PSICANÁLISE NA UNIVERSIDADE: CONSIDERAÇÕES SOBRE O ENSINO DE PSICANÁLISE NOS CURSOS DE PSICOLOGIA

PSICANÁLISE NA UNIVERSIDADE: CONSIDERAÇÕES SOBRE O ENSINO DE PSICANÁLISE NOS CURSOS DE PSICOLOGIA1 1 Trabalho referente à mesa redonda O Ensino da Psicanálise na Universidade, no Simpósio de Psicanálise e Universidade, promovido pelo Departamento de Psicologia Clínica do IPUSP, em 2000.

Miriam Debieux Rosa2 2 Miriam Debieux Rosa é coordenadora do Laboratório Psicanálise e Sociedade do Departamento de Psicologia Clínica da USP e do Núcleo de Pesquisa Psicanálise e Sociedade do Programa de Estudos Pós-Graduados em Psicologia Social da PUC-SP. É também professora na graduação e na Pós-Graduação em Psicologia Clínica no Instituto de Psicologia da USP. Rua Luis Pereira de Almeida, 102. Jardim Paulistano. 01431-020. São Paulo – S.P. Tel./fax.: 11- 853-9005. E-mail: debieux@mt2net.com.br

Instituto de Psicologia - USP

O ensino de Psicanálise na Universidade é polêmico entre os psicanalistas. Há psicanalistas que defendem, como Grosso (1992) no artigo "Pensar la Universidad," que não se pode transmitir a Psicanálise como qualquer outro saber e que, portanto, os estudantes não podem chegar a ser psicanalistas valendo-se do ensino que recebem na Universidade. Há outros, como Roudinesco (2000), que afirmam que é na Universidade, principalmente nos departamentos de Psicologia, e não nas instituições psicanalíticas, que se há de preservar a vanguarda do freudismo.

Levar a Psicanálise para fora dos Institutos de Psicanálise, para a Universidade, mereceu as reflexões de Jacques Lacan e Jean Laplanche. Afastado das fileiras da IPA, Lacan passa a ministrar os seus seminários na Escola Normal Superior, em 1964, a convite de Louis Althusser, e comenta, na quarta capa da edição francesa do Seminário XI,3 3 O texto foi publicado na Editions du Seuil, em 1973. A tradução livre é de Nina Araújo Leite. que a hospitalidade recebida e o auditório ampliado haviam-no levado a uma mudança na linha de frente no seu discurso. Parece-lhe, então, que deve modificar a apresentação do Seminário para esclarecer "o abrupto do real," expondo os quatro conceitos que desempenham uma função fundante na subversão produzida no sujeito do saber, para defini-los um a um e mostrá-los nodulados pela topologia que os sustenta em uma função comum. Substitui o seminário O Nome do Pai, iniciado em 1963 na IPA, pelo seminário Os Fundamentos da Psicanálise.4 4 Jacques-Alain Miller deu o título definitivo para a publicação: Os Quatro Conceitos Fundamentais da Psicanálise.

Os seminários de Laplanche - apresentados desde 1962 na Escola Normal Superior e, a partir de 1969, na Unidade de Ensino e Pesquisa da Universidade de Paris VII - são publicados sob o nome Problemáticas, em 1980, advertindo o leitor de que as publicações contêm, em seus capítulos, introduções metodológicas que constituem o "relato de uma reflexão posterior sobre as modalidades de [sua] abordagem e sobre a legitimidade de desenvolvê-la na universidade" (Laplanche, 1998, p. 1). Entre as diversas questões apontadas pelo autor como responsáveis pela dificuldade da entrada da Psicanálise na Universidade, destaca o grande número de publicações que apresentam um campo psicanalítico atravessado por escolas que defendem posições divergentes, tornando difícil para o aluno a formulação de uma perspectiva própria. Além disso, coloca-se também a questão de ensinar a não analisados e, ainda, a necessidade de considerar a diferença entre ensino e transmissão.

Essas, entre outras questões, animaram a proposta do Simpósio Psicanálise e Universidade e da mesa redonda que trata das particularidades do ensino da Psicanálise na Universidade e de suas implicações. Expuseram suas idéias os psicanalistas e professores-doutores Jussara Brauer e Octávio Souza, que apontaram que eixos distintos orientam a Psicanálise e a Universidade e problematizaram o encontro dos dois eixos: na Psicanálise, a análise pessoal, a supervisão e o estudo teórico; na Universidade, o ensino, a pesquisa e a prestação de serviços.

Contando com os trabalhos anteriores e dentro deste leque de questionamentos, passo a reportar-me às condições atuais do ensino da Psicanálise na graduação da Faculdade de Psicologia, a partir de minhas observações no trabalho que desenvolvo no Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo e na Faculdade de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. A Psicanálise está presente nos cursos de Psicologia, tanto como um dos eixos teóricos da Psicologia - Psicanálise I, II etc. - como nas disciplinas temáticas, em que está inserida de forma menos evidente, ou seja, onde se lê Psicomotricidade, Psicopatologia, Psicologia do Desenvolvimento, será possível ler "Psicanálise" - dependendo da abordagem teórica do supervisor; a Psicanálise estará ou não presente nos Estágios supervisionados, tanto os de atendimento clínico como os de atendimento à comunidade (na escola, nas instituições).

Essa divisão entre ensino teórico, nos primeiros anos, e atendimento com supervisão, nos últimos anos, é problemática para a Psicanálise, uma vez que traz à tona a presença de uma fissura entre aprendizagem e transmissão. O conteúdo dos cursos, sua profundidade, seu rigor e sua relação com a prática também se colocam como questões. Entretanto, trago à consideração de vocês, para o debate de hoje, um outro enfoque, que poderá determinar uma outra direção.

A Psicologia é hoje, no Brasil, um campo no qual se realizam embates teóricos e políticos sobre os meios de enfrentamento das diversas formas de sofrimento humano, com o predomínio de um projeto de dar-lhe uma direção voltada para práticas que enfrentem problemas sociais. A implantação desse projeto gera debates, especialmente nas discussões curriculares das faculdades, e alcançam a Psicanálise, questionando a sua presença e o espaço que pode ou deve ser-lhe tornado disponível nos cursos de Psicologia. Assim, se para a Psicanálise, como campo de estudos, já é problemática sua entrada na Universidade, a Psicologia também coloca objeções a dar espaço ao discurso psicanalítico. A Psicanálise, especialmente aquela alocada nos departamentos de Psicologia Clínica, aparece como se estivesse na contra-mão dessa posição; o discurso sobre a importância da clínica é compreendido, por vezes de forma incorreta, como referente a uma atividade elitista, patologizante das mazelas sociais e aliada ao individualismo. A situação, portanto, é diferente daquela encontrada por Lacan em 1963, quando identifica a Psicologia com a Psicologia do Ego ou, tal como acontecia anteriormente, com o campo da Psicologia Experimental. Penso que pertencer ou não a esse campo vai indicar o lugar a partir do qual a teoria e a prática de Psicanálise serão passíveis de consideração; tanto o interesse por suas proposições quanto pelas repercussões estritamente políticas como possibilidades de obtenção de verbas para pesquisas, inclusão nos convênios de saúde, autorização legal para o exercício da clínica.

Tomando como base a análise do campo científico realizada por Pierre Bourdier, Raul Pacheco traz à cena, no artigo "O Debate Epistemológico em Psicanálise (à guisa de introdução)," a necessidade de fixar algumas bases para um debate entre Psicanálise e Psicologia. Bourdier demonstra que o campo científico é o lugar, o espaço de jogo de uma luta concorrencial. O que está em jogo nessa luta é o monopólio da autoridade científica - capacidade técnica e poder social - e o monopólio da competência científica, " ... compreendida como capacidade de falar e agir legitimamente (isto é, de maneira autorizada e com autoridade), que é socialmente outorgada a um agente determinado" (Bourdier citado por Pacheco, 2000, p. 34). Pacheco ressalta ainda que a exigência de persuasão entre os campos é indicativa de que a vitória foi da Ciência. Isto significa que, para manter-se no campo, a Psicanálise deverá dialogar com não psicanalistas e expor-lhes as suas descobertas. Entrar para a Universidade, compartilhar desse campo de discussões, supõe que a Psicanálise esclareça a sua posição quanto à sua relação com a Psicologia, seja de embate, seja em posição interdisciplinar, com essa e com outras disciplinas, seja reiterando a afirmação de que a Psicanálise constitui um outro campo, como fez Freud, diferenciando-a da Medicina. Nessa direção, Pacheco aponta que "deveríamos nos questionar se a Psicanálise se constitui tão somente um 'ramo da Psicologia,' ou se ela veio para rivalizar com os demais sistemas teórico-metodológicos de abordagem da psique" (Pacheco, 2000, p. 26). Qualquer uma dessas posições terá implicações novas, diferentes daquelas que vigoravam no tempo de Freud ou de Lacan.

Estabelecida essa implicação da entrada da Psicanálise na Universidade, acrescentamos que essa linha de encaminhamento do problema - embora auxilie a prevenir os desvios que o embate com as outras correntes pode imprimir às questões do ensino propriamente dito da Psicanálise - ao invés de simplificar, torna mais agudas as questões aqui já indicadas. Como conjugar o embate no plano eminentemente teórico, sustentado na força dos conceitos, na argumentação e na persuasão para evidenciar a possibilidade de o pensamento abranger e explicar problemas, com a transmissão da Psicanálise?

Fica ressaltada a diferença entre ensino e transmissão da psicanálise. No ensino da teoria psicanalítica, a ênfase no debate teórico pode dar-lhe um caráter de plenitude, a impressão de ser capaz de resolver todas as questões; pode confundir e reforçar as defesas em relação ao próprio inconsciente. A transmissão, por sua vez, opõe o saber e a verdade; o saber como o que se deve superar rumo à verdade própria.

A Psicanálise se organiza e produz conceitos justamente em torno da impossibilidade de um enunciado ser completo, exaustivo; em torno de um a mais não-dito no enunciado, mas presente e atuante para o sujeito em suas relações.5 5 Discussão presente no capítulo "O não-dito: em busca de seu sentido" (Rosa, 2000, pp. 23-65). A Psicanálise surge da observação de que o enunciado não contém todo o dito e, a partir dessa idéia, são construídos seus conceitos fundamentais, entre eles os de inconsciente e transferência, engendrando teoria e prática. A Psicanálise é uma prática, afirma Harari (1990), diferenciando prática de empirismo. A prática não tem sabedoria própria - ela suscita idéias, a princípio indeterminadas. O autor sustenta uma aproximação entre teoria e prática por via da construção e do trabalho do conceito que nunca acaba de se formar pois, uma vez fixado, despotencializa-se o conceito. Assim, embora afirme que a Psicanálise é uma prática, o trabalho teórico não é dispensado, pelo contrário, a teoria constrói condições de descobrir os fenômenos sem se ater à mera experiência. É nessa relação que é possível construir, ultrapassar o já dito, construção que não se sustenta em uma linearidade e em que teoria e prática não têm autonomia.

Em Psicanálise, segundo Nasio (1991), é impossível a determinação de um sentido único para cada conceito, uma vez que tal sentido é determinado pela articulação do conceito com o conjunto da trama teórica, pela experiência da prática, pelo lugar que o conceito ocupa, em uma dada época, na linguagem da comunidade dos psicanalistas. Em Psicanálise, toda significação conceitual é uma significação contextual; mas, adverte o autor, o conceito exige a eleição de uma significação principal. É preciso perguntar se a existência de um conceito é necessária e de que problema constitui a solução. O conceito deve nascer da necessidade própria da trama a que pertence, sem descuidar, em sua formulação, de como este se firma no solo da teoria.O inconsciente pode ser um único conceito com várias definições que privilegiam o esclarecimento de diferentes elementos: linguagem, discurso, significante, ou seja, o inconsciente pode ser definido como estruturado como uma linguagem, como o discurso do Outro, como o tesouro do significante.

Considerando que o conceito nasça, enfim, da trama a que pertence, pergunto com Laplanche: "é possível transmitir, no ensino e no estudo, algo da exigência que presidiu à descoberta? Quanto a mim" - continua - "estar aqui significa que não renuncio a aproximar-me deste objetivo: um ensino psicanalítico da psicanálise" (Laplanche, 1998, p. 9). Laplanche menciona duas condições para a transmissão: que guarde as dimensões históricas e que o ensino seja interpretativo, ou seja, que não venha a criar uma nova hermenêutica. Desta forma, penso que o ensino da Psicanálise na Universidade supõe levar a descoberta freudiana não apenas através de seus conceitos mas pela forma específica de produzir conhecimento ou, como sugere Laplanche, pelo recurso a Freud, elucidando a descoberta do inconsciente e indicando que o movimento da descoberta não é cronológico, e pode ser questionado de novo. Entendo que a transmissão deve manter a forma como Freud construiu conhecimento a partir dos impasses da clínica, formulando seu método - como quando chamou os efeitos de amor na relação terapêutica de transferência - e reformulando toda a sua própria teoria diante de novos impasses. Vai do fenômeno ao conceito e constrói uma metapsicologia não isolada mas fruto do raciocínio clínico. Octávio Souza observa que isso nem sempre ocorre, o que demandou trabalho para Lacan: "Lacan vai recompor o vocabulário da metapsicologia freudiana substituindo progressivamente sua base energético-representativa por uma lógica do significante cujos elementos mínimos já se encontram, eles mesmos, no campo gravitacional da alteridade em relação constitutiva como sujeito" (Souza, 2000, p. 232).

No embate da Psicanálise com outras abordagens deve ser evidenciado que a Psicanálise não enfatiza ou prioriza a teoria por si só, mas integra teoria, prática e pesquisa. O psicanalista não aplica teorias, não é o especialista da interpretação, nem mesmo da fantasia, posto que não é só aí que o inconsciente se manifesta; o psicanalista deve estar a serviço da questão que se apresenta. Dialogar, inserir-se no campo da Psicologia, não significa tomar a forma desse campo mas, se necessário, dar-lhe uma nova forma. Assim, a despeito das modificações realizadas no Seminário XI, Lacan salienta que permanece a pergunta que dá radicalidade ao seu projeto: aquela que vai de A Psicanálise é uma ciência? à questão O que é uma ciência que inclui a Psicanálise?

Na transmissão da Psicanálise, para que esta não seja apenas mais uma lição de casa, o estudante deve poder incluir suas questões e poder pensá-las a partir da Psicanálise. Se estamos nos referindo à questão da transferência que incita os analisandos às suas formulações, é preciso que nos perguntemos sobre a transferência que estaria em jogo com os estudantes? As questões pessoais que os levaram à Universidade, mais particularmente às Faculdades de Psicologia, passam por várias vias de formulações e histórias, além de serem também caracterizadas pela sensibilidade: para com as questões sociais - a miséria, a exclusão; os sintomas da modernidade - a droga, a violência; a repercussão das novas tecnologias na alteração dos processos de fecundação e na subjetividade. Tais questões, se não inauguraram o campo da Psicanálise, podem ter nela acolhimento. Nessa direção, Plon (1999) indica aplicações para a Psicanálise, entre elas:

a possibilidade de isolar os elementos de subjetividade empregados nas práticas sociais para, ao mesmo tempo, esclarecer o que é residual nessas práticas, quer dizer, aquilo que, nessas práticas, escapa à análise sociológica ou econômica e enriquece por sua vez nosso conhecimento teórico das engrenagens desta subjetividade que tais práticas podem fazer aparecer. (p. 106)

Entre os exemplos de procedimentos novos que participam de um remanejamento do campo psicanalítico, Plon (1999) aponta ainda, no campo dos processos políticos, modalidades e efeitos que existem em termos de relações transferenciais e da ação da organização pulsional. Para o autor, é preciso localizá-las:

no lugar mesmo em que a sociologia weberiana desenvolveu sua concepção do carisma e do grande homem como dimensão da legitimidade para governar, analisar os modos de funcionamento da subjetividade, da banalização do mal e do sofrimento, localizar as formas de evitação da castração tanto como motores postos a serviço do bom funcionamento e da boa "gestão" daquilo que as empresas modernas, impregnadas de um saber psicológico a toda prova, chamam de "recursos humanos" ... (p. 106)

A esse campo psicanalítico remanejado, declara enfim o autor, "deveríamos poder 'esperar' chamar daqui para sempre, ou de novo, com toda clareza, de psicanálise aplicada" (Plon, 1999, p. 106).

Há, enfim, formas de equacionar o ensino na Universidade. Resta pensar na atividade clínica, prevista para o 4o e 5o anos, e realizada por estudantes não analisados. Em relação ao ensino para não analistas e não analisados, Laplanche pondera que só existe comunicação com uma verdade da análise através de uma comunicação com sua própria verdade; mas, reconhece, a análise não pode estar em um currículo. Desta forma, como ele, afirmo que "resta saber se se pode falar analiticamente fora da situação analítica. E chegamos aqui ao que já não é um postulado, mas uma simples aposta, uma hipótese a confirmar ..." (Laplanche, 1998, p. 147).

Observo que dificilmente um estudante percorre a Faculdade, as teorias e os atendimentos, sem os confrontos que dão oportunidade para o encontro com o abrupto do real. Por isto, poucos se furtam de fato a buscar compreender o que é essa ação do psicanalista de escutar o sofrimento e descobrir que não se deve insistir em eliminá-lo, mas em compreender o seu sentido. Esse caminho traz, historicamente, a questão histérica para fora da concepção de uma doença cujas manifestações são externas ao organismo e devem ser eliminadas para que se dê um retorno à saúde. Pelo contrário, o sintoma neurótico revela-se justamente como uma das soluções humanas para dar conta das duas tarefas a que o homem se vê confrontado: a construção de uma subjetividade e a integração à cultura. Tais tarefas trazem o foco do conflito humano fundamental e sem cura possível: a incompatibilidade entre a lei, que permite ao homem pertencer a uma cultura, e o desejo, a conquista da singularidade. Apresenta- se ao estudante o sujeito que a Psicanálise tem por objetivo, o do inconsciente, o sujeito do desejo, engendrado pela cultura através da ordem simbólica instaurada pela linguagem. Assim,

Entrar para a cultura supõe acatar, fazer suas, as regras de funcionamento da conjuntura. Mas não só. A sua condição de sujeito dividido supõe que carregue a exclusão, a insatisfação, e dá-lhe o direito de transcender ao lugar em que colocado e apontar na direção de seu desejo. (Rosa, 1998, p. 121)

Na escuta, que funda o fazer do psicanalista, seu método, o saber já dado não deve prevalecer; o saber está no paciente, um saber que ele não sabe que tem e que se produz na relação que será chamada de transferencial. Esta, a relação transferencial, é uma relação dissimétrica, em que o paciente supõe que seu saber, o saber do inconsciente, está constituído no analista, o sujeito-suposto-saber, que provoca efeitos imaginários de amor. Essa relação estrutura a produção de saber, desde que o analista renuncie ao domínio da situação e, com sua escuta e pontuação, possibilite a produção de efeitos de significação no sujeito. Pode detectar que o sintoma neurótico não vai sinalizar a doença a ser eliminada mas a condição humana, clamando por ser escutada no seu sofrimento diante da síntese impossível. Desta forma, o sintoma vem a ser o lugar da verdade do sujeito, uma mensagem, um enigma a ser decifrado, e nele está o cerne da subjetividade. Apesar disto, o sintoma é tomado pelo sujeito como estrangeiro porque este o percebe como algo que não lhe pertence, uma vez que não se formou segundo sua vontade, o que significa que, ao se perguntar de quem é o sintoma, comparece o discurso do Outro, lugar dos significantes. Os sintomas dizem respeito a uma das facetas da relação do sujeito com o Outro, atingindo aspectos como a pretensão de se pensar um indivíduo (in-diviso) independente dos outros e discutindo a relação intrínseca entre desejo, discurso do Outro, subjetividade e... sociedade.

Refletir sobre a clínica psicanalítica supõe estar atento não só à teoria psicanalítica como aos reflexos agudos promovidos pelos avanços científicos nas mais variadas áreas e pelas mudanças sociais. O psicanalista pergunta-se sobre os efeitos dessas modificações na construção da subjetividade e sobre as novas formas do sintoma.

Desta forma, é possível, na supervisão, fornecer subsídios teóricos para apontar, discriminar e analisar as questões envolvidas nos atendimentos dos casos. Pode-se auxiliar os estudantes na escuta da demanda trazida; escuta que pode esclarecer quais questões atravessam as queixas relatadas. Mas não só - na escuta também se dá a ver a íntima relação das manifestações da subjetividade com a identidade social, em que a dominação é mascarada e pode aparecer sob a forma de "pobreza" ou deficiência psíquica ou intelectual. Em cada caso, os estudantes percebem que podem intervir, podem pesquisar e construir conhecimento. Os casos promovem não só a articulação da clínica com a teoria psicanalítica, mas também possibilitam detectar as implicações das condições sociais na subjetividade. Concluindo, afirmo que o ensino da Psicanálise na Universidade pode, concordo com Roudinesco, ser a vanguarda do freudismo, desde que atente para as suas especificidades e abra-se para discutir os impasses e dificuldades em sua transmissão.

Referências

Grosso, M. (1992). Pensar la universidad. In Psicoanalisis y cultura (n.1). Argentina: Biblioteca Causa Freudiana.

Harari, R. (1990). Uma introdução aos quatro conceitos fundamentais de Lacan. São Paulo: Papirus.

Lacan, J. (1973). Le séminaire - Livre XI: Les quatre concepts fondamentaux de la psychanalyse (Texte établi par Jacques-Alain Miller). Paris: Seuil. (Originalmente publicado em 1964)

Lacan, J. (1985). O seminário - Livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da Psicanálise (Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller). Rio de Janeiro: Jorge Zahar. (Originalmente publicado em 1964. Título original: Le séminaire - Livre XI: Les quatre concepts fondamentaux de la psychanalyse)

Laplanche, J. (1998). Problemáticas I: A angústia. São Paulo: Martins Fontes.

Nasio, J. (1991). Os sete conceitos iniciais da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar.

Pacheco, R. A. (2000). O debate epistemológico em psicanálise (à guisa de introdução). In R. A. Pacheco, N. Coelho Júnior, M. D. Rosa (Orgs.), Ciência, pesquisa, representação e realidade em psicanálise (pp. 15-42). São Paulo: EDUC / Casa do Psicólogo.

Plon, M. (1999). A face oculta da análise leiga. Ágora, 2 (1), 91-108.

Rosa, M. D. (1998). A psicanálise frente à questão da identidade. Psicologia & Sociedade, 10 (1), 121-128.

Rosa, M. D. (2000). Histórias que não se contam. O não dito na psicanálise com crianças e adolescemtes (pp. 23-65). Taubaté, SP: Cabral Ed. Universitária.

Roudinesco, E. (2000). Por que a psicanálise? Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

Souza, O. (2000). Aspectos do encaminhamento da questão da cientificidade da psicanálise no movimento psicanalítico. In R. A. Pacheco, N. Coelho Júnior, M. D. Rosa (Orgs.), Ciência, pesquisa, representação e realidade em psicanálise (pp. 205-233). São Paulo: EDUC / Casa do Psicólogo.

Recebido em 21.09.2001

Aceito em 05.10.2001

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    Trabalho referente à mesa redonda
    O Ensino da Psicanálise na Universidade, no
    Simpósio de Psicanálise e Universidade, promovido pelo Departamento de Psicologia Clínica do IPUSP, em 2000.
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    Miriam Debieux Rosa é coordenadora do Laboratório
    Psicanálise e Sociedade do Departamento de Psicologia Clínica da USP e do Núcleo de Pesquisa
    Psicanálise e Sociedade do Programa de Estudos Pós-Graduados em Psicologia Social da PUC-SP. É também professora na graduação e na Pós-Graduação em Psicologia Clínica no Instituto de Psicologia da USP. Rua Luis Pereira de Almeida, 102. Jardim Paulistano. 01431-020. São Paulo – S.P. Tel./fax.: 11- 853-9005. E-mail:
  • 3
    O texto foi publicado na Editions du Seuil, em 1973. A tradução livre é de Nina Araújo Leite.
  • 4
    Jacques-Alain Miller deu o título definitivo para a publicação:
    Os Quatro Conceitos Fundamentais da Psicanálise.
  • 5
    Discussão presente no capítulo "O não-dito: em busca de seu sentido" (Rosa, 2000, pp. 23-65).

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    25 Mar 2002
  • Data do Fascículo
    2001
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