para a escola, Dona Rita tinha dado banho na neta e depois penteou seu cabelo. Deixou presa a parte alta e colocou uns enfeites de borboleta. Viviane não gostou e começou a tirar, porque gosta de usar o cabelo solto. Dona Rita acha isso uma coisa muito ruim e começou a bater nela. Ela pensa que Viviane não deve ficar com cabelo solto, porque fica muito embaralhado e depois é muito difícil de pentear. Perguntei por que é que ela era dessa natureza ruim. E Dona Rita falou: "Ah, juntou o pai com o avô, porque o pai dela também tem esse gênio forte". Bom, aí Dona Rita falou que não deixa Viviane fazer as vontades dela, mesmo, que é melhor fazer isso agora que ela é pequena, e que por isso que ela "bate mesmo". (Notas de campo de Vania)

Esse episódio é um momento de cuidado onde existem projetos de pessoa. Não se trata simplesmente de resolver um problema prático. O que está em jogo é muito mais do que tornar mais fácil a tarefa diária de pentear o cabelo de Viviane. É preciso que o cabelo seja comprido - Viviane usa o cabelo comprido assim como a maioria das meninas de Prainha -, com o que a tarefa de pentear se torna mais árdua, mas ao mesmo tempo o cabelo bem penteado adquire visibilidade quanto mais comprido - ou mais "duro" - for. Para Dona Rita é inaceitável que a neta vá à escola com o cabelo solto, isso seria expressão de uma "natureza ruim".

Outros aspectos materiais fazem parte da rotina de se preparar para ir à escola. Viviane deve tomar banho, vestir a farda e comer a comida que a avó servir. A higiene é particularmente valorizada por Dona Rita, que falou sobre isso durante outra das minhas visitas:

Dona Rita estava com Viviane e João, e aí começou a me dizer que gosta muito de arrumar. Viviane tem o prato dela, o copo dela, João tem as coisas dele também. E que ela acha que é assim, que o adulto deve ter as suas coisas, e criança as suas coisas também. Que cada um tem o seu sabonete, sua toalha. E ela me mostrou os produtos de Viviane para o cabelo: xampu, condicionador, creme de pentear e creme de tratamento. Disse que o pai tinha comprado tudo da mesma linha. Ela falou assim: "A gente já não tem nada, então a gente não pode ser porco, a gente tem que arrumar tudo". E ela disse que a roupa também, ela lava tudo separado. Ela sabe que não tem nenhuma doença, mas ela lava as calcinhas dela por um lado, as calcinhas de Viviane por outro. Pensa que a pele da criança é muito sensível. Então pode pegar logo coisas do adulto. (Notas de campo de Vania)

Duas questões chamam a atenção nesse relato: a preocupação de Dona Rita com a higiene - do corpo e dos objetos usados no corpo, como as roupas - e como isso é feito: separando os objetos que pertencem a cada indivíduo. Por um lado, Dona Rita busca "dominar a natureza" da neta, fazendo com que essa aceite os cuidados que dão ao seu corpo a forma adequada. Ao dominar sua natureza, Dona Rita constrói a neta como indivíduo singular, que precisa ter seus próprios objetos, especialmente aqueles com os quais constrói sua realidade corporal. Para "não ser porco" é preciso separar os corpos, inclusive através do uso individualizado de produtos de higiene e de se lavar as roupas separadamente.

A afirmação de Dona Rita - "A gente já não tem nada, então a gente não pode ser porco" - pode ser relacionada com a discussão de Dalsgaard (2006), em sua etnografia em um bairro próximo a Recife, sobre a procura de reconhecimento por parte de mulheres de baixa renda. A referida autora descreve os enormes esforços das mulheres por mostrarem um corpo limpo e bem arrumado – especialmente quando se trata de frequentar serviços de saúde, como uma tentativa de obter um melhor trato por parte dos profissionais. Em Prainha os cuidadores internos comentam que é mais fácil que um profissional examine com detalhe uma criança que está limpa e arrumada - "Tem que levar a criança limpinha, se não eles não olham", comentou a mãe de uma criança de cinco anos -, e isso coincide com declarações de profissionais de saúde. Uma enfermeira do PSF comentou que existem "mães que não ligam" e que trazem as crianças sujas e desarrumadas, enquanto outras se preocupam e apresentam as crianças limpas, ainda que seja com a roupa gasta.

Assim como a maioria das crianças de Prainha, Viviane frequenta a escola, fazendo parte do grupo, também majoritário, cujos cuidadores não podem pagar uma escola particular e deve frequentar a "escola do governo", o que constitui uma alternativa pouco valorizada. O "estudo" está associado com autonomia, domínio sobre questões com alto valor social, por exemplo capacidade de escrever o próprio nome, que os cuidadores internos esperam que os professores "ensinem". No entanto, "educar" é uma responsabilidade mais direta dos cuidadores internos e está relacionada com "dominar a natureza", o que é feito moldando as crianças nos seus aspectos materiais: corpo, comportamento ou expressão de emoções, tal como Dona Rita faz cotidianamente com Viviane.

Na perspectiva dos adultos, querer fazer as próprias vontades e desafiar os adultos é uma característica que frequentemente está presente na "natureza" das crianças. Os adultos precisam "dominar a natureza" da criança, controlando seu comportamento e punindo-a na hora que têm que punir porque, se não o fizerem, será mais difícil conforme a criança for crescendo. A "natureza" é relacionada em parte com a herança dos parentes - "puxou o pai", diz Dona Rita quando reclama da "natureza" de Viviane – e em parte com o gênero. Meninos e meninas têm "naturezas" diferentes: "a natureza torna o sexo feminino mais calmo", disse um dia a diretora de uma escola. Essa opinião é compartilhada por vários cuidadores das três categorias. No entanto, existe também um reconhecimento de que nem sempre as meninas são mais calmas.

A obediência é um comportamento esperado e estimulado nas crianças, é um meio e também um indicador de uma criança educada. Respeitar os adultos é um indicador de educação. Isso envolve obedecer, pedir as coisas a eles, não se intrometer em conversa de adultos, não perguntar, dizer "o senhor" ou "a senhora".

Os cuidadores internos procuram controlar o comportamento, a expressão de emoções e desejos, as sensações fisiológicas – especialmente a fome – e a curiosidade. Nesse sentido, apesar de gostar de usar o cabelo solto, Viviane se mostra uma menina "bem comportada" durante minhas visitas. Permanece calada e sem participar da conversação, tal como é esperado pela avó, aguarda para ser atendida quando está com fome, ainda que frequentemente Dona Rita continue conversando e sem dar atenção a ela.

No entanto, também é importante "dar amor" a Viviane, e isso está mais presente na relação com o pai. Apesar de formalmente Jameson morar com Viviane, ele passa a maior parte do tempo fora de casa. No entanto, quando ele chega mostra sua presença na vida da filha. Jameson tem autoridade sobre a filha. Segundo ele, é só ele falar para ela parar de brincar na rua e ficar dentro de casa, não é preciso bater nela. Jameson dá "as coisas" a Viviane, não só os produtos de higiene pessoal, mas também algumas roupas, e é ele quem dá mais amor à filha, pois a abraça e beija, e isso aconteceu algumas vezes durante minhas visitas. Ele declara que ama muito Viviane - "tenho muito amor por minha filha" -, que não consegue ficar sem ela, por isso ficou com ela após separar-se da parceira. E como Viviane também gosta muito dele, ela está feliz morando com ele, ainda que longe da mãe e da irmã mais velha.

Na Tabela 1 identificamos e sistematizamos diferentes preocupações e algumas práticas que integram o cuidado entre os cuidadores internos.

Contrariamente ao que a expressão "dominar a natureza" sugere inicialmente, obedecer aos pais e parentes sem questionar coexiste com a importância de desenvolver a própria personalidade e ser independente. Assim como é importante respeitar o que é dos outros – e para isso controlar os próprios desejos –, é importante reivindicar o que é seu – por exemplo, a mochila na escola – e saber "descontar". Surpreendi-me com um relato de Paula e Ed de quando Sandra era pequena e já "estudava" na "escolinha". Um menino batia nela repetidamente até que um dia Ed segurou o menino na presença da mãe dele e mandou Sandra "descontar". A mãe do menino aceitou a intervenção de Ed, e depois disso Sandra nunca mais apanhou.

Esse modelo é inevitavelmente uma redução, pois o cuidado é construído cotidianamente sem que necessariamente as pessoas pensem sobre ele. Os informantes consideram que é preciso que tenha alguém para "olhar" ou "tomar conta" das crianças. É preciso "educar" e "dar estudo", também é preciso em alguns momentos "dar amor" e "dar as coisas". Por outro lado, "criar" envolve práticas cotidianas de alimentação, higiene, cuidados do corpo, entre outros. Em alguns casos é preciso "cuidar" de um problema para que não vire uma coisa pior, ou então "tratar" alguns problemas de saúde. Existem ainda situações em que as crianças requerem um "cuidado especial".

"Criar", "tomar conta" e "olhar" são processos que envolvem práticas semelhantes, mas com diferentes níveis de compromisso e responsabilidade para com as crianças. No dia a dia, é preciso que alguém mais velho tome conta das crianças. Isso envolve passar o tempo perto delas atendendo necessidades básicas, tais como alimentação, higiene e arrumação, e preservar sua integridade física, evitando que se machuquem. "Olhar" envolve saber o que a criança está fazendo, evitar que se machuque e atender necessidades básicas (dar comida, banho etc.). Uma criança não pode ficar "largada", alguém tem que olhar ela, ainda que não a acompanhe de perto. "Criar" se associa com atividades semelhantes ao "tomar conta", mas tendo responsabilidade primária pela criança, assim como um vínculo duradouro. Um adulto pode olhar uma criança por algumas horas. Pode tomar conta por um período. Poucas pessoas a criam. Alimentação, higiene e arrumação são atividades que podem dar-se como parte do "olhar", "tomar conta" ou "criar". Envolvem controle sobre as crianças, visando ensinar autocontrole, autovaloração e aceitação dos outros. Isso se relaciona com a afirmação de Dona Rita - "A gente já não tem nada, então a gente não pode ser porco" - e com sua preocupação por pentear o cabelo da neta, deixando-o preso.

Por outro lado, existem situações em que é preciso mudar as práticas de cuidado – que usualmente são espontâneas e estão integradas no dia a dia da configuração de casas –, especialmente quando é preciso "cuidar", "tratar" um problema de saúde ou oferecer um "cuidado especial"1.

Vários aspectos analisados aqui podem ser relacionados com os argumentos de Goldstein (2003). Como parte de uma pesquisa em um bairro de baixa renda no Rio de Janeiro, a autora descreve os intensos castigos físicos que eram praticados pela principal informante da sua pesquisa. Tratava-se de uma mulher que criava vários filhos – alguns biológicos e outros que tinha "pego para criar" –, sustentando-os sozinha com seu salário de empregada doméstica. Goldstein (2003) relaciona a severidade dos castigos físicos com as tentativas de sua informante de fazer com que os filhos optassem por uma vida de trabalhadores – o que supunha ter a obediência, humildade e submissão necessárias para uma pessoa pobre e negra sobreviver no Brasil urbano – e que não entrassem no crime organizado, algo que fazia parte do cotidiano do bairro em que moravam.

Nas práticas de cuidado descritas neste trabalho está presente um projeto implícito, o de uma pessoa que, ao ser educada, tenha sua "natureza" controlada e que possa se tornar um adulto capaz de sobreviver no ambiente em que vive. Assim como no bairro descrito por Goldstein (2003), em Prainha os adultos temem que os filhos entrem na criminalidade, sabem que as possibilidades dos filhos são restritas e se sentem com poucos recursos para "educá-los". No entanto, há algumas diferenças no que se propõe aqui. As crianças de Prainha parecem ter mais recursos disponíveis do que as crianças da etnografia de Goldstein (2003). Em Prainha o parentesco pode ser constantemente construído e renovado. Adicionalmente, a presença de instituições é crescente, e isso pode ter efeitos complexos, às vezes benéficos. Por outro lado, em Prainha, educar a criança dominando a sua natureza – através dos aspectos corporais descritos neste trabalho – é apenas uma parte das complexas relações que as crianças estabelecem entre si e com seus cuidadores.

Considerações finais

Aqui analisamos alguns aspectos da vida em um bairro de baixa renda como um contexto de desenvolvimento em que adultos e crianças têm possibilidades de construir diversos vínculos familiares com base nas linguagens de "sangue" e "consideração". Esses vínculos oferecem afeto e autoridade e nem sempre estão centrados na figura materna ou paterna. Nesse sentido, evitamos colocar categorias a priori ou pressupor que determinadas situações são problemáticas – por exemplo, crianças assumindo responsabilidades em casa ou escasso contato com o pai – e mostramos o sentido que essas situações têm no ambiente em que são construídas. Ao fazer isto, foi possível observar a capacidade de agência das crianças que participam ativamente do próprio cuidado, e às vezes cuidam outras crianças. Vimos como esse posicionamento ativo, assim como o reconhecimento da singularidade individual de cada criança, é estimulado pelos adultos. Esta maneira de analisar o parentesco é diferente de outras pesquisas envolvendo crianças – por exemplo, o trabalho de Bastos (2001) -, que tendem a se centrar nas relações entre adultos e crianças que convivem no mesmo domicílio com base na noção de arranjo familiar.

Tendo como ponto de partida a compreensão de Ayres (2001, 2004a, 2004b, 2009) sobre o cuidado que enfatiza na construção de projetos de felicidade, aqui ampliamos o olhar ao destacar que os projetos são se limitam ao que pode ser pensado ou formulado discursivamente. Os projetos podem estar presentes no corpo ainda sem serem identificados em forma consciente. É nesse sentido que consideramos a grande importância que é dada à higiene e arrumação das roupas e o cabelo por parte dos adultos. A possibilidade de projetos concorrentes, inclusive opondo adultos e crianças, está presente em todo momento. Por exemplo, quando a neta insiste em usar o cabelo solto, porque gosta, ela está defendendo um projeto diferente do da avó. Para a avó, que a neta use o cabelo preso e assim tenha a natureza controlada é o que corresponde a uma pessoa, que por não ter nada não pode se permitir ser "porca". Assim, vemos que os projetos de pessoa envolvem lidar com posições de classe social.

Neste estudo procuramos mostrar como se dá o cuidado sem avaliá-lo como bom ou ruim. Consideramos que esse é um caminho teórico e prático importante que pode ter desdobramentos em áreas como saúde e educação. Precisamos entender como vivem as pessoas e como se geram as possibilidades dentro de seus contextos como ponto de partida para pensar em serviços que contemplem suas necessidades. Nesse sentido, um tema sobre o qual precisamos levar mais em consideração a perspectiva dos cuidadores internos é o castigo físico que, em muitos casos, é visto como uma atitude necessária para educar a criança e como uma prerrogativa e dever dos parentes mais próximos. Isso se contrapõe à opinião pública que condena o castigo físico, assim como a uma lei que o proíbe. Contudo, esse é um tema que requer mais reflexão. Aqui esperamos ter dado alguns elementos que poderão ser aprofundados em outros trabalhos.

Notas

2 Por falta de espaço aqui não é possível aprofundar nessa discussão que foi desenvolvida em outro lugar (Bustamante, 2009).

Recebido em: 21/07/2009

1ª Revisão em: 26/07/2010

2ª Revisão em: 31/05/2011

Aceito em: 12/07/2011

Vania Bustamante é Psicóloga. Doutora em Saúde Coletiva pela Universidade Federal da Bahia. Professora Adjunta, Instituto de Psicologia e Professora Colaboradora do Programa Integrado de Pesquisa e Cooperação Técnica em Gênero e Saúde, Instituto de Saúde Coletiva, Universidade Federal da Bahia. Endereço: Instituto de Saúde Coletiva. Universidade Federal da Bahia. Rua Basílio da Gama s/n. Salvador/BA, Brasil. CEP 40110-170. Email: vaniabus@yahoo.com

Cecilia McCallum é Antropóloga. Doutora em Antropologia Social pela London School of Economics and Political Science. É professora Adjunta da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas e professora Colaboradora do Programa Integrado de Pesquisa e Cooperação Técnica em Gênero e Saúde do Instituto de Saúde Coletiva, Universidade Federal da Bahia. Email: cecilia.mccallum@uol.com.br

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  • *
    Agradecimentos ao Departamento de Antropologia da London School of Economics, especialmente à Professora Olívia Harris (in memoriam) por ter oferecido o espaço que facilitou o trabalho de pesquisa da primeira autora. Ao CNPq pela bolsa de Doutorado Sanduíche no Exterior e à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado da Bahia (FAPESB) pela bolsa de pós doutorado, ambas recebidas por Vania Bustamante. Aos Professores Estela Aquino, José Ricardo Ayres, Miriam Rabello, e Parry Scott pelos valiosos comentários durante a defesa da tese de doutorado que deu origem ao presente artigo.
  • 1
    Para proteger a privacidade dos informantes, este e todos os outros os nomes utilizados aqui são fictícios.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    06 Jun 2012
  • Data do Fascículo
    Dez 2011

Histórico

  • Recebido
    21 Jul 2009
  • Revisado
    31 Maio 2011
  • Aceito
    12 Jul 2011
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