As diversas causas de dor no ombro do nadador

CARTA AO EDITOR

As diversas causas de dor no ombro do nadador

Os nadadores, assim como os praticantes de voleibol, beisebol e pólo aquático, encontram-se no grupo de atletas que exercem atividades físicas repetitivas com a mão acima do nível da cabeça. Este tipo de movimento proporciona alterações particulares na biomecânica da articulação glenoumeral, incluindo a discinesia e o desequilíbrio das forças musculares, hipertrofiando os grupos dos rotadores internos e adutores, com fadiga da musculatura dos rotadores externos e abdutores, que agem como antagonistas. Estudos também mostram que os nadadores de elite são mais propensos a apresentar frouxidão ligamentar multidirecional, parte adquirida devido às atividades de repetição e parte facilitada pelo biotipo do atleta(1). Estas alterações biomecânicas, associadas aos movimentos repetitivos crônicos, contribuem para lesões por impacto, tanto subacromial como póstero-superior, além de alterações do lábio glenoidal. Seguindo esta linha de raciocínio, uma pesquisa relatou o resultado da artroscopia do ombro em 18 nadadores de alta performance(2). Foi constatado que a maioria das lesões encontradas durante a cirurgia era referente ao lábio glenoidal, em 11 pacientes (61%), associadas a sinais de impacto póstero-superior em cinco casos e subacromial em dois casos. Em outros cinco casos foram encontrados sinais de impacto subacromial (28%), sendo que em dois destes também havia sinais de impacto póstero-superior.

Em estudo recente publicado na Radiologia Brasileira, Cunha et al.(3) avaliaram as lesões tendíneas do manguito rotador em 11 nadadores de elite, independentemente dos sintomas, concluindo que estes não têm maior incidência de lesões tendíneas quando comparados com a população geral, e que a prevalência da dor nestes atletas resulta, na maioria das vezes, de um processo inflamatório que ocorre na bursa subacromiodeltoideana. Deve-se ter cautela com a segunda parte da conclusão, pois o estudo foi realizado por ultra-sonografia, que permite uma avaliação minuciosa das estruturas mais superficiais da articulação, como a bursa e os tendões, mas não tão bem das estruturas profundas, como o lábio da glenóide. Em casos sintomáticos, quando o ultra-som não consegue demonstrar satisfatoriamente lesões que possam explicar a dor do paciente, a utilização de outros recursos, como a ressonância magnética, pode estar indicada para a avaliação das estruturas mais profundas, como o lábio e o complexo ligamentar.

Rodrigo Aguiar

Doutor, Médico Voluntário do Hospital

de Clínicas da Universidade Federal

do Paraná (UFPR), Curitiba, PR, Brasil.

E-mail: aguiar.rodrigo@gmail.com

Resposta

Caro leitor,

Em primeiro lugar, gostaríamos de agradecer o interesse pelo tema, os comentários e colocações relevantes. Estamos de acordo que as causas de dor no ombro, principalmente em atletas "de arremesso" (natação, vôlei, pólo aquático, etc.), não são limitadas apenas a alterações tendíneas e inflamatórias da bursa. É notório na literatura, e em nossa experiência com outros métodos de imagem (ressonância magnética, artrorressonância), que estes atletas desenvolvem hiperlaxidão articular, bem como, na rotina diária de treinamento, fadiga dos estabilizadores dinâmicos do ombro e instabilidade multidirecional, sendo, portanto, alta a incidência de impacto póstero-superior nestes indivíduos. Este mecanismo acha-se intimamente relacionado a lesões labrais, que são causas freqüentes de dor nestes indivíduos.

No entanto, o intuito de nossa pesquisa foi avaliar se atletas envolvidos em longas rotinas de treinamento em natação teriam maior incidência de lesões do manguito rotador do que a população geral. Para este objetivo, a ultra-sonografia apresenta grande sensibilidade e especificidade, em relação aos demais métodos diagnósticos. Nossa conclusão foi que a incidência de lesões do manguito rotador nestes atletas não difere da incidência relatada na população geral por outros autores. A segunda parte da conclusão, questionada em sua carta, refere-se à observação de que em nossa casuística os pacientes que possuíam dor apresentavam maior incidência de bursite frente aos assintomáticos.

Nosso objetivo e conclusão referem-se a apenas verificar se atletas de natação apresentam taxa de lesões tendíneas maior que a população geral, e não investigar as causas de dor no ombro nestes indivíduos. Sabemos da limitação do ultra-som como método de avaliação das estruturas intra-articulares, principalmente o labro. Nossa experiência com os demais métodos sugere que todos os mecanismos de impacto no ombro, bem como suas lesões associadas, podem estar associadas a sintomas dolorosos no ombro, mas este aspecto encontra-se fora dos objetivos já citados.

Atenciosamente,

Guilherme Moura da Cunha

Médico Residente do Serviço de Radiologia

do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho

da Universidade Federal do Rio de Janeiro

(HUCFF-UFRJ), Rio de Janeiro, RJ, Brasil.

E-mail: mouracunha@hotmail.com

  • 1. Brushøj C, Bak K, Johannsen HV, et al. Swimmers' painful shoulder arthroscopic findings and return rate to sports. Scand J Med Sci Sports. 2007;17: 3737.
  • 2. McMaster WC, Roberts A, Stoddard T. A correlation between shoulder laxity and interfering pain in competitive swimmers. Am J Sports Med. 1998; 26:836.
  • 3. Cunha GM, Marchiori E, Ribeiro EJ. Avaliação ultra-sonográfica da articulação do ombro em nadadores de nível competitivo. Radiol Bras. 2007; 40:4038.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    29 Ago 2008
  • Data do Fascículo
    Ago 2008
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