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Open-access Valores éticos influenciam a qualidade de vida? Uma análise de 187 países

Resumo

O fim último do bem-estar social é alcançar o bem comum e melhorar a qualidade de vida (QV) dos cidadãos. Esta afirmação sugere que alta QV pode ser explicada parcialmente por certos valores éticos enraizados nas culturas das sociedades. O objetivo deste estudo transversal foi validar o Construto de Valores Éticos (CVE) e analisar a relação entre valores éticos e qualidade de vida (QV) nos 187 países avaliados. O construto foi validado utilizando modelagem de equações estruturais por mínimos quadrados parciais (PLS-SEM), e os resultados indicam uma forte relação entre valores éticos e a QV social das nações analisadas. Constatamos que o CVE - que compreende liberdade, por meio de direitos políticos, de expressão e econômicos; ordem, por meio do cumprimento de normas sociais, confiança interpessoal e segurança jurídica; compromisso com o interesse público, envolvendo equilíbrio social, autossacrifício e sustentabilidade ambiental; cultura empreendedora privada, caracterizada por competitividade, inovação e busca pela excelência - demonstra uma forte conexão com a QV.

Palavras-chave:
valores éticos; qualidade de vida; ética; desenvolvimento humano; indicadores sociais

Abstract

The ultimate purpose of social wellbeing is to achieve the common good and improve the quality of life (QoL) of citizens. This suggests that high QoL may be partially explained by certain ethical values embedded in societies’ cultures. The objective of this cross-sectional study was to validate the Ethical Values Construct (EVC) and analyze the relationship between ethical values and QoL across the 187 evaluated countries. The construct was validated using partial least squares structural equation modeling (PLS-SEM), and the results indicate a strong relationship between ethical values and the social QoL of the analyzed nations. We found that the EVC — comprising freedom, through political, expression, and economic rights; order, via social rule-following, interpersonal trust, and legal certainty; commitment to the public interest, involving social balance, self-sacrifice, and environmental sustainability; and private entrepreneurial culture, characterized by competitiveness, innovation, and the pursuit of excellence — demonstrates a strong connection with QoL.

Keywords:
ethical values; quality of life; ethics; human development; social indicators

Resumen

El fin último del bienestar social es alcanzar el bien común y mejorar la calidad de vida (CdV) de los ciudadanos. Esto sugiere que una alta CdV puede explicarse parcialmente por ciertos valores éticos arraigados en las culturas de las sociedades. El objetivo de este estudio transversal fue validar el Constructo de Valores Éticos (CVE) y analizar la relación entre los valores éticos y la CdV en los 187 países evaluados. El constructo se validó mediante el modelo de ecuaciones estructurales de mínimos cuadrados parciales (PLS-SEM), y los resultados indican una fuerte relación entre los valores éticos y la CdV social de las naciones analizadas. Encontramos que el CVE -que comprende la libertad, a través de los derechos políticos, de expresión y económicos; el orden, mediante el cumplimiento de las normas sociales, la confianza interpersonal y la seguridad jurídica; el compromiso con el interés público, que implica el equilibrio social, el autosacrificio y la sostenibilidad ambiental; y la cultura empresarial privada, caracterizada por la competitividad, la innovación y la búsqueda de la excelencia- demuestra una fuerte conexión con la CdV.

Palabras clave:
valores éticos; calidad de vida; ética; desarrollo humano; indicadores sociales

1. INTRODUÇÃO

Embora o século XX tenha consagrado a democracia e a participação social como pilares da sociedade moderna, o mundo ainda permanece permeado por privações, opressões e ameaças à vida econômica e social, as quais comprometem a qualidade de vida global (Sen, 2010). Este panorama tornou-se ainda mais crítico no período pós-pandêmico (Costa, 2020). É amplamente reconhecido que o fim último do bem-estar consiste no alcance do bem comum (Meirelles, 2002), o qual se materializa por meio do aprimoramento contínuo da qualidade de vida (QV) da sociedade.

Desde a escola clássica de economia, que teve como marco a publicação de Uma Investigação sobre a Natureza e as Causas da Riqueza das Nações, de Adam Smith, em 1776, obras seminais sobre o desenvolvimento e o bem-estar das sociedades têm sido publicadas. De O Capital, de Karl Marx, em 1867, a Ação Humana: Um Tratado de Economia, de Ludwig von Mises, em 1949 (Brue & Grant, 2017), as ideias contidas nesses clássicos da economia e da política, contudo, dividiram o mundo entre os seguidores de John Locke e os de Karl Marx (Koyzis, 2014). Tal polarização é considerada exaurida, uma vez que se mostra incapaz de fornecer as respostas de que a sociedade necessita (Rosa et al., 2021). A mudança de paradigma proposta neste artigo consiste em uma revisão que enfatiza o estudo das raízes culturais da QV.

1.1 Problema de Pesquisa

Diversos estudos enfatizam uma característica comum aos países com elevada QV que parece estar ausente naqueles que ainda não atingiram tal patamar. Esse elemento comum refere-se a valores éticos específicos (Gächter & Schulz, 2016; Gundlach & Paldam, 2009; Treisman, 2000) enraizados na cultura social predominante.

A QV, embora seja um tema complexo que ainda carece de consenso conceitual (Pereira et al., 2012), tem sido mensurada por meio de indicadores que geralmente abrangem as áreas de saúde, educação, segurança pública, infraestrutura e economia (Diener & Suh, 1997). Não existe um indicador abrangente que contemple todos os aspectos da qualidade de vida humana (Noorbakhsh, 1998), portanto, recomenda-se a adoção de múltiplos indicadores.

A existência de países com baixa QV conduz - ou ao menos deveria conduzir - os estudiosos do desenvolvimento à compreensão de quais variáveis correlacionam-se a um elevado padrão de qualidade de vida. Nesse sentido, cabe examinar se os altos indicadores de QV das nações pesquisadas poderiam ser explicados, ao menos em parte, por certos valores éticos arraigados nas culturas dessas sociedades, o que permitiu que elas se tornassem nações prósperas. Por conseguinte, o problema de pesquisa deste estudo é: os valores éticos influenciam a QV?

Antes de abordar essa questão, faz-se necessário compreender quais valores éticos poderiam contribuir para a melhoria da QV das sociedades. Isso conduz a dois objetivos específicos para este trabalho: 1) propor e validar um constructo de segunda ordem que represente uma ética compreendendo as dimensões de valores compartilhados pelas nações estudadas; 2) investigar a relação entre esse Constructo de Valores Éticos (CVE) e os níveis de QV dessas nações.

Esses objetivos específicos foram perseguidos em duas etapas: 1) identificação das variáveis explicativas que contribuem para o ambiente necessário ao aprimoramento da QV, por meio de articulação teórica; 2) teste empírico da hipótese H1 - Os valores éticos influenciam positivamente a QV das sociedades.

1.2 Justificativa e Contribuições da Pesquisa

A relação entre valores éticos e QV é um tema ainda pouco explorado (Rosa et al., 2021). Uma busca realizada nas bases de dados Scopus e SciELO em 2021, em língua inglesa, utilizando os descritores ethics, development e quality of life, não identificou estudos empíricos que investigassem a relação entre o perfil ético de uma sociedade e sua QV. O estudo da “ética do desenvolvimento” é a abordagem que mais se aproxima dessa temática.

Nomes como Louis-Joseph Lebret, Denis Goulet, Mohandas Gandhi, Gunnar Myrdal, e Peter Berger foram precursores na consolidação da ética do desenvolvimento como um campo de estudo (Marangos et al., 2019).

A ética do desenvolvimento, enquanto campo do conhecimento, constitui uma ciência interdisciplinar (Gambi & Chaves, 2017) que abrange áreas como meio ambiente, ecologia, tradição, justiça, globalização, cultura e o sentido de uma vida significativa para as sociedades. Aborda, também, questões como o ativismo pelos direitos humanos, intervenções humanitárias, imigração, refugiados, condições de trabalho e responsabilidade social (Gasper & Clair, 2010; Marangos et al., 2019).

Contudo, observa-se uma lacuna na literatura, sendo vasta a disparidade entre a teoria e a prática (Marangos et al., 2019). Por esse motivo, o propósito deste trabalho é preencher essa lacuna empírica no campo do desenvolvimento social, fundamentado em valores éticos, avançando das discussões metaéticas para a aplicação da ética na prática.

Como contribuição teórica, o presente artigo buscou evidenciar os valores éticos implícitos na literatura. Mais especificamente, contribuiu com a validação de um constructo que mensura valores relacionados à ética e o grau em que tais valores impactam a QV.

2. QV NA LITERATURA COMTEMPORÂNEA

Existem quatro tipos principais de abordagens sobre o tema da QV. A abordagem socioeconômica fundamenta-se em indicadores sociais relevantes para a coletividade. A abordagem psicológica foca em aspectos subjetivos do indivíduo, tais como sua percepção singular de bem-estar mental e motivacional. A abordagem biomédica trata da QV relacionada a aspectos da saúde física, como nutrição, dor crônica e sedentarismo. Finalmente, a abordagem geral apresenta um pouco de cada uma das anteriores (Day & Jankey, 1996).

Neste estudo, prevalece a análise de indicadores socioeconômicos como métrica da QV da sociedade. Nesse sentido, um dos principais conceitos de QV é o da Organização Mundial da Saúde (OMS), que afirma que “a qualidade de vida reflete a percepção dos indivíduos de que suas necessidades estão sendo atendidas ou de que lhes estão sendo negadas oportunidades de alcançar a felicidade e a autorrealização, independentemente de seu estado de saúde física ou das condições sociais e econômicas” (WHO, 1998). Alguns termos são utilizados quase como sinônimos de QV, tais como bem-estar social, que é frequentemente mensurado por variáveis como emprego, renda, criminalidade e preços de imóveis (Bell & Morse, 2008).

Sen (2010), por exemplo, inovou ao levar o conceito de QV e desenvolvimento para além da dimensão econômica. É notável que, até então, as principais obras e artigos científicos sobre o bem-estar das sociedades possuíam um viés quase exclusivamente econômico; Sen, contudo, chamou a atenção para dimensões que extrapolam os critérios econômicos, como saúde e educação, enquanto representativas da QV. Nesse sentido, a QV pode abranger aspectos difusos, tais como expectativa de vida, acesso a planos de saúde, educação e sua disponibilidade, qualidade do trabalho e, inclusive, desigualdades de gênero (Nussbaum & Sen, 1993).

A QV está fortemente ancorada na ideia de um processo que produz sociedades crescentemente voltadas à liberdade humana, à modernização socioeconômica e à autoexpressão. Tais valores engendram maiores demandas populares por liberdades civis, liberdades políticas, igualdade de gênero e governos democráticos responsivos, culminando no cerne do desenvolvimento humano, que consiste na expansão das escolhas e da autonomia humana (Inglehart & Welzel, 2009).

A diferença crucial entre países ricos e pobres reside em suas instituições políticas e econômicas. Instituições inclusivas possibilitam a emergência da QV, pois promovem a segurança da propriedade privada aos cidadãos, sistemas jurídicos imparciais, estabilidade e um poder político limitado e amplamente distribuído, de modo que as pessoas sejam livres para contratar, escolher suas carreiras e possam confiar que nenhum ditador tomará o poder e alterará as regras do jogo e seu modo de vida. Em contraste, as instituições extrativas são projetadas para extrair renda e riqueza da sociedade em benefício de grupos e elites específicos. Esses grupos expropriam recursos das massas, erguem barreiras contra a competição e suprimem o livre mercado em favor dos poucos que sustentam seu poder político (Acemoglu & Robinson, 2012).

3. ESCOPO DO CONSTRUCTO DE VALORES ÉTICOS (CVE)

O funcionamento de economias bem-sucedidas deve-se não apenas à liberdade econômica, mas também ao comportamento ético que viabiliza o cumprimento de contratos sem litígios constantes e permite a emergência de instituições sólidas (Sen, 2010). “[...] Os valores e as crenças das pessoas em sociedades avançadas diferem drasticamente daqueles encontrados em sociedades menos desenvolvidas” (Inglehart & Welzel, 2009, p. 17).

A palavra ‘ética’ tem sido tem sido empregada com múltiplos significados e em distintos contextos (Valls, 1994). Este trabalho adota o conceito normativo de ética, o qual a considera uma ciência normativa do comportamento humano (Reale, 1999). Este conceito foi selecionado porque o caráter normativo da ética perpassa todas as teorias éticas, visto que nenhuma teoria pode ser formulada sem estabelecer alguma norma (Rosa et al., 2021). A ética descritiva não permite generalizações, uma vez que se aplica a um grupo específico, como ocorre com os costumes culturais. A ética normativa, por outro lado, aplica-se a “todos os seres racionais, sob certas condições específicas” (B. Gert & J. Gert, 2017; Rosa et al., 2021, p. 725).

Mario Bunge chama a atenção para o fato de que o desenvolvimento deve ser integral e, portanto, compreender aspectos econômicos, biológicos, políticos e culturais. Ramírez critica o determinismo tecnológico, que pressupõe que tudo dependeria do crescimento econômico baseado no avanço tecnológico (Crocker, 1991). A escolha ética deve, portanto, ser pluralista em vez de etnocêntrica, e voltada para um diálogo global (Crocker, 1991).

O fenômeno social do precariado demonstra que, mesmo em países desenvolvidos, ocupações como o setor de call centers, estágios mal remunerados e sem perspectivas de progressão na carreira, além do subemprego, têm levado a um aumento significativo nos índices de suicídio, depressão e a uma vasta gama de patologias psicossociais (Standing, 2013). Não obstante, os indicadores econômicos e sociais utilizados na literatura científica funcionalista foram eleitos para este artigo, pois os chamados países desenvolvidos, com todas as suas imperfeições, ainda são a primeira escolha da maior parte da população mundial caso pudesse escolher onde viver, visto que tais países tornam as pessoas mais ricas, longevas e mais éticas (Gundlach & Paldam, 2009; McCloskey, 2010).

Com base na revisão da literatura, o presente artigo elucidará, na sequência, a fundamentação por trás da proposta das quatro dimensões nas quais os valores éticos se relacionam com a QV.

3.1 Liberdade

O argumento etnocêntrico de que a liberdade e a democracia seriam processos enviesados de ocidentalização ou americanização da sociedade é frágil, visto que a escolha autônoma e a liberdade são desejos universalmente prevalentes (Kant, 1959).

Sen (2010) argumenta que a liberdade exerce uma influência significativa na QV de uma sociedade. Para ele, a liberdade é não apenas o fim principal, mas também o meio primordial para se alcançar o desenvolvimento. A liberdade é altamente dependente da eficácia de liberdades específicas, tais como a econômica, a política, a de imprensa e a de transparência. Nesse sentido, de acordo com estudos anteriores, a liberdade - enquanto valor ético a ser abordado no contexto da ética aplicada - emerge em três liberdades substantivas: liberdade de expressão, liberdade política e liberdade econômica (Peyton & Belasen, 2012).

A liberdade é um objetivo central do desenvolvimento, visto que as pessoas devem ter a oportunidade de participar e se beneficiar dos processos de crescimento, bem como de decidir sobre seu próprio destino (Marangos et al., 2019). Por essa razão, o escopo da dimensão de liberdade abordada neste estudo resume-se a três variáveis: i) liberdade política, ii) liberdade de expressão e iii) liberdade econômica.

Sen (2010, p. 361) argumenta que ‘o caminho entre a liberdade e a responsabilidade é uma via de mão dupla’. A liberdade deve ser acompanhada pela responsabilidade; caso contrário, o caos social pode sobrevir. Kant acreditava na autonomia dos seres humanos, mas a autonomia exige que agentes genuinamente autônomos tenham responsabilidade individual por suas decisões e ações (Bell, 2002); portanto, a liberdade absoluta levaria à anarquia, a qual seria uma forma inviável de governo.

3.2 Ordem

A liberdade está em constante conflito com a necessidade mínima de ordem que toda sociedade requer para a coexistência (B. Gert & J. Gert, 2017). Do ponto de vista conceitual, enquanto a liberdade possui um escopo bem definido, embora multifacetado, a palavra ‘ordem’ tem sido utilizada tanto no sentido pejorativo de tirania quanto em sentidos difusos, tais como segurança, paz doméstica e externa de uma sociedade, ordem econômica e, mais recentemente, governança (Moynihan, 2008).

Quanto à ordem no comportamento humano, Max Weber enfatiza, por exemplo, a importância da pontualidade e da honestidade para a prosperidade (Weber, 2002). Em um estudo empírico transcultural, verificou-se que a honestidade intrínseca das pessoas correlaciona-se fortemente e de forma negativa com o índice de ‘prevalência de violações de normas’ (PRV). Os resultados demonstraram ainda que instituições fracas e legados culturais que dão origem a violações de normas geram consequências econômicas adversas e comprometem o pleno funcionamento da sociedade (Gächter & Schulz, 2016; Rosa et al., 2021).

A confiança é uma condição imperativa para a liberdade, visto que, sem confiança, contratos, promessas e obrigações só podem ser mantidos por meio da coação. A confiança é a forma humana de interação que conduz a um modelo ideal de vida comunitária. Poder, dominação e coação podem resolver um problema social apenas temporariamente; a importância da confiança, entretanto, tem sido reconhecida por muitos estudiosos da vida social, tais como Locke, Luhmann, Giddens, Burke, Durkheim, Maine e Gambetta. O nível global de confiança de uma sociedade é definido pelo seu sistema de confiança, o qual abrange a confiança nas pessoas e nas instituições (Seligman, 2021).

Nesse sentido, o conceito de ordem será limitado à abordagem da ética aplicada, especialmente no que tange à administração pública e ao exercício da cidadania. A ordem não será abordada como sinônimo de segurança pública, visto que a segurança seria um subproduto da ordem. Portanto, a dimensão da ordem aqui se restringe a três variáveis centrais inseridas nas culturas sociais, conforme definido pela literatura precedente: i) capacidade social de respeitar regras; ii) confiança interpessoal; e iii) segurança jurídica (Acemoglu & Robinson, 2012; Gächter & Schulz, 2016; Inglehart & Welzel, 2009; Sen, 2010).

3.3 Compromisso com o Interesse Público (CIP)

A honra pertence ao público, pois um ser humano que em nada contribui para o bem comum não é honrado. Tampouco a pessoa isolada alcança a felicidade, visto que os seres humanos são seres políticos e viver em sociedade faz parte de sua natureza (Aristóteles, 1991). Na ética aristotélica, a falta de compromisso com o interesse público está enraizada no egoísmo.

Nota-se, desde a Idade Média, que a maior parte do desenvolvimento ocorreu nas cidades, fenômeno atribuído a sinergias das quais participavam pessoas das mais diversas profissões na comunidade. Entre 1220 e 1294, Brunetto Latini descreveu essa sinergia como ‘o bem comum’. Ele compreendia a riqueza como um fenômeno necessariamente coletivo. A evolução histórica das cidades-estado para os Estados-nação revela o papel fundamental do coletivo no alcance da prosperidade (Reinert, 2019).

O equilíbrio socioeconômico é fundamental para o interesse público. A desigualdade social e a concentração de renda, por exemplo, agravaram-se ao longo do tempo, e o nível atual é prejudicial à democracia, à mobilidade social e à expansão da prosperidade, mesmo nos Estados Unidos (Stiglitz, 2012). Nesse contexto, o equilíbrio social torna-se uma variável-chave na análise dos efeitos éticos sobre a QV de qualquer sociedade.

A sustentabilidade ambiental, por sua vez, resulta da ideia de que tudo o que for feito deve ser realizado sem prejudicar as gerações futuras. Em seu sentido amplo, a sustentabilidade pode abranger a manutenção da qualidade do meio ambiente, das organizações e das instituições (Bell & Morse, 2008).

Quanto à terceira dimensão do CVE, o compromisso com o interesse público pode abranger diversos temas, tais como colocar o interesse público acima do interesse privado, ser honesto, respeitar o meio ambiente, a justiça social, o autossacrifício em favor de outrem, ter compaixão e outras atitudes consideradas indispensáveis para a coexistência coletiva (Perry & Hondeghem, 2008). Por essa razão, o escopo desta pesquisa limitar-se-á a três variáveis centrais: i) equilíbrio social, ii) autossacrifício e iii) sustentabilidade ambiental.

3.4 Cultura Empreendedora Privada (CEP)

A cultura do empreendedorismo privado não entra em conflito com o compromisso com o interesse público, embora frequentemente ambos se situem em polos opostos do espectro. Essa tensão perene entre o compromisso com o interesse público e a cultura empreendedora privada é mais ideológica do que pragmática. Os motivos de lucro privado podem contrariar os interesses sociais, mas é possível escolher um equilíbrio apropriado entre equidade e eficiência (Sen, 2010). Sen não nega o importante papel desempenhado pelo autointeresse no desenvolvimento econômico, mas não polariza a questão, demonstrando que o compromisso com o interesse público é fundamental para a QV de uma sociedade (Sen, 2010). Quando se desenvolve a consciência sobre a responsabilidade ambiental, o empreendedorismo e a inovação podem ser utilizados em favor da preservação do meio ambiente.

O processo central que Schumpeter denominou ‘destruição criativa’ é moldado pela destruição incessante do antigo e pela criação do novo. A revolução tecnológica afeta a QV quando o espírito de competição e inovação está presente, permitindo que novas tecnologias, novos produtos e novos mercados emerjam e que a concorrência permaneça como uma ameaça constante, mantendo a prosperidade em movimento (Schumpeter, 2008).

Por essa razão, o escopo desta dimensão diz respeito aos valores éticos que promovem a cultura empreendedora privada da população. Não se trata da predominância de sistemas políticos, sejam eles capitalistas ou socialistas, mas sim, para o escopo proposto, do ambiente ético favorável ao empreendedorismo na esfera privada. Nesse sentido, as variáveis que compõem a dimensão ética da cultura empreendedora privada são: i) competitividade; ii) inovação e iii) excelência.

4. MÉTODOS

As relações entre as variáveis do constructo de Valores Éticos (CVE) e a QV das sociedades foram avaliadas por meio da técnica estatística de modelagem de equações estruturais por mínimos quadrados parciais (PLS-SEM) (Hair et al., 2005).

O método PLS foi escolhido por ser recomendado para estudos exploratórios quando a teoria subjacente é testada empiricamente pela primeira vez (Bido & Silva, 2019). Essa escolha também se justifica porque constructos baseados em indicadores socioeconômicos são, geralmente, formativos (Diamantopoulos & Siguaw, 2006). Nesses casos, o significado dos constructos emerge de uma composição particular de indicadores, e os constructos não são invariantes à inclusão e/ou exclusão de indicadores do modelo (Bollen & Lennox, 1991; Henseler, 2017).

Portanto, os constructos deste estudo são formativos. A relação hierárquica entre os constructos de primeira e segunda ordem e seus indicadores sugere o uso do Modelo de Composto Hierárquico (HCM) do tipo Formativo-Formativo, para o qual o PLS é a abordagem de estimação mais apropriada (Becker et al., 2012; Hair et al., 2011).

A seguinte hipótese de pesquisa foi formulada e testada:

H1 - Os valores éticos influenciam positivamente a QV das sociedades.

4.1 Coleta de Dados

Dados dos países, sob a forma de indicadores, foram baixados das bases de dados das Nações Unidas (ONU), do Banco Mundial e de outras fontes, conforme apresentado na Tabela 1 (Green et al., 2021; Kaufmann & Kraay, 2018; United Nations Development Programme, 2021; World Bank Group, 2021).

A escolha dos indicadores levou em conta os critérios de validade, confiabilidade, sensibilidade, especificidade, cobertura amostral e territorial, transparência, relevância, disponibilidade temporal e periodicidade adequada de atualização (Jannuzzi, 2005).

Um total de 187 países permaneceu na base de dados, de 193 países reconhecidos internacionalmente (United Nations Development Programme, 2021), validando a perspectiva multicultural da pesquisa.

Foram utilizados os dados mais recentes disponíveis para os indicadores avaliados. Os indicadores foram coletados entre 2019 (o índice de competitividade global mais antigo) e 2021 (o índice de liberdade econômica mais recente à época da pesquisa).

4.2 Procedimentos de análise de dados

Todas as análises foram realizadas no ambiente R (R Core Team, 2020). Os dados e os códigos estão disponíveis no Open Science Framework (OSF, 2023).

Inicialmente, o percentual de dados faltantes (missing data) foi computado e imputado utilizando um algoritmo de floresta aleatória (random forest) baseado em aprendizado de máquina (Wright & Ziegler, 2017). Todos os cálculos relacionados ao PLS-SEM foram conduzidos utilizando o pacote cSEM (Schuberth et al., 2023).

Previamente à estimação e inferência de parâmetros, o pacote estatístico cSEM exige uma avaliação rigorosa da admissibilidade do modelo. Este protocolo diagnóstico requer a convergência algorítmica bem-sucedida e estipula que todas as cargas padronizadas absolutas e estimativas de confiabilidade não devem exceder a unidade. Além disso, tanto a matriz de variância-covariância (VCV) dos constructos latentes quanto a matriz de indicadores do modelo devem ser semidefinidas positivas. O não cumprimento de qualquer um desses critérios fundamentais encerra a análise estatística (Henseler, 2021; Hair et al., 2017).

A avaliação da multicolinearidade e da relevância dos indicadores formativos foi conduzida em duas etapas. Na Etapa 1, os fatores de inflação da variância (VIF), as estimativas de pesos (weights) e as estimativas de cargas (loadings) foram avaliados ao nível dos indicadores para os constructos de primeira ordem. Na Etapa 2, os mesmos critérios foram aplicados às relações entre os constructos de primeira ordem e os constructos de segunda ordem (Hair et al., 2017).

Em alinhamento com os critérios de avaliação propostos por Hair et al. (2017), a avaliação de pesos (weights) e cargas (loadings) baseia-se em um processo de validação hierárquica centrado na significância estatística e na magnitude. Os pesos são inicialmente examinados por meio de intervalos de confiança bootstrap de 95% (corrigidos por viés), em que a exclusão do zero garante sua interpretação direta; contudo, caso um peso se mostre estatisticamente não significativo, utiliza-se em seu lugar a estimativa da carga correspondente, desde que seu valor exceda 0,5.

Para lidar com questões de multicolinearidade, estimou-se um HCM Formativo-Formativo adicional com indicadores agregados. Os indicadores agregados não foram definidos apenas por meio de procedimentos orientados pelos dados (data-driven); eles também foram fundamentados teoricamente (Hair et al., 2017). Um exemplo é a criação do indicador ORD6, como média dos indicadores ORD1, ORD3, e ORD5.

5. RESULTADOS

5.1 Indicadores

Este estudo inova ao propor o uso de informações não baseadas em questionários, mas em indicadores sociais disponíveis. A Tabela 1 apresenta as dimensões que compõem os conceitos discutidos no referencial teórico. Cabe ressaltar que esses indicadores foram validados por dois especialistas 1, conforme recomendado pela metodologia (Hair et al., 2017), com base em sua validade, confiabilidade e aderência aos valores dos constructos.

Tabela 1
DIMENSÕES E INDICADORES

5.2 Análise de dados ausentes e matriz de correlação

Embora alguns indicadores tenham apresentado taxas de dados ausentes (missing data) superiores a 30% nos países analisados (Figura 1), o PLS-SEM é mais tolerante a esse problema, visto que foi utilizado um algoritmo baseado em Random Forests para a imputação de valores ausentes (Fan et al., 2016).

Figura 1
Visão do percentual de dados ausentes dos indicadores

A Figura 2 apresenta as estimativas da relação entre os indicadores, os quais evidenciam blocos de variáveis positivamente correlacionadas em grau moderado a forte, adotando-se o limiar de 0,6 para pesquisas exploratórias. (Hair et al., 2017).

Figura 2
Matriz de inter-relação dos indicadores

Os indicadores apresentam-se todos positivamente relacionados entre si. Aqueles que compõem a dimensão de compromisso com o interesse público são fracamente correlacionados, enquanto os indicadores da dimensão liberdade apresentam correlação leve. Já os indicadores que compõem as dimensões ordem e cultura empreendedora privada variam de forma moderada a fortemente correlacionados (Figura 2).

Os indicadores de segurança pública possuem uma característica singular que os torna especiais sob a perspectiva da análise de dados: sua multidimensionalidade (McIlwaine, 1999). Eles são afetados por múltiplos fatores e, portanto, apresentam diversos níveis de análise e complexidade (Fox & Hoelscher, 2012; Hsieh & Pugh, 1993; McIlwaine, 1999; Messner, 1983). Tais características podem levar a correlações espúrias. Essa multidimensionalidade pode ajudar a explicar as correlações dos indicadores dentro e entre as dimensões, bem como a multicolinearidade resultante. Dois indicadores podem estar fortemente correlacionados porque uma terceira variável, não mensurada, os conecta. Por outro lado, duas variáveis podem ser condicionalmente independentes, isto é, condicionadas ao valor de uma terceira variável, elas tornam-se independentes e, portanto, não correlacionadas. Este conceito estatístico é conhecido como d-separação (Pearl, 2012). Isso pode explicar por que o Índice de GINI (CPI1) e o Índice de Liberdade de Expressão (FRE3) apresentam correlação fraca com os demais indicadores (Figura 2).

5.3 Modelo composto hierárquico formativo-formativo

Os resultados reportados na Tabela 2 demonstram que o modelo atendeu a todos os critérios de elegibilidade. Tais propriedades asseguram a admissibilidade do modelo, isto é, confirmam que a análise estatística dos resultados do modelo composto hierárquico formativo-formativo pode ser realizada (Schuberth et al., 2023).

Tabela 2
Checklist de propriedades necessárias para a admissibilidade do modelo

5.4 Modelo de mensuração formativo

O modelo HCM Formativo-Formativo (Modelo A) foi ajustado aos dados. Valores de VIF superiores a 5 indicam a presença de multicolinearidade. No primeiro estágio, os indicadores ORD1, ORD3, PEC1, PEC2, PEC3, QoL1 e QoL2 exibiram multicolinearidade. No segundo estágio, a multicolinearidade também foi observada entre os constructos de primeira ordem: Liberdade, Ordem e PEC (Tabela 3). Para tratar a multicolinearidade, um modelo HCM Formativo-Formativo com indicadores agregados (Modelo B) foi ajustado aos dados (Hair et al., 2017). No geral, houve uma redução substancial nos valores de VIF após o ajuste do HCM com indicadores agregados, embora alguns indicadores e/ou constructos ainda tenham apresentado valores de VIF acima de 5 (Tabela 3). O problema da multicolinearidade pode ter surgido da natureza multidimensional dos indicadores (Pearl, 2012).

Tabela 3
Valores de VIF para indicadores e constructos no modelo HCM formativo-formativo (Modelo A) e no modelo HCM formativo-formativo com indicadores agregados (Modelo B)

Consequentemente, a análise estatística prosseguiu apenas com o HCM Formativo-Formativo com indicadores agregados.

Tabela 4
Estimativas dos pesos, seus intervalos de confiança bootstrap de 95% com correção de viés (BC) e estimativas das cargas

As estimativas dos pesos, seus respectivos intervalos de confiança e as estimativas das cargas são reportados na Tabela 4. No estágio 1, a maioria das estimativas de pesos difere de zero com base nos intervalos de confiança bootstrap de 95% com correção de viés (BC). No entanto, as estimativas de pesos para os indicadores ORD2 e CPI4 não diferem de zero dentro dos intervalos de confiança bootstrap de 95% BC. No estágio 2, os constructos Liberdade e Ordem também não diferem de zero. Todavia, suas estimativas de cargas excedem 0,5. Nesses casos, as estimativas de cargas devem ser interpretadas em detrimento das estimativas de pesos. Os pesos capturam a contribuição condicional de um indicador para um constructo, considerando a variância compartilhada com os demais indicadores, enquanto as cargas são interpretadas como correlações entre indicadores e constructos, ou entre constructos de primeira e segunda ordem (Hair et al., 2017).

Por outro lado, no estágio 1, o CPI1 (Índice de Gini) é o único indicador cuja estimativa de peso não difere de zero e cuja estimativa de carga é inferior a 0,5. Sob uma perspectiva puramente estatística, o CPI1 poderia ser excluído da análise. No entanto, esses resultados devem ser interpretados com cautela, uma vez que CP1 mensura a desigualdade social, que é um aspecto fundamental da dimensão CIP, validada por especialistas.

É também importante notar que, embora o peso do FRE3 (Índice de Liberdade de Expressão) no estágio 1 difira de zero, seu sinal está invertido em relação ao esperado com base na teoria subjacente. Além disso, no estágio 2, os sinais das estimativas de pesos para os constructos de primeira ordem Liberdade e Ordem também estão invertidos em relação às expectativas teóricas; contudo, essas estimativas não diferem de zero dentro dos intervalos de confiança bootstrap de 95% BC.

5.5 Diagrama causal e modelo estrutural

Figura 3
Diagrama causal, estimativas de pesos e R2 do modelo de composto hierárquico formativo-formativo com indicadores agregados

A figura 3 apresenta o diagrama causal do modelo de composto hierárquico formativo-formativo com indicadores agregados.

O valor do coeficiente de caminho demonstra uma forte relação entre o constructo CVE e a QV das sociedades, conforme mensurado pelos indicadores (β = 0,929). Os valores de R2 indicam que 86,3% da variabilidade na qualidade total pode ser explicada pelo CVE, o que representa um resultado expressivo de acordo com o critério de Cohen (1988), confirmando a hipótese H1 - Valores éticos influenciam positivamente a QV das sociedades.

Do ponto de vista teórico, a ética é composta pelos constructos de primeira ordem: Liberdade, Ordem, Compromisso com o Interesse Público (CIP) e Cultura Empreendedora Privada (CEP). Os resultados do HCM formativo-formativo sugerem que as estimativas de pesos devem ser interpretadas para o Compromisso com o Interesse Público (CIP) e para a Cultura Empreendedora Privada (CEP), ao passo que as estimativas de cargas devem ser interpretadas para os constructos de primeira ordem Liberdade e Ordem, uma vez que suas estimativas de pesos não diferem estatisticamente de zero, mas suas estimativas de cargas são superiores a 0,5.

Esses resultados indicam que Liberdade e Ordem estão fortemente associadas ao CVE de segunda ordem. A Cultura Empreendedora Privada apresenta uma contribuição moderada, enquanto o Compromisso com o Interesse Público oferece a menor contribuição para o CVE.

Para aumentar a clareza para os leitores, mapas de calor foram gerados para cada variável latente do constructo, conforme ilustrado nas figuras a seguir.

Figura 4
Mapa de calor da Liberdade

O mapa ilustra uma variação global significativa nos níveis de liberdade, com índices variando de aproximadamente -2 a 2. Os níveis mais elevados (amarelo) concentram-se na América do Norte, Europa Ocidental e Oceania, ao passo que os níveis mais baixos (roxo escuro) encontram-se no Oriente Médio, Norte da África e Venezuela. Essa distribuição destaca uma acentuada disparidade geográfica na liberdade em escala mundial.

Figura 5
Mapa de calor da ordem

A figura 5 ilustra a distribuição global dos índices de ‘Ordem’. Esta visualização também destaca uma disparidade geográfica significativa na ordem entre as diferentes regiões do mundo.

Figura 6
Mapa de calor do Compromisso com o Interesse Público

A Figura 6 ilustra o panorama global do CIP, destacando que os valores máximos de CIP, representados por tonalidades amarelas, estão agrupados na Oceania, América do Norte e partes da Europa Ocidental, refletindo altos níveis de dedicação institucional ao bem-estar público. Inversamente, os escores mais baixos, indicados por roxo escuro, situam-se primordialmente na África Subsaariana e no Sul da Ásia.

Figura 7
Mapa de calor da Cultura Empreendedora Privada

O mapa de calor global para a Cultura Empreendedora Privada (CEP) mostra uma acentuada disparidade geográfica, com os escores mais elevados concentrados na América do Norte e na Oceania. Esta visualização enfatiza o diversificado panorama internacional do engajamento empreendedor, refletindo variados contextos institucionais e culturais regionais.

Figura 8
Mapa de calor da Qualidade de Vida

O mapa de calor apresentado na Figura 8 demonstra que a QV é consistentemente mais elevada nos mesmos países onde a liberdade, a ordem, o compromisso com o interesse público e a cultura empreendedora privada também são elevados, corroborando os achados.

6. DISCUSSÃO

A hipótese H1 - Valores Éticos influenciam positivamente a qualidade de vida das sociedades foi confirmada de maneira muito significativa, visto que o R-quadrado do modelo estrutural explica mais de oitenta por cento da variabilidade (86,3%), considerando que valores de R2 superiores a 26% podem ser considerados grandes (Cohen, 1988). No entanto, uma análise mais aprofundada desses resultados se faz necessária.

Uma observação importante é que os resultados não sustentam as polarizações políticas entre liberdade e ordem e entre compromisso com o interesse público e cultura empreendedora privada; em vez disso, apontam coeficientes significativos para todas as dimensões quando consideradas simultaneamente (Hair et al., 2017). Esse achado apoia a ideia de que existe um tipo de polarização prejudicial no mundo contemporâneo que nos afasta das questões importantes para uma melhor QV nas sociedades modernas (Rosa et al., 2021). Além disso, a polarização aumenta a violência (Fox & Hoelscher, 2012). Dessa forma, os resultados mostram que a coexistência complementar da liberdade com a ordem e do compromisso com o interesse público com uma cultura empreendedora privada tem um impacto positivo na QV dos países.

A dimensão da liberdade apresentou uma estimativa de carga elevada de 0,81. Esse resultado alinha-se à base teórica, embora todos os autores também concordem que uma multiplicidade de variáveis e fatores contingentes permeia as teorias do desenvolvimento (Acemoglu & Robinson, 2012; Inglehart & Welzel, 2009; Sen, 2010). Fatos históricos comprovados por teóricos que pensam de forma distinta dos autores estudados neste trabalho não devem ser desconsiderados. Um exemplo foi a proteção de indústrias nascentes por meio de barreiras tarifárias e a proteção de inovações por meio de leis de patentes, o que conferiu aos países ricos uma vantagem competitiva, apesar do discurso de livre comércio que essas nações impõem ao Terceiro Mundo (Reinert, 2019). Reinert, entretanto, admite que a construção da “civilização”, da democracia e até mesmo de um setor industrial era vista como parte inseparável de um mesmo processo, o qual Tocqueville denominou liberdade (Reinert, 2019).

A ordem, apesar de apresentar uma estimativa de carga superior, não é tão hegemônica no mundo teórico quanto a liberdade. Mandeville acreditava que os vícios privados eram benéficos para a economia da sociedade pois, se não houvesse ladrões, a polícia estaria desempregada. No entanto, há quem acredite que esse paradoxo não se sustenta, visto que bastaria atear fogo às cidades para gerar trabalho para carpinteiros, eletricistas e pedreiros. Pietro Verri resolveu esse problema ao afirmar que os interesses privados de cada indivíduo, quando coincidentes com os interesses públicos, garantem a felicidade social (Reinert, 2019). Na modernidade, nenhum dos autores estudados desassocia a importância da confiança interpessoal e da segurança jurídica para o bem-estar econômico (Acemoglu & Robinson, 2012; Fukuyama, 1995; Inglehart & Welzel, 2009; Sen, 2010), o que valida a elevada estimativa de carga de 0,87 para a ordem.

Valores mais baixos para os coeficientes dos indicadores ambientais, representados pelo indicador CPI3 com uma estimativa de peso de 0,09, podem apontar falhas na construção desses tipos de indicadores baseados na sustentabilidade ambiental, visto que, ao se estudar as nações, o crescimento econômico e o consumo de energia possuem uma forte correlação com a degradação ambiental, especialmente em países desenvolvidos (Ali et al., 2021). O aprimoramento desse tipo de indicador poderia ser uma sugestão para pesquisas futuras em campos interdisciplinares, mas o fato é que algumas práticas atuais em países desenvolvidos não estão produzindo os resultados de que o planeta necessita. Os créditos de carbono, por exemplo, são uma forma de desengajamento por parte dos países desenvolvidos, terceirizando o problema para países subdesenvolvidos com regras de emissão de carbono mais flexíveis (Nielsen et al., 2021). A multidimensionalidade dos indicadores CPI1 e CPI3 contribuiu para uma estimativa de peso menor (0,5) para a dimensão CIP.

Além disso, o esgotamento dos recursos naturais em países em desenvolvimento é frequentemente atribuível a empresas de países desenvolvidos e, em nível mundial, o esgotamento é superior à reciclagem, contribuindo, assim, para o aquecimento global e ameaçando a QV no planeta (Ali et al., 2021), o que atribui maior responsabilidade aos países que mais consomem esses recursos, que são os desenvolvidos. Economia verde, empregos verdes e crescimento verde precisam passar da retórica à prática.

A cultura empreendedora privada, representada pela competitividade, inovação e excelência, apresentou um peso de 0,96. A inovação é considerada um motor do desenvolvimento, de salários mais altos e de maior bem-estar social, especialmente quando a produção assume uma nova forma, visto que o aumento dos salários sem o aumento da produtividade gera inflação (Acemoglu & Robinson, 2012; Reinert, 2019).

6.1 Limitações e oportunidades para pesquisas futuras

Uma das limitações deste estudo é o escopo restrito da QV investigada, pois, se os valores éticos são tão importantes para maximizar a QV das sociedades, então uma questão fundamental permanece sem resposta: por que países desenvolvidos com alto nível de QV também apresentam altas taxas de suicídio? (Standing, 2013; WHO, 2021). Conforme explicado anteriormente, a QV revisada neste estudo baseou-se em indicadores socioeconômicos. No entanto, não se pode desconsiderar os inúmeros estudos sobre os aspectos psicológicos da QV, que apontam para o bem-estar mental dos indivíduos que compõem uma sociedade (Day & Jankey, 1996).

A questão da distribuição de renda, refletida no indicador CPI1 com um coeficiente de 0,10, deveria ser melhor abordada pelos países desenvolvidos, visto que, a longo prazo, a desigualdade afeta não apenas o desenvolvimento econômico, mas também o desenvolvimento humano (Castells-Quintana et al., 2019).

Pesquisas futuras oferecem uma oportunidade para testar indicadores alternativos de diversas instituições oficiais, particularmente nas dimensões de liberdade e ordem, a fim de reduzir ainda mais a multicolinearidade.

Embora este estudo exploratório forneça uma linha de base abrangente, por meio de uma amostra extensa de países; agrupamentos granulares por continentes, regimes políticos, diversidade religiosa e as relações entre países situam-se além do escopo atual. Em vez disso, essa amplitude serve como um insumo essencial para que pesquisas futuras investiguem essas distintas realidades socioeconômicas e clusters institucionais. (Hair et al., 2005).

7. CONCLUSÃO

Antes de Sen (2010), as principais obras que abordavam a qualidade de vida (QV) das sociedades tinham um viés quase exclusivamente econômico. Este estudo buscou analisar a qualidade de vida de forma mais ampla, procurando compreender quais valores éticos se correlacionam com um alto padrão de QV. Nesse sentido, vale examinar se a alta qualidade de vida social nas nações desenvolvidas pode ser explicada, pelo menos em parte, por certos valores éticos enraizados nas culturas dessas sociedades que lhes permitiram tornar-se nações prósperas. Essa premissa foi sustentada pelos resultados empíricos, confirmando a hipótese H1 - Valores Éticos influenciam positivamente a QV das sociedades.

A partir dos achados descritos, concluiu-se que valores éticos que expressam liberdade, ordem, compromisso com o interesse público e cultura empreendedora privada influenciam positivamente a qualidade de vida nas sociedades contemporâneas.

Cabe ressaltar que é necessária uma maior atenção à dimensão do compromisso com o interesse público, especialmente em países com alta QV e no que diz respeito à igualdade e à sustentabilidade ambiental. O senso de desigualdade reduz a coesão social (Sen, 2010), e os efeitos globais das migrações em massa e das crises humanitárias têm afetado a QV nesses países (Gasper & Clair, 2010; Goulet, 1997). Além disso, o aquecimento global, a poluição nas grandes cidades e o esgotamento dos recursos naturais exigem ação (Ali et al., 2021).

Sociedades e governos devem compartilhar a responsabilidade pelas mudanças. Assim como os países com alta QV precisam adotar ações prioritárias para combater as desigualdades sociais e cuidar do meio ambiente, os países com baixa QV precisam oferecer as contrapartidas de defender a democracia, combater a corrupção, evitar a polarização, buscar maior confiança interpessoal e perceber a importância de fomentar uma cultura de inovação como meio de prosperidade econômica sustentável.

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  • Pareceristas:
    Ana Luísa Vieira de Azevedo, Centro Universitário Carioca, Rio de Janeiro, RJ, Brasil
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    Diógenes Souza Bido, Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, SP, Brasil
  • Relatório de revisão por pares:
    O relatório de revisão por pares está disponível em https://periodicos.fgv.br/rap/article/view/97069/90457
  • DISPONIBILIDADE DE DADOS DA PESQUISA
    O conjunto de dados completo que sustenta os resultados deste estudo foi disponibilizado em Open Science Framework (OSF) e pode ser acessado em https://osf.io/abvh8/?view_only=7e20e022c96c4547acc6c46b1f0be12d
  • 1
    Prof. Dr. Marcello Beckert Zappellini - Doutor em Administração pela Universidade Federal da Bahia (2012). Prof. Dr. Thiago Fontelas Rosado Gambi - Doutor em História Econômica pela Universidade de São Paulo (2010).

Editado por

  • Editor-chefe:
    Gregory Michener, Fundação Getulio Vargas, Rio de Janeiro, RJ, Brasil
  • Editora adjunta:
    Gabriela Spanghero Lotta, Fundação Getulio Vargas, São Paulo, SP, Brasil

Disponibilidade de dados

O conjunto de dados completo que sustenta os resultados deste estudo foi disponibilizado em Open Science Framework (OSF) e pode ser acessado em https://osf.io/abvh8/?view_only=7e20e022c96c4547acc6c46b1f0be12d

Citações de dados

Kaufmann, D., & Kraay, A. (2018). Worldwide Governance Indicators World Bank Group.

United Nations Development Programme. (2021). Human Development Index (HDI) UNDP. http://hdr.undp.org/en/content/human-development-index-hdi

World Bank Group. (2021). DataBank https://databank.worldbank.org/home.aspx

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    27 Jul 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    03 Out 2025
  • Aceito
    14 Abr 2026
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