Rickettsia amblyommii associado a roedores e marsupiais nativos da Estação Experimental Rafael Fernandes da UFERSA, Rio Grande do Norte

Rickettsia amblyommii associated with rodent and marsupials native of Raphael Fernandes Experimental Station da UFERSA, Rio Grande do Norte, Brazil

Kaliane A.R. Paiva Josivania S. Pereira Zuliete A.A.S. Fonseca Wesley A.C. Coelho Guilherme M.S.L. Teixeira Moacir F. de Oliveira Sílvia M.M. Ahid Sobre os autores

RESUMO:

O presente estudo teve como objetivo registrar a ocorrência de Rickettsia sp. em roedores e marsupiais nativos da Estação Experimental Rafael Fernandes da UFERSA, Mossoró/RN. O trabalho consistiu em uma pesquisa de campo, com roedores e marsupiais silvestres, com os dados expressos em frequência simples e porcentagem através do programa estatístico IBM SPSS (Armonk, NY: IBM Corp.), versão 22.0. Coletaram-se amostras de plasma sanguíneo de marsupiais (36) e de roedores (5). Destes, 64 continham Amblyomma auricularium, 7 Amblyomma parvum e 12 Amblyomma sp. As amostras de plasma sanguíneo foram analisadas através da técnica de Reação de Imunofluorescência Indireta. Exemplares de A. auricularium e a A. parvum foram macerados e submetidos a Técnica de Reação em Cadeia da Polimerase. Das amostras de plasma testadas, 17,60% apresentaram soropositividade para Rickettsia amblyommii. Oito exemplares de A. auricularium estavam positivos para R. amblyommii na análise de fragmentos dos genes gltA (350 bp) e ompA (587 pb), com 100% de similaridade com Candidatus R. amblyommii estirpe Bahia e AaPE, corres­pondendo a uma baixa circulação do agente dentre os vetores e hospedeiros. Esta pesquisa registra pela primeira vez a ocorrência de R. amblyommii em marsupiais Gracilinanus agilis e Monodelphis domestica pertencentes a Família Didelphidae, e roedores das Famílias Echimyidae e Cricetidae, cujas espécies foram Thrichomys sp. e Wiedomys sp., respectivamente, em Mossoró, estado do Rio Grande do Norte.

TERMOS DE INDEXAÇÃO:
Rickettsia amblyommii; roedores; marsupiais; soropositividade.

ABSTRACT:

The study aimed to register the occurrence of Rickettsia sp. in rodents and marsupials native of the Rafael Fernandes Experimental Station of UFERSA, Mossoró/RN, Brazil. The study consisted of field research on small wild mammals, with data expressed in simple frequency and percentage through IBM SPSS (IBM Corp., Armonk, NY), version 22.0. Samples of blood plasma from 36 marsupials and 5 rodents were collected. From these, 64 contained Amblyomma auricularium, 7 Amblyomma parvum and 12 Amblyomma sp. All blood plasma samples were analyzed by indirect immunofluorescence technique, and 16 macerated specimens of A. auricularium and 3 of A. parvum were analyzed by reaction technique Polymerase Chain. From the tested plasma samples 17.60% were seropositive for Rickettsia amblyommii, 8 were positive for A. auricularium e R. amblyommii in gene gltA analysis of the fragments (350 bp) and ompA (587 bp) with 100% similarity with Candidatus R. amblyommii Bahia and AAPE strain, what corresponded to a low circulation of the agent from the vectors and hosts. This study registers for the first time the occurrence of R. amblyommii in marsupials Gracilinanus agilis and Monodelphis domestica belonging to the Didelphidae family, and in rodents of the Echimyidae and Cricetidae families, the species of which were Thrichomys sp. and Wiedomys sp. respectively, in Mossoró, Rio Grande do Norte.

INDEX TERMS:
Rickettsia amblyommii; rodents; marsupials; seropositivity.

Introdução

As rickettsioses são doenças relatadas na América do Sul e América do Norte (Jiang et al. 2010Jiang J., Yarina T., Miller M.K., Stromdahl E.Y. & Richards A.L. 2010. Molecular Detection of Rickettsia amblyommii in Amblyomma americanum parasitizing humans. Vector. Borne Zoonotic. Dis. 10(4):329-340., Szabó et al. 2013Szabó M.P.J., Nieri-Bastos F.A., Spolidorio M.G., Martins T.F., Barbieri A.M. & Labruna M.B. 2013. In vitro isolation from Amblyomma ovale (Acari: Ixodidae) and ecological aspects of the Atlantic rainforest Rickettsia, the causative agent of a novel spotted fever rickettsiosis in Brazil. Parasitology 140(6):719-728.), com grande potencial enzoótico e zoonótico, tendo como principais reservatórios e amplificadores os pequenos mamíferos silvestres, pois são hospedeiros primários no ciclo de vida dos carrapatos, considerados vetores potenciais desses patógenos (Moraru et al. 2013Moraru G.M., Goddard J., Murphy A., Link D., Belant J.L. & Varela-Stokes A. 2013. Evidence of antibodies to spotted fever group Rickettsiae in small mammals and quail from Mississippi. Vector. Borne Zoonotic. Dis. 13(1):1-5.), devido à alta eficiência de multiplicação e transmissão transestadial e transovariana que os microrganismos mantem com Ixodídeos (Vélez et al. 2012Vélez J.C.Q., Hidalgo M. & González J.D.R. 2012. Rickettsiosis, una enfermedad letal emergente y re-emergente em Colombia. Univ. Sci. 17(1):82-99.).

Os roedores e marsupiais silvestres apresentam espécies com fácil adaptação ambiental, onde em período de seca prolongada, saem das tocas com maior frequência e/ou migram para outros locais em busca de alimentos, com isso tornam-se vulneráveis as infestações por ectoparasitas infectados por rickettsias, provocando múltiplas infecções nos roedores e marsupiais, mantendo assim o ciclo das rickettsias na natureza (Freitas 2012Freitas A.M. 2012. Mamíferos no Nordeste brasileiro: espécies continentais. USEB, Pelotas, p.1-133., Saraiva et al. 2013Saraiva D.G., Nieri-Bastos F.A., Horta M.C., Soares H.S., Nicola P.A., Pereira L.C.M. & Labruna M.B. 2013. Rickettsia amblyommii infecting Amblyomma auricularium ticks in Pernambuco, northeastern Brazil: isolation, transovarial transmission, and transstadial perpetuation. Vector. Borne Zoonotic. Dis. 13(10):1-4.).

Desde 1909 que Charles Nicolle relatou como vetores potenciais de rickettsias pulgas e piolhos transmitindo o tifo epidêmico em humanos associados ao sinantropismo de roedores e marsupiais (Anda et al. 2007Anda P., Blanco J.R., Jado I., Marín M., Oteo J.A., Pons I., Portillo A. & Sanfeliu I. 2007. Procedimientos en Microbiología Clínica. Seimc, Espanha., Gehrke 2010Gehrke F.S. 2010. Detecção e caracterização molecular de Riquésias em humanos, potenciais vetores e animais domésticos da região sudeste do Brasil. Tese de Doutorado. Disponível em <Disponível em http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/42/42135/tde-10082010-145116/pt-br.php > Acesso em 20 jun. 2015.
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). Em 1930 foi isolado Rickettsia typhi de pulgas coletadas de roedores (Boudebouch et al. 2011Boudebouch N., Sarih M., Beaucournu J.C., Amarouch H., Hassar M., Raoult D. & Parola P. 2011. Bartonella clarridgeiae, B. henselae and Rickettsia felis in fleas from Morocco. Ann. Trop. Med. Parasitol. 105(7):493-498.) e em 1974 obteve o primeiro registro de Rickettsia amblyommii em Amblyomma americanum (Burgdorfer et al. 1981Burgdorfer W., Hayes S., Thomas Jr L. & Lancaster J.L. 1981. A new spotted fever group rickettsia from the lone star tick, Amblyomma americanum, p.595-602. In: Burgdorfer W. & Anacker R.L. (Eds), Rickettsiae and Rickettsial Diseases. Academic Press, New York.). Pesquisas realizadas em vegetação e ambiente urbano, demonstraram infecção de R. amblyommii em Amblyomma auricularium, A. coelebs, A. cajennense e A. americanum no Brasil (Labruna et al. 2004Labruna M.B., Whitworth T., Bouyer D.H., McBride J., Camargo L.M.A., Camargo E.P., Popov V. & Walker D.H. 2004. Rickettsia bellii and Rickettsia amblyommii in Amblyomma ticks from the State of Rondonia, Western Amazon, Brazil. J. Med. Entomol. 41(6):1073-1081., Jiang et al. 2010Jiang J., Yarina T., Miller M.K., Stromdahl E.Y. & Richards A.L. 2010. Molecular Detection of Rickettsia amblyommii in Amblyomma americanum parasitizing humans. Vector. Borne Zoonotic. Dis. 10(4):329-340., Saraiva et al. 2013Saraiva D.G., Nieri-Bastos F.A., Horta M.C., Soares H.S., Nicola P.A., Pereira L.C.M. & Labruna M.B. 2013. Rickettsia amblyommii infecting Amblyomma auricularium ticks in Pernambuco, northeastern Brazil: isolation, transovarial transmission, and transstadial perpetuation. Vector. Borne Zoonotic. Dis. 13(10):1-4.).

As infecções por R. amblyommii em roedores e marsupiais no Brasil se distribuem nos Estados de Minas Gerais, Paraná e Pernambuco (Milagres 2010Milagres B.S. 2010. Pesquisa de Rickettsia em animais sinantrópicos e domésticos e em seus ectoparasitas em duas áreas de baixa endemicidade para febre maculosa brasileira da região leste de Minas Gerais, 2005-2007. Tese de Doutorado. Disponível em <http://www.repositorio.ufop.br/handle/123456789/2491> Acesso em 20 jun. 2015.
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, Fortes et al. 2011Fortes F.S., Santos L.C., Cubas Z.S., Barros-Filho I.R., Biondo A.W., Silveira I., Labruna M.B. & Molento M.B. 2011. Anti-Rickettsia spp. antibodies in free-ranging and captive capybaras from southern Brazil. Pesq. Vet. Bras. 31(11):1014-1018., Saraiva et al. 2013Saraiva D.G., Nieri-Bastos F.A., Horta M.C., Soares H.S., Nicola P.A., Pereira L.C.M. & Labruna M.B. 2013. Rickettsia amblyommii infecting Amblyomma auricularium ticks in Pernambuco, northeastern Brazil: isolation, transovarial transmission, and transstadial perpetuation. Vector. Borne Zoonotic. Dis. 13(10):1-4.), entretanto, não há registros de R. amblyommii parasitando roedores e marsupiais no Rio Grande do Norte. Desta forma, considerando o potencial zoonótico das rickettsias, este estudo teve como objetivo registrar a ocorrência de Rickettsia sp., associando a soropositividade para Rickettsia sp. com infestações por ectoparasitas em roedores e marsupiais nativos da Estação Experimental Rafael Fernandes da UFERSA, Mossoró, RN.

Material e Métodos

O estudo foi realizado na Estação Experimental Rafael Fernandes da Universidade Federal Rural do Semi-Árido (UFERSA) (05o03’43”S, 37o23’54W), em Mossoró, Rio Grande do Norte.

As amostras de plasma foram coletadas em novembro e dezembro de 2014 e janeiro a abril de 2015, nas espécies Gracilinanus agilis, Monodelphis domestica, Thrichomys sp. e Wiedomys sp.; também foi possível coletar 64 A. auricularium, 7 Amblyomma parvum e 12 Amblyomma sp.

Em uma área com 26 hectares, o estudo foi delimitado na Trilha dos Polinizadores, espaço com maior área preservada. Para obter o máximo de esforço de captura, foram colocados em toda área de estudo, de forma aleatória, 06 transectos separados a 20m de distância, marcados com GPS (Garmin, modelo Etrex H) e georeferenciados através do Programa Google Earth (Versão 1.2.3). As capturas dos roedores e marsupiais ocorreram mensalmente por 06 dias consecutivos, utilizando 50 armadilhas Tomahawk e 50 Sherman, colocadas antes do ocaso do sol e recolhidas no início da manhã (Kim et al. 2010Kim H.C., Lee I.Y., Chong S.T., Richards A.L., Gu S.H., Song J.W., Lee J.S. & Klein T.A. 2010. Serosurveillance of scrub Typhus in small mammals collected from military training sites near the DMZ, Northern Gyeonggi-do, Korea, and analysis of the relative abundance of Chiggers from mammals examined. Korean J. Parasitol. 48(3):237-243.).

Os roedores e marsupiais foram contidos pelo método químico, administrando uma dose de 10mg/kg de Cetamina na concentração de 1g/10mL, associada a uma dose de 1mg/kg de Xilasina na concentração de 2g/100mL, por via intramuscular (Fiocruz 2008Fiocruz 2008. Manual de utilização de animais: Fiocruz. Fundação Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, p.1-54.). Coletou-se 6% do volume total do peso em gramas em marsupiais e 8% em roedores de amostras de sangue por venopunção da veia jugular (Fiocruz 2008Fiocruz 2008. Manual de utilização de animais: Fiocruz. Fundação Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, p.1-54., Moraru et al. 2013Moraru G.M., Goddard J., Murphy A., Link D., Belant J.L. & Varela-Stokes A. 2013. Evidence of antibodies to spotted fever group Rickettsiae in small mammals and quail from Mississippi. Vector. Borne Zoonotic. Dis. 13(1):1-5.), com heparina sódica 5.000 Ul/mL, mantidas sob refrigeração e armazenadas no Laboratório de Parasitologia Animal da Universidade Federal Rural do Semi-Árido.

Para evitar recapturas no mês de coleta, os roedores e marsupiais foram marcados com brinco no pavilhão auricular esquerdo, seguindo recomendações de Almeida et al. (2013Almeida A.J., Freitas M.M.F. & Talamoni S.A. 2013. Use of space by the Neotropical caviomorph rodent Thrichomys apereoides (Rodentia: Echimyidae). Zoo 30(1):35-42.) e monitorados os parâmetros vitais durante o estado de sedação (Tranquilli et al. 2013Tranquilli W.J., Thurmon J.C. & Grimm K.A. 2013. Lumb & Jones, Anestesiologia e analgesia Veterinária. 4ª ed. Roca, São Paulo.). E os animais foram soltos nos locais de captura. A identificação dos marsupiais foi realizada através de morfometria de acordo com o protocolo de Cáceres (2012Cáceres N.C. 2012. Os marsupiais do Brasil: biologia, ecologia e conservação. 2ª ed. Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, Campo Grande, MS.) e Freitas (2012)Freitas A.M. 2012. Mamíferos no Nordeste brasileiro: espécies continentais. USEB, Pelotas, p.1-133. e dos roedores conforme Reis et al. (2006Reis N.R., Peracchi A.L., Pedro W.A. & Lima I.P. 2006. Mamíferos do Brasil. Universidade Estadual de Londrina, Londrina, p.1-437.) e Bonvicino et al. (2008)Bonvicino C.R., Oliveira J.A. & D’Andrea P.S. 2008. Guia dos roedores do Brasil, com chaves para gêneros baseadas em caracteres externos. Centro Pan-Americano de Febre Aftosa, OPAS/OMS, Rio de Janeiro..

A coleta dos ectoparasitas seguiu recomendações de Pereira et al. (2012)Pereira J.S., Carvalho L.C.A., Soto-Blanco B., Oliveira M.F. & Ahid S.M.M. 2012. Ectoparasitos em preás (Galea spixii Wagler, 1831) cativos no semiárido do Rio Grande do Norte. Pesq. Vet. Bras. 32(8):789-793., para evitar a perda de estruturas do gnatossoma e foram preservados em álcool etílico absoluto 99,8% P.A. A identificação taxonômica dos carrapatos foi realizada no Laboratório de Doenças Parasitarias da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo, por meio de amplificação por PCR, utilizando o Kit Wizard Genomic DNA, direcionados para um fragmento do gene 16S rRNA mitocondrial de carrapatos.

Dezesseis exemplares macerados de A. auricularium e três de A. parvum foram submetidos a extração de DNA e amplificação por PCR dos genes gltA e ompA rickettsial, utilizando o Kit Wizard Genomic DNA, com primers Rr190.70F e Rr190.701R direcionados para um fragmento do gene ompA e dois pares de primer CS-78, CS-323 e CS-239 e CS-1069 para o gene gltA (Labruna et al. 2004Labruna M.B., Whitworth T., Bouyer D.H., McBride J., Camargo L.M.A., Camargo E.P., Popov V. & Walker D.H. 2004. Rickettsia bellii and Rickettsia amblyommii in Amblyomma ticks from the State of Rondonia, Western Amazon, Brazil. J. Med. Entomol. 41(6):1073-1081.). As amostras produziram amplificações compatíveis com 350 bp do gene citrato sintase (gltA) e com 587 pb do gene da proteína da membrana externa (ompA). A integridade do DNA foi assegurada para o painel especificidade das preparações de ácidos nucleicos por 16s, realizando com sucesso detecção do gene rRNA em todas as preparações de DNA por PCR. Os produtos de PCR foram sequenciados e os resultados foram comparados com os dados do GenBank por análise BLAST.

As amostras de plasma sanguíneo de roedores e marsupiais foram analisadas utilizando a técnica de Imunofluorescência Indireta (RIFI), usando antígenos derivados das cinco espécies de rickettsias isoladas no Brasil: Rickettsia bellii cepa Mogi, R. amblyommii cepa Ac37, Rickettsia rhipicephali cepa HJ5, Rickettsia rickettsii cepa Taiaçu e Rickettsia parkeri cepa At24 conforme descrito por Labruna et al. (2007)Labruna M.B., Horta M.C., Aguiar D.M., Cavalcante G.T., Pinter A., Gennari S.M. & Camargo L.M.A. 2007. Prevalence of Rickettsia infection in dogs from the urban and rural areas of Monte Negro Municipality, Western Amazon, Brazil. Vector. Borne Zoonotic. Dis. 7(2):249-256.. Obteve-se o plasma centrifugando as amostras de sangue em 3000rpm por 10 minutos, no Laboratório da Estação Experimental Rafael Fernandes da UFERSA. Posteriormente, encaminhadas ao Laboratório de Doenças Parasitarias da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo, para análise.

As amostras de plasma foram diluídas em solução salina tamponada com fosfato (PBS) 2 vezes, com diluição inicial 1:64, como triagem da reação e testados com um conjugado anti-gambá (CCZ, São Paulo, Brasil) e anti-mouse (Sigma, St Louis, MO, EUA) para marsupial e roedor, respectivamente. Foram consideradas positivas amostras com titulação ≥64. Aplicou-se em cada lâmina, soros previamente testados considerados negativos (controle negativo) e positivos (controle positivo).

Os dados foram expressos em frequência simples e porcentagem através do programa estatístico IBM SPSS (Armonk, NY: IBM Corp.), versão 22.0. Para verificar a associação da soropositividade frente a infestação presente em animais (roedores/marsupiais) utilizou-se o teste exato de Fisher. A associação entre espécies encontradas e soropositiva para R. amblyommii foi determinada através do teste de qui-quadrado. Valores de p<0,05 foram considerados significativos.

O presente estudo foi realizado sob aprovação do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), com N° 44685-1 e Comissão de Ética no Uso de Animais (CEUA) da UFERSA, sob Parecer no.28/2014, tendo sido respeitados todos os preceitos éticos de proteção aos animais.

Resultados e Discussão

A infestação de carrapatos do gênero Amblyomma em pequenos mamíferos, constitui um problema de importância epidemiológica para a região do semiárido, uma vez que, segundo McIntosh et al. (2015)McIntosh D., Bezerra R.A., Luz H.R., Faccini J.L.H., Gaiotto F.A., Giné G.A.F. & Albuquerque G.R. 2015. Detection of Rickettsia bellii and Rickettsia amblyommii in Amblyomma longirostre (Acari: Ixodidae) from Bahia state, Northeast Brazil. Braz. J. Microbiol. 46(3):879-883. são potenciais vetores na transmissão de rickettsioses, desde as infecções mais brandas até as letais ao ser humano. Esta pesquisa registra pela primeira vez a ocorrência de Rickettsia amblyommii em roedores e marsupiais silvestres e em A. auricularium, no município de Mossoró, Rio Grande do Norte. A ocorrência de R. amblyommii infectando A. auricularium, demonstra a possibilidade de surgimento de outras espécies de rickettsias na região. Em outros Estados do Brasil, comumente encontra-se em uma mesma espécie de ectoparasita, infecções múltiplas por rickettsias (Lopes et al. 2014Lopes L.B., Guterres A., Rozental T., Oliveira R.C., Mares-Guia M.A., Fernandes J., Figueredo J.F., Anschau I., Jesus S., Almeida A.B.M.V., Silva V.C., Via A.V.G.M., Bonvicino C.R., D’Andrea P.S., Barreira J.D. & Lemos E.R.S. 2014. Rickettsia bellii, Rickettsia amblyommii, and Laguna Negra hantavírus in an Indian reserve in the Brazilian Amazon. Parasit. Vectors 7(191):1-7., Lugarini et al. 2015Lugarini C., Martins T.F., Ogrzewalska M., Vasconcelos N.C.T., Ellis V.A., Oliveira J.B., Pinter A., Labruna M.B. & Silva J.C.R. 2015. Rickettsial agents in avian ixodid ticks in northeast Brazil. Ticks. Tick-borne. Dis. 6(3):364-375., Soares et al. 2015Soares H.S., Barbieri A.R.M., Martins T.F., Minervino A.H.H., Lima J.T.R., Marcili A., Gennari S.M. & Labruna M.B. 2015. Ticks and rickettsial infection in the wildlife of two regions of the Brazilian Amazon. Exp. Appl. Acarol. 65(1):125-140.). Cardoso et al. (2006)Cardoso L.D., Freitas R.N., Mafra C.L., Neves C.V.B., Figueira F.C.B., Labruna M.B., Gennari S.M., Walker D.H. & Galvão M.A.M. 2006. Caracterização de Rickettsia spp. circulantes em foco silencioso de febre maculosa brasileira no Município de Caratinga, Minas Gerais. Cad. Saúde Pública 22(3):495-501. descreveram na área peri-urbana do município de Caratinga, Minas Gerais em A. cajennense R. rickettsii, Rickettsia honei e Rickettsia felis parasitando hospedeiros diferentes.

Durante as coletas de campo capturou-se um total de 41 roedores e marsupiais, dentre estes, ocorreram recapturas conforme a disponibilidade dos animais nos meses de coleta. Destes animais coletou-se A. auricularium, A. parvum e Amblyomma sp. (Quadro 1). A. auricularium demonstrou ser a principal espécie parasitando os hospedeiros (50 larvas e 14 ninfas), seguida de Amblyomma sp. (12 larvas). Dentre essas espécies de carrapatos, observou-se múltipla infestação por A. auricularium e A. parvum em Thrichomys sp. Essas espécies de carrapatos são comumente encontradas em roedores e marsupiais silvestres, devido esses animais apresentarem ampla distribuição geográfica, sendo facilmente encontrados em regiões de Mata Atlântica, Cerrado, florestas deciduais e Caatinga, habitando no dossel de florestas úmidas, tocas, árvores e ambiente aquático, associado a resistência ao estresse ambiental que esses carrapatos apresentam, a relação parasito-hospedeiro e estilo de vida do hospedeiro, que são fatores importantes para a adaptação fisiológica desses ectoparasitas, permitindo que os ectoparasitas se estabeleçam em novas habitats, mesmo sob condições adversas (Sá-Hungaro et al. 2014Sá-Hungaro I.J.B., Raia V.A., Pinheiro M.C., Ribeiro C.C.D.U. & Famadas K.M. 2014. Amblyomma auricularium (Acari: Ixodidae): underwater survival of the non-parasitic phase of feeding females. Braz. J. Vet. Parasitol. 23(2):387-392.), tornando-se fácil o parasitismo múltiplo.

Quadro 1.
Espécies de carrapatos do gênero Amblyomma coletados nos meses de novembro e dezembro de 2014 e janeiro a abril de 2015, em roedores e marsupiais silvestres na Estação Experimental Rafael Fernandes da Universidade Federal Rural do Semi-Árido, localizada no Distrito de Alagoinha, Mossoró, Rio Grande do Norte

De todos os roedores e marsupiais capturados, M. domestica apresentou maior infestação por A. auricularium, quando comparado com as demais espécies, corroborando com estudos realizados por Saraiva et al. (2013)Saraiva D.G., Nieri-Bastos F.A., Horta M.C., Soares H.S., Nicola P.A., Pereira L.C.M. & Labruna M.B. 2013. Rickettsia amblyommii infecting Amblyomma auricularium ticks in Pernambuco, northeastern Brazil: isolation, transovarial transmission, and transstadial perpetuation. Vector. Borne Zoonotic. Dis. 13(10):1-4., que mostraram infestação em marsupiais por A. auricularium. Esta predileção do parasita ao hospedeiro pode associar-se ao ambiente em que o animal se encontra, ao comportamento sazonal dos parasitos e área corporal do animal, com maior disponibilidade alimentar (Bittencourt & Rocha 2002Bittencourt E.B. & Rocha C.F.D. 2002. Spatial use of rodents (Rodentia: Mammalia) host body surface by ectoparasites. Braz. J. Biol. 62(3):419-425., Valim et al. 2004Valim M.P. 2004. Parasitismo por Acari e Phthiraptera em cobaios [Cavia porcellus (Linnaeus, 1758)] de ambientes rural e urbano nos municípios de Silva Jardim e Duque de Caxias, Rio de Janeiro. Braz. J. Vet. Res. Anim. Sci. 41(4):240-246.). Sugere-se que a alta infestação em M. domestica relacione-se com seus hábitos, pois alimenta-se de insetos, larvas, pequenos vertebrados e frutas e, também, por apresentar cauda curta, o que impede de procurar outros ambientes, tornando-o exclusivamente terrestre, por essa razão tem um contato maior com outras espécies animais (Freitas 2012Freitas A.M. 2012. Mamíferos no Nordeste brasileiro: espécies continentais. USEB, Pelotas, p.1-133.), facilitando assim a infestação por ectoparasitas.

A predominância de A. auricularium nos hospedeiros permite uma maior disseminação de R. amblyommii na região estudada, em relação as demais espécies de rickettsias registradas no nordeste brasileiro, pois este microrganismo, de acordo com Saraiva et al. (2013)Saraiva D.G., Nieri-Bastos F.A., Horta M.C., Soares H.S., Nicola P.A., Pereira L.C.M. & Labruna M.B. 2013. Rickettsia amblyommii infecting Amblyomma auricularium ticks in Pernambuco, northeastern Brazil: isolation, transovarial transmission, and transstadial perpetuation. Vector. Borne Zoonotic. Dis. 13(10):1-4. é naturalmente encontrado nessa espécie de carrapato. Nesse sentido, os resultados do presente estudo apontam que os animais infestados por A. auricularium, 19,5% foram soropositivos para R. amblyommii, sendo este fato, significativamente associado com infestação por A. auricularium (p<0,001) (Quadro 2).

Quadro 2.
Resultados da Reação de Imunoflurescência Indireta com titulação reagente para antígenos derivados das cinco espécies de Rickettsia isoladas no Brasil, em roedores e marsupiais silvestres coletados nos meses de novembro e dezembro de 2014 e janeiro a abril de 2015, na Estação Experimental Rafael Fernandes da Universidade Federal Rural do Semi-Árido, localizada no Distrito de Alagoinha, Mossoró, Rio Grande do Norte

Dos 41 roedores e marsuipais testados na Imunoflurescência Indireta (RIFI), 09 foram positivos com antigenos de 02 diferentes espécies de Rickettsia, nos quais, três M. domestica reagiram à antigeno de Rickettsia belli, apresentando títulos de 512 e um Wiedomys sp. com titulo inferior (128). Diferentemente dos resultados para R. amblyommii, que demonstraram em 17,60% animais títulos quatro vezes superiores (8192) em relação a outra espécie de Rickettsia, confirmando a exposição desses animais com esse agente na região. Os maiores títulos observados foram constatados em três M. domestica, que apresentaram lesões cutâneas e forte odor, sugestivo de alta infecção. Além disso, dentre os animais soropositivos para R. amblyommii, 62,5% foi à espécie M. domestica, observando uma diferença estatística (<0,001) em relação as demais espécies animais capturadas (Quadro 3). Esses resultados podem correlacionar-se com a susceptibilidade dessa espécie animal ao microrganismo, apesar de ser uma situação atípica, pois estes animais naturalmente não são susceptíveis a doença, tornando-se reservatórios do agente patogênico, entretanto em uma infecção elevada pode desenvolver sinais clínicos, como lesões cutâneas e febre (Saraiva et al. 2013Saraiva D.G., Nieri-Bastos F.A., Horta M.C., Soares H.S., Nicola P.A., Pereira L.C.M. & Labruna M.B. 2013. Rickettsia amblyommii infecting Amblyomma auricularium ticks in Pernambuco, northeastern Brazil: isolation, transovarial transmission, and transstadial perpetuation. Vector. Borne Zoonotic. Dis. 13(10):1-4.).

Quadro 3.
Sororeatividade para as cinco espécies de Rickettsia isoladas no Brasil em roedores e marsupiais silvestres coletados nos meses de novembro e dezembro de 2014 e janeiro a abril de 2015 na Estação Experimental Rafael Fernandes da Universidade Federal Rural do Semi-Árido, localizada no Distrito de Alagoinha, Mossoró, Rio Grande do Norte

Todos os carrapatos coletados dos roedores e marsupiais foram submetidos a extração de DNA e amplificação por PCR dos genes gltA e ompA Rickettsial. Amostras de DNA Rickettsial amplificados por PCR foram sequenciados e submetidos a análises BLAST. Dentre os animais soropositivos, identificou-se em sete larvas e uma ninfa de A. auricularium a presença de R. amblyommii a partir da análise de fragmentos dos genes gltA (350 bp) e ompA (587 pb), com 100% de similaridade com Candidatus R. amblyommii estirpe Bahia (KM262197) e AaPE (JX867426), respectivamente, recentemente reportadas na região nordeste do Brasil (Saraiva et al. 2013Saraiva D.G., Nieri-Bastos F.A., Horta M.C., Soares H.S., Nicola P.A., Pereira L.C.M. & Labruna M.B. 2013. Rickettsia amblyommii infecting Amblyomma auricularium ticks in Pernambuco, northeastern Brazil: isolation, transovarial transmission, and transstadial perpetuation. Vector. Borne Zoonotic. Dis. 13(10):1-4.). Essas sequencias de R. amblyommii foram encontradas em todas as larvas de A. auricularium coletadas de três M. domestica, que apresentaram títulos elevados na RIFI (8192) e em ninfa proveniente de um Thrichomys sp. soronegativo.

Os resultados demonstram que 25% dos G. agilis foram soropositivos para R. amblyommii, mas não havia infecção nos carrapatos coletados. Já os M. domestica infectados (62,5%) obteve uma taxa elevada dos carrapatos coletados positivos na PCR para R. amblyommii. Em relação aos roedores apenas um Thrichomys sp. (12,5%) soronegativo apresentou carrapatos positivos nas análises moleculares para o agente. M. domestica, por apresentar elevada taxa de positividade para R. amblyommii, tanto na PCR, quanto no RIFI, mostrou ser mais susceptível a infecção, como também, favorece a transmissão facilmente do microrganismo ao vetor, disseminando rapidamente o agente infeccioso para os animais silvestres do seu convívio e aos sinantrópicos. Caso haja um aumento de sinantropismo, existirá a possibilidade de propagação desse microrganismo na região urbana, podendo ser um risco a população circunvizinha, pois recentemente tem-se registrado nos Estados Unidos a forma mais branda de febre maculosa em humanos, quando associado a A. americanum (Jiang et al. 2010Jiang J., Yarina T., Miller M.K., Stromdahl E.Y. & Richards A.L. 2010. Molecular Detection of Rickettsia amblyommii in Amblyomma americanum parasitizing humans. Vector. Borne Zoonotic. Dis. 10(4):329-340.). Condição semelhante fora relatado por Szabó et al. (2013)Szabó M.P.J., Nieri-Bastos F.A., Spolidorio M.G., Martins T.F., Barbieri A.M. & Labruna M.B. 2013. In vitro isolation from Amblyomma ovale (Acari: Ixodidae) and ecological aspects of the Atlantic rainforest Rickettsia, the causative agent of a novel spotted fever rickettsiosis in Brazil. Parasitology 140(6):719-728., que obteve como resultados soropositividade em 100% dos Didelphis aurita e 33% dos Monodelphis sp. para R. rickettsii, R. amblyommii, R. parkeri e R. rhipicephali, conferindo uma significante participação no ciclo enzoótico e zoonótico das rickettsioses no município de Peruibe em São Paulo, uma vez que estes animais mantem contatos com os animais domésticos.

Conclusões

Registra-se pela primeira vez a ocorrência de Rickettsia amblyommii em roedores e marsupiais silvestres em Mossoró, Rio Grande do Norte, demonstrando a distribuição da espécie na região oeste do semiárido do nordeste brasileiro, pois os relatos anteriores foram para a região sudeste, sul e no nordeste, registrado no litoral sul da Bahia.

Entretanto, R. amblyommii circulante dentre Amblyomma auricularium e em roedores e marsupiais silvestres na região estudada é consideravelmente baixa.

Todavia, em Monodelphis domestica a circulação desse agente considera-se elevada, tendo em vista, o esforço de captura, a soropositividade apresentada para essa espécie e a infestação de carrapatos positivos, demonstrando ser um hospedeiro reservatório e amplificador competente para R. ambllyommii.

Sugere-se que esta espécie de rickettsia deve abranger muito mais do que os locais já descritos, porque os hospedeiros, roedores e marsupais, apresenta elevada distribuição no país.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    Jun 2017

Histórico

  • Recebido
    08 Jan 2016
  • Aceito
    04 Set 2016
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