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Entrevista com Martin Bauer

Pedrinho Guareschi Sobre o autor

Entrevista com Martin Bauer

London School of Economics and Political Science (LSE)

Pedrinho Guareschi

Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul

Pedrinho: Conte-nos um pouco de sua história e de seu trabalho.

Martin: Sou suíço, mas vim a Londres para fazer meu doutorado em Psicologia Social. Durante meus estudos, trabalhei também no British Museum. Talvez daí venha meu interesse pelos estudos de divulgação da ciência e como ela é recebida pelo público. Após formado, pleiteei o cargo de professor na LSE e fui aceito. Sou senior lecturer no Departamento de Psicologia Social. Na LSE foi criado um Departamento de Metodologia, com a finalidade de discutir questões epistemológicas e metodológicas que surgem em diversos outros departamentos. Junto com o Prof. George Gaskell, que também é do Departamento de Psicologia Social e com o qual organizei o livro Pesquisa Qualitativa com Texto Imagem e Som (Petrópolis: Vozes, 2002), fazemos parte desse departamento de metodologia. Faço parte, pois, de dois departamentos na LSE: ao Departamento de Psicologia Social e do Departamento de Metodologia. A articulação entre os departamentos é puramente institucional. A filosofia por detrás de tal decisão foi a de que os professores de metodologia não estivessem unicamente, e o tempo todo, ocupados só com metodologia, Além de trabalharem teoricamente, teriam também uma atividade prática. Com isso o departamento se expandiu, pois vieram professores de outros departamentos e ele pôde colocar raízes em outros departamentos, se tornar mais plural.

Pedrinho: E você, pessoalmente, tem alguma preferência por algum deles?

Martin: Pessoalmente, não tenho preferência por nenhum, mas o ambiente na metodologia é bem mais tranqüilo, há uma infra-estrutura melhor. Leciono, pois, também aulas de metodologia, e os alunos dos diversos departamentos se matriculam nas disciplinas de metodologia, que são obrigatórias para os alunos de qualquer disciplina.

Pedrinho: Gostaríamos de falar, hoje, mais de questões ligadas à Psicologia Social. Vocês estão sempre pesquisando, inovando. Quais os tópicos mais importantes em Psicologia Social da LSE?

Martin: Entre as mais importantes mencionaria: Representações Sociais; atitudes e mudança de atitudes; há professores que trabalham sobre os efeitos da mídia na audiência, com pesquisa de recepção; alguns colegas estão interessados em questões mais filosóficas, como a pragmática ou filosofia da mente, o uso da língua natural, ciência cognitiva,

Pedrinho: Que seria o estudo da pragmática?

Martin: É o estudo da língua, normalmente o estudo da linguagem, que é formalmente separado em sintática, fonética, semântica e pragmática. A pragmática se interessa, por exemplo, pela retórica, conversação. Ainda há colegas que lidam com psicologia evolucionista: trata basicamente da questão, em psicologia, de que a mente é uma conquista evolucionista e quais as implicações disso. Normalmente tem a ver com a questão dos limites – os últimos desenvolvimentos dessas questões tem a ver a psicologia evolucionista. Relaciona-se com as diferenças de gênero, processos de pensar diferente entre homens e mulheres. Temos também o campo da psicologia aplicada. Colegas que trabalham na saúde, pesquisa em Aids e saúde, com crianças. Pesquisa em novas tecnologias de computação, e um grupo que trabalha em tecnologia e controvérsias tecnológicas. Esse é um panorama mais ou menos amplo. Ainda mais: há estudos sobre marketing político, que trata basicamente de como vender candidatos e vencer eleições. A idéias é de que se vendem candidatos como se vendem mercadorias. É a lógica aplicada ao marketing.

Pedrinho: Prof. Bauer: nós sabemos que você discutiu um tópico relativamente novo na 6ª Conferência Internacional de Representações Sociais. Poderia contar aos leitores algo sobre isso?

Martin: É menos um enfoque de pesquisa que uma questão resultante de reflexão. Há dez ou quinze anos venho discutindo mudanças tecnológicas, o impacto social da tecnologia, a percepção da tecnologia por parte do público, bem como a mudança de atitude com respeito à tecnologia. São estudos comparativos multinacionais de cobertura da mídia sobre tecnologia e de desenvolvimento de políticas e mudanças da opinião pública – longitudinal e comparativamente – quanto à tecnologia. É um programa, por sua natureza, interdisciplinar. E dentro dele, quando se trabalha num programa interdiscipinar, cada pesquisador se radica numa disciplina e vê as coisas a partir dali. Dentro dessa minha experiência nesses últimos quinze anos, cheguei à conclusão de que há uma curiosamente limitada expectativa sobre o campo da Psicologia Social. Se formos pensar em termos de estereótipos, qual seria o estereótipo da Psicologia Social (PS)? Quando as pessoas perguntam: No que a PS pode contribuir? Há, nota-se, um estereótipo com respeito à Psicologia Social. E esse estereótipo tem um dimensão positiva e uma negativa. Há convicções fortes de que a PS pode ajudar e contribuir, mas do ponto de vista das pessoas, isso é algo limitado, é o que a PS vem fazendo agora. Mas se tentarmos nos situar no campo da psicologia e tentarmos caracterizar qual seria esse estereótipo, podemos dizer que ele se caracteriza como algo mais ou menos assim: A Psicologia Social tem como finalidade apenas difundir a pesquisa. Isso tornou-se, como que um senso comum de quem faz política, engenheiros, etc. Que faz a Psicologia Social, na opinião deles? Ela organiza, desenvolve e agiliza o processo de difusão da tecnologia. Mas isso significa também que há algo a ser difundido, e esse algo a ser difundido é algo dado, é um objeto. E o que fica fora disso, fica perdido. Permanece apenas um interesse pelas atitudes das pessoas e que as pessoas podem variar na percepção atitudinal com respeito a esses objetos. Do ponto de vista da pesquisa de difusão, a preocupação vai ser a de que as pessoas têm atitudes positivas ou negativas sobre os objetos. A partir daí, pergunta-se então: e o que se pode fazer com respeito a isso? A gente poderia dizer que a difusão faz o diagnóstico, separa as pessoas entre as que têm atitudes positivas, negativas, ou intermédias. No que se refere ao marketing, é traçado um perfil dos consumidores potenciais. Assim, o diagnóstico é dado pela pesquisa de difusão. O diagnóstico tem algo de terapêutico implicado: se sabemos como é o problema, poderemos saber como agir com respeito a isso. Assim, se soubermos quais as atitudes com respeito a algo, poderemos trabalhar para mudar essa atitude. Entra aí a técnica, ou as estratégias de comunicação. Desse modo, qualquer livro-texto sobre psicologia social de atitudes tem dois programas: a formação das atitudes e a mudança das atitudes. E a alavanca crucial da mudança das atitudes seriam as estratégias de comunicação. O enfoque tradicional de difusão das atitudes faz uma distinção entre o processo informal, a conversação e a informação midiada pela mídia. A argumentação, em geral, leva a crer que se cria uma atitude com respeito a algo, que se distribuem pesos de opinião, enquanto que a comunicação informal – a conversação – irá levar a novas atitudes, mudança de atitudes, e à tomada de decisões.

Esse enfoque tradicional, estereotipado, irá identificar, na comunicação, os gatekeepers (controladores de opinião). Cada comunidade terá uma hierarquia de prestígio e a comunicação irá identificar, dentro do processo de hierarquia, as pessoas que teriam mais prestígio, os líderes, as autoridades morais, e tentar converter primeiro as autoridades morais e isso teria efeitos sobre os outros. Essa é a estratégia: diagnóstico e depois ver como mudar as atitudes.

Há aqui um sério procedimento de erro de atribuição. É basicamente a idéia de que quando algo está errado no processo de difusão, o problema está no receptor, não na produção. A estratégia global de comunicação irá, então, focar o receptor. E o objeto fica imutável, esquecido, fechado. Fica a idéia de que o objeto é perfeito. Pode ser caricatural, mas em princípio é isso que acontece. Essa é a problemática.

Pedrinho: E o que tem isso a ver com a tecnologia?

Martin: Pois é isso que acontece quando se trabalha na questão da tecnologia, ou no desenvolvimento da tecnologia, ou na questão da popularização a ciência. A Psicologia Social é chamada a resolver esse problema na mentalidade popular, que é o de que o povo "não consegue ver direito". Essa é a questão. E a gente tenta perguntar: de onde vêm esses estereótipos? E como podemos superá-los? O que nós investigamos até agora é uma Psicologia Social das atitudes, das atribuições e identidades apenas, que seria uma espécie de "software" da vida social. O que queremos ver agora são outras questões conceptuais, isto é, o que dizer da coisa concreta. Por exemplo, a Psicologia Social do telefone. Não apenas do uso do telefone, mas da feitura do telefone, de como se constrói o telefone. O sistema inteiro de criar, de usá-lo, etc. A Psicologia Social não tem nada a dizer sobre coisas. Talvez eu não deva dizer "nada". Se olharmos para a Psicologia Social das coisas, podemos encontrar literatura sobre isso. Mas é caracterizada como se fosse "ex post facto". Não há uma Psicologia Social da objetificação, de como se criam os objetos. Há uma Psicologia Social da percepção do objeto, mas não da criação do objeto. Para a Psicologia Social o objeto já está aí. E esse estudo pode ser muito sofisticado, como por exemplo: o efeito simbólico do objeto, a fetichização do objeto, etc. são amplamente pesquisados. A importância do objeto para a identidade, o valor de uso, valor de troca, etc. Mas não se interessa pela objetificação do objeto, que seria, para a Psicologia Social, um projeto secundário.

Desse modo, penso que toda a maquinaria da Psicologia Social aplicada tem mais a ver com a influência social, a caracterização da estrutura da representação e o processo de mudança das representações, sejam o que forem: atribuições, normas, percepções, etc. tudo isso tem a ver e aparece depois que o objeto já está aí. E de certo modo não há instrumentos para a conceptualização do objeto.

Pedrinho: Essa seria, então, a problemática da Psicologia Social do objeto?

Martin: Sim. Talvez estejamos pensando em coisas erradas, cavoucando coisas sem interesse. Constituímos, pois, um pequeno grupo. Foi escrito um artigo sobre a Psicologia Social do objeto e depois disso tive dois ou três emails dizendo que havia pessoas interessadas na questão e também interessadas em levar isso à frente. Seria algo para se discutir. Pessoas da França, Alemanha.

Pedrinho: E como se deveria fazer isso?

Martin: Tenho a impressão de que no presente momento se pensa assim: a Psicologia Social tradicional está interessada em normas. É a área da influência social e não das coisas. Um segundo ponto a ser incorporado é esse reconhecimento, essa constatação de que as ciências sociais não têm uma teoria da coisas. É um diagnóstico feito por algumas pessoas periodicamente, mas isoladamente. Por exemplo, escreveu um trabalho explorando essa questão: e ele argumentava que a psicologia social muitas vezes caiu em certo tipo de modelo piagetiano da construção do objeto. Nesse modelo, a criança passaria de uma dimensão egocêntrica, à medida em que a criança se constitui, para uma descentralização. A teoria piagetiana já teria algo a dizer sobre isso. De dentro para fora. E isso teria a ver com o objeto: a constância do objeto, a constituição do objeto; mas tal postura ainda assume que o objeto já está ali, constituído, e a criança vai aos poucos se apossando dele, pois já teria sido constituído pelos adultos. Outro pensamento interessante é o de Bruno Latour.

Pedrinho:: Qual a teoria de Latour?

Martin: Latour pergunta: até quando a sociologia deve ficar sem um objeto? Seja o objeto que for. Cada sociólogo tem seu objeto. Há aqui um jogo de palavras, pois não há, de fato, um objeto. E ele argumenta, basicamente, que as ciências valorizaram demais o mundo simbólico, diante do mundo material e sua influência no mundo material, o que pode ser não realístico. Pode-se argumentar no sentido de que o que parece ser diferente, quando se analisam macacos humanos, não é, necessariamente, o processo simbólico. Pode ser que os macacos também simbolizem. Contudo, a concretização dos objetos e seu acúmulo no mundo social é sobremaneira grande entre os seres humanos, é exageradamente grande entre os humanos. Nós somos circundados por objetos e somos incapazes de fazer algo sem objetos. Assim, como podemos ignorar, teoricamente, esses objetos todos? E como que eles acontecem? Nunca pensamos sobre isso...

Pedrinho: Como, contudo, construir essa Psicologia Social do objeto?

Martin: Uma vez que percebemos essa lacuna conceitual nos perguntamos: o que fazem as normas sociais? E cremos que a Psicologia Social está interessada em normas, percepções. E o que fazem elas? Elas coordenam a vida social. Mas pode ser que as normas não sejam a única coisa, mas os objetos, do mesmo modo, também eles podem ordenar a vida social. Desse modo, pode-se dizer que "os objetos são quase-normas". Assim, toda a teoria das normas pode ser também como as questões que sabemos a partir das normas, como elas são aplicadas às coisas? A segunda questão: mostrar que as coisas não estão isentas de normas, elas contêm normas, só que elas são normas sob outros aspectos. Há modos de coordenar a vida social diferentes das normas. Temos assim uma simetria para explorar: normas e coisas. E sabemos, pela Psicologia Social, muitas coisas sobre normas: o desenvolvimento das normas, como mudar as normas e assim por diante. Mas como trabalhar com coisas? Essa é a questão, o desafio. Se sabemos, por um lado, como as normas influenciam a vida social, temos, por outro lado, pouca literatura sobre como as coisas influenciam a vida social. As coisas contêm em si valores nelas inseridos. Pode-se pesquisar os valores, as normas, inscritos nas coisas. Não há uma classificação, por exemplo. Tentei fazer uma lista de como as coisas controlam nosso comportamento. Mas não há conceptualização a respeito disso. Podemos ver como as normas funcionam, mas não como as coisas trabalham. As coisas exigem uma modelação de nosso corpo. Por exemplo: para saber como manejar uma máquina, temos de modificar nosso self, por exemplo, temos de nos tornar mais fortes. Isso é visto claramente do fato de se precisar ter um corpo mais forte para operar máquinas, mas é também necessário desenvolver uma mentalidade, a de que corpos fortes são importantes; de que a força física é importante. E isso pode ter um impacto central na maneira como nós controlamos nossa conduta. As coisas têm ações inscritas dentro delas. Elas nos convidam a fazer algo. Uma cadeira nos convida a sentar. E se não sei como atender o telefone, não consigo usá-lo. Tenho de saber como apertar determinados botões, há algo inscrito nas coisas. Isso pode ser também ligado à teoria das Representações Sociais. Pois as coisas são representações, não apenas formas simbólicas. As RS são objetos. Por isso as representações-coisas são importantes para a orientação das ações. Um terceiro ponto: as coisas evitam conflitos. Usamos objetos para evitar conflitos. Construímos cercas para as pessoas não passarem. Quarto ponto, referente à Psicologia da Gestalt: as coisas têm uma característica de exigência (demand), como uma situação que tem algo implícito que convida a que se coloque algo (Kurt Lewin). A situação convida a algo. Há ainda a questão dos objetivos dos objetos: o caso clássico é, por exemplo, o de que há uma finalidade inscrita nos alimentos: comemos para ficar sadios. Falamos ao telefone para nos entendermos. É uma característica das coisas. Mas se nós vamos além das coisas cujas funções instrumentais elas possuem, que seria a de criar novas finalidades, que sucede? Por exemplo, se uso a faca para comer, posso descobrir que posso usar a faca para fazer algo sobre o que nunca tinha pensado antes. Essa mudança na finalidade (goal shifting) é, em geral, associado com normas. Por isso os instrumentos podem ser relacionados com normas. E se os instrumentos mudam as normas, isso vai trazer implicação para as normas. Outra questão importante: a dependência. Nós podemos nos tornar dependentes dos objetos e até nem poder viver sem eles. Desenvolvemos habilidades para lidar com instrumentos. Perdemos as habilidades, ou criamos novas habilidades. Ainda mais: as coisas podem ser usadas como polícia. O simples fato de se colocar lombadas, ou colocar sinais. Há várias maneiras de implementar um programa educacional: colocar um sinal, colocar um policial que pode prender, colocar objetos na estrada, como uma lombada. Assim a construção de uma lombada torna-se uma delegação da norma, uma polícia objetificada. Isso faz sentido? A lombada se torna a delegação da polícia. O objeto tem a função de delegar e de representar a norma. E finalmente há o caso do fato consumado. Um exemplo de um fato consumado é uma negociação feita de tal modo que não permite outra escolha possível, senão aceitar. É uma maneira comum de negociar. E o fato consumado pode se constituir numa coisa. A questão é ver como as normas influenciam. Nós sabemos que as normas levam a sanções, e causam conseqüências. E assim as coisas assumem funções de normas.

Pedrinho: E como se poderia desenvolver essa problemática na psicologia?

Martin: Há diversas maneiras por onde se pode começar. Tentei montar um quadro para explicar isso.

Penso que no início de tudo está a questão do paradigma da influência social. Esse tema da Psicologia Social do objeto se torna interessante se o compararmos com os estudos sobre normas. A psicologia Social já falou muito sobre como produzir normas. Há três grandes tradições que discutem a questão das normas: a normatização, uma situação onde não há normas. Sherif trabalhou essa questão. A segunda é a da influência da maioria, como tratada por Ash, ou a influência da autoridade e a obediência, ou conformidade, como pesquisada por Milgram. Finalmente, a influência da minoria, onde há normas e se quer mudar as normas, como longamente discutido por Moscovici. Temos na primeira a questão de como produzir normas, depois de como manter normas e por fim de como mudar as normas, como desafiar o que existe e ver como se pode ter sucesso com mudanças. Esse último ponto tem a ver com as representações sociais.

Pedrinho: Por que tem a ver com as RS?

Martin: É que as RS têm a ver com pesquisa em representações, e elas podem tratar da normatização das representações, da manutenção das representações e da mudança das representações. Mas o mais importante é ver como tudo isso pode se relacionar com as coisas. Eu gosto de fazer analogias. E se formos examinar o quadro, pode-se ver ali que apresento uma analogia entre "fazer normas" e "desenhar coisas". Tenta-se perguntar como se aplicariam às coisas, o que já se disse para as normas. Assim, por exemplo, quanto à negociação, enquanto que no "fazer normas", há uma situação em que não há normas, assim na questão das coisas há uma associação por translação. Nós transladamos o projeto a outro a fim de associar outras pessoas. O projeto tem duas direções: associação no horizontal e translação em direção vertical. Todo movimento em direção à translação é um movimento em direção à associação. Eu não estou defendendo, estou apenas dizendo o que acontece: quando se faz análise de associação e de translação, basicamente estamos nos referindo a compromisso. O que Latour diz basicamente é que a teoria é simétrica, nosso projeto é totalmente flexível, no sentido de que nós transladamos o projeto a outro projeto a fim de associar outras pessoas. Translação é análogo ao movimento de translação dos astros na astronomia. Todo movimento de translação é um movimento na direção de associação. A translação, análoga à translação geométrica. A fim de associar, precisamos transladar. Esse é um enfoque de comprometimento, de negociação. Mas tudo é um movimento de negociação.

O segundo, o movimento de assimilação. Não estou usando no sentido de Piaget, eu estou usando em sentido direto: assimilação basicamente diz que a maioria assimila a minoria. Fundamentalmente se diz que a minoria se torna como a maioria. Finalmente, no terceiro, a acomodação, ou aculturação, seria a idéia de que a minoria consegue mudar a maioria. Em outras palavras, as maiorias se acomodam à minoria.

A razão de se colocar "fazer" normas e "desenhar" coisas é que, em geral, se fazem leis, ou normas; mas as coisas são "desenhadas".

Esse é um programa sobre o qual eu estou pensando nesses últimos anos, a fim de romper estereótipos na pesquisa de difusão. E também porque, trabalhando muitos anos na teoria da resistência, fico pensando como inserir essa pesquisa nesse novo contexto. A diferença é que a resistência, nesse caso, é resistência com respeito a coisas, resistir a coisas já desenhadas. A teoria da resistência, nesse novo contexto, consiste em como as pessoas resistem a coisas já desenhadas e como isso influencia o processo futuro de "desenhamento".

No que se refere à biotecnologia, sempre me interessei em encontrar boa evidência de que o fato e o ato de resistência à biotecnologia, ajuda a mudar o projeto de biotecnologia. Com a criação de novos projetos e a resistência contra os projetos antigos, como os transgênicos, a clonagem etc. pode-se ver como isso influencia o processo tecnológico.

Esse é o desenvolvimento teórico no qual estou trabalhando e acho que encontrei maneiras de poder referenciá-lo, dentro de um contexto maior. Isso ainda não está muito desenvolvido, mas apresenta algumas indicações a respeito das quais estou pensando.

Pedrinho: E o Latour, é esse o pensamento do Latour?

Martin: Eu não sou especialista em Latour. Mas eu vejo Latour como uma boa inspiração. Dentro da sociologia da ciência, da tecnologia, há certas concordâncias nos últimos vinte anos, sobre a "construção social da tecnologia". E elas têm certas ferramentas analíticas interessantes e pesquisa empírica sobre o desenvolvimento de uma espécie de mistura entre história e sociologia, uma história sociologizada. E eu tenho a impressão de que a Psicologia Social pode contribuir com algo sobre isso, que é no referente ao problema da influência social.

Nós reconhecemos claramente que o desenho de um objeto tecnológico é um processo de negociação. Usam-se grupos de referência. Contudo, não há uma noção desenvolvida do poder de influência, do processo de poder, pois nem todos os grupos de referência são igualmente influentes e têm o mesmo poder. E eu penso que a Psicologia Social tem um instrumental que pode contribuir para essa área. Estou interessado nessa influência social. Parece fazer sentido. É algo que tem a ver com a objetivação, no seu sentido material.

Recebido: 8/12/2002

1ª revisão: 10/06/2003

Aceite final: 16/7/2003

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    13 Jan 2004
  • Data do Fascículo
    Jan 2003
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