Depoimento Sobre Carolina Bori

DEPOIMENTO SOBRE CAROLINA BORI

Rachel Rodrigues Kerbauy

Instituto de Psicologia - USP

Recebi carta da comissão encarregada de organizar publicação em homenagem à Profa. Carolina Bori, solicitando o meu depoimento pessoal. Facultaram-me optar pela minha visão sobre a atuação de Carolina Bori quando "da vinda do Prof. Keller e de Sherman, pela criação do curso de Psicologia em Brasília e pelo desenvolvimento da Psicologia Experimental e de outros laboratórios". Dos eventos dos primeiros temas assisti partes. A criação do curso de Psicologia em Brasília e desenvolvimento da Psicologia Experimental vi acontecer. Provavelmente fui escolhida, entre outros, por ter vivido esse período.

Ao pensar sobre o assunto, quis saber o sentido de descobrir e disseminar. Descobrir é trabalhar dia a dia construindo métodos científicos, coletando dados e respondendo a uma pergunta de pesquisa. Disseminar é difundir, espalhar. Há ainda um outro conceito que precisei juntar aos anteriores: dar condições - lutar para abrir espaços, relacionar-se com pessoas e, de certa forma, impor um ponto de vista. Esses três conceitos parecem descrever acuradamente o desempenho de Carolina, tanto na criação do curso de Psicologia em Brasília, quanto para o desenvolvimento da Psicologia Experimental.

Às vezes faço minhas divagações e tento entender como alguém que fez tese de doutoramento sobre interrupção de tarefas, do ponto de vista da Teoria da Gestalt de Kurt Lewin, posteriormente realizou pesquisas em colaboração, empregando questionário e entrevistas, em diversas situações e assuntos, muitos deles ligados à Psicologia Social, tornou-se analista de comportamento. Interrompo minhas divagações e procuro explicar. O ponto comum deve ser o pensamento científico. O fazer ciência, tem um mistério: a maneira pela qual as pessoas são treinadas a tornar-se cientistas. Não há cursos formais testados e analisados para este fim. Suponho que Carolina tenha definido isto como sua missão: formar pesquisadores, embora não coloque esses objetivos publicamente, em palavras. Este não evidenciar os cantinhos e as mudanças pode ter sido difícil para a convivência com inúmeras pessoas, mas angariou a aceitação de outras.

A preocupação em descobrir, disseminar e dar condições é anterior aos episódios que assisti. Aparece na tradução de alguns livros, como o valioso (e a meu ver até hoje atualizado) Goode e Hatt, Métodos em Psicologia Social. É dar condições para que se aprenda a pesquisar. Em decorrência desse fato, encontro Carolina Bori se entusiasmando por fazer ciência em Psicologia, traduzindo outros livros fundamentais como os Princípios de Psicologia de Keller e Schoenfeld, em colaboração com Rodolpho Azzi, e Comportamento Humano Complexo de Staats e Staats, entre outros.

Conheci Carolina Bori na Biblioteca Municipal, onde tinha sala própria, levada por uma amiga que disse ser ela a pessoa que mais sabia Psicologia no Brasil. Encantei-me com seus olhos e sorriso nos poucos minutos em que a vi. Posteriormente, encontrei-a no laboratório improvisado no prédio da Biologia aparecendo para conversar com Rodolpho Azzi ou Gil Sherman e conosco, estudantes aplicados. Quando obtive bolsa de estudos do governo Francês, para estagiar na França (interrompendo minha iniciação em Análise Experimental do Comportamento) conversei com ela e Rodolpho. Carolina foi firme em que eu deveria ir. Da França escrevi e para minha surpresa recebi uma carta logo após sua vinda dos Estados Unidos, onde fora com Rodolpho e Gil conhecer os laboratórios, comprar livros e planejar o curso de Psicologia em Brasília com Fred Keller. Nessa carta dizia "a Psicologia nunca teve tanto". Isto é o que lembro. As palavras devem ser quase textuais, mas era evidente o entusiasmo e a esperança de contribuir para a Psicologia e fazer um trabalho pioneiro na Universidade de Brasília com a implantação do PSI (Sistema Personalizado de Ensino). Muitos psicólogos conhecem o resto da história.

Na USP, no Departamento de Psicologia Experimental, Carolina, uma das poucas doutoras em Psicologia, no início da pós-graduação, orientou teses sobre vários assuntos. Era generalista, a meu ver. Enfatizava o método empregado, a coleta de dados, a pergunta de pesquisa e sabia Psicologia para perceber a relevância de cada trabalho e preocupar-se com o rigor, com "pesquisa bem feita".

Essa mensagem possivelmente fez com que inúmeras pessoas procurassem realizar pesquisa e buscar seus caminhos. Permitiu o desenvolvimento da Psicologia Experimental e provavelmente marcou vários de seus orientandos (entre os quais me incluo) e pessoas que a conhecem.

  • GOODE, W.J.; HATT, P.K. Métodos em pesquisa social. Trad. Carolina M. Bori. Săo Paulo, Nacional, 1960. (Biblioteca Universitária. Série 2: Cięncias Sociais, v.3)
  • KELLER, F.S.; SCHOENFELD, W.N. Princípios de psicologia: um texto sistemático na cięncia do comportamento Trad. Carolina M. Bori e Rodolpho Azzi. Săo Paulo, Herder, 1966.
  • STAATS, A.W.; STAATS, C.K. Comportamento humano complexo: uma extensăo sistemática dos princípios da aprendizagem Trad. Carolina M. Bori. Săo Paulo, Ed. Pedagógica e Universitária / Ed. da Universidade de Săo Paulo, 1973. (Coleçăo Cięncias do Comportamento)

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    25 Nov 1998
  • Data do Fascículo
    1998
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