EDITORIAL

Este número de Psicologia USP é dedicado à Ecléa Bosi.

Os textos que compõem esta homenagem expressam a força das marcas dessa professora de fala mansa e tom firme, de acolhimento caloroso e de atenção cultivada como ritual de generosidade.

Não passaram incólumes os que tiveram o privilégio do convívio com as orquestrações sutis que regem em harmonia as tonalidades agudas e pacientes de seus olhares certeiros, por vezes graves pela delicadeza solene da intimidade, que atravessam e desestabilizam o instituído e nos convocam a uma mobilidade permanente no gosto pela criação e transmissão do conhecimento.

O modo com que seu compromisso ético-político inspira toda sua obra escrita e tinge de cores fortes e de surpresas as nuances de seu ensino são heranças definitivas que nos cabe cuidar e fazer frutificar.

Pois em Ecléa a diurna ciência e a noturna poesia conjugam em harmoniosa proliferação de sentidos, em seu jogo de criar e desvelar mistérios e a dama da noite exala pelos ares a imaginação, em seu perfume adocicado e penetrante, fincada que está nas sólidas raízes do exercício sistemático da crítica ao conhecimento acomodado, que perde de vista nossa singela e inquieta humanidade.

Seu pensamento emocionado,que pulsa encarnado na dor e no sonho de nosso cotidiano, descristaliza estereótipos e nos convida a mergulhar na aventura de ver romper o estranho das entranhas do familiar.

É assim que nesse movimento de aguçamento de sentidos, somos capturados por uma espécie de poética ecleana - pois não é a poesia a arte da transgressão/subversão, invenção de realidades submersas e amorfas, que carecem de existência, a menos que sejam enunciadas?

Enfim, é das que se diz ter vocação para mestra verdadeira, que no escuro nos acorda com ternura e com firmeza nos sacode no tempo preciso, sábia em sua arte de se oferecer como receptáculo e nutriz para o crescimento de seus rebentos.

Mais três trabalhos fazem parte deste número.

Inicialmente, o processo de envelhecimento é abordado por meio de uma pesquisa cujos resultados explicitam os estereótipos negativos vinculados ao “ser velho” no contexto contemporâneo, norteado pelos parâmetros de beleza e juventude. A seguir, é problematizado o conceito de envelhecimento bem-sucedido, à luz da diversidade de fatores que o compõem, com ênfase no questionamento da longevidade como critério proeminente.

Finalmente, Ponto de Vista apresenta um texto de nossa querida Rachel Léa Rosenberg, cujo título não só nos remete às marcas indeléveis deixadas por sua autora como professora do Instituto de Psicologia da USP, como nos apruma nessa turbulenta contemporaneidade, ao nos apontar para a “Comunhão e a solidariedade”.

Ana Maria Loffredo

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    21 Set 2010
  • Data do Fascículo
    Mar 2008
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