Sujeito e alteridade: reflexões a partir da psicologia histórico-cultural

Person and otherness: reflections from historical-cultural psychology onwards

Resumos

A temática constituição do sujeito vem se caracterizando como objeto de discussões em diferentes orientações teórico-metodológicas da Psicologia e é importante na medida em que problematiza tanto o objeto dessa ciência como a forma com que é abordado. A temática é discutida neste texto tendo como referencial de base os aportes teóricos de L.S.Vygotski. Na perspectiva desse autor, a especificidade humana decorre da dupla relação que se estabelece com a realidade: via atividade, o ser humano se apropria da cultura e concomitantemente nela se objetiva, constituindo-se assim como sujeito. Desse modo, a dimensão singular é inexoravelmente constituída e constituidora do social, o que pode ser tematizado como alteridade, como a dimensão de um outro ou das relações com outros.

Alteridade; relações eu-outro; psicologia histórico-cultural; L.S.Vygotski


The theme of the subject's constitution has been characterized as object of updated discussions within different areas of knowledge and most specifically in severeal theoretical-methodological orientations in Psychology. This matter is relevant because it enquires about the object of this science as well as the way it is approached. Based on the presupposition of the eminently social character of human gender, it brings out the need of entering into dialogue with other areas of knowledge as well as delimiting specific areas of analysis, which allow the psychological science to develop and justify itself as locus of knowledge. The historical-cultural psychology perspective says that the human specificity comes from the dual relation established with reality: through activity the human being assimilates culture and concomitantly develops himself as person. Consequently, the singular dimension is inexorably developed and it develops social, which can be known as otherness, as well as the other's dimension or the relations with the other. Additionaly, other issues need to be inquired, such as the consciousness, the unconsciousness, and the affections, which will be discussed here having as reference the theory of Vygotski.

Otherness; myself-other relations; historical-cultural psychology; L.S.Vigotski


Sujeito e alteridade: reflexões a partir da psicologia histórico-cultural

Person and otherness: reflections from historical-cultural psychology onwards

Andréa Vieira Zanella

Universidade Federal de Santa Catarina

RESUMO

A temática constituição do sujeito vem se caracterizando como objeto de discussões em diferentes orientações teórico-metodológicas da Psicologia e é importante na medida em que problematiza tanto o objeto dessa ciência como a forma com que é abordado. A temática é discutida neste texto tendo como referencial de base os aportes teóricos de L.S.Vygotski. Na perspectiva desse autor, a especificidade humana decorre da dupla relação que se estabelece com a realidade: via atividade, o ser humano se apropria da cultura e concomitantemente nela se objetiva, constituindo-se assim como sujeito. Desse modo, a dimensão singular é inexoravelmente constituída e constituidora do social, o que pode ser tematizado como alteridade, como a dimensão de um outro ou das relações com outros.

Palavras-chave: Alteridade; relações eu-outro;, psicologia histórico-cultural; L.S.Vygotski.

ABSTRACT

The theme of the subject's constitution has been characterized as object of updated discussions within different areas of knowledge and most specifically in severeal theoretical-methodological orientations in Psychology. This matter is relevant because it enquires about the object of this science as well as the way it is approached. Based on the presupposition of the eminently social character of human gender, it brings out the need of entering into dialogue with other areas of knowledge as well as delimiting specific areas of analysis, which allow the psychological science to develop and justify itself as locus of knowledge. The historical-cultural psychology perspective says that the human specificity comes from the dual relation established with reality: through activity the human being assimilates culture and concomitantly develops himself as person. Consequently, the singular dimension is inexorably developed and it develops social, which can be known as otherness, as well as the other's dimension or the relations with the other. Additionaly, other issues need to be inquired, such as the consciousness, the unconsciousness, and the affections, which will be discussed here having as reference the theory of Vygotski.

Key-words: Otherness, myself-other relations, historical-cultural psychology, L.S.Vigotski.

Os outros lugares são espelhos em negativo. O viajante reconhece o pouco que é seu descobrindo o muito que não teve e o que não terá.

Ítalo Calvino

Somos viajantes imersos em um mundo com o qual estamos em permanente diálogo. O que isso significa? A epígrafe apresentada nos dá algumas indicações nesse sentido. O viajante em questão é Marco Polo, cidadão italiano que se aventurou a conhecer outras culturas, a sair de um determinado lugar – de sua cidade – e, andando em princípio sem roteiro prévio, permitiu se defrontar com o desconhecido. Nesse percurso, o que encontrou, mais do que a diferença, foi a si mesmo, até então não estranhado e, portanto, desconhecido.

Poderíamos pensar então nos outros lugares a que Calvino se refere como não somente circunscritos a espaços geográficos, mas também a tudo que nos cerca e do qual nos diferenciamos, caracterizando-se assim como referência para o próprio reconhecimento.

Essas questões iniciais remetem a uma temática que vem sendo discutida pela psicologia: a da alteridade. Consultando a enciclopédia Larousse Cultural (1998), encontramos seu significado como "Estado, qualidade daquilo que é outro, distinto (antônimo de Identidade)" (p 220). A mesma enciclopédia apresenta o significado de alteridade para a filosofia e psicologia, remetendo a primeira à "... relação de oposição entre o sujeito pensante (o eu) e o objeto pensado (o não eu)" e, a Segunda, às "relações com outrem".

Significados, no entanto, como nos esclarece Vygotski (1992), apesar de consistirem na "zona mais estável dos sentidos", são social e historicamente produzidos e, portanto, mutáveis. Não é de estranhar que as definições citadas, apesar de apresentarem um eixo comum – o outro -, referem-se a olhares diferentes sobre a mesma questão. Problema maior se apresenta nessas definições: a perspectiva da psicologia é trazida como una, quando essa ciência se caracteriza pela pluralidade, pela diversidade de leituras a respeito das relações sujeito-sociedade que resultam em teorias antagônicas sobre a constituição do sujeito. Não é objetivo deste trabalho adentrar nessa diversidade mas pontuar a questão para, a partir de algumas leituras atuais sobre a temática, resgatar contribuições de L.S.Vygotski que nos ajudam a discuti-la.

ALTERIDADE: ALGUNS OLHARES

O conceito de alteridade tem aparecido com relativa freqüência em espaços de discussão da psicologia. Jodelet (1998) destaca que a questão da alteridade vem sendo tratada há muito tempo por uma diversidade de espaços intelectuais que vão desde a filosofia às ciências ditas humanas e sociais, sendo que a psicologia esteve ausente desse debate até a emergência da abordagem das representações sociais, inaugurada por Moscovici.

A temática, no entanto, sempre esteve presente nas reflexões da antropologia. Para essa ciência, a alteridade se constitui, desde a sua emergência, em desafio a ser explicado, posto que a antropologia se estrutura sobre a temática cultura. Nesse sentido, tem prestado relevantes contribuições na medida em que suas investigações tratam de mostrar o outro como diferença, desvendando suas características e especificidades. Das leituras do diverso calcadas na comparação com a cultura européia que marcaram seu inicio ao reconhecimento e defesa das diversidades um longo trajeto foi percorrido, sendo que o desafio da ciência antropológica é hoje muito maior. Afinal,

se no passado o outro era de fato diferente, distante e compunha uma realidade diversa daquela de meu mundo, hoje, o longe é perto e o outro é também um mesmo, uma imagem do eu invertida no espelho, capaz de confundir certezas pois, não se trata mais de outros povos, outras línguas, outros costumes. O outro hoje, é próximo e familiar, mas não necessariamente é nosso conhecido. (Gusmão, 1999, pp. 44-45)

As leituras psicológicas da temática, por sua vez, incorrem de um modo geral, segundo Jodelet (1998), em uma perspectiva que encerra a diferença em si mesma, posto que "...ao designar o caráter do que é outro, a noção de alteridade é sempre colocada em contraponto: 'não eu' de um 'eu', 'outro' de um 'mesmo" (p. 48). Destacando a alteridade como "produto de duplo processo de construção e de exclusão social que, indissoluvelmente ligados como os dois lados duma mesma folha, mantém sua unidade por meio dum sistema de representações" (Jodelet, 1998, pp. 47-48), a autora defende que sua análise deve compreender tanto os níveis interpessoal e intergrupal.

Em outra perspectiva e a partir do diálogo com a física, Rolnik (1992) define alteridade como:

...o plano das forças e das relações, onde se dá o inelutável encontro dos seres, encontro no qual cada um afeta e é afetado, o que tem por efeito uma instabilização da forma que constitui cada um destes seres, produzindo transformações irreversíveis. Em outras palavras, a existência inelutável do plano da alteridade define a natureza do ser como heterogenética. (p. 1)

Diferenciando a identidade – esfera reconhecida, consciente, visível – do processo permanente de subjetivação, que compreende a dimensão invisível, do devir-outro, a autora destaca o inconsciente como "...a dimensão em que se produzem as diferenças, nosso desassossego" (Rolnik, 1995, p. 152). Visível e invisível expressam, desse modo, vetores da subjetividade que Rolnik identifica como homem da moral e homem da ética: o primeiro é o homem da consciência, que nos possibilita operar no mundo vigente. O homem da ética, em contrapartida, é o vetor de nossa subjetividade que transita no invisível:

É o homem do inconsciente: operador da produção de nossa existência como obra de arte. Ele também guia nossas escolhas, só que selecionando o que favorece e o que não favorece a vida, tendo como critério a afirmação de sua potência criadora – daí porque chamá-lo de 'ético'. (pp. 154-155)

Destaque pois é dado, nas leituras psicológicas atuais, à dimensão da relação com o outro, seja através da defesa de análises que considerem aspectos interpessoais e intergrupais, como em Jodelet (1998), ou aos processos de subjetivação, como destacado por Rolnik (1995). A essas perspectivas parece importante resgatar outra que, embora originada nas primeiras décadas do século XX, apresenta-se como atual: trata-se da teoria de Vygotski, a qual contribui com o debate sobre a alteridade a partir da análise do espaço intrapsicológico, entendido como inexoravelmente relacionado ao contexto social, interpsicológico.

Sobre Sujeito e Alteridade na Perspectiva Histórico-Cultural

O termo alteridade aparece com pouquíssima freqüência nos escritos de L.S.Vygotski1 1 Uma das passagens em que o apresenta é a que segue: "O que move os significados e determina seu desenvolvimento é a cooperação entre consciências. O processo de alteridade da consciência" (Vygotski, 1996, p. 187). . A dimensão de outro, ou mais adequadamente falando, da relação com um outro é, por sua vez, uma constante: as explicações do autor sobre a constituição do psiquismo humano fundam-se no pressuposto de que esta se origina no contexto das relações sociais. Referindo-se à Tese VI sobre Feuerbach, Vygotski (1995, p. 151) destaca: "Modificando a conhecida tese de Marx, poderíamos dizer que a natureza psíquica do homem vem a ser o conjunto de relações sociais transladadas ao interior e convertidas em funções da personalidade e em formas de sua estrutura".

Mas como isso acontece? Seguindo a tradição marxista, para Vygotski é através da atividade humana que o ser humano transforma o contexto social no qual se insere e nesse processo constitui a si mesmo como sujeito, ou seja, constitui o seu psiquismo. A história do desenvolvimento da sociedade e de cada pessoa, portanto, está diretamente relacionada às transformações da atividade humana e dos motivos que a impulsionam. Segundo Lúria (1986)

A atividade vital humana caracteriza-se pelo trabalho social e este, mediante a divisão de suas funções, origina novas formas de comportamento, independentes dos motivos biológicos elementares. A conduta já não está determinada por objetivos instintivos diretos... O trabalho social e a divisão do trabalho provocam a aparição de motivos sociais de comportamento. É precisamente em relação com todos esses fatores que no homem criam-se novos motivos complexos para a ação e se constituem essas formas de atividade psíquica específicas do homem. Nestas, os motivos iniciais e os objetivos originam determinadas ações e essas ações se levam a cabo por meio de correspondentes operações especiais. (pp. 21-22)

A psique humana, portanto, não é dada e nem tampouco tem seu desenvolvimento caracterizado por etapas que pressupõem o seu ápice: necessário referir-se ao processo de sua constituição, social já em sua origem e marcado tanto pelas conquistas históricas do gênero humano quanto pelas marcas singulares que socialmente produzimos.

Considerando as relações entre subjetividade e objetividade, processos psicológicos e fisiológicos, Vygotski destaca que a psique humana consiste na expressão subjetiva dos processos cerebrais, "como uma faceta especial, uma característica qualitativa especial das funções superiores do cérebro" (1991, p.100). Compreende, a psique humana, os processos psicológicos - como memória, atenção, linguagem, pensamento... – e processos emocionais que estão necessariamente a estas relacionados, sejam conscientes ou não. Destaca o autor que "...é preciso considerar esta (a psique) como parte integrante de um processo complexo que não se limita em absoluto a sua vertente consciente; por isso consideramos que na psicologia é completamente lícito falar do psicologicamente consciente e inconsciente: o inconsciente é potencialmente consciente" (ibid., p.108)

Consciente e inconsciente, portanto, referem-se nesta perspectiva não a instâncias psíquicas, mas fundamentalmente a características da própria atividade humana, seja esta objetivada sob a forma de palavra, gesto, expressão ou outro signo qualquer. Consciente e inconsciente afirmam que nossas características singulares são produzidas como resultado da complexa trama entre objetivação e subjetivação, sendo todos e cada um marcado por aquilo que sabe e escolhe e, ao mesmo tempo, por aquilo que escapa, que é invisível e não capturável, mas que passa sem deixar vestígio.

Por sua vez, a característica demarcadora da atividade humana, entendida como categoria explicativa para o desenvolvimento tanto filo quanto ontogenético e que nos permite afirmar que a psique humana é social em sua origem, é o fato de ser mediada. Se nos escritos marxistas encontram-se referências quanto às ferramentas técnicas como mediadoras da atividade (Marx & Engels, 1989), nas obras de Vygotski (1991, 1992, 1995, 1996) os signos apresentam-se enquanto ferramentas simbólicas responsáveis pelas especificidades do psiquismo humano e sua condição essencialmente mediada.

Considerados como instrumentos psicológicos, Vygotski (1991) refere-se aos signos2 2 "Como exemplo de instrumentos psicológicos e de seus complexos sistemas podem servir a linguagem, as diferentes formas de numeração e cômputo, os dispositivos mnemotécnicos, o simbolismo algébrico, as obras de arte, a escrita, os diagramas, os mapas, os desenhos, todo gênero de signos convencionais, etc." (Vygotski, 1991, p. 65) como "...dispositivos sociais para o domínio dos processos próprios ou alheios" (p. 65), como instrumentos que reorganizam a operação psíquica na medida em que possibilitam a regulação da própria conduta. Permitem, assim, a inserção do homem na ordem da cultura e o estabelecimento de relações qualitativamente diferenciadas com a realidade: ao invés de diretas e imediatas, estas passam a ser mediadas pelos signos, pela cultura3 3 "Com a invenção dos sistemas de signos, o homem armou-se de um poderoso instrumento que lhe permitiu dar à natureza e a si mesmo uma nova forma de existência: uma existência cultural. Suas relações com a natureza e com seus semelhantes alteraram-se profundamente. Com a sua entrada definitiva na "ordem simbólica", o homem rompeu as "barreiras da sensorialidade", tornando o real natural em um real significante, objeto de conhecimento e de comunicação, enquanto ele se tornava um ser falante e pensante. Natureza e cultura se encontram no universo do signo..., do qual o homem é o articulador" (Pino, 1992, p. 318) .

Consistindo os signos em formas de linguagem, estabelece-se assim a relação entre linguagem e consciência:

...se a linguagem é consciência que existe na prática para os demais e, por conseguinte, para si mesmo, é evidente que a palavra tem um papel destacado não só no desenvolvimento do pensamento, mas também no da consciência em seu conjunto... A consciência se expressa na palavra assim como o sol se expressa em uma gota d'água. A palavra é para a consciência o que o microcosmo é para o macrocosmo, o que a célula é para o organismo, o que é o átomo para o universo. É o microcosmo da consciência. A palavra significativa é o microcosmo da consciência humana. (Vygotski, 1992, pp. 346-347)

A palavra, por sua vez, comporta duas dimensões: a fonética e a semântica. Se a primeira diz respeito à materialidade física do signo, a segunda refere-se às propriedades do signo em si, ou seja, ao fato deste expressar a realidade de forma generalizada. Desse modo, destaca-se a afirmação de Vygotski (1991) de que "a consciência em seu conjunto tem estrutura semântica" (p. 129).

Se o que caracteriza a consciência é o fato de ser semioticamente mediada, a origem social da consciência a que se fez referência anteriormente é explicada pela dimensão inexoravelmente social dos signos. Estes resultam da atividade humana conjunta e sua origem remonta aos primórdios da nossa civilização, quando a luta pela sobrevivência demandou a comunicação entre os próprios homens. Produzidos coletivamente, os signos são particularmente apropriados e, ainda que tornados próprios, trazem a marca do contexto, da época e do grupo social em que se originam.

Os signos, portanto, relacionam inexoravelmente sujeito e sociedade, eu e outro, fato este explicado por Bakhtin (1990) ao referir-se à palavra:

Na realidade, toda palavra comporta duas faces. Ela é determinada tanto pelo fato de que procede de alguém, como pelo fato de que se dirige para alguém. Ela constitui justamente o produto da interação do locutor e do ouvinte. Toda palavra serve de expressão a um em relação ao outro. Através da palavra, defino-me em relação ao outro, isto é, em última análise, em relação à coletividade. A palavra é uma espécie de ponte lançada entre mim e os outros. Se ela se apóia sobre mim numa extremidade, na outra apóia-se sobre o meu interlocutor. A palavra é o território comum do locutor e do interlocutor. (p. 113)

Voltamos, nesse momento, à temática foco deste trabalho: a questão da alteridade. Pelo exposto até então é possível afirmar que, na perspectiva de Vygotski, a dimensão da relação com um outro é fundante do próprio sujeito, pois ainda que "...a sós consigo mesmo, este segue funcionando em comunicação" (Vygotski, 1987, p. 162). Ou seja, a existência de um eu só é possível via relações sociais e, ainda que singular, é sempre e necessariamente marcado pelo encontro permanente com os muitos outros que caracterizam a cultura.

A contribuição de Vygotski à discussão sobre a alteridade consiste, pois, como original no sentido de que explica a base desse encontro: este se funda na utilização dos signos como ferramentas mediadoras da atividade caracteristicamente humana. Produzidos socialmente, estes comportam inexoravelmente tanto uma dimensão coletiva quanto privada, são porta-vozes tanto da história social humana quanto das histórias dos sujeitos que os utilizam.

O encontro com um outro, portanto, entendido enquanto alteridade, é característico de toda e qualquer atividade humana, desde que mediada. Essa distinção se faz necessária porque Vygotski, ao falar sobre as relações sociais, destaca que estas podem ser tanto imediatas quanto mediadas. Se a característica das primeiras é o fato de se basearem nas formas instintivas do movimento e da ação expressiva (Vygotski, 1987), as relações mediatizadas entre as pessoas fundam-se nos signos, os quais possibilitam a comunicação. Duarte (1992) adverte, no entanto, que "... até mesmo a relação aparentemente mais imediata entre dois indivíduos é uma relação mediatizada pelas objetivações genéricas, ou seja, é uma mediação histórica" (p. 133), o que relativiza a afirmação de Vygotski da possibilidade de relações imediatas. Outra questão que merece ser apontada é o fato de que a mediação caracteriza não somente a relação social, mas também a relação consigo mesmo, esta igualmente social, conforme apontado anteriormente.

Diferencia-se, desse modo, as contribuições de Vygotski das apresentadas anteriormente. Se Jodelet (1998) chama a atenção para a necessidade de análises que compreendam os níveis interpessoal e intergrupal, Vygotski destaca uma outra dimensão igualmente relevante: a intrapsicológica, relacionada inexoravelmente à interpsicológica.

Rolnik (1992), por sua vez, chama a atenção para a processualidade intrínseca da subjetividade, resultante do encontro com o outro, não só humano. Este é desestabilizador e, enquanto tal, anunciador do novo, produtor de heterogênese. Apesar das proximidades das explicações no que se refere ao encontro com o/um outro, em Vygotski esse encontro pode promover tanto a heterogênese quanto a homogênese, posto que é uma constante em toda e qualquer atividade humana. Aspectos, talvez, a serem melhor aprofundados a partir de suas reflexões, fundamentalmente as que se referem à dimensão da produção social da diferença, ou às características da atividade humana não consciente/inconsciente, as quais o autor faz referência porém não aprofunda, posto que sua obra é marcada por uma preocupação em explicar a consciência humana ou, mais especificamente, a possibilidade da atividade humana constituir-se como consciente, deliberada, auto-regulada.

À GUISA DE CONCLUSÕES

Em todos os seus escritos, Vygotski tematiza, seja claramente ou de forma velada, a questão da constituição da psique humana. De sua pergunta inicial quando se aproximou do campo psi, de seu interesse em explicar o processo de constituição do ser humano como produtor de cultura, até seu último texto, pensamento e palavra (que se encontra publicado nas Obras Escogidas II, de 1992) onde o sentido emerge como categoria fundamental na explicação tanto das características singulares quanto coletivas de cada pessoa e ao mesmo tempo de todas, a dialeticidade das relações sociais e sua historicidade estão presentes.

Vygotski cala em relação a vários aspectos desse processo que caracteriza a cada um de nós e a todos enquanto gênero, etnia, classe, profissão, saber e não saber, lugares sociais, porém muito fala sobre o movimento em que interesses, vontades e desejos são produzidos nas relações cotidianamente e coletivamente vividas e que são subjetivadas, convertendo-se em diferença, em alteridade.

Cada pessoa, para Vygotski (2000, p. 33), é " um agregado de relações sociais encarnadas num indivíduo", donde se depreende que só há sujeito porque constituído em contextos sociais, os quais, por sua vez, resultam da ação concreta de seres humanos que coletivamente organizam o seu próprio viver.

A assertiva é aparentemente simples e ao mesmo tempo complexa, pois remete a um todo, a um agregado anônimo que está visceralmente interligado – as relações sociais – e que ao mesmo tempo se dissipa em composições múltiplas, em infinitas possibilidades de vir a ser que se objetivam em cada pessoa, que encarnam e marcam a carne que se faz gente, que se faz um(uma), que é indivisível.

Considerar que cada pessoa é um "agregado de relações sociais encarnadas num indivíduo" significa afirmar que, ao mesmo tempo há um "eu" e não há. Não há um "eu" originário, descolado dos outros, da realidade, enfim, do que o constitui como humano e como possibilidade de diferenciação. Não há essência, não há a priori. Por sua vez, cada pessoa concreta descola aspectos da realidade a partir do que significa como relevante, do que a emociona e mobiliza, constituindo assim modos de ser que são ao mesmo tempo sociais e singulares.

A partir das reflexões aqui apresentadas destaca-se, por fim, que, tal como o viajante da epígrafe que reconhece o pouco que é seu no encontro com o até então desconhecido, as contribuições de Vygotski nos permitem afirmar que, mais do que reconhecer o pouco que é seu descobrindo o muito que não teve e o que não terá, o encontro permanente e incessante com um outro possibilita reconhecer a pluralidade do que se é e do que se pode vir a ser.

NOTAS

1ª revisão: 24/11/2004

2ª revisão: 24/08/2005

Aceite final: 24/10/2005

Andréa Vieira Zanella é Professora do Departamento e do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da UFSC, bolsista em produtividade do CNPq. Endereço para correspondência: Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Centro de Filosofia e Ciências Humanas (CFH) Pós-Graduação em Psicologia Campus Trindade, 88010 970, Florianópolis, SC Fone/fax: (48) 3319984 E-mail: azanella@cfh.ufsc.br

  • Bakhtin, M. (1990). Marxismo e filosofia da linguagem. São Paulo: Hucitec.
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  • Vygotski, L. S. (2000). Manuscrito de 1929. Educação & Sociedade, XXI(71), 23-44.

  • 1
    Uma das passagens em que o apresenta é a que segue: "O que move os significados e determina seu desenvolvimento é a cooperação entre consciências. O processo de alteridade da consciência" (Vygotski, 1996, p. 187).
  • 2
    "Como exemplo de instrumentos psicológicos e de seus complexos sistemas podem servir a linguagem, as diferentes formas de numeração e cômputo, os dispositivos mnemotécnicos, o simbolismo algébrico, as obras de arte, a escrita, os diagramas, os mapas, os desenhos, todo gênero de signos convencionais, etc." (Vygotski, 1991, p. 65)
  • 3
    "Com a invenção dos sistemas de signos, o homem armou-se de um poderoso instrumento que lhe permitiu dar à natureza e a si mesmo uma nova forma de existência: uma existência cultural. Suas relações com a natureza e com seus semelhantes alteraram-se profundamente. Com a sua entrada definitiva na "ordem simbólica", o homem rompeu as "barreiras da sensorialidade", tornando o real natural em um real significante, objeto de conhecimento e de comunicação, enquanto ele se tornava um ser falante e pensante. Natureza e cultura se encontram no universo do signo..., do qual o homem é o articulador" (Pino, 1992, p. 318)

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    02 Jan 2006
  • Data do Fascículo
    Ago 2005

Histórico

  • Aceito
    24 Out 2005
  • Recebido
    24 Nov 2004
  • Revisado
    24 Ago 2005
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