Dante Moreira Leite: mestre da psicologia social

DANTE MOREIRA LEITE: MESTRE DA PSICOLOGIA SOCIAL

Ecléa Bosi

Instituto de Psicologia – USP

Apresentar a figura de Dante Moreira Leite é para mim uma tarefa especialmente grata. Dante foi orientador de minha tese de doutorado sobre leituras de operárias: guardo desse convívio uma bela recordação, pois dificilmente poderia ter encontrado um orientador tão solícito e tão próximo do tema escolhido. Todos os que conheceram sabem do amor que ele dedicava ao universo das Letras; no caso, a essa paixão pela escrita somava-se o interesse do psicólogo social pela figura às vezes surpreendente que é a leitora operária.

Quando a tese se fez livro, Dante generosamente a prefaciou, apertando ainda mais o vínculo de reconhecimento intelectual e humano que já àquela altura se convertera em amizade.

Quando Dante nos deixou, tão precocemente, o Instituto de Psicologia me honrou com pedido de fazer o elogio da sua vida e da sua obra em uma sessão que se realizou em sua homenagem. Passados vinte e cinco anos, é com a mesma gratidão e saudade que me associo a este dossiê em memória do amigo e do eminente mestre de Psicologia Social que foi Dante Moreira Leite.

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Nunca sentimos tanta falta do Professor Dante como no início das aulas deste ano letivo. Essa agitação, esse ar festivo da entrada dos cursos, era a seu ambiente. Ele era um professor nato para quem ensinar era como respirar.

O seu tipo de aula, na qual ele melhor se realizava, era a aula informal, próxima do aluno. Sentava-se à beira da mesa e discutia todas as objeções, levava a sério todas as dúvidas e gostava de responder, às vezes, como seu mestre, Heider: "Não sei." Ato de profunda honestidade e exemplo dessa modéstia que tornava Dante Moreira Leite um homem tão encantador .

Ele detestava sinceramente os títulos, as honrarias, e nunca se sentiu bem no meio delas. Era mais comum ver sua figura magra cruzando os corredores do que vê-lo atrás de sua mesa de Diretor, onde, aliás, evitava ficar, preferindo receber as pessoas em outra mesa de sua sala onde todos ficavam lado a lado e na mesma altura.

Tão simples, tão afável, tão próximo, ele sabia, contudo, revestir-se de uma especial solenidade: era quando seus orientandos vinham expor’-lhes um problema de pesquisa. Sua fisionomia ficava muito séria, os olhos vivíssimos se concentravam como se nada mais existisse no mundo além daquele problema. Até suas mãos, nervosíssimas se aquietavam. Não dizia nunca aos seus orientandos: "Estou com pressa." Escutava, discutia, participava das questões mais miúdas do projeto, sempre com a mesma expressão gentil: depois de algum tempo, é verdade, suas mãos se apertavam nervosas como a pedir socorro para o interlocutor.

Então nos lembrávamos de que ele era um Diretor ocupadíssimo que nunca abdicou nem de suas aulas, nem da orientação de pós-graduação.

Ele quando ainda em Araraquara foi meu orientador de tese: guardo dessa época muitas cartas suas discutindo minuciosamente como se faz um questionário de alternativas, por exemplo, ou uma análise de conteúdo. Cartas que eram verdadeiras aulas.

Como Diretor do nosso Instituto, Dante foi uma pessoa controvertida e conflituosa. A direção era causa de um enorme sofrimento, e pode-se dizer que ele tinha dois pesos e duas medidas: um extremo rigor, que chegava a ser angustiante, para seus grandes amigos (destes ele exigia tudo, talvez tivesse com eles o mesmo grau de exigência implacável que tinha para consigo mesmo); e de outro lado, uma extrema complacência, uma tolerância sem limites com os que ele achava fracos e pequenos. Sobretudo com os que sofriam.

Uma vez desabafou, depois de uma audiência a uma pessoa arrogante e crítica: "e sabe de uma coisa? Eu detesto essas pessoas que acham que os outros não têm "nível," ou que classificam os demais de ‘medíocres.’" E de outra feita, veio este outro desabafo: "Alguns professores esqueceram o que foram na idade dos alunos, e o que leram aos vinte anos ... Eles se confrontam com o aluno do alto da sua erudição, simplesmente esquecendo o seu tempo de aprendizes." Nesses dois momentos, Dante ensinou que a mais alta função da inteligência nunca foi a crítica, nem a classificação, mas a apaixonada busca da verdade e o entusiasmo sempre novo pelo crescimento dos novos.

Dissemos há pouco que a atuação de Dante como diretor, sofrendo esse ponto de vista tão próprio da sua personalidade, foi contraditória e até conflituosa, em primeiro lugar, para ele mesmo. Mas ele nos pede em um poema que escreveu em 1960:

Recorta as palavras boas,

reconstrói as cenas todas

reconstrói gestos e falas

como se fora outra vez

. . .

E em vez de palavras duras

as que dizes são de prata

E as outras não calas mais.

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Não é possível também não evocar o Dante tradutor. A rigor, ele não teria tempo para traduzir, só lhe restava a noite para esse ofício, mas ele traduzia por amor, e acredito que, se pudesse, traduziria para o português, tudo o que havia de bom no mundo em Psicologia. E os bons tradutores lembra seu amigo Tamas, são como os regimes democráticos: só depois de os termos perdidos é que lhes damos valor.

Dante era um ser noturno: era de noite que ele estudava, e estudava muito, era de noite também que traduzia. E brincava: "Como é que Heidegger dizia" Acho que era "consciência vigilante." Sempre pensei que a consciência vigilante só podia vigiar à noite. É difícil imaginar alguém descobrindo uma verdade à luz do dia, quando todos vêm e ouvem tudo." Essa pessoa noturna convivia, há muito, com a morte:

"Aos poucos" - escreveu - "só aos poucos descobrimos que as coisas se apagam, as pessoas morrem sem deixar sinal. Colocamos pedra sobre os mortos na esperança de que não voltem, não falem, não lembrem. E prometemos esquecer também. Não, não esquecemos as palavras, o que esquecemos é o que está atrás das palavras."

"E a morte (escreveu também) é a situação em que estamos realmente sozinhos, em que pela primeira vez nos afastamos de qualquer convívio. O duro mesmo seria um inferno sem ninguém, ainda que tivesse ar condicionado. Algum de vocês já ficou sozinho?"

E numa biografia que faz de si mesmo, como se falasse de um outro escritor:

"Em primeiro lugar, seus trabalhos parecem um esforço para conservar o equilíbrio – e talvez o tenha conseguido na medida em que se valeu da vida intelectual para dar sentido a uma experiência caótica e próxima do absurdo." Isto porque, nos últimos tempos. Dante procurava enxergar o mundo com as deformações com que os doentes mentais o enxergam, esforço terrível de simpatia que muito lhe custou.

"Provavelmente por falta de documentação (são ainda palavras suas), há poucos dados sobre seus conflitos, embora tudo faça supor uma tensão permanente entre seus desejos e a captação da realidade, entre uma natureza anárquica e o desejo também intenso de ordenar a vida e o mundo.

Não parece muita ousadia supor que esses conflitos constituem a marca de sua vida e de sua obra,e que os conflitos não encontraram solução harmoniosa e que permaneceu fundamentalmente dividido." Essas são palavras de um grande psicólogo, descrevendo a si mesmo.

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"O menino é o pai do homem," dizia de si mesmo Brás Cubas, o narrador póstumo das Memórias de Machado de Assis.

Transportando a frase para a vida do pensamento, pode-se dizer que, na maioria das biografias espirituais, as primeiras obras, mesmo quando renegadas na maturidade, dão fio condutor dos interesses e das paixões de toda uma existência. Quando se chega à idade em que já é possível rememorar com a distância da crítica os anos de nossas primeiras afirmações e valores, é comum encontrar coincidências profundas de pontos de vista e germes de obras que mais tarde fizemos ou gostaríamos de ter feito.

Dante Moreira Leite foi, nesse ponto, um destino feliz: pôde ver crescer e dar fruto a semente de seus primeiros planos intelectuais; por isso, apesar de ter sido arrancado aos estudos e à nossa companhia tão precocemente, e apesar das inúmeras tarefas em que se envolveu nos últimos anos, pôde desenvolver exemplarmente, no campo da Psicologia Social, o tema-chave da sua carreira de estudioso, que foi a pesquisa dos preconceitos ou estereótipos disseminados na cultura letrada brasileira.

Em 1949, ainda aluno de Filosofia da velha Faculdade da Praça, Dante se pôs a examinar textos de leitura para a escola primária à procura de "conceitos morais," "preconceitos raciais" e "valores de patriotismo" que essas obras didáticas pudessem veicular. O resultado dessas pesquisas pode-se ler no Boletim nº.3 de Psicologia da Faculdade de Filosofia, que saiu em 1950.

Um dos traços básicos desses ensaios foi o cuidado de integrar o problema a ser debatido (conceitos e preconceitos) em uma perspectiva mais ampla: sociológica e filosófica. Dante, como aluno que foi de Livio Teixeira e de Cruz Costa, pensa sempre na necessidade de perguntar sobre o sentido e o alcance do próprio tema que vai desenvolver . Essa atitude vai garantir o caráter orgânico e crítico das suas belas introduções a Psicologia e Literatura e a O Caráter Nacional Brasileiro.

Mas voltemos ao conteúdo dos seus primeiros trabalhos. Neles, buscava tocar o que as obras didáticas trazem de essencial para a cultura: os valores. E a sua primeira perplexidade é a de definir e situar o termo "valor." Daí ter que recorrer à sociologia do conhecimento que marcou profundamente as primeiras gerações da nossa Escola, as quais foram educadas no espírito cujo principal fruto é relativizar os valores, mostrar a sua gênese social e o seu caráter muitas vezes convencional e sempre histórico. Os egressos da antiga Faculdade de Filosofia, pelo menos até a década de 50, são facilmente reconhecíveis por um forte pendor sociológico e relativista. É muito recente, talvez só dos últimos 10 anos, o aparecimento de uma mentalidade tecnocrática, que aceita sem reservas a estrita divisão de trabalho intelectual e considera absolutas e neutras (ou fora de uma discussão filosófica) as técnicas de mensuração das coisas e das condutas.

Dante formou se em uma cultura que perguntava pelos limites do conhecimento. Por isso, ele era cheio de dúvidas, de ironias, e até de auto-ironias. Por isso nunca jurou fanaticamente por um conteúdo ou por um método de análise. Por isso, seu primeiro estudo versa sobre os preconceitos, que são pseudo-verdades, que a escola dissemina por meio dos seus abecês.

Para tanto, esquadrinhou textos didáticos adotados desde o fim do século 19 até 1940, cobrindo, pelo menos, cinqüenta anos de literatura escolar brasileira:

- o Segundo Livro de Lições Morais e Instrutivas, de João Kopke;

- o Terceiro Livro de Leitura de Oliveira Barreto e Romão Pulggari;

- Meninice, de Luiz Gonzaga Fleury;

- Alma do Meu País, de Izabel Serpa e Paiva;

- Nosso Brasil, de Luiz Amaral Wagner, e, de modo subsidiário

- O Pequeno Escolar, de Moura Santos e

- Uma História e depois... outras, de Rafael Grisi.

O caráter cívico das obras é ressaltado. Dante nota que, nesses livros para crianças, vive-se um Brasil ideal, uma eterna reedição do "Porque me ufano do meu país" de Afonso Celso. O tipo recorrente do brasileiro (altivo, heróico) e a sua própria condição material (exuberante, opulenta) mostram uma fortíssima dose de irrealismo.

Ora, o complemento desse patriotismo abstrato é o descobrimento ou o preconceito contra o que não é brasileiro: Dante encontra traços de preconceitos racial nesses textos que talvez pareçam a muitos, hoje, inócuos.

A ignorância da realidade negra, por exemplo, é evidente em quase todos os livros. Dante interpreta a omissão como forma inconsciente ou muito sutil de preconceito: não se fala daquilo que se despreza, ou do que se teme, ou do que se quer recalcar. E Dante lembra que Rui Barbosa, quando integrou o primeiro governo da República, mandou simplesmente queimar todos os arquivos referentes à escravidão.

Quando, em raros momentos, aparecem os negros, nesses livros, acham-se em uma situação de inferioridade: em uma mudança, negros carregando piano e meninos brancos vendo como é que eles trabalham. Junto aos negros, há outros carroceiros, a quem os donos da casa gritam: "Oh seus italianos! Cuidado com a mobília!"

Um dos autores, a Senhora Izabel Serpa e Paiva, combate curiosamente o preconceito com o seu próprio preconceito.Numa das lições, diz a mãe ao filho, apontando para um negro: "Ele não tem culpa de ser assim!"

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O que ficou desses primeiros ensaios de Dante no espírito do próprio Dante? Não uma solução, mas novos problemas que iriam ser o núcleo da sua atividade de pesquisador de preconceitos entre nós. Ele constatara a existência de certos valores em obras menores, ainda que importantes como veículos de padrões culturais. Mas o que existiria nas obras de maior fôlego, nas tentativas de interpretar o Brasil e os brasileiros, que, desde os cronistas e jesuítas do século XVI até hoje têm marcado a formação da nossa autoconsciência como nação? Como o homem culto brasileiro se vê a si mesmo, e vê o povo de que faz parte? Para responder a essa indagação, Dante buscou nas obras dos nossos principais estudiosos e intérpretes explicações daquilo que se convencionou chamar o caráter nacional brasileiro. Que é o tema de seu Doutorado defendido em 1954.

Como psicólogo social, Dante verificou, admirado, que esses historiadores e sociólogos se valiam com a maior sem cerimônia de conceitos psicólogos para, armados de uma ciência que na verdade só conheciam por lugares-comuns, caracterizar todo o povo brasileiro. Silvio Romero, Euclides da Cunha, Oliveira Viana, Alfredo Ellis Jr., Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Hollanda, Vianna Moog e outros são examinados à luz do que disseram a respeito do homem brasileiro. E é tal a massa de traços psíquicos e morais que sai desses livros, que Dante não poderia ter dominado matéria tão vasta senão nos termos que ela merecia: termos de ideologia.

Aí está o significado mais alto da sua contribuição à cultura brasileira: ter ido ao fundo do problema das definições psicológicas de um povo, submetendo-as à análise ideológica dos valores (endossados ou rejeitados pelos seus intérpretes. A messe era realmente farta e Dante colheu às mancheias). Desde a "flor amorosa das três raças tristes" de Bilac ao "homem cordial" de Buarque de Hollanda; desde o "antes de tudo um forte" de Euclides, até o luxurioso, triste e cobiçoso" de Paulo Prado...

Constância e capacidade de trabalho admiráveis de um leitor que devorava tudo, que, para dar fundamentos teóricos sólidos à sua pesquisa, examinou toda Antropologia Social, de Franz Boas a Kardiner, de Ruth Benedict a Margaret Mead, de Malinowski a Lévi-Strauss! E a Psicanálise (nas suas várias correntes), de Freud, Adler, Jung. E, para documentar-se em relação ao Brasil, leu tudo o que de algum modo concorria para a formação de uma imagem do brasileiro desde as ingênuas exclamações de Pero Vaz de Caminha na sua carta a El-rei Dom Manuel dando notícia do descobrimento, até os ensaios críticos de Caio Prado e Cruz Costa, de Roger Bastide e Florestan Fernandes.

Do otimismo colonial e romântico ao pessimismo dos naturalistas e positivistas, o "caráter nacional" vai revelando a sua natureza profunda de estereótipo, isto é, de conceito arrumado pela ideologia para justificar a continuidade de certas formas de desprezo e de dominação.

"Gouverner, c’est faire croire," dizia Victor Hugo. Governar é fazer que creiam em nós: esse o poder da ideologia, essa a arma da propaganda. E Dante foi um superador de uma ideologia tenaz.

Enfim, se em vez de me deter na Psicologia Social, eu tivesse que me estender sobre a outra paixão constante em toda a vida de Dante Moreira Leite, a Literatura, não haveria mãos a medir. Não querendo abandonar nenhuma das suas paixões, escreveu o livro que lança a ponte entre ambas: Psicologia e Literatura, sua tese de Livre-Docência. Dante leitor de Euclides, Dante leitor de Machado, Dante leitor de Drummond, Dante leitor de João Cabral, Dante leitor de Guimarães Rosa, sobre quem escreveu páginas iluminadoras. E de Guimarães Rosa, do seu Grande Sertão: Veredas foi que ele tirou a epígrafe do Caráter Nacional Brasileiro: uma frase que é o maior desmentido aos que crêem que os homens são radicalmente desiguais por causa da raça ou da religião. Aos que dizem: "existem brasileiros, existem ingleses, existem negros, existem judeus," e juram por essas diferenças, Dante, pela boca de Riobaldo, jagunço e filósofo, respondeu:

"Existe é homem humano."

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    29 Mar 2001
  • Data do Fascículo
    2000
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