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MULHERES DE VIDA FÁCIL? TEMPO, PRAZER E SOFRIMENTO NO TRABALHO DE PROSTITUTAS

¿Mujeres de Vida Fácil? Tiempo, placer y sufrimiento en el trabajo de prostitutas

RESUMO

Este estudo se propõe a analisar como percepções temporais influenciam vivências de prazer e sofrimento no trabalho de prostitutas, em Belo Horizonte (MG). Foi realizado um estudo de caso, de natureza qualitativa descritiva. A coleta de dados deu-se por meio de entrevistas com roteiro semiestruturado. Foram abordadas 15 profissionais dos chamados “hotéis de batalha”, e os dados coletados foram tratados por meio de análise de conteúdo. As prostitutas entrevistadas associam o tempo a um recurso, e isso se vincula a vivências de prazer e sofrimento, no sentido de que a administração adequada do tempo gera, para elas, o dinheiro, que é a principal fonte de prazer do seu trabalho. Contudo, esse tempo de trabalho é também fonte de vivências de sofrimento, uma vez que as prostitutas naturalizam ou aceitam incômodos em relação ao trabalho e às consequências que ele acarreta.

PALAVRAS-CHAVE
Prazer e sofrimento; trabalho; percepções temporais; prostitutas; prostituição

RESUMEN

Este estudio se propone analizar cómo percepciones temporales influyen en las vivencias de placer y sufrimiento en el trabajo de prostitutas, en Belo Horizonte (MG). Se realizó un estudio de caso, de naturaleza descriptiva y abordaje cualitativo. La recolección de datos se dio a través de entrevistas con un itinerario semiestructurado, con participación de 15 profesionales de los llamados "hoteles de batalla", y los datos colectados fueron tratados por medio de la técnica de análisis de contenido. Las prostitutas asocian el tiempo a un recurso y esto se vincula a vivencias de placer y sufrimiento, en el sentido de que la administración adecuada del tiempo genera para ellas el dinero que es la principal fuente de placer de su trabajo. El tiempo de trabajo de las prostitutas es también fuente de vivencias de sufrimiento, ya que las prostitutas naturalizan o aceptan los inconvenientes con relación al trabajo y a las consecuencias que él acarrea.

PALABRAS CLAVE
Placer y sufrimiento; trabajo; percepciones temporales; prostitutas; prostitucion

ABSTRACT

This study aims to analyze how temporal perceptions influence pleasure and suffering in the work of prostitutes in Belo Horizonte (MG). A descriptive and qualitative case study was carried out. Data were collected through semi-structured interviews with 15 professionals from places known as "battle hotels" and analyzed using content analysis. The interviewed prostitutes associated time as a resource, and this was linked to experiences of pleasure and suffering, in the sense that the effective management of time generated money which was the main source of pleasure from their work. The working time of the prostitutes was also a source of suffering because they normalized or accepted discomfort from their work and the consequences that it entailed.

KEYWORDS
Pleasure and suffering; job; temporal perceptions; prostitutes; prostitution.

INTRODUÇÃO

A imagem das prostitutas permeia a história humana, observando-se uma mudança de um caráter sacro e divino para algo moralmente repreensível e de potencial corrupção social, após a queda do império romano (Roberts, 1992Roberts, N. (1992). As prostitutas da história. Rio de Janeiro, RJ: Rosas dos Tempos.). Com isso, iniciaram-se os processos de desmoralização e estigmatização da prostituta, que passou a ser vista como a concretização de um pecado, um “ser errante”, marginalizada e comparada a bandidos e assassinos (Fanganiello, 2008Fanganiello, A. L. S. (2008). Profissionais do sexo e autoimagem na cidade de São Paulo. 54 f. (Mestrado em Trabalho de Conclusão de Curso - TCC) - Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2008. https://sapientia.pucsp.br/handle/handle/18753
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; Pereira, Paiva, Santos, & Sousa, 2018Pereira, J. R., Paiva, K. C. M., Santos, J. V. P., & Sousa, C. V. (2018). “O show tem que continuar”: Encalços e percalços do ser/estar prostituta. Contextus-Revista Contemporânea de Economia e Gestão. 16(3), 151-180. doi: 10.19094/contextus.v16i3.32642
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). Desse modo, a prostituição foi sendo associada a dois pecados capitais, a luxúria e a preguiça. Consolidou-se a ideia de que a prostituta não gosta de trabalhar, transmitida por uma linguagem coloquial que as alcunha como “mulheres de vida fácil” (Lobo & Sampaio, 2016Lobo, B. N. L., & Sampaio, J. A. L. (2016). A prostituição e a dignidade da pessoa humana: Crítica literária e musical à negação do direito fundamental ao trabalho.Espaço Jurídico: Journal of Law. 17(3), 913-932. doi: 10.18593/ejjl.v17i3.10554
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), sendo criado o estereótipo da “puta” (Leite, 2008Leite, G. S. (2008). Filha, mãe, avó e puta: A história de uma mulher que decidiu ser prostituta. São Paulo, SP: Objetiva.).

Por outro lado, parece limitante compreender a prostituição apenas como um simples processo de troca de serviços ou como sexo remunerado. Uma visão ampliada entende a identidade social da prostituta como fundamentada sob o fato de essa mulher se relacionar com inúmeros homens, promovendo prazeres carnais sem a finalidade de procriação, indo, portanto, de encontro às regras de moralidade socialmente estabelecidas (Cunha, 2014Cunha, L. A. (2014). Prostituição e religião: A trajetória religiosa de mulheres que praticam a prostituição na região de Santo Amaro - São Paulo. 127 f. Dissertação (Mestrado em Ciências da Religião) - Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo.).

Apesar da visão da prostituição como uma realidade velada, uma ocupação invisível ou invisibilizada pela sociedade, ela abrange o expressivo número de mais de 40 milhões de adeptas no mundo, sendo que, destas, cerca de 75% são mulheres com idades entre 13 e 25 anos (Meihy, 2015Meihy, J. C. S. B. (2015). Prostituição à brasileira: cinco histórias. São Paulo, SP: Contexto.). A despeito das dificuldades e estigmas envolvidos, a autonomia, a perspectiva de altos rendimentos, os pagamentos imediatos, o tempo livre e a flexibilidade para combinar essa com outras atividades são alguns dos fatores que contribuem para a oferta abundante de profissionais do sexo em ambientes urbanos e rurais pelo mundo (Lainez, 2019Lainez, N. (2019). Treading water: Street sex workers negotiating frantic presents and speculative futures in the Mekong Delta, Vietnam. Time & Society. 28(2), 804-827. doi: 10.1177/0961463X18778473
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). Além disso, a oferta desse serviço existe porque há demanda, em sua maioria masculina, que compra sexo por diversas e complexas razões (Durant & Couch, 2019Durant, B., & Couch, J. (2019). ‘It’s just more, you know, natural’: The perceptions of men who buy sex in an emerging street sex market. Sexualities. 22(3), 310-324. doi: 10.1177/1363460717737489
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).

Assim, mundo afora, a prostituição vem sendo estudada sob vários vieses e pontos de vista, abarcando tanto percepções dos próprios profissionais do sexo como de clientes (Durant & Coach, 2019Durant, B., & Couch, J. (2019). ‘It’s just more, you know, natural’: The perceptions of men who buy sex in an emerging street sex market. Sexualities. 22(3), 310-324. doi: 10.1177/1363460717737489
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), desmistificando e desvitimizando ambos os atores nesse tipo de “comércio”, cuja compreensão vai além de uma simples troca de sexo por dinheiro. Tem-se também uma gama de estudos que trata do estigma do trabalho que envolve sexo (Sanders, 2018Sanders, T. (2018). Unpacking the process of destigmatization of sex work/ers: Response to Weitzer ‘Resistance to sex work stigma’. Sexualities. 21(5-6), 736-739. doi: 10.1177/1363460716677731
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; Weitzer, 2018Weitzer, R. (2018). Resistance to sex work stigma. Sexualities. 21(5-6), 717-729. doi: 10.1177/1363460716684509
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), com um norte propositivo de desenvolver formas de lidar, bem como de diminuir estigmas sociais, de modo pragmático e deliberado (Weitzer, 2018Weitzer, R. (2018). Resistance to sex work stigma. Sexualities. 21(5-6), 717-729. doi: 10.1177/1363460716684509
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). Para tanto, estudos apontam a importância de mobilizações de diversas esferas da sociedade em torno da mídia de massa, da descriminalização, das indústrias de produtos eróticos, do ativismo dos próprios profissionais do sexo e de comunidades acadêmicas (Weitzer, 2018Weitzer, R. (2018). Resistance to sex work stigma. Sexualities. 21(5-6), 717-729. doi: 10.1177/1363460716684509
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); somam-se, aos anteriores, outros públicos e espaços, incluindo-se os governos e Estados e suas políticas de saúde pública, esferas dos judiciários e mesmo as famílias, cujas discussões “em torno de mesas de jantar” impingem uma educação de base contra as discriminações (Sanders, 2018Sanders, T. (2018). Unpacking the process of destigmatization of sex work/ers: Response to Weitzer ‘Resistance to sex work stigma’. Sexualities. 21(5-6), 736-739. doi: 10.1177/1363460716677731
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). Outras reflexões tratam, ainda, da importância de lidar com as interseccionalidades que a prostituição pode abarcar, incluindo-se questões de gênero, de orientação sexual, de raça ou cor de pele etc. (Sanders, 2018Sanders, T. (2018). Unpacking the process of destigmatization of sex work/ers: Response to Weitzer ‘Resistance to sex work stigma’. Sexualities. 21(5-6), 736-739. doi: 10.1177/1363460716677731
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). A prostituição também tem sido discutida enquanto “trabalho sujo”, ou seja, que carrega um estigma (Blithe & Wolfe, 2017Blithe, S. J., & Wolfe, A. W. (2017). Work-life management in legal prostitution: Stigma and lockdown in Nevada’s brothels. Human Relations. 70(6), 725-750. doi: 10.1177/0018726716674262
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) e que impõe ao seu praticante tanto tomar decisões diárias em ritmo frenético (Lainez, 2019Lainez, N. (2019). Treading water: Street sex workers negotiating frantic presents and speculative futures in the Mekong Delta, Vietnam. Time & Society. 28(2), 804-827. doi: 10.1177/0961463X18778473
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) quanto negar a vida pessoal no tempo presente e guardá-la para o porvir, o que implica deslocamentos psíquicos danosos aos indivíduos (Blithe & Wolfe, 2017Blithe, S. J., & Wolfe, A. W. (2017). Work-life management in legal prostitution: Stigma and lockdown in Nevada’s brothels. Human Relations. 70(6), 725-750. doi: 10.1177/0018726716674262
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) e remete a questões de percepções temporais distintas (Carvalho, 2018Carvalho, E. R. (2018). Norbert Elias and the philosophical controversy surrounding the nature of time. Time & Society. 27(2), 155-175. doi: 10.1177/0961463X15590744
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; Güell & Yopo, 2016Güell, P., & Yopo, M. (2016). The subjective texture of time: An exploratory and empirical approach to time perspectives in Chile. Time & Society. 25(2), 295-319. doi: 10.1177/0961463X15577260
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), conectando diretamente os temas centrais da discussão realizada neste artigo a uma agenda mais ampla de pesquisa.

No Brasil, a profissão foi reconhecida a partir de 2002, e a nomenclatura “profissionais do sexo” foi oficializada pelo Estado em sua Classificação Brasileira das Ocupações (Ministério do Trabalho e Emprego - MTE, 2008Ministério do Trabalho e Emprego. (2008). CBO (Classificação Brasileira de Ocupações): Profissionais do sexo. Recuperado de www.mtecbo.gov.br/busca/descricao.asp?codigo=5198
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), embora não seja encarada assim pela sociedade e até mesmo pelas próprias prostitutas (Pereira et al., 2018Pereira, J. R., Paiva, K. C. M., Santos, J. V. P., & Sousa, C. V. (2018). “O show tem que continuar”: Encalços e percalços do ser/estar prostituta. Contextus-Revista Contemporânea de Economia e Gestão. 16(3), 151-180. doi: 10.19094/contextus.v16i3.32642
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).

Seu trabalho pode configurar-se, para si mesmas, ora como fonte de prazer, ora como fonte de sofrimento, ora como ambas (Dejours, 1996Dejours, C. (1996). Uma nova visão do sofrimento humano nas organizações. In J. F. Chanlat (Org.), O indivíduo na organização: Dimensões esquecidas (pp. 149-173). São Paulo, SP: Atlas.; Martins & Honório, 2014Martins, A. A. V., & Honório, L. C. (2014). Prazer e sofrimento docente em uma instituição de ensino superior privada em Minas Gerais. Organizações & Sociedade. 21(68), 79-96. doi: 10.1590/S1984-92302014000100005
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). Como observado em estudos fora do País, mencionados anteriormente, essa díade pode ser influenciada por questões relacionadas ao tempo, dado que, na realidade das prostitutas, o tempo é percebido e negociado como uma mercadoria, um recurso que não pode ser desperdiçado. As vivências de trabalho são construídas tendo por base um sistema de controle intensivo do tempo e do espaço em prol da geração de lucro, reforçando, por conseguinte, a ideia de que “tempo é dinheiro” (Harvey & Sobral, 1994Harvey, D., & Sobral, A. U. (1994).Condição pós-moderna. São Paulo, SP: Loyola.).

Tendo por base o exposto, emerge a questão norteadora deste estudo: Como percepções temporais influenciam vivências de prazer e sofrimento no trabalho de prostitutas?

O território de prostituição especificamente abordado foi a região de prostituição da Guaicurus, localizada em Belo Horizonte, capital de Minas Gerais, e popularmente conhecida como rua do “sobe e desce”, em função do intenso fluxo de homens subindo e descendo as escadas dos prostíbulos. A região é composta por inúmeros “hotéis de batalha”, estabelecimentos geralmente de três andares, nos quais o primeiro andar abriga “estabelecimentos comuns”, como lanchonetes e lojas de peças para carros, na tentativa de diluir em sua dinâmica as portas dos hotéis de prostituição, escondendo a “pouca-vergonha” do restante da paisagem urbana (Barreto & Prado, 2010Barreto, L. C., & Prado, M. A. M. (2010). Identidade das prostitutas em Belo Horizonte: As representações, as regras e os espaços. Pesquisas e Práticas Psicossociais, 5(2), 193-205.). Nos demais andares, os espaços são subdivididos em diversos pequenos quartos que são alugados em regime de diária para que as prostitutas prestem seus serviços (Pereira et al., 2018Pereira, J. R., Paiva, K. C. M., Santos, J. V. P., & Sousa, C. V. (2018). “O show tem que continuar”: Encalços e percalços do ser/estar prostituta. Contextus-Revista Contemporânea de Economia e Gestão. 16(3), 151-180. doi: 10.19094/contextus.v16i3.32642
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).

PRAZER E SOFRIMENTO NO TRABALHO

O trabalho configura uma necessidade do homem como ser social e ocupa, cada vez mais, papel central na vida dos sujeitos, caracterizando-se pelo desafio de estes enfrentarem uma realidade criativamente (Forno, 2015Forno, C. Dal. (2015). A centralidade do sujeito na construção de um trabalho vivo. SIG Revista de Psicanálise, 4(6), 139-142.). Em especial, na sociedade brasileira, ser um “trabalhador” é um valor básico e distingue o “cidadão” do “marginal” (Veriguine, Basso, & Soares, 2014Veriguine, N. R., Basso, C., & Soares, D. H. P. (2014). Juventude e perspectivas de futuro: A orientação profissional no Programa Primeiro Emprego. Psicologia: Ciência e Profissão. 34(4), 1032-1044. doi: 10.1590/1982-370000902013
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).

Por outro lado, o trabalho é um lócus que envolve o paradoxo entre fontes de prazer e mediadores de saúde e, ao mesmo tempo, fontes de sofrimento humano (Dejours, 1996Dejours, C. (1996). Uma nova visão do sofrimento humano nas organizações. In J. F. Chanlat (Org.), O indivíduo na organização: Dimensões esquecidas (pp. 149-173). São Paulo, SP: Atlas.), constituindo, para alguns, base de equilíbrio e, para outros, causa de fadiga (Dejours, 1994Dejours, C. (1994). A carga psíquica do trabalho. In C. Dejours, E. Abdoucheli, C. Jayet, & M. I. S. Betiol (Coords.), Psicodinâmica do trabalho: Contribuições da escola dejouriana à análise da relação prazer, sofrimento e trabalho (pp. 21-32). São Paulo, SP: Atlas.). As vivências de prazer e sofrimento estão relacionadas a três dimensões interligadas e coexistentes: a subjetividade do trabalhador, considerando sua história de vida e anseios particulares; a organização do trabalho, diante das normas e padrões impostos; e a coletividade, envolvendo as relações hierárquicas e sociais no trabalho (Castro & Cançado, 2009Castro, P. M., & Cançado, V. L. (2009). Prazer e sofrimento no trabalho: A vivência de profissionais de recursos humanos. Gestão & Planejamento. 10(1), 19-37.).

Nesse sentido, o que se tem como “saudável” é resultante de uma relação entre sofrimento e estratégias de enfrentamento (Hoffmann, Traverso, & Zanini, 2014Hoffmann, C., Traverso, L. D., & Zanini, R. R. (2014). Contexto de trabalho das pessoas com deficiência no serviço público federal: Contribuições do inventário sobre trabalho e riscos de adoecimento.Gestão & Produção. 21(4), 707-718. doi: 10.1590/0104-530X379
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), que são defesas dos sujeitos no sentido de aliviar ou lidar com o sofrimento no trabalho (Dejours, 1996Dejours, C. (1996). Uma nova visão do sofrimento humano nas organizações. In J. F. Chanlat (Org.), O indivíduo na organização: Dimensões esquecidas (pp. 149-173). São Paulo, SP: Atlas.). Na luta contra o sofrimento, o indivíduo pode elaborar soluções favoráveis à produção (referentes à relação dele com a empresa a que presta serviços) e à saúde (própria do indivíduo), usando o problema como uma espécie de mola propulsora, o que pode ser denominado sofrimento criativo; ou desfavoráveis aos mesmos aspectos, caracterizando o sofrimento patogênico, no qual o indivíduo foca apenas as dificuldades e frustrações.

Logo, o sofrimento não é necessariamente contrário à saúde e não implica patologia (Castro & Cançado, 2009Castro, P. M., & Cançado, V. L. (2009). Prazer e sofrimento no trabalho: A vivência de profissionais de recursos humanos. Gestão & Planejamento. 10(1), 19-37.), mas um sujeito que não se vê reconhecido naquilo que faz e, desse modo, não alcança sentido na sua relação com o trabalho volta-se ao sofrimento (Dario & Lourenço, 2018Dario, V. C., & Lourenço, M. L. (2018). Cultura organizacional e vivências de prazer e sofrimento no trabalho: um estudo com professores de instituições federais de ensino superior.Revista Organizações em Contexto. 14(27), 345-395. doi: 10.15603/1982-8756/roc.v14n27p345-395
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).

Acerca do sofrimento, trata-se do “espaço de luta que cobre o campo situado entre, de um lado, o ‘bem-estar’, e, de outro, a doença mental ou a loucura” (Dejours, 1996Dejours, C. (1996). Uma nova visão do sofrimento humano nas organizações. In J. F. Chanlat (Org.), O indivíduo na organização: Dimensões esquecidas (pp. 149-173). São Paulo, SP: Atlas., p. 153). Sobre um indivíduo que sofre, existem duas dimensões, quais sejam: diacrônica, que se refere ao sofrimento singular, herdado da história psíquica de cada pessoa, sendo mais relacionada ao passado do sujeito; e sincrônica, dimensão relacionada ao sofrimento atual, surgido do reencontro do sujeito com a situação do trabalho, ou seja, mais vinculada ao presente. Desse modo, as vivências de prazer e sofrimento são vinculadas à dimensão temporal (Dejours, 1996Dejours, C. (1996). Uma nova visão do sofrimento humano nas organizações. In J. F. Chanlat (Org.), O indivíduo na organização: Dimensões esquecidas (pp. 149-173). São Paulo, SP: Atlas.).

Outrossim, a estigmatização no trabalho pode acarretar sofrimento, dados o descrédito, a inferiorização na atividade realizada e suas consequências na vida de pessoas que a experienciam. No caso do trabalho sexual, os profissionais da área vivenciam problemas com a própria moral, a ocultação de identidade e, por vezes, a necessidade em ter que se levar uma vida dupla na tentativa de amenizar discriminações (Weitzer, 2018Weitzer, R. (2018). Resistance to sex work stigma. Sexualities. 21(5-6), 717-729. doi: 10.1177/1363460716684509
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). Além disso, o estigma enraizado na sociedade pode acarretar ao profissional do sexo vontade de se isolar, de ser passivo para ser aceito, e sentimentos de culpa e vergonha (Sanders, 2018Sanders, T. (2018). Unpacking the process of destigmatization of sex work/ers: Response to Weitzer ‘Resistance to sex work stigma’. Sexualities. 21(5-6), 736-739. doi: 10.1177/1363460716677731
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).

O modo como os clientes se comportam quando procuram por serviços das profissionais do sexo também diz sobre os sentimentos dicotômicos de prazer e sofrimento que elas poderão sentir ao atendê-los. Consoante a Durant e Couch (2019)Durant, B., & Couch, J. (2019). ‘It’s just more, you know, natural’: The perceptions of men who buy sex in an emerging street sex market. Sexualities. 22(3), 310-324. doi: 10.1177/1363460717737489
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, há estudos que justificam a compra de sexo, por exemplo, quando o homem vê naquela prestação de serviço um “tipo de negócio”, como uma transação econômica sexual, e, assim, aborda a mulher de modo comercial. Outra forma é a “amizade-romântica” com a profissional do sexo, que vai para questões além do comércio, isto é, o homem deseja estabelecer alguma forma de relação afetiva e romper com a barreira econômico-sexual. Por fim, o “tipo misógino”, o homem que quer se sentir superior à mulher e vê, na compra por sexo, uma forma de desfrutar dessa vontade que envolve violência moral e, por vezes, física (Durant & Couch, 2019Durant, B., & Couch, J. (2019). ‘It’s just more, you know, natural’: The perceptions of men who buy sex in an emerging street sex market. Sexualities. 22(3), 310-324. doi: 10.1177/1363460717737489
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).

Destarte, é possível afirmar que diversos fatores influenciam situações de prazer e sofrimento no trabalho sexual, destacando-se as vivências e percepções relacionadas ao tempo. Dessa forma, esse tema tempo é abordado no tópico seguinte.

TEMPO E PERCEPÇÕES TEMPORAIS

Estudos envolvendo o tempo têm sido desenvolvidos por estudiosos de religião, arte, filosofia, física, psicologia, sociologia, antropologia, biologia, entre outros campos de saber, sendo os mais profícuos aqueles relacionados à física e à filosofia (Elias, 1998Elias, N. (1998). Sobre o tempo. Rio de Janeiro, RJ: Jorge Zahar.; Franco, Paiva, & Dutra, 2018Franco, D. S., Paiva, K. C. M., & Dutra, M. R. S. (2018). Percepções temporais e controle: Um estudo com trabalhadores de call center.Revista Interdisciplinar de Gestão Social, 7(2), 75-97. doi: 10.9771/23172428rigs.v7i2.25301
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). Na Administração, trata-se de uma preocupação mais recente (Paiva & Souza, 2016Paiva, K. C. M., & Souza, C. M. O. (2016). Time perception: A study of young Brazilian workers. Tourism & Management Studies. 12(1), 203-210. doi: 10.18089/tms.2016.12122
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), embora o tempo seja um elemento que permeia e interfere na realidade laboral, seja por um ideal coletivo de imediatismo, seja pela sua utilização otimizada (Koeber, 2017Koeber, C. (2017). The social reorganization of time: The “great speedup” and the transformation of time and work discipline. Humanity & Society. 41(2), 143-157. doi: 10.1177/0160597617698424
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). Além disso, tempo e temporalidade envolvem importantes ramificações para trabalhadores perpassados por precariedade, insegurança e incerteza no trabalho (Pitts, 2015Pitts, F. H. (2015). Time and work. Time & Society. 24(3), 390-395. doi: 10.1177/0961463X15615720
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).

É comum que estudos empíricos nas ciências sociais se concentrem na medição objetiva do tempo, concebendo-o como um recurso natural, preexistente e objetivo, representado por relógios e calendários e com sentido reduzido à sua quantidade (Güell & Yopo, 2016Güell, P., & Yopo, M. (2016). The subjective texture of time: An exploratory and empirical approach to time perspectives in Chile. Time & Society. 25(2), 295-319. doi: 10.1177/0961463X15577260
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). Nessa perspectiva, relega-se que, apesar de ser uma construção social (Berger & Luckmann, 2004Berger, P. L., & Luckmann, T. (2004). A construção social da realidade. Petrópolis, RJ: Vozes.; Elias, 1998Elias, N. (1998). Sobre o tempo. Rio de Janeiro, RJ: Jorge Zahar.), o tempo também é individual, heterogêneo e subjetivo, fruto da imbricação e interdependência entre natureza, sociedade e indivíduo (Carvalho, 2018Carvalho, E. R. (2018). Norbert Elias and the philosophical controversy surrounding the nature of time. Time & Society. 27(2), 155-175. doi: 10.1177/0961463X15590744
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).

Nesse sentido, Mello e Tonelli (2002)Mello, H. D. A., & Tonelli, M. J. (2002). O tempo e as organizações: Concepções do tempo em periódicos de estudos organizacionais. Anais do II Encontro Nacional de Estudos Organizacionais (ENEO), ANPAD, Recife, PE. realçam “a importância de uma reflexão profunda em torno da temporalidade na Administração, seja com estudos qualitativos seja com estudos quantitativos, seja com abordagens críticas seja com abordagens pragmáticas” (p. 12), pois estudos que se atentam ao tempo mostram novas formas de enxergar o mundo e compreender fenômenos em diferentes perspectivas (Lana, Gama, Bandeira-de-Melo, & Marcon, 2018Lana, J., Gama, M. A. B., Bandeira-de-Mello, R., & Marcon, R. (2018). O tempo como legitimador da causa: Implicações temporais em pesquisas de administração.Revista Alcance. 25(1), 106-119. doi: 10.14210/alcance.v25n1(Jan/Abr).p106-119
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). Assim, reitera-se a ideia de que o tempo não é único e consensual entre as pessoas, mas percebido e vivenciado de modos diferentes (Bluedorn & Jaussi, 2007Bluedorn, A. C., & Jaussi, K. S. (2007). Organizationally relevant dimensions of time across levels of analysis. In Dansereau, F. and Yammarino, F.J. (Ed.) Multi-Level Issues in Organizations and Time, 6, 187-223. Oxford: Elsevier.).

Segundo Thompson (1991)Thompson, E. P. (1991). Time, work-discipline and industrial capitalism. In: E. P. Thompson. Customs in common (pp. 352-403). London, UK: Merlin Press., o controle do tempo e a remuneração com base nele reforçaram a associação de tempo a dinheiro, fazendo com que o tempo, no sistema capitalista, fosse quantificável, mensurável e controlável, alterando assim as relações de trabalho, percepção essa compartilhada por Hassard (2001)Hassard, J. (2001). Imagens do tempo no trabalho e na organização. Handbook de estudos organizacionais, 2, 190-216). São Paulo, SP: Atlas ., no sentido da mercadorização do tempo.

Discorrendo sobre tempo, Bluedorn e Jaussi (2007)Bluedorn, A. C., & Jaussi, K. S. (2007). Organizationally relevant dimensions of time across levels of analysis. In Dansereau, F. and Yammarino, F.J. (Ed.) Multi-Level Issues in Organizations and Time, 6, 187-223. Oxford: Elsevier. chamam atenção às diferentes preferências que os sujeitos podem ter acerca do tempo para lidar com a vida e o trabalho. Os autores elencam cinco dimensões temporais, a saber: 1) policronia, que se refere à preferência das pessoas de se envolverem em uma ou mais tarefas no mesmo período; 2) velocidade, relacionada ao número de atividades desenvolvidas a cada unidade de tempo; 3) pontualidade, que significa estar no tempo determinado; 4) profundidade temporal, ligada a distância temporal percebida entre passado, presente e futuro; e, por fim, 5) arrastamento, que é o ajustamento do ritmo a outras atividades ou outrem.

Essas dimensões temporais podem afetar as relações entre os trabalhadores, no que tange tanto à duração quanto à qualidade desses relacionamentos, além de trazer possíveis impactos em atitudes e crenças dos profissionais sobre si mesmos e sobre seu trabalho (Bluedorn & Jaussi, 2007Bluedorn, A. C., & Jaussi, K. S. (2007). Organizationally relevant dimensions of time across levels of analysis. In Dansereau, F. and Yammarino, F.J. (Ed.) Multi-Level Issues in Organizations and Time, 6, 187-223. Oxford: Elsevier.).

Ressalta-se a compressão espaciotemporal vivenciada na pós-modernidade, que representa um tempo de insegurança e incerteza, no qual as tradições foram paulatinamente abandonadas e o passado, repudiado para o estabelecimento do espírito moderno (Bauman, 2007Bauman, Z. (2007). Tempos líquidos. São Paulo, SP: Zahar.). A influência das tecnologias de informação e comunicação, que dão aos sujeitos a ideia de estarem conectados a todo tempo e em qualquer lugar; a fragilidade dos limites entre o tempo/espaço de trabalho e o tempo/espaço de família/lazer, e os padrões de autogestão, impostos no modo de trabalhar contemporâneo, são fatores que fazem da era da compressão espaciotemporal uma era que ocasiona diferentes impressões, sofrimentos e incertezas (Frezza, Grisci, & Kessler, 2009Frezza, M., Grisci, C. L. I., & Kessler, C. K. (2009). Tempo e espaço na contemporaneidade: Uma análise a partir de uma revista popular de negócios.Revista de Administração Contemporânea. 13(3), 487-503. doi: 10.1590/S1415-65552009000300009
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).

A compressão espaciotemporal envolve diversos trabalhadores, destacando-se as mulheres que trabalham em bordéis e têm a pretensão de envolverem-se com a prostituição em curto prazo para facilitar uma vida melhor no futuro. Essa busca de um equilíbrio vida-trabalho (por vezes, não alcançado) descreve a ideologia ocupacional denominada “work now, life later” (Blithe & Wolfe, 2018).

Diante desses conceitos e conexões, e compreendendo-se especificidades do trabalho na prostituição, foi realizada uma pesquisa nos moldes seguintes.

PERCURSO METODOLÓGICO

Este estudo caracterizou-se como qualitativo e foi elaborado sob o ponto de vista de análise interpretacionista (Vergara & Caldas, 2005Vergara, S. C., & Caldas, M. (2005). Paradigma interpretacionista: A busca da superação do objetivismo funcionalista nos anos 1980 e 1990. RAE-Revista de Administração de Empresas. 45(4), 66-72. doi: 10.1590/S0034-75902005000400006
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). Quanto aos meios, a investigação constituiu um estudo de caso, preservando características holísticas e significativas do ambiente pesquisado (Yin, 2005Yin, R. K. (2005). Estudo de caso: Planejamento e métodos. Porto Alegre, RS: Bookman.). Quanto aos fins, foi realizada uma pesquisa descritiva (Vergara, 2011Vergara, S. C. (2011). Projetos e relatórios de pesquisa em administração. São Paulo, SP: Atlas.) que se preocupou em detalhar a realidade retratada tanto pelos sujeitos da pesquisa quanto pelo que foi observado in loco. via observação não participante.

Desse modo, a unidade de análise caracterizou-se pelos prostíbulos localizados na Rua Guaicurus, da região central de Belo Horizonte (MG) considerada “baixo meretrício” da cidade, também denominados “hotéis de prostituição”, sendo a unidade de observação composta pelas prostitutas que "batalham" nesse local. Os sujeitos da pesquisa foram especificamente as prostitutas entrevistadas.

Ressalta-se que a região foi escolhida por critérios de intencionalidade e de acessibilidade (Vergara, 2011Vergara, S. C. (2011). Projetos e relatórios de pesquisa em administração. São Paulo, SP: Atlas.), pois é um local onde há grande concentração do público em estudo e, culturalmente, tem seu nome atrelado à prostituição, não somente em Belo Horizonte (MG), mas em todo o País, quando foi disseminado pelo escritor mineiro Roberto Drummond, no romance “Hilda Furacão”, publicado em 1991. As prostitutas participantes deste estudo também foram escolhidas tendo por base os critérios de intencionalidade e de acessibilidade (Vergara, 2011Vergara, S. C. (2011). Projetos e relatórios de pesquisa em administração. São Paulo, SP: Atlas.) e interpeladas in loco, durante o expediente de trabalho, a partir de sua autorização em conceder entrevista.

A coleta de dados deu-se por meio de entrevistas com roteiro semiestruturado, sendo aplicado a 15 prostitutas, entre setembro de 2016 e abril de 2017, com o intuito de desvelar as vivências subjetivas dessas mulheres. O roteiro contemplou, além de dados demográficos, questões de prazer e sofrimento inter-relacionadas ao tempo, de modo a esclarecer as diferentes formas como essas experiências se apresentam, bem como as estratégias de enfrentamento das situações relevantes para as prostitutas. Para fins de análise, todas as entrevistas foram gravadas, transcritas e analisadas à luz da técnica de análise de conteúdo (Bardin, 2006Bardin, L. (2006). Análise de conteúdo. Lisboa, Portugal: Edições 70.).

APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS RESULTADOS

As entrevistadas deste estudo são identificados a partir dos seus “nomes de batalha” ou “nomes de guerra”, isto é, pseudônimos criados por elas para identificação no ambiente de trabalho. O Quadro 1 apresenta algumas características das entrevistadas.

Quadro 1
Caracterização das entrevistadas

Conforme descrito no Quadro 1, a maioria das participantes deste estudo (12), apesar de se prostituir na cidade de Belo Horizonte, é oriunda de outras localidades, sendo duas de cidades do interior de Minas Gerais, nove de outros estados brasileiros e uma de outro país, o Paraguai. Quanto à formação acadêmica, quatro delas possuem ensino superior incompleto, três, ensino fundamental completo ou incompleto e oito, ensino médio completo ou incompleto.

Em relação ao estado civil, a maioria delas não possui nenhum laço de união estável (14), sendo apenas uma casada, ressaltando-se que o marido não sabe de sua atuação como prostituta. Um aspecto importante a ser salientado é que oito das prostitutas entrevistadas neste estudo se enquadram nas características de jovens trabalhadores, ou seja, indivíduos com idades entre 15 e 29 anos de idade, segundo classificação da Organização Internacional do Trabalho (OIT, 2015OIT - Organização Internacional do Trabalho. (2015). Juventude e trabalho informal no Brasil. Brasília: OIT. Recuperado de https://www.ilo.org/wcmsp5/groups/public/---americas/---ro-lima/---ilo-brasilia/documents/publication/wcms_526213.pdf
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).

Interessante sublinhar, ainda, que o “nome de guerra” utilizado pelas entrevistadas deste estudo também reflete questões de ordem pessoal e simbólica. São representações que retratam momentos importantes da vida, como a infância, ou denotam sentimentos e identidades que elas pretendem transmitir, ao passo que escondem seu verdadeiro “eu”. Tais representações podem ser percebidas em alguns relatos, como os seguintes:

Meu nome eu escolhi por causa de uma professora que eu adorava (Bianca).

Me chamo Patrícia porque meu sonho era ser uma das “Patricinhas de Beverly Hills” (Patrícia).

Nesse aspecto, torna-se relevante ressaltar que a tentativa de esconder sua identidade pessoal pode possuir diversos significados, entre os quais se destaca o fato de que essa é uma estratégia comum de mulheres prostitutas para reduzir o contato pessoal e íntimo com o trabalho (Pereira, Palhares, & Silva, 2018Pereira, J. R., Palhares, J. V., & Silva, A. G. C. (2018). Entre o sagrado e o profano: Identidades, paradoxos e ambivalências de prostitutas evangélicas do baixo meretrício de Belo Horizonte. Anais do XLII EnANPAD, ANPAD, Curitiba, PR.; Weitzer, 2018Weitzer, R. (2018). Resistance to sex work stigma. Sexualities. 21(5-6), 717-729. doi: 10.1177/1363460716684509
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), dado que a identidade social da prostituta é repleta de estigmas que as aviltam como indivíduo (Cunha, 2014Cunha, L. A. (2014). Prostituição e religião: A trajetória religiosa de mulheres que praticam a prostituição na região de Santo Amaro - São Paulo. 127 f. Dissertação (Mestrado em Ciências da Religião) - Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo.), tornando-se, por conseguinte, fonte de sofrimento.

Notavelmente, a maioria das entrevistadas (11) possui filhos, todas elas justificando o seu atual trabalho em nome deles e, em alguns casos, de outros dependentes da família, como mãe, pai e irmãos. Tais características se fazem presentes também no estudo de Barros (2005)Barros, L. A. (2005). Mariposas que trabalham: uma etnografia da prostituição feminina na região central de Belo Horizonte. Jus Navigandi, 8(1). Recuperado de http://www.egov.ufsc.br/portal/sites/default/files/anexos/23531-23533-1-PB.pdf
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, segundo o qual a prostituição, como qualquer outra atividade laboral, tem como finalidade suprir as necessidades intrínsecas à sobrevivência humana. Entretanto, ao se tratar de prostituição, a lógica já não é mais a mesma, em função de as relações desse trabalho estarem imbricadas com a cultura, a moral e os costumes dominantes, ou seja, em função de um estigma social, as necessidades básicas de uma prostituta usualmente são avaliadas de modo diferente das necessidades básicas de indivíduos em outras atividades laborais.

Tempo é dinheiro: percepções temporais no ofício da prostituição

Para compreender as vivências relacionadas ao prazer e ao sofrimento no trabalho de mulheres em situação de prostituição, considerar-se-ão, em primeira instância, aspectos relativos ao contexto de trabalho de prostituição e sua relação com o tempo. Nesse sentido, foi possível identificar o que Bauman (2007)Bauman, Z. (2007). Tempos líquidos. São Paulo, SP: Zahar. chama de espaço público não civil, cuja característica central reside na transformação de indivíduos em consumidores, conforme perceptível nos trechos seguintes.

Eu aqui tento me esconder, sabe, tipo assim... Procuro não me envolver. Aqui sou uma mercadoria, só isso. Meu corpo é uma mercadoria (Ana).

Eles [os clientes] passam pelas portas do quarto, avaliam o material, se gostarem perguntam o preço, se faço ou não faço o completo [programa com direito a sexo anal], às vezes entram, fazem o programa e nem sequer perguntam seu nome (Vitória).

Nesse ambiente, corpos são privados de suas subjetivações e tornam-se mercadorias a serem comercializadas e consumidas; entretanto, esses espaços não estimulam a interação, já que não é esperado que o processo de socialização exceda a questão de comercialização do corpo. No que tange a aspectos relacionados ao prazer e sofrimento no trabalho, em uma sociedade onde o trabalho apresenta-se como o fator de distinção entre o “cidadão” e o “marginal” (Veriguine et al., 2014Veriguine, N. R., Basso, C., & Soares, D. H. P. (2014). Juventude e perspectivas de futuro: A orientação profissional no Programa Primeiro Emprego. Psicologia: Ciência e Profissão. 34(4), 1032-1044. doi: 10.1590/1982-370000902013
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), sob uma lente social, o trabalho das prostitutas não as dignifica como cidadãs, pelo contrário, as estigmatiza e marginaliza, sendo uma fonte de sofrimento dessas mulheres. Tal estigmatização pode ser observada nas percepções que algumas das entrevistadas têm acerca de seu próprio trabalho.

Oxe, com certeza (Risos) ser puta é a pior profissão de todas. É pior, oh, a prostituta é pior do que um traficante, porque o traficante tem fama, a prostituta não, ela é difamada, infelizmente (Carol).

Ah, não, eu não vejo isso como profissão, não. Vender o corpo eu não acho, não, isso não dá nada de prazer, isso não. Isso não é trabalho, não há nada digno nisso (Helen).

Note-se que os discursos das entrevistadas são repletos de ambiguidades e ambivalências que, por conseguinte, influenciam diretamente o processo de significação desse trabalho para elas. Assim, nota-se uma relação direta entre permanecer na prostituição (aspectos temporais) e sofrimento. Sob a ótica delas, seu trabalho como prostituta não pode ser assimilado como um parte importante da vida; assim, elas parecem tentar distanciar ao máximo seu tempo de trabalho e seu tempo de viver (Blithe & Wolfe, 2017Blithe, S. J., & Wolfe, A. W. (2017). Work-life management in legal prostitution: Stigma and lockdown in Nevada’s brothels. Human Relations. 70(6), 725-750. doi: 10.1177/0018726716674262
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).

Importante salientar que, considerando a lógica capitalista em que “tempo é dinheiro”, a interação em tal ambiente pode representar alguma forma de prejuízo às profissionais se for além do combinado para o programa. Tal lógica é facilmente percebida a partir dos relatos que se seguem.

A questão do meu tempo, eu procuro ser bem rápida, é que nem eu falo pra todos os meus clientes, tempo é dinheiro. Tempo é dinheiro. Você quer mais, paga mais, eu falo “amor, tempo é dinheiro, você tá na zona, tempo é dinheiro. [...] Se eu ficar cinco minutos dentro do quarto conversando com você, eu tô perdendo tempo do outro tá entrando na minha porta. Tenho que ser rápida” (Ana).

Quando o tempo está acabando, vou logo falando: “sai de cima de mim, goza logo e pronto” (Risos), falo mesmo, “oh, oh, já tá de novo, vai, vai, vai, vai, vai goza logo, é sério". [Seus clientes não se incomodam com isso?] Foda-se se incomodam, ou tipo, ou paga mais pra ficar meia hora ou é só rapidinha mesmo (Carol).

Identifica-se, portanto, a partir dos relatos anteriores, a importância que o tempo possui no ofício da prostituição Nesse contexto, o tempo é percebido como uma mercadoria, algo passível de troca, como salientado por Thompson (1991)Thompson, E. P. (1991). Time, work-discipline and industrial capitalism. In: E. P. Thompson. Customs in common (pp. 352-403). London, UK: Merlin Press. e Hassard (2001)Hassard, J. (2001). Imagens do tempo no trabalho e na organização. Handbook de estudos organizacionais, 2, 190-216). São Paulo, SP: Atlas ., sendo seu uso uma espécie de controle das relações que são estabelecidas a partir dos corpos naquele espaço. Desse modo, o jargão “tempo é dinheiro”, comumente utilizado pelas prostitutas, parece refletir a ideia, difundida por Harvey e Sobral (1994)Harvey, D., & Sobral, A. U. (1994).Condição pós-moderna. São Paulo, SP: Loyola., de que o dinheiro pode ser usado como instrumento de controle do tempo.

Destaca-se a presença de três das cinco dimensões temporais apresentadas por Bluedorn e Jaussi (2007)Bluedorn, A. C., & Jaussi, K. S. (2007). Organizationally relevant dimensions of time across levels of analysis. In Dansereau, F. and Yammarino, F.J. (Ed.) Multi-Level Issues in Organizations and Time, 6, 187-223. Oxford: Elsevier., sendo a primeira o arrastamento, refletido nos relatos anteriores, dado que a prostituta tem o poder de controlar e negociar o tempo, exigindo que o cliente se posicione diante isso. A segunda dimensão é a velocidade, ou seja, o número de atividades desenvolvidas em cada unidade de tempo. Para o caso específico deste estudo, as prostitutas entrevistadas afirmaram fazer, em média, 30 programas em dias pouco movimentados e cerca de 45 programas em dias de grande fluxo de clientes, podendo chegar a 80 programas diários na semana do quinto dia útil de cada mês (dia de pagamento da maioria dos trabalhadores brasileiros). Tal dimensão, no contexto da prostituição, pode ser explicada em função de que, assim como propõe a ótica capitalista (Harvey & Sobral, 1994Harvey, D., & Sobral, A. U. (1994).Condição pós-moderna. São Paulo, SP: Loyola.), o aumento do lucro está diretamente relacionado ao aumento da velocidade da atividade desenvolvida, ou seja, quanto mais programas uma prostituta realizar, maior o rendimento de seu dia de trabalho. Em função disso, identifica-se a adoção de algumas estratégias por parte delas para aumentarem seu lucro:

Já cansei de ter relação com o homem imaginando que eu estou transando com o meu namorado e já cansei de estar caladinha no meio do nada e lembrar que eu tenho que estar gemendo para o homem gozar (Risos), entendeu? (Risos) “Deixa eu gemer senão ele não goza”. [Isso é uma estratégia?] É porque ajuda, né?, ao homem gozar mais rápido. Então é por isso, quando a gente passa nos corredores e tem gente gemendo numa altura aí o cara sai mais rápido, parece que a menina está morrendo de prazer, mas é tudo fingimento (Bianca).

Eu não apresso, não, mas também não sou burra, né? (Risos). Tipo assim, eu falo: "Meu bem, o tempo já deu, você quer continuar ou quer parar?" [Um exemplo?] Ah, dependendo um cliente fala assim: "Vamos fazer uma hora?". Eu falo, assim, eu me dedico assim à performance para ele gozar antes e terminar em menos de uma hora (Malu).

Em função desse contexto, a rapidez da prática sexual assume grande relevância para que se possa compreender o trabalho das prostitutas. Percebem-se, novamente, indícios de que tempo e temporalidade são variáveis importantes a considerar ao se analisarem contextos de trabalhos permeados pela precariedade, insegurança e incerteza (Pitts, 2015Pitts, F. H. (2015). Time and work. Time & Society. 24(3), 390-395. doi: 10.1177/0961463X15615720
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).

Assim, eu vim pra ficar uma semana e estou até hoje. A prostituição pra mim é um caminho muito errado, assim, é um caminho meio sem volta, porque dinheiro rápido eu acho que vicia muito. Não é um dinheiro fácil, porque todo mundo fala que é um dinheiro fácil e não é, é dinheiro rápido, sabe?! Eu acho que é muito viciante (Malu).

Aqui dentro parece que tem uma coisa, sei lá, um espírito ruim, quando você entra é muito difícil de sair. Eu entrei aqui há seis anos, já tentei sair várias vezes e não consegui, acho que é por causa do dinheiro rápido, você não passa muito aperto financeiro, mas perde em outra parte. No final das contas acho que mais perde do que ganha (Paloma).

Assim como salientado por Barros (2005)Barros, L. A. (2005). Mariposas que trabalham: uma etnografia da prostituição feminina na região central de Belo Horizonte. Jus Navigandi, 8(1). Recuperado de http://www.egov.ufsc.br/portal/sites/default/files/anexos/23531-23533-1-PB.pdf
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, o “ganhar dinheiro” está diretamente relacionado a atender o maior número de clientes possível. Nesse sentido, nota-se uma dependência que as entrevistadas possuem ao que Frezza et al. (2009)Frezza, M., Grisci, C. L. I., & Kessler, C. K. (2009). Tempo e espaço na contemporaneidade: Uma análise a partir de uma revista popular de negócios.Revista de Administração Contemporânea. 13(3), 487-503. doi: 10.1590/S1415-65552009000300009
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chamam de eixo do capitalismo, marcado pela perda de autonomia de seus próprios corpos e sua vida, onde tudo pode ser comprado, inclusive a vida e o próprio tempo, o que pode constituir uma fonte de sofrimento.

A terceira dimensão temporal presente nos relatos é a profundidade (Bluedorn & Jaussi, 2007Bluedorn, A. C., & Jaussi, K. S. (2007). Organizationally relevant dimensions of time across levels of analysis. In Dansereau, F. and Yammarino, F.J. (Ed.) Multi-Level Issues in Organizations and Time, 6, 187-223. Oxford: Elsevier.), havendo maior ligação das entrevistadas com o futuro para pautar suas ações no presente, uma vez que a maioria delas ressalta a perspectiva de, em determinado tempo, abandonar a prostituição. Para tanto, as entrevistadas utilizam como uma justificativa para o tempo presente a transitoriedade do trabalho e o alcance de um futuro diferente por meio dos recursos obtidos por meio dele, o que corrobora Pereira et al. (2018)Pereira, J. R., Palhares, J. V., & Silva, A. G. C. (2018). Entre o sagrado e o profano: Identidades, paradoxos e ambivalências de prostitutas evangélicas do baixo meretrício de Belo Horizonte. Anais do XLII EnANPAD, ANPAD, Curitiba, PR..

Não é a coisa que eu quero pro resto da minha vida [...] (Sabrina).

Já juntei uma grana, vou terminar de juntar e daqui a alguns meses, se Deus quiser, eu vou tá fora daqui. Então, porque eu tô montando o meu negócio lá fora. Eu não quero, hoje eu tô com 36 anos, como eu falei, daqui a pouco vou tá com 40, 50 e não quero tá dentro da zona. 50 anos eu quero tá com meu pezinho de meia bem formado lá fora e sossegada. [...] Vamos pôr, daqui 10 meses, eu quero, determinei que no máximo 10 meses eu tô saindo dessa vida pra mim abrir a minha doceria que tá quase pronta (Ana).

A situação demonstrada nos relatos expostos constitui uma fonte de sofrimento ora diacrônica, dado que ela está relacionada a acontecimentos passados, ou seja, o momento em que essas mulheres se iniciaram no ofício da prostituição, ora sincrônica, em função do fato de elas ainda estarem se prostituindo e não conseguirem “abandonar essa vida”. Nesse sentido, Dejours (1996)Dejours, C. (1996). Uma nova visão do sofrimento humano nas organizações. In J. F. Chanlat (Org.), O indivíduo na organização: Dimensões esquecidas (pp. 149-173). São Paulo, SP: Atlas. argumenta que, para tais casos, as consequências do sofrimento exteriorizam o espaço em que o indivíduo se insere, gerando reflexos em todos os âmbitos de suas vidas. Tem-se, portanto, o início do processo de dissolução das fronteiras entre tempo de trabalho e tempo de viver (Frezza et al., 2009Frezza, M., Grisci, C. L. I., & Kessler, C. K. (2009). Tempo e espaço na contemporaneidade: Uma análise a partir de uma revista popular de negócios.Revista de Administração Contemporânea. 13(3), 487-503. doi: 10.1590/S1415-65552009000300009
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; Pereira et al., 2018Pereira, J. R., Palhares, J. V., & Silva, A. G. C. (2018). Entre o sagrado e o profano: Identidades, paradoxos e ambivalências de prostitutas evangélicas do baixo meretrício de Belo Horizonte. Anais do XLII EnANPAD, ANPAD, Curitiba, PR.).

Outro ponto importante a ser salientado refere-se à noção de compressão temporal, destacada por Bauman (2007)Bauman, Z. (2007). Tempos líquidos. São Paulo, SP: Zahar., ou seja, o processo de aceleração do ritmo de vida em função da ótica dominante do capital, que é claramente identificável em trechos das entrevistas realizadas, dando luz, portanto, a outra fonte geradora de angústia e sofrimento psíquico das prostitutas abordadas. Além disso, pode ser percebida a questão da excessiva ligação ao tempo cronológico, fato que, aliado às características do ambiente de trabalho das prostitutas (ambiente fechado, com luzes artificiais, coloridas e de baixa intensidade), dificulta uma ligação das prostitutas com o tempo natural.

Eu fico, eu fiquei meio perdida assim com o tempo, não estou sabendo lidar muito. Eu te falei, eu tenho meta de chegar aqui cedo e sair cedo, mas eu não consigo. Aí, assim, se eu falar, vou sair cedo, aí, chega cliente, você cresce o olho e vai ficando assim, é muito ruim. É um desgaste, assim, você não vê o tempo passar, é muito ruim (Malu).

Aqui dentro parece que a hora passa mais rápido. Ainda mais quando você tá trabalhando, você assusta, já tá quase na hora de você ir embora. Não tem janela, a porta é lá embaixo, tipo você entra e não tem contato com o mundo lá fora, acaba perdendo a noção de tudo, se é manhã, tarde ou noite... E eu tipo assim, eu entro aqui eu não saio até a hora de eu ir embora mesmo (Lorena).

Como apontado por Blithe e Wolfe (2017)Blithe, S. J., & Wolfe, A. W. (2017). Work-life management in legal prostitution: Stigma and lockdown in Nevada’s brothels. Human Relations. 70(6), 725-750. doi: 10.1177/0018726716674262
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a ideologia ocupacional “work now, life later” é verificada no caso dessas profissionais do sexo, confirmando que há um desequilíbrio concreto sobre o tempo dedicado ao trabalho e o tempo relacionado a outros interesses pessoais. Nesse sentido, as percepções temporais relacionadas ao ofício das participantes deste estudo apresentam-se como importantes variáveis para que se possa compreender suas vivências tanto de prazer quanto de sofrimento no trabalho em maior profundidade.

Sobre prazer e sofrimento no ofício da prostituição

Inicialmente, salienta-se que o principal argumento utilizado pela maior parte das entrevistadas para sustentar a entrada e a permanência delas na prostituição reside na questão financeira. A maioria delas (13) justifica sua atual posição em função de dar condições de vida mais dignas para suas respectivas famílias e entes queridos, sendo esta uma de suas principais fontes de prazer relativas ao trabalho.

Eu cansei de ser faxineira, cansei de estar na casa, a mulher sair e deixava o cara lá dando em cima de mim, o próprio marido, querendo fazer gracinha comigo. E eu cansei dessa vida de fazer as coisas para os outros e vendo meus filhos passando dificuldades. Hoje em dia, eu faço só para mim e por eles. [...] Sempre me perguntam: “Por que você não está trabalhando em uma loja? Em uma padaria? Faxineira?". Isso, isso, aquilo. Mas eu pelo menos, foda-se... Estou vivendo a minha vida, pago as minhas contas. Se eu não quisesse cuidar da minha família eu não cuidava, mas eu penso que tenho a minha responsabilidade, cuido e zelo dos meus filhos, meus filhos ganham melhor hoje do que quando eu tinha o pai deles. Melhor, o pai não ajudava em porra de nada, minha sogra morreu, a família dos meus filhos, todos sabem que eu sou puta, todos (Carla).

Tem um motivo que me dá prazer, é poder ver meu filho bem e saber que eu que fiz alguma coisa por ele e saber que meu filho tá lá onde ele tá tranquilo, sabendo que a mãe dele não deixou a peteca cair (Gi).

Assim, além do “dinheiro rápido”, destaca-se um processo latente de empoderamento, no qual elas, apesar de não se sentirem felizes em trabalhar como prostitutas, se orgulham de terem coragem para tal, mudando o curso de sua vida e, em especial, dos seus entes queridos. Destarte, tais sentimentos podem ser compreendidos tanto como fontes de prazer, dado que elas, em um sistema psicossocial, articulam suas necessidades e desejos com o trabalho (Castro & Cançado, 2009Castro, P. M., & Cançado, V. L. (2009). Prazer e sofrimento no trabalho: A vivência de profissionais de recursos humanos. Gestão & Planejamento. 10(1), 19-37.), quanto como uma estratégia para lidar com o sofrimento imposto por suas vivências no trabalho (Dejours, 1994Dejours, C. (1994). A carga psíquica do trabalho. In C. Dejours, E. Abdoucheli, C. Jayet, & M. I. S. Betiol (Coords.), Psicodinâmica do trabalho: Contribuições da escola dejouriana à análise da relação prazer, sofrimento e trabalho (pp. 21-32). São Paulo, SP: Atlas.), já que o ressignifica a partir do bem-estar de terceiros (família, filhos).

Como encontrado por Pereira et al. (2018)Pereira, J. R., Palhares, J. V., & Silva, A. G. C. (2018). Entre o sagrado e o profano: Identidades, paradoxos e ambivalências de prostitutas evangélicas do baixo meretrício de Belo Horizonte. Anais do XLII EnANPAD, ANPAD, Curitiba, PR., faz-se presente um processo de negação ao prazer por parte das entrevistadas, dado que o prazer pessoal nesse trabalho é visto como algo que pode desviar a atenção do que realmente importa, o dinheiro. Assim, nesse ramo, a negação ao prazer próprio é vista como maturidade da “profissional do sexo”.

Aqui não é lugar de puta gozar, não, meu filho, aqui é lugar de fazer dinheiro (Fernanda).

Antigamente, na Brilhante [hotel de prostituição mais famoso da Guaicurus], logo quando comecei, tinha muitos homens bonitos e tal, eu acho que eu era a gozolândia em pessoa (Risos). Mas hoje em dia eu acho que é o contrário, amadureci e parei com isso (Vitória).

Um achado importante deste estudo reside na prerrogativa de que, sob a perspectiva do prazer e sofrimento no trabalho de prostitutas do baixo meretrício, a maturidade profissional está diretamente relacionada à negação do prazer, apresentando, consequentemente, indícios de que, para trabalhos precarizados e estigmatizados, as vivências de sofrimento sobressaem às de prazer. Considerando que, no Brasil, o trabalho é tido como uma principal distinção entre “cidadão” e “marginal” (Veriguine et al., 2014Veriguine, N. R., Basso, C., & Soares, D. H. P. (2014). Juventude e perspectivas de futuro: A orientação profissional no Programa Primeiro Emprego. Psicologia: Ciência e Profissão. 34(4), 1032-1044. doi: 10.1590/1982-370000902013
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), dado o estigma apregoado sobre a prostituição (Sanders, 2018Sanders, T. (2018). Unpacking the process of destigmatization of sex work/ers: Response to Weitzer ‘Resistance to sex work stigma’. Sexualities. 21(5-6), 736-739. doi: 10.1177/1363460716677731
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), ser uma prostituta é condição basilar para ser uma “marginal”. Observando esse cenário, note-se que as vivências de sofrimento no trabalho de prostitutas se fazem presentes com mais frequência e intensidade que as vivências relatadas relacionadas ao prazer. Entre os motivos de maior frequência, destacam-se a violência verbal ou física, o preconceito, a afronta a valores pessoais e o tipo de cliente atendido.

Tem muitos homens que olham para gente igual lixo, sabe?! A gente vê a expressão deles, sabe?! A gente fala o valor do programa, aí eles olham para a gente como que se estivesse cobrando um absurdo, sabe, é muito ruim, 15 reais não é nada (Bianca).

Taxista desgraçado. Fui parar na delegacia com ele. Entrei no táxi: “Me leva no shopping Del Rey?”. Ele virou, olhou para a minha cara: “Você faz o quê?”. “Trabalho ali na zona”. “Sai do meu táxi agora”. “Não vou sair, por que eu tenho que sair do seu táxi? Vou pagar, estou pagando, meu filho”. “Sai do meu táxi agora”. “Não vou sair", e fiquei. O cara deu a volta, me puxou pelo cabelo e me colocou para fora do táxi. Falei: “Você me puxou pelo cabelo e me botou para fora do táxi? Está bom”, peguei meu tamanco, “páaaa”, quebrei o vidro do carro. Aí passou polícia lá. Aí eu falei para o policial o que tinha acontecido. O homem puto, gritando, gritando, gritando, gritando, o policial saiu, o homem foi e me deu um soco aqui, peguei a garrafa que estava no chão, taquei na mão dele (Suelen).

Assim como salientado por outros estudos, violência e preconceito são alguns dos principais reflexos envolvidos no estigma social da prostituta (Cunha, 2014Cunha, L. A. (2014). Prostituição e religião: A trajetória religiosa de mulheres que praticam a prostituição na região de Santo Amaro - São Paulo. 127 f. Dissertação (Mestrado em Ciências da Religião) - Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo.; Leite, 2008Leite, G. S. (2008). Filha, mãe, avó e puta: A história de uma mulher que decidiu ser prostituta. São Paulo, SP: Objetiva.; Lobo & Sampaio, 2016Lobo, B. N. L., & Sampaio, J. A. L. (2016). A prostituição e a dignidade da pessoa humana: Crítica literária e musical à negação do direito fundamental ao trabalho.Espaço Jurídico: Journal of Law. 17(3), 913-932. doi: 10.18593/ejjl.v17i3.10554
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; Meihy, 2015Meihy, J. C. S. B. (2015). Prostituição à brasileira: cinco histórias. São Paulo, SP: Contexto.; Pereira et al., 2018Pereira, J. R., Palhares, J. V., & Silva, A. G. C. (2018). Entre o sagrado e o profano: Identidades, paradoxos e ambivalências de prostitutas evangélicas do baixo meretrício de Belo Horizonte. Anais do XLII EnANPAD, ANPAD, Curitiba, PR.; Weitzer, 2018Weitzer, R. (2018). Resistance to sex work stigma. Sexualities. 21(5-6), 717-729. doi: 10.1177/1363460716684509
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), sendo estes fruto de uma construção social que marginaliza esses “seres errantes” (Barreto, 2013Barreto, L. C. (2013). Prostituição, gênero e trabalho. Rio de Janeiro, RJ: Multifoco.; Roberts, 1992Roberts, N. (1992). As prostitutas da história. Rio de Janeiro, RJ: Rosas dos Tempos.), em função da sujeira, impureza e “pouca-vergonha” associada ao seu ofício. Nesse mesmo sentido, enfatiza-se ainda um processo de autopunição psicológica de algumas prostitutas (Sanders, 2018Sanders, T. (2018). Unpacking the process of destigmatization of sex work/ers: Response to Weitzer ‘Resistance to sex work stigma’. Sexualities. 21(5-6), 736-739. doi: 10.1177/1363460716677731
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), sobretudo aquelas religiosas, dado que suas ações vão de encontro aos seus valores pessoais, ou seja, representam um sofrimento diacrônico que se fundamenta em valores solidificados ao longo de sua história pessoal (Dejours, 1996Dejours, C. (1996). Uma nova visão do sofrimento humano nas organizações. In J. F. Chanlat (Org.), O indivíduo na organização: Dimensões esquecidas (pp. 149-173). São Paulo, SP: Atlas.), conforme retratado nos relatos a seguir.

O pecado! A única coisa, porque eu sei que eu tô errando, mas... Eu vivo isso sabendo que não pode. [Você sofre por causa disso?] Muito, misericórdia, demais! (Carol).

O peso da mão de Deus é muito árduo, né? E eu conheço a Palavra e por alguns motivos eu vim parar aqui, motivos sérios. Então, eu tive que vir parar aqui, entendeu? Eu não deixei da igreja, só que eu deixei de tomar a santa ceia, eu deixei, eu deixei de viver a minha vida cristã por causa disso aqui (Gi).

Tais relatos corroboram Pereira et al. (2018)Pereira, J. R., Palhares, J. V., & Silva, A. G. C. (2018). Entre o sagrado e o profano: Identidades, paradoxos e ambivalências de prostitutas evangélicas do baixo meretrício de Belo Horizonte. Anais do XLII EnANPAD, ANPAD, Curitiba, PR., que apontam que a religiosidade no ofício da prostituição é uma fonte de sofrimento não só psíquico como também físico, por ser comum a várias prostitutas se automutilarem, como se o ato as “redimisse de seus pecados” oriundos de seu trabalho. Os autores ainda apontam que a religiosidade na prostituição é uma fonte de ambivalências e crises e fragmentações identitárias, ao passo que é motivo de alívio e conforto, materializando-se como fonte ora de prazer, ora de sofrimento.

Importa destacar ainda que, para este estudo, os clientes também são, mesmo que paradoxalmente, em algumas instâncias, fonte de sofrimento no trabalho das prostitutas (Durant & Couch, 2019Durant, B., & Couch, J. (2019). ‘It’s just more, you know, natural’: The perceptions of men who buy sex in an emerging street sex market. Sexualities. 22(3), 310-324. doi: 10.1177/1363460717737489
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). Apesar de estarem relacionados à principal fonte de prazer relatada pelas entrevistadas (o dinheiro), por outro lado, eles causam sofrimento, conforme exemplificado a seguir.

Para mim, a parte negativa são os bêbados, os noiados, esses drogados que vêm. É a parte mais difícil pra mim lidar dentro desse lugar (Ana).

Tem o que pede para chamar ele de pai. Senta no colo, me chama de pai. Acho que ele é pedófilo, porque não é possível. Como que a pessoa vem aqui e me pede para chamar ele de pai, de tio, “oh papai”? “Pede seu pai para comer seu ...”, não gosto nem de falar (Suelen).

É um desgaste muito emocional. Eu posso sair daqui com 200 reais, com 500 reais, eu nunca vou embora, nunca vou embora feliz (Malu).

É difícil, porque não é uma pessoa que você gosta, é qualquer pessoa que aparecer. Aí, você pensa primeiro no dinheiro (Samara).

Para lidar com tais vivências de sofrimento, identificou-se que as prostitutas entrevistadas utilizam diversas estratégias, cuja função principal reside na tentativa de atenuar e/ou evitar o sofrimento que seu trabalho pode gerar. Entre as principais estratégias identificadas com esse fim, destaca-se o uso de drogas lícitas e/ou ilícitas para lidar com essa face do trabalho. A maioria das prostitutas afirma ter amigas que o fazem, e outras assumiram utilizá-las na tentativa de suportar o sofrimento.

Eu uso maconha e bebida. Eu bebo para caramba, gosto de beber, não quando eu venho para cá, mas quando saio eu gosto de beber. Agora maconha quando eu estou estressada. Hoje de manhã eu estava muito estressada, aí tive que fumar um, porque homem é um saco (Fernanda).

Eu vou falar a verdade, eu tomo qualquer remédio tarja preta pra trabalhar aqui, porque você fica mais tranquila, entendeu? Esses tarja preta mesmo, a gente compra aí na clandestinidade (Risos). Esses farmacêuticos mesmo, na boca da farmácia a gente compra assim, aí ele, aí eu tomo assim, todo dia, para poder ficar mais agradável (Sabrina).

Nesse contexto, sublinha-se a profundidade temporal (Bluedorn & Jaussi, 2007Bluedorn, A. C., & Jaussi, K. S. (2007). Organizationally relevant dimensions of time across levels of analysis. In Dansereau, F. and Yammarino, F.J. (Ed.) Multi-Level Issues in Organizations and Time, 6, 187-223. Oxford: Elsevier.) demonstrada pelas prostitutas focadas no passado, que pode ser vista ora como fonte de sofrimento, ora como estratégia de enfrentamento.

Se eu tivesse escutado minha mãe, se tivesse estudado ao invés de casar, eu estaria em uma situação muito diferente nesta vida. O pior é que eu nem tive tempo de pedir desculpas a ela, nem de falar que ela estava certa (Gi).

Olha, pra você ver, eu entrei em duas faculdades e não consegui. Eu estava olhando umas amigas minha que entraram na mesma época que eu, quando eu nem estava trabalhando aqui ainda, sabe, já formaram, sabe? Mas não sei, isso me frustra um pouquinho. Tem uma coisa me agarrando, que eu tenho que ficar aqui, não sei o que é não, viu? (Sabrina).

Por outro lado, há aquelas cuja profundidade temporal fixa-se no futuro, ou seja, aquelas que focam futuras oportunidades e utilizam isso como uma estratégia de enfrentamento no sentido de lidar e atenuar o sofrimento oriundo de seu contexto de trabalho. Nesse sentido, é perceptível que as diversas dinâmicas e regimes temporais que coexistem no capitalismo obrigam os sujeitos a agir e pensar conforme diferentes modelos temporais ao mesmo tempo (Lainez, 2019Lainez, N. (2019). Treading water: Street sex workers negotiating frantic presents and speculative futures in the Mekong Delta, Vietnam. Time & Society. 28(2), 804-827. doi: 10.1177/0961463X18778473
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).

Ah, porque eu vejo assim que o tempo flui muito rápido, eu procuro sair daqui, terminar minha faculdade, entendeu? Eu ter uma, eu ter um, uma vida melhor (Malu).

Em breve eu vou sair daqui e montar meu negócio, graças a Deus. Consegui resolver quase todos os meus problemas e ainda fiz um pé de meia. Meus dias aqui estão contados, com a graça de Deus (Patrícia).

Em termos gerais, predominaram relatos com referência a vivências de sofrimento no cotidiano das prostitutas, pois, para muitas delas, o tempo vivenciado na prostituição é um tempo de dor, humilhação, angústia, em que reina o tempo cronológico. Isso traz consequências para além do tempo de trabalho, atingindo também o tempo livre dessas prostitutas que carregam consigo tais marcas do sofrimento oriundo da profissão e, muitas vezes, precisam lidar sozinhas com essa situação, visto que não possuem apoio social nem dos familiares. Elas se apegam à máxima “tempo é dinheiro”, sendo esta a fonte de prazer que as faz continuar nessa ocupação.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Tida como a profissão mais antiga da humanidade, a prostituição é permeada por dilemas, preconceitos, estigmas e outras construções sociais que não inviabilizam sua realização em diversos países e regiões do mundo. No bojo de questões acadêmicas e sociais, destaca-se a ótica do capital sobre a qual ela se estrutura, bem como aspectos subjetivos que envolvem seus praticantes, como as vivências de prazer e sofrimento no trabalho.

Buscando analisar de que forma aspectos temporais influenciam as percepções e vivências de prazer e sofrimento no trabalho de prostitutas, especificamente as que trabalham na zona da Rua Guaicurus (Belo Horizonte, MG), os dados permitiram identificar um processo de mercadorização do tempo, em que unidades dele são colocadas à troca por dinheiro, ratificando assim a ideia de que “tempo é dinheiro”, jargão que perpassa as relações estabelecidas entre mulheres prostitutas, clientes e sociedade. Em função disso, nota-se a compressão temporal, na qual o “tempo de viver” é pressionado pelo “tempo de trabalho”, gerando, por conseguinte, sofrimento físico e psíquico nas prostitutas.

Como reflexo desse paradoxo, no qual essas mulheres trabalham para sobreviver e garantir a sobrevivência de terceiros, elas são oprimidas e estigmatizadas em função de seu contexto de trabalho, criando assim vivências ora de prazer, ora de sofrimento. No caso do prazer, ele está relacionado basicamente à questão financeira, bem como ao anseio de “sair dessa vida”, deixando para trás as marcas da prostituição. Tal fato atribui uma ideia de transitoriedade ao ofício da prostituição, dado que ele é visto por suas integrantes como os meios que serão justificados pelos fins.

Quanto ao sofrimento oriundo do trabalho da prostituição, as principais vivências discutidas neste estudo são um reflexo de uma construção social de que a prostituição é algo sujo, imoral e pecaminoso, fato que constrói a ideia de que as prostitutas são “mulheres de vida fácil”. Essa percepção é completamente repudiada pelas entrevistadas, pois suas histórias de vida contam o contrário. Nesse sentido, por meio do presente estudo, foi possível identificar que as vivências de sofrimento de prostitutas superam em quantidade e intensidade suas vivências de prazer, colocando em xeque, então, o argumento de que elas sejam “mulheres de vida fácil”.

Há de se considerar ainda a inversão da lógica social relacionada ao trabalho quando o trabalho em questão é a prostituição. O trabalho na sociedade contemporânea é tido como fonte de distinção entre o certo e o errado, o bem e o mal, o digno e o marginal. Entretanto, o que identificou-se foi que o fato de estarem se prostituindo como forma de garantir o sustento próprio e de seus familiares transforma a mulher prostituta em um ser impuro e marginalizado. Notavelmente, tal inversão é fruto de padrões sociais e morais que ditam as normas subjetivas de uma sociedade como a brasileira, porém que pouco faz para mitigar os impactos desse estigma sobre essas pessoas. Nesse aspecto, o presente estudo põe em questionamento as estruturas sociais que aviltam essas mulheres em função de seu ofício (apenas elas e nunca seus clientes).

Por fim, dado que foram analisadas percepções de profissionais do sexo feminino e do baixo meretrício, descortinam-se questões relacionadas às relações de trabalho na sociedade brasileira atual, na qual se observa precarização crescente. Nesse sentido, e por exemplo, estudos com prostitutas de luxo podem revelar outros vieses em termos das percepções dessas profissionais a respeito dos temas aqui tratados, bem como com profissionais do sexo masculino, trans etc. Nesse mesmo sentido, a maior parte dos sujeitos abordados compunha um grupo de jovens trabalhadoras, instigando-se o desenvolvimento de pesquisas que contemplem outras faixas etárias, inclusive para efeitos de comparação, buscando compreender questões relativas ao seu trabalho, bem como o impacto dele em sua vida pessoal.

Em síntese, as contribuições teóricas deste estudo podem ser colocadas da seguinte forma: aprofundamento na compreensão das ambiguidades que permeiam o trabalho da prostituta, no contexto abordado; foco no paradoxo centrado nas vivências de prazer e de sofrimento, sendo as primeiras voltadas mais para os resultados do trabalho (sobrevivência e bem-estar próprio e de terceiros) do que para o trabalho em si (arriscado, violento, estigmatizado), cujas consequências se estendem para além do próprio tempo dedicado ao trabalho, bem como para outros espaços frequentados pelas mulheres pesquisadas; desnudamento de outras questões relacionadas ao sofrimento no trabalho, que têm sido desconsideradas nos Estudos Organizacionais, já que aqui se abordaram uma profissão e um espaço de trabalho não usuais e, antes, estigmatizados, como se fossem indignos de estudo e compreensão ou, mesmo, como se não gerassem renda e (alguma) dignidade para seu praticante; possibilidade de questionamento de padrões morais que conseguem abarcar apenas o lado marginalizado da prostituição, mas que “fecham os olhos” para necessidades reais de pessoas que são resolvidas via trabalho na sociedade contemporânea. Como contribuições pragmáticas, sublinham-se as luzes lançadas sobre as estratégias de enfrentamento e resistência desenvolvidas pelas prostitutas, no sentido de poderem servir de inspiração ou exemplo para outras que se encontram em situações semelhantes; no dia a dia delas, percebeu-se que a ressignificação do sofrimento tem sido constante, o que lhes permite lidar de modo mais efetivo com as contradições físicas e psíquicas de seu trabalho e otimizar seu tempo produtivo, em benefício próprio e dos terceiros que lhe são caros.

Como limitações do presente estudo, destaca-se a dificuldade na etapa de coleta de dados da pesquisa, uma vez que ela foi realizada in loco, ou seja, nos “hotéis de prostituição” da rua Guaicurus e no horário de funcionamento deles. O acesso a tais locais é complexo e envolve diálogos com outros públicos para além das prostitutas.

  • Avaliado pelo sistema double blind review.
  • Versão original

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Editado por

Editor Científico: Sidinei Rocha-de-Oliveira

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    03 Jul 2020
  • Data do Fascículo
    May-Jun 2020

Histórico

  • Recebido
    19 Mar 2019
  • Aceito
    18 Set 2019
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