Colite isquêmica induzida por cocaína

IMAGEM EM MEDICINA

Colite isquêmica induzida por cocaína

Jarbas Faraco Maldonado LoureiroI; Roberto MansurII; Paulo Alberto Falco Pires CorreaIII; Juliana Marques DrigoIV; Carolina Viana TeixeiraIV; Cláudio Rogério SolakIV; Elias Jirjoss IliasV

IMédico do Serviço de Endoscopia do Hospital Sírio-Libanês, São Paulo, SP, Brasil

IICirurgião do Hospital Sírio-Libanês, São Paulo, SP, Brasil

IIIMédico do Serviço de Endoscopia e Cirurgião do Hospital Sírio-Libanês, São Paulo, SP, Brasil

IVMédicos Residentes do Serviço de Endoscopia do Hospital Sírio-Libanês, São Paulo, SP, Brasil

VTitular do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, São Paulo, SP, Brasil

INTRODUÇÃO

A colite isquêmica em adultos jovens é um fenômeno incomum. Dentre as etiologias não oclusivas, o uso de cocaína pode ser citado como causador desse tipo de lesão, já que é demonstrado que essa droga pode ocasionar alterações cardiovasculares, como infarto do miocárdio, arritmias e eventos cerebrovasculares, independentemente da via de consumo. As consequências gastrointestinais do uso de cocaína são pouco frequentes; porém, quando ocorrem, podem se manifestar como úlceras gastroduodenais, infarto mesentérico e isquemia intestinal. Os mecanismos propostos são multifatoriais e incluem toxicidade direta da mucosa intestinal, vasoconstrição mesentérica e alteração da agregação plaquetária, os quais geram isquemia focal. O quadro clínico associado ao uso da droga geralmente é evidente entre 24 e 72 horas de uso consecutivo. O processo inflamatório e a isquemia são mais frequentes no cólon distal1,2.

OBJETIVO

Relatar um caso de colite isquêmica em homem adulto jovem, usuário de cocaína, que se apresentou com dor abdominal e hematoquezia.

RELATO DO CASO

Homem, 43 anos, com dor abdominal difusa, sem sinais de irritação peritoneal, com antecedente de uso prolongado e recente de grande quantidade de cocaína inalatória. Submetido a TC abdominal sem alterações. Melhora insuficiente com analgésicos, evoluindo com hematoquezia e discreta leucocitose após uma semana. Realizada colonoscopia que revelou úlceras lineares e irregulares, edema e enantema no cólon sigmoide (Figura 1). A biópsia evidenciou colite crônica com raros capilares ectásicos superficiais, não afastando colite isquêmica. A propedêutica cardiológica com ecocardiograma e cintilografia não mostrou alterações. Observou-se melhora com tratamento clínico. Controle colonoscópico foi realizado após quatro meses de suporte clínico e suspensão do uso da droga, quando se evidenciou regressão total das alterações endoscópicas prévias (Figura 2).

DISCUSSÃO

As complicações isquêmicas intestinais associadas ao uso de cocaína são raras. Estariam explicadas pela atividade vasoconstritora da droga, a qual depende de sua capacidade de manter a estimulação alfa-adrenérgica intestinal inibindo a recaptação de dopamina e noradrenalina na membrana pré-sináptica. Além disso, com o uso da cocaína há também um aumento no influxo de cálcio na membrana endotelial. Ambos os mecanismos ocasionam vasoconstrição e consequente diminuição do aporte sanguíneo. É demonstrado que a cocaína aumenta a agregação plaquetária e a formação de trombos por meio do aumento de tromboxano A2 e diminuição de eicosanoides. Estudos em coronárias colocam em evidência o dano endotelial direto, assim como outros estudos em animais demonstram dano direto sobre a mucosa intestinal. Na revisão de literatura observa-se que os casos de colite isquêmica secundária ao uso de cocaína independem da forma de administração da droga (endovenosa ou inalatória) e, em geral, os pacientes são consumidores frequentes e em quantidades representativas. Na grande maioria dos casos, o quadro clínico se iniciou com dor abdominal e sangramento digestivo baixo. Nos casos em que a endoscopia digestiva alta foi realizada previamente à colonoscopia, algumas alterações endoscópicas foram notadas, como edema da mucosa gástrica, enantema difuso, ulcerações e hemorragias subepiteliais1,2.

CONCLUSÃO

Em pacientes com história clínica de dor abdominal, hematoquezia e uso de cocaína, deve-se considerar a hipótese de colite isquêmica, mesmo sem evidências clínicas de alterações cardíacas ou neurológicas.

  • 1. Ellis CN, McAlexander WW. Enterocolitis associated with cocaine use. Dis Colon Rectum. 2005;48(12):2313-6.
  • 2. Ruiz-Tovar J, Candela F, Oliver I, Calpena R. Sigmoid colon stenosis: a long-term sequelae of cocaine-induced ischemic colitis. Am Surg. 2010;76(9):E178-9.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    28 Fev 2012
  • Data do Fascículo
    Fev 2012
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