Open-access Rocurônio e sugamadex em recém-nascido de 3 dias para drenagem de um cisto ovariano. Controle neuromuscular e revisão da literatura

Resumo

Relato do caso de uma criança recém-nascida de três dias de idade com um cisto ovariano gigante programada para a cirurgia. A paciente recebeu uma dose de sugamadex para reverter o bloqueio neuromuscular induzido por rocurônio. Uma recuperação rápida e eficiente do bloqueio neuromuscular foi obtida dentro de 90 segundos. Não foram observados efeitos adversos ou outros problemas de segurança. Além disso, uma revisão da literatura sobre o uso de sugamadex em recém-nascidos foi feita.

PALAVRAS-CHAVE
Recém-nascidos; Cisto ovariano; Sugamadex; Rocurônio; Agente de reversão

Abstract

A case is reported in which a 3-days old neonate with a giant ovarian cyst was scheduled for surgery. The patient received a dose of sugammadex to reverse a rocuronium-induced neuromuscular block. A fast and efficient recovery from neuromuscular block was achieved within 90 s. No adverse events or other safety concerns were observed. Furthermore, a review of the literature on the use of sugammadex in neonates was performed.

KEYWORDS
Neonates; Ovarian cyst; Sugammadex; Rocuronium; Reversal agent

Introdução

Cistos ovarianos neonatais são incomuns. A incidência desses cistos é de 1/2.500 nascidos vivos e a detecção é com frequência feita no pré-natal durante a ecografia no fim da gravidez.1-3 Esses cistos estão associados a complicações pré- e pós-natais como a torção do ovário, que pode levar à perda de ovário, especialmente em cistos volumosos.1 Portanto, o tratamento de cistos ovarianos inclui observação e intervenção cirúrgica quando sintomáticos.1,2

Rocurônio é um agente bloqueador neuromuscular comumente usado em anestesia clínica e administrado em todas as faixas etárias, incluindo recém-nascidos. Sugamadex é o primeiro agente seletivo de ligação ao bloqueador neuromuscular desenvolvido para reverter o bloqueio neuromuscular (BNM) induzido por rocurônio ou vecurônio. Sugamadex foi estudado em adultos e crianças com mais de quatro anos, mas há poucos dados disponíveis sobre a eficácia e segurança de sugamadex na reversão do BNM induzido por rocurônio em recém-nascidos.3,4

Relatamos o caso de uma criança recém-nascida (três dias), com um cisto gigante no ovário, que recebeu uma dose de sugamadex para reverter um profundo BNM induzido por rocurônio. Discutimos a segurança e eficácia de sugamadex. Além disso, uma revisão da literatura sobre o uso de sugamadex em recém-nascidos foi feita.

Relato de caso

Uma criança do sexo feminino, com três dias, 2,98 kg, apresentou-se com um cisto gigante no ovário, volume de 180 mL confirmado por ultrassonografia. O exame físico revelou uma massa palpável na região abdominal. Exame adicional não revelou outra afecção. Após obter a assinatura da mãe em termo de consentimento informado, a criança foi programada para cirurgia aberta para drenar o cisto sob anestesia geral.

Um acesso intravenoso (IV) foi previamente inserido. A monitoração intraoperatória padrão incluiu ECG, PANI, oximetria de pulso, capnografia, analisador de gases anestésicos e termômetro esofágico. A função neuromuscular foi monitorada com o uso de TOF (sequência de quatro estímulos) do nervo ulnar e foi quantificada com aceleromiografia (TOF-WatchTM SX, Schering-Plough Ireland Ltd., Dublin, Irlanda). A variável de eficácia primária para a reversão foi definida como o tempo desde o início da administração de sugamadex até a recuperação da razão de TOF para 0,9.

Após a pré-oxigenação, a anestesia foi induzida com sevoflurano via máscara facial e opiáceo IV. Os procedimentos de configuração, calibração e estabilização do monitoramento neuromuscular foram executados. A paciente, então, recebeu uma injeção IV em bolus 0,9 mg kg-1de rocurônio. Subsequentemente, a intubação traqueal foi feita e os pulmões foram ventilados com uma mistura de oxigênio e ar em proporção de 2:3. O procedimento cirúrgico transcorreu normalmente, 240 mL de líquido foram drenados do cisto ovariano e uma ooforectomia parcial foi feita. A duração da anestesia foi de 75 min. No fim do procedimento, a monitoração neuromuscular mostrou uma contagem pós-tetânica (PTC 1), indicou um profundo BNM. A reversão do BNM induzido por rocurônio foi feita com a administração de 4 mg kg-1 de sugamadex (12 mg). O tempo para a recuperação do BNM induzido por rocurônio até a razão de TOF para 0,9 foi de 90 s. Em comparação com os valores basais, não foram observadas alterações na pressão arterial ou batimentos cardíacos após a administração da dose de sugamadex. No oitavo minuto após a administração de sugamadex, a traqueia foi extubada e a paciente recebeu alta para a assistência neonatal. A recuperação da paciente da anestesia transcorreu sem intercorrências e não foram observados sinais de BNM residual ou recurarização.

Revisão da literatura

A revisão da literatura foi feita no PubMed e em arquivos pessoais de ambos os autores com critérios de pesquisa para sugamadex e recém-nascidos. Os critérios de inclusão foram: recém-nascidos tratados com sugamadex, artigos em idioma inglês. Essas publicações foram recolhidas e analisadas. A pesquisa bibliográfica sobre sugamadex e recém-nascidos resultou em apenas duas publicações que atendiam aos critérios de inclusão (nenhuma do PubMed), nas quais 24 pacientes foram descritos e que serão discutidas a seguir.4,5

Discussão

A reversão de um BNM profundo induzido por rocurônio com sugamadex (4 mg kg-1) em nossa paciente foi rápida, completa e sem sinais de curarização residual no pós-operatório (CRPO) ou recurarização. Sugamadex foi seguro e bem tolerado. A reversão do BNM é importante para a aceleração da recuperação do paciente e prevenção de CRPO. O BNM induzido por rocurônio pode ser revertida por inibidores da colinesterase. No entanto, a reversão do BNM com inibidores da colinesterase (em combinação com antagonistas muscarínicos) tem limitações devido ao seu mecanismo de ação (ineficaz contra BNM profundo) e é frequentemente associada a efeitos colaterais colinérgicos indesejáveis.

Sugamadex pode ligar-se a drogas esteroides de BNM como rocurônio ou vecurônio e formar um complexo. A encapsulação da molécula de rocurônio por sugamadex resulta em uma diminuição rápida de rocurônio livre no plasma e, subsequentemente, do receptor nicotínico na placa terminal motora e leva a um rápido reaparecimento da atividade muscular. Após a encapsulação, rocurônio não está disponível para se ligar ao receptor nicotínico na junção neuromuscular. Isso promove a liberação de receptores de acetilcolina e a atividade muscular reaparece.

Discussão da revisão da literatura

Em duas publicações, 24 casos neonatais foram descritos, nos quais sugamadex foi administrado.4,5 Em uma das publicações, um paciente com 20 dias e 2,6 kg recebeu 12 mg de sugamadex para reverter um bloqueio neuromuscular profundo induzido por rocurônio. Dentro de dois minutos a razão de TOF para > 0,9 foi recuperada. Não houve relato sobre preocupações com a segurança em relação ao sugamadex.5 Na outra publicação, relatou-se que 23 pacientes foram alocados em dois grupos: A, pacientes com um dia (n = 8, média de peso em kg e [DP] 2,8 [0,8]) e B, 1-7 dias (n = 15, média de peso em kg e [DP] 2,4 [0,8]).4 Todos os recém-nascidos receberam sugamadex (4 mg kg-1) para a reversão de um BNM profundo induzido por rocurônio. A recuperação para razão TOF no Grupo A foi de 1,4 min (0,9) (DP) e 1,2 (0,5), respectivamente. Sugamadex foi seguro e bem tolerado. Em todos os pacientes, a recuperação foi rápida e completa.

Os resultados de nossa paciente estão de acordo com os encontrados na literatura e as doses de sugamadex (4 mg kg-1) produziram tempos de recuperação semelhantes como em outras faixas etárias.3 Portanto, a dosagem e os tempos de recuperação são idênticos em todas as faixas etárias e o uso de sugamadex em recém-nascidos também pode ser comparavelmente benéfico, como mostrado em grupos de pacientes de outras faixas etárias. Isso precisa ser confirmado em mais casos ou estudos dedicados. Além disso, a administração de bloqueio neuromuscular em neonatos também deve consistir da escolha apropriada de um agente bloqueador neuromuscular, monitoramento neuromuscular objetivo e reversão adequada para evitar a CRPO.

  • Divulgação
    Aprovação ética: não foi necessário obter aprovação ética; a mãe da criança permitiu a publicação.

Referências bibliográficas

  • 1 Noia G, Riccardi M, Visconti D, et al. Invasive fetal therapies: approach and results in treating fetal ovarian cysts. J Matern Fetal Neonatal Med. 2012;25:299-303.
  • 2 Papic JC, Billmire DF, Rescorla FJ, et al. Management of neonatal ovarian cysts and its effect on ovarian preservation. J Pediatr Surg. 2014;49:990-4.
  • 3 Plaud B, Meretoja O, Hofmockel R, et al. Reversal of rocuronium-induced neuromuscular blockade with sugammadex in pediatric and adult surgical patients. Anesthesiology. 2009;110:284-94.
  • 4 Alonso A, de Boer HD, Booij L. Reversal of rocuronium-induced neuromuscular block by sugammadex in neonates. Eur J Anaesthesiol. 2014;31(Suppl. 52):163.
  • 5 Cardenas VHG, Gonzalez FDM. Sugammadex in the neonatal patient. Rev Colomb Anesthesiol. 2013;41:171-4.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    Jul-Aug 2016

Histórico

  • Recebido
    17 Dez 2014
  • Aceito
    27 Jan 2015
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