Psicanálise entrevista 1: percursos que marcam a clínica psicanalítica no Brasil

Carmen Lucia Montechi Valladares de Oliveira Sobre o autor
Selaibe, M.; Carvalho, A.. (Orgs.). (. 2014. ).Psicanálise entrevista. (. vol. 1. ).São Paulo, SP: ,:. Estação Liberdade, .

Em comemoração aos seus 25 anos, a revista Percurso, órgão do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, nos presenteia com uma seleção de 35 entrevistas de sua coleção publicadas ao longo desses anos e organizadas em dois volumes, sob a coordenação de Mara Selaibe e Andréa Carvalho. A obra se abre com uma excelente introdução de Renato Mezan, coordenador editorial da revista, nos convidando a uma longa viagem por diferentes territórios, línguas, sotaques e sonoridades.

O primeiro volume, que soma 18 depoimentos e é objeto desta resenha, foi publicado em maio de 2014. Com sóbria e harmoniosa pintura assinada por Sergio Sister, a apresentação visual segue a tradição das belas capas que perfazem seus 51 números.

Cada entrevista é precedida por uma breve apresentação, contextualizando e atualizando a trajetória do entrevistado, sua produção intelectual e institucional, e comunicando, também, o falecimento de alguns. Temos assim reunidos expressivos representantes das gerações de analistas formados notadamente nas décadas de 1950 e 1960, de diferentes escolas e correntes teóricas. A presença "francesa", reforçando a característica da formação nesse Departamento do Sedes, é sem dúvida a mais significativa: Jean-Bertrand Pontalis, André Green, Jean Laplanche, Jean Oury, Claude Le Guen, Joyce McDougal, Radmila Zigouris e Monique Schneider. Já a psicanálise americana, tão pouco conhecida no Brasil, nos chega através da experiência de Otto Kernberg. Os analistas latino-americanos são representados por Isaias Melshon, Emilio Rodrigué, Marcelo Viñar, Chaim Katz, Joel Birman, Jurandir Freire Costa e Silvia Alonso e Ivone Lins.

Cada entrevistado testemunhou sobre seu encontro com a psicanálise, sua formação, suas relações com a vida institucional, com seus mestres, como se tece a clínica no cotidiano ou ainda sobre as perspectivas da doutrina na contemporaneidade.

As relações da doutrina com o social, temática que faz pano de fundo para o conjunto da obra, torna-se relevante no único depoimento de um não analista, Sérgio Paulo Roaunet, entrevistado em 2004. Renomado comentador do freudismo, seu olhar nem tão "estrangeiro" assim sugere, entre outros, um projeto literário de traduções de Freud para o português, além de chamar a atenção dos analistas para a necessidade de um "retorno a Freud" para pensar os fenômenos do mal-estar na cultura. Partindo do pressuposto de que os sintomas se produzem no social, Rouanet insiste na necessidade de se refletir sobre a relação que uma estrutura psíquica pode ter com o social.

Esses mesmos questionamentos atravessam as reflexões de Jurandir Freire Costa, Chaim Katz e Joel Birman, engajados que são em questões políticas e culturais. Para Freire Costa, o entrevistado do primeiro número da revista, em 1988, as experiências institucionais de trabalho com a exclusão, com a lembrança do extermínio, mostram, entre outros, que a "psicánalise deve servir para melhorar o convívio humano, para exercitar a tolerância e a liberdade" (p. 300). Enquanto Katz, cujo pensamento é marcado por uma multiplicidade de influências e um estilo de trabalho que atende a uma clínica, como ele diz, claramente "perturbada", em entrevista concedida em 1998, defende a necessidade de politizar a psicanálise, manifestando interesse em

saber por que e como a psicanálise brasileira se efetivou durante o regime militar e se o pensamento psicanalítico que se impôs, com sua neutralidade discursiva, não serviu de modo indireto aos interesses de tal regime, na medida em que se propôs pertinentemente. (p. 261)

Embora sob outro referencial, os efeitos perversos da vida institucional que provocam "certa esterilização simbólica no campo psicanalítico" merecem destaque na reflexão de Joel Birman. Na longa entrevista que concedeu à Percurso, em 2002, ele enfatiza como os dois grandes modelos institucionais de formação psicanalítica estabelecem uma "relação de servidão" à figura do chefe no caso dos lacanianos, e aos didatas no que se refere à IPA (p. 268).

O engajamento político está igualmente presente no belíssimo relato de Marcelo Viñar, ao abordar as experiências de traumatismo e tortura. Além das inúmeras referências e temáticas que perfazem sua formação e maneira de praticar a psicanálise, esse próximo, de Serge Leclaire e do casal Mannoni, também nos conta como se deu o processo de implantação da doutrina no Uruguai, do qual ele é um dos fundadores, nos anos 1960.

No atravessamento de línguas da psicanálise, no "entre-fronteiras", temos o curto depoimento de Emilio Rodrigué. Argentino de origem, baiano por adoção, cosmopolita na maneira de ser e estar no mundo, apaixonado pela psicanálise e sempre atento às inovações, esse "franco-atirador", um arqueiro experimentado pelos 60 anos de vivência com a psicanálise, optou por devolver as perguntas que lhe foram lançadas em forma de questão com respostas curtas e certeiras. Falecido em março de 2008, eram flechas provavelmente oriundas do estoque lançado em seu livro Sigmund Freud: século da psicanálise 1895-1995 (Rodrigué, 1995Rodrigué, E. (1995). Sigmund Freud: século da psicanálise 1895-1995. São Paulo, SP: Escuta.).

Quanto às experiências francesas, não menos atravessadas pela política, são antes de tudo anunciadoras da riqueza do freudismo no pós-guerra. Refletem vivências que são originárias tanto do campo da psiquiatria quanto da filosofia; através de Lacan ou de companheiros, próximos do movimento psicanalítico, ex-discípulos ou mesmo opositores, mas de qualquer maneira uma boa amostragem do que foi a efervescente geração que deu vida à psicanálise na França naquele período.

Começando pelos autores do consagrado Vocabulário de Psicanálise, Laplanche e Pontalis. Ambos marcados pela filosofia e analisados por Lacan, de quem também se distanciaram. Dois autores que por cerca de 10 anos se dedicaram à sistematização da terminologia freudiana, mas que, apesar desse laço intenso, souberam construir percursos singulares. Jean Laplanche, morto em 2012, erigiu uma carreira sempre em dialogo com a filosofia e a literatura. Na entrevista concedida em 1990, na Argentina, ele conta um pouco sobre sua ruptura teórica com o lacanismo, ao mesmo tempo que deixa transparecer o quanto a experiência de tradutor da obra de Freud o fez revisitar o objeto psicanalítico. Já a entrevista de J. B. Pontalis, igualmente morto em 2012, foi mais longa. Realizada em Paris, em 2008, retraça seu encontro com a doutrina quando ainda cursava Filosofia, com Lagache, ou ainda Lacan, assim como sua versão sobre as disputas institucionais. Além de seu campo de investigação, entre a linguagem e a imagem, ele também comenta o tema do livro que acabara de finalizar sobre a amizade, Le songe de Monomotapa (Pontalis, 2009Pontalis, J.-B. (2009). Le songe de Monomotapa. Paris, França: Gallimard.).

Ainda na fronteira entre a psicanálise e a filosofia, a entrevista de Monique Schneider descreve uma história de aproximações com a "loucura de Freud" e com o pensamento de Pierre Fedida e Conrad Stein. Fala igualmente de suas diferenças, por exemplo, com Lacan e Maud Mannoni, assim como das contribuições de Ferenczi para a sua maneira de clinicar.

Outra excelente entrevista é a de André Green, que propõe uma reflexão sobre a noção freudiana de representação nos mostrando que "é preciso trabalhar com a psicanálise de maneira não reducionista, a partir do que a história do pensamento psicanalítico pós-freudiano nos trouxe e a partir dos desafios que a clinica contemporânea nos lança" (p. 59).

Também repleto de desafios foi o extraordinário percurso de Jean Oury, morto em maio de 2014. Tanto pela via psiquiátrica, por meio da convivência com Tosqueles e Solanes, em Saint-Auban, no Clube intra-hospitalar que o preparou para a grande experiência da Clínica La Borde, quanto através de seu encontro com Lacan, seu analista por 27 anos. Encontros que fizeram dele um grande mestre da psicoterapia institucional francesa.

Outro testemunho expressivo do movimento lacaniano desde a década de 1960 nos chega através de Radmila Zigouris. Sérvia de origem e tendo vivido em Buenos Aires antes de se instalar na França, sua trajetória na psicanálise começa no Serviço de psicopediatria com Jenny Aubry, seguida de análise com Serge Leclaire e supervisão com Lacan, para depois percorrer outros territórios e línguas que a levaram a se interessar, entre tantos, pelo pensamento de Winnicott, e a uma análise com a húngara Maria Torok. Nessa entrevista de grande profundidade, além de sua clínica e maneira de pensar singular, é interessante acompanhar seu questionamento das hierarquias e da submissão ao poder, o que não a impediu de submeter-se ao Passe, mas que a levou, após a dissolução da École Freudienne de Paris, a fundar, com um grupo de talentosos analistas como Pierre Delaunay, Francis Hofstein e Lucien Mélèse, a experiência inovadora da pequena, porém instigante, Fédération des Ateliers de Psychanalyse.

Se as críticas ao lacanismo pelos diferentes herdeiros são predominantes nessa coletânea, os conflitos no interior da IPA francesa se mostram mais sutis, passam quase despercebidos. Tal é o caso da entrevista de Le Guen; concedida em 1998. Se, por um lado, o autor traz questões teóricas interessantes que polemizam com André Green, por outro, no plano institucional, suas posições são questionáveis. Nessa entrevista ele reivindica uma posição de "autonomia da psicanálise", de defesa de "múltiplas filiações", logo após ter liderado com Otto Kernberg - então presidente da IPA - o processo de condenação que culminou na demissão do psicanalista Leopold Nosek (ex-presidente da SBPSP) do posto de redator-chefe da publicação The Newsletter of the International Psychoanalytical Association. E isso porque Nosek havia solicitado e publicado um artigo de Elisabeth (Roudinesco 1997Roudinesco, E. (1997). Psychanalyse fin de siècle. La situation française: perspectives cliniques et institutionnelles. The Newsletter of the International Psychoanalytical Association, 6(1), 40-45.), seu desafeto no cenário psi parisiense, sobre a situação da psicanálise na França1 1 As reações dos analistas da IPA a esse artigo, assim como o "direito de resposta" de Roudinesco, estão publicados no Bulletin de la Société Psychanalytique de Paris (Quinodoz, Diatkine, Le Guen, & Kernberg, 1997; Roudinesco, 1998). . Nessa mesma dimensão, vale destacar sua ironia em relação à mobilização pelos "Estados Gerais da Psicanálise", que em julho de 2000 reuniu em Paris mais de mil analistas de diversas partes do mundo, os brasileiros somando mais de uma centena entre afiliados ao Sedes, à IPA, ao lacanismo e independentes. Analistas que decididamente estavam longe de representar os "abandonados da psicanálise", que o autor dois anos antes acreditava que fossem aderir ao movimento (p. 109).

A propósito de filiação à IPA, esse livro por vezes nos remete a territórios pouco explorados. Através de Otto Kernberg (presidente da IPA entre 1977 e 2001), acompanhamos o desenvolvimento da psicanálise americana, os atuais modelos de transmissão institucionais, assim como as aproximações que ele faz entre a psicologia do ego e o kleinismo. Autor polêmico, alguns de seus posicionamentos são contestados nesse livro, notadamente por Sergio Paulo Rouanet (p. 360) e Marcelo Viñar, também afiliado à IPA, sobre a noção de "narcisismo maligno" (p. 233).

Como contraponto, sempre na fronteira de diferentes línguas e filiações, o livro nos presenteia com a entrevista de Joyce MacDougall. Originária da Nova Zelândia, formada em Psicologia, emigrou para Londres nos anos 1950, quando conheceu Winnicott e formou-se com Anna Freud, antes de instalar-se na França, onde dialogou com Lacan, Green, além da escola americana de Kouht. Nesse percurso, tornou-se, como bem diz Maria Elisa Labaki, uma analista "avessa a dogmatismo" (p. 125).

Diferentes territórios e línguas levam a filiações por vezes inusitadas, como a de Ivone Lins. Ela é autora da primeira experiência institucional realizada em Recife para sua tese de doutoramento e defendida na França na década de 1970 sob a orientação de Didier Anzieu. Um encontro muito rico em aprendizado e que fez dela uma das precursoras do pensamento do inglês D. Winnicott no Brasil.

Singular também foi o caminho percorrido por Isaías Melshon. Didata da Sociedade ipeísta paulista, dominada pelas correntes kleiniana e bioniana nos anos 1970, conseguiu construir um pensamento inovador inspirado na fenomenologia. A entrevista destaca principalmente suas articulações com a arte, com a experiência estética, além das reformulações que faz de noções como a de consciência de objeto, de representação e do próprio inconsciente.

Por fim, cabe assinalar a "prata da casa", contemplada nessa coletânea por meio de Silvia Alonso. Além de suas pesquisas sobre o feminino, ela conta sobre sua formação e experiência na efervescente Argentina da primeira metade dos anos 1970 antes de se instalar no Brasil e ser acolhida por Madre Cristina e Regina Schnaiderman no Sedes, e assim participar da criação do Departamento de Psicanálise.

Ao término dessa longa viagem por inúmeras terras, cruzando estradas que levam para tantos territórios em que são confrontados línguas e sotaques variados, retornamos com nossa bagagem repleta de experiências, prevalecendo a crítica ao dogmatismo das instituições e aos chefes de escola.

Nesse sentido, pode-se dizer que, no seu conjunto, elas refletem os ideais de diversidade teórico-clinica que inspiraram o surgimento do Curso de Psicanálise no Sedes Sapientiae, em meados dos anos 1970, na capital paulista. Ao revelar a riqueza da prática psicanalítica, a coletânea é fiel aos esforços de Madre Cristina, que naquele momento soube reunir personalidades com Regina Schnaiderman, Roberto Azevedo, Isaías Melshon e Fabio Hermann para abrir novos espaços em uma cidade onde a formação estava restrita a uma instituição, a Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP). Instituição na qual, desde os anos 1960, predominava o pensamento único e que, acreditavam seus mestres, era o único local onde se praticava o que eles chamavam de "a verdadeira psicanálise".

Acima de tudo, pode-se dizer que essas entrevistas nos contam sobre as relações transferenciais que atravessaram as gerações que escreveram e escrevem a história da psicanálise no Brasil nos últimos 40 anos. Uma pluralidade que nos faz apostar no dinamismo dessa clínica quando exercida com o espírito livre e inovador.

  • Pontalis, J.-B. (2009). Le songe de Monomotapa. Paris, França: Gallimard.
  • Quinodoz, J.-M., Diatkine, G., Le Guen, C., & Kernberg, O. (1997). Réactions à la lettre d'information "Psychanalyse Internationale". Bulletin de la Société Psychanalytique de Paris, (46), 23-34.
  • Rodrigué, E. (1995). Sigmund Freud: século da psicanálise 1895-1995. São Paulo, SP: Escuta.
  • Roudinesco, E. (1997). Psychanalyse fin de siècle. La situation française: perspectives cliniques et institutionnelles. The Newsletter of the International Psychoanalytical Association, 6(1), 40-45.
  • Roudinesco, E. (1998). Droit de réponse. Bulletin de la Société Psychanalytique de Paris, (48), 74-78.

  • 1
    As reações dos analistas da IPA a esse artigo, assim como o "direito de resposta" de Roudinesco, estão publicados no Bulletin de la Société Psychanalytique de Paris (Quinodoz, Diatkine, Le Guen, & Kernberg, 1997Quinodoz, J.-M., Diatkine, G., Le Guen, C., & Kernberg, O. (1997). Réactions à la lettre d'information "Psychanalyse Internationale". Bulletin de la Société Psychanalytique de Paris, (46), 23-34.; Roudinesco, 1998Roudinesco, E. (1998). Droit de réponse. Bulletin de la Société Psychanalytique de Paris, (48), 74-78.).

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    May-Aug 2015

Histórico

  • Recebido
    15 Nov 2014
  • Aceito
    28 Dez 2014
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