Dispositivo de Potterheads: Organização Pautada na Ordem do Cânone

Potterheads Dispositif: Organization Guided by the Order of the Canon

Flávia Zimmerle da Nóbrega Costa André Luiz Maranhão de Souza Leão Sobre os autores

Resumo

Os fãs da saga Harry Potter, conhecidos como potterheads, pertencem a uma geração que cresceu em um contexto denominado cultura da convergência. Organizam-se a partir de um produto midiático em um espaço social denominado fandom, por meio de um processo organizativo informal. Embasados no pensamento foucaultiano e na teoria organizacional, assumimos que processos organizativos podem ser analisados como um tipo de dispositivo e que este se estabelece por práticas. Com base nisso, desenvolvemos a seguinte questão investigativa: como as práticas dos potterheads evidenciam seu processo organizativo? A pesquisa se caracteriza como uma Análise de Discursos Foucaultiana, com base em práticas de potterheads observadas em mídias sociais. Como resultado, identificamos que o cânone deste universo literário e cinematográfico funciona como um corpo de saberes ordenado, cuja função disciplinar possibilita a organização de seus fãs, que se dá numa dinâmica de aderência e resistência ao mesmo. O estudo revela como um processo organizativo singular (vida organizada dos potterheads), vinculado a um cenário econômico de crescente importância (indústria do entretenimento), ilustra como um dispositivo opera na produção de espaços sociais e subjetividades, em meio a uma economia afetiva operada como uma tecnologia biopolítica.

Palavras-chave:
potterheads; processo organizativo; cultura da convergência; dispositivo; Análise de Discurso Foucaultiana

Abstract

Fans of the Harry Potter saga, known as Potterheads, belong to a generation that grew up in a context called convergence culture. They are organized based on a media product in a social space called fandom, through an informal organizational process. Grounded in Foucault’s thinking and organizational theory, we assume that organizational processes can be analyzed as a kind of dispositif and that this is established by practices. Based on this, we developed the following investigative question: how do Potterhead practices demonstrate their organizational process? The research is characterized as a Foucauldian Discourse Analysis, based on practices of Potterheads observed in social media. We identified that the canon of this literary and cinematic universe works as an ordered body of knowledge, whose disciplinary function enables the organization of their fans, which occurs in a dynamic of adhesion and resistance to it. The study reveals how a singular organizational process (Potterheads’ organized life), linked to an economic environment of increasing importance (the entertainment industry), illustrates how a dispositif operates in the production of social spaces and subjectivities, in the midst of an affective economy operated as a biopolitical technology.

Key words:
potterheads; organizational process; convergence culture; dispositif; Foucauldian Discourse Analysis

Introdução

A saga Harry Potter conquistou uma legião de aficionados fãs, os potterheads, que, por meio desse universo, constroem seus mundos particulares e produzem valores e verdades. Como militantes convictos e produtores incorrigíveis, produzem conteúdos e agenciamentos políticos, instigando a solidariedade imediata e global da comunidade (Jenkins, 2009Jenkins, H. (2009). Cultura da convergência: a colisão entre os velhos e os novos meios de comunicação. São Paulo: Ed. Aleph.). Esse trabalho é feito em defesa de suas ideias/vontades, sejam elas causas sociais em que acreditam, contra ou a favor de princípios morais vigentes, ou ainda se opondo ao que consideram preconceitos e injustiças sociais. Para Jenkins (2009), é a partir desse envolvimento que a cultura da comunidade é produzida, orbitando o conteúdo da saga e moldando o ambiente interativo onde acontecem suas várias atividades.

Hoje, uma das atividades mais importantes dos fãs é a produção de novos conteúdos a partir dos produtos midiáticos (Jenkins, 2009Jenkins, H. (2009). Cultura da convergência: a colisão entre os velhos e os novos meios de comunicação. São Paulo: Ed. Aleph.). A produção cultural originada nas práticas dos potterheads, envolve afetividade, sociabilidade, agenciamento político e a produção de textos culturais. Em um caso de grande repercussão, os potterheads reivindicaram novas posturas da Warner Bros., a líder mundial em comercialização e distribuição de filmes longas metragens: em 2001, resistiram para manter seus perfis na internet utilizando o nome da marca, quando a empresa adquiriu e reivindicou o direito à propriedade de uso da mesma (Sewell, n.d.); outro exemplo pode estar no período entre 2010 e 2015, quando o grupo lutou pela certificação de origem dos chocolates comercializados no parque temático da Universal Orlando, justificando o alinhamento aos valores da saga (Rosenberg, 2015Rosenberg, A. (2015, January 13). How ‘Harry Potter’ fans won a four-year fight against child slavery. Retrieved from http://www.washingtonpost.com/news/act-four/wp/2015/01/13/how-harry-potter-fans-won-a-four-year-fight-against-child-slavery/
http://www.washingtonpost.com/news/act-f...
).

Harry Potter é considerado um produto midiático representativo de uma geração de fãs (Brown & Patterson, 2009Brown, S., & Patterson, A. (2009). Harry Potter and the service-dominant logic of marketing: a cautionary tale. Journal of Marketing Management, 25(5/6), 519-533. http://dx.doi.org/10.1362/026725709X461830
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, 2010Brown, S., & Patterson, A. (2010). Selling stories: Harry Potter and the marketing plot. Psychology & Marketing, 27(6), 541-556. http://dx.doi.org/10.1002/mar.20343
http://dx.doi.org/10.1002/mar.20343...
; Dendle, 2011Dendle, P. (2011). Cryptozoology and the paranormal in Harry Potter: truth and belief at the borders of consensus. Children's Literature Association Quarterly, 36(4), 410-425. http://dx.doi.org/10.1353/chq.2011.0048
http://dx.doi.org/10.1353/chq.2011.0048...
; Hall, 2016Hall, C. (2016). ‘Reading and [w]rocking’: morality and musical creativity in the Harry Potter fandom. The Journal of Fandom Studies, 4(2), 193-208. http://dx.doi.org/10.1386/jfs.4.2.193_1
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). Os lançamentos sequenciados da saga literária e cinematográfica aconteceram com enorme sucesso ao longo de 14 anos. Além desses jovens terem crescido convivendo com tais lançamentos, o produto foi vastamente distribuído: a obra foi traduzida para mais de 60 idiomas e atingiu grande parte das famílias ocidentais (Archer, 2015Archer, D. (2015). Harry Potter and control: an inherent power narrative in the Wizarding World. Conversations, 2(1), 1-18. ), tornando-se um símbolo de uma geração e uma das mais robustas narrativas de mídia da atualidade (Brown & Patterson, 2006Brown, S., & Patterson, A. (2006). You’re a wizard, Harry! Consumer response to the Harry Potter phenomenon. Advances in Consumer Research, 33, 155-160.).

Os potterheads ilustram o modo de vida de uma geração conhecida como millennials. Esses jovens, nascidos a partir da década de 1980, possuem estreita afinidade com ferramentas tecnológicas e um amplo domínio sobre elas (Chaves, 2012Chaves, S. N. (2012). História da ciência através do cinema: dispositivo pedagógico na formação de professores de ciências. Alexandria Revista de Educação em Ciência e Tecnologia, 5(2), 83-93. ; McCorkindale, DiStaso, & Sisco, 2013McCorkindale, T., DiStaso, M. W., & Sisco, H. F. (2013). How millennials are engaging and building relationships with organizations on facebook. The Journal of Social Media in Society, 2(1), 66-87.; Myers & Sadaghiani, 2010Myers, K. K., & Sadaghiani, K. (2010). Millennials in the workplace: a communication perspective on millennials organizational relationships and performance [Eletronic Version]. Journal of Business and Psychology, 25(2), 225-238. Retrieved from http://link.springer.com/article/10.1007/s10869-010-9172-7. http://dx.doi.org/10.1007/s10869-010-9172-7
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). Apoiados nesses recursos tecnológicos, a geração millennials produz identidades e realidades, viabilizando sua vasta interatividade e o acesso imediato a informações (Moura, 2013Moura, D. C. (2013). Abordagens no campo da comunicação e o desafio contemporâneo da mobilidade: jovens e o smartphone. Razón y Palabra, 18(84), 1-13. ). Exposta à cultura das mídias, a geração convive e naturalmente se envolve com os produtos da indústria cultural, de onde extraem subsídios para essas construções (Guschwan, 2012Guschwan, M. (2012). Fandom, brandom and the limits of participatory culture. Journal of Consumer Culture, 12(1), 19-40. http://dx.doi.org/10.1177/1469540512438154
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), produzindo novos modos de socialização, relação, escolha e consumo (Coelho & Las Casas, 2013Coelho, D., & Las Casas, A. (2013). A percepção dos consumidores da geração Y na aquisição de produtos tecnológicos (computadores) no ponto de venda. FACEF Pesquisa: Desenvolvimento e Gestão, 16(1), 83-96. ; McCorkindale et al., 2013McCorkindale, T., DiStaso, M. W., & Sisco, H. F. (2013). How millennials are engaging and building relationships with organizations on facebook. The Journal of Social Media in Society, 2(1), 66-87.).

Para Jenkins (2009Jenkins, H. (2009). Cultura da convergência: a colisão entre os velhos e os novos meios de comunicação. São Paulo: Ed. Aleph.), novas formas de relação se estabelecem entre comunidades de fãs, tecnologias e produtores midiáticos, constituindo o que ele denominou de cultura da convergência. Tal noção insere-se numa racionalidade política que se desenvolve a partir das novas tecnologias de informação e comunicação, que recebe muitos rótulos, a depender das lentes do pesquisador. Por exemplo, enquanto Jenkins (2009) a nomeia como economia afetiva, Brown e Patterson (2006Brown, S., & Patterson, A. (2006). You’re a wizard, Harry! Consumer response to the Harry Potter phenomenon. Advances in Consumer Research, 33, 155-160.) a batizaram de economia do entretenimento. A despeito de suas particularidades, os diferentes conceitos evidenciam uma profunda mudança no cenário, nos papéis e nas ações em um dos campos economicamente mais relevantes da atualidade: o das indústrias criativas. Essas transformações ainda estão sendo exploradas, mas possuem antepassados relevantes e consolidados nos estudos organizacionais, como as indústrias culturais, seus sistemas e a produção de cultura (Jones, Svejenova, & Townley, 2016Jones, C., Svejenova, Pedersen, J. S., & Townley, B. (2016). Misfits, mavericks and mainstreams: drivers of innovation in the creative industries. Organization Studies , 37(6), 751-768. http://dx.doi.org/10.1177/0170840616647671
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).

Fãs constituem hoje grupos expressivos e organizados, formados por relações de consumo. Analisar a esfera do consumo tornou-se relevante para a teoria organizacional, assim como o estudo das formas organizacionais alternativas despertou o interesse de estudiosos (Fontenelle, 2015Fontenelle, I. A. (2015). Organisations as producers of consumers. Organization, 22(5), 644-660. http://dx.doi.org/10.1177/1350508415585029
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; Rodgers, Petersen, & Sanderson, 2016Rodgers, D. M., Petersen, J., & Sanderson, J. (2016). Commemorating alternative organizations and marginalized spaces: the case of forgotten Finntowns. Organization , 23(1), 90-113. http://dx.doi.org/10.1177/1350508415605110
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). O fandom é o espaço social que as sedia e propicia os intensivos diálogos entre fãs (Amaral, Souza, & Monteiro, 2015Amaral, A., Souza, R. V., & Monteiro, C. (2015). “De westeros no #vemprarua à shippagem do beijo gay na TV brasileira”. Ativismo de fãs: conceitos, resistências e práticas na cultura digital [Versão eletrônica], Galáxia, (29), 141-154. Recuperado de http://www.scielo.br/pdf/gal/n29/1982-2553-gal-29-0141.pdf. http://dx.doi.org/10.1590/1982-25542015120250
http://www.scielo.br/pdf/gal/n29/1982-25...
; Guschwan, 2012Guschwan, M. (2012). Fandom, brandom and the limits of participatory culture. Journal of Consumer Culture, 12(1), 19-40. http://dx.doi.org/10.1177/1469540512438154
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), e é considerado por Jenkins (2009Jenkins, H. (2009). Cultura da convergência: a colisão entre os velhos e os novos meios de comunicação. São Paulo: Ed. Aleph.) uma comunidade cultural complexa, mantida pelo estilo particular de consumo e pela preferência cultural. Nesse espaço, a combinação de esforços individuais e colaborativos almeja a realização de propósitos coletivos. Seu processo organizativo legitima identidades e agências que participam da rede responsável por conduzir processos de valor nas indústrias criativas. Na medida em que atuam como cocriadores na concepção, na produção e na distribuição de produtos e serviços (Jones et al., 2016Jones, C., Svejenova, Pedersen, J. S., & Townley, B. (2016). Misfits, mavericks and mainstreams: drivers of innovation in the creative industries. Organization Studies , 37(6), 751-768. http://dx.doi.org/10.1177/0170840616647671
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), fãs constituem subjetividades e desestabilizam as relações de poder (Pearson, 2010Pearson, R. (2010). Fandom in the digital era. Popular Communication: The International Journal of Media and Culture, 8(1), 84-95. http://dx.doi.org/10.1080/15405700903502346
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), não podendo mais ser observados como consumidores passivos (Jenkins, 2009Jenkins, H. (2009). Cultura da convergência: a colisão entre os velhos e os novos meios de comunicação. São Paulo: Ed. Aleph.).

O fandom pode ser entendido como um processo organizativo informal singular, que se estabelece e mantém por meio de um procedimento particular de gestão. Princípios de valor e condições de participação são regulados: o que é ser ou não fã, em que se deve acreditar e o que se deve defender, quais atividades são pertinentes a um fã, como se posicionar frente às críticas e aos estigmas sociais etc. Os temas são sempre lutas particulares que acontecem recorrentemente no interior desse tipo de comunidade e que se refletem nos demais espaços frequentados por esses consumidores. Como em qualquer espaço social, o fandom sofre a ação dos princípios estabelecidos pela racionalidade dominante e as práticas dos agentes subvertem a todo tempo as formas de poder institucionalizadas, [re]criando sua existência.

Nosso argumento parte do princípio de que organizar é, ao mesmo tempo, processo e estrutura (Clegg & Bailey, 2008Clegg, S. R., & Bailey, J. R. (2008). Introduction. In S. R. Clegg & J. R. Bailey (Orgs.), International Encyclopedia of Organization Studies (pp. XIIII-XIVIII). California: SAGE Publication.). Nesse sentido, consideramos que o fandom se caracteriza como uma espécie de vida organizada (Carrieri, 2014Carrieri, A. P., Souza, E. M. S., & Aguiar, A. R. C. (2014). Trabalho, violência e sexualidade: estudo de lésbicas, travestis e transexuais. Revista de Administração Contemporânea, 18(1), 78-95. Recuperado de http://www.scielo.br/pdf/rac/v18n1/a06v18n1.pdf. http://dx.doi.org/10.1590/S1415-65552014000100006
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): um processo que nasceu da historicidade do cruzamento de várias forças, o qual acontece e é determinado pelo cenário capitalista e pelas várias relações de poder que o atravessam enquanto corpo social. A atuação de seus agentes na prática da gestão de sua existência interfere, ressignifica e modifica práticas institucionais de outras organizações e processos organizativos no cenário social e econômico em que estão inseridos, pois a gestão, segundo Carrieri (2014)Carrieri, A. P., Souza, E. M. S., & Aguiar, A. R. C. (2014). Trabalho, violência e sexualidade: estudo de lésbicas, travestis e transexuais. Revista de Administração Contemporânea, 18(1), 78-95. Recuperado de http://www.scielo.br/pdf/rac/v18n1/a06v18n1.pdf. http://dx.doi.org/10.1590/S1415-65552014000100006
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, é uma categoria política e um mecanismo de poder, na medida em que articula o saber-fazer com o saber-poder na promoção de agenciamentos.

Assim, seguindo o argumento de Carrieri (2014Carrieri, A. P., Souza, E. M. S., & Aguiar, A. R. C. (2014). Trabalho, violência e sexualidade: estudo de lésbicas, travestis e transexuais. Revista de Administração Contemporânea, 18(1), 78-95. Recuperado de http://www.scielo.br/pdf/rac/v18n1/a06v18n1.pdf. http://dx.doi.org/10.1590/S1415-65552014000100006
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), analizar o fandom como um processo de gestão ordinária dessa vida organizada (uma descontinuidade) é pensar criticamente; é partir da desconstrução de conceitos, deslocando-se da racionalidade dominante. Partir de descontinuidades e desconstruir conceitos é próprio da abordagem pós-estruturalista (Souza, Petinelli-Souza, & Silva, 2013Souza, E. M., Petinelli-Souza, S., & Silva, A. R. L. (2013). O pós-estruturalismo e os estudos críticos de gestão: da busca pela emancipação à constituição do sujeito. Revista de Administração Contemporânea, 17, 198-217. http://dx.doi.org/10.1590/S1415-65552013000200005
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).

Embasada na epistemologia pós-estruturalista foucaultiana, uma das vertentes críticas nos estudos organizacionais explora o processo organizativo (organizing) (Caldwell, 2007Caldwell, R. (2007). Agency and change: re-evaluating Foucault's legacy. Organization, 14(6), 769-791. http://dx.doi.org/10.1177/1350508407082262
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), assumindo uma postura ontológica politicamente oposta à visão metateórica de organização (Duarte & Alcadipani, 2016Duarte, M. F., & Alcadipani, R. (2016). Contribuições do organizar (organizing) para os estudos organizacionais. Organização & Sociedade, 23(76), 57-72. http://dx.doi.org/10.1590/1984-9230763
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). Entendendo-as como espaços políticos (Marshak & Grant, 2008Marshak, R. J., & Grant, D. (2008). Organization al discourse and new organization development practices. British Journal of Management, 19(1), S7-S19. http://dx.doi.org/10.1111/j.1467-8551.2008.00567
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) resultantes de um contínuo organizar (Duarte & Alcadipani, 2016), assumem a gestão como um espaço de disputas ininterruptas (Carrieri, Perdigão, & Aguiar, 2014Carrieri, A. P., Souza, E. M. S., & Aguiar, A. R. C. (2014). Trabalho, violência e sexualidade: estudo de lésbicas, travestis e transexuais. Revista de Administração Contemporânea, 18(1), 78-95. Recuperado de http://www.scielo.br/pdf/rac/v18n1/a06v18n1.pdf. http://dx.doi.org/10.1590/S1415-65552014000100006
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). O entendimento de poder foucaultiano nos embasa para fugir da totalização de representações. Seu pensamento transforma nossa compreensão acerca das estruturas sociais, do poder e dos sujeitos livres, pois, apesar de entendê-los como sendo historicamente condicionados, eles assumem sua posição em um sistema aberto e contingente (Foucault & Deleuze, 1977Foucault, M., & Deleuze, G. (1977). Intellectuals and power. In D. F. Bouchard (Ed.), Language, counter-memory, practice (pp. 205-217). Ithaca: Cornell University Press. ).

Logo, organizar pode ser entendido como dispositivo. Com base no pensamento foucaultiano, Carrieri (2014Carrieri, A. P., Souza, E. M. S., & Aguiar, A. R. C. (2014). Trabalho, violência e sexualidade: estudo de lésbicas, travestis e transexuais. Revista de Administração Contemporânea, 18(1), 78-95. Recuperado de http://www.scielo.br/pdf/rac/v18n1/a06v18n1.pdf. http://dx.doi.org/10.1590/S1415-65552014000100006
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) entende que processos organizativos podem ser analisados como um tipo de dispositivo e a gestão como uma ferramenta de poder, pois, sendo o poder relacional e, portanto, móvel, ele é disseminado por dispositivos. A organização é pautada em um corpo de saberes e no exercício de poderes, e a gestão ocupa um papel relevante nessa complexa rede em que relações de poder promovem relações de sujeição, fabricando sujeitos, sejam dóceis ou subversivos.

Para Foucault, o arranjo que resulta em processos singulares de veridição, subjetivação e objetivação, capaz de produzir sujeitos e objetos, constitui um dispositivo (Chignola, 2014Chignola, S. (2014). Sobre o dispositivo: Foucault, Agamben, Deleuze. Cadernos IHU Ideias, 12(214), 3-17. ). Assim, o poder é operado por dispositivos; estes, por sua vez, são formados por uma rede de forças de naturezas distintas, englobando a variação de elementos e direção dessas forças (Foucault, 2015Foucault, M. (2015). Vigiar e punir: nascimento da prisão. Petrópolis: Vozes.). O dispositivo se estabelece por práticas. As práticas sociais cristalizam os discursos (Foucault, 2012Foucault, M. (2012). A arqueologia do saber. Rio de Janeiro: Forense Universitária.), materializando e fazendo funcionar os efeitos de poder (Foucault, 2015Foucault, M. (2015). Vigiar e punir: nascimento da prisão. Petrópolis: Vozes.).

Considerar o fandom como vida organizada é entendê-lo como parte de um dispositivo, logo, ele torna-se capaz de revelar saberes por meio de poderes. Para tal, devemos partir das práticas de fãs em seu fandom em busca do entendimento de seu processo organizativo. Nesse sentido, questionamo-nos: Como as práticas dos potterheads evidenciam seu processo organizativo?

Como práticas de potterheads, referimo-nos às atividades coletivas desses fãs em seu fandom, ações que revelam a maneira como eles interagem como forma de produzir saberes por meio de suas produções relacionadas ao universo da saga. Assim, a questão de pesquisa elaborada busca revelar a rede de saberes que, operada por poderes, possibilita a efetivação do processo organizativo dos potterheads.

O trabalho se justifica, inicialmente, por se debruçar sobre um tipo de organização potencialmente reveladora da diversidade de modos de realização na vida social contemporânea (i.e., organização de fãs), que, por sua vez, tem sido pouquíssimo explorado pelas ciências sociais (Carrieri, 2014Carrieri, A. P., Souza, E. M. S., & Aguiar, A. R. C. (2014). Trabalho, violência e sexualidade: estudo de lésbicas, travestis e transexuais. Revista de Administração Contemporânea, 18(1), 78-95. Recuperado de http://www.scielo.br/pdf/rac/v18n1/a06v18n1.pdf. http://dx.doi.org/10.1590/S1415-65552014000100006
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). De forma mais contundente, colocarmo-nos criticamente frente a esse fenômeno nos dá margem para pensar a relação entre organizações e vida organizada de uma forma alternativa: em vez de partir da busca de como as organizações e suas formas de gestão determinam a vida organizada, assumimos o tipo de organização em pauta como singular, assim tendo um valor específico inerente à sua capacidade de ilustrar novas formas de organização social na contemporaneidade.

Por outro lado, nos Estudos Organizacionais, as dinâmicas de poder e os processos de subjetivação do pensamento foucaultiano fundamentam uma linha dos estudos (Carrieri, 2014Carrieri, A. P., Souza, E. M. S., & Aguiar, A. R. C. (2014). Trabalho, violência e sexualidade: estudo de lésbicas, travestis e transexuais. Revista de Administração Contemporânea, 18(1), 78-95. Recuperado de http://www.scielo.br/pdf/rac/v18n1/a06v18n1.pdf. http://dx.doi.org/10.1590/S1415-65552014000100006
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; Marshak & Grant, 2008Marshak, R. J., & Grant, D. (2008). Organization al discourse and new organization development practices. British Journal of Management, 19(1), S7-S19. http://dx.doi.org/10.1111/j.1467-8551.2008.00567
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; Souza, Junquilho, Machado, & Bianco, 2006Souza, E. M., Junquilho, G. S., Machado, L. D., & Bianco, M. F. (2006). A analítica de Foucault e suas implicações nos estudos organizacionais sobre o poder. Organizações & Sociedade, 13(36),12- 25. http://dx.doi.org/10.1590/S1984-92302006000100001
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), em que se posiciona essa pesquisa.

Revelar a dinâmica desse processo organizativo é indicar como opera e se constitui um dispositivo, uma ferramenta que, atrelada a outros dispositivos, operacionaliza a existência de um espaço social (fandom) e o agenciamento de sujeitos a partir dele (potterheads). Para Raffnsøe, Gudmand-Høyer e Thaning (2016Raffnsøe, S., Gudmand-Høyer, M., & Thaning, M. S. (2016). Foucault’s dispositive: the perspicacity of dispositive analytics in organizational research. Organization , 23(2), 272-298. http://dx.doi.org/10.1177/1350508414549885
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), utilizar o dispositivo como ferramenta para a análise permite uma compreensão mais complexa da dinâmica organizativa, pois desvela e elucida a ação das mais sutis formas de poder que atravessam os processos organizativos. Apesar do pensamento foucaultiano ser considerado relevante para a área, o potencial dessa ferramenta foi muito pouco explorado nos estudos organizacionais (Raffnsøe, Gudmand-Høyer, & Thaning, 2016Raffnsøe, S., Gudmand-Høyer, M., & Thaning, M. S. (2016). Foucault’s dispositive: the perspicacity of dispositive analytics in organizational research. Organization , 23(2), 272-298. http://dx.doi.org/10.1177/1350508414549885
http://dx.doi.org/10.1177/13505084145498...
); esperamos que aqui se localize a contribuição dessa pesquisa.

O Dispositivo em Michel Foucault

Como força, o poder não é algo que pertence a alguém, mas algo que se exerce (Foucault, 2013Foucault, M. (2013). Ditos e escritos, volume IX: genealogia da ética, subjetividade e sexualidade. São Paulo: Forense Universitária.). O poder é relacional, microfísico, e mantém com o saber uma relação de apoio e reforço mútuos, pois sua operacionalização se dá por meio dele, gerando novos saberes. Sendo uma relação entre forças, o exercício de poder sempre produz resistência, estando nessa relação a própria dinâmica do que é de caráter social (Foucault, 2014). A resistência não se constitui como uma oposição ao poder nem se pretende como uma sobreposição ao mesmo. O poder e a resistência são coconstitutivos (Caughlan, 2005Caughlan, S. (2005). Considering pastoral power: a commentary on Aaron Schutz's "Rethinking domination and resistance: challenging postmodernism". Educational Researcher, 34(2), 14-16. http://dx.doi.org/10.3102/0013189X034002014
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; Collinson, 2006Collinson, D. (2006). Rethinking followership: a post-structuralist analysis of follower identities. The Leadership Quarterly, 17(2), 179-189. http://dx.doi.org/10.1016/j.leaqua.2005.12.005
http://dx.doi.org/10.1016/j.leaqua.2005....
; Hardt & Thomas, 2014Hardt, C., & Thomas, R. (2014). Discourse in a material world. Journal of Management Studies, 52(5), 680-696. http://dx.doi.org/10.1111/joms.12113
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; Raffnsøe et al., 2016Raffnsøe, S., Gudmand-Høyer, M., & Thaning, M. S. (2016). Foucault’s dispositive: the perspicacity of dispositive analytics in organizational research. Organization , 23(2), 272-298. http://dx.doi.org/10.1177/1350508414549885
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); sua dinâmica relacional pode promover as mudanças organizacionais, já que o poder é produtivo (Thomas, Sargent, & Hardy, 2011Thomas, R., Sargent, L., & Hardy, C. (2011). Managing change: negotiating meaning and power-resistance relations. Organization Science, 22(1), 22-41. http://dx.doi.org/10.1287/orsc.1090.0520
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) e a resistência é transgressiva (Raffnsøe et al., 2016Raffnsøe, S., Gudmand-Høyer, M., & Thaning, M. S. (2016). Foucault’s dispositive: the perspicacity of dispositive analytics in organizational research. Organization , 23(2), 272-298. http://dx.doi.org/10.1177/1350508414549885
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).

Para o filósofo, o poder se estabelece e corta o espaço social porque se apoia em dispositivos. Cada rede relacional é formada por elementos heterogêneos (discursivos e não discursivos) e possibilitam a criação de mecanismos que sustentam o exercício do saber-poder e estabelecem matizes normativas de condutas para o corpo social (Foucault, 2013Foucault, M. (2013). Ditos e escritos, volume IX: genealogia da ética, subjetividade e sexualidade. São Paulo: Forense Universitária.). Segundo o autor, o social não discursivo constitui a instituição, ou seja, são comportamentos equipados de certa coerção que são aprendidos e, portanto, naturalmente praticados (revelando-se discursivos) (Foucault, 2014Foucault, M. (2014). Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra.).

Assim, as estratégias de poder funcionam por se amparar ou se tornar sujeições, sendo que o dispositivo torna-se um regime de ordem para o social. No dispositivo, portanto, está a condição para o estabelecimento das verdades, os modos de pertencimento e as ações de sujeitos; o dispositivo engloba todos “os elementos que intervieram em uma racionalidade” (Foucault, 2014Foucault, M. (2014). Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra., p. 246). Chignola (2014Chignola, S. (2014). Sobre o dispositivo: Foucault, Agamben, Deleuze. Cadernos IHU Ideias, 12(214), 3-17. ) comenta que o dispositivo foucaultiano é analisado por Deleuze como a forma pela qual a multiplicidade se realiza segundo a característica de uma singularidade. A cartografia plural de forças forma um diagrama como uma multiplicidade no tempo-espaço, extensivo a todo o social e formado por alianças flexíveis e transversais (Deleuze, 2005Deleuze, G. (2005). Foucault. São Paulo: Brasiliense.), estabelecendo as relações poder-saber e poder-resistência que se dão em seu interior.

Desse modo, o dispositivo é essencial para o exercício da disciplina, pois possibilita a criação do aparelho que faz ver e funcionar os efeitos de poder (Foucault, 2015Foucault, M. (2015). Vigiar e punir: nascimento da prisão. Petrópolis: Vozes.). A noção de dispositivo como um regime de forças disciplinar foi construída na obra Vigiar e Punir, quando Foucault trabalhou o Panóptico como um dispositivo. Deleuze (2005Deleuze, G. (2005). Foucault. São Paulo: Brasiliense.) analisa que houve um aprofundamento nesse estudo da dimensão do visível, lembra a importância da diferença de natureza que existe entre o saber (forma) e o poder (força), das capturas e imanência mútuas e do primado de um (poder) sobre o outro (saber). Isso porque, para Foucault (2015)Foucault, M. (2015). Vigiar e punir: nascimento da prisão. Petrópolis: Vozes., o dispositivo se constitui e mantém graças a um processo de sobre determinação funcional, em que os efeitos produzidos pelo poder sofrem rearticulação constante para seu ajustamento e para o permanente preenchimento estratégico.

Deleuze (2005Deleuze, G. (2005). Foucault. São Paulo: Brasiliense.) sinaliza o entendimento de Foucault de que vivemos continuamente presos a dispositivos, mas que, em seu interior, atuamos assinalando o que já não somos e elaborando o que queremos ser. No pensamento foucaultiano, os modos de se reconhecer e dirigir em determinada relação de forças é ser sujeito. Assim, ser sujeito envolve sujeitar-se a, mas sujeitar-se não significa deixar-se dominar, uma vez que em termos foucaultianos dominação não é poder. Ou seja, sujeito, para Foucault, é “uma linha de chegada de uma tensão constituinte que utiliza uma força ... e olha para o Eu como um alvo de um arqueiro” (Chignola, 2014Chignola, S. (2014). Sobre o dispositivo: Foucault, Agamben, Deleuze. Cadernos IHU Ideias, 12(214), 3-17. , p. 10).

Por sua vez, quando Foucault (2008Foucault, M. (2008). Nascimento da biopolítica: curso dado no Còllege de France (1978-1979). São Paulo: Martins Fontes.) analisou as práticas do neoliberalismo e a consolidação do sistema capitalista, apontou como característico do poder na sociedade moderna o ajuste que se estabeleceu entre a população enquanto corpo vivente e os processos econômicos. Segundo ele, desde esse período, a vida tornou-se objeto de controle do saber e das intervenções do poder, e esse sistema delineou o surgimento de uma forma-sujeito considerada como máquina produtiva de fluxos de renda. Para o filósofo, o poder sobre a vida é entendido como biopoder, e toda a tecnologia de poder operada sobre a vida e os corpos da população é biopolítica. Assim, o biopoder associado à biopolítica tornou hegemônico o modelo capitalista; nesse os agentes acontecem sob a lógica produtivo-econômica do capital.

A Era da Convergência Midiática e a Geração Millenials

Houve um tempo em que gostar de ficções e lê-las em demasia já foi entendido como uma qualidade depreciativa. Dom Quixote, sucesso editorial lançado em 1605, retratou o medo social de se afastar da racionalidade iluminista e deixar-se dominar pelo mundo da fantasia, estabelecendo inovações na relação entre linguagem e mundo (Dias, 2016Dias, L. F. F. (2016). Epistemologia barroca de triste figura: Dom Quixote como exemplo da transformação da epistèmê do século XVII a partir de As Palavras e as Coisas de Foucault. Ideias, 7(1), 271-292. ). Hoje, muito se discute acerca do fã e de seu comportamento: suas atitudes tipicamente geracionais, suas lutas por meio do consumo, seu trabalho não remunerado etc. Contudo, as particularidades que costumam chamar mais a atenção ainda são sua afeição, seu apego e sua fidelidade ao cânone, tido como excessivos.

Por sua vez, cada vez mais numerosos e atuantes, os fãs mostram-se orgulhosos de sua condição (Amaral et al., 2015Amaral, A., Souza, R. V., & Monteiro, C. (2015). “De westeros no #vemprarua à shippagem do beijo gay na TV brasileira”. Ativismo de fãs: conceitos, resistências e práticas na cultura digital [Versão eletrônica], Galáxia, (29), 141-154. Recuperado de http://www.scielo.br/pdf/gal/n29/1982-2553-gal-29-0141.pdf. http://dx.doi.org/10.1590/1982-25542015120250
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). Como consumidores particulares, esses agentes se mobilizam, produzem e influenciam comportamentos por meio de experiências de consumo (Redden & Steiner, 2000Redden, J., & Steiner, C. J. (2000). Fanatical consumers: towards a framework for research. Journal of Consumer Marketing, 17(4), 322-337. http://dx.doi.org/10.1108/07363760010335349
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; Thorne & Bruner, 2006Thorne, S., & Bruner, G. C. (2006). An exploratory investigation of the characteristics of consumer fanaticism. Qualitative Market Research, 9(1), 51-72. http://dx.doi.org/10.1108/13522750610640558
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), devendo ser analisados como sujeitos potencialmente transgressores de vários saberes tradicionais (Jenkins, 2009Jenkins, H. (2009). Cultura da convergência: a colisão entre os velhos e os novos meios de comunicação. São Paulo: Ed. Aleph.).

Por sua condição própria de acesso à vasta plataforma de opções de entretenimento, os fãs fazem parte de uma geração estreitamente envolvida com a cultura pop (Chaves, 2012Chaves, S. N. (2012). História da ciência através do cinema: dispositivo pedagógico na formação de professores de ciências. Alexandria Revista de Educação em Ciência e Tecnologia, 5(2), 83-93. ), e habituada a solucionar problemas utilizando os meios digitais (McCorkindale et al., 2013McCorkindale, T., DiStaso, M. W., & Sisco, H. F. (2013). How millennials are engaging and building relationships with organizations on facebook. The Journal of Social Media in Society, 2(1), 66-87.; Myers & Sadaghiani, 2010Myers, K. K., & Sadaghiani, K. (2010). Millennials in the workplace: a communication perspective on millennials organizational relationships and performance [Eletronic Version]. Journal of Business and Psychology, 25(2), 225-238. Retrieved from http://link.springer.com/article/10.1007/s10869-010-9172-7. http://dx.doi.org/10.1007/s10869-010-9172-7
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), apoiando-se no conteúdo dos produtos para produzir seus mundos (Jenkins, 2009Jenkins, H. (2009). Cultura da convergência: a colisão entre os velhos e os novos meios de comunicação. São Paulo: Ed. Aleph.). Consumidores digitais naturalmente geram grandes quantidades de conteúdo juntamente a uma massa de informações sobre si mesmos, e esses dados nutrem o sistema capitalista (Charitsis, 2016Charitsis, V. (2016). Prosuming (the) self. Ephemera: Theory & Politics in Organization, 16(3), 37-59. ).

Talvez por isso, para alguns autores, o ambiente digital naturalizou a cultura do trabalho voluntário e colaborativo (Charitsis, 2016Charitsis, V. (2016). Prosuming (the) self. Ephemera: Theory & Politics in Organization, 16(3), 37-59. ). O consumidor produtor assume naturalmente parte dos trabalhos de divulgação e promoção de produtos e serviços que antes eram resultados apenas de serviços profissionais contratados pelas organizações. Entretanto, agem com o mesmo afinco quando é o caso de fazerem críticas em situações de insatisfação com a forma como as organizações lidam com os produtos de que são fãs. Sendo assim, seu trabalho tanto pode aumentar e manter o interesse público por produtos por mais tempo, como levá-los a um desempenho mercadológico insatisfatório, o que tem implicações, positivas ou negativas, na lucratividade das organizações (Matias, Silveira, & Brandão, 2015Matias, A. P., Silveira, R. B., & Brandão, M. M. (2015). Envolvimento do consumidor no processo de desenvolvimento de produtos como medida de sucesso: um estudo com empresas participantes dos prêmios FINEP e Nacional de Inovação. Revista de Administração e Inovação, 12(1), 174-200. http://dx.doi.org/10.11606/rai.v12i1.100321
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; McCorkindale et al., 2013McCorkindale, T., DiStaso, M. W., & Sisco, H. F. (2013). How millennials are engaging and building relationships with organizations on facebook. The Journal of Social Media in Society, 2(1), 66-87.; Myers & Sadaghiani, 2010Myers, K. K., & Sadaghiani, K. (2010). Millennials in the workplace: a communication perspective on millennials organizational relationships and performance [Eletronic Version]. Journal of Business and Psychology, 25(2), 225-238. Retrieved from http://link.springer.com/article/10.1007/s10869-010-9172-7. http://dx.doi.org/10.1007/s10869-010-9172-7
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).

Considerado uma atividade prazerosa e divertida, esse trabalho é comumente entendido como dispensado de remuneração. Contudo, embora não remunerado financeiramente, tem um enorme valor para constituição do fã como sujeito social. Jenkins (2009Jenkins, H. (2009). Cultura da convergência: a colisão entre os velhos e os novos meios de comunicação. São Paulo: Ed. Aleph.) analisa como a racionalidade proveniente desse trabalho adquiriu os moldes de uma economia, pois a capacidade de compartilhar interesses, desenvolver redes, criar cultura e institucionalizar a comunidade, implica que se desenvolvam, para além do ativismo político, os laços constituintes de uma inteligência afetiva vital para manter o envolvimento e a própria atividade acontecendo. Evidentemente, a indústria reconhece o potencial valor financeiro de tal trabalho e estabelece contato com os agentes para distribuir suas informações (Chin, 2014Chin, B. (2014). Sherlockology and Galactica.tv: fan sites as gifts or exploited labor? Transformative Works and Cultures, (15). http://dx.doi.org/10.3983/twc.2014.0513
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).

Entretanto, o estigma que carrega o trabalho gratuito provém também de uma perspectiva de pensamento hegemônico, fundamentada historicamente: o trabalho só é legitimado pelo pagamento e adquire status pelo valor que lhe é atribuído. Chertkovskaya e Loacker (2016Chertkovskaya, E., & Loacker, B. (2016). Work and consumption: entangled. Ephemera: Theory & Politics in Organization , 16(3), 1-20.) analisam que a subsunção da vida ao trabalho foi fundamental para a reprodução material e simbólica do sistema capitalista, mas entendem que as esferas da produção e do consumo convivem entrelaçadas, e, em sua interdependência, são responsáveis por organizar condições da vida social. O reconhecimento do consumo como um meio de subsistência (Redd, 2016Redd, D. S. (2016). Work without labor: consumption and the imagination of work futures in India. Ephemera: Theory & Politics in Organization, 16(3), 21-35. ) parece ter afetado as subjetividades moldadas na forma-trabalho convencional, ficando cada vez mais difícil identificar e separar trabalho e consumo da própria vida (Hoedemaekers, 2016Hoedemaekers, C. (2016). “Work hard, play hard”: Fantasies of nihilism and hedonism between work and consumption. Ephemera: Theory & Politics in Organization , 16(3), 61-94.).

As práticas de consumo que contribuem com o processo de produção são estudadas como trabalho no consumo, ou consumo produtivo (Chertkovskaya & Loacker, 2016Chertkovskaya, E., & Loacker, B. (2016). Work and consumption: entangled. Ephemera: Theory & Politics in Organization , 16(3), 1-20.; Fontenelle, 2015Fontenelle, I. A. (2015). Organisations as producers of consumers. Organization, 22(5), 644-660. http://dx.doi.org/10.1177/1350508415585029
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). A gestão do processo organizativo dos fandoms pauta-se num trabalho afetivo de fãs, constituinte de identidades e subjetividades no consumo. No trabalho realizado nos fandoms, os fãs ganham confiança e habilidades para lidar com os problemas de seu cotidiano (Jenkins, 2009Jenkins, H. (2009). Cultura da convergência: a colisão entre os velhos e os novos meios de comunicação. São Paulo: Ed. Aleph.). Ao gerir esse modo organizativo produzindo cultura, os fãs constroem entendimentos que lhes dão suporte para ocupar os papéis sociais no cotidiano dos demais espaços sociais que habitam (Korobkova & Black, 2014Korobkova, K. A., & Black, R. W. (2014). Contrasting visions: identity, literacy, and boundary work in a fan community. E-Learning and Digital Media, 11(6), 619-632. http://dx.doi.org/10.2304/elea.2014.11.6.619
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). Nessa vida contemporânea organizada, cabe aos fãs gerir esse espaço e manterem-se nele. Carrieri (2014Carrieri, A. P., Souza, E. M. S., & Aguiar, A. R. C. (2014). Trabalho, violência e sexualidade: estudo de lésbicas, travestis e transexuais. Revista de Administração Contemporânea, 18(1), 78-95. Recuperado de http://www.scielo.br/pdf/rac/v18n1/a06v18n1.pdf. http://dx.doi.org/10.1590/S1415-65552014000100006
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) elucida que os processos organizativos ordinários atuam interligados em rede com outros dispositivos sociais, e que desvelar os saberes que são aí produzidos permite pensar criticamente acerca dos inúmeros modos de realização no espaço social.

O apoio no ferramental analítico do dispositivo possibilita revelar as circunstâncias específicas sob as quais uma organização se realiza, bem como suas dinâmicas próprias; essa analítica busca exatamente esclarecer como objetos, práticas e experiências tidas como verdadeiras surgiram pela interação entre dispositivos (Raffnsøe et al., 2016Raffnsøe, S., Gudmand-Høyer, M., & Thaning, M. S. (2016). Foucault’s dispositive: the perspicacity of dispositive analytics in organizational research. Organization , 23(2), 272-298. http://dx.doi.org/10.1177/1350508414549885
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). Os autores avaliam que, para realizar uma análise a partir de um dispositivo deve-se, por exemplo, questionar dicotomias, confrontar concepções históricas ou periodizações generalistas e não considerar que um dispositivo possa ser subordinado ou redutível a outro. Segundo os autores, no original, o termo dispositif significa a descrição de um arranjo desenvolvido para um propósito específico e projetado para ter um efeito imediato, sendo caracterizado por uma predisposição ou plano segundo o qual elementos heterogêneos estão se organizando em determinado aparelho social, pois sua natureza é relacional.

Gestão Ordinária: Um Dispositivo Particular

Apenas na década de 1980, os estudos organizacionais brasileiros investiram com mais força nas análises críticas focadas no poder e nas mudanças organizacionais (Marshak & Grant, 2008Marshak, R. J., & Grant, D. (2008). Organization al discourse and new organization development practices. British Journal of Management, 19(1), S7-S19. http://dx.doi.org/10.1111/j.1467-8551.2008.00567
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), interesse que abriu espaço para o apoio de pesquisadores na obra de Michel Foucault, que, por sua vez, fortaleceu pesquisas centradas em práticas e processos organizativos (Caldwell, 2007Caldwell, R. (2007). Agency and change: re-evaluating Foucault's legacy. Organization, 14(6), 769-791. http://dx.doi.org/10.1177/1350508407082262
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). Essa linha de pensamento pós-estruturalista (vide Souza, 2012Souza, E. M. (2012). Pós-modernidade nos estudos organizacionais: equívocos, antagonismos e dilemas. Cadernos Ebape.BR, 10(2), 270-283. http://dx.doi.org/10.1590/S1679-39512012000200003
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) entende as organizações como espaços políticos de lutas, em que os jogos de poder assumem uma importância central (Marshak & Grant, 2008Marshak, R. J., & Grant, D. (2008). Organization al discourse and new organization development practices. British Journal of Management, 19(1), S7-S19. http://dx.doi.org/10.1111/j.1467-8551.2008.00567
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). Nesse entendimento, o campo organizacional é político (Souza et al., 2006Souza, E. M. (2012). Pós-modernidade nos estudos organizacionais: equívocos, antagonismos e dilemas. Cadernos Ebape.BR, 10(2), 270-283. http://dx.doi.org/10.1590/S1679-39512012000200003
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), e a gestão é um mecanismo para a ação do poder (Carrieri, 2014Carrieri, A. P., Souza, E. M. S., & Aguiar, A. R. C. (2014). Trabalho, violência e sexualidade: estudo de lésbicas, travestis e transexuais. Revista de Administração Contemporânea, 18(1), 78-95. Recuperado de http://www.scielo.br/pdf/rac/v18n1/a06v18n1.pdf. http://dx.doi.org/10.1590/S1415-65552014000100006
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). Além disso, organizações não possuem fronteiras definidas, existindo como resultantes do seu contínuo processo organizativo (Duarte & Alcadipani, 2016Duarte, M. F., & Alcadipani, R. (2016). Contribuições do organizar (organizing) para os estudos organizacionais. Organização & Sociedade, 23(76), 57-72. http://dx.doi.org/10.1590/1984-9230763
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).

Assim, visando questionar a instrumentalização e descontruir a retórica gerencial, o apoio no pensamento foucaultiano desloca o olhar do pesquisador de contextos legitimados. Se Afastar-se da visão hegemônica de organização é, portanto, analisar outras experiências organizativas, fugindo da instrumentalização dos jogos do saber-poder (Carrieri et al., 2014Carrieri, A. P., Souza, E. M. S., & Aguiar, A. R. C. (2014). Trabalho, violência e sexualidade: estudo de lésbicas, travestis e transexuais. Revista de Administração Contemporânea, 18(1), 78-95. Recuperado de http://www.scielo.br/pdf/rac/v18n1/a06v18n1.pdf. http://dx.doi.org/10.1590/S1415-65552014000100006
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). Entendendo que organizar é uma realização contínua (Cooren, Kuhn, Cornelissen, & Clark, 2011Cooren, F., Kuhn, T., Cornelissen, J. P., & Clark, T. (2011). Communication, organizing and organization: an overview and introduction to the special issue. Organization Studies, 32(9), 1149-1170. http://dx.doi.org/10.1177/0170840611410836
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), estudos buscam perceber como processos organizativos constroem significados e identidades (Oliveira & Cavedon, 2013Oliveira, J. S., & Cavedon, N. R. (2013). Micropolíticas das práticas cotidianas: etnografando uma organização circense. Revista de Administração de Empresas , 53(2), 156-168. http://dx.doi.org/10.1590/S0034-75902013000200004
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), como reproduzem estruturas, como as confrontam (Barros & Carrieri, 2015Barros, A., & Carrieri, A. P. (2015). O cotidiano e a história: construindo novos olhares na Administração. Revista de Administração de Empresas, 55(2), 151-161. http://dx.doi.org/10.1590/S0034-759020150205
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) e transformam (Sampaio, Fortunato, & Bastos, 2013Sampaio, I. C., Fortunato, G., & Bastos, S. A. P. (2013). A estratégia como prática social: o pensar e o agir em um programa social governamental. Organização & Sociedade , 20(66), 479-499. http://dx.doi.org/10.1590/S1984-92302013000300007
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). Tal visão foca o cotidiano dos sujeitos (organização caracterizada como vida organizada), os saberes [des]qualificados de cientificidade satisfatória (Carrieri, 2014Carrieri, A. P., Perdigão, D. A., & Aguiar, A. R. C. (2014). A gestão ordinária dos pequenos negócios: outro olhar sobre a gestão em estudos organizacionais. Revista de Administração, 49(4), 698-713. http://dx.doi.org/10.5700/rausp1178
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), e o tempo presente para resgatar sua historicidade, interessando-se por descontinuidades e dando voz aos excluídos (Carrieri, Souza, & Aguiar, 2014Carrieri, A. P., Perdigão, D. A., & Aguiar, A. R. C. (2014). A gestão ordinária dos pequenos negócios: outro olhar sobre a gestão em estudos organizacionais. Revista de Administração, 49(4), 698-713. http://dx.doi.org/10.5700/rausp1178
http://dx.doi.org/10.5700/rausp1178...
).

Entender que a relação pode-saber de modo interdependente e não dicotômico potencializa o pensamento crítico, pois não sujeita este pensamento a hierarquias e ordens discursivas (Geppert, Becker-Ritterspach, & Mudambi, 2016Geppert, M., Becker-Ritterspach, F., & Mudambi, R. (2016). Politics and power in multinational companies: integrating the international business and organization studies perspectives. Organization Studies , 37(9), 1209-1225. http://dx.doi.org/10.1177/0170840616656152
http://dx.doi.org/10.1177/01708406166561...
). Do mesmo modo, a relação poder-resistência é entendida como uma relação coconstitutiva em que o processo é visto como transgressivo e dinamizador da ordem social (Caughlan, 2005Caughlan, S. (2005). Considering pastoral power: a commentary on Aaron Schutz's "Rethinking domination and resistance: challenging postmodernism". Educational Researcher, 34(2), 14-16. http://dx.doi.org/10.3102/0013189X034002014
http://dx.doi.org/10.3102/0013189X034002...
; Collinson, 2006Collinson, D. (2006). Rethinking followership: a post-structuralist analysis of follower identities. The Leadership Quarterly, 17(2), 179-189. http://dx.doi.org/10.1016/j.leaqua.2005.12.005
http://dx.doi.org/10.1016/j.leaqua.2005....
; Courpasson, Dany, & Martí, 2016Courpasson, D., Dany, F., & Martí, I. (2016). Organizational entrepreneusshio as active resistance: a struggle against outsourcing. Entrepreneurship Theory and Practice, 40(1), 131-160. http://dx.doi.org/10.1111/etap.12109
http://dx.doi.org/10.1111/etap.12109...
; Hardt & Thomas, 2014Hardt, C., & Thomas, R. (2014). Discourse in a material world. Journal of Management Studies, 52(5), 680-696. http://dx.doi.org/10.1111/joms.12113
http://dx.doi.org/10.1111/joms.12113...
; Raffnsøe et al., 2016Raffnsøe, S., Gudmand-Høyer, M., & Thaning, M. S. (2016). Foucault’s dispositive: the perspicacity of dispositive analytics in organizational research. Organization , 23(2), 272-298. http://dx.doi.org/10.1177/1350508414549885
http://dx.doi.org/10.1177/13505084145498...
; Thomas et al., 2011Thomas, R., Sargent, L., & Hardy, C. (2011). Managing change: negotiating meaning and power-resistance relations. Organization Science, 22(1), 22-41. http://dx.doi.org/10.1287/orsc.1090.0520
http://dx.doi.org/10.1287/orsc.1090.0520...
). Essa linha de pensamento entende o conceito de gestão também num sentido amplo, não reducionista do termo (uso formal, apenas aplicado em processos de organizações tradicionais). Gestão engloba toda ação efetuada por sujeitos para gerir a vida cotidiana, sendo atravessada por outras construções, uma vez que os indivíduos sofrem múltiplas interferências no ambiente interno e externo às organizações, estando o cotidiano imbricado por questões políticas. Assim, sendo categorias políticas, modos de gestão ganham forma estreitamente inter-relacionadas nos espaços sociais (Carrieri, 2014Carrieri, A. P., Souza, E. M. S., & Aguiar, A. R. C. (2014). Trabalho, violência e sexualidade: estudo de lésbicas, travestis e transexuais. Revista de Administração Contemporânea, 18(1), 78-95. Recuperado de http://www.scielo.br/pdf/rac/v18n1/a06v18n1.pdf. http://dx.doi.org/10.1590/S1415-65552014000100006
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).

Nesse sentido, Carrieri (2014Carrieri, A. P., Souza, E. M. S., & Aguiar, A. R. C. (2014). Trabalho, violência e sexualidade: estudo de lésbicas, travestis e transexuais. Revista de Administração Contemporânea, 18(1), 78-95. Recuperado de http://www.scielo.br/pdf/rac/v18n1/a06v18n1.pdf. http://dx.doi.org/10.1590/S1415-65552014000100006
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) vem desenvolvendo o conceito de Gestão Ordinária, e a entende como aquela “desenvolvida no cotidiano dos negócios, da vida organizada” (p. 25). Para o autor, o cotidiano é uma produção que surge a partir das práticas dos indivíduos em seu dia a dia e a gestão, como um mecanismo de poder, é uma categoria central do universo organizacional capaz de articular todas as outras categorias. O autor afirma que as relações sociais estão em constante jogo para a gestão do cotidiano, sendo esse espaço constituído pelos modos de fazer, criar e/ou desviar de formas hegemônicas. Ele denomina de vida organizada as múltiplas relações que se dão para a construção e a reprodução da vida em sociedade. Considera a Vida organizada como uma vida arranjada de uma dada forma (capitalista), sendo sua construção histórica e determinada. Abraçar tal conceito lhe permite partir de uma concepção desnaturalizada de sociedade e de organização.

Assim, o pensamento foucaultiano possibilita a análise de fenômenos em gestão por meio da interdependência constitutiva da relação saber-poder (produtora de verdades, sujeitos e da própria realidade), sendo o poder veiculado por dispositivos (Carrieri, 2014Carrieri, A. P., Souza, E. M. S., & Aguiar, A. R. C. (2014). Trabalho, violência e sexualidade: estudo de lésbicas, travestis e transexuais. Revista de Administração Contemporânea, 18(1), 78-95. Recuperado de http://www.scielo.br/pdf/rac/v18n1/a06v18n1.pdf. http://dx.doi.org/10.1590/S1415-65552014000100006
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; Souza et al., 2005Souza, E. M., Bianco, M. F., & Machado, L. D. (2005, setembro). As discursividades organizacionais sob a ótica foucaultiana. Anais do Encontro Nacional da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Administração, Brasília, DF, Brasil, 29.). A partir desse pensamento, Carrieri (2014) analisa que processos organizativos funcionam como um tipo de dispositivo, tornando sua gestão particular uma ferramenta para o exercício de poder.

Com base nessas argumentações, assumimos o fandom como uma instância de vida organizada, cortada por uma rede de forças e estabelecida pela ação de dispositivos que lhe propiciam um regime de ordem baseado na estruturação de saberes. Assim, a gestão desse espaço aconteceria pela dinâmica do exercício do poder e da resistência, que rearticula seus efeitos e os ajusta para seu constante preenchimento estratégico com novos saberes. Ou seja, entender o fandom como organização e fãs como consumidores produtores, possibilita investigar como agentes e dinâmicas transformam produtos, padrões de consumo e processos de gestão num ambiente caracterizado por novas tensões entre consumidores e ofertantes de produtos e serviços (Jones et al., 2016Jones, C., Svejenova, Pedersen, J. S., & Townley, B. (2016). Misfits, mavericks and mainstreams: drivers of innovation in the creative industries. Organization Studies , 37(6), 751-768. http://dx.doi.org/10.1177/0170840616647671
http://dx.doi.org/10.1177/01708406166476...
).

Procedimentos Metodológicos

A decisão por certo grau de indução na nossa pesquisa nos manteve receptivos a descobertas no campo empírico (Leão, Mello, & Vieira, 2009Leão, A. L. M. S., Mello, S. C. B., & Vieira, R. S. G. (2009). O papel da teoria no método de pesquisa em Administração. Organizações em Contexto, 5(10), 1-16. http://dx.doi.org/10.15603/1982-8756
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; Paiva, Leão, & Mello, 2011Paiva, F. G., Jr., Leão, A. L. M. de S., & Mello, S. C. B. de (2011). Validade e confiabilidade na pesquisa qualitativa em Administração. Revista de Ciências da Administração, 13(31), 190-209. http://dx.doi.org/10.5007/2175-8077.2011v13n31p190
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). Nossas categorias analíticas foram produzidas no decorrer de uma análise sistemática efetuada no processo de coleta e volta aos dados, efetuado em paralelo às leituras da fundamentação teórica que embasou este estudo.

A análise de discursos é uma abordagem já estabelecida em disciplinas de ciências sociais (Feltham-King & Macleod, 2016Feltham-King, T., & Macleod, C. (2016). How content analysis may complement and extend the insights of discourse analysis: an example of research on constructions of abortion in South African Newspapers 1978-2005 [Special Issue]. International Journal of Qualitative Methods, 1-9. http://dx.doi.org/10.1177/1609406915624575
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; Greckhamer & Cilesiz, 2014Greckhamer, T., & Cilesiz, S. (2014). Rigor, transparency, evidence, and representation in discourse analysis: challenges and recommendations. International Journal of Qualitative Methods , 13(1), 422-443. http://dx.doi.org/10.1177/160940691401300123
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). Aqui empregamos a Análise de Discursos Foucaultiana. Esta revela e descreve as regras que regulam os discursos, entendendo como elas constroem os objetos de que tratam (Feltham-King & Macleod, 2016Feltham-King, T., & Macleod, C. (2016). How content analysis may complement and extend the insights of discourse analysis: an example of research on constructions of abortion in South African Newspapers 1978-2005 [Special Issue]. International Journal of Qualitative Methods, 1-9. http://dx.doi.org/10.1177/1609406915624575
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; Souza, Bianco, & Silva, 2016Souza, E. M., Bianco, M. F., & Silva, P. O. M. (2016). Análise arqueológica das estratégias utilizadas por homossexuais no trabalho bancário. Farol - Revistas de Estudos Organizacionais e Sociedade , 3(6), 12-59. ). Tal ordem reflete as relações que cercam uma experiência em um tempo e um espaço, desvelando saberes (Foucault, 2012Foucault, M. (2012). A arqueologia do saber. Rio de Janeiro: Forense Universitária.). Adamson (2016Adamson, M. (2016). Postfeminism, neoliberalism and a ‘successfully’ balanced femininity in celebrity CEO autobiographies [Special Issue]. Gender, Work & Organization, 24(3), 213-327. http://dx.doi.org/10.1111/gwao.12167
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) esclarece que a não existência de uma metodologia para essa analítica está em conformidade com os pressupostos do pensamento foucaultiano. Assim, considerando que a analítica foucaultiana se refere a um método filosófico e que a utilizamos como um método de pesquisa social, adotamos as categorias discursivas trabalhadas por Michel Foucault na obra Arqueologia do Saber. Então, procedemos primeiro à identificação dos enunciados, seguido das funções que possuem no contexto discursivo e das regras que essas relações indicam obedecer, as quais, finalmente, apontam para a formação discursiva.

Para Foucault (2012Foucault, M. (2012). A arqueologia do saber. Rio de Janeiro: Forense Universitária.), como os enunciados são um feixe de relações, precisam ser pesquisados a partir de posições de sujeitos em frações de saberes, em estratos discursivos associados ou em concretudes indicativas de regularidades que marquem descontinuidades. As funções indicam as operações estratégicas que os saberes assumem no cenário discursivo, portanto, são reveladas a partir de uma operação de decifração. Para essa etapa, pistas elucidativas surgem da relação entre si estabelecida pelos enunciados. Da mesma forma que enunciados estão ligados a suas funções, as regras existem como base das formações, regulando os atos discursivos. Assim, para Foucault (2012)Foucault, M. (2012). A arqueologia do saber. Rio de Janeiro: Forense Universitária., a regra informa a condição a que estão submetidos os elementos na rede discursiva e a formação aparece como uma regularidade “entre objetos, tipos de enunciação, os conceitos, as escolhas temáticas” (p. 43). O autor (Foucault, 2012Foucault, M. (2012). A arqueologia do saber. Rio de Janeiro: Forense Universitária.) analisa que as regras surgem a partir de quatro critérios: objetos, conceitos, modalidades e estratégias.

Ao identificarmos a relação dos enunciados entre si, dois tipos de relações apareceram: as relações que chamamos de síncronas, e que se referem aos enunciados que se apoiam e explicam mutuamente, e as relações incidentes, que indicam enunciados que explicam outros. Essa etapa nos forneceu fundamento para elucidar as funções enunciativas. Na sequência, para cada relação enunciado-função identificada em nossa análise, procedemos aos questionamentos: (a) Como cada prática constitui um objeto, de que objeto se tratou?; (b) O que se diz sobre o objeto, compreendendo que o conceito surge de regularidades?; (c) A partir de que lugar e de que modo o objeto foi tratado, tendo em vista a modalidade discursiva adotada?; (d) Qual a finalidade de se referir ao objeto por meio de um ethos, que estratégia se revela nesse intuito? A consistência dessa relação apontou a regularidade que compôs a formação discursiva em nossa analítica.

Foucault (2012Foucault, M. (2012). A arqueologia do saber. Rio de Janeiro: Forense Universitária.) nomina de arquivo o conjunto de dados coletado. O arquivo pode equivaler, de certa forma, ao conceito de corpus em pesquisa qualitativa. Sua diferença está no fato de que o arquivo comporta o saber: seu conjunto não pode ser pré-determinado, mas sua completude delimita o objeto e apura a questão de pesquisa. Já para o corpus, esse conjunto de materiais é finito, determinado a priori e arbitrariamente pelo pesquisador (Bauer & Aarts, 2010Bauer, M., & Aarts, B. (2010). A construção do corpus: um princípio para a coleta de dados qualitativos. In M. Bauer & G. Gaskel (Eds.), Pesquisa qualitativa com texto, imagem e som: um manual prático (pp. 39-63). Petropolis: Vozes. ).

Em conformidade com nosso problema de pesquisa, nosso arquivo foi formado com base nas práticas de potterheads. São as práticas que institucionalizam os discursos no meio social e, portanto, potencialmente revelam saberes (Foucault, 2012Foucault, M. (2012). A arqueologia do saber. Rio de Janeiro: Forense Universitária.). Nesse processo, identificamos um conjunto de vintes ações que se apresentaram habituais no cotidiano do fandom (Vide Tabela 1). Para defini-las, sistematizamos na coleta documentos virtuais contendo interações de fãs no fandom em variadas mídias sociais. Essas interações revelaram que os potterheads mantinham práticas habituais em seu relacionamento cotidiano. À medida em que as práticas foram delineadas, elas tornaram-se um critério para organização do arquivo, orientando a seleção de novos documentos. Seguindo Foucault (2012)Foucault, M. (2012). A arqueologia do saber. Rio de Janeiro: Forense Universitária., a construção do arquivo faz parte da analítica. Nessa etapa, refina-se a questão investigativa e delimita-se o objeto.

Tabela 1
Práticas de Potterheads

O arquivo foi formado por 593 documentos, 313 na língua inglesa e 280 na língua portuguesa, uma vez que esse espaço não é delimitado por fronteiras geográficas. Desse conjunto, 67 documentos eram vídeos e foram coletados na plataforma YouTube; os demais documentos foram no formato de imagens e textos, e coletados nos canais Facebook, Twitter, Tumblr, Instagram, Snapchat, Ask.fm, Yahoo Answer, Share Question, Qzone e Whisper, blogs e websites. O critério estabelecido para a seleção desses documentos foi que contivessem a fala de potterheads e que contemplassem alguma de suas práticas rotineiras. Para a seleção dessas mídias, bem como para uma contribuição validativa no reconhecimento das práticas, lançamos mão das informações de dois potterheads. Sua função foi puramente consultiva uma vez se tratarem de nativos desse universo, não se configurando como sujeitos participantes da pesquisa. O arquivo foi assim composto por dados multifociais, fazendo jus à complexidade do objeto (Flick, 2009Flick, U. (2009). Introdução à pesquisa qualitativa. Porto Alegre: Bookman/Artmed.).

Em todo o processo buscamos atender aos critérios de qualidade da pesquisa qualitativa. O rigor em pesquisas qualitativas é validado por critérios próprios de validade e confiabilidade, que devem ser definidos durante a elaboração do projeto da pesquisa e implementados com rigor durante processo (Elo et al., 2014Elo, S., Kääriäinen, M., Kanste, O., Pölkki, T., Utriainen, K., & Kyngäs, H. (2014). Qualitative content analysis: a focus on trustworthiness. SAGE Publications in SAGE Open, 4, 1-10. http://dx.doi.org/10.1177/2158244014522633
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; Morse, Barrett, Mayan, Olson & Spiers, 2002Morse, J. M., Barrett, M., Mayan, M., Olson, K., & Spiers, J. (2002). Verification strategies for establishing reliability and validity in qualitative research. International Journal of Qualitative Methods , 1(2), 13-22. http://dx.doi.org/10.1177/160940690200100202
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). Os diferentes tipos de dados coletados, por meio de diferentes fontes, serviram como uma forma de atribuir uma representatividade do corpus de pesquisa. Uma triangulação dos dados se deu por uma dupla camada analítica: os dados foram primeiramente analisados por um dos autores e, posteriormente, tal procedimento analítico foi validado pelo outro. Por sua vez, exercitamos a reflexividade por meio dos constantes questionamentos, no processo analítico, acerca das relações entre evidências empíricas e o corpo teórico. Por fim, apesar do espaço limitado para a elaboração do artigo, buscamos apresentar uma descrição rica e detalhada da pesquisa (Paiva et al., 2011Paiva, F. G., Jr., Leão, A. L. M. de S., & Mello, S. C. B. de (2011). Validade e confiabilidade na pesquisa qualitativa em Administração. Revista de Ciências da Administração, 13(31), 190-209. http://dx.doi.org/10.5007/2175-8077.2011v13n31p190
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).

Análise dos Resultados

A formação enunciativa identificada é apresentada a partir de suas regras, de forma articulada com os conceitos teóricos e embasada em dados empíricos. Antes, porém, apresentamos seus elementos constituintes.

Elementos da formação discursiva

Nossa análise revelou 12 enunciados, 12 funções e 2 regras de formação. Os enunciados (Tabela 2) foram nomeados por meio de proposições afirmativas, no intuito de esclarecer seu sentido no cenário discursivo. A Tabela 3 descreve as funções enunciativas. Para nomeá-las, empregamos verbos no infinitivo, esclarecendo a ação dos enunciados a elas vinculados. Na Tabela 4, os critérios de regra: objetos, conceitos e modalidades foram nomeados por meio de substantivos, e as estratégias foram descritas por meio de locuções substantivas.

Tabela 2
Enunciados

Tabela 3
Funções Enunciativas

Tabela 4
Critérios de Regras

As regras se relacionaram com os critérios da seguinte forma: (a) A prática organizativa dos potterheads adere aos saberes do cânone, e teve, por objeto: ordem; por conceito: regularidade; por modalidade: convicção; e por estratégia: força do hábito; (b) A prática organizativa dos potterheads resiste aos saberes do cânone, teve, por objeto: resistência; por conceito: adequação, por modalidade: criatividade, e, por estratégia: tática de luta.

A ordem do cânone é o aparelho disciplinar do processo organizativo dos potterheads

A formação discursiva apresentou-se ligada a duas regras de formação que surgiram da relação entre 12 enunciados e 12 funções enunciativas (vide Figura 1). A relação entre si estabelecida pelos enunciados evidenciou suas funções a partir da existência de dois grupos de significação no contexto discursivo: relações poder-saber e relações poder-resistência.

No grupo relativo às relações saber-poder em que dez enunciados dessa formação de algum modo se relacionaram, indicando a centralidade do enunciado de número 6, que sofreu incidência dos demais enunciados que o explicam. Entre esses enunciados, surgiu uma relação incidente: o enunciado 8 explicou o 7 e o 10, uma vez que os saberes do cânone são apropriados para a construção dos argumentos que visam estabelecer identificações e vínculos no fandom. Esse grupo de enunciados indica os modos pelos quais os potterheads produzem uma ordem a partir de um corpo de saberes (cânone). Na Figura 1, abaixo do grupo dos enunciados, as relações incidentes estão representadas por setas e as relações síncronas representadas por linhas.

Figura 1
Mapa das Relações da Formação Discursiva

O segundo grupo refere-se às relações poder-resistência, sendo composto pelas relações entre cinco enunciados e três funções. Nesse grupo, surgiu a centralidade do enunciado 7, que sofreu incidência dos enunciados 6, 9, 10, 11 e 12, indicando que é por meio de relações persuasivas que os potterheads organizam sua resistência. As relações de resistência se constituem sempre apoiadas no estabelecimento de vínculos, por meio da troca de conselhos e de apoio mútuo, e de ações persuasivas que são cuidadosamente argumentadas, inclusive sendo pautadas em identificações estabelecidas entre fãs. Nesse grupo, revelou-se também uma relação síncrona: os enunciados 9, 10 e 11 se explicam mutuamente, pois, para burlar e/ou questionar saberes do cânone, potterheads estabelecem identificações com outros integrantes, produzindo argumentos que justificam sua ação.

Esse segundo grupo de enunciados indica as formas pelas quais os potterheads desestabilizam e atualizam sua ordem de existência. Assim, o cânone (corpo de saberes) assume uma função disciplinar que possibilita a organização dos potterheads, pois funciona como um dispositivo e as práticas dos potterheads aderem e resistem a esse corpo de saberes numa dinâmica constitutiva de sua organização. A ordem de determinado espaço social é produzida por relações sociais que, segundo Carrieri (2014Carrieri, A. P., Souza, E. M. S., & Aguiar, A. R. C. (2014). Trabalho, violência e sexualidade: estudo de lésbicas, travestis e transexuais. Revista de Administração Contemporânea, 18(1), 78-95. Recuperado de http://www.scielo.br/pdf/rac/v18n1/a06v18n1.pdf. http://dx.doi.org/10.1590/S1415-65552014000100006
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), estão em constante atividade para gestão do cotidiano. Por sua vez, a gestão revelou-se uma prática política que acontece pela disciplina dos corpos, pois os potterheads precisam adotar para si, como valor, o corpo de saberes do cânone, podendo assim regular por meio dele a sua conduta e a do outro, produzindo cultura. Como afirmam Marshak e Grant (2008Marshak, R. J., & Grant, D. (2008). Organization al discourse and new organization development practices. British Journal of Management, 19(1), S7-S19. http://dx.doi.org/10.1111/j.1467-8551.2008.00567
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), a organização é um espaço político que se efetiva pelo contínuo organizar. Assim é por meio dispositivo (cânone) que todo um exercício de disciplina funciona (Foucault, 2014Foucault, M. (2014). Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra.), pois, em sua singularidade, o processo organizativo desenvolve o ferramental, que fez materializar os efeitos de poder, revelando a natureza relacional do dispositivo (Raffnsøe et al., 2016Raffnsøe, S., Gudmand-Høyer, M., & Thaning, M. S. (2016). Foucault’s dispositive: the perspicacity of dispositive analytics in organizational research. Organization , 23(2), 272-298. http://dx.doi.org/10.1177/1350508414549885
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).

Nesse sentido, as práticas dos potterheads revelaram atividades rotineiras ao cotidiano do fandom, essenciais para os que querem se inserir ou legitimar na posição de fãs. Agamben esclarece: o dispositivo funciona a partir da institucionalização adquirida por regras e rituais praticados (Chignola, 2014Chignola, S. (2014). Sobre o dispositivo: Foucault, Agamben, Deleuze. Cadernos IHU Ideias, 12(214), 3-17. ). O modo como esse corpo de saberes ordena a vida dos potterheads apareceu nas duas regras dessa formação: de um lado a institucionalização das práticas de ordem e de outro a sua desestabilização, que promove os ajustes e a dinamicidade dos sentidos ali acordados, pois as relações de resistência são constituintes do espaço que molda corpos, objetos e práticas (Hardt & Thomas, 2014Hardt, C., & Thomas, R. (2014). Discourse in a material world. Journal of Management Studies, 52(5), 680-696. http://dx.doi.org/10.1111/joms.12113
http://dx.doi.org/10.1111/joms.12113...
).

Por sua vez, as sociabilidades promovidas por meio desse dispositivo, levam para essas relações a lógica do capital. Para Chertkovskaya e Loacker (2016Chertkovskaya, E., & Loacker, B. (2016). Work and consumption: entangled. Ephemera: Theory & Politics in Organization , 16(3), 1-20.), o estabelecimento do capitalismo pós-industrial ou pós-fordista fez o mercado emergir como um princípio social regulativo central e, em um ambiente centrado no mercado e na produtividade, as ações dos sujeitos se voltam para a criação de valor. Charitsis (2016Charitsis, V. (2016). Prosuming (the) self. Ephemera: Theory & Politics in Organization, 16(3), 37-59. ) analisa que práticas cotidianas do consumidor da era digital costumam produzir valor econômico para as organizações, o que, acredita, vem transformando a própria vida em mercadoria. A organização dos potterheads produz os sujeitos promovendo o crescimento da indústria, endossando o sistema capitalista e revelando como a lógica de troca/lucro tornou-se uma lógica imanente às práticas sociais. A condição nos leva a entender que a ordem dos potterheads é biopolítica no sentido foucaultiano (Foucault, 2014Foucault, M. (2014). Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra.). Essa condição é transversal a todo corpo discursivo do arquivo, pois a existência biopolítica é própria dos modos de vida contemporâneos. E, como são relações saber-poder que nascem nesse meio e estabelecem verdades, as mesmas ditam a forma de pertencimento, de convivência e também a condição de agência dos sujeitos. Por outro lado, relações de poder suscitam as relações de resistência, relações essas que reconstroem a cultura e acomodam os modos de pertencimento, pois a resistência é parte das relações de poder (Caughlan, 2005Caughlan, S. (2005). Considering pastoral power: a commentary on Aaron Schutz's "Rethinking domination and resistance: challenging postmodernism". Educational Researcher, 34(2), 14-16. http://dx.doi.org/10.3102/0013189X034002014
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; Collinson, 2006Collinson, D. (2006). Rethinking followership: a post-structuralist analysis of follower identities. The Leadership Quarterly, 17(2), 179-189. http://dx.doi.org/10.1016/j.leaqua.2005.12.005
http://dx.doi.org/10.1016/j.leaqua.2005....
; Hardt & Thomas, 2014Hardt, C., & Thomas, R. (2014). Discourse in a material world. Journal of Management Studies, 52(5), 680-696. http://dx.doi.org/10.1111/joms.12113
http://dx.doi.org/10.1111/joms.12113...
; Raffnsøe et al., 2016Raffnsøe, S., Gudmand-Høyer, M., & Thaning, M. S. (2016). Foucault’s dispositive: the perspicacity of dispositive analytics in organizational research. Organization , 23(2), 272-298. http://dx.doi.org/10.1177/1350508414549885
http://dx.doi.org/10.1177/13505084145498...
) e os sujeitos são participantes ativos nesse processo (Välikangas & Seeck, 2011Välikangas, A., & Seeck, H. (2011). Exploring the foucauldian interpretation of power and subject in organizations. Journal of Management & Organization , 17(6), 812-827. http://dx.doi.org/10.1017/S183336720000119X
http://dx.doi.org/10.1017/S1833367200001...
).

A prática organizativa dos potterheads adere aos saberes do cânone

A relação entre as funções e os enunciados que elucidaram essa regra, revelaram que crenças, valores e verdades (a mola mestra da cultura) compõem a ordem dessa organização. As convicções são reforçadas ou reconstruídas na dinâmica das práticas dadas a partir dessa ordem, cuja regularidade aos poucos se torna hábito, conduzindo a conduta dos potterheads.

A relação entre saberes e funções indicou a reverência ao cânone como uma relação saber-poder central para a organização dos potterheads. Na relação de respeito a esse corpo de saberes, revelaram-se práticas estabelecedoras da ordem desse espaço social, tais como as promessas de amor e continuidade, e o hábito de partilhar informações, sentimentos e emoções. A gratidão, o apoio em saberes do cânone e a dedicação às várias práticas, como colecionar, reler os livros e rever a saga cinematográfica, constroem e reforçam os valores partilhados no fandom. A ordem envolve ainda a participação do potterhead no processo de seleção de casas, prática que o designará nesse espaço social pela assumpção de um perfil identitário.

Como o fandom se divide e funciona conforme a narrativa, o fã se filia ao mesmo participando do processo de seleção de casas. Na ficção, a escola de magia de Hogwarts se divide em quatro casas: Grifinória, Sonserina, Corvinal e Lufa-Lufa. Cada casa possui características particulares que definem seus membros. Assim, participar da seleção é a primeira prova que enfrenta o fã no fandom, é definitiva e só se passa por ela uma vez, tal como o é na trama ficcional. Apesar de existirem muitos testes na internet, a seleção oficial é promovida pelo Pottermore (website criado pela autora). O processo marca o fã, pois lhe atribui características e lhe propicia mais que uma família: uma identidade perante o fandom.

Em geral, essa determinação não agrada ao fã, que se enxerga pertencendo à outra casa. A insatisfação é gerada por tratar-se de características pessoais pelas quais o participante será conhecido; envolver identificações e afinidades. A prática propiciou inúmeros exemplos que podem ilustrar os feixes de relações dessa regra, conforme o trecho de fala:

Acho muita covardia a pessoa não aceitar a casa que o Chapéu te colocou (já que ele realmente NUNCA erra) e deu ouvidos a Harry simplesmente pq não era 100% dele que estava naquele banquinho, uma boa parte de Voldemort falava mais alto, fazendo o Chapéu querer colocá-lo na Sonserina, porém Harry Potter sempre foi um Grifinoriano (disso não se tem dúvida) e quando o Chapéu te coloca em uma casa (ainda mais vc tendo respondido tudo com sinceridade É REALMENTE AQUELA CASA QUE VOCÊ PERTENCE) lembrando que as vezes nem mesmo você não sabe o potencial que tem, e grande coisa ela (Nilsen Silva) ter gosto por leituras e querer cair na Corvinal, Hermione tem esse gosto também mais do que ninguém e está na Grifinória, então aceite onde vc está ou exclua a sua conta. O CHAPÉU NUNCA ERRA e se vc foi para Lufa-Lufa é lá que você pertence ACEITE (Guilherme, 2012Guilherme, L. (2012, 1º julho). Pottermore e o direito de escolha (N. Silva, Colunista). Recuperado em 7 outubro, 2014, de http://potterish.com/2012/07/pottermore-e-o-direito-de-escolha/
http://potterish.com/2012/07/pottermore-...
).

Apesar do desagrado com o resultado do processo, inscrever-se para a seleção de casas denota atestar e renovar a confiança depositada no cânone, é assentir ser ordenado por ele e ser definido por um de seus modelos identitários. Participar do fandom é trabalhar pela legitimidade desses valores: prover condição de fã é função de Potterheads reverenciam o cânone.

O argumento de que o chapéu “NUNCA erra” visa persuadir o outro insatisfeito, pois isso é parte do esforço para manter a integridade da ordem: Potterheads estabelecem vínculos no fandom para prover condição de fã. É preciso justificar utilizando elementos da própria narrativa, pois Potterheads usam saberes do cânone para endossar suas convicções visando prover condição de fã. Ser honesto com o cânone o levará para a casa certa, ainda que o fã não se conheça o suficiente para saber disso: Potterheads estabelecem vínculos no fandom para Demonstrar confiança no cânone. O fã conquista seu direito de fala ao mostrar que conhece o enredo. Essa é uma das características mais valoradas no fandom: o verdadeiro fã conhece o universo: Potterheads estabelecem vínculos no fandom para Evidenciar identificações com o universo de Harry Potter.

Apesar da seleção de casas ser um processo muito significativo, reverenciar o cânone é bem mais amplo que isso. O hábito de reler os livros e colecionar itens da saga é trabalhar para manter a ordem e a própria condição de fã; isso é dar provas de dedicação (as atividades exigem tempo e dinheiro), e envolvimento (isso dá credibilidade a ele no fandom). São ainda exercícios sistemáticos a proteção dos valores e conteúdos originais, e a demonstração pública de gratidão ao cânone. Para muitos jovens, a experiência rica e duradoura fez amigos, promoveu diversão, emoção e um norte para suas condutas. Assim, o conjunto de ideias, práticas e valores que formam a cultura foi fortemente construído por meio das atividades de ordem; o hábito incorporado no tempo produziu a repetição material capaz de manter essa forma organizativa. Como a cultura do fandom é gerida em torno do dispositivo, ele se estabelece como ordem e, por meio da relação poder-saber, indica o que se faz e como se faz, e o que é certo ou não.

O feixe de relação que origina essa regra revelou relações saber-poder legitimadas e constituintes da ordem, uma externalidade definida a priori, em que cabe aos potterheads apenas se inscrever. A adesão voluntária dos potterheads aos saberes do cânone indica como um dispositivo funciona na construção de estruturas sociais: rituais e regras se tornam saberes institucionalizados, portanto, internalizados - para Agamben, autopercepção e autoconsciência (Chignola, 2014Chignola, S. (2014). Sobre o dispositivo: Foucault, Agamben, Deleuze. Cadernos IHU Ideias, 12(214), 3-17. ), e o exercício da disciplina é aplicado primeiramente em si mesmo, depois na conduta do outro. Essa técnica de poder é chamada biopoder, pois, segundo Foucault (2015Foucault, M. (2015). Vigiar e punir: nascimento da prisão. Petrópolis: Vozes.), sua eficiência está em agir sobre a vida promovendo ao mesmo tempo: disciplina, uma anátomo-política do corpo que orienta o indivíduo na conquista da vida produtiva, e docilização dos corpos, um adestramento que promove a adesão voluntária. Assim, o cânone revelou-se um tipo de dispositivo, e aderir aos saberes do mesmo é se inscrever na sua ordem, é sujeitar-se a para gerir e legitimar essa ordem.

A prática organizativa dos potterheads resiste aos saberes do cânone

A relação entre os cinco enunciados e três funções revelou que foi estabelecendo vínculos e produzindo argumentos de qualidade (embasados nos saberes do cânone) que os potterheads conquistaram o espaço para abalar a estabilidade dos poderes instituídos, e assim questionar saberes, burlar determinações, estabelecer identificações e continuar produzindo. A relação incidente no enunciado 7, bem como a relação síncrona entre os enunciados são explicativas dessa condição (vide Figura 1). Ao suscitar o reconhecimento de igualdades de ideias entre fãs nas diversas atividades e se apropriar dos saberes do próprio cânone, estabeleceu-se a oportunidade para apontar inconsistências nos saberes instituídos. As funções que conduzem a regra dizem respeito às finalidades da resistência, uma busca de adequação às condições que lhes foram impostas. Ilustramos o poder-resistência com o trecho de fala a seguir:

Pottermore é mesmo um site lindo e fantástico, e a proposta dele de interação entre fãs de todo o mundo por meio de um jogo-enciclopédia é sensacional. O problema é que eu acho que ele fugiu um pouco do discurso que tanto aprendemos na série sobre ter a chance de escolher. Quando fiz a seleção pela primeira vez, fui parar na Lufa-Lufa, casa dos que são pacientes, leais, justos e que não têm medo da dor. Fiquei chateada logo de cara e parei de jogar. Eu queria Corvinal. Minha sede de conhecimento, meu amor aos livros e minha paixão por escrever falavam mais alto. Eu sou medrosa e intolerante. Podem perguntar para quem me conhece, eles vão confirmar. Sou a Rainha da Impaciência. Eu tinha respondido o teste com toda a sinceridade do mundo, mas ele não atingiu às minhas expectativas e me mandou para um lugar ao qual eu achava não pertencer. E aí? (Guilherme, 2012Guilherme, L. (2012, 1º julho). Pottermore e o direito de escolha (N. Silva, Colunista). Recuperado em 7 outubro, 2014, de http://potterish.com/2012/07/pottermore-e-o-direito-de-escolha/
http://potterish.com/2012/07/pottermore-...
).

O fã se apropria da moral do conteúdo da saga para questionar a atitude do chapéu e esclarecer porque suas características não correspondem às do resultado da seleção: Potterheads usam saberes do cânone para questionar suas convicções visando Esclarecer características de fãs no fandom . Ao iniciar a fala elogiando o cânone, o fã busca validar a construção de seu argumento e conquistar solidariedade política: Potterheads estabelecem identificações com integrantes do fandom para Esclarecer características de fãs no fandom .

Quando o fã utiliza saberes do cânone para questionar sua incoerência em termos morais desestabilizando o poder, ele produz estratégias de dessujeição, e essa já é uma estratégia de poder, pois o poder é produtivo quando sua relação com a resistência é coconstitutiva (Caughlan, 2005Caughlan, S. (2005). Considering pastoral power: a commentary on Aaron Schutz's "Rethinking domination and resistance: challenging postmodernism". Educational Researcher, 34(2), 14-16. http://dx.doi.org/10.3102/0013189X034002014
http://dx.doi.org/10.3102/0013189X034002...
; Collinson, 2006Collinson, D. (2006). Rethinking followership: a post-structuralist analysis of follower identities. The Leadership Quarterly, 17(2), 179-189. http://dx.doi.org/10.1016/j.leaqua.2005.12.005
http://dx.doi.org/10.1016/j.leaqua.2005....
; Hardt & Thomas, 2014Hardt, C., & Thomas, R. (2014). Discourse in a material world. Journal of Management Studies, 52(5), 680-696. http://dx.doi.org/10.1111/joms.12113
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; Raffnsøe et al., 2016Raffnsøe, S., Gudmand-Høyer, M., & Thaning, M. S. (2016). Foucault’s dispositive: the perspicacity of dispositive analytics in organizational research. Organization , 23(2), 272-298. http://dx.doi.org/10.1177/1350508414549885
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). Ao resistir aos saberes do cânone, ele elaborou a razão que pauta seu argumento, e sua questão visa promover um debate: “E aí?”. Apontando a incoerência moral da prática do cânone, o fã incita os outros a mudarem as regras, pois, se o Pottermore não faz o que diz, os fãs podem desobedecê-lo. Assim, Potterheads estabelecem vínculos no fandom para esclarecer características de fãs no fandom .

Primeiramente vimos se estabelecer um processo de ordem, pois existimos presos a dispositivos (Chignola, 2014Chignola, S. (2014). Sobre o dispositivo: Foucault, Agamben, Deleuze. Cadernos IHU Ideias, 12(214), 3-17. ). Mas a resistência mostrou-se um agenciamento, movendo-se do caráter ético para uma força política (Deleuze, 2005Deleuze, G. (2005). Foucault. São Paulo: Brasiliense.); o fã refletiu sobre a moralidade do cânone, abalou a estabilidade da sujeição e produziu agenciamentos. Querer para si uma ligação com o cânone adequada, ainda que queira essa ligação, diz respeito a uma experiência de si no exercício da liberdade (Foucault, 2013Foucault, M. (2013). Ditos e escritos, volume IX: genealogia da ética, subjetividade e sexualidade. São Paulo: Forense Universitária.). O agente usou a força para dobrar a força, criou, abalando verdades e produzindo subjetividades. Ao discordar da ordem: Potterheads burlam as determinações do cânone para esclarecer característica de fãs no fandom .

A produtividade estabelecida na relação de completude poder-resistência (Foucault, 2013Foucault, M. (2013). Ditos e escritos, volume IX: genealogia da ética, subjetividade e sexualidade. São Paulo: Forense Universitária.) revelou-se fortemente vinculada à produção de fics (prática de reescrever as narrativas), hoje uma das ações mais relevantes no fandom e uma das formas mais utilizadas para mantê-lo vivo, trazendo a pauta a lei dos direitos autorais. Os argumentos criados para manter tal hábito por vezes perpassam pela lógica econômica: em geral, no contexto discursivo, o fã argumenta que livros servem para inspirar sua criatividade e que os autores deveriam se sentir lisonjeados por eles se interessarem por continuar suas histórias, afinal, isso promove o sucesso das vendas.

A criação do argumento é uma inversão (criação) pautada na ordem de funcionamento do mercado. Como afirma Holanda (2010Holanda, L. A. (2010, maio). Resistência ao management em organizações da cultura popular. Anais do Encontro Nacional de Estudos Organizacionais, Florianópolis, SC, Brasil, 6.), a racionalidade dominante produz ativamente o princípio de organização produtiva e social do mercado capitalista, impondo essa ordem aos modos organizativos. Foucault (2008Foucault, M. (2008). Nascimento da biopolítica: curso dado no Còllege de France (1978-1979). São Paulo: Martins Fontes.) analisa que desde o neoliberalismo se governa para o mercado e não por causa dele, e que esse sistema delineou o surgimento de uma forma-sujeito considerada como uma máquina produtiva. Para o filósofo, o ajuste estabelecido entre a população enquanto corpo vivente e os processos econômicos é característico do poder moderno (disciplinar) e produtor da biopolítica.

Da mesma forma que a resistência desestabiliza o poder, seu potencial criativo é recorrentemente sequestrado por esse mesmo poder. Assim, a manutenção do fandom se revela como resultado de um processo de gestão que vai configurando e transformando o processo organizativo no decorrer da luta política pelo poder, pois o procedimento organizativo institucionaliza as práticas (Clegg & Bailey, 2008Clegg, S. R., & Bailey, J. R. (2008). Introduction. In S. R. Clegg & J. R. Bailey (Orgs.), International Encyclopedia of Organization Studies (pp. XIIII-XIVIII). California: SAGE Publication.). Resistir aos saberes do cânone é produzir, é constituir subjetividades, pois a resistência é pura criação, produz as estratégias de dessujeição, desnuda as brechas do poder e possibilita a dinamização do espaço relacional (Foucault, 2015Foucault, M. (2015). Vigiar e punir: nascimento da prisão. Petrópolis: Vozes.). Por meio da resistência aos saberes do cânone, apesar de historicamente condicionados, potterheads são sujeitos em um sistema aberto e contingente.

Considerações Finais

Por meio da Análise de Discursos Foucaultiana buscamos desvelar como as práticas dos potterheads evidenciam seu processo organizativo. A formação discursiva identificada revelou que a ordem do cânone é o aparelho disciplinar do processo organizativo dos potterheads. O cânone (um corpo de saberes de ordem) funciona como um aparelho disciplinar (dispositivo) que atua sobre o processo organizativo dos potterheads, possibilitando sua existência. As duas regras dessa formação indicaram como as práticas dos potterheads aderem a essa ordem e resistem à mesma e, nessa dinâmica, produzem sua organização. Várias práticas endossaram esse corpo de saberes, constituindo-o como uma ordem disciplinar, mas, à medida em que essa conforma o espaço social, a resistência se exerce, desestabilizando o poder.

Potterheads aderem à ordem do cânone enquanto corpo de saberes, e é por meio dele que a gestão desse espaço social opera em um exercício de disciplina, fazendo funcionar efeitos de poder aplicados à conduta daqueles. Num nível mais amplo, vemos como essa disciplina pauta um biopoder que age sobre a conduta tanto de si mesmo quanto sobre a do outro, regendo e mantendo o modo organizativo. Assim, mais do que apenas fãs de um dado produto cultural, potterheads vinculam-se ao universo literário como um corpo de saberes, logo, sob o efeito de seu poder.

Mas nossos achados revelaram que potterheads recorrentemente também resistem à ordem do cânone, subvertendo as formas de poder institucionalizadas, atualizando as relações de poder-saber e recriando sua existência. Para tanto, potterheads se pautam nesse mesmo corpo de saberes para produzir seus argumentos, influenciar condutas e reinventar a ordem. A construção desses argumentos é político-afetiva e, por isso, capaz de produzir solidariedade para com quem foge às regras. Assim, mesmo sendo historicamente condicionados e sofrendo ação dos princípios da racionalidade dominante, potterheads abalam a estabilidade das sujeições, ajustam sentidos compartilhados e produzem agenciamentos.

É por meio de um processo de gestão reconstruído cotidianamente que os potterheads atualizam sua vida organizada. Eles constituem sua subjetividade ao sujeitarem-se ao cânone, num processo dinâmico entre adesão e resistência a esse corpo de saberes, típico das relações de poder e a seus efeitos, conforme nos ensina Michel Foucault. Então, é essa dinâmica de adesão e resistência aos saberes do cânone o que assegura o modo de vida organizada e o próprio trabalho dos potterheads.

A racionalidade do trabalho dos potterheads parece constituir o que Jenkins (2009Jenkins, H. (2009). Cultura da convergência: a colisão entre os velhos e os novos meios de comunicação. São Paulo: Ed. Aleph.) denominou de economia afetiva. Como a gestão ordinária que observamos em sua vida organizada é operada em meio a um mecanismo de poder revelada por uma tecnologia operada sobre a vida, afirmamos se tratar de um biopoder. Assim, concluímos que a economia afetiva em pauta é operada como uma tecnologia biopolítica no âmbito da vida organizada do fandom.

Como limitação do estudo, enxergamos que algumas informações importantes podem ter sido perdidas no tempo, uma vez que esses espaços sociais estão sempre em mudança: perfis são fechados, meios entram em desuso, mídias apagam as postagens em poucas horas etc. Contudo, para minimizar essa condição, buscamos efetuar a coleta nas mais variadas mídias sociais. Tendo em vista que as informações dos fandoms são sempre replicadas por vários meios, entendemos que essa limitação não prejudicou a nossa pesquisa.

A contribuição do trabalho para os Estudos Organizacionais está em desvelar como um processo organizativo singular (vida organizada dos potterheads), vinculado a um cenário econômico de crescente importância (indústria do entretenimento) ilustra como um dispositivo opera na produção de espaços sociais e subjetividades. Apesar de o dispositivo ser uma concepção-chave no pensamento de Michel Foucault, e seu pensamento ter se consagrado por promover avanços nas pesquisas organizacionais, o potencial dessa ferramenta foi muito pouco explorado na área (Raffnsøe et al., 2016Raffnsøe, S., Gudmand-Høyer, M., & Thaning, M. S. (2016). Foucault’s dispositive: the perspicacity of dispositive analytics in organizational research. Organization , 23(2), 272-298. http://dx.doi.org/10.1177/1350508414549885
http://dx.doi.org/10.1177/13505084145498...
). Evidentemente não se trata de uma busca de generalização deste conhecimento, mas, como diria Foucault (2012)Foucault, M. (2012). A arqueologia do saber. Rio de Janeiro: Forense Universitária., de uma tentativa de libertar saberes locais normalmente sujeitados ao domínio das ciências conforme estas se estabeleceram na modernidade.

Por outro lado, entendemos ainda que nossa contribuição avance na proposta de sistematização da Análise de Discurso Foucaultiana, uma vez que o filósofo francês a apresentou muito mais como princípios de sua analítica arqueológica do que como um procedimento propriamente dito, o que, obviamente, tem a ver com o fato de se tratar de um método filosófico, enquanto aqui o adotamos como método de investigação em pesquisa social.

Agradecimentos

O projeto de pesquisa que deu origem a este trabalho foi realizado com o apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), processo nº 306363/2015-1.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    Jul-Aug 2017

Histórico

  • Recebido
    06 Jul 2016
  • Revisado
    19 Jan 2017
  • Aceito
    20 Jan 2017
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