Resumo:
Este estudo analisou a interferência das mídias sociais no processo de saúde-doença de estudantes universitárias. Seis estudantes de diferentes cursos da área da saúde participaram; o grupo operativo foi utilizado como método de coleta de dados, e para análise das vivências grupais a interlocução teórica entre Pichon-Rivière e a visão de ser humano e sociedade de Byung-Chul Han. O grupo foi realizado de forma remota, em função do isolamento imposto pela pandemia de covid-19. Identificamos que as mídias sociais colaboram para o desenvolvimento de idealizações e expectativas que geram uma ampliação da lógica de desempenho e produtividade, e favorecem a emergência de quadros de ansiedade, assim como desconexões entre o pensar-sentir-dizer-fazer.
Palavras-chave:
saúde mental; psicoterapia de grupo; terapia online; redes sociais; psicologia social
Abstract:
This study analyzed the interference of social media in the health-disease process of university students. In total, six students from courses in the health area participated in this study. Operative groups were used as a data collection method and the theoretical interlocution between Pichon-Rivière’s and Byung-Chul Han’s vision of human being and society used to analyze group experiences. The group was held remotely due to the isolation imposed by the COVID-19 pandemic. Social media contributes to the development of idealizations and expectations that expand the performance and productivity logic and favor the emergence of anxiety and disconnections between thinking-feeling-saying-doing.
Keywords:
mental health; group psychotherapy; online therapy; social media; social psychology
Résumé :
Cette étude a analysé l’interférence des médias sociaux dans le processus santé-maladie des étudiants universitaires. Six étudiants de différents cours de santé y ont participé. Le groupe opérationnel a été utilisé comme méthode de collecte de données, et l’interlocution théorique entre la vision de Pichon-Rivière et celle de Byung-Chul Han sur l’être humain et la société a été utilisé pour analyser les expériences du groupe. Le groupe s’est tenu à distance, en raison de l’isolement imposé par la pandémie de COVID-19. On a constaté que les médias sociaux contribuent au développement d’idéalisations et d’attentes qui génèrent une expansion de la logique de performance et de productivité, et favorisent l’émergence de l’anxiété, ainsi que des déconnexions entre penser-sentir-dire-faire.
Mots-clés:
santé mentale; psychothérapie de groupe; thérapie en ligne; réseaux sociaux; psychologie sociale
Resumen:
Este estudio analizó la interferencia de las redes sociales en el proceso salud-enfermedad de estudiantes universitarios. Participaron seis estudiantes de diferentes carreras del área de la salud; el grupo operativo se utilizó como método de recolección de datos, y para el análisis de las experiencias grupales se utilizó la interlocución teórica entre Pichon-Rivière y la visión del ser humano y sociedad de Byung-Chul Han. El grupo se realizó de forma remota, debido al aislamiento impuesto por la pandemia del covid-19. Identificamos que las redes sociales contribuyen al desarrollo de idealizaciones y expectativas que generan una ampliación de la lógica del desempeño y la productividad, y favorecen el surgimiento de la ansiedad, así como las desconexiones entre pensar-sentir-decir-hacer.
Palabras clave:
salud mental; psicoterapia de grupo; terapia en línea; redes sociales; psicología social
Introdução
A interação humana com as tecnologias digitais e mídias sociais tem sido cada vez mais evidente em nosso cotidiano. É notório que o consumo excessivo de conteúdos digitais oferecidos pelas mídias sociais produz, efetivamente, alterações nas formas de relações sociais, nos anseios e nos comportamentos das pessoas, na percepção sobre si mesmas, na maneira como dimensionam a própria realidade e ao que aspiram e como percebem os próprios desejos. A sociedade contemporânea apresenta, assim, uma relação bastante próxima com a virtualidade, os processos midiáticos e as dimensões tecnológicas, estabelecendo novas formas de viver e construir relacionamentos (Moromizato et al., 2017).
Com o advento da pandemia de covid-19, o estreitamento da relação humana com as tecnologias digitais acentuou-se, com o que as distâncias se encurtaram em termos de prontidão de acesso, seja para uso no trabalho, estudos e comunicação, seja para o estabelecimento de laços afetivos. A pandemia, que atingiu o Brasil em 2020, trouxe agravamentos e tensões não apenas no âmbito da saúde coletiva, mas também impactos nos processos econômicos, sociais, culturais e políticos. A insegurança, o medo e a proliferação de discursos irresponsáveis promovidos pelas fake news, por exemplo, puseram à prova a confiança no conhecimento científico (Caponi, 2020), revelaram o poder das mídias sociais no controle social e escancararam, ainda mais, as desigualdades sociais que grassavam mesmo antes do processo pandêmico (Ávila, 2022).
Podemos pensar que, muitas vezes, as relações virtuais têm se estabelecido como uma espécie de panóptico (Foucault, 1987), as quais, contudo, operam numa lógica constituída digitalmente. Entretanto, diferentemente da vigília externa exercida pelo outro (Estado, família, moralidade), nesse novo contexto a sentinela se estabeleceu como um dispositivo narcísico por meio do qual a pessoa cria imagens de si, conceitos, fantasias e uma ideia de vida produzida numa virtualidade, diversa da dimensão afetiva vivida (Han, 2017b).
Essas possíveis divergências entre o pensar, dizer, sentir e fazer propiciam um regime de ambiguidades, incertezas e inseguranças (Pichon-Rivière, 1983/2012), na medida em que as imagens produzidas na virtualidade se encontram cindidas da concretude das práticas sociais consumidas ou produzidas. Dessa forma, instigam o retraimento das condições sócio-históricas das pessoas, que se encontram em situação vivencial contraditório-dialética (Pichon-Rivière, 1983/2012), migrando para uma autorreferencialidade (Kazi, 2006) e acarretando a destituição de suas opacidades (Han, 2020).
Compreendendo o vínculo como uma estrutura dinâmica em movimento contínuo e diretamente ligada à interrelação de processos de comunicação, de aprendizagem e à dimensão social (Pichon-Rivière, 1983/2012), notamos, ademais, que fragmentação, individualização e narcisificação (Han, 2019) resultam num fomento de negação da vincularidade, o que determina processos de despersonalização (Pichon-Rivière, 1983/2012). Isso nos conduz a indagar como esse processo, caracterizado por Pichon-Rivière nas décadas de 50 e 60 do século XX, se reconfigura a partir das modificações substanciais que se operam no decurso do desenvolvimento da sociedade capitalista na contemporaneidade (Han, 2017a; 2017b; 2017c; 2019; 2020).
A sociedade contemporânea produz, entre outros, dois tipos de adoecimentos bastante evidentes: os transtornos de ansiedade e a depressão, os quais surgem a partir da sobrecarga da necessidade de positividade e de fabricação de uma individualidade autorreferida e eficiente (Han, 2017b). Nesse sentido, a sociedade do desempenho estabelece o sucesso e a produtividade como responsabilidades quase exclusivas das pessoas, na medida em que, nesse contexto, elas têm “liberdade” e possibilidades “irrestritas” (Han, 2017c). Pensamos haver um ordenamento social que implica acúmulo de processos sem narrativas. Por exemplo, um teatro de experiências sem contexto gera adoecimento, à medida que produz um acúmulo de dores “não sentidas” e que não gera transformação (Han, 2017a).
O adoecimento psíquico é, também, o produto da sociedade na qual estamos inseridos, o que se evidencia, atualmente, em discussões ou afirmações sobre cansaço, ansiedade, depressão e suicídio cada vez mais frequentes em conversas íntimas, superficiais ou clínicas. Essas palavras têm se tornado cotidianas nas vivências produzidas pelas relações humanas. Pensamos essas expressões como emergentes das patologias grupais motivadas pelo enfraquecimento do processo dialético com a realidade, e situadas na negação das divergências entre as imagens produzidas virtualmente e aquelas experimentadas afetivamente pelas pessoas (Pichon-Rivière, 1983/2012).
Para Pichon-Rivière (1983/2012, p. 199), “a doença implica uma perturbação do processo de aprendizagem da realidade, um déficit no circuito da comunicação”. Assim, compreendemos que as patologias psíquicas contemporâneas, como a síndrome de burnout, depressão e ansiedade (Han, 2017c), são emergentes dos processos grupais nos quais a comunicação, a aprendizagem e a interação dialética entre pessoas e realidade externa estão de alguma forma dissociadas (Pichon-Rivière, 1983/2012).
Han (2017c) sugere, ainda, que essas patologias surgem da afirmação da sociedade do desempenho, da agonia do Eros e da sociedade da transparência, interpenetradas. Esse dinamismo compõe seres humanos que se transformam numa espécie de empreendedores de si, que naturalizam a sobrecarga da necessidade de positividade, de liberdade individual avincular e de produção mecanizada.
Dessa forma, escolhemos pensar as relações de adoecimento em estudantes de graduação e os processos patológicos que emergem nesse âmbito sob a ótica do referencial teórico supracitado, e tendo em vista o aumento significativo de sofrimento mental por parte desse segmento social (Garcia, Capellini, & Reis, 2020; Graner & Cerqueira, 2019). O ingressante no ensino superior apresenta uma série de expectativas em relação à vivência universitária, delineadas a partir dos aspectos subjetivos, que passam pelos anseios familiares e se estruturam de forma convergente com a dimensão social. Há uma teia de imagens construídas sobre “o universitário”, que nem sempre podem ser sustentadas na dimensão afetiva e psicossocial, e que resultam, muitas vezes, em quadros de depressão, transtornos de ansiedade e síndrome de burnout (Lima Filha & Morais, 2018). O frequente uso das mídias sociais e o consumo de conteúdos disponíveis nessas plataformas contribuem para potencializar determinadas expectativas, idealizações e concepções de realidade.
Em nossas experiências laborais e na literatura especializada, temos notado que a saúde mental dos estudantes está cada vez mais em evidência, o que se ilustra pelo aumento significativo de processos de adoecimento psíquico e pela demanda crescente por atendimento psicológico. É comum identificarmos a presentificação de uma lógica ligada à produtividade e ao desempenho (Han, 2017a; 2017b; 2017c) nos relatos dessas pessoas, o que instila um encadeamento de condutas, idealizações e pressões definidoras, muitas vezes, dos seus processos de saúde-adoecimento.
Nesse caminhar, os estudantes universitários não estão resguardados dos desdobramentos resultantes da organização social na qual estão inseridos. Tais repercussões, associadas à pressão estética e à transparência das relações desdialetizadas (Han, 2019; 2020), tendem a gerar e fomentar processos que expõem as ambiguidades vividas por eles, instalando fragilidades e sofrimentos.
A realização de pesquisas que discutam e debatam os aspectos relacionados à saúde mental é cada vez mais necessária e urgente, para que as respectivas discussões e resultados possam contribuir para pensar e propor processos de prevenção e de promoção da saúde. Como recorte, nesta pesquisa analisamos a influência do consumo das mídias sociais na saúde mental de estudantes universitários, a partir de interlocuções com Pichon-Rivière e Byung-Chul Han.
Enrique Pichon-Rivière, psiquiatra argentino que escreve sob a ótica contextual do século XX, pensa e propõe um ser humano social em sua constituição psíquica, o qual transforma a si e ao mundo numa relação dialética de vínculos estabelecidos com a realidade. Em sua análise, reivindica os adoecimentos como decorrentes de uma doença grupal, os quais constituem, também, denúncias das relações sociais.
Byung-Chul Han, filósofo sul-coreano coetâneo, em sua ensaística pensa o mundo em termos presentes. Ao fazê-lo, evidencia a constituição de um ser humano altamente centrado nas lógicas do desempenho individual, narcísico e produtivista. Identifica, ainda, que as pessoas estão cada vez mais isoladas e distantes de processos de coletividade, alteridade e pertencimento ao campo social, postando-se na realidade de forma marcadamente autorreferenciada.
Desse modo, indagações como as seguintes foram investigadas neste estudo: A interação e o uso de mídias sociais estimulam a reprodução de uma lógica de desempenho e transparência, tal como sugerido por Han, quando universitárias compartilham experiências nesse campo, em situação grupal? Em caso afirmativo, haveria indícios de que esse consumo de mídias sociais influencia os processos de saúde-doença vivenciados por elas? Temos como objetivo geral, assim, investigar como mídias sociais são consumidas e significadas por estudantes universitárias, em processo grupal desenvolvido sob modalidade remota, durante a pandemia de covid-19.
Método
Esta foi uma pesquisa-ação (Lewin, 1978) com enfoque qualitativo de investigação científica, estruturada sobre as relações de ensino-aprendizagem (Bleger, 1971/2007).
Seis participantes, com idades entre 19 e 25 anos, aceitaram o convite para participar do estudo, em resposta a um processo que contou com ampla divulgação institucional. As acadêmicas que compuseram o grupo estavam matriculadas nos primeiros anos de cursos da área da saúde1 de instituição pública federal situada no interior da região sudeste. Critérios de exclusão, como não ter acesso à internet em computador ou celular que possibilitasse estar em grupo, de modo remoto e síncrono, não precisaram ser considerados.
Na equipe de coordenação grupal, dois pesquisadores autores deste trabalho: uma psicóloga, clínica experiente no ensino e na supervisão de processos grupais (copensora, conforme o termo de Pichon-Rivière) e um psicólogo, clínico experiente no ensino, extensão e pesquisa sobre grupos (observador participante). Em sentido complementar, os encontros grupais foram supervisionados, semanalmente, por professor livre docente, clínico experiente e estudioso sobre grupos. A dinâmica de supervisão se articulava ao processo de avaliação crítica dos trabalhos, em ambiente que favorecia o estudo, o processamento e o planejamento das intervenções. Nesse contexto, o supervisor desempenhava funções de terceiro observador.
Dez encontros semanais foram realizados, com duração de 1 hora cada; neste estudo, trataremos de dois deles. Selecionamos os encontros 3 e 4 para analisar de forma mais aprofundada os objetivos propostos na pesquisa, uma vez que neles os processos grupais evidenciaram, de maneira mais contundente e direta, as questões das mídias sociais e de suas relações com processos de saúde-doença. É necessário aclarar que essa escolha não foi arbitrária, pois nos encontros anteriores houve quantidades de informação compartilhadas nos diálogos que adquiriram uma nova qualidade comunicacional nos encontros selecionados.
Pichon-Rivière (1983/2012) propõe que no grupo, para se constituir uma espiral dialética, é necessário diferenciar e associar as noções de “quantidade” e “qualidade”, ao debater o vetor da comunicação. Inicialmente, os membros do grupo partilham quantidades de informação relacionadas à tarefa manifesta, quando emergem também comunicações sobre afeições que isso suscita. Pelo processo de composição gradual de vínculos e interação dos esquemas de referência dos membros, em certo momento a quantidade daquilo que está se comunicando adquire uma nova qualidade, a qual se expressa como insight grupal que, por sua vez, aponta para o vetor da comunicação. Esse fragmento do processo implica uma mudança de qualidade por inclusões sucessivas de quantidades prévias, deflagrando, por conseguinte, processos de contradição que abrem caminhos para as mudanças grupais.
Cabe ressaltar que o grupo operativo criado por Pichon-Rivière (1983/2012) ocupa papel importante no cenário de concepções de intervenções grupais, ainda nos dias de hoje (Ávila et al., 2023; Castanho, 2022; Ribeiro & Santeiro, 2023). Ele foi escolhido como método de produção das experiências grupais, porque é um dos principais referenciais teóricos desta pesquisa, por constituir importante instrumento de investigação e trabalho.
Essa forma de pensar grupos propicia, além de função terapêutica, a produção de processos de aprendizagem colaborativa, cujos enfoques de trabalho estão centrados nas ações das pessoas em relação aos demais membros do grupo. Por essa razão, utilizamos os emergentes grupais enunciados pelas integrantes do grupo como método de análise das produções grupais.
A escolha pela análise dos emergentes grupais se caracteriza, outrossim, por ser um dispositivo qualitativo a nos oferecer elementos para realizarmos amplas análises dos conteúdos implícitos e explícitos manifestados no acontecer grupal. Nessa acepção, a “tarefa manifesta” grupal permitiu a leitura dos emergentes que aludiam às possibilidades de esclarecer a “tarefa latente”, haja vista o grupo produzir, processualmente, uma “objetividade crescente”, resultante do esclarecimento das ansiedades básicas, obstáculos epistemológicos e epistemofílicos e resistências às mudanças (Pichon-Rivière, 1980/1988).
Para compreender as dimensões de saúde mental das participantes, utilizamos a compreensão de grupo operativo e da psicologia social de Pichon-Rivière (1983/2012). Nessa via de compreensão, uma determinada situação deve ser analisada por meio de uma perspectiva psicossocial, sociodinâmica e institucional, na qual a pessoa e o grupo estão inseridos (Scarcelli, 2017). O ponto de partida da escolha teórico-metodológica é, assim, compreender o ser humano em situação (Pichon-Rivière, 1983/2012). Para tanto, é necessário compreender o objeto de análise numa referência dialética constante entre a pessoa, o meio e a maneira como ela se relaciona com processos que a cercam, definindo seu duplo caráter: o ser humano define a realidade enquanto esta o determina, incessante e reciprocamente.
De forma complementar, destacando as contribuições ensaísticas de Byung-Chul Han acerca do ser humano contemporâneo, buscamos a compreensão e a análise dos emergentes grupais evidenciados pelos participantes ligados à lógica do desempenho (Han, 2017c), à transparência das relações (Han, 2017b) e à dimensão da lógica midiática características da sociedade contemporânea (Han, 2020). Trabalhos que contemplam reflexões e debates que evidenciam marcas de instabilidade social, política, econômica e de saúde ampliados pela pandemia de covid-19 foram, igualmente, considerados (Ávila, 2022; Caponi, 2020).
O grupo foi realizado de maneira remota, em função do distanciamento imposto pela pandemia de covid-19, por meio da plataforma virtual Google Meet. Cada participante recebeu o Termo de Esclarecimento e, após a leitura e concordância com os termos da participação, assinou o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, conforme formulário criado no Google Forms. Os encontros foram gravados e transcritos na íntegra e literalmente. O corpus analítico da pesquisa foi composto pelos diálogos produzidos no processo grupal. Nesse sentido, as identidades das participantes foram substituídas por nomes fictícios, a fim de preservar o anonimato.
O estudo foi pautado na Resolução 510 do Conselho Nacional de Saúde, de 07/04/2016, que trata das especificidades das pesquisas nas áreas de ciências humanas e sociais. Além disso, por ter sido desenvolvido com Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) mediadas pela internet, as seguintes orientações da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa foram consideradas: Comunicado nº 0015188696, de 05/06/2020, e Ofício Circular nº 2/2021/CONEP/SECNS/MS, de 24/02/2021. O projeto respectivo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal do Triângulo Mineiro.
Resultados e discussão
Apresentaremos e discutiremos a seguir os emergentes suscitados nos 3º e 4º encontros do grupo e reverberações decorrentes. A título de contextualização geral, nos dois primeiros encontros o grupo se encontrava em momento de constituir-se como tal: no 1º, o estabelecimento de regras contratuais e a apresentação inicial de todos, estudantes e equipe executora, foram centrais; no segundo, recomposição quantitativa de integrantes, necessidades semelhantes foram notadas. Além disso, nesses dois momentos iniciais, a tarefa explícita do grupo e do projeto subjacente era apresentada: “Vamos pensar sobre o constituir-se universitária durante a pandemia e pela via remota?”.
No terceiro encontro, as seis participantes estiveram presentes. Nele, estabelecemos como proposta (tarefa explícita) pensarmos sobre como era experimentar o contexto universitário pelas lentes da tela, em função do isolamento imposto pela Covid-19. Solicitamos que imaginassem uma figura, uma fotografia representativa desse momento. As estudantes afirmaram que esse retrato seria composto de ambientes domésticos, como quarto, jardim, sala, celular, computador e cadeira, como exemplificado com as falas de Bia, Eva, Lis e Ana, respectivamente: “Seria a minha casa”; “Então é sempre o mesmo ambiente, já tá tudo decorado. E sempre com meu celular do lado também”; “Só o computador e o celular e o meu quarto”; “Onde o computador fica, tem um monte de lápis, folhas de um lado, post-it e. . . bloco de notas. Tem um jardim na minha frente”. É interessante observar que as expressões “meu” e “minha” foram recorrentes nesse momento e denotavam experiências autorreferidas.
Ao considerarmos a questão psicossocial (Scarcelli, 2017), ressaltamos que devemos desenvolver uma compreensão atenta sobre como a pessoa se expressa no processo grupal e de que maneira seu estilo comunicacional se entretece com as modalidades de expressão dos outros integrantes. Nesse sentido, a pergunta de início, apresentada pela coordenadora grupal, é como a expressividade da verticalidade de cada membro se dialetiza, ou não, com a horizontalidade grupal. Nesse caso, houve uma consonância de experiências e enunciados estabelecidos por pronomes possessivos que indicavam propriedade e individualismo, além de sinalizarem o caráter individual, desdialetizado e universalizado na reclusão de ambientes domésticos e autorreferenciados.
No momento seguinte, solicitamos às participantes que imaginassem aquela fotografia que acabaram de visualizar sendo encontrada por elas dez anos mais tarde; então, perguntamos como se sentiriam olhando para ela. Nesse momento, diferentes enunciados surgiram e transitaram entre os sentimentos de “vitória” e “derrota”. Entre as estudantes que apontaram percepções positivas, Ana relatou que experimentava um sentimento de orgulho e o relacionou conforme a expressão: “Fui persistente. . . é que eu tentei superar as minhas. . . os meus medos”. A estudante Isa assinalou: “É. . . perceber que eu sou. . . que eu me completo. E que eu sozinha consigo sentir tudo e ter todas as emoções, então foi. . . tenho que pensar que foi um ano de descobertas pra mim”.
Por outro lado, manifestando aspectos negativos sobre a contemplação da imagem, Cleo afirmou “. . . eu me sentiria deprimida, eu acho que é uma situação que eu me peguei durante a pandemia . . .”. E Eva disse “. . . iria ser cansaço. Porque parece que tudo o que a gente faz dá uma. . . exaustão, parece que nunca acaba o tanto de coisa que a gente tem que fazer”.
A partir de enunciados como esses, constatamos que múltiplas tensões contraditórias perpassavam as integrantes do grupo. A questão é não negligenciar que se inserir num grupo implica deparar com um regime multilateral de contradições: as da pessoa, como particularidade, e as deflagradas entre os membros do grupo, como produção de um território singular (Pichon-Rivière, 1983/2012). Nesse fluxo, notamos que os aspectos relativos ao adoecimento começavam a ser enunciados pelo grupo, atrelados a uma lógica de superação e persistência (Han, 2017c). A depressão e a superação foram incluídas nas associações verbais; além disso, o olhar individualizado e sem relação contextual com o que era imposto socialmente pela pandemia era igualmente presentificado. Aspectos de uma conduta autorreferida tanto nas manifestações positivas como nas negativas eram, assim, observados e dialogados.
O olhar individualizado sobre a própria experiência indicava negação da dimensão dialética do processo grupal e a maneira como o momento social, político, econômico e cultural interferia e contribuía para a aparição dos afetos enunciados pelas participantes. Cabe salientarmos que esse movimento dialético indicava necessidades de compreensão sobre os grandes agrupamentos, a superestrutura (dimensões da ordem política, econômica, social, ideológica e contextual), a fim de compreendermos “como” o grupo e a dinâmica grupal, em seu caráter totalizante, bem como o interjogo entre as participantes, estabeleciam papéis que assumiam a tele e os processos de comunicação e aprendizagem grupais (Pichon-Rivière, 1980/1988).
É imprescindível ressaltarmos que, em momentos como os desses acontecimentos grupais, a dimensão macroestrutural não parecia perpassar a análise das participantes sobre os enunciados de seus emergentes; estabelecia-se, assim, uma noção individualizada e recortada sobre o momento que vivenciavam. Nesse sentido, constatamos que o processo grupal manifestava emergentes sociopolíticos e culturais que requeriam nossa atenção, posto que nos ajudavam a compreender como a superestrutura determinava os processos de adoecimento e de sofrimento nesse contexto, mesmo quando os processos relatados ocorriam no enquadre “virtual”.
O interjogo entre os aspectos macroestruturais relacionados ao âmbito político nacional ficava aparente na colocação da participante Ana:
Eu não sinto esse peso, é. . . da pandemia, né?! Parece que as coisas não estão passando. Eu sinto em certos âmbitos, mas não na faculdade. Seria do âmbito assim. . . toda vez que eu ligo o rádio pra escutar alguma coisa tem o Bolsonaro fazendo merda. Ele nunca para, é sempre uma angústia política. Então eu tento me distanciar desse aspecto da política e de outros aspectos da política dos quais eu não me sinto intoxicada por esse tipo. Porque não é o tipo de política que me faz bem. Então isso me pesaria, ficar escutando esse tipo de coisa.
Atentamos, assim, que os aspectos da macroestrutura política influenciavam diretamente no desenvolvimento do bem-estar e da promoção de saúde das participantes, que se encontravam em cenário de interação social regido pela pandemia (Ávila, 2022). Nesse trecho selecionado da expressão de Ana, aspectos ligados à ambiguidade debatida por Pichon-Rivière (1983/2012) se realçavam, uma vez que ela afirmava não sentir o peso da pandemia; no momento seguinte, todavia, ressaltou a angústia desse processo, relacionando-o diretamente à perspectiva política.
Compreende-se pelo exposto que a eventual negação do debate político nacional, como forma de manutenção de bem-estar, se pode, por um lado, dar a sensação subjetiva de alívio, por outro, retira da pessoa sua capacidade de interação e pertença macroestrutural e pode isolá-la, de maneira autorreferenciada, como responsável exclusiva pela produção de seu bem-estar (Han, 2017c). Isso, por seu turno, potencializa as lógicas da positividade e da produtividade sobre a própria pessoa, que, assim, desdialetiza-se do debate social e passa a ser a grande responsável por se sentir bem.
Acrescenta-se, ainda, que a conduta negligente e irresponsável do então Presidente Jair Bolsonaro em relação à pandemia, e sua correspondente atuação política nesse contexto (Caponi, 2020), foi descrita por Ana como uma sensação de “angústia política”. No entanto, como forma de aliviar seu sofrimento, ela atuou de maneira autorreferenciada, negligenciando aspectos estruturais em curso. Tal conduta a direcionava para uma dificuldade de integração entre o objeto e o contexto e parecia gerar a fragmentação dos vínculos experienciados em grupo, o que, por sua vez, amplificava ruídos na comunicação e transformava a espiral dialética de aprendizagem num circuito fechado (estereótipo). Nesse sentido, processos de alienação entre a pessoa e a realidade na qual está inserida poderiam configurar movimentos de adaptação passiva à realidade e atuar como um tipo de estrutura patogênica (Pichon-Rivière, 1983/2012).
É bom lembrarmos que Pichon-Rivière (1983/2012) parte do princípio de que nos encontramos numa sociedade cindida, que produz pessoas dissociadas, as quais apresentam variados obstáculos para integralizar, pela via do pensamento ligado à ação, seu estar, ser e existir como seres humanos do vínculo e do contexto. Por essa via, esse autor nos convoca a pensar sobre como abismos entre experiência, afeto, ação e o enunciar podem gerar mal-entendidos nas comunicações e favorecer o surgimento de estruturas patogênicas, que dificultam o agenciamento de vínculos produtores de mutualidade e dinamismo nas subjetividades e no próprio grupo.
Tal circunstância fica ratificada na aparição de emergentes que irrompem no campo grupal na forma de papéis universais: o porta-voz e o líder da resistência. Porém, como todo papel se constrói pela vincularidade, abarcando o grupo todo, o que se manifesta como estereotipia-patologia não se corresponde, unicamente, à verticalidade de quem enuncia o obstáculo, pois aponta, também, para a horizontalidade grupal. O considerado “patológico”, portanto, não é individual, mas produto das interações humanas no grupo, as quais, por seu turno, reproduzem mecanismos de estereotipia do contexto socioinstitucional no qual esse grupo se encontrava situado e sitiado (Pichon-Rivière, 1983/2012).
Discrepâncias entre as práticas da materialidade do mundo e as experiências da virtualidade eram constatadas em dinamismos grupais como os debatidos. A rigor, a questão colocada pelo grupo não parecia ser se existiriam diferenças entre dois planos de experiência, mas se tal circunstância possibilitaria enriquecimentos dialéticos às suas integrantes. Contudo, para isso acontecer, deveria existir um processo de elaboração das contradições que emergiriam entre a materialidade do mundo e a experiência da virtualidade, vivida no e pelo grupo. Por conseguinte, para sustentar tal processo seria necessário apoiar tais elucidações na ratificação e retificação das experiências, num movimento espiralado e dialético que iluminasse as tensões entre o agir e o pensar.
Mais adiante, na mesma sessão, Ana, ao relatar o contexto vivido pela estrutura na universidade, afirmou que: “E uma disciplina só que eu tenho. . . que a gente tá tendo nesse período pesa um pouco, mas é mais pela energia da professora. . . do conteúdo. . . . E acaba que desgasta, porque ela não tem uma energia envolvente, sabe?”. Entendemos que, nesse momento, o aspecto da positividade como promotora de bem-estar emergiu. A negação da opalescência das relações e a reivindicação de uma a-conflitividade como forma de satisfação puderam ser constatadas nesse tipo de enunciado.
O estabelecimento de uma tirania da positividade (Han, 2017b) e a reinvindicação do aspecto fluido e transparente das relações (Han, 2017a) pareciam vir à tona. Notamos, assim, movimentos de anulação constante dos processos subjetivos ligados à negatividade e que não poderiam admitir a opacidade ou a tensão narrativa típica das relações analógicas. Esse tipo de emergente parecia alargar as possibilidades de dialogarmos sobre os aspectos que perpassavam a produtividade e sobre como, na medida em que as aulas aconteciam com o auxílio das TIC, o uso das mídias sociais interferia na percepção de cada integrante do grupo sobre os eventos vividos, como universitárias.
No 3º encontro, solicitamos às participantes que visitassem seus perfis nas respectivas mídias sociais e refletissem sobre o que o conjunto de imagens e linguagens selecionadas significava para elas. Igualmente, indicamos que pensassem se esse conjunto se relacionava concretamente com as realidades que viviam, sobre como se sentiam e o que aquela seleção poderia comunicar às pessoas que visitavam seus perfis. Após um tempo reservado para essa apreciação, as participantes indicaram uma incongruência entre o que estava postado nas mídias e o que realmente viviam. A estudante Bia disse: “as pessoas devem pensar que sou uma pessoa muito fechada, porque não tem foto minha no meu Instagram”. Isa também assinalou: “Só tem fotos minhas e sempre a maioria sorrindo . . . . Mesmo se eu não tô bem e tirei uma foto, eu posto como se eu fosse a pessoa mais feliz do mundo”. E Cleo emendou:
O povo deve achar que eu tô muito bem, porque eu tô viajando, eu tô postando foto, tá tudo ótimo, sabe? E na verdade, não tá. . . eu acho que a gente finge muito em rede social. . . . A gente nunca fala que tá mal em rede social e raramente a gente vê alguém que fala que tá mal em rede social.
Esses emergentes enunciavam a disparidade das vivências entre o que se apresentava nas realidades concretas vividas pelas participantes e o que elas publicavam em suas mídias sociais. O que surgia era a possibilidade grupal de começar a problematizar criativamente aquilo que se apresentava como antinomia. Esse movimento supõe a reposição, nos esquemas de referência de cada membro e no esquema de referência do grupo, dos processos contraditórios recusados previamente e que definiam adaptações passivas à realidade (Pichon-Rivière, 1980/1988).
Essa movimentação pode estimular uma série de reflexões. A pessoa que se controla e se exige expressões de pura positividade passa a ser controlada por quem a observa e a aprova, ou não, conforme a lógica rasa do like (Han, 2020). Esse dinamismo pode acusar movimentos subjetivos que constituem a ilusão de que a pessoa é capaz de suscitar os afetos e reconhecimentos ajustados às próprias expectativas, a qual, por sua vez, “controlaria” a percepção do outro. E nessa complexidade de oscilações, fantasias de que a pessoa teria o poder de retirar, também, a opacidade desse outro seriam vivenciadas.
Podemos ilustrar esse tipo de reflexão por meio do emergente enunciado no 4º encontro, por Cleo:
. . . é que, assim, quando você tá inseguro, né?! Com a sua aparência, ou alguma coisa, aí você vai lá, se produz, tira uma foto, coloca no Instagram. Aí tem tantas curtidas, aí você fala “nossa. . . agora eu tô bem” e não. . . não que esteja, né?! Mas dá um alívio superficial.
Nesse sentido, esse emergente não apenas permite problematizar o que tem sido debatido, mas também aponta como, pelas mídias sociais, a pessoa se produz de uma maneira que predeterminaria como o outro a percebe. Nesse ponto, dando sequência aos diálogos, Bia assinalou: “. . . as pessoas estão forçando a barra com. . . fingindo que vivem um mundo perfeito, quando você está muito mal, né?! É isso”.
A pessoa que se controla exige, assim, produzir-se nos termos da positividade e submerge na miragem de estar, a partir de uma impostura, com isso incitando um “agrado” no outro que, superficialmente, se alivia. Isso parece ocorrer mesmo quando ela está consciente de que todo o processo não se corresponde ao campo de experiência concreta de vida. Estariam subjacentes em nós, como seres humanos contemporâneos, variadas ilusões onipotentes que nos remetem a um regime mais complexo de positivação? O cansaço estaria dado, sim, pelas premissas previamente colocadas, mas a ele se agregariam os esforços de regulação, vetorização e modulação da percepção do outro. Não obstante, a associação a um trabalho desgastante, em todas as perspectivas, parece estar em andamento, pois a condição não dialética do processo não permite - ou dificulta bastante - a emergência de novas sensações e a intensificação de sofrimentos psíquicos e interacionais.
Por razões como essas, compreendemos que, nas mídias sociais, há a exposição de um estilo de vida que se apoia na vigília contínua, fomentado pelas lógicas de desempenho, produtividade, felicidade e beleza (Han, 2017c). Esse desempenho iconólatra põe os produtores de conteúdo como reféns e seus espectadores estabelecem projeções direcionadas à virtualidade que levam à constituição de novos processos de sofrimento, advindos do distanciamento da experiência concreto-contraditória (Pichon-Rivière, 1983/2012) fomentada pelas mídias digitais (Han, 2020). Como contemplado na expressão da participante Isa, durante o 4º encontro: “Meu Deus, eu não fui produtiva, eu não fiz isso, não fiz aquilo, eu vou ser menos que eles, eu sou menos”. Notamos, assim, que a medida do bem-estar e a análise da própria condição parecem estabelecidas e ancoradas a uma lógica externa, imagética e desprovida de narrativas, instilada pelas mídias sociais.
Ainda no 4º encontro, Cleo ressaltou: “A gente não quer aparecer mal, a gente não quer ser igual, mas meio que a gente se compara com essa pessoa. . . às vezes a gente não quer estar pior, pelo menos”. Esse tipo de emergente instigou-nos a pensar que a pessoa se configurava como uma engrenagem serializada, que afirmava como si mesma o que, de fato, pareciam ser diferenças relacionais, a partir das experiências com os outros. Nessa trajetória, ela parece se diluir em consumações e realizações existenciais universalizadas e massificadas (Han, 2020). Seria possível trafegar por esses territórios, de modo que as possibilidades (infinitas?) de sofrimento inerentes fossem suprimidas?
As conversas das participantes sobre as imagens produzidas, suas apreensões e afetos, e sobre o que sentiam continuaram, e a participante Cleo disse: “No mundo em que a gente tá vivendo, a imagem é muito importante. Então, o Instagram seria uma rede pra gente passar a imagem que a gente quer ser visto”. Experiências como a emergida nos remeteram a ponderar sobre esse aspecto que as imagens produzidas condensavam: de modo geral, a afirmação de um ser humano que se encontra em plena harmonia com as prerrogativas de uma vida que consegue se sustentar além da opalescência das contradições, dos mal-estares, das ambiguidades, das dúvidas, dos obstáculos e dos conflitos.
Dessa forma, a pessoa se sobrecarrega de exigências para compor uma impostura de si (Pichon-Rivière, 1983/2012) que traduza imagens esvaziadas da sua singularidade, negatividade e opacidade (Han, 2017b). A participante Nina sinalizou algo ilustrativo do que procuramos dizer: “A boa imagem. . . no Instagram tem muito a ver com aquela questão de se comparar com outras pessoas. . . . A gente não quer aparecer mal, a gente não quer ser igual, mas meio que a gente se compara”. Nesse percurso, a discrepância entre o pensar-sentir-agir fica patente, o que produz imposturas e ambiguidades que acabam por desembocar na emergência de processos de adoecimento (Pichon-Rivière, 1983/2012).
Ao compreender que o ser humano é produzido no interjogo das relações sociais (Pichon-Rivière, 1983/2012), podemos assegurar que há uma série de relações de codeterminação entre a sociedade da “estabilidade” e a subjetividade que se revela absoluta em sua suposta a-conflitividade. A partir dessa premissa, passa a ser cabível dizermos que a proclamada sociedade da transparência (Han, 2017b) subtrai a negatividade e a opacidade das relações humanas. E que, ao fazê-lo, essa mesma sociedade estabelece processos de reprodução “do abismo infernal do Igual” (Han, 2017b, p. 10) nas pessoas da atualidade.
O regime de constituição de um império do igual exige, por essa via, pessoas reprodutoras do homogêneo e, ao mesmo tempo, resulta numa abolição dos fundamentos da experiência humana produzida e produtora de pluralidades fenomênicas, que se encontram multideterminadas (Kazi, 2006). Assim, a pessoa acaba reduzida a uma caricatura simplificada da alegria e da perfeição absolutizada, que exige a negação de uma complexidade e resulta em fonte inegável de sofrimento. Há nisso, pelo menos, um duplo movimento complementar: a imposição da transparência e do uno implica a eliminação do estatuto contraditório produzido a partir da composição multiplicitária das realidades, tanto como a reprodução da pessoa totalizada na imagem do idêntico, a qual supõe a destituição de seu caráter singular e problemático.
Nesse fluxo, no 4º encontro as participantes discorreram sobre produtividade, cansaço, aumento das cobranças e ansiedade causados pelos trabalhos, provas e rotinas universitárias. Elas relataram como o corpo era afetado nesses períodos e descreveram situações muito intensas de estresse e autocobrança. Ao serem questionadas sobre como elas balizavam se eram produtivas ou não, indicaram a internet como meio de referência e de produção de medidas de si mesmas, conforme ilustrado pela participante Isa: “Eu acho que a própria internet, a própria rede social faz a gente sentir assim”.
As participantes relataram, ainda, que as autocobranças produzidas pelo que consumiam na internet, por exemplo, estabeleciam exigências de produtividade em relação às suas vivências como universitárias. Sobre isso, Cleo expressou: “A cobrança é, tipo assim. . . acho que relacionada a me destacar na profissão. . . . Eu me sinto frustrada. . . assim, como se eu fosse uma profissional mediana, sabe?”. Mais adiante, Isa acrescentou:
Eu acho que é a hora que a gente está se sentindo mal, que a gente acha que não é capaz, é a hora que a gente vê mais coisas que fazem a gente se sentir mais inferior ainda. . . . A gente começa a se cobrar mais, a gente sabe que todo mundo tá num momento difícil, mas é a hora que a gente mais vê, quando a gente tá mal e parece que o outro tá bem.
Nesse sentido, a manutenção da produção de estereotipias idealizadas parecia, assim, sobrepor-se à negatividade produzida pelas vivências cotidianas, de modo que podemos identificar, via narrativas grupais como as emergidas, desconexões afetivas, cognitivas e práxicas entre a imagem produzida de si (Han, 2017a) e a experiência singular que possibilita a recriação contínua das relações intersubjetivas (Pichon-Rivière, 1983/2012). Essa série de mecanismos, que compõem o processo de esvaziamento das contradições a favor da ambiguidade, resulta numa opressão de desempenho autorreferenciado que não se relaciona com as vivências complexas dos processos, inclusive sensoriais, que se estabelecem no cotidiano como dispositivo de produção de diferenças. Nessa acepção, Bia apontou: “Pra mim gera angústia você ver que as coisas não são como aparentam, mas ainda assim, eu fico angustiada por não ser do jeito que as pessoas demonstram que é, entendeu?”.
Ainda no 4º encontro, esse movimento pode ser ilustrado na expressão de Nina, que também é mãe:
Eu olhava o Instagram e aquele monte de mãe que conseguia fazer dez mil coisas, trabalhava, estudava e cuidava do filho todo dia. . . e eu ficava “gente, como assim?!”. E eu acho que, justamente na hora que a gente menos precisa de cobrança, é onde a gente vai procurar alguém pra poder se comparar e se cobrar mais.
Esse tipo de narrativa evidenciava os processos de fragmentação da percepção do todo. A pessoa que consome um fragmento de realidade postado nas mídias sociais sente-o como se aquela realidade apresentada correspondesse à totalidade da experiência. Movimentos subjetivos semelhantes a esses tendem a gerar uma sobrecarga excessiva de exigências, desempenho e produtividade. Assim, constatamos um processo no qual uma parte do todo é absolutizada e, ilusoriamente, acaba se configurando como universalidade da experiência consumida (Han, 2017b).
As experiências grupais estudadas, destarte, podem ser ilustrativas daquilo que na pessoa apresenta-se, aparentemente, como uma regularidade inercial do idêntico, quando, na realidade e nas conexões das múltiplas facetas que a constituem, institui, pela lógica do desempenho, novas maneiras de alienação. A ambiguidade era expressa pelas participantes como uma suposta e ininterrupta continuidade de si mesmas com suas realidades. Porém, o sofrimento delas era visível e instalava brechas, fissuras, rupturas e descontinuidades que, também no contexto universitário, eram vividas como fracassos.
Considerações finais
O estudo dos processos grupais nos 3º e 4º encontros nos permitiu identificar que os discursos, imagens e fisionomias constituíam-se (e constituem-se) como processos de enunciação de estereotipias, na medida em que a alegria, a romantização, a perfeição, os lugares e as imagens projetadas eram compostos sem a negatividade evidente na experiência concreta de vida, que somente é possível se for vivenciada à distância e oculta do outro, como diferente de mim.
Com a chegada da pandemia pelo Covid-19, houve uma intensificação no uso das TIC, em função da necessidade de isolamento físico para estabelecer conexões sociais, políticas, educacionais e culturais. O olhar para o mundo, e também para o mundo universitário, foi realizado por intermédio das telas, de forma individualizada e, muitas vezes, autocentrada. As mídias sociais foram um recurso utilizado pelas participantes para estar em contato com o mundo externo, mas com restritas possibilidades de interagir, concretamente, com ele.
Identificamos, a partir das experiências construídas no grupo, que o consumo de conteúdos em mídias sociais suscitou processos de idealizações que permearam o imaginário grupal, criou expectativas que fogem à realidade concreta das participantes e gerou exigências e opressões alimentadas pelas lógicas exacerbadas da produtividade e do desempenho. Nesse sentido, notamos que, apesar de, racionalmente, as estudantes perceberem que os conteúdos midiáticos são fantasiados por filtros (ou filtrados por fantasias?), discursos e ações positivadas na experiência afetiva eram vividos de forma desconectada da realidade vivida em experiência.
O estudo evidenciou que os processos de sofrimento das participantes se ligavam às noções de desempenho e produtividade alimentados pelas mídias sociais, geradoras de frustrações, ansiedades e cobranças exageradas. Nesse aspecto, as mídias se configuravam como um lugar em que elas se referenciavam tanto para estabelecer comparações e cobranças, quanto para se destacar e/ou incrementar noções de que precisariam produzir mais.
Por fim, sinalizamos a necessidade de ampliar as discussões, estudos e problematizações teórico-práticas no que se refere aos impactos das mídias sociais nos processos de saúde-doença de universitários e, no geral, de adultos emergentes. Mesmo que as TIC sejam instrumentos de informação e ampliação de conhecimentos, notadamente quando o distanciamento físico era a medida sanitária imperativa, faz-se indispensável estudar, progressivamente, os impactos psicológicos gerados por elas, ainda que o momento pandêmico esteja em fase de superação.
Nessa direção, novos empreendimentos poderão ampliar o relatado, por exemplo, ao contemplarem a diversificação do perfil de universitários participantes, incluindo os matriculados em instituições de natureza distinta da pública e de outras regiões do país. Cabe dizer, ainda, que as contribuições de Pichon-Rivière e de Han foram estruturantes das leituras apresentadas, o que poderia ser ampliado levando-se outros pensadores em conta.
Agradecimentos
Os autores agradecem: ao Prof. Dr. Lazslo Antonio Ávila, pelas orientações sempre tão gentis e enriquecedoras; ao Prof. Gregorio Esteban Kazi, pelo olhar atento e pelas provocações teóricas que enriqueceram o percurso e foram fundamentais para o aprofundamento das reflexões desenvolvidas neste trabalho; e aos(às) participantes do Grupo de Pesquisa Clínica psicanalítica: brincar aprender pensar, pelas construtivas interlocuções, especialmente à Beatriz Tavares Arantes e ao Gabriel Siqueira Terra.
Referências
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Desenvolver o trabalho com calouras que adentraram no ensino superior durante a pandemia nos interessava, porque o constituir-se universitárias da saúde passou a acontecer de modo inédito no país: por meio de Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) mediadas pela internet e, igualmente, sob o imperativo do distanciamento físico. Os processos grupais foram conduzidos de setembro a novembro de 2021.
