Avaliação da prevalência e de determinantes nutricionais e sociais do excesso de peso em uma população de escolares: análise transversal em 5.037 crianças

Caroline Filla Rosaneli Flavia Auler Carla Barreto Manfrinato Claudine Filla Rosaneli Caroline Sganzerla Marcely Gimenes Bonatto Marina Lindstron Wittica Cerqueira Amauri Aparecido Bassoli de Oliveira Edna Regina Oliveira-Netto José Rocha Faria-Neto Sobre os autores

Resumos

OBJETIVO: Avaliar a prevalência e os determinantes nutricionais e sociais do excesso de peso em uma população de escolares no sul do Brasil. MÉTODOS: Estudo descritivo transversal com 5.037 crianças de ambos os sexos, entre seis e 10,9 anos, de escolas públicas e privadas de Maringá, Paraná. A avaliação de fatores associados ao excesso de peso (sobrepeso e obesidade) incluiu gênero, idade, tipo de escola, nível socioeconômico, instrução do chefe da família, hábitos alimentares e meio de deslocamento à escola. Após análise univariada (teste exato de Fisher), foi ajustado um modelo de Regressão Logística e considerado o teste de Wald para a tomada de decisão (p < 0,05). RESULTADOS: A média de idade foi de 8,7 ± 1,3 ano, sendo 52,8% do gênero feminino, 79,1% estudantes de escola pública e 54,6% pertencentes a famílias com classe socioeconômica A ou B. Com relação ao estado nutricional, 24% das crianças apresentavam excesso de peso (obesidade 7%; sobrepeso 17%). Ser do gênero masculino, estudar em escola privada e ter chefe de família com mais de quatro anos de escolaridade estiveram significativamente associados ao excesso de peso. Com relação à alimentação, o consumo inadequado de carboidratos esteve associado a uma chance 48% maior de sobrepeso/obesidade (p < 0,001; OR: 1,48; IC 95%: 1,25-1,76). CONCLUSÃO: A prevalência de excesso de peso encontrada nesse estudo é aproximada ao reportado em estudos nacionais. Sua associação a gênero e consumo inadequado de alimentos indica que esses fatores devem ser considerados em iniciativas que visem medidas preventivas na infância.

Saúde escolar; sobrepeso; obesidade; consumo de alimentos


OBJECTIVE: To evaluate the prevalence and nutritional and social determinants of overweight in a population of schoolchildren in Southern Brazil. METHODS: Cross-sectional descriptive study of 5,037 children of both genders, between 6 and 10.9 years of age, from public and private schools of Maringá, Paraná, Brazil. Evaluation of factors associated with excess weight (overweight and obesity) included gender, age, school type, socioeconomic level, education of the head of the family, eating habits, and means of commuting to school. After univariate analysis (Fisher's exact test), we adjusted a logistic regression model and used Wald's test for decision-making (p < 0.05). RESULTS: The mean age was 8.7 ± 1.3 years, with 52.8% females; 79.1% of the students attended public school and 54.6% had families of socioeconomic class A or B. Regarding nutritional status, 24% of children were overweight (7% obesity, 17% overweight). Being male, attending a private school, and having a head of the family with over four years of education were significantly associated with excess weight. In relation to food, inadequate intake of carbohydrates was associated with a 48% greater chance of overweight/obesity (p < 0.001; OR: 1.48; 95% CI: 1.25-1.76). CONCLUSION: The prevalence of overweight found in this study is approximate to that reported in national studies. Its association with gender and inadequate food intake indicates that these factors should be considered in initiatives aimed at preventive measures in childhood.

School health; overweight; obesity; food consumption


ARTIGO ORIGINAL

Avaliação da prevalência e de determinantes nutricionais e sociais do excesso de peso em uma população de escolares: análise transversal em 5.037 crianças

Caroline Filla RosaneliI; Flavia AulerII; Carla Barreto ManfrinatoIII; Claudine Filla RosaneliIV; Caroline SganzerlaV; Marcely Gimenes BonattoV; Marina Lindstron Wittica CerqueiraV; Amauri Aparecido Bassoli de OliveiraVI; Edna Regina Oliveira-NettoVII; José Rocha Faria-NetoVIII

IDoutoranda em Ciências da Saúde, Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR); Coordenadora Curso Técnico em Nutrição e Dietética (TECPUC); Docente, PUCPR, Curitiba, PR, Brasil

IIDoutoranda em Ciências da Saúde, Universidade Estadual de Maringá (UEM); Líder do Grupo de Pesquisa em Ciências da Nutrição, Coordenadora do Curso de Nutrição, Campus Maringá, PUCPR, Curitiba, PR, Brasil

IIINutricionista, PUCPR; Especialista em Pesquisa e Desenvolvimento de Novos Produtos, Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR); Docente, Faculdade Ingá, Maringá, PR, Brasil

IVNutricionista da UNIMED Maringá; Especialista em Nutrição dos Ciclos da Vida, PUCPR, Curitiba, PR, Brasil

VAcadêmicas da Escola de Medicina, PUCPR, Curitiba, PR, Brasil

VIDoutor em Educação Física, Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP); Professor do Departamento de Educação Física, UEM, Maringá, PR, Brasil

VIIDoutora em Ecologia de Ambientes Aquáticos Continentais, UEM; Professora-associada do Departamento de Farmácia, UEM, Maringá, PR, Brasil

VIIIDoutor em Cardiologia, Universidade de São Paulo, USP; Professor Titular, Escola de Medicina, PUCPR, Curitiba, PR, Brasil

Correspondência para

RESUMO

OBJETIVO: Avaliar a prevalência e os determinantes nutricionais e sociais do excesso de peso em uma população de escolares no sul do Brasil.

MÉTODOS: Estudo descritivo transversal com 5.037 crianças de ambos os sexos, entre seis e 10,9 anos, de escolas públicas e privadas de Maringá, Paraná. A avaliação de fatores associados ao excesso de peso (sobrepeso e obesidade) incluiu gênero, idade, tipo de escola, nível socioeconômico, instrução do chefe da família, hábitos alimentares e meio de deslocamento à escola. Após análise univariada (teste exato de Fisher), foi ajustado um modelo de Regressão Logística e considerado o teste de Wald para a tomada de decisão (p < 0,05).

RESULTADOS: A média de idade foi de 8,7 ± 1,3 ano, sendo 52,8% do gênero feminino, 79,1% estudantes de escola pública e 54,6% pertencentes a famílias com classe socioeconômica A ou B. Com relação ao estado nutricional, 24% das crianças apresentavam excesso de peso (obesidade 7%; sobrepeso 17%). Ser do gênero masculino, estudar em escola privada e ter chefe de família com mais de quatro anos de escolaridade estiveram significativamente associados ao excesso de peso. Com relação à alimentação, o consumo inadequado de carboidratos esteve associado a uma chance 48% maior de sobrepeso/obesidade (p < 0,001; OR: 1,48; IC 95%: 1,25-1,76).

CONCLUSÃO: A prevalência de excesso de peso encontrada nesse estudo é aproximada ao reportado em estudos nacionais. Sua associação a gênero e consumo inadequado de alimentos indica que esses fatores devem ser considerados em iniciativas que visem medidas preventivas na infância.

Unitermos: Saúde escolar; sobrepeso; obesidade; consumo de alimentos.

INTRODUÇÃO

O excesso de peso constitui um importante problema de saúde pública, representando um processo epidêmico1. Crianças em idade escolar com sobrepeso ou obesidade em 2002 eram mais de 155 milhões no mundo2. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), em 2010, o número de crianças obesas menores de cinco anos era mais de 43 milhões. Dessas, cerca de 35 milhões estavam em países em desenvolvimento. Além disso, cerca de 92 milhões de crianças, nesse mesmo período, estavam em risco de sobrepeso3,4. A prevalência mundial de sobrepeso e obesidade infantil aumentou de 4,2% em 1990 para 6,7% em 2010. Essa tendência deve chegar a 9,1% da população infantil mundial ou cerca de 60 milhões de crianças em 20204.

No Brasil, entre os anos 1970 e final dos anos 1990, a prevalência de excesso de peso entre crianças e adolescentes foi de 4,1% para 13,9%. Na África, o número de crianças acima do peso subiu de quatro milhões em 1990 para 13,5 milhões em 20105,4. Crianças que vivem em países de baixa e média renda são mais vulneráveis à má alimentação, pois estão mais expostas a comidas com alto teor de gordura, açúcar, sal, além da alta densidade energética da dieta que é pobre em micronutrientes, e tendem a ser de baixo custo. Esses padrões de consumo alimentar, em conjunto com os baixos níveis de atividade física, resultam na epidemia da obesidade infantil3,6-8.

A quantidade de refeições, o comportamento de consumo de alimentos e a atividade física dos indivíduos são desde cedo aprendidos. Se o ambiente que a criança está inserida lhe proporciona um consumo adequado em quantidade e qualidade de alimentos, atividades e movimentos físicos, isso poderá prevenir complicações futuras à saúde. O objetivo desse estudo foi avaliar a prevalência e os determinantes nutricionais e sociais do excesso de peso em uma população de escolares no sul do Brasil.

MÉTODOS

O estudo transversal de base escolar foi realizado em Maringá, uma cidade de aproximadamente 330 mil habitantes no estado do Paraná. O Índice de Desenvolvimento Humano da cidade é elevado (IDH = 0,84; a média do Brasil é 0,79). O trabalho de campo ocorreu entre março e dezembro de 2006.

Esta pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética da Universidade Estadual de Maringá (parecer n. 016/2006), de acordo com as normas da Resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde sobre pesquisa envolvendo seres humanos.

AMOSTRA

A população-alvo da pesquisa foi formada por crianças entre 6 e 10 anos de ambos os sexos, matriculados no ensino médio em 2006. Os dados obtidos junto ao Departamento de Educação do Paraná e da União de Escolas Privadas de Maringá foram utilizados como base para as proporções de estudantes incluídos na amostra de escolas públicas e privadas.

As escolas foram selecionadas, considerando-se todos os quadrantes do Município. As crianças de todas as escolas sorteadas foram convidadas a participar da pesquisa, levando para casa os instrumentos de coleta de dados (Questionário sobre condição socioeconômica e dados pessoais) a serem respondidos pelos responsáveis, bem como o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) para assinatura dos pais ou responsáveis. As análises necessárias e recolhimento do material enviado às residências foram efetuados no ambiente escolar, em data previamente definida junto à escola e em local específico destinado para esse fim.

Para critérios de exclusão foram consideradas crianças que não retornaram o Termo de Consentimento assinado, e com dados clínicos incompletos.

COLETA DE DADOS

A coleta de dados foi realizada por uma equipe de profissionais previamente treinados9, integrantes do Grupo de Estudos e Pesquisas em Obesidade e Exercício da Universidade Estadual de Maringá (GREPO/UEM), e aconteceram no ambiente escolar, em salas fechadas quando possível, com horário previamente agendado e durante o turno escolar.

VARIÁVEIS

ESTADO NUTRICIONAL

Considerou-se desfecho para esse estudo o estado nutricional, que foi classificado a partir do índice de massa corpórea (IMC) de acordo com os pontos de corte ajustados para gênero e idade propostos por Cole et al.10,11. Com base nesse critério, definiram-se os diagnósticos de baixo peso, eutrofia, sobrepeso e obesidade. As medidas de peso e estatura foram feitas em triplicata, e o valor médio calculado foi utilizado. Os procedimentos utilizados para avaliação da estatura e massa corporal foram seguidos como propostos pela OMS12. Os equipamentos utilizados foram: balança eletrônica da marca Tanita (Modelo 2202), com capacidade para 136 kg e precisão de 100 g e um estadiômetro da marca SECA (Modelo Bodymeter 206).

Com exceção da prevalência na amostra estudada, os dados das crianças com baixo peso não foram explorados para essa análise de determinantes de excesso de peso.

VARIÁVEIS INDEPENDENTES

As variáveis independentes incluídas nesse estudo foram: gênero, idade, tipo de escola (pública ou particular), nível socioeconômico e instrução do chefe da família (ABEP)13, hábitos alimentares e meio de deslocamento para escola.

Para o item instrução do chefe da família foram consideradas duas categorias: até primário ou mais do que o primário. Para o nível socioeconômico, categorizou-se em classe A+B e C+D. Não houve crianças com nível E.

HÁBITOS ALIMENTARES

Os hábitos alimentares (HA) foram mensurados através de um questionário padronizado. Os HA analisados foram: pular refeições (sim e não) e a frequência de consumo alimentar de 69 alimentos que foi respondida pelos responsáveis das crianças, tendo como referência uma última semana habitual. Nenhuma quantidade específica foi registrada aos dados coletados, portanto foram usados para avaliar a frequência de consumo semanal de cada grupo alimentar. Os alimentos foram agrupados em quatro categorias: carboidratos, proteínas, lipídios e frutas/verduras. De acordo com a frequência de consumo, foram atribuídos escores (7 dias/semana = 6; 6-4 dias/semana = 5; 3 dias/semana = 4; 2 dias/semana = 3; 1 dia/semana = 2; raramente = 1; não consumia = 0), para o grupo de lipídios atribuiu-se os escores (7 dias/semana = 0; 6-4 dias/semana = 1; 3 dias/semana = 2; 2 dias/semana = 3; 1 dia/semana = 4; raramente = 5; não consumia = 6). Com base nos escores alcançados, calculou-se o percentil 70 e foram criadas duas categorias de classificação em cada grupo de alimento: hábito alimentar adequado (percentil > 70) e hábito alimentar inadequado (percentil < 70).

DESLOCAMENTO PARA A ESCOLA

Para essa avaliação foi incluída no questionário disponibilizado aos responsáveis pelas crianças a pergunta: Como seu filho(a) se desloca de sua casa para a escola? (a pé ou de bicicleta, carro ou ônibus).

ANÁLISE ESTATÍSTICA

Os dados foram digitados em um banco de dados do Excel® 2003, duas vezes, com checagem automática de consistência e amplitude. A análise estatística foi realizada com o programa computacional Statistica v.8.0.

Para avaliação da associação de cada um dos fatores com o estado nutricional da criança considerou-se o teste exato de Fisher. A avaliação conjunta das variáveis foi feita ajustando-se um modelo de regressão logística stepwise backward com p < 0,10 como critério para a retirada da variável. Nesse modelo, o estado nutricional (eutrófica ou sobrepeso/obesidade) foi a variável resposta e os fatores gênero, instrução do chefe da família, tipo de escola, classificação socioeconômica, consumo de carboidrato, frutas, proteínas, lipídios, se pula ou não refeições e meio de deslocamento casa/escola foram incluídos como variáveis explicativas. Após o ajuste, foram estimados os valores de OR com intervalos de 95% de confiança. A decisão sobre a significância das variáveis incluídas no modelo foi feita usando-se o teste de Wald. Valores de p < 0,05 indicaram significância estatística.

RESULTADOS

Foram incluídas 5.037 crianças com TCLE assinado e dados completos. A amostra total analisada representou cerca de 20,0% de crianças matriculadas em 2005 no município de Maringá na faixa etária de 6 a 10,9 anos. A média de idade foi de 8,7± 1,3 ano, sendo que 53,2% eram meninas, 79,9% estudavam em escola pública, 41,6% dos chefes das famílias tinham apenas até o ensino fundamental como instrução educacional e 48,7% dos escolares pertenciam a famílias com classe socioeconômica A+B.

PREVALÊNCIA DE EXCESSO DE PESO E SEUS DETERMINANTES

A Figura 1 mostra a prevalência de excesso de peso na amostra estudada. Sobrepeso foi diagnosticado em 24% das crianças, sendo 17% de sobrepeso e 7% de obesidade. O gênero masculino e o fator da criança estudar em escola privada foram determinantes de maior chance de excesso de peso. Conforme demonstrado na Tabela 1, na análise univariada, o grau de instrução do chefe da família, o consumo inadequado de carboidratos, o consumo inadequado de frutas, consumo inadequado de proteínas e o método de deslocamento para a escola (carro/ônibus vs. a pé/bicicleta) também estiveram em maior chance de excesso de peso.


Na análise multivariada, crianças do gênero masculino apresentaram chance 17% maior de sobrepeso com relação às crianças do gênero feminino. Com relação à escola, alunos de escola privada apresentaram chance 20% maior de sobrepeso do que os de escola pública; o mesmo aconteceu com filhos de pais com maior grau de instrução. Com relação aos aspectos qualitativos nutricionais, crianças com histórico de consumo excessivo (inadequado) de carboidratos apresentaram chance 48% maior de sobrepeso e obesidade. Ainda com relação à alimentação, o consumo de inadequado de frutas também foi um fator independente associado à maior chance de excesso de peso (Tabela 1).

DISCUSSÃO

A prevalência de escolares com excesso de peso nesse estudo é aproximada à média de estudos nacionais e de outros países ocidentais, onde a epidemia da obesidade ainda assombra o perfil de saúde dessa geração.

Nessa pesquisa, a presença de excesso de peso esteve significativamente associada ao consumo inadequado de carboidratos. Se o ambiente que a criança está inserida lhe proporciona um consumo adequado em quantidade e qualidade de alimentos, atividades e movimentos físicos, isso poderá prevenir complicações futuras à saúde.

Conforme observado nesse estudo e por outros autores14, fatores demográficos e socioeconômicos, além do tipo de escola estão fortemente associados ao estado nutricional.

Apesar de a obesidade ser mais intensa nos grupos populacionais economicamente mais desfavorecidos15, atinge infalivelmente todas as idades, sexo e classes sociais. Para 16,2% da população desse estudo, a condição socioeconômica mais favorecida influenciou os resultados positivos para excesso de peso (p < 0,001 OR = 1,37; IC 95%: 1,191,58). Giuliano et al.16, argumenta que no Brasil há mais crianças com sobrepeso ou obesidade nas classes mais altas, e quem, em sua maioria, estuda em escolas privadas por haver uma associação direta das variáveis. No presente estudo, o tipo de escola se demonstrou importante no impacto do ganho de peso, mas não para o modelo de regressão multivariada (p = 0,037).

A prevalência de sobrepeso parece começar por volta dos cinco anos de idade, especialmente em meninas17. Para Oliveira et al.18 a prevalência de sobrepeso e obesidade em escolares não apresentou diferenças significativas entre os sexos, faixa etária e tipo de escola em crianças com média de idade 7,1 ± 1,3 ano. Outros autores também não descrevem a relação entre perfil nutricional e sexo19,20. No nordeste, encontrou-se, em 1927, alunos de 6 a 9 anos de idade 21,1% das crianças com excesso de peso, sendo que nas escolas privadas a prevalência foi de 42,8% e nas públicas apenas 5,1%21. Na região sul do Brasil, 511 crianças de 7 a 10 anos de elevado nível socioeconômico com taxas de prevalência de sobrepeso (19%) e obesidade (14%) apresentaram diferença estatística entre gêneros apenas para a obesidade, a partir dos 9 anos. Segundo os autores, os achados são superiores à média da população brasileira para essa faixa etária22.

É visto que para 2020, a projeção das doenças crônicas não transmissíveis associadas ao consumo alimentar será a causa de mais de três quartos das mortes no mundo23. Em adolescentes investigados no Rio de Janeiro, a prevalência de sobrepeso foi de 29,3% entre os meninos e em torno de 15% entre as meninas. Os alimentos que mais contribuíram para o consumo total de energia entre gênero com e sem sobrepeso foi açúcar, batata frita e refrigerantes24. É importante ressaltar que, quanto mais cedo se estabelece bons hábitos alimentares, menor é o risco de apresentar problemas relacionados com obesidade e suas intercorrências em fases posteriores da vida.

A prevalência de excesso de peso encontrada nesse estudo é aproximada ao reportado em estudos nacionais. Sua associação com gênero e consumo inadequado de alimentos tem importante contribuição para prevenção desses indicadores, e alertar para iniciativas de prevenção a esses fatores na infância.

Estudo realizado em 27 importantes cidades brasileiras demonstra que entre adolescentes o consumo de guloseimas em cinco dias ou mais da semana foi de 58,3% entre o sexo feminino e 42,6% para o masculino25. Outros estudos revelam que há uma tendência dos indivíduos obesos em subestimar o próprio consumo, pois esse consumo normalmente tem-se evidenciado semelhante ou menor, ao de indivíduos eutróficos, alertando para a dificuldade de evidenciar em estudos transversais a relação entre consumo alimentar e obesidade24,26. O costume de pular refeições demonstrou-se comum para cerca de um terço da amostra, representando que, além do comportamento inadequado sobre a composição da dieta, há também comprometimento nos fracionamentos e horários das refeições.

O tipo de deslocamento para escola associado nessa pesquisa também evidencia o perfil da população jovem brasileira, como na pesquisa PeNSE 200925, que estimou em 618.555 jovens estudantes brasileiros a manifestação do sedentarismo, em que, na média nacional, apenas 43,1% dos estudantes são considerados ativos. Alguns estudos indicam que, se na infância a atividade física não estiver associada à permanência de um estilo de vida ativo durante a fase adulta, a proteção à saúde pode ser prejudicada27,28.

Porém, há evidências de que, em nove países entreEuropa, Ásia, Oceania e América do Norte, a prevalência do excesso de peso diminuiu sensivelmente ou estacionou em 467.294 crianças, entre 2 e 19 anos29. Esses achados redirecionam a discussão sobre o impacto ainda crescente dessa epidemia no Brasil, e as consequências do excesso de peso e sedentarismo na infância.

Ações específicas e fundamentadas devem ser realizadas, a fim de garantir perfil nutricional e consumo adequado à população infanto-juvenil, pois o crescimento dessa morbidade na infância acarreta um forte impactoeconômico e perda da qualidade de vida. É importante que os pais tenham compreensão e informação do seu papel na prevenção da obesidade infantil, pois requer multifatores para que haja sucesso e suporte efetivo.

  • Correspondência para:
    Caroline Filla Rosaneli
    Escola de Saúde e Biociências - PUCPR
    Rua Imaculada Conceição, 1155 Prado Velho
    Curitiba - PR, Brasil CEP: 87083-360
  • Artigo recebido: 19/10/2011

    Aceito para publicação: 19/03/2012

    Suporte financeiro: CNPQ

    Conflito de interesse: Não há.

    Trabalho realizado na Pontifícia Universidade Católica do Paraná, Curitiba, e na Universidade Estadual de Maringá, Maringá, PR, Brasil

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    Correspondência para: Caroline Filla Rosaneli Escola de Saúde e Biociências - PUCPR Rua Imaculada Conceição, 1155 Prado Velho Curitiba - PR, Brasil CEP: 87083-360 caroline.rosaneli@gmail.com

    Datas de Publicação

    • Publicação nesta coleção
      24 Ago 2012
    • Data do Fascículo
      Ago 2012

    Histórico

    • Recebido
      19 Out 2011
    • Aceito
      19 Mar 2012
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