Pode a hérnia inguinal transformar-se em um dilema?

Fares Rahal Dário Birolini

À beira do leito

Clínica Cirúrgica

PODE A HÉRNIA INGUINAL TRANSFORMAR-SE EM UM DILEMA?

De modo geral, o tratamento da hérnia inguinal não desperta muitas dúvidas. É cirúrgico. Pode-se perguntar quais as a técnicas mais adequadas, quando indicá-las ou como realizá-las, mas a discussão é restrita. Há casos, porém, que fogem desta norma. Imaginemos um homem de 86 anos de idade, diabético em uso de medicamentos, fumante inveterado e tossidor crônico, com dificuldades à micção, que tem uma hérnia inguinal e relata sucessivas crises de encarceramento. O que fazer?

Imaginemos que este paciente dê entrada no serviço de emergência durante um episódio de encarceramento e que você consiga reduzir a hérnia, ainda que com certa dificuldade. Imaginemos, ainda, que ao exame clínico ele apresente sinais e sintomas evidentes de doença pulmonar crônica obstrutiva e o toque retal evidencie próstata aumentada de consistência elástica. Como conduzir seu tratamento daqui por diante?

Uma conduta que poderia ser proposta seria o uso de funda de sustentação. Obviamente não pode ser recomendada. A alternativa mais adequada é mantê-lo internado e tratá-lo cirurgicamente, uma vez realizada uma avaliação mais abrangente e feito um planejamento global para diagnosticar e corrigir os distúrbios associados. Assim, cabem alguns exames laboratoriais (hemograma, creatinina, glicemia, gasometria e PSA, por exemplo) além de uma radiografia de tórax, um eletrocardiograma e uma avaliação ultra-sonográfica das vias urinárias, da bexiga e da próstata. O problema pulmonar pode ser controlado, ainda que dentro de limites, por fisioterapia respiratória, drogas broncodilatadoras e, eventualmente, antibioticoterapia. A dificuldade miccional pode ser solucionada, em caráter temporário, através de fármacos que promovam a redução da próstata ou que facilitem a micção. Durante a intervenção para a correção da hérnia, deve ser planejado o uso de sonda vesical a ser removida tão logo o doente consiga deambular. Mesmo assim, cabe introduzir antibioticoterapia. A ressecção endoscópica de próstata pode ser planejada tanto durante o procedimento de correção da hérnia como em uma segunda etapa.

A prudência nos leva a deixar o procedimento de desobstrução urinária para um segundo tempo, caso as condições clínicas do doente a contra-indiquem. É claro que o diabetes deve ser controlado por meio de dieta e fármacos apropriados durante todo o período de internação. Na fase per-operatória é necessária a verificação freqüente da glicemia e o controle de hiperglicemia através do uso de insulina rápida. Quanto à anestesia, haveria três alternativas: a local, o bloqueio e a geral. Provavelmente a mais recomendada é o bloqueio que implica em menor volume de droga e em menor agressão ao doente, particularmente quando ele apresenta, como é o caso, graves limitações respiratórias. Deve ser lembrada a conveniência de prevenir a trombose venosa profunda dos membros inferiores através de medidas mecânicas e farmacológicas e pela deambulação precoce. Daí, decide-se quando e como operar.

Evidentemente, a técnica e a tática dependerão da experiência do cirurgião e dos achados operatórios. Este exemplo evidencia os dilemas que o cirurgião pode enfrentar no tratamento de uma afecção extremamente comum, mas de complexidade incomum.

Fares Rahal

Dário Birolini

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    24 Abr 2001
  • Data do Fascículo
    Mar 2001
Associação Médica Brasileira R. São Carlos do Pinhal, 324, 01333-903 São Paulo SP - Brazil, Tel: +55 11 3178-6800, Fax: +55 11 3178-6816 - São Paulo - SP - Brazil
E-mail: ramb@amb.org.br