PSICANÁLISE E UNIVERSIDADE: PERSPECTIVAS

PSICANÁLISE E UNIVERSIDADE: PERSPECTIVAS

Elizabeth Batista Pinto1 1 E-mail: ebatista@usp.br

Tania Maria José Aiello Vaisberg2 2 E-mail: tanielo@uol.com.br

Instituto de Psicologia - USP

Os avanços da epistemologia contemporânea indicam, enfaticamente, que a noção de perspectiva tornou-se central na abordagem dos fenômenos humanos, de modo que consideramos mais do que oportuna a possibilidade de refletir sobre a presença da psicanálise na universidade, em termos do que significa como abertura de várias e interessantes perspectivas.

O termo perspectiva pode ser usado sob várias acepções (Fouquet, 2000), mas três nos parecem particularmente importantes no contexto do presente tema. A primeira delas entende perspectiva como a arte de representar objetos em três dimensões sobre uma superfície plana, levando em conta os efeitos de distância e de posição no espaço, a segunda refere-se à idéia que se faz de um evento futuro e a terceira significa ponto de vista. Assim, como a noção de perspectiva pressupõe tempo e/ou espaço, propomo-nos refletir sobre algumas dimensões constituintes da relação psicanálise/universidade, examinando as várias possibilidades segundo as quais esta articulação vem sendo realizada ao longo das últimas décadas.

Nos dias de hoje, estamos habituados à conhecida fórmula segundo a qual a universidade se fundamenta no cumprimento de três tarefas: ensino, pesquisa e prestação de serviços à sociedade. Aparentemente bastante sensato, quando examinado mais detidamente, tal tripé revela-se um pleonasmo: afinal, enquanto instituição social, a universidade, tanto quando desenvolve a pesquisa, como quando se dedica à formação profissional, está trabalhando em prol da sociedade. Portanto, como espaço de formação, pesquisa, integração e multiplicação de saberes diversos, próprios de cada especialidade, a universidade está, desde sempre, profundamente comprometida, do ponto de vista ético, com as condições concretas de vida da sociedade civil.

Partimos da constatação de que a psicanálise pode ser pensada como método de pesquisa e como método de tratamento (Baptista, 2000). Evidentemente, a psicanálise é consagrada enquanto método de tratamento, sendo que o espectro de problemas passíveis de ser beneficiado clinicamente pela abordagem psicanalítica só veio a se alargar, desde os tempos pioneiros de Freud até os nossos dias (Bergeret, 1974). Encontramos, entretanto, opiniões diversas acerca da possibilidade da psicanálise se constituir realmente como método de pesquisa. Assim, Simon (1993) entende que a psicanálise clínica é um campo fértil no sentido da produção de temas que podem, a seu ver, receber posterior tratamento científico, a partir do uso de uma metodologia de pesquisa que já não é, em si mesma, propriamente psicanalítica, e que Bohoslawsky (1977) denominou atuarial. Muitos, por outro lado, entendem que a psicanálise chega a fornecer um singular método de pesquisa, que se concretiza através de várias modalidades de procedimentos e técnicas, entre as quais se incluem observação psicanalítica, uso de entrevistas ou uso de procedimentos projetivos, entre outras possibilidades. Neste sentido, o método psicanalítico seria único, mas daria nascimento a diferentes técnicas e procedimentos de abordagem científica (Devereux, 1967; Herrmann,1991). Por outro lado, o avanço das chamadas ciências clínicas francesas, que incluem a psicologia clínica, a psicologia social clínica e a sociologia clínica (Levy, 1997) tem enfatizado que todo tratamento, tenha o indivíduo ou o coletivo como foco, é, simultânea e inelutavelmente, pesquisa, desde que cuidados sejam tomados na contemplação de três momentos constitutivos da abordagem clínica: o do ato ou relação clínica, o da elaboração teórica e o da comunicação à comunidade científica, aos profissionais e ao público em geral. No ato clínico, clínicos-pesquisadores se relacionam no aqui e agora com sujeitos portadores de uma demanda de ajuda e compreensão. No momento da elaboração teórica, os clínicos-pesquisadores trabalham reflexiva e teoricamente sua compreensão, em constante interlocução com outros pesquisadores e com a produção teórica . Finalmente, a escrita desta elaboração permite que o conhecimento assim produzido seja transmitido e, conseqüentemente, reelaborado, criticado ou completado, num contínuo movimento dialógico.

Temos observado, com satisfação, um incremento na produção da pesquisa psicanalítica no âmbito acadêmico, o que evidencia que a articulação entre investigação científica e psicanálise pode ser produtivamente realizada de mais de uma forma. Constatamos, assim, uma variedade interessante nos trabalhos que tem a psicanálise como uma de suas palavras-chave. Há trabalhos que utilizam o método ou conceitos psicanalíticos em tentativas de compreensão de variadas questões humanas que se apresentam na clínica; outros realizam investigação acerca dos alcances e limites da psicanálise enquanto técnica psicoterápica; um número expressivo de teses e dissertações aborda o pensamento de autores psicanalistas; finalmente, uma produção bastante fecunda tem feito uso do método na abordagem de problemas culturais e sociais.

Como docentes do Departamento de Psicologia Clínica do IPUSP, o lugar no qual nos encontramos e de onde iniciamos esta reflexão é o da abordagem de um fenômeno altamente complexo e impossível de ser esgotado por um único recorte disciplinar: o fenômeno da conduta humana. Citemos, como exemplo, uma das especialidades da psicologia clínica, o campo da psicoterapia pais/bebês, que, em função de sua inegável complexidade, trabalha, primordialmente, a partir da idéia de interação como relação recíproca entre dois fenômenos, enfocando principalmente as noções de reciprocidade e interdependência (Mazet et al., 1989). Entendemos, assim, superando a visão positivista segundo a qual a cada ciência corresponderia um objeto específico, que, como clínicos pesquisadores, abordamos esta complexidade, que é o mesmo objeto de todas as ciências humanas, a partir de pontos de vista que permitam intervenções psicoterapêuticas e/ou psicoprofiláticas. A perspectiva psicanalítica é uma possibilidade que pode e deve ser complementada por outras, tais como a psicologia cognitiva, a psicologia do desenvolvimento, a sociologia, a neuropsicologia, a antropologia etc., realizando o que, em epistemologia, tem sido conhecido como complementarismo metodológico (Devereux, 1967), uma forma complexa de transdisciplinaridade. Evidentemente, dependendo do fenômeno estudado, certas interlocuções disciplinares são, naturalmente, privilegiadas. Como exemplo, podemos citar o campo da psicoterapia pais/bebê, que adota a idéia de interação Assim, esta breve análise da relação Psicanálise/Universidade enfoca alguns elementos constituintes de sua interação e convida à exploração de suas perspectivas.

Considerando-se o plano histórico da interação psicanálise e universidade, observa-se que a psicanálise já estava presente nos cursos de graduação em psicologia das universidades brasileiras, quando de sua inauguração, na década de 60. Os anos 80, em São Paulo, caracterizaram-se por uma ampla oferta de cursos de especialização ou de aprofundamento em psicanálise e pelo incremento da psicanálise nos cursos de pós-graduação. Em um levantamento que realizamos das dissertações e teses relacionadas à Psicanálise no IPUSP, observamos que em 1969 foi defendida a primeira dissertação de mestrado em psicanálise, por Yutaka Kubo, com o título "Algumas considerações sobre a inveja do pênis: breve estudo de um caso clínico," sob a orientação do Prof. Dr. Durval Marcondes, psicanalista e fundador da Clínica Psicológica do IPUSP. A segunda dissertação de mestrado em Psicanálise defendida no IPUSP só foi ocorrer após um longo intervalo de tempo, em 1983, sob orientação do Prof. Dr. Luiz Carlos Nogueira, psicanalista de orientação lacaniana, também do Departamento de Psicologia Clínica. A partir desta data, o número de dissertações de mestrado e teses de doutorado em psicanálise, na área de concentração Psicologia Clínica da Pós-Graduação do IPUSP, foi aumentando progressivamente, sendo que na década de 80 foram defendidas dez dissertações de mestrado e uma tese de doutorado, com a participação de quatro orientadores. Na década de 90, ocorreu um grande aumento na produção científica em Psicanálise no IPUSP, perfazendo um total de vinte dissertações de mestrado, dezoito teses de doutorado e duas de livre-docência, com a participação de dez orientadores na mencionada área de concentração. Toda esta produção origina, naturalmente, no âmbito da publicação e da divulgação, uma não desprezível massa de artigos e livros, sem contar as comunicações orais em simpósios, colóquios e outros eventos. Recentemente, foi criada na área de concentração Psicologia Clínica da Pós-Graduação do IPUSP uma linha de pesquisa específica em psicanálise, intitulada "Investigações em Psicanálise," que reflete a maturidade do trabalho que vem sendo desenvolvido.3 3 Um fenômeno equivalente pode ser observado em outras universidades. Como exemplo, vale citar a Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, que vem realizando uma produção científica relevante em termos de teses e dissertações que articulam psicanálise e pesquisa. É claro que o aumento no número de pesquisas psicanalíticas não podia deixar de caminhar ao lado do aumento de oferta de disciplinas que fornecem subsídios para a elaboração desses trabalhos.

O aumento da produção, em termos quantitativos, certamente favoreceu e continua favorecendo a abordagem de uma diversidade de temas, que há alguns anos não teriam sido considerados objetos de atenção psicanalítica. Constata-se nas dissertações de mestrado e teses de doutorado em psicanálise nos últimos anos, além dos aspectos teóricos, o predomínio de temas relacionados ao processo terapêutico, à psicopatologia e seus fenômenos, à psicanálise aplicada ao trabalho em instituições, às relações entre a psicanálise e a sociedade, às obras de autores psicanalistas, à história da psicanálise, à psicanálise aplicada à análise de obras literárias, artísticas, fenômenos culturais e outros temas.

Um exemplo bastante expressivo da amplitude e das diferentes posições que a psicanálise pode ocupar enquanto ciência na universidade, pode ser observado nos textos que se seguem e que foram apresentados no seminário Psicanálise e Universidade, que ocorreu no IPUSP em maio de 2000.

Ao discutir o tema Psicanálise e Universidade: Integração, Fábio Herrmann focaliza os nexos que têm sido produtivamente estabelecidos entre a academia e o saber psicanalítico desde a perspectiva da pesquisa. Sua escolha está evidentemente justificada pela convicção declarada acerca da impossibilidade de se realizar uma verdadeira formação psicanalítica no contexto universitário. Tal visão coincide, portanto, com aquela que Freud (1987) nos apresentou em 1919, quando abordou especificamente a questão do ensino da psicanálise na universidade. Acreditando que a universidade deveria organizar dois tipos de cursos sobre psicanálise, um destinado a iniciantes e outro a profissionais, Freud (1919/1987) preconizou que as lições puramente teóricas deveriam se realizar segundo uma modalidade pedagógica, que denominou "dogmático-crítica." Tal crença se fundamentava no argumento de que a academia não teria meios para oferecer a indispensável experiência clínico-transferencial. No entanto, desde a década de vinte, a universidade mudou muito, de modo que esta idéia é bastante discutível atualmente, tendo em vista que boas universidades têm formado psicanalistas, que vivenciam a transferência nos atendimentos que prestam em centros universitários e em suas análises pessoais. Por outro lado, é discutível a idéia de que as sociedades psicanalíticas, nos cursos livres de pós-graduação latu sensu que propõem, gozem de condições melhores que a academia.

Alinhando-se no debate aos que duvidam da possibilidade de formação psicanalítica fora das sociedades privadas, Herrmann, compreensivelmente, deixa de desenvolver reflexões acerca do ensino para centrar-se na consideração da realização da pesquisa psicanalítica no contexto da instituição social que tem como vocação essencial a produção do saber, isto é, a universidade. Brinda-nos, deste modo, com uma contribuição que se revela profundamente proveitosa. Psicanalista e pesquisador profícuo, Herrmann tem desenvolvido, entre nós, um brilhante trabalho teórico-metodológico, revelando-se um autor original, segundo reconhecimento internacional. De fato, sua Teoria dos Campos (Herrmann, 1991), ao propor uma psicanálise das teorias psicanalíticas, contribui para a produção de conhecimento, fornecendo fundamentos com rigor epistemológico impecável, que têm sido adotados em inúmeras dissertações de mestrado e teses de doutorado em Psicologia Clínica. Pode-se afirmar, sem exagero, que Herrmann tem contribuído, decisivamente, para a criação de uma epistemologia psicanaliticamente fundamentada (Vaisberg, 1999). Deve-se, assim, compreendê-lo no contexto de um pensamento que tem se deixado fecundar plenamente pelo conhecimento filosófico e psicanalítico contemporâneos, bem como por extensa experiência clínica.

Fazendo um feliz contraponto que, como desejamos, enriquece o debate, Oswaldo Ferreira Leite Netto aborda o ensino da Psicanálise no contexto da formação médica de psicoterapeutas. Na qualidade de responsável pelo Serviço de Psicoterapia do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas, Oswaldo descreve com muita clareza o trabalho do qual se vem encarregando em termos da introdução das psicoterapias psicodinâmicas aos residentes. Focaliza com precisão as dificuldades enfrentadas quando se tem o compromisso de reconhecer e ensinar psicoterapeutas, psiquiatras e médicos de todas as especialidades, de modo a contribuir para o desenvolvimento da capacidade de "enxergar definitivamente" que os indivíduos humanos são seres emocionais. Seu texto nos permite, ainda, apreciar uma certa mudança, no interior da psiquiatria que aqui se pratica, que acompanha o progresso globalizado das neurociências. Parece, realmente, que o fato de se contar, hoje, com um arsenal farmacoterapêutico mais diversificado, disponível e aparentemente capaz de fornecer alívio sintomático, tem resultado na diminuição de interesse do estudante de psiquiatria pelas dimensões subjetivas da experiência humana. Cresce, assim, progressivamente, uma distância entre o psiquiatra clínico e o psicanalista. Somos, a partir daí, remetidos para uma questão muito importante, que muitos psicanalistas parecem ignorar: nestes tempos de neoliberalismo globalizante, a Psicanálise, com tudo o que implica de valorização do humano, vem sofrendo alguns golpes importantes, como bem atestam os últimos manuais diagnósticos da Associação de Psiquiatria Americana e a classificação das doenças da Organização Mundial de Saúde.

Por outro lado, a postura ativa e eticamente comprometida do Prof. Dr. Oswaldo, bem como seu senso de humor, têm o poder de estimular o leitor, mesmo em tempos difíceis como os que vivemos atualmente, a não esmorecer em seus esforços pela difusão do conhecimento psicanalítico, com todas as consequências libertárias que se encontram inerentemente em seu bojo.

Já ao refletir sobre o tema Psicanálise e Universidade: Perspectivas, o Prof. Dr. Luís Cláudio Figueiredo salienta a importância da transdisciplinaridade e dos nichos de estudo.

Há, portanto, indícios sólidos que nos permitem defender a idéia de que a universidade contemporânea pode, em virtude de suas características institucionais, ser absolutamente propícia ao desenvolvimento do conhecimento psicanalítico. Concordamos, assim, com Mezan (2000), quando afirma que temos aí "... espaço mais neutro, menos carregado transferencialmente e politicamente, mais apto a aceitar e mesmo a estimular a pluralidade de pontos de vista ...". Certa vez, Laplanche (1978) comentou que, no que diz respeito à transmissão do conhecimento psicanalítico, a universidade não seria um lugar pior do que os outros. A nosso ver, os fatos desmentem decididamente esta colocação, principalmente se entendermos que o ponto básico não é o da mera transmissão de um saber, mas o da sua produção contínua e renovada. Deste modo, não hesitamos em afirmar que, em termos de sua vocação essencial, a universidade é o lugar privilegiado onde se realiza, sem constrangimentos, tão comuns nas chamadas sociedades de formação que sempre ameaçam a discordância com a possibilidade de excomunhão, uma articulação entre investigação e psicanálise que abre perspectivas amplas e pode se desenvolver com grande dinamismo.

Referências

Baptista, M. L. A. (2000). O método psicanalítico. Revista Brasileira de Psicanáise, 34 (1), 111-130.

Bergeret, J. (1974). Personnalité normale et pathologique. Paris: Dunod.

Bleger, J. (1977). Psicologia de la conduta. Buenos Aires, Argentina: Paidós.

Bohoslawsky, R. (1977). Orientação vocacional: A estratégia clínica. São Paulo: Martins Fontes.

Devereux, G. (1967). De la ansiedad al metodo en las ciencias humanas del comportamiento. Mexico: Siglo XXI.

Fouquet, E. (Ed.). (2000). Dictionnaire hachette encyclopédique. Édition 2000. Paris: Hachette.

Freud, S. (1987). Sobre o ensino da psicanálise nas universidades. In Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud (Vol. 17). Rio de Janeiro: Imago. (Originalmente publicado em 1919)

Herrmann, F. (1991). O método da psicanálise. São Paulo: Brasiliense.

Lévy, A. (1997). Sciences cliniques et organizations sociales. Sens et crise du sens. Paris: PUF.

Mazet, P., & Stoleru, S. (1993). Psychopathologie du nourrisson et du jeune enfant. Paris: Masson.

Mezan, R (1998). Sobre a pesquisa em psicanálise. Psyché, 2, 87-98.

Ryad, S. (1993). Pesquisa combinando técnicas projetivas e psicanálise. In M. E. L. O. Silva, Investigação e psicanálise. Campinas: Papirus, 1993.

Vaisberg, T. M. J. A (1999). Encontro com a loucura: Transicionalidade e ensino de psicopatologia. Tese de Livre Docência, Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, São Paulo.

Recebido em 23.08.2001

Aceito em 05.10.2001

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    Um fenômeno equivalente pode ser observado em outras universidades. Como exemplo, vale citar a Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, que vem realizando uma produção científica relevante em termos de teses e dissertações que articulam psicanálise e pesquisa.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    25 Mar 2002
  • Data do Fascículo
    2001
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