Jogo de opostos: uma aproximação à realidade mental através do mito de Dioniso

The game of opposites: an approach to mental reality through the Dionisos' myth

Eva Maria Migliavacca Sobre o autor

Resumos

Neste texto, apresentam-se algumas reflexões a respeito da necessidade do indivíduo aprender a conviver com aspectos contraditórios da condição humana. Para isso, colocam-se os mitos e, em especial neste artigo, o mito de Dioniso, como um modo poético de captar e expressar os conflitos do homem no contato com a realidade mental.

Psicanálise; Mitologia grega


This paper considers the necessity of the individual to learn to live with the contradictory aspects of human condition. In this sense, myths are placed, especially the myth of Dionisos, as a poetic form to express man's conflicts in contact with mental reality.

Psychoanalysis; Greek mythology


JOGO DE OPOSTOS: UMA APROXIMAÇÃO À REALIDADE MENTAL ATRAVÉS DO MITO DE DIONISO

Eva Maria Migliavacca

Instituto de Psicologia - USP

Neste texto, apresentam-se algumas reflexões a respeito da necessidade do indivíduo aprender a conviver com aspectos contraditórios da condição humana. Para isso, colocam-se os mitos e, em especial neste artigo, o mito de Dioniso, como um modo poético de captar e expressar os conflitos do homem no contato com a realidade mental.

Descritores: Psicanálise. Mitologia grega.

Na antiga Grécia, contava-se o seguinte: quando criança, o deus Dioniso foi aprisionado pelos titãs, seres gigantescos e poderosos, que o despedaçaram e o devoraram; Zeus, o maior dos deuses e pai de Dioniso, enfurecido, fulminou-os com seu raio. Do fumo de seus restos calcinados surgiram os homens, uma mistura das tendências destrutivas dos titãs com uma pequena parcela divina e que age em seu interior como um eu oculto.

Esse mito tardio teria sido uma das respostas que os gregos deram à sua inquietude diante das contradições da natureza humana. Perplexos, eles se perguntavam como era possível a convivência de tendências radicalmente opostas no ser humano, como era possível que os atos do homem revelassem a existência em seu espírito, tanto de um deus quanto de um criminoso (Dodds, 1988, p.171). Pelo mito, explicavam e tornavam aceitável algo antes incompreensível.

Após fulminar os titãs, Zeus deu o coração de Dioniso, ainda pulsante de vida, à mortal Sêmele que, engolindo-o, gestou-o em seu ventre. Hera, esposa de Zeus, iludiu Sêmele, por quem o deus estava apaixonado, de tal forma que a jovem exigiu que Zeus comprovasse sua divindade, apresentando-se a ela em sua própria natureza. Mesmo a contragosto, Zeus a satisfez, pois comprometera sua palavra, e ela foi fulminada pela visão do esplendor divino. No momento da morte de Sêmele, Zeus sacou o pequeno Dioniso de seu ventre, costurando-o a seguir no interior da própria coxa, onde ele permaneceu até o momento do parto.1 1 O mito como contado neste texto era veiculado pelos órficos, que, neste episódio dos titãs, identificam Dioniso com uma divindade mais antiga, Zagreus. Outra versão, muito conhecida e aceita, é a de que Dioniso era, na verdade, fruto da união sexual entre Zeus e Sêmele. Da mesma forma, quando a jovem morreu fulminada, Zeus salvou o bebê e o costurou em sua coxa até o término da gestação. (Cf. Pierre Grimal, Dicionário de mitologia grega e romana).

Os gregos antigos, que ofereceram à humanidade uma concepção de homem inteiramente nova em seu tempo, proclamando-o um ser livre, a quem o Estado devia servir e auxiliar no desenvolvimento físico e espiritual, esforçaram-se por compreender o ser humano e puseram sua compreensão a serviço dos outros homens. Seus mitos, certamente mais antigos do que a época em que começaram a adquirir uma consciência de sua posição única entre os povos seus contemporâneos, são uma herança que revela - entre outras coisas - os questionamentos que povoavam seu mundo mental e sua vida.

Os mitos de um povo têm sentido em seu tempo. O fato de ser ainda tão grande o interesse por mitos associados a um sistema religioso e sócio-cultural tão diferente do que encontramos em nossos dias, leva a pensar que seu valor, longe de circunscrever-se a um tempo passado, encontra eco no espírito da humanidade. Para os gregos antigos, os mitos não eram histórias de entretenimento e nem curiosidades; diziam algo a respeito do mundo, do homem e seus deuses, e se constituíram um verdadeiro reservatório de conhecimentos de significado imorredouro, dos quais nos valemos até hoje.

O homem não conhece sua origem. Essa é uma das questões centrais do pensamento especulativo. O homem desconhece seu surgimento e desconhece o movimento evolutivo que fez com que, dentre todos os seres, ele se constituísse de uma maneira tão singular. Distinguindo-se dos animais, o homem não é dominado só pelos instintos, ou só pelo condicionamento biológico; aprende a pensar e a se questionar sobre sua existência, quer entendê-la, explicá-la, quer conhecer sua natureza. É evidente que, então, abre-se um mundo a ser explorado e, para que isso seja possível, são necessários recursos de tolerabilidade para com o desconhecido e de confiança nas próprias condições de acolher a infinitude que se apresenta. Uma das alternativas para lidar com a angústia que surge é criar mitos. Eles dão sentido e coerência necessários ao funcionamento organizado do indivíduo, assim como do grupo humano. Através do mito, o homem se posiciona diante do universo, definindo uma identidade que lhe possibilita sobreviver e arriscar-se na experimentação da vida. Os mitos se apresentam, então, como uma forma de pensamento eficaz, pois organizadora da relação do homem tanto com a massa de fenômenos que o rodeia quanto com suas reações ao mundo.

Pode-se concordar com a afirmação de que os gregos tinham verdadeira vocação pelo conhecimento (Colli, 1988, p.11). Tal vocação se revelou em muitas áreas da vida, inclusive no terreno religioso. Seu espírito original aspirava a distinção, e é grande distinção a familiaridade com o mundo divino. Eles cultivaram seus deuses com uma religiosidade única em seu tempo e o caráter particular de cada deus se expressava com clareza nos mitos. O mundo em que o homem vivia pertencia à divindade e esta pouco concedia de graça. Os deuses, semelhantes aos homens em vários aspectos, ao mesmo tempo transitavam num campo enormemente distante, pelo fato de serem imortais. O encontro entre ambos, nos mitos, quase sempre resultava em catástrofe para os homens. O conhecimento desvela o oculto, mas a claridade pode ser excessiva. O mito ensina que a relação com os deuses exige cautela.

Que fazer, então? O homem, sempre insatisfeito, aspira muito além do que está ao seu alcance. Mergulhado em sua pequenez, concebe deuses que o instigam a elevar-se e o castigam quando tenta alcançá-los, mas jamais se submete. Os enigmas e contradições, os conflitos e dramas que se dão na intersecção da esfera humana com a esfera divina, caracteriza e colore toda a mitologia grega. Todo o tempo, contudo, coloca-se ao homem a necessidade de lidar com sua verdade, com sua interioridade e com as contradições que o assolam a partir de dentro.

Dentre todos os deuses que povoam o panteon olímpio, Dioniso é, provavelmente, o que mais causa estranheza. Ele é o único deus que muito precisou lutar para impôr seu culto e ser aceito em sua divindade. Agreste, campesino, nada urbano, Dioniso vagueia pelos montes e bosques, errante e livre. Ele é, por excelência, um deus epifânico; nascido duas vezes, a violência e o sangue, presentes desde sua concepção, acompanham suas epifanias. Deus do patológico e dos extremos, deus ilusionista, quando possuído por ele, o homem chega aos limites de sua própria humanização ... ou às raias da bestialidade. Ao mesmo tempo, Dioniso é o deus da alegria, da vinha, do vinho, das festas e do riso. Associado fortemente à sexualidade, aos prazeres dos sentidos, Dioniso traz a liberdade e a euforia àqueles que o aceitam. Presidindo opostos, Dioniso ilude e distorce a percepção, entorpece os sentidos, confunde e desloca o homem de seu universo conhecido, tanto quando o conduz à selvagem crueldade e perdição, quanto quando o transporta ao altamente festivo, à alegria inebriante. De qualquer modo, ele perturba a ordem. Aos que o aceitam, une-os numa "confraternização idílica", numa "comunhão feliz de uma idade de ouro repentinamente reencontrada", ao passo que aos que o negam, lança-os "na confusão caótica de um horror aterrador." (Vernant, 1991, p.255).

Dioniso não admite recusa, não aceita rejeição, não tolera qualquer indício de repúdio ou ofensa. Em compensação, aquilo que ele oferece encanta e alegra. Há um quadro de Ticiano, Baco e Ariadne2 1 O mito como contado neste texto era veiculado pelos órficos, que, neste episódio dos titãs, identificam Dioniso com uma divindade mais antiga, Zagreus. Outra versão, muito conhecida e aceita, é a de que Dioniso era, na verdade, fruto da união sexual entre Zeus e Sêmele. Da mesma forma, quando a jovem morreu fulminada, Zeus salvou o bebê e o costurou em sua coxa até o término da gestação. (Cf. Pierre Grimal, Dicionário de mitologia grega e romana). , no qual o deus surge diante da jovem Ariadne com todo seu cortejo festivo, oferecendo-o a ela, revelando o que a aguarda se ela se casar com ele. É um presente irrecusável para um casamento também irrecusável. Dioniso tem, aliás, um casamento nada traumático. Aceito por Ariadne, desposa-a e a conduz ao Olimpo, amando-a como sua única esposa e mulher. Não foi uma relação violenta e nem se fala muito nela, na mitologia grega.3 1 O mito como contado neste texto era veiculado pelos órficos, que, neste episódio dos titãs, identificam Dioniso com uma divindade mais antiga, Zagreus. Outra versão, muito conhecida e aceita, é a de que Dioniso era, na verdade, fruto da união sexual entre Zeus e Sêmele. Da mesma forma, quando a jovem morreu fulminada, Zeus salvou o bebê e o costurou em sua coxa até o término da gestação. (Cf. Pierre Grimal, Dicionário de mitologia grega e romana). Há variações, segundo as quais Dioniso teria possuído inúmeras mulheres e a todas desprezado. Contudo, o que predomina no mito é a união fiel com Ariadne, uma raridade em se tratando de deuses gregos.

Deus de uma mulher só e ao mesmo tempo de todas as mulheres, pois são elas, sobretudo, que o cultuam, Dioniso as encanta e seduz. As bacantes, ou bacas, são as mulheres possuídas pelo deus, que vivem um estado de alegria orgiástica, festiva, eufórica. Elas cantam a chegada de Dioniso e o honram com todo seu ser: identificadas com o deus, ele vive nelas, apossando-se delas, que se entregam ao culto, numa relação com a divindade que é ímpar em toda a mitologia grega. Dioniso é o único deus da mitologia que possui seus cultuadores, ele não apenas inspira o indivíduo como, por exemplo, Afrodite, que inspira paixão com suas artes e enganos. O cultuador fica possuído pelo deus, que o domina totalmente e o transporta a um estado de manía sagrada. O homem fica identificado com o deus, sem confundir-se com o próprio, e entrega-se a ele sem possibilidade de resistência, perdendo a noção e o controle de sua própria racionalidade.

Quando as mulheres renegam Dioniso e recusam-se a participar de seu convívio, ele as enlouquece. Tomadas pela manía devastadora, elas são mênades deambulando aos gritos pelos montes, entregues à sexualidade desvairada, ao canibalismo e à vida selvagem. Esse estado enlouquecido é destrutivo ao extremo. Quem nega o deus abre as portas para a loucura e o desvario, que irrompem descontroladamente. Ele devolve a humanidade a um estado de selvageria primitivo, anterior ao domínio do fogo: as mulheres despedaçam seus filhos e devoram carne crua de animais, como cadelas famintas devoram seus filhotes após o parto.

O que se encontra expresso nesse mito perturbador? Apaixonado e irracional, o mito leva o homem a olhar para si e a reconhecer sua passionalidade e sua desrazão. Sua face o contempla a partir da mais secreta intimidade, com toda a força dionisíaca. Concebido por homens, o mito de Dioniso revela a apreensão do ser do homem no que ele tem de selvagem, perigoso, antropofágico, sombrio. Essa apreensão está disponível para ser elaborada e usada de tal modo que o resultado não venha a ser disruptivo, mas sim se torne fonte de enriquecimento. Nas sombras, delineia-se a força e o vigor de um estado de liberdade a ser usado e expandido; nas sombras se oculta um potencial criativo a ser transformado pela atividade do pensamento em elementos utilizáveis para a ampliação da consciência de quem se é.

Deus antiquíssimo, cujo nome figura nos mais remotos registros escritos de que se tem conhecimento, Dioniso foi reapresentado aos atenienses por Eurípides, no teatro do século V, século de Péricles, cem anos de luz, das artes e da guerra desastrosa.

A tragédia, que encontra no mito sua legitimidade, sua substância e o mais elevado sentido do humano que pretende revelar, ao mesmo tempo em que distancia, torna o acontecimento próximo e acessível às emoções. Os acontecimentos míticos, evocados na forma dramática, representados no palco, visíveis, então, ao olhar, impõem sua verdade com a força e o vigor irresistível que lhes são intrínsecos. Pois, se aquilo que o mito conta é mito, aquilo que ele revela não é mito; é realidade humana.

Se uma das funções do mito é a de possibilitar ao indivíduo o contato com aspectos seus que o atemorizam, favorecendo a elaboração de conflitos ao deslocar para o universo mítico conteúdos psíquicos, Eurípides trabalha o mito de modo exemplar e extremamente mobilizador, pois ele leva o homem a voltar seus olhos para si mesmo e a reconhecer-se em seus atos. Bem pouca influência é atribuída à divindade e foi esta característica euripidiana com suas decorrências que levou Aristóteles a afirmar, n' A Poética, que Eurípides é o mais trágico dos poetas.

Considerado o dramaturgo que mais profundamente conseguiu penetrar no irracional da alma humana, Eurípides teria sido quem primeiro levou ao palco a patologia da alma, abrindo à tragédia possibilidades de representar enfermidades do espírito que têm origem na vida instintiva (Jaeger, 1986, p.267) e nas necessidades afetivas mais básicas. Ele acentua a força inexorável das paixões sobre os atos humanos; ele coloca de modo comovente, várias personagens mulheres no centro da trama e, em torno delas, giram os acontecimentos e as desgraças. Até mesmo uma das críticas que, desde Aristóteles, freqüentemente é feita à arte euripidiana, a de que sua economia é deficitária, torna-o, paradoxalmente, mais próximo e acessível, pois a economia4 1 O mito como contado neste texto era veiculado pelos órficos, que, neste episódio dos titãs, identificam Dioniso com uma divindade mais antiga, Zagreus. Outra versão, muito conhecida e aceita, é a de que Dioniso era, na verdade, fruto da união sexual entre Zeus e Sêmele. Da mesma forma, quando a jovem morreu fulminada, Zeus salvou o bebê e o costurou em sua coxa até o término da gestação. (Cf. Pierre Grimal, Dicionário de mitologia grega e romana). pela qual se dá a vida humana não tem a melhor das eficácias, não é regular, nem linear e muito menos coerente.

A tragédia As Bacantes é surpreendente e única na obra do dramaturgo que mais humanizou seus personagens, ao retirar da divindade o poder sobre o homem e dar a este e às suas paixões a responsabilidade pelos rumos da vida. Nesta que é sua última peça, escrita na velhice, Eurípides coloca um deus, Dioniso, no centro, expressão da profunda compreensão que deve ter tido de como o ser humano é governado pela desrazão, e de como é necessário que ele se entenda com isso, caso contrário, paga com a própria vida. Não tanto com a vida biológica, mas certamente, com a vida do espírito.

Na peça, Dioniso, aprisionado por Penteu, rei de Tebas, que o recusa e escorraça, facilmente se liberta e traz com ele toda a destrutividade do renegado e do excluído. Quando Penteu prende Dioniso, acredita ter se livrado da perturbação que ele trouxera para o corpo da cidade. No entanto, o deus está pronto para soltar as cadeias e saltar para a vida, impondo então, à força, aquilo que não foi acolhido de bom grado. O preço é altíssimo: Penteu é despedaçado por Agáve, sua mãe, que, iludida, supõe que ele é um animal selvagem, um leão.

Em um dos textos que escreveu sobre Dioniso, As Bacantes e Eurípides, Vernant (1991) analisa o surpreendente jogo ilusionista que o deus faz com o homem, na pessoa de Penteu. O pobre rei, confiante em si mesmo e cego sem o saber, vai aos poucos sendo levado à mais completa perdição e infelicidade, ficando claro, paulatinamente, quais as verdadeiras posições que ele e o deus ocupam. Revela-se, ao mesmo tempo, o poeta Eurípides que percebe e apresenta na sua arte, no seu saber fazer, a violência que é inerente ao ato de viver e a necessidade de aprender a aceitar e a entender-se com essa violência.

Dioniso é o deus que foi despedaçado e devorado quando criança e que leva as mulheres a despedaçarem seus próprios filhos e a devorarem carne crua de animais que elas matam com as mãos nuas, sem qualquer arma a não ser a própria violência. Assim, repete-se, deslocada, sua existência, seu nascimento e sua morte. Dioniso enlouquece as mulheres: o mito, concretizado, torna-se enlouquecedor, pois ele só deve existir como ato potencial no inconsciente do homem. A consciência deve reconhecê-lo e integrá-lo ao funcionamento mental, mas isso não significa, de modo algum, atuá-lo. Quer dizer que à medida em que desvela a necessidade de transformar a violência e a crueldade das fantasias em algo que possa ser utilizado para o desenvolvimento, o mito de Dioniso traz à tona o problema do conhecimento.

Por que Dioniso causa tanta estranheza? Ele se revela, num mito complexo e obscuro, um deus perigoso, selvagem, desencadeando a antropofagia, a sexualidade descontrolada, a perversão e a morte. Não age assim ele mesmo, mas é isso o que desperta nos homens que não o aceitam. Os gregos, em sua concepção abrangente da situação do homem no universo, atribuíram a uma divindade o domínio de um terreno muito específico: o perturbador, o ilusório, a desvario, a loucura. Um deus que exige e impõe a aceitação de si, por bem ou por mal. Aos que resistem, faz sentir todo o imenso poder de sua presença, dominando seus sentidos e fazendo-os agir como animais selvagens, não-dotados de qualquer racionalidade.

Não é por pouco que Dioniso foi um deus que os aristocráticos atenienses tiveram certa dificuldade em aceitar. Ele não combinava com o espírito da pólis. Deus vagabundo, não-citadino, foi incluído na vida da cidade através das festas religiosas a ele dedicadas, todos os anos. Atualiza-se a presença de Dioniso no mundo, repetindo-se as ações que ele impõe, dentro da segurança da cidade, por tempo determinado e com rituais bem definidos (Burkert, 1993, cap.V). A repetição exata no rito, traz para o presente e mantém vivos os acontecimentos do mito, sem concretizá-los. O rito traz a divindade para o centro da pólis, de um modo controlado, protegido, e a religião funciona, neste momento, como um espaço de contenção e continência para a loucura humana. Essa interessante função da religião torna-se necessária, na falta de outro método. Talvez a Psicanálise ofereça um método alternativo.

A violência que Dioniso impõe, na verdade já está dentro do homem. Essa violência inclui tudo aquilo que é negado, rejeitado, oprimido, desprezado, tudo o que assusta e que é moral e eticamente inaceitável e que, como parte da natureza humana, precisa ser acolhido e pensado. Se não se dá o espaço necessário na mente para o encontro com o lado sombrio de si mesmo, as perturbações afetivas podem ser muito amplas e, por vezes, irreversíveis, desencadeando-se a loucura e o sofrimento desnecessário. O dilaceramento imposto pelo deus despedaçado se repete indefinidamente, enquanto não se encontrar um espaço que inclua e torne bem-vindo o deus errante.

Um dos dramas humanos está associado à necessidade e à dificuldade do homem em aceitar e se entender com seus aspectos destrutivos, com sentimentos agressivos, com o ódio, a violência, com o medo, sem deixar-se dominar por aquilo que sente. A necessidade de acolher e de aprender a conviver com a própria realidade interior impõe-se ao homem, desde que ele nasce e começa a interagir com o ambiente. O destino que cada um dá a tal necessidade vai depender do interjogo constante entre as condições psíquicas e as facilitações ou obstáculos que o ambiente externo propicia.5 1 O mito como contado neste texto era veiculado pelos órficos, que, neste episódio dos titãs, identificam Dioniso com uma divindade mais antiga, Zagreus. Outra versão, muito conhecida e aceita, é a de que Dioniso era, na verdade, fruto da união sexual entre Zeus e Sêmele. Da mesma forma, quando a jovem morreu fulminada, Zeus salvou o bebê e o costurou em sua coxa até o término da gestação. (Cf. Pierre Grimal, Dicionário de mitologia grega e romana).

Afirmou-se acima que, talvez, a Psicanálise ofereça um método próprio para o indivíduo se entender com essas questões. Desde o início, os conflitos com a Psicanálise evidenciaram a dificuldade de incluir aspectos da natureza humana para os quais, em geral, mantinham-se os olhos fechados, em especial a sexualidade infantil, presente na criança e no adulto, e seus derivados. Pode-se pensar, num sentido amplo, que a sexualidade representa aqui a relação mais geral que o indivíduo tem com a própria vida. A clínica psicanalítica revela, desde seu início, que é muito penoso para o homem aceitar e conviver em bons termos com o fato de que ele tem uma vida instintiva e de que precisa aceitá-la e integrá-la no todo de sua pessoa. Freud ocupou-se dessa questão com freqüência e sob diferentes ângulos. Tanto em relação à vida individual, quanto à vida social, em nenhum momento ele nega a força e a presença da violência no homem, que tem que pagar um preço para domar sua própria natureza, caso contrário a convivência com seus semelhantes fica impossível (Freud, 1930).

Um dos fatores mais impeditivos ao desenvolvimento é o medo do contato com a própria realidade interna. Assumir a responsabilidade pelo que se é não é tarefa das mais simples, pois implica enfrentar uma experiência de sofrimento da qual, naturalmente, o homem tende a se evadir. Se o indivíduo consegue ter suficiente tolerância para com as dificuldades, é possível que amplie a consciência de si mesmo, abrindo caminho para a criatividade e para uma vida psíquica mais rica. Pois, há que se considerar que existem forças psíquicas conscientes e inconscientes que agem todo o tempo e que podem impedir o livre curso de uma grande reserva de vitalidade que, sendo bem canalizada, torna-se fonte da criação do novo. A única forma de se estabelecer um Cosmos verdadeiro é acolher o deus e dar-lhe um lugar e uma função, ou admitir seu lugar e sua função. Não há saída. Não há fuga possível.

Um outro mito, o mais antigo dentre os conhecidos, conta que nos labirintos do palácio de Cnossos, em Creta, vivia um minotauro, ser semi-homem, semi-touro, também associado a Dioniso. Esse ser espantoso era alimentado com carne humana e enquanto estivesse vivo estaria assegurada a sobrevivência do palácio. Preso ao labirinto, o minotauro representa uma imensa força inativa só na aparência. A estagnação incessante e silenciosa de sua vitalidade corrói, como água estagnada corrompe o metal e a madeira. Quando o herói Teseu matou o minotauro, conta o mito, começou e consumou-se a derrocada de Cnossos. O bom potencial mal orientado se perde de modo irrecuperável.

O não que Dioniso diz às normas pré-estabelecidas, ao estado controlado e regulador das coisas, às leis, abre infinitas possibilidades. É preciso se opor para criar. A criatividade implica um movimento em sentido oposto ao corrente, ou pelo menos, um novo enfoque ao conhecido, que venha a lançar outra luz sobre ele. Implica uma tomada de posição pessoal.

Há um certo conforto propiciado pela ignorância. Fazer um pacto inconsciente com as forças inconscientes que bloqueiam e restringem a mobilidade mental, propicia uma ilusão de controle e de não comprometimento com a própria vida. Contudo, por trás de uma aparência de ordem e controle, de regramento e parcimônia, existe um caos incipiente, na iminência de se manifestar. Há uma aparência enganosa, ilusória, segundo a qual tudo está em seus devidos lugares. Perceber e lidar com contradições torna-se imperioso para o indivíduo interessado numa visão mais inteira de si mesmo. Assim, se para se desenvolver, o homem precisou desprender-se do que nele é puro animal, sem o que não poderia começar a pensar, isto é, tornar-se humano, pode-se dizer que o mito surge como uma forma de elaborar o terror que está associado ao conhecimento, pois este inclui a percepção de limites, em especial, a inevitabilidade da morte.

A morte, porém, é o destino biológico do homem, assim como de qualquer ser vivo. Aceitá-la ou não é uma questão de grau de angústia, ou religiosa, ou mesmo filosófica. Mais premente é a aceitação do destino humano enquanto há vida. Este se define como sendo a convivência do homem consigo mesmo; o ser humano e cada indivíduo está destinado a conviver com sua realidade mental. No entanto, nem todos os homens alcançam realmente esse destino. Certamente, apesar de sua proposta de liberdade, o grego não se iludiu a ponto de supor que o homem poderia escapar de si mesmo. Chega-se, assim, ao coração do trágico. O homem conhece seu destino e não pode evitá-lo; quando tenta fazê-lo, paga preços altíssimos. Não há concessões; ou aprende a conviver com sua realidade, ou se perde na loucura, na morte, na alucinação, nas sombras ...

Os mitos expressam, de um modo altamente poético, o drama do homem como um ser que aspira à beleza e ao bem, ao mesmo tempo em que se depara com sua miséria e com suas necessidades. Do equilíbrio nessa área móvel depende, em grande parte, a qualidade da convivência da pessoa com sua realidade interior e nesta qualidade é que está toda a diferença. Ao estabelecer contato com a realidade de sua mente, o indivíduo pode reconhecer e mudar a relação com seus conflitos, recolocando-os em novos termos, menos limitadores. No centro desse processo está a dor, da qual todo ser vivente quer se subtrair, mas que desponta inevitável, não como um fim, porém integrada à aquisição de algo novo. Se consegue dominar o sofrimento inerente às experiências conflitantes, o indivíduo pode desenvolver seu potencial criativo para apreciar melhor sua própria companhia. O método psicanalítico permite o contato direto com esse processo e pode-se afirmar, também, que a função do analista como ajuda firme e benigna para a investigação do mundo interno é crucial. Considera-se que na descoberta e na posse daquilo que em si é destrutivo, está uma chance de crescimento e de conquista de uma nova relação de cada um consigo mesmo e com o mundo que o cerca. A partir daí, o homem pode vir a estabelecer um verdadeiro diálogo interno, pois passa a ocupar a posição de um ser que se relaciona com seus conteúdos mentais, sem necessariamente ficar submetido a forças que desconhece. Só então é que se dá a reconciliação entre o deus e o criminoso dentro do homem, ou seja, só então é possível a realização daquilo que define o humano.

MIGLIAVACCA, E.M. The Game of Opposites: an Approach to Mental Reality through the Dionisos' Myth. Psicologia USP, São Paulo, v.10, n.1, p.297-309, 1999.

Abstract: This paper considers the necessity of the individual to learn to live with the contradictory aspects of human condition. In this sense, myths are placed, especially the myth of Dionisos, as a poetic form to express man's conflicts in contact with mental reality.

Index terms: Psychoanalysis. Greek mythology.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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JAEGER, W. Paidéia: a formação do homem grego. São Paulo, Martins Fontes, 1986.

MIGLIAVACCA, E.M. Mitologia grega, uma luz sobre a apreensão psicanalítica da realidade mental. São Paulo, 1992. 139p. Tese (Doutorado) - Instituto de Psicologia, Universidade de São Paulo.

VERNANT, J.P; VIDAL-NAQUET, P. Mito e tragédia na Grécia antiga. São Paulo, Brasiliense, 1991. v.2

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    O mito como contado neste texto era veiculado pelos órficos, que, neste episódio dos titãs, identificam Dioniso com uma divindade mais antiga, Zagreus. Outra versão, muito conhecida e aceita, é a de que Dioniso era, na verdade, fruto da união sexual entre Zeus e Sêmele. Da mesma forma, quando a jovem morreu fulminada, Zeus salvou o bebê e o costurou em sua coxa até o término da gestação. (Cf. Pierre Grimal,
    Dicionário de mitologia grega e romana).
  • 2 The National Gallery, Londres.

    3 Existe uma explicação histórico-religiosa, segundo a qual Ariadne teria sido uma deusa da vegetação mais antiga do que Dioniso, e que teria sido assimilada por ele, num pacífico processo de sincretismo religioso.

    4 Economia, no grego, vem de oikos, que significa casa, lar, e de nomos, que quer dizer leis, normas.

    5 Desenvolvemos algumas das idéias aqui contidas, em trabalho anterior. (Cf. Migliavacca, E.M. Mitologia grega, uma luz sobre a apreensão psicanalítica da realidade mental. Tese de Doutorado).

    1 O mito como contado neste texto era veiculado pelos órficos, que, neste episódio dos titãs, identificam Dioniso com uma divindade mais antiga, Zagreus. Outra versão, muito conhecida e aceita, é a de que Dioniso era, na verdade, fruto da união sexual entre Zeus e Sêmele. Da mesma forma, quando a jovem morreu fulminada, Zeus salvou o bebê e o costurou em sua coxa até o término da gestação. (Cf. Pierre Grimal, Dicionário de mitologia grega e romana).

    Datas de Publicação

    • Publicação nesta coleção
      29 Set 1999
    • Data do Fascículo
      1999
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