Efeito do Suporte Social e Personalidade no Bem-Estar Psicológico em Adolescentes de Diferentes Contextos Relacionais

Effect of Social Support and Personality on Psychological Well-Being in Adolescents from Different Relational Contexts

Catarina Pinheiro Mota Inês Oliveira Sobre os autores

RESUMO

O suporte social e as características da personalidade são evidenciados na literatura como fatores relevantes na promoção do bem-estar psicológico de jovens. Pretendeu-se analisar o efeito preditor do suporte social e da personalidade no bem-estar psicológico, testando ainda o efeito moderador dos contextos relacionais na associação anterior. Tratou-se de um estudo transversal de cariz exploratório. A amostra foi constituída por 350 jovens adolescentes portugueses de ambos os sexos, com idades entre 13 e 18 anos, provenientes de famílias tradicionais (seio familiar apenas com pais e filhos) e em acolhimento residencial. Os resultados sugeriram uma predição do bem-estar psicológico através das dimensões do suporte social e da personalidade. Verificou-se o papel moderador do contexto relacional e foi discutido o papel das ligações afetivas desenvolvidas enquanto fator promotor de bem-estar nos jovens.

Palavras-chave
suporte social; personalidade; bem-estar; adolescentes; família; acolhimento residencial

ABSTRACT

Social support and personality characteristics are highlighted in the literature as relevant factors promoting young psychological well-being. This research aims to analyze the effect of social support and personality on psychological well-being, also testing the moderating effect of relational context on the previous association. It was conducted a cross-sectional and exploratory study. The sample was composed of 350 young Portuguese adolescents of both sexes, aged between 13 and 18 years, from traditional families (family only with parents and child) and residential care. The results suggested there was a prediction of psychological well-being through the dimensions of social support and personality. There was a moderating role of relational context. The results were discussed, highlighting the role of affective bonds developed as well-being promoting factors in young people.

Keywords
social support; personality; well-being; adolescents; family; residencial care

O bem-estar tem vindo a destacar-se na literatura científica, sendo alvo de inúmeras investigações no que concerne a duas perspectivas teóricas de base: o bem-estar subjetivo e o bem-estar psicológico (Garcia, 2011Garcia, D. (2011). Two models of personality and well-being among adolescents. Personality and Individual Differences, 50(8), 1208-1212. https://doi.org/10.1016/j.paid.2011.02.009
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; Ryan & Deci, 2001Ryan, R., & Deci, E. (2001). On happiness and human potentials: A review of research on hedonic and eudaimonic well-being. Annual Review of Psychology,52, 141-166. https://doi.org/10.1146/annurev.psych.52.1.141
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; Ryff, 1989Ryff, C. (1989). Happiness is everything, or is it? Explorations on the meaning of psychological well-being. Journal of Personality and Social Psychology, 57(6), 1069-1081. https://doi.org/10.1037/0022-3514.57.6.1069
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; Ryff & Keyes, 1995Ryff, C., & Keyes, C. (1995). The structure of psychological well-being revisited. Journal of Personality and Social Psychology, 69(4), 719-727. https://doi.org/10.1037/0022-3514.69.4.719
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). O bem-estar subjetivo (ou hedónico) advém de uma reflexão filosófica sobre o bem-estar que engloba uma dimensão cognitiva, a satisfação com a vida, e uma dimensão emocional, constituída por afeto positivo e reduzido afeto negativo (Diener et al., 2002Diener, E., Lucas, R., & Oishi, S. (2002). Subjective well-being: The science of happiness and life satisfaction. In C. Snyder & S. Lopez (Eds.), Handbook of positive psychology (pp. 63-73). Oxford University Press.; Siqueira & Padovam, 2008Siqueira, M., & Padovam, V. (2008). Bases teóricas de bem-estar subjetivo, bem-estar psicológico e bem-estar no trabalho. Psicologia: Teoria e Pesquisa, 24(2), 201-209.).

Por outro lado, o bem-estar psicológico (eudaimónico) consiste no pleno funcionamento das potencialidades de uma pessoa, ou seja, na capacidade de pensar, usar o raciocínio e o bom senso (Freire et al., 2013Freire, T., Zenhas, F., Tavares, D., & Iglésias, C. (2013). Felicidade hedónica e eudaimónica: Um estudo com adolescentes portugueses. Análise Psicológica, 4(XXXI), 329-342 https://doi.org/10.14417/S0870-8231201300040005.
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; Keyes et al., 2002Keyes, C., Shmotkin, D., & Ryff, C. (2002). Optimizing well-being: The empirical encounter of two traditions. Journal of Personality and Social Psychology, 82(6), 1007-1022. https://doi.org/10.1037//0022-3514.82.6.1007
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). De forma geral, os estudos relativos ao bem-estar associam-se à felicidade e tendem a adotar uma destas conceptualizações: hedónica ou eudaimónica.

O estudo de Delle et al. (2011Delle Fave, A., Brdar, I., Freire, T., Vella-Brodrick, D., & Wissing, M. (2011). The eudaimonic and hedonic components of happiness: Qualitative and quantitative Findings. Social Indicators Research, 100, 185-207. ) com adultos de vários países integrou ambas as conceptualizações do bem-estar. O estudo destaca que a felicidade foi definida primeiramente como uma condição resultante da harmonia e equilíbrio psicológicos. Autores como Bourke e Geldens (2007Bourke, L., & Geldens, P. (2007). Subjective wellbeing and its meaning for young people in a rural Australian center. Social Indicators Research, 82, 165-187. https://doi.org/10.1007/s11205-006-9031-0
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) referem, ainda, que o bem-estar na adolescência tem sido perspectivado como um indicador da qualidade da experiência de vida diária. Larson (2000Larson, R. (2000). Toward a psychology of positive youth development. American Psychologist, 55(1), 170-183. https://doi.org/10.1037/0003-066X.55.1.170
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) sugere que os adolescentes precisam de se sentir felizes, motivados, perceber significado em suas vidas e se ver como capazes e competentes, de forma a responderem às exigências do meio e a se desenvolverem positivamente.

Harter (1999Harter, S. (1999). The construction of the self: A developmental perspective. The Guilford Press.) destaca precisamente o bem-estar psicológico ou a felicidade eudaimónica dos adolescentes pelas características desenvolvimentais que lhes estão associadas, designadamente, a crescente autonomização e independência, as relações interpessoais, a adaptação às mudanças físicas e psicológicas, a expressão emocional e as mudanças cognitivas e sociocognitivas. Ryff e Singer (2008Ryff, C. D., & Singer, B. H. (2008). Know thyself and become what you are: A eudaimonic approach to psychological well-being. Journal of Happiness Studies, 9, 13-39. https://doi.org/10.1007/s10902-006-9019-0
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) reforçam a ideia de que o bem-estar psicológico tem sido associado a indicadores de funcionamento psicológico positivo ao nível da identidade, regulação emocional, estratégias de coping, cognições, objetivos pessoais, traços de personalidade, comparação social, espiritualidade e acontecimentos de vida, apresentando ainda correlatos neurobiológicos.

No presente estudo, será dado enfoque ao bem-estar psicológico que assenta num modelo multidimensional, baseado numa concepção de maturidade, isto é, na qualidade ou virtude de cada indivíduo em procurar desenvolver o seu potencial para a excelência pessoal (e.g., Coleta & Coleta, 2006Coleta, J., & Coleta, M. (2006). Felicidade, bem-estar subjetivo e comportamento académico de estudantes universitários. Psicologia em Estudo, 11(3), 533-539.; Ryan & Deci, 2001Ryan, R., & Deci, E. (2001). On happiness and human potentials: A review of research on hedonic and eudaimonic well-being. Annual Review of Psychology,52, 141-166. https://doi.org/10.1146/annurev.psych.52.1.141
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; Siqueira & Padovam, 2008Siqueira, M., & Padovam, V. (2008). Bases teóricas de bem-estar subjetivo, bem-estar psicológico e bem-estar no trabalho. Psicologia: Teoria e Pesquisa, 24(2), 201-209.). Assim, o bem-estar psicológico refere-se a um conjunto de recursos psicológicos (processos cognitivos e emocionais) que o indivíduo dispõe, englobando dimensões psicológicas como a aceitação pessoal, as relações positivas, a autonomia, o domínio do ambiente, o sentido de vida e o crescimento pessoal (Ryff, 1989Ryff, C. (1989). Happiness is everything, or is it? Explorations on the meaning of psychological well-being. Journal of Personality and Social Psychology, 57(6), 1069-1081. https://doi.org/10.1037/0022-3514.57.6.1069
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; Ryff & Keyes, 1995Ryff, C., & Keyes, C. (1995). The structure of psychological well-being revisited. Journal of Personality and Social Psychology, 69(4), 719-727. https://doi.org/10.1037/0022-3514.69.4.719
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).

Nessa mesma perspectiva, Massé et al. (1998Massé, R., Poulin, C., Dassa, C., Lambert, J., Bélair, S., & Battaglini, A. (1998). Élaboration et validation d’un outil de mesure du bien-être psychologique: L’É.M.M.B.E.P. Revue Canadienne de Santé Publique, 89(5), 352-357. ) assumem que o bem-estar psicológico se baseia na autorrealização e crescimento pessoal, remetendo para a presença de sinais de felicidade, autoestima, autocontrole, equilíbrio mental, sociabilidade e envolvimento social manifestados pelo indivíduo. A literatura tem destacado a importância de fatores na promoção do bem-estar psicológico dos jovens adolescentes, como a percepção do suporte social e a personalidade (Baptista & Santos, 2008Baptista, M. N., & Santos, T. M. M. (2008). Suporte familiar, auto eficácia e lócus de controle: Evidências de validade entre os construtos. Psicologia Ciência e Profissão, 28(2), 260-271. https://doi.org/10.1590/S1414-98932008000200004.
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; Dick & Holtzman, 2013Dick, K. T., & Holtzman, S. (2013). Understanding humor styles and well-being: The importance of social relationships and gender. Personality and Individual Differences, 55(1), 53-58. https://doi.org/10.1016/j.paid.2013.01.023
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; Gulaçti, 2010Gulaçti, F. (2010). The effect of perceived social support on subjective well-being. Procedia Social and Behavioral Sciences, 2, 3844-3849. https://doi.org/10.1016/j.sbspro.2010.03.602
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; Heponiemi et al., 2006Heponiemi, T., Elovainio, M., Kivimaki, M., Pulkki, L., Puttonen, S., & Keltikangas-Jarvinen, L. (2006). The longitudinal effects of social support and hostility on depressive tendencies. Social Science & Medicine, 63(5), 1374-1382. https://doi.org/10.1016/j.socscimed.2006.03.036
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; Jibeen & Khalid, 2010Jibeen, T., & Khalid, R. (2010). Predictors of psychological well-being of Pakistani immigrants in Toronto, Canada. International Journal of Intercultural Relations, 34(5), 452-464. https://doi.org/10.1016/j.ijintrel.2010.04.010
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; Lavasani et al., 2011Lavasani, M. G., Borhanzadeh, S., Afzali, L., & Hejazi, E. (2011). The relationship between perceived parenting styles, social support with psychological well- being. Procedia - Social and Behavioral Sciences, 15, 1852-1856. https://doi.org/10.1016/j.sbspro.2011.04.014
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; Prinzie et al., 2009Prinzie, P. Dekovic, M. Reijntjes, A. H. A. Stams, G. J. J. M., & Belsky, J. (2009). The relations between parents’ big five personality factors and parenting: A meta-analytic review.Journal of Personality and Social Psychology, 97(2), 351-362. https://doi.org/10.1037/a0015823
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; Ramalho, 2008Ramalho, C. (2008). (Os) nós e os laços: vinculação, suporte social e bem-estar em jovens adultos (Dissertação de mestrado não publicada). Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Lisboa, Lisboa, Portugal.; Rodrigues & Madeira, 2009Rodrigues, V. B., & Madeira, M. (2009). Suporte social e saúde mental: Revisão de literatura. Revista da Faculdade de Ciências e Saúde, 6, 390-399.; Sarason & Sarason, 2009Sarason, I. G., & Sarason, B. R. (2009). Social support: Mapping the construct. Journal of Social and Personal Relationships, 26, 113-120. https://doi.org/10.1177/0265407509105526
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).

Alguns estudos evidenciam que os indivíduos com maior rede de apoio social, amigos e contatos reportam maior bem-estar psicológico, apresentando níveis superiores de felicidade e satisfação com a vida (e.g., Chu et al., 2010Chu, P., Saucier, D., & Hafner, E. (2010). Meta-analysis of the relationships between social support and well-being in children and adolescents. Journal of Social & Clinical Psychology, 29(6), 624-645. https://doi.org/10.1521/jscp.2010.29.6.624.
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; Tomé et al., 2011Tomé, G., Camacho, I., Matos, M. G., & Diniz, J. A. (2011). A influência da comunicação com a família e grupo de pares no bem-estar e nos comportamentos de risco nos adolescentes portugueses. Psicologia: Reflexão e Crítica, 24(4), 747-756.). Dessa forma, é pertinente salvaguardar a relevância que as ligações de afetividade aduzem no desenvolvimento psicológico dos jovens adolescentes. De acordo com a Teoria da Vinculação preconizada por Bowlby (1969Bowlby, J. (1969). Attachment and loss. Vol.1: Attachment. Basic Books.), o ser humano nasce com uma predisposição inata para estabelecer laços de afetividade com as figuras significativas, as quais devem proporcionar confiança, proteção e bem-estar, de modo a desenvolver um sentido de segurança pessoal. Assim, quando a relação de proximidade com as figuras primordiais de cuidado é pautada por afeto e responsividade, os indivíduos tendem a sentir-se mais disponíveis para explorarem o seu meio envolvente (Ainsworth, 1989Ainsworth, M. (1989). Attachments beyond infancy. American Psychologist, 44, 709-716. https://doi.org/10.1037/0003-066X.44.4.709
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; Bowlby, 1969Bowlby, J. (1969). Attachment and loss. Vol.1: Attachment. Basic Books.).

É ainda através da qualidade da relação obtida com as figuras primordiais prestadoras de cuidados que a criança tende a assimilar as representações, sentimentos e crenças, contribuindo para a elaboração dos modelos internos dinâmicos. Os modelos internos dinâmicos permitem orientar o comportamento dos indivíduos, proporcionando uma adaptação aos diferentes contextos e podendo ser reestruturados ao longo do ciclo vital, através do restabelecimento de relações de afetividade com outras figuras de referência (Bowlby, 1988Bowlby, J. (1988). A secure base: Parent-child attachment and healthy human development. Basic Books.). Segundo Ainsworth (1969Ainsworth, M. (1969). Object relations, dependency, and attachment: Theoretical review of the infant-mother relationship. Child Development, 40, 969-1026. ). As figuras primordiais de afeto tendem a incluir pessoas do contexto familiar, nomeadamente indivíduos da família biológica. Todavia, as relações de proximidade tendem a desenvolver-se progressivamente ao longo do ciclo vital e vão sendo direcionadas para outras figuras significativas (Bowlby, 1988Bowlby, J. (1988). A secure base: Parent-child attachment and healthy human development. Basic Books.; Pratta & Santos, 2007Pratta, E., & Santos, M. (2007). Família e adolescência: A influência do contexto familiar no desenvolvimento psicológico dos seus membros. Psicologia em Estudo, 12(2), 247-256.).

Nesse sentido, Gulaçti (2010Gulaçti, F. (2010). The effect of perceived social support on subjective well-being. Procedia Social and Behavioral Sciences, 2, 3844-3849. https://doi.org/10.1016/j.sbspro.2010.03.602
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) evidencia que o suporte social se inicia no contexto familiar, expandindo-se a todos os contextos do indivíduo. Coob (1976Coob, S. (1976). Social support as a moderator of life stress. Psychosomatic Medicine, 38, 300-314. ) apresenta uma abordagem do suporte social de acordo com três aspectos: (a) a percepção que o sujeito tem de que é amado e recebe a preocupação por parte dos outros; (b) a crença que o sujeito tem de que é apreciado e valorizado; (c) o sentimento de pertença a uma rede de comunicação e de obrigações mútuas. Antunes e Fontaine (1995Antunes, C., & Fontaine, A. (1995). Diferenças na percepção de apoio social na adolescência: Adaptação de uma escala, o “Social Support Appraisals” (SSA) de Vaux et al. (1980). Cadernos de Consulta Psicológica, 10/11, 115-127.) sublinham que o desenvolvimento de uma rede social ocorre ao longo da vida de cada indivíduo, sendo que este influencia e é influenciado pelo contexto.

Contudo, mais importante do que o apoio social efetivo que cada indivíduo recebe é a percepção que realiza deste (Antunes & Fontaine, 2005Antunes, C., & Fontaine, A. (2005). Percepção de apoio social na adolescência: Análise fatorial confirmatória da escala social support appraisals. Paidéia, 15(32), 355-366.). As redes sociais e o apoio social são importantes fatores num período de desenvolvimento como a adolescência, no qual ocorre um aumento nas redes sociais, podendo o apoio e a influência dessas redes variar ao longo do tempo (Antunes & Fontaine, 2005Antunes, C., & Fontaine, A. (2005). Percepção de apoio social na adolescência: Análise fatorial confirmatória da escala social support appraisals. Paidéia, 15(32), 355-366.).

Assim, é possível inferir que o seio familiar pode constituir uma fonte de suporte para que os indivíduos apresentem níveis de bem-estar elevados. Porém, quando ocorrem vivências emocionais adversas, nomeadamente transições e perdas significativas, dentre as quais se inclui o processo de acolhimento residencial, a rede de suporte social tende a diminuir pela menor presença e constância de contato, podendo despoletar problemas emocionais nos jovens (Hetch & Silva, 2009; Sarason & Sarason, 2009Sarason, I. G., & Sarason, B. R. (2009). Social support: Mapping the construct. Journal of Social and Personal Relationships, 26, 113-120. https://doi.org/10.1177/0265407509105526
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; Shaw et al., 2007Shaw, B. A., Krause, N., Liang, J., & Bennett, J. (2007). Gender differences in social support and physical health. Health Psychology, 10(2), 102-111. https://doi.org/10.1037/0278-6133.10.2.102
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; Siqueira et al., 2006Siqueira, A., & Dell’Aglio, D. (2006). O impacto da institucionalização na infância e na adolescência: Uma revisão de literatura. Psicologia & Sociedade, 18(1), 71-80.). Segundo Attar-Schwartz (2008Attar-Schwartz, J. (2008). Emotional, behavioral and social problems among Israeli children in residential care: A multi-level analysis. Children and Youth Services Review, 30(2), 229-248. https://doi.org/10.1016/j.childyouth.2007.09.009.
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), as crianças e jovens em acolhimento residencial constituem um grupo de risco para o despoletar de problemas psicológicos, comportamentais e sociais, comparativamente aos que provêm de famílias tradicionais.

Para crianças e adolescentes em acolhimento residencial, o principal suporte social transcende o núcleo familiar, englobando membros da própria instituição, como os funcionários, os monitores, os professores e outros jovens adolescentes com os quais convivem na instituição (Calheiros & Patrício, 2014Calheiros, M. M., & Patrício, J. N. (2014). Assessment of needs in residential care: Perspectives of youth and professionals. Journal of Child and Family Studies, 23(3), 461-474. https://doi.org/10.1007/s10826-012-9702-1
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; Mota & Matos, 2014Mota, C. P., & Matos, P. M. (2014). Padres, profesores y pares: Contribuciones para la autoestima y coping en los adolescentes. Anales de Psicologia, 30(2), 656-666. https://doi.org/10.6018/analesps.30.2.161521
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; Siqueira & Dell’Aglio, 2006Siqueira, A., & Dell’Aglio, D. (2006). O impacto da institucionalização na infância e na adolescência: Uma revisão de literatura. Psicologia & Sociedade, 18(1), 71-80.). Siqueira et al. (2009Siqueira, A., Tubino, C., Schwarz, C., & Dell’ Aglio, D. (2009). Percepção das figuras parentais na rede de apoio de crianças e jovens institucionalizados. Arquivos Brasileiros de Psicologia, 61(1), 176-190.) evidenciaram que as figuras da instituição assumem um papel relevante no desenvolvimento afetivo das crianças e jovens, constituindo-se como o maior suporte aquando da transição e permanência na instituição.

O acolhimento residencial, nem sempre bem aceito, parece despoletar inúmeras mudanças na vida das crianças e jovens adolescentes, podendo gerar sentimentos negativos de perda, solidão e abandono (e.g. Fante & Cassab, 2007Fante, A. P., & Cassab, L. A. (2007). Convivência familiar: Um direito à criança e ao adolescente institucionalizado. Revista Textos & Contextos, 6(1), 154-174. ; Mota & Matos, 2008Mota, C. P., & Matos, P. M. (2008). Adolescência e institucionalização numa perspectiva de vinculação. Psicologia & Sociedade, 20(3), 367-377.; Siqueira & Dell’Aglio, 2006Siqueira, A., & Dell’Aglio, D. (2006). O impacto da institucionalização na infância e na adolescência: Uma revisão de literatura. Psicologia & Sociedade, 18(1), 71-80.). Porém, apesar da complexidade nas vivências dos jovens adolescentes, a qualidade das relações desenvolvidas na instituição parece facilitar o processo adaptativo, promovendo a resiliência e o bem-estar dos jovens (e.g. Calheiros, & Patrício, 2014Calheiros, M. M., & Patrício, J. N. (2014). Assessment of needs in residential care: Perspectives of youth and professionals. Journal of Child and Family Studies, 23(3), 461-474. https://doi.org/10.1007/s10826-012-9702-1
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; Mota & Matos, 2015Mota, C. P., & Matos, P. M. (2015). Adolescents in institutional care: Significant adults, resilience and well-being. Child and Youth Care Forum, 44(2), 209-224. https://doi.org/10.1007/s10566-014-9278-6
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; Salina-Brandão & Williams, 2009Salina-Brandão, A., & Williams, L. C. A. (2009). O Abrigo como fator de risco ou proteção: Avaliação institucional e indicadores de qualidade. Psicologia: Reflexão e Crítica, 22(3), 334-343. ).

Mota e Matos (2010Mota, C. P., & Matos, P. M. (2010). Adolescentes institucionalizados: O papel das figuras significativas na predição da assertividade, empatia e autocontrolo. Análise Psicológica, 2(28), 245-254.) acrescentam que o acolhimento residencial representa um contexto para os jovens desenvolverem novas relações de proximidade, podendo promover a reorganização interna dos modelos positivos de si e do outro. Alguns estudos evidenciam que apesar das vicissitudes inerentes à transição, a institucionalização parece ser um contributo para o bem-estar dos adolescentes, na medida em que proporciona uma oportunidade para o estabelecimento de novas relações de afeto (e.g. Dalbem & Dell’Aglio, 2008Dalbem, J. X., & Dell’Aglio, D. D. (2008). Apego em adolescentes institucionalizadas: Processos de resiliência na formação de novos vínculos afectivos. Psico, 39(1), 33-40.; Mota & Matos, 2015Mota, C. P., & Matos, P. M. (2015). Adolescents in institutional care: Significant adults, resilience and well-being. Child and Youth Care Forum, 44(2), 209-224. https://doi.org/10.1007/s10566-014-9278-6
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; Salina-Brandão & Williams, 2009Salina-Brandão, A., & Williams, L. C. A. (2009). O Abrigo como fator de risco ou proteção: Avaliação institucional e indicadores de qualidade. Psicologia: Reflexão e Crítica, 22(3), 334-343. ).

A literatura sugere ainda que o bem-estar psicológico parece ser explicado por fatores de personalidade (e.g., Landa et al., 2010Landa, J. M. A., Martos, M. P., & Lopez-Zafra, E. (2010). Emotional intelligence and personality traits as predictors of psychological well-being in Spanish undergraduates. Social Behavior and Personality, 38(6), 783-793. https://doi.org/10.2224/sbp.2010.38.6.783
https://doi.org/10.2224/sbp.2010.38.6.78...
; James et al., 2012James, C., Bore, M., & Zito, S. (2012). Emotional intelligence and personality as predictors of psychological well-being. Journal of Psychoeducational Assessment, 30(4), 425-438. https://doi.org/10.1177/0734282912449448
https://doi.org/10.1177/0734282912449448...
; Kokko et al., 2013Kokko, K., Tolvanen, A., & Pulkkinen, L. (2013). Associations between personality traits in psychological well-being across time in middle adulthood. Journal of Research in Personality, 47(6), 748-756. https://doi.org/123456789/47468
https://doi.org/123456789/47468...
; Salami, 2011Salami, S. O. (2011). Personality and psychological well-being of adolescents: The moderating role of emotional intelligence. Social Behavior and Personality, 39(6), 785-794. https://doi.org/10.2224/sbp.2011.39.6.785
https://doi.org/10.2224/sbp.2011.39.6.78...
). Entenda-se por personalidade um construto que corresponde a padrões de comportamento, pensamentos, sentimentos e atitudes inerentes a um indivíduo e que tende a variar em cada sujeito (Chapman et al., 2007; Hall et al., 2000Hall, C., Lindzey, G., & Campbell, J. (2000). Teorias da personalidade (4ª ed.). Artmed.; Schmitt et al., 2008Schmitt, D. P., Realo, A., Voracek, M., & Allik, J. (2008). Why can't a man be more like a woman? Sex differences in Big Five personality traits across 55 cultures. Journal of Economic Psychology, 94(1), 168-182. https://doi.org/10.1037/0022-3514.94.1.168
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). Costa e McCrae (1992Costa, P.T., & McCrae, R. R.. (1992). NEO-PI-R professional manual. PAR.) desenvolvem o modelo da personalidade com base nos seguintes cinco grandes fatores ou dimensões: extroversão, neuroticismo, abertura, amabilidade e conscienciosidade.

Trata-se de um modelo compreensivo de traços de personalidade que está inerente a uma organização da personalidade por hierarquia, na medida em que cada uma das cinco grandes dimensões contém um conjunto de traços associados. As definições dos cinco fatores representam uma tentativa de descrever o elemento comum entre as características, ou subfatores, dentro de cada categoria. A Extroversão (E) prende-se com o facto de o indivíduo ser assertivo, socialmente ativo, dominante, expressivo, comunicativo e potenciado por emoções positivas. Indivíduos introvertidos tendem a ser mais retraídos, submissos, inibidos e a evitar a companhia de outras pessoas.

O Neuroticismo (N) relaciona-se com a ansiedade, a sensibilidade, a tensão, a melancolia, a depressão, a impulsividade, a raiva e os afetos negativos na generalidade, os quais representam indicadores de instabilidade emocional. A Abertura à experiência (O de Openness) diz respeito a traços que envolvem a curiosidade intelectual, a disponibilidade, a criatividade, a flexibilidade, a complexidade e a abertura a experiências novas, referindo-se ao quanto as pessoas estão dispostas a fazer ajustes de acordo com novas ideias ou situações. A Amabilidade (A) remete para tendências pró-sociais, como a generosidade, a lealdade, a confiança, a cooperação, a modéstia, a flexibilidade e o altruísmo. Por último, a Conscienciosidade (C) está relacionada à competência, cautela, determinação, persistência, disciplina e organização (Costa & McCrae, 2004Costa, P.T., & McCrae, R. R. (2004). A contemplated revision of the NEO Five-Factor Inventory. Personality and individual differences, 36, 587-596. https://doi.org/10.1016/S0191-8869(03)00118-1
https://doi.org/10.1016/S0191-8869(03)00...
).

Ainda que a relação entre bem-estar psicológico e traços de personalidade não seja muito consistente, tem-se averiguado que algumas dimensões da personalidade, designadamente a extroversão, a conscienciosidade e o neuroticismo, têm um papel preditivo sobre o bem-estar psicológico, com especial ênfase na dimensão felicidade (e.g. Kokko et al., 2013Kokko, K., Tolvanen, A., & Pulkkinen, L. (2013). Associations between personality traits in psychological well-being across time in middle adulthood. Journal of Research in Personality, 47(6), 748-756. https://doi.org/123456789/47468
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; Lu et al., 2014Lu, W., Wang, Z., Liu, Y., & Zhang, H. (2014). Resilience as a mediator between extraversion, neuroticism and happiness, PA and NA. Personality and Individual Differences, 63, 128-133. https://doi.org/10.1016/j.paid.2014.01.015
https://doi.org/10.1016/j.paid.2014.01.0...
; Purvis et al., 2011Purvis, A., Howell, R. T., & Iyer, R. (2011). Exploring the role of personality in the relationship between maximization and well-being. Personality and Individual Differences, 50(3), 370-375. https://doi.org/10.1016/j.paid.2010.10.023
https://doi.org/10.1016/j.paid.2010.10.0...
).

Embora a maioria dos estudos sejam efetuados com a população adulta, a relação entre a personalidade e o desenvolvimento de bem-estar psicológico dos jovens parece denotar uma similitude nos resultados. Kokko e colaboradores (2013Kokko, K., Tolvanen, A., & Pulkkinen, L. (2013). Associations between personality traits in psychological well-being across time in middle adulthood. Journal of Research in Personality, 47(6), 748-756. https://doi.org/123456789/47468
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) realizaram um estudo com adultos entre os 33 e os 50 anos que visava averiguar as associações entre traços de personalidade e o desenvolvimento de bem-estar psicológico, no qual evidenciaram que níveis baixos de neuroticismo e altos de extroversão e abertura à experiência tendem a correlacionar-se com maior bem-estar psicológico. James e colaboradores (2012James, C., Bore, M., & Zito, S. (2012). Emotional intelligence and personality as predictors of psychological well-being. Journal of Psychoeducational Assessment, 30(4), 425-438. https://doi.org/10.1177/0734282912449448
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) corroboram esta perspectiva num estudo realizado com 150 jovens adultos, verificando uma associação positiva significativa do bem-estar com a conscienciosidade, amabilidade e extroversão, assim como uma negativa com o neuroticismo. Os autores destacam o efeito preditor negativo do neuroticismo no bem-estar psicológico.

Outros estudos, como os de Landa et al. (2010Landa, J. M. A., Martos, M. P., & Lopez-Zafra, E. (2010). Emotional intelligence and personality traits as predictors of psychological well-being in Spanish undergraduates. Social Behavior and Personality, 38(6), 783-793. https://doi.org/10.2224/sbp.2010.38.6.783
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) e Schmutte e Ryff (1997Schmutte, P. S., & Ryff, C. D. (1997). Personality and well-being: Reexamining methods and meanings. Journal of Personality and Social Psychology, 73, 549-559. https://doi.org/10.1037/0022-3514.73.3.549
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) encontram resultados semelhantes com jovens, em que baixos níveis de neuroticismo e elevados níveis de extroversão se associam a maior relato de bem-estar psicológico. Já Abbott et al. (2008Abbott, R. A., Croudace, T. J., Ploubidis, G. B., Kuh, D., Richards, M., & Huppert, F. A. (2008). The relationship between early personality and midlife psychological well-being: Evidence from a UK birth cohort study. Social Psychiatry and Psychiatric Epidemiology, 43(9), 679-687. https://doi.org/10.1007/s00127-008-0355-8
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) reportam um estudo longitudinal com 1134 mulheres, no qual a avaliação da personalidade aos 16 e 26 anos de idade foi associada ao bem-estar psicológico aos 52 anos de idade. Os resultados evidenciaram que o neuroticismo em jovens predizia baixos níveis de bem-estar psicológico nas mulheres; por contraste, a extroversão foi considerada uma variável preditora do bem-estar.

A literatura evidencia algumas lacunas significativas no que concerne à relação entre as variáveis do presente estudo, especialmente no que concerne à vivência dos jovens em diferentes contextos relacionais. Nesta medida, considera-se oportuno desenvolver uma investigação que averigue esta temática, principalmente no que concerne ao papel da personalidade no bem-estar psicológico de jovens adolescentes em situação de potencial vulnerabilidade afetiva, nomeadamente no contexto de acolhimento residencial. Um passado marcado por trajetos emocionais descontinuados e um presente caracterizado pela transição para o contexto institucional pode ser um fator de risco para adolescentes (Fergus & Zimmerman, 2005Fergus, S., & Zimmerman, M. A. (2005). Adolescent resilience: A framework for understanding healthy development in the face of risk. Annual Review of Public Health, 26, 399-419. https://doi.org/10.1146/annurev.publhealth.26.021304.144357
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; Johnson & Gunnar, 2011Johnson, D. E., & Gunnar, M. R. (2011). Growth failure in institutionalized children. In R. B. McCall, M. H. van IJzendoorn, F. Juffer, C. J. Groark, & V. K. Groza (Eds.), Children without permanent parents: Research, practice, and policy. Monographs of the Society for Research in Child Development, 76(4, Serial No. 301), 92-126.). Variáveis pessoais dos jovens e a capacidade de resposta dos cuidadores podem, assim, constituir fatores de proteção face ao risco e potenciadores de bem-estar (Mota & Matos, 2015Mota, C. P., & Matos, P. M. (2015). Adolescents in institutional care: Significant adults, resilience and well-being. Child and Youth Care Forum, 44(2), 209-224. https://doi.org/10.1007/s10566-014-9278-6
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).

O presente estudo tem como objetivo geral analisar em que medida a personalidade e o suporte social são preditores do bem-estar psicológico, testando ainda o efeito moderador do contexto relacional na associação anterior. Espera-se que os preditores do bem-estar psicológico se apresentem de forma sequencial, destacando-se nesta proposta a personalidade enquanto preditor mais significativo neste processo, pelo que o suporte social dos jovens, assim como o sexo, contexto relacional e idade serão controlados quanto ao seu efeito. Prevê-se que o neuroticismo, por um lado, e a extroversão e a conscienciosidade, por outro, mostrem-se associados de forma negativa e positiva ao bem-estar psicológico, respectivamente.

De acordo com a literatura, espera-se que o suporte social, em especial dos amigos e outras figuras significativas, exerça um efeito preditor positivo no bem-estar psicológico (Landa et al., 2010Landa, J. M. A., Martos, M. P., & Lopez-Zafra, E. (2010). Emotional intelligence and personality traits as predictors of psychological well-being in Spanish undergraduates. Social Behavior and Personality, 38(6), 783-793. https://doi.org/10.2224/sbp.2010.38.6.783
https://doi.org/10.2224/sbp.2010.38.6.78...
; Schmutte & Ryff, 1997Schmutte, P. S., & Ryff, C. D. (1997). Personality and well-being: Reexamining methods and meanings. Journal of Personality and Social Psychology, 73, 549-559. https://doi.org/10.1037/0022-3514.73.3.549
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). Espera-se, ainda, conforme reportado na literatura, que existam efeitos preditores do sexo e do contexto relacional no bem-estar psicológico (e.g., Fernandes & Vasconcelos-Raposo, 2008Fernandes, H., & Vasconcelos-Raposo, J. (2008). O bem-estar psicológico em adolescentes: Uma abordagem centrada no florescimento humano. CEDAFES.; Robins & Trzesniewski, 2005Robins, R., & Trzesniewski, K. (2005). Self-esteem development across the lifespan. American Psychological Society, 3, 158-162. https://doi.org/10.1111/j.0963-7214.2005.00353
https://doi.org/10.1111/j.0963-7214.2005...
; Silva et al. 2007Silva, R. A., Horta, B. L., Pontes, L. M., Faria, A. D., Souza, L. D. M., Cruzeiro, A. L. S., & Pinheiro, R. T. (2007). Bem-estar psicológico e adolescência: Fatores associados. Caderno de Saúde Pública, 23(5), 1113-1118.; Souza et al., 2012Souza, L., Maragalhoni, T., Quincoses, M., Jansen, K., Cruzeiro, A., Ores, L., Silva, R., & Pinheiro, R. (2012). Bem-estar psicológico de jovens de 18 a 24 anos: Fatores associados. Caderno de Saúde Pública, 28(6), 1167-1174.).

Numa perspectiva exploratória, será testado se o contexto relacional exerce um papel moderador na associação entre a personalidade e o bem-estar dos jovens. Attar-Schwartz (2008Attar-Schwartz, J. (2008). Emotional, behavioral and social problems among Israeli children in residential care: A multi-level analysis. Children and Youth Services Review, 30(2), 229-248. https://doi.org/10.1016/j.childyouth.2007.09.009.
https://doi.org/10.1016/j.childyouth.200...
) e Simsek et al. (2007Simsek, Z., Erol, N., Öztop, D., & Münir, K. (2007). Prevalence and predictors of emotional and behavioral problems reported by teachers among institutionally reared children and adolescents in Turkish orphanages compared with community controls. Children and Youth Services Review, 29, 883-899. https://doi.org/10.1016/j.childyouth.2007.01.004
https://doi.org/10.1016/j.childyouth.200...
) suportam a ideia de que os jovens de famílias tradicionais (seio familiar composto por pais e filhos) poderão apresentar menor exposição face ao risco, comparativamente a jovens em acolhimento residencial, criando melhores condições para estabilidade na construção da personalidade. Vivências emocionais adversas inerentes à transição para o acolhimento residencial podem contribuir para níveis inferiores de bem-estar psicológico (Amado et al., 2003Amado, J., Ribeiro, F., Limão, I., & Pacheco, V. (2003). A escola e os alunos institucionalizados. Departamento de Educação Básica.; Mota & Matos, 2010Mota, C. P., & Matos, P. M. (2010). Adolescentes institucionalizados: O papel das figuras significativas na predição da assertividade, empatia e autocontrolo. Análise Psicológica, 2(28), 245-254., 2015Mota, C. P., & Matos, P. M. (2015). Adolescents in institutional care: Significant adults, resilience and well-being. Child and Youth Care Forum, 44(2), 209-224. https://doi.org/10.1007/s10566-014-9278-6
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).

Método

Participantes

Participaram deste estudo 350 adolescentes portugueses, dentre os quais 125 vivem atualmente em regime de acolhimento residencial (35.7%) e 225 são de famílias tradicionais (a viver atualmente no seio familiar composto apenas por pais e filhos) (64.3%). Os jovens compreendem idades entre os 13 e os 18 anos (M = 14.7; DP = 1.61), sendo 178 (50.9%) do sexo feminino e 172 (49.1%) do sexo masculino. Apresentam uma escolaridade que varia entre o 5º e 12º ano (M = 8.8; DP = 1.66), com um rendimento acadêmico médio de 3.08 (DP = .94), numa escala que variou entre 1 (insuficiente) e 5 (excelente). Os jovens em regime de acolhimento residencial apresentam uma permanência na instituição entre 1 mês e 12 anos (M = 4.04 anos; DP = 3.19), sendo que 39 (31.2%) vivem há menos de 1 ano; 19 (15.2%) entre 1 e 3 anos; 67 (53.6%) há mais de 3 anos. Neste contexto, 107 (85.6%) mantêm contato com a família biológica e 17 (13.6%) não tem contato.

Instrumentos

Questionário Sociodemográfico

Permitiu obter informações individuais dos participantes, tais como o sexo, a idade e o contexto relacional.

Questionário de Avaliação de Suporte Social

Para avaliar a percepção do suporte social, foi usado o Questionário de Avaliação de Suporte Social (Social Support Appraisals; Vaux, 1986; adaptação de Antunes & Fontaine, 1995Antunes, C., & Fontaine, A. (1995). Diferenças na percepção de apoio social na adolescência: Adaptação de uma escala, o “Social Support Appraisals” (SSA) de Vaux et al. (1980). Cadernos de Consulta Psicológica, 10/11, 115-127.). Trata-se de um instrumento composto por 30 itens, com quatro dimensões, designadamente: percepção do apoio dado pela família (7 itens; e.g,, “A minha família estima-me muito”), amigos (8 itens; e.g,, “Os meus amigos respeitam-me”), professores (7 itens; e.g, “Os meus professores estimam-me”) e apoio em geral (8 itens; e.g,, “Sinto que as pessoas me dão valor”).

Cada item apresenta um formato de resposta numa escala de tipo Likert, com seis alternativas que variam entre 1 (discordo totalmente) e 6 (concordo totalmente). Alguns itens encontram-se apresentados de forma invertida (4, 11,18, 22, 28, 29 e 30). O cálculo dos valores em cada dimensão foi realizado através da média dos itens. A consistência interna do instrumento foi medida no presente estudo através do alfa de Cronbach, que denota um valor de .85 para a escala total e apresenta respetivamente: apoio família = .89, apoio amigos = .84, apoio professores = .81, apoio em geral = .82. Efetuou-se ainda uma análise fatorial confirmatória de primeira ordem, sendo que se observaram na presente amostra valores adequados dos índices de ajustamento, χ2 (44) =204.26; Ratio = 4.64; Comparative Fit Index (CFI) = .94; Standardized Root Mean Square Residuals (SRMR) = .04 e Root Mean Square Error of Approximation (RMSEA) = .09.

Inventário de Personalidade dos Cinco Fatores

O Inventário de Personalidade dos Cinco Fatores (NEO-FFI-20) foi adaptado para a população portuguesa por Bertoquini e Pais-Ribeiro (2006), a partir da Revised NEO Personality Inventory (Costa & McCrae, 2004Costa, P.T., & McCrae, R. R. (2004). A contemplated revision of the NEO Five-Factor Inventory. Personality and individual differences, 36, 587-596. https://doi.org/10.1016/S0191-8869(03)00118-1
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). Este instrumento visa avaliar a personalidade em jovens e adultos, através de 20 itens distribuídos por cinco fatores, nomeadamente o neuroticismo (4 itens; e.g., “houve alturas em que experimentei ressentimento e amargura”), extroversão (4 itens; e.g., “Sou uma pessoa alegre e bem-disposta”), abertura à experiência (4 itens; e.g., “Não dou grande importância às coisas da arte e da beleza), amabilidade (4 itens; e.g., “Tendo a pensar o melhor acerca das pessoas”) e conscienciosidade (4 itens; e.g., “Esforço-me por ser excelente em tudo o que faço”).

Este questionário não foi utilizado integralmente, sendo que apenas se considerou pertinente incluir as dimensões que foram consideradas mais relevantes para o presente estudo, nomeadamente o neuroticismo, extroversão e conscienciosidade. Esta escolha relacionou-se com o ajustamento do modelo fatorial à presente amostra, pelo que estas dimensões pareceram encontrar, na amostra deste estudo, uma categorização idêntica à encontrada pelo autor original, com exceção da amabilidade e abertura à experiência, cujo valor semântico e enquadramento dos itens parece não se assemelhar ao originalmente proposto pelo autor.

Os itens estão distribuídos numa escala de tipo Likert, com quatro alternativas de resposta que variam entre 1- discordo fortemente e 4- concordo fortemente. A categorização das dimensões foi realizada através da média dos itens. Importa referir que alguns itens encontram-se apresentados de forma invertida (1, 3, 11, 13, 14, 18 e 19).

A consistência interna do instrumento foi medida através do alfa de Cronbach, denotando, respectivamente: neuroticismo = .51, extroversão = .72 e conscienciosidade = .78. Em relação aos resultados da análise fatorial confirmatória na presente amostra, confirma-se o ajustamento dos valores χ2 (77) = 193.73, p = .001; Ratio = 2.52, CFI = .90, SRMR = .06 e RMSEA = .07.

Escala de Medida de Manifestação de Bem-Estar Psicológico

A Escala de Medida de Manifestação de Bem-Estar Psicológico (EMMBEP) foi adaptada para a população portuguesa por Monteiro, Tavares e Pereira (2012Monteiro, S., Tavares, J., & Pereira, A. (2012). Adaptação portuguesa da escala de medida de manifestação de bem-estar psicológico com estudantes universitários - EMMBEP. Psicologia, Saúde & Doenças, 13(1), 66-77.) a partir da versão original da Échelle de Mesure dês Manifestations du Bien-Être Psychologique (Massé et al., 1998Massé, R., Poulin, C., Dassa, C., Lambert, J., Bélair, S., & Battaglini, A. (1998). Élaboration et validation d’un outil de mesure du bien-être psychologique: L’É.M.M.B.E.P. Revue Canadienne de Santé Publique, 89(5), 352-357. ). Trata-se de uma escala de autorrelato composta por 25 itens, que estão agrupados por seis subescalas que visam avaliar a autoestima (4 itens; e.g., “Senti que os outros gostavam de mim e me apreciavam”), o equilíbrio (3 itens; e.g., “A minha vida foi bem equilibrada, entre as minhas atividades familiares, pessoais e académicas”), o envolvimento social (3 itens; e.g., “Tive objetivos e ambições”), a sociabilidade (4 itens; e.g., “Relacionei-me facilmente com as pessoas à minha volta”), o controlo de si e dos acontecimentos (3 itens; e.g., “Fui capaz de enfrentar situações difíceis de uma forma positiva”) e a felicidade (8 itens; e.g., “Senti-me bem, em paz comigo próprio”).

Os itens apresentam um formato de resposta de tipo Likert, com cinco alternativas de resposta que variam entre “1- nunca e 5- quase sempre”. A categorização das dimensões foi realizada através da média dos itens. A consistência interna do instrumento foi medida através do alfa de Cronbach, apresenta um valor de .93 para a escala total, evidenciando, respectivamente: autoestima = .79, equilíbrio = .72, envolvimento social = .65, sociabilidade = .81, controlo de si e dos acontecimentos = .81 e felicidade = .89. No que concerne aos resultados da análise fatorial confirmatória, os valores encontram-se ajustados na presente amostra χ2 (120) = 327.60, p = .001; Ratio = 2.73 ,CFI = .94, SRMR = .04 e RMSEA = .07.

Procedimento

A recolha dos dados foi realizada num só momento entre outubro de 2014 e fevereiro de 2015 em instituições escolares e residências de acolhimento residencial da Zona Norte (Chaves, Vila Real, Mirandela, Bragança, Porto), Centro (Aveiro) e Sul (Lisboa) de Portugal. A amostra recolhida nas escolas foi probabilística e aleatória simples, em que todos os sujeitos incluídos na população em estudo tiveram a mesma probabilidade de serem escolhidos para integrar a amostra, colocando-se a restrição de idade. De realçar que na recolha de dados foram incluídos todos os sujeitos, tendo sido posteriormente, aquando do tratamento de dados, feita uma exclusão de todos os sujeitos que não viviam no seio de família tradicional composta apenas por pais e filhos. A recolha foi realizada mediante um pedido de autorização prévio junto às direções de agrupamentos de escolas, em que foram apresentados o projeto e os seus objetivos.

A recolha realizada nas instituições de acolhimento foi uma amostra por conveniência, considerando igualmente a idade dos jovens. Aceitaram participar do estudo 15 das 20 instituições onde os pedidos de autorização foram realizados. Foi obtido o consentimento informado da direção das instituições e dos encarregados de educação dos jovens das escolas. Antes da administração, foram apresentados os objetivos gerais do estudo.

Tratando-se de uma administração coletiva, foram dadas instruções estandardizadas de esclarecimento no que diz respeito ao preenchimento dos questionários de autorrelato, sendo garantidos todos os procedimentos éticos, nomeadamente o caráter anônimo e confidencial dos dados pessoais inerentes aos questionários, assim como a índole voluntária da participação no estudo, pelo que todos os participantes aceitaram participar no estudo.

Estratégia de Análise de Dados

O tratamento foi realizado após eliminação dos valores omissos e outliers. Assim, primeiramente foram excluídos questionários cujo preenchimento se revelou incompleto ou inadequado (preenchido aleatoriamente ou com vários campos preenchidos em simultâneo para cada resposta). Foi assegurado um mínimo de 10% de valores omissos por instrumento.

As análises de outliers pretendiam identificar eventuais indivíduos cujas respostas poderiam distanciar-se face à média e, desta forma, afetar a média e o desvio padrão da amostra (Field, 2013Field, A. P. (2013). Discovering statistics using IBM SPSS Statistics (4ª ed.). Sage.). Assim, procedeu-se à identificação de outliers multivariados a partir da análise da distância de Mahalanobis, uma vez que esta permitiu usar a média de grupos e variância para cada variável, de modo a sinalizar os elementos com valores críticos (Field, 2013Field, A. P. (2013). Discovering statistics using IBM SPSS Statistics (4ª ed.). Sage.), tendo-se optado por eliminar os indivíduos que se afastassem significativamente da média geral da amostra.

De modo a verificar os pressupostos de normalidade dos dados, efetuou-se o cálculo dos valores de assimetria (skeweness) e achatamento (kurtosis). Ainda, para explorar a normalidade dos dados, recorreu-se à análise do teste Kolmogorov-Smirnov, do histograma e dos Q-Q plots. Os valores obtidos confirmaram que a amostra em estudo cumpria os critérios de normalidade, permitindo o recurso a testes paramétricos (Pallant, 2002Pallant, J. (2002). SPSS survival manual: A step by step guide to data analysis using SPSS (2ª ed.). John Wiley.).

Com o objetivo de testar o efeito preditor do suporte social e da personalidade no desenvolvimento de bem-estar psicológico dos jovens, realizaram-se análises de regressão múltipla hierárquicas. Estas análises permitem testar os efeitos de duas ou mais variáveis independentes sobre uma variável dependente. A escolha da regressão múltipla hierárquica teve como objetivo realizar uma análise considerando uma proposição empírica preditora da direção da relação entre variáveis numa perspectiva sequencial confirmatória, baseada na introdução da ordem dos preditores de acordo com a literatura e/ou estudos anteriores (Abbad & Torres, 2002Abbad, G., & Torres, C. V. (2002). Regressão múltipla stepwise e hierárquica em Psicologia Organizacional: aplicações, problemas e soluções. Estudos de Psicologia, 7, 19-29. https://doi.org/10.1590/S1413-294X2002000300004
https://doi.org/10.1590/S1413-294X200200...
).

Com este método, a ordem de entrada dos preditores foi controlada na equação de regressão, sendo definida baseando a escolha em pressupostos teóricos de que a haveria fatores presentes no estudo mais significativos nesta predição. Nesta medida, primeiramente foi introduzido o sexo, o contexto relacional e idade, para controlar o efeito das variáveis sociodemográficas inerentes aos jovens, por ordem de relevância. O sexo mostra-se largamente descrito na literatura como apresentando variabilidade face ao bem-estar psicológico, dando ênfase ao sexo masculino enquanto preditor mais significativo (e.g., Robins & Trzesniewski, 2005Robins, R., & Trzesniewski, K. (2005). Self-esteem development across the lifespan. American Psychological Society, 3, 158-162. https://doi.org/10.1111/j.0963-7214.2005.00353
https://doi.org/10.1111/j.0963-7214.2005...
).

Por outro lado, o contexto relacional (vivência no seio de família composta apenas pelos pais e filhos ou a vivência em instituição de acolhimento) é uma variável em destaque no presente estudo. Pela dinâmica que comportam as mudanças familiares e reorganizações afetivas, essa variável assumiu destaque na vivência dos jovens e no desenvolvimento do bem-estar (e.g., Attar-Schwartz, 2008Attar-Schwartz, J. (2008). Emotional, behavioral and social problems among Israeli children in residential care: A multi-level analysis. Children and Youth Services Review, 30(2), 229-248. https://doi.org/10.1016/j.childyouth.2007.09.009.
https://doi.org/10.1016/j.childyouth.200...
), sendo inserida de modo a ser controlada.

A idade, por sua vez, foi introduzida nesta equação enquanto variável relevante na caracterização dos jovens. No entanto, dado que a amplitude da faixa etária era reduzida, seria de esperar a ausência de efeito preditor no bem-estar psicológico. O quarto bloco foi pautado pela introdução do suporte social, que no presente estudo compreende em si elementos relevantes para a compreensão do bem-estar psicológico. A dimensão da família, dos amigos e da sociedade em geral parece contribuir para uma adaptação positiva dos jovens (e.g., Chu et al., 2010Chu, P., Saucier, D., & Hafner, E. (2010). Meta-analysis of the relationships between social support and well-being in children and adolescents. Journal of Social & Clinical Psychology, 29(6), 624-645. https://doi.org/10.1521/jscp.2010.29.6.624.
https://doi.org/10.1521/jscp.2010.29.6.6...
). Todavia, julgou-se oportuno que estas dimensões fossem controladas com a introdução do quinto bloco, nomeadamente face a aspectos de foro intrínseco ao sujeito.

A literatura corrobora a ideia de que fatores pessoais (neuroticismo, extroversão e conscienciosidade) caracterizam a relação dos sujeitos com o contexto, podendo fazer a diferença enquanto preditores mais significativos do bem-estar psicológico (e.g., Baptista & Santos, 2008Baptista, M. N., & Santos, T. M. M. (2008). Suporte familiar, auto eficácia e lócus de controle: Evidências de validade entre os construtos. Psicologia Ciência e Profissão, 28(2), 260-271. https://doi.org/10.1590/S1414-98932008000200004.
https://doi.org/10.1590/S1414-9893200800...
; Dick & Holtzman, 2013Dick, K. T., & Holtzman, S. (2013). Understanding humor styles and well-being: The importance of social relationships and gender. Personality and Individual Differences, 55(1), 53-58. https://doi.org/10.1016/j.paid.2013.01.023
https://doi.org/10.1016/j.paid.2013.01.0...
; Gulaçti, 2010Gulaçti, F. (2010). The effect of perceived social support on subjective well-being. Procedia Social and Behavioral Sciences, 2, 3844-3849. https://doi.org/10.1016/j.sbspro.2010.03.602
https://doi.org/10.1016/j.sbspro.2010.03...
).

As variáveis foram centradas face à média antes de realizar as análises, de forma a evitar pressupostos de multicolinearidade. Posteriormente, de modo a analisar o papel moderador da configuração familiar na associação entre o suporte social e o bem-estar psicológico, foram realizadas análises regressão com recurso às macros desenvolvidas por Hayes e Preacher (2014Hayes, A. F., & Preacher, K. J. (2014). Statistical mediation analysis with a multicategorical independent variable. British Journal of Mathematical and Statistical Psychology, 67, 451-470.) para análises de moderação no programa “process”.

Resultados

Preditores de Bem-Estar Psicológico: O Papel do Suporte Social e da Personalidade

Foram realizadas análises de regressão múltipla hierárquica com a finalidade de clarificar o papel preditor das variáveis sociodemográficas, do suporte social e da personalidade no bem-estar psicológico (analisando cada uma das variáveis de bem-estar psicológico separadamente). Foram introduzidos cinco blocos: no bloco 1 introduziu-se o sexo; no 2, a configuração familiar; no 3, a idade; e no 4 e 5, o suporte social, respectivamente, para efeitos de controlo e para testar o papel da personalidade.

No que concerne à autoestima, os resultados revelam o contributo significativo de cinco variáveis com 43.5% de influência no modelo total: o sexo F(1,347) = 15.75; p =.001, que explica 4.3% da variância do modelo total através do sexo masculino (β = -.17); o suporte social, F(4, 341) = 24.87, p =.001, que explica 3.8% da variância da totalidade do modelo (R 2 = .038), contribuindo individualmente com 27% da variância para o modelo (R 2 change = .270) através da variável apoio em geral (β = .27); por último, a personalidade, F(3, 338) = 26.04, p =.001, a qual explica 43.5% da variância do modelo total, contribuindo de forma particular com 9.7% da variância para o modelo (R 2change = .097), através do neuroticismo (β = -.13), extroversão (β = .15) e conscienciosidade (β = .25). As variáveis configuração familiar (R 2 change = .022; p = .587) e idade (R 2change = .002; p = .720) não contribuem significativamente para a variância do modelo.

Em relação ao equilíbrio, é revelado o contributo significativo de quatro variáveis com 31.4% de variância no modelo total, a qual é explicada nomeadamente pelas variáveis: configuração familiar, F(1, 345) = 16.00; p =.001, que explica 8.5% da variância para a totalidade do modelo (R 2 = .085), com um contributo dos jovens provenientes de famílias tradicionais (β = -.12); a personalidade, F(3, 348) = 15.46; p = .001, que explica 31.4% da variância do modelo total (R 2 = .314), contribuindo de forma particular com 10.8% da variância para o modelo (R 2change = .108), através do neuroticismo (β = -.16), da extroversão (β = .17) e da conscienciosidade (β = .23). O sexo (R 2 change = .001; p = .832) e a idade (R 2change = .002; p = .882) não contribuem significativamente para explicar a variância do modelo.

O suporte social no bloco 4, F(2, 346) = 15.42; p >.05 (R 2change = .119), sugere ausência de contributo para explicar a variância do modelo. A análise de regressão face ao envolvimento social revela um contributo significativo de apenas duas variáveis com 30.8% de variância no modelo total, a qual é explicada pelas variáveis da personalidade, F(3, 338) = 15.06; p =.001, que explicam 30.8% da variância do modelo total (R 2 = .308), contribuindo individualmente com 11.7% da variância para o modelo (R 2change = .117), através da extroversão (β = .11) e da conscienciosidade (β = .33). Verifica-se ausência de contributo significativo do sexo (R 2change = .001; p =.768), da configuração familiar (R2change = .021; p =.937), da idade (R 2change = .002; p =.748) e do suporte social F(2, 332) = 14.86; p > .05.

Quanto à análise da sociabilidade, foi reportado o contributo significativo de três variáveis, com 39.2% da variância total explicada. Verificou-se ausência de contributos significativos para a explicação da variância do modelo, nomeadamente do sexo (R 2 = .001; p =.618), da configuração familiar (R 2change = .050; p =.926) e da idade (R 2change = .004; p =.903). Todavia, observou-se contributo significativo do suporte social, F(4, 341) = 19.00; p =.001, que denota 28.1% da variância total do modelo (R 2 = .281), tendo um peso individual de 22.6% da variância para o modelo (R 2change = .226), através do apoio dos amigos (β = .28). Por último, a personalidade, F(3, 338) = 21.83; p = .001, explica 39.2% da totalidade de variância do modelo (R 2 = .392), contribuindo de forma particular com 11.2% da variância para o modelo (R 2change = .112), através das variáveis neuroticismo (β = -.19) e extroversão (β = .30);

No que concerne ao controlo de si e dos acontecimentos, evidencia-se o contributo significativo de quatro variáveis com 32.8% do total de variância explicada. Tal como observado na dimensão anterior, constatou-se nos primeiros blocos ausência de contributos significativos para a explicação da variância do modelo, nomeadamente do sexo (R 2change = .002; p =.768), da configuração familiar (R 2change = .036; p =.743) e da idade (R 2change = .006; p =.521). No bloco 4, o suporte social, F(4,341) = 13.40; p =.001, contribui com 21.6% de variância para o modelo total (R 2 = .216), explicando individualmente 17.2% da variância do modelo (R 2change = .172), através do apoio dos amigos (β = .18). No bloco 5, a personalidade, F(3, 338) = 16.46; p =.001, explica 32.8% da totalidade de variância do modelo (R 2 = .328), e contribui de forma particular com 11.2% da variância para o modelo (R 2change = .112), através de todas as variáveis, nomeadamente, o neuroticismo (β = -.20, a extroversão (β = .16) e a conscienciosidade (β = .23);

Face à dimensão felicidade, a análise de regressão múltipla hierárquica reporta o contributo de quatro variáveis, a saber: o sexo, F(1, 347) = 13.76; p =.001, que explica 3.8% da variância total (R 2 = .038), através do sexo masculino (β = -.14). Por outro lado, a personalidade, F(3, 338) = 30.97; p =.001, explica 47.8% da totalidade de variância do modelo (R 2 = .48), contribuindo de forma particular com 17.1% da variância para o modelo (R 2change = .171), através do neuroticismo (β = -.29), da extroversão (β = .20 e da conscienciosidade (β = .23. É preciso ressaltar que a configuração familiar (R2change = .040; p = .637), a idade (R 2 change = .003; p = .988) e a dimensão de suporte social, F(2, 330) = 17.82; p > .05, não contribuem significativamente para explicar a variância do modelo (Tabela 1).

Tabela 1.
Análises de regressão múltiplas hierárquicas para a predição do bem-estar psicológico

Papel Moderador da Configuração Familiar na Associação entre o Suporte Social e a Personalidade com o Bem-Estar Psicológico

Foi testado o papel moderador da variável configuração familiar na associação entre o suporte social e a personalidade face ao bem-estar psicológico, através de análises regressão com recurso às macros desenvolvidas por Hayes e Preacher (2014Hayes, A. F., & Preacher, K. J. (2014). Statistical mediation analysis with a multicategorical independent variable. British Journal of Mathematical and Statistical Psychology, 67, 451-470.) no programa “process”. Optou-se por realizar a análise de moderação com recurso a variáveis compósitas, tendo em consideração apenas o valor do construto geral.

As variáveis foram calculadas com recurso à média de itens, levando em consideração que os instrumentos apresentam elevada consistência interna e denotaram correlações de Pearson de nível médio-alto entre as várias dimensões. Esta estratégia de análise é usada frequentemente na análise de dados, sempre que os construtos de cada uma das dimensões assumem um elevado nível de convergência semântica e garantem um critério de fiabilidade significativamente alto (Field, 2013Field, A. P. (2013). Discovering statistics using IBM SPSS Statistics (4ª ed.). Sage.).

Bem-estar psicológico e suporte social enquadram-se no pressuposto anterior, pelo que o objetivo da testagem da moderação foi, por opção, realizado para os construtos gerais. A análise efetuada permitiu constatar que não existe uma interação significativa entre o suporte social total e a configuração familiar em relação ao bem-estar psicológico: F(1, 346) = 2.93, p = .088, o que significa que configuração familiar não assume um papel moderador na associação anterior.

A análise do papel moderador da configuração familiar na associação entre as dimensões da personalidade (conscienciosidade, extroversão e neuroticismo) face ao bem-estar psicológico foi realizada considerando de forma separada cada dimensão da personalidade. Esta escolha prendeu-se ao o objetivo de abordar de forma mais discriminativa aspectos da personalidade (conscienciosidade, extroversão e neuroticismo) que se consideram distintos sob ponto de vista da afetação na vivência dos jovens.

Os resultados mostram ausência de interações significativas da configuração familiar na associação entre a conscienciosidade e o bem-estar psicológico F(1, 345) = 1.40, p = .237. Os resultados evidenciaram efeitos moderadores da configuração familiar para a associação entre a extroversão e a autoestima, F(1, 346) = 5.32, p = .022; β = -.566, b = -.250, t (346) = 2.07, p = .039 (Figura 1), e entre a extroversão e a felicidade: F(1, 346) = 15.86, p = .001; β = -.933, b =-.417, t (346) = -3.72, p <.01 (Figura 2). Os resultados mostraram que, à medida que os níveis de extroversão baixam, os jovens de famílias tradicionais apresentam uma diminuição de autoestima e felicidade mais acentuada comparativamente a jovens em acolhimento residencial. Tal como seria de esperar o efeito da moderação verifica-se tanto quanto mais baixos forem os níveis de extroversão.

Figura 1.
Efeito moderador da configuração familiar na associação entre a extroversão e a felicidade

Figura 2.
Efeito moderador da configuração familiar na associação entre a extroversão e a autoestima

Assim, observando a tendência para a convergência das linhas, em condições de baixa extroversão serão os jovens em acolhimento residencial que poderão apresentar maior autoestima e felicidade (aquando do cruzamento das linhas, num nível mais baixo de extroversão) em comparação com jovens de famílias tradicionais.

A respeito do neuroticismo, os resultados reportaram igualmente a existência de interações significativas entre o neuroticismo e a configuração familiar em relação à autoestima, F(1, 346) = 6.56, p = .011; β = .600, b = .303, t (346) = 2.06, p = .040 (Figura 3), e à felicidade: F(1, 346) = 10.09, p = .002; β = .690, b = .352, t (346) = 2.54, p = .011 (Figura 4).

Figura 3.
Efeito moderador da configuração familiar na associação entre o neuroticismo e a felicidade

Figura 4.
Efeito moderador da configuração familiar na associação entre o neuroticismo e a autoestima

Os resultados sugerem que, à medida que os níveis de neuroticismo baixam, os jovens de famílias tradicionais apresentam um aumento de níveis de autoestima e felicidade mais acentuado comparativamente com jovens em acolhimento residencial. Tal como seria de esperar o efeito da moderação verifica-se tanto quanto mais baixos forem os níveis de neuroticismo. Assim, observando a tendência para a convergência das linhas, em condições de baixo neuroticismo serão os jovens em acolhimento residencial que poderão apresentar menor autoestima e felicidade (aquando do cruzamento das linhas, num nível mais baixo de neuroticismo) comparativamente com jovens de famílias tradicionais.

Discussão

A presente investigação pretendeu contribuir para o avanço na literatura científica em relação à associação entre o suporte social, a personalidade e o bem-estar psicológico, numa perspectiva comparativa entre jovens em acolhimento residencial e jovens de famílias tradicionais. Pretendeu-se, assim, analisar em que medida o suporte social e a personalidade são preditoras do bem-estar psicológico, testando-se ainda o efeito moderador da configuração familiar (tradicionais e em acolhimento residencial) na associação anterior.

No que concerne aos efeitos observados na análise de regressão, tal como era esperado, torna-se pertinente enfatizar o papel do sexo e da configuração familiar no bem-estar psicológico. Os resultados obtidos corroboram dados empíricos de outros estudos, que parecem ser justificados face aos papéis sociais e às experiências de socialização de sexo (e.g., Fernandes & Vasconcelos-Raposo, 2008Fernandes, H., & Vasconcelos-Raposo, J. (2008). O bem-estar psicológico em adolescentes: Uma abordagem centrada no florescimento humano. CEDAFES.; Robins & Trzesniewski, 2005Robins, R., & Trzesniewski, K. (2005). Self-esteem development across the lifespan. American Psychological Society, 3, 158-162. https://doi.org/10.1111/j.0963-7214.2005.00353
https://doi.org/10.1111/j.0963-7214.2005...
; Silva et al. 2007Silva, R. A., Horta, B. L., Pontes, L. M., Faria, A. D., Souza, L. D. M., Cruzeiro, A. L. S., & Pinheiro, R. T. (2007). Bem-estar psicológico e adolescência: Fatores associados. Caderno de Saúde Pública, 23(5), 1113-1118.; Souza et al., 2012Souza, L., Maragalhoni, T., Quincoses, M., Jansen, K., Cruzeiro, A., Ores, L., Silva, R., & Pinheiro, R. (2012). Bem-estar psicológico de jovens de 18 a 24 anos: Fatores associados. Caderno de Saúde Pública, 28(6), 1167-1174.).

A prevalência de níveis de bem-estar psicológico superiores por parte do sexo masculino poderá estar relacionada com o fato de estes evidenciarem maiores níveis de aceitação de si. Robins e Trzesniewski (2005Robins, R., & Trzesniewski, K. (2005). Self-esteem development across the lifespan. American Psychological Society, 3, 158-162. https://doi.org/10.1111/j.0963-7214.2005.00353
https://doi.org/10.1111/j.0963-7214.2005...
) concluíram que o sexo masculino tende a reportar níveis superiores de bem-estar psicológico, com especial ênfase na autoestima e felicidade. Nesta idade, os rapazes tendem a reportar uma maior aceitação de si, mostrando-se mais satisfeitos na interação social, dando menos ênfase à proximidade e afeto nas relações interpessoais. Por contraste, as adolescentes, nesta fase pautada por descontinuidade, tendem a atribuir mais primazia a questões corporais, relacionais e afetivas.

A configuração familiar assumiu também um contributo para o bem-estar psicológico, sendo que os jovens provenientes de famílias tradicionais apresentam um efeito significativo na predição da variável equilíbrio (bem-estar). A literatura suporta esta ideia na medida em que os jovens provenientes de famílias tradicionais podem estar menos expostos a fatores de risco, o que facilita uma maior percepção de suporte e, inerentemente, maior estabilidade na construção da personalidade, potenciando uma vivência mais positiva das relações (e.g., Attar-Schwartz, 2008Attar-Schwartz, J. (2008). Emotional, behavioral and social problems among Israeli children in residential care: A multi-level analysis. Children and Youth Services Review, 30(2), 229-248. https://doi.org/10.1016/j.childyouth.2007.09.009.
https://doi.org/10.1016/j.childyouth.200...
; Simsek et al., 2007Simsek, Z., Erol, N., Öztop, D., & Münir, K. (2007). Prevalence and predictors of emotional and behavioral problems reported by teachers among institutionally reared children and adolescents in Turkish orphanages compared with community controls. Children and Youth Services Review, 29, 883-899. https://doi.org/10.1016/j.childyouth.2007.01.004
https://doi.org/10.1016/j.childyouth.200...
).

Por outro lado, as vivências emocionais adversas, como o processo de acolhimento residencial, tendem a despoletar sentimentos de abandono, solidão, vazio, tristeza, medo e insegurança, os quais parecem contribuir para níveis inferiores de bem-estar psicológico (Amado et al., 2003Amado, J., Ribeiro, F., Limão, I., & Pacheco, V. (2003). A escola e os alunos institucionalizados. Departamento de Educação Básica.; Mota & Matos, 2010Mota, C. P., & Matos, P. M. (2010). Adolescentes institucionalizados: O papel das figuras significativas na predição da assertividade, empatia e autocontrolo. Análise Psicológica, 2(28), 245-254., 2015Mota, C. P., & Matos, P. M. (2015). Adolescents in institutional care: Significant adults, resilience and well-being. Child and Youth Care Forum, 44(2), 209-224. https://doi.org/10.1007/s10566-014-9278-6
https://doi.org/10.1007/s10566-014-9278-...
) e maior risco de despoletar problemas psicológicos, comportamentais e sociais (Attar-Schwartz, 2008Attar-Schwartz, J. (2008). Emotional, behavioral and social problems among Israeli children in residential care: A multi-level analysis. Children and Youth Services Review, 30(2), 229-248. https://doi.org/10.1016/j.childyouth.2007.09.009.
https://doi.org/10.1016/j.childyouth.200...
; Simsek et al., 2007Simsek, Z., Erol, N., Öztop, D., & Münir, K. (2007). Prevalence and predictors of emotional and behavioral problems reported by teachers among institutionally reared children and adolescents in Turkish orphanages compared with community controls. Children and Youth Services Review, 29, 883-899. https://doi.org/10.1016/j.childyouth.2007.01.004
https://doi.org/10.1016/j.childyouth.200...
).

Apurou-se, ainda, o efeito significativo do suporte social e da personalidade no bem-estar psicológico. Assim, de acordo com as hipóteses propostas, verificou-se que a percepção que os jovens têm acerca do seu suporte social parece estar associada ao desenvolvimento positivo do seu bem-estar psicológico (e.g., Chu et al., 2010Chu, P., Saucier, D., & Hafner, E. (2010). Meta-analysis of the relationships between social support and well-being in children and adolescents. Journal of Social & Clinical Psychology, 29(6), 624-645. https://doi.org/10.1521/jscp.2010.29.6.624.
https://doi.org/10.1521/jscp.2010.29.6.6...
; Tomé et al., 2011Tomé, G., Camacho, I., Matos, M. G., & Diniz, J. A. (2011). A influência da comunicação com a família e grupo de pares no bem-estar e nos comportamentos de risco nos adolescentes portugueses. Psicologia: Reflexão e Crítica, 24(4), 747-756.). Neste sentido, constatou-se que a percepção de apoio, em geral, tende a predizer positivamente a autoestima.

De igual modo, observou-se que a percepção de apoio dos amigos prediz positivamente a sociabilidade e o controlo de si e dos acontecimentos. Estes resultados corroboram as evidências empíricas, que sugerem a importância das figuras significativas, nomeadamente os pares, no desenvolvimento emocional dos jovens, pelo suporte, simetria e similitude de vivências (e.g. Allen et al., 2007Allen, J. P., Porter, M., McFarland, C., McElhaney, K. B., & Marsh, P. (2007). The relation of attachment security to adolescents’ paternal and peer relationships, depression, and externalizing behavior. Child Development, 78(4), 1222-1239. https://doi.org/10.1111/j.1467-8624.2007.01062.x
https://doi.org/10.1111/j.1467-8624.2007...
; Dick & Holtzman, 2013Dick, K. T., & Holtzman, S. (2013). Understanding humor styles and well-being: The importance of social relationships and gender. Personality and Individual Differences, 55(1), 53-58. https://doi.org/10.1016/j.paid.2013.01.023
https://doi.org/10.1016/j.paid.2013.01.0...
).

Os resultados obtidos evidenciam ainda que algumas características de personalidade se encontram associadas ao bem-estar psicológico dos jovens adolescentes. Desta forma, os resultados indicam que o neuroticismo tende a predizer negativamente a autoestima, o equilíbrio, a sociabilidade, o controlo de si e dos acontecimentos e a felicidade. Por sua vez, a extroversão e a conscienciosidade parecem predizer positivamente a autoestima, o equilíbrio, o envolvimento social, a sociabilidade, o controlo de si e dos acontecimentos e a felicidade.

São os jovens mais extrovertidos e com maior conscienciosidade do seu papel na sociedade, isto é, aqueles que parecem ser mais assertivos, socialmente ativos e expressivos dos seus sentimentos, que estão mais disponíveis para o envolvimento social e a vivência de afetos positivos, o que os conduz a uma maior autoestima (e.g., Allemand et al., 2008Allemand, M., Zimprich, D., & Hendriks, A. A. J. (2008). Age differences in five personality domains across the life span. Developmental Psychology, 44, 758-770. https://doi.org/10.1037/0012-1649.44.3.758.
https://doi.org/10.1037/0012-1649.44.3.7...
; Anusic et al., 2012Anusic, I., Lucas, R. E., Donnellan, M. (2012). Cross-sectional age differences in personality: Evidence from nationally representative samples from Switzerland and the United States. Journal of Research in Personality, 46(1), 116-120. https://doi.org/10.1037/a0029322
https://doi.org/10.1037/a0029322...
; Landa et al., 2010Landa, J. M. A., Martos, M. P., & Lopez-Zafra, E. (2010). Emotional intelligence and personality traits as predictors of psychological well-being in Spanish undergraduates. Social Behavior and Personality, 38(6), 783-793. https://doi.org/10.2224/sbp.2010.38.6.783
https://doi.org/10.2224/sbp.2010.38.6.78...
; James et al., 2012James, C., Bore, M., & Zito, S. (2012). Emotional intelligence and personality as predictors of psychological well-being. Journal of Psychoeducational Assessment, 30(4), 425-438. https://doi.org/10.1177/0734282912449448
https://doi.org/10.1177/0734282912449448...
; Purvis, et al., 2011Purvis, A., Howell, R. T., & Iyer, R. (2011). Exploring the role of personality in the relationship between maximization and well-being. Personality and Individual Differences, 50(3), 370-375. https://doi.org/10.1016/j.paid.2010.10.023
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). Pelo contrário, os jovens que desenvolvem uma forma de ser pautada pela ansiedade, sensibilidade e afetos negativos na generalidade, denotam maiores indicadores de instabilidade emocional, estando, por isso, menos disponíveis para se voltar para o exterior e vivenciar de forma positiva as suas relações (e.g., Lu et al. 2014Lu, W., Wang, Z., Liu, Y., & Zhang, H. (2014). Resilience as a mediator between extraversion, neuroticism and happiness, PA and NA. Personality and Individual Differences, 63, 128-133. https://doi.org/10.1016/j.paid.2014.01.015
https://doi.org/10.1016/j.paid.2014.01.0...
; Lucas & Donnellan, 2009; Soto et al., 2011Sotto, C. J., John, O. P., Gosling, S. D., & Potter, J. (2011). Age differences in personality traits from 10 to 65: Big five domains and facets in a large cross-sectional sample. Journal of Personality and Social Psychology, 100, 330-348. https://doi.org/10.1037/a0021717
https://doi.org/10.1037/a0021717...
).

No que concerne ao efeito moderador da configuração familiar, verificaram-se interações significativas com a extroversão, no sentido de predizer o bem-estar psicológico, nomeadamente a autoestima e a felicidade. Assim, à medida que os níveis de extroversão baixam, os jovens de famílias tradicionais apresentam uma diminuição de autoestima e felicidade mais acentuada comparativamente a jovens em acolhimento residencial.

Essa questão parece reforçar a ideia de que a vivência no seio familiar tradicional pode ser relevante no sentido de criar maior segurança aos jovens e permitir que estejam mais disponíveis para o exterior. A ausência desta vivência parece rever-se na diminuição da autoestima e sentido de felicidade (e.g. Baptista & Santos, 2008Baptista, M. N., & Santos, T. M. M. (2008). Suporte familiar, auto eficácia e lócus de controle: Evidências de validade entre os construtos. Psicologia Ciência e Profissão, 28(2), 260-271. https://doi.org/10.1590/S1414-98932008000200004.
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; Dick & Holtzman, 2013Dick, K. T., & Holtzman, S. (2013). Understanding humor styles and well-being: The importance of social relationships and gender. Personality and Individual Differences, 55(1), 53-58. https://doi.org/10.1016/j.paid.2013.01.023
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; Gulaçti, 2010Gulaçti, F. (2010). The effect of perceived social support on subjective well-being. Procedia Social and Behavioral Sciences, 2, 3844-3849. https://doi.org/10.1016/j.sbspro.2010.03.602
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). Cabe destacar que os resultados observados mostram que, tendo níveis muito baixos de extroversão, jovens em acolhimento residencial, por apresentarem tendencialmente mais resiliência face às adversidades, poderão gerir de forma mais adaptativa esta característica pessoal, apresentando maior autoestima e felicidade, comparados a jovens de famílias tradicionais.

Os dados apontam ainda um efeito moderador da configuração familiar através da variável da personalidade neuroticismo nas variáveis do bem-estar psicológico: felicidade e autoestima. Neste sentido, e ao contrário do que seria hipotetizado, os jovens provenientes de famílias tradicionais com baixos níveis de neuroticismo denotaram menores nível de felicidade e autoestima comparativamente aos jovens institucionalizados com baixos níveis de neuroticismo. Todavia, os resultados sugerem que à medida que os níveis de neuroticismo baixam, os jovens de famílias tradicionais apresentam um aumento de níveis de autoestima e felicidade mais acentuada em relação aos jovens em acolhimento residencial.

Tal como foi discutido, os jovens em regime de acolhimento residencial apresentaram níveis superiores de ansiedade, sensibilidade e afetos negativos na sua generalidade. Porém, uma evidência relevante observada nesta investigação foi que os jovens em acolhimento residencial que apresentam elevados níveis de neuroticismo, embora vivenciando o contexto institucional, tendem a apresentar níveis de felicidade mais elevados, comparativamente àqueles que provém de famílias tradicionais e que apresentam igualmente níveis elevados de neuroticismo.

Estes resultados sugerem que apesar das adversidades, são os jovens em acolhimento residencial os que conseguem gerir de forma mais adaptativa a vivência de desconforto interno, valorizando mais a qualidade das relações, muitas vezes pela percepção de suporte e reorganização afetiva em torno de novas figuras significativas de afeto (e.g., Fante & Cassab, 2007Fante, A. P., & Cassab, L. A. (2007). Convivência familiar: Um direito à criança e ao adolescente institucionalizado. Revista Textos & Contextos, 6(1), 154-174. ; Mota & Matos, 2015Mota, C. P., & Matos, P. M. (2015). Adolescents in institutional care: Significant adults, resilience and well-being. Child and Youth Care Forum, 44(2), 209-224. https://doi.org/10.1007/s10566-014-9278-6
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; Siqueira & Dell’Aglio, 2006Siqueira, A., & Dell’Aglio, D. (2006). O impacto da institucionalização na infância e na adolescência: Uma revisão de literatura. Psicologia & Sociedade, 18(1), 71-80.). Dalbem e Dell’Aglio (2008Dalbem, J. X., & Dell’Aglio, D. D. (2008). Apego em adolescentes institucionalizadas: Processos de resiliência na formação de novos vínculos afectivos. Psico, 39(1), 33-40.) evidenciam que o acolhimento residencial parece proporcionar uma oportunidade para que os jovens reorganizarem as suas relações de afeto com outras figuras significativas dentro da própria instituição.

Neste sentido, a continuidade das relações afetivas com as figuras da instituição, como professores, funcionários, monitores e outros jovens pertencentes à instituição pode fazer com que os jovens atenuem as suas vivências adversas e edifiquem representações mais positivas sobre si e o mundo, o que parece contribuir para um desenvolvimento mais congruente e adaptativo (e.g., Calheiros & Patrício, 2014Calheiros, M. M., & Patrício, J. N. (2014). Assessment of needs in residential care: Perspectives of youth and professionals. Journal of Child and Family Studies, 23(3), 461-474. https://doi.org/10.1007/s10826-012-9702-1
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; Mota & Matos, 2014Mota, C. P., & Matos, P. M. (2014). Padres, profesores y pares: Contribuciones para la autoestima y coping en los adolescentes. Anales de Psicologia, 30(2), 656-666. https://doi.org/10.6018/analesps.30.2.161521
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).

Dessa forma, a qualidade das ligações aquando do acolhimento residencial parece constituir um fator protetor aquando a separação do seio familiar, em que se podem enlaçar sentimentos de proteção e segurança, os quais contribuem para um desenvolvimento mais resiliente.

Implicações Práticas, Limitações e Pistas Futuras

O presente estudo torna-se importante pelo seu contributo no que concerne à reflexão dos aspectos de foro emocional que implicam jovens em acolhimento residencial. Tal como exposto, apesar deles ainda denotarem, em geral, níveis inferiores de bem-estar psicológico, quando comparados com jovens de famílias tradicionais, percebe-se que podem desenvolver características pessoais relevantes face às suas vivências, que lhes permitem desenvolver processos adaptativos.

Importa, por isso, destacar o papel do suporte social nesse contexto e as condições de acolhimento residencial (físicas e emocionais), na medida em que estas poderão potenciar aos jovens um sentido de pertença e contribuir para a estruturação da personalidade (Calheiros & Patrício, 2014Calheiros, M. M., & Patrício, J. N. (2014). Assessment of needs in residential care: Perspectives of youth and professionals. Journal of Child and Family Studies, 23(3), 461-474. https://doi.org/10.1007/s10826-012-9702-1
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; Mota & Matos, 2014Mota, C. P., & Matos, P. M. (2014). Padres, profesores y pares: Contribuciones para la autoestima y coping en los adolescentes. Anales de Psicologia, 30(2), 656-666. https://doi.org/10.6018/analesps.30.2.161521
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, 2016Mota, C. P., & Matos, P. M. (2016). Caregiver’s attachment and mental health on perceived bond in institutional care. Professional Psychology: Research and Practice, 47(2), 110-119. https://doi.org/10.1037/pro0000047
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).

Por sua vez, devem ser salientadas algumas limitações inerentes ao presente estudo, comoo número limitado da amostra, dada a dificuldade em aceder às entidades, principalmente às instituições de acolhimento. Acresce o recurso a instrumentos de autorrelato e apenas um informante, pelo que os dados podem ser passíveis de enviesamento. Ainda assim, o fato do estudo ser de cariz transversal não permite uma comparação dos dados ao longo do tempo, nem inferir causalidade. Todavia, manifesta efeitos preditores significativos que deixam antever pistas futuras.

Algumas implicações práticas para investigações futuras podem contemplar uma recolha de dados a nível qualitativo e com vários informantes (cuidadores, professores e pares), no sentido de perceber a importância do restabelecimento de novas figuras de afeto dentro da instituição, bem como sua importância para estes jovens. Seria ainda pertinente a realização de um estudo de cariz longitudinal, de modo a analisar os efeitos que o suporte social e a personalidade denotam no desenvolvimento do bem-estar psicológico dos jovens adolescentes.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    10 Ago 2020
  • Data do Fascículo
    2020

Histórico

  • Recebido
    01 Fev 2017
  • Revisado
    27 Fev 2018
  • Aceito
    01 Mar 2018
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