Open-access Da esportivização à olimpização: a organização institucional do skate no Brasil

Sportification and olympization: the institutional organization of skateboarding in Brazil

De la deportivización a la olimpización: la organización institucional del skateboarding en Brasil

RESUMO

Este estudo buscou compreender os processos de transição do skate enquanto modalidade olímpica no Brasil, a partir da descrição de como o skate está organizado institucionalmente e da análise da relação da modalidade com o mercado e com o Estado. Foi utilizado o software MAXQDA para análise do livro “Somos Todos CBSk: a história da Confederação Brasileira de Skate” e o método de Análise de Conteúdo. A análise indica que o movimento de especialização, hierarquização, rendimento e profissionalização do skate no país, se manifestam em um ambiente progressivamente alinhado aos princípios olímpicos.

Palavras-chave:
Esportivização; Olimpização; Skate; Organização institucional

ABSTRACT

This study aimed to understand the transition processes of skateboarding as an Olympic sport in Brazil, based on the description of its institutional organization and the analysis of its relationship with the market and the State. MAXQDA software was used to analyze the book “Somos Todos CBSk: a história da Confederação Brasileira de Skate”, along with the Content Analysis method. The findings indicate that processes of specialization, hierarchization, performance orientation, and professionalization of skateboarding in Brazil occur in a context increasingly aligned with Olympic principles..

Keywords:
Sportification; Olympization; Skateboarding; Institutional organization

RESUMEN

Este estudio tuvo como objetivo comprender los procesos de transición del skate como deporte olímpico en Brasil, a partir de la descripción de su organización institucional y del análisis de su relación con el mercado y con el Estado. Se utilizó el software MAXQDA para el análisis del libro “Somos Todos CBSk: a história da Confederação Brasileira de Skate” y el método de Análisis de Contenido. Se identificó que los procesos de especialización, jerarquización, rendimiento y profesionalización del skate en el país se manifiestan en un contexto cada vez más alineado con los principios olímpicos.

Palabras clave:
Deportivización; Olimpización; Skate; Organización institucional

INTRODUÇÃO

Estudos recorrentes apontam a importância do olhar sobre o esporte moderno em diferentes esferas - histórica, social, midiática, política, econômica e cultural (Pilatti, 2006; Bracht, 2005; Rúbio, 2007; Goellner, 2005; Reis et al., 2020; Mascarenhas et al., 2012; Carneiro et al., 2024). Portanto, a análise do desenvolvimento das modalidades esportivas contemporâneas demanda sua contextualização nas transformações estruturais das dinâmicas do capitalismo tardio, marcada pela mercantilização das formas culturais e pela celebração do espetáculo, com a integração do esporte à indústria do entretenimento.

Nesse contexto, o aparecimento dos chamados novos esportes está ligado às mudanças culturais produzidas pelo pós-fordismo, ou modelo de acumulação flexível, conforme denomina Harvey (1989). Segundo Brandão (2014), algumas características podem ser imputadas a esse movimento de invenção dos novos esportes que o conectam a tal modelo: mercantilização, espetacularização, flexibilização, diversificação, segmentação, dentre outras.

Para Díaz “[...] los nuevos deportes son modas servidas efímeramente al servicio just in time de una clientela cambiante. Al cambiar un componente se puede crear otra gama” (Díaz, 2008, p. 57). Ou seja, para o autor, a rotatividade da oferta e criação de novos esportes está ligada a modismos efêmeros de uma clientela em constante mudança, onde a exploração comercial e o mito dos atletas e seus recordes assumem papel central com a midiatização de seus feitos inéditos, o que movimenta o novo entretenimento esportivo. Portanto adota-se o uso do termo novos esportes, conforme Díaz (2008), pois abrange, além das Práticas Corporais de Aventura (PCAs), modalidades como o Flag Football que está cotado pelo Comitê Olímpico Internacional (COI) para ingressar no programa olímpico.

Nesse cenário, o surgimento e origem desses “novos esportes” varia conforme cada modalidade, mas começa nos anos de 1960, alcançando maior difusão e popularização a partir dos anos 1970, como foi o caso do skate no Brasil. Em sua maioria são práticas ao ar livre que se distanciam do padrão indoor ligado aos esportes tradicionais, apesar das raízes do seu desenvolvimento, estarem atreladas aos esportes tradicionais (Brandão, 2014).

Observa-se que as novas modalidades surgem como fruto da inovação dos próprios esportistas, como foi o caso do skate derivado do surf, a partir de uma relação de ruptura e continuidade em que essas novas modalidades se desenvolvem, inicialmente contrapostas à racionalidade esportiva hegemônica, mas logo são “enquadradas” na lógica do alto desempenho esportivo (Díaz, 2008). Para Díaz (2008) “[...] El mercado del deporte produce nuevas modalidades que son consumos previstos para construir identidades sociales y cuyas vigencias son flexibles y cambiantes. También se producen nuevos espacios que son consecuencia de nuevos estilos sociales” (Díaz, 2008, p. 246).

Dessa maneira, muitas dessas modalidades passam a operar segundo uma lógica distinta daquela observada nos esportes tradicionais orientadas pela motivação e pelas sensações que a prática produz. Nesse caso ocorre uma valorização mística e hedonista relacionada ao corpo e suas potencialidades, em que a competição e a concorrência deixaram de ser o foco principal (Domingo, 1991).

Para Brohm (1982), a instituição esportiva contemporânea se diferencia drasticamente de outras atividades competitivas, para o autor, é nítida a ruptura do esporte antigo para o esporte contemporâneo, ao passo que esse elemento sociocultural dá vasão a um novo ethos social relacionado às práticas corporais, cuja racionalização de seus elementos tornam-se um campo científico de estudo dentro da sociedade urbana capitalista industrial.

A expansão do skate nas últimas décadas está associada à sua inserção em um mercado esportivo e cultural em crescimento. Estudos sobre a história do skate indicam que a modalidade passou por um processo de esportivização e mercantilização, envolvendo a produção industrial de equipamentos, a organização de campeonatos, o surgimento de revistas especializadas e o estabelecimento de patrocínios empresariais (Brandão, 2014; Honorato, 2013; Machado, 2012). Esse conjunto de transformações contribuiu para consolidar o skate como um setor econômico relevante no campo esportivo contemporâneo, ao mesmo tempo em que manteve vínculos com culturas juvenis e práticas contraculturais (Brandão, 2012b).

Esta discussão, sobre a comercialização e a integração da cultura e do esporte às transformações do modo de produção capitalista, voltada, em grande medida, para atender aos interesses dos mercados de massa, especialmente os relacionados à dinâmica da indústria do entretenimento, é desenvolvida em profundidade por Reis et al. (2020) entre outros estudos do Grupo de Pesquisa e Formação Sociocrítica em Educação Física, Esporte e Lazer (Avante) da Universidade de Brasília (UnB).

No Brasil o skate se encontra classificado dentro do conceito de Práticas Corporais de Aventura (PCAs), que podem ser urbanas, como no caso do skate, ou na natureza, como o surf, esporte do qual o skate deriva, e as PCAs são classificadas de acordo com o meio em que são praticadas (Inácio, 2014; Betrán e Betrán, 1995). No contexto das PCAs, o skate e o surf destacam-se no Brasil, especialmente em razão do desempenho alcançado nas duas últimas edições dos Jogos Olímpicos (no caso do skate, em Tóquio 2020, com a conquista de três medalhas de prata, e Paris 2024, com dois bronzes). Esse cenário reforça a relevância de investigações que examinem os processos de esportivização e olimpização do skate no Brasil, pois atualmente constituem produção científica incipiente e pouco explorada, fator que expõe lacunas importantes para estudos mais aprofundados, ainda que o debate acadêmico sobre o skate no Brasil tenha se ampliado permanecem escassos os estudos sobre administração interna e financiamento público da modalidade. (Silva e Capraro, 2023; Brandão e Machado, 2019).

No contexto desta pesquisa, interessa a nós pesquisadores dar ênfase ao desenvolvimento da Confederação Brasileira de Skate (CBSk) no Brasil, criada em 1999, e analisar a sua relevância no desenvolvimento do skate, que estreou como modalidade nos Jogos Olímpicos de Tóquio 2020/2021, além da relação com o Estado e o mercado no cenário de constituição da organização burocrática do skate brasileiro.

Este estudo teve como objetivo analisar o processo de organização institucional do skate no Brasil, tendo como eixo central a consolidação da Confederação Brasileira de Skate (CBSk). Para isso, buscou compreender como uma prática corporal historicamente marginalizada passou a constituir-se como modalidade esportiva olímpica, destacando as transformações institucionais que marcaram esse percurso e o papel desempenhado pela crescente visibilidade midiática e pelo apoio estatal.

A partir do entendimento de que o skate se desenvolveu num processo de esportivização contínua, e que se reatualiza no tempo, a seguir apresentamos a metodologia e as categorias de análise desse trabalho, que foram utilizadas como referência para a discussão dos dados.

METODOLOGIA

Esta pesquisa se caracteriza como qualitativa, com enfoque descritivo e interpretativo. Como método principal, foi empregada a Análise de Conteúdo, proposta por Bardin (2016), fim de compreender a organização institucional do skate no Brasil e as transformações ocorridas entre 1999 e 2020, período que abarca a fundação da CBSk, seu desenvolvimento e primeiro ciclo da modalidade incorporada ao programa olímpico. Como suporte técnico metodológico foi utilizado o programa MAXQDA (software acadêmico para análise de dados qualitativos e métodos mistos de pesquisa).

Dessa forma, no que tange aos procedimentos, a análise foi organizada em três etapas, a saber:

  1. pré-análise: exploração e interpretação do livro produzido pela CBSk: “#Somos todos CBSk: A História da Confederação Brasileira de Skate” (2020). Assim como de fontes secundárias da própria entidade (estatuto, atas, balanço e relatórios) disponíveis em seu portal, além de notícias, dentre outros.

  2. exploração do material: nessa segunda etapa foram levantadas as categorias de análise para codificação dos dados com base nas categorias: Esportivização e Olimpização; Organização Institucional; e Especialização e Hierarquização, observando padrões, divergências e tendências na relação com o mercado e com o Estado, nos registros documentais de fonte primária e secundária.

  3. tratamento dos resultados: interpretação crítica dos dados analisados, articulando-os com o referencial teórico e com os objetivos da pesquisa, bem como a construção de uma narrativa histórico analítica a fim de explicar as transformações na organização do skate no Brasil.

Ressalta-se que o livro #Somos Todos CBSk: A História da Confederação Brasileira de Skate (CBSk, 2021) foi utilizado como fonte documental para compreender o processo de criação e institucionalização da Confederação Brasileira de Skate. Longe de uma aceitação passiva da narrativa apresentada, sua análise fundamentou-se na Análise de Conteúdo de Bardin (2016), buscando ultrapassar a descrição do conteúdo manifesto e produzir inferências sobre os sentidos e as condições de produção do discurso institucional. Dessa forma, a obra foi examinada não apenas como registro histórico, mas também como documento institucional revelador das estratégias de legitimação, da identidade institucional e da narrativa construída pela própria CBSk acerca de sua trajetória e do processo de institucionalização do skate no Brasil.

A seguir apresentamos as discussões dos dados, dentro das categorias de análise.

ESPORTIVIZAÇÃO E OLIMPIZAÇÃO

De acordo com Brohm (1982), o esporte deve ser analisado em suas dimensões política, econômica e ideológica, por constituir um fenômeno social que produz significados, expressa relações de poder e assume distintas formas de representação. No âmbito político, configura-se como espaço de afirmação de interesses e identidades; no econômico, integra um setor que movimenta e concentra expressivos volumes de capital; e, no ideológico, atua na produção e difusão de valores socialmente legitimados. Nessa perspectiva, Brohm (2004, p. 181) afirma que "a evolução recente do movimento olímpico se transformou em uma multinacional globalizada", evidenciando o crescente entrelaçamento entre esporte, mercado e interesses econômicos.

Essas transformações, entre mercantilização e esportivização, corroboram com o que Rúbio (2019) chama de olimpização, a autora explica que a cooptação dos novos esportes é um processo de “fagocitose” (adesão, englobamento, fusão e degradação) em que novas práticas como o skate, o surfe e a escalada são integradas pelo movimento olímpico. Ou seja, é o enquadramento de modalidades, a princípio concebidas e idealizadas como manifestações de grupos específicos, que possuem regras, vestimentas e que carregam signos próprios da sua cultura, o que as caracterizavam fora do sistema historicamente determinado como modalidade olímpica, que tendem a passar por transformações para compor um modelo rígido, como foi o caso do skate.

É notório o interesse atual do COI pelos novos esportes, dados mostram que nos Jogos Olímpicos de 2000 em Sydney houve uma redução de 50% em espectadores masculinos de 18 a 34 anos, os mesmos autores revelam que o interesse do COI pelos esportes de ação está diretamente relacionado à perda de apelo entre públicos jovens e à necessidade de reposicionar o espetáculo olímpico diante das mudanças culturais contemporâneas (Thorpe et al., 2011).

Essa diminuição do número de espectadores jovens e o sucesso intensificado de grandes eventos como o X Games, instigou o COI a buscar alternativas para atrair o público jovem, que se interessam em prestigiar modalidades que Wheaton (2004) chama de sport-scape, ou seja, menos “engessados” que possibilitam um processo de criação maior pelos atletas do que nas modalidades tradicionais, e consequentemente, causam sensações também no público que as prestigia, como sentimento de tensão e emoção mais atenuado.

Contudo, a esportivização acentuada dessas modalidades tem sido associada, em pesquisas internacionais, a tensões recorrentes entre valores culturais, dinâmicas econômicas e restrições à autonomia dos praticantes decorrentes de modelos de competição e institucionalização altamente regulamentados. Além disso, do ponto de vista da ampliação da visibilidade das novas práticas esportivizadas, que passam pelo processo de olimpização, alguns autores destacam a insuficiência da educação para a prática — especialmente no que se refere às condições de segurança, dada a natureza de risco dessas atividades — o que também compromete princípios fundamentais das modalidades, principalmente no caso da escalada, cuja ética está baseada no cuidado e no respeito ao meio ambiente, o que não acontece nem é correlacionado dentro do ambiente olímpico (Renfree et al., 2024; Blanchard, 2018; Thorpe et al., 2011).

No caso do skate o processo de esportivização foi marcado por episódios de resistência dos praticantes, seja para a utilização do espaço público, como sinaliza Brandão (2008) “onde há poder há resistência”, seja para construção de pistas ou realização de campeonatos, o que contribuiu para sua ampla difusão no país, como demonstram os trabalhos de Brandão (2006, 2008, 2010a, 2010b, 2012) e de Machado (2014) que em suma afirma que os conflitos e as negociações em torno dos espaços urbanos, e as relações entre skate, cidade, juventude e cidadania adquirem visibilidade ao longo do processo de esportivização da prática.

Assim como o processo de consolidação da CBSk também não foi isento de disputas. No livro analisado, a trajetória da história da entidade é atravessada por tensionamentos entre a busca por preservar a identidade cultural do skate, marcada por valores de autonomia, criatividade e resistência, e cumprir as exigências de um modelo esportivo formalizado, burocrático, hierarquizado e orientado ao rendimento.

Dados de pesquisas do Instituto Datafolha, encomendadas pela CBSk, mostram que o número de adeptos da modalidade skate, relacionados a população brasileira, passou de 6% em 2002 para 10% em 2015, ano em que foi realizada a última pesquisa, totalizando uma média de 8,5 milhões de praticantes de skate no país, sendo uma estimativa de que 1,6 milhões são mulheres. Acredita-se que esse número aumentou expressivamente após a estreia do skate nos Jogos Olímpicos de Tóquio 2020 que ocorreram em 2021 (CBSk, 2015).

Levantamentos recentes da CBSk, também registrou um crescimento significativo de projetos de iniciativa social vinculadas ao skate, após a estreia da modalidade nos Jogos Olímpicos; nesse cenário, a confederação atua no mapeamento e apoio técnico para que as instituições possam acessar mecanismos de fomento como a Lei de Incentivo ao Esporte.

Além disso, observaram-se mudanças significativas na relação do Estado brasileiro com a modalidade, expressas na implementação de iniciativas voltadas à ampliação e democratização do acesso à prática, como o programa federal Skate por Lazer, bem como na expansão de mecanismos de financiamento esportivo, a exemplo do Bolsa Atleta, da criação de centros de treinamento especializados (Machado et al., 2023) e da utilização de instrumentos de fomento como a Lei de Incentivo ao Esporte – LIE (CBSk, 2025b).

Esse conjunto de políticas sugerem que a institucionalização da modalidade por meio da CBSk tem fortalecido não apenas a excelência esportiva, mas também a difusão do skate como esporte formação e esporte para a vida toda, ampliando seu papel social e educativo para além do rendimento.

ORGANIZAÇÃO INSTITUCIONAL

A incorporação do skate ao universo esportivo formal não se deu de forma imediata nem espontânea, antes mesmo da criação da CBSk, em 1999, já se observava um processo embrionário de organização nacional da modalidade. A fundação da Associação Brasileira de Skate (ABS), em 1986, seguida pela articulação entre skatistas e empresários que resultou na criação da União Brasileira de Skate (UBS) em 1988, constituiu o primeiro movimento estruturado de representação coletiva no país (CBSk, 2021). Ainda que marcado por limitações materiais e institucionais, esse pioneirismo produziu efeitos significativos: ampliou a visibilidade do skate na imprensa, favoreceu a aproximação com órgãos governamentais e impulsionou a adesão de novos praticantes, fortalecida também pela difusão de referências culturais associadas ao estilo skatewear. Paralelamente, a realização de campeonatos e a construção de skateparks contribuíram para conferir maior reconhecimento público à prática, conformando as bases de sua posterior profissionalização.

Já com a CBSk, instituída em 1999, o skate brasileiro conquistou ainda mais visibilidade da imprensa e dos órgãos governamentais, principalmente a partir dos eventos internacionais televisionados como os X Games, com expressivas participações de atletas brasileiros como Karen Jonz no feminino e Bob Burnquist no masculino na primeira década dos anos 2000.

Filiada ao Comitê Olímpico Brasileiro (COB) desde 2017, após o anúncio de que o skate iria integrar como modalidade nos Jogos Olímpicos de 2020, a CBSk busca ainda sua legitimidade concreta internacionalmente, especialmente após dois episódios arbitrários da World Skate (WS), tensionando a representatividade da modalidade. A primeira suspensão que a WS sancionou contra a CBSk ocorreu em 2017 e fez com que a entidade promovesse a campanha “#SomosTodosCBSk”, que mobilizou a comunidade do skate com o objetivo de assegurar a continuidade da confederação como representante legítima da modalidade no Brasil. O desfecho dessa tensão se estendeu novamente nos Jogos Olímpicos de Paris 2024, com a confederação recorrendo internacionalmente a Court of Arbitration for Sport (CAS) vencendo novamente a disputa e podendo administrar a verba significativa destinada ao skate para o ciclo olímpico de Paris.

Além da CBSk, outras entidades sofreram impactos significativos sobre o processo de identidade organizacional das comunidades esportivas, principalmente das modalidades que passaram a integrar os Jogos Olímpicos recentemente, como foi o caso do BMX (Thorpe et al., 2011).

A disputa pelo comando do skate olímpico no Brasil, envolveu muitas questões políticas e uma verba em torno de R$ 10 milhões anuais destinada a modalidade, proveniente da arrecadação das loterias federais através da Lei Agnelo/Piva, de acordo com as últimas prestações de contas da entidade, sendo o quarto maior orçamento dentre as confederações olímpicas filiadas ao COB (CBSk, 2024).

Atualmente, a CBSk estrutura-se por meio de órgãos internos autônomos que compõem seu aparato institucional: o Conselho de Ética, o Conselho Fiscal, o Tribunal de Justiça Desportiva e os Comitês de Modalidades, aos quais se integra também o Comitê de Paraskateboard. No âmbito das entidades estaduais filiadas, a Confederação congrega dezoito organizações, além das duas associações setoriais nacionais, a Associação Brasileira Mulheres Skateboard (ABMS) e a Associação Brasileira de Paraskateboard (ABPSK). A criação de comitês de profissionais por modalidade no interior da CBSk constitui um exemplo concreto do processo de especialização institucional do skate no Brasil, uma vez que esses órgãos passam a definir critérios de profissionalização, parâmetros competitivos e rankings nacionais específicos para cada modalidade.

A configuração territorial das filiações estaduais sugere um padrão de assimetria regional, se compararmos a quantidade de entes federados que cada região possui (Sul - três estados; Sudeste - quatro estados, Centro-Oeste com Distrito Federal – quatro estados; Nordeste – nove estados; Norte – sete estados). Observa-se uma concentração expressiva nas regiões Sul e Sudeste, em que todos os estados dessas duas regiões possuem representatividade formal, sendo que o estado de São Paulo possui duas entidades que em conjunto reúnem oito associações filiadas, ao passo que na região Norte, dos sete estados, apenas dois contam com entidades de skate filiadas a CBSk. Já na região Nordeste, dentre os nove estados, cinco capitais possuem federação, e por último, na região Centro-Oeste e Distrito Federal, dos quatro estados, três capitais possuem representatividade. Tal distribuição sugere a concentração de entidades formalmente organizadas nas regiões mais desenvolvidas socioeconomicamente do país, reproduzindo desigualdades estruturais que atravessam o processo de institucionalização da modalidade no país.

Embora Brohm (1982) levante questões expressivas sobre os processos alienantes de gestão esportiva nos esportes tradicionais, a análise indica que o modelo de gestão da CBSk é mediado e organizado pelo envolvimento dos atletas, ex-atletas ou pessoas com vínculo com a cultura do skate. Observa-se que o desempenho dos skatistas brasileiros nas competições femininas e masculinas, também dialoga com os critérios adotados pelo Comitê Olímpico do Brasil para a distribuição de recursos às confederações, os quais privilegiam resultados esportivos em competições internacionais e incluem parâmetros relacionados à prestação de contas das entidades (COB, 2018).

Além disso a distribuição de recursos provenientes da Lei Agnelo/Piva também considera tanto critérios administrativos, como o ranking no programa Gestão, Ética e Transparência (GET), quanto parâmetros técnico-desportivos na definição dos repasses às confederações, e em 2023 a CBSk ocupou a liderança no ranking de prestação de contas do COB, indicador que confere o aprimoramento administrativo da entidade (CBSk, 2023a; 2023b).

A luz de um cenário regulatório em transformação, a CBSk busca antecipar exigências relacionadas à transparência, controle na administração esportiva e responsabilização, para a incorporação de iniciativas que dialogam com as diretrizes projetadas pela Lei Geral do Esporte (LGE), ainda em tramitação. A LGE mobiliza um conjunto ampliado de dispositivos normativos, como a equiparação remuneratória entre homens e mulheres, além da garantia de direitos às atletas grávidas e a intensificação dos mecanismos de fiscalização, todos requisitos vinculados ao repasse de recursos públicos. Nesse contexto, a CBSk formalizou, por meio de portaria, a equiparação das premiações entre homens e mulheres nas categorias Open e Profissional em eventos homologados, ampliando uma diretriz já consolidada no Circuito Brasileiro de Park e Street e estendendo-a às demais modalidades (CBSk, 2025a).

O caso do skate no Brasil demonstra um esforço de estabelecer uma mediação entre a institucionalização formal e a manutenção da autonomia cultural da prática. Tal dinâmica torna-se evidente, por exemplo, na seleção de dirigentes que historicamente são ex-atletas ou figuras com profundo vínculo com a cultura do skate, e na constituição de um Tribunal Jurídico Desportivo (TJD) composto por skatistas com formação jurídica, somada à prática de escuta qualificada dos praticantes, realizada por meio dos Comitês de Modalidades e da Comissão de Atletas, instâncias que participam de maneira direta das deliberações técnicas e organizacionais da entidade (CBSk, 2021).

Desse modo, a institucionalização do skate no Brasil, materializada pela atuação da CBSk, expressa um arranjo marcado por ambiguidades próprias das relações entre cultura esportiva e estruturas formais de poder. À medida que a entidade se vincula às exigências organizativas dos grandes aparelhos esportivos, como COI e COB, ela também se vê compelida a preservar espaços de participação que mantenham a presença ativa de sujeitos forjados na própria cultura do skate. Essa dupla exigência traduz um processo contraditório, no qual a afirmação da identidade cultural convive com a necessidade de aderir às racionalidades burocráticas e hierarquizadas que regem o esporte institucionalizado. Tal movimento produz um campo de tensões permanentes entre autonomia e integração, resistência e conformação, no qual se inscrevem as disputas contemporâneas em torno da olimpização do skate.

ESPECIALIZAÇÃO E HIERARQUIZAÇÃO

Os dados sociodemográficos mostram a evolução da modalidade, integrados ao conceito de hierarquia democrática de Brohm (1982), ao qual se remete a hierarquia esportiva como compensatória, mais aberta, fluida e ágil, do que a hierarquia social, pois reproduz a falsa ideia de que todos detêm as mesmas oportunidades de alcançar mérito pessoal esportivo. Para o autor, a obsessão do esporte moderno por realizações mensuráveis molda um espécime de vida pautada por recordes quantitativos, o que condiciona as massas intrinsecamente à adaptação desses valores.

No contexto do skate, a própria hierarquização interna no processo de olimpização reflete em outras modalidades como o tradicional Vertical (Vert), que tem visibilidade nos X-Games, contudo ficou à margem da lógica olímpica. Essa seletividade mesmo que interna, como observa Brohm (1982), está atrelada à funcionalidade econômica e simbólica do esporte moderno, que inclui em seu processo apenas práticas convenientes como mercadoria e compatíveis com a lógica do esporte-espetáculo. Tal como ocorre com o fundo público, que não opera de forma neutra, é mobilizado de forma seletiva na sociedade capitalista, sustentando práticas com maior potencial de valorização econômica e política (Netto e Braz, 2006).

A sistematização dos dados obtidos a partir da análise do livro “#Somos Todos CBSk. A História da Confederação Brasileira de Skate” (2020) permite identificar um padrão de forte concentração competitiva entre as modalidades de skate no Brasil. Dos mais de 756 registros encontrados sobre competições, a modalidade Street concentrou cerca de 40% das competições identificadas, seguido pelo Vert, com aproximadamente 15%, enquanto todas as demais modalidades se distribuem de maneira pulverizada em percentuais significativamente menores. Como podemos observar na tabela 1.

Tabela 1
Relação entre as modalidades.

Tal predominância não decorre de simples preferência esportiva, mas de uma convergência de fatores estruturais. O Street se expandiu de maneira acelerada devido à sua forte ancoragem em espaços urbanos e à exposição cotidiana dos praticantes, o que amplia sua circulação simbólica. Como argumenta Turner (2016) práticas como o skate urbano possuem maior capacidade de comunicação pública e aderência midiática, e consequentemente essa tensionante busca por visibilidade acaba por fazer com que a modalidade opere segundo os critérios hegemônicos de reconhecimento esportivo.

Essa ênfase na performance radical sugere um processo que Brohm (1982) identifica como essencial ao esporte moderno, a transformação das práticas em espetáculo, orientado por critérios de rendimento, racionalização técnica e retorno mercadológico. Nas palavras do autor, a hierarquia esportiva não é apenas uma ordenação competitiva, mas um mecanismo de consagração social que separa práticas de maior valor simbólico e econômico daquelas que permanecem à margem. Assim, como mostrado na tabela 1, a supremacia do Street e Vert ao longo de duas décadas expressa a incorporação da lógica do espetáculo como forma de organizar e legitimar a prática.

Contudo, a entrada do skate no programa olímpico introduz uma reconfiguração nesse arranjo, uma vez que o Vert foi substituído pelo Park, modalidade que, desde então, vem ganhando centralidade e ampliando espaço nos circuitos nacionais e internacionais. Essa mudança ilustra como a “pirâmide esportiva” apontada por Brohm (1982) é permanentemente reorganizada, refletindo disputas entre modalidades pelo topo da hierarquia simbólica e pelo acesso aos recursos materiais e institucionais que dela decorrem. Todavia, embora o Vert cuja tradição é central na constituição cultural do skate, não tenha sido incorporado como modalidade Olímpica, sabe-se que já é consagrado em outro grande evento mundial, os X-Games, que teve como precursor Tony Hawk e atletas brasileiros como Bob Burnquist, Sandro Dias e Karen Jonz.

A ausência do skate Vert no programa olímpico resulta tanto de fatores institucionais quanto do próprio desenvolvimento histórico da modalidade. Embora tenha sido uma das expressões mais emblemáticas do skate nas décadas de 1990 e início dos anos 2000, especialmente associada à popularização das manobras aéreas e à figura de Tony Hawk, o Vert perdeu espaço ao longo do tempo para modalidades como o Street, que se difundiram mais amplamente por exigirem menor infraestrutura e poderem ser praticadas em ambientes urbanos diversos. Em contraste, o Vert depende de halfpipes, estruturas menos presentes nos espaços públicos das cidades. Para os Jogos de Los Angeles 2028, apesar da solicitação da World Skate para incluir a modalidade, o COI manteve o limite previamente definido para o número de atletas no evento, priorizando outras modalidades e esportes propostos pelo comitê organizador, como o Flag Football. Ainda assim, o crescimento recente do Vert em termos competitivos e de visibilidade tem alimentado expectativas de sua possível inclusão em futuras edições dos Jogos, como Brisbane 2032 (Bruton, 2025; Adler, 2025).

O que reafirma o movimento de hierarquização que redefine práticas conforme as necessidades políticas e econômicas que atravessam o campo esportivo. Assim, a especialização e a hierarquização das modalidades do skate no Brasil resultam de um processo historicamente construído, no qual mercado, mídia e políticas esportivas convergem para moldar e consolidar as práticas.

Com relação ao levantamento histórico das competições organizadas ou homologadas pela CBSk entre 1999 e 2020, registradas no livro "Somos Todos CBSk", a disposição espacial das competições é fortemente desigual. Segundo os dados, aproximadamente 59% das competições ocorreram na região Sudeste e 22% na região Sul, enquanto o Nordeste concentrou 11%, e Centro-Oeste 5% e Norte 3% apresentaram participação reduzida.

Quando observada a distribuição por estados, a assimetria torna-se ainda mais evidente: São Paulo responde sozinho por 44% de todas as competições registradas, seguido por Rio de Janeiro e Santa Catarina (ambos com cerca de 9%). Outros estados aparecem com percentuais residuais — casos de Ceará, Distrito Federal, Rio Grande do Sul e Paraná — e o conjunto de estados do Norte e parte do Nordeste tende a ocupar posições periféricas, inferiores a 2%.

Esses resultados revelam um padrão que não é circunstancial, mas constitutivo: a institucionalização do skate competitivo reproduz desigualdades históricas na distribuição do fundo público, da infraestrutura urbana e dos mecanismos de fomento esportivo, como abordam trabalhos que analisam a lógica esportiva, as disputas por recursos e a seletividade estrutural do Estado na formulação das políticas esportivas (Behring, 2003; Boschetti, 2009; Salvador, 2012; Mascarenhas, 2016; Carneiro et al., 2019, 2021, 2022; Athayde et al., 2015; Reis et al., 2020; Reis, 2022).

Em síntese, os resultados analisados de forma empírica, demostram que a especialização e a hierarquização do skate no Brasil, e sua progressiva integração ao movimento olímpico, não podem ser compreendidas fora das determinações estruturais que moldam o fundo público, a ação estatal e a lógica de valorização mercantil do esporte. O skate, mesmo enquanto prática surgida em contextos contraculturais, passa progressivamente por processos que Brohm (1982) identifica como centrais nas instituições esportivas modernas: o disciplinamento, a hierarquização, a seleção e a consagração, em atual momento de ascensão articulado à lógica de mercado, contudo sujeito às próprias contradições do capitalismo contemporâneo.

Nesse contexto, os resultados sugerem que o processo de institucionalização do skate no Brasil não se limita à criação de entidades organizativas ou à realização de competições, mas envolve também a consolidação de uma estrutura hierarquizada que privilegia determinadas modalidades e circuitos competitivos. Observa-se, nesse cenário, uma tendência de concentração de investimentos, visibilidade midiática e oportunidades de profissionalização nas modalidades alinhadas ao circuito olímpico, especialmente o street e o park.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Os chamados “novos esportes” configuram um conjunto de práticas que expressam transformações culturais e econômicas associadas ao modo de vida contemporâneo, vislumbrando as inúmeras versões e possibilidades que as modalidades esportivas possuem. A partir do que se entende por olimpização do esporte (Rúbio, 2019), a análise indica que a entrada do skate no programa olímpico inaugurou outro padrão de relacionamento do Estado com a modalidade.

Nesse contexto, a modalidade adquiriu maior impulso e passou a garantir condições adequadas para seu desenvolvimento como esporte-espetáculo, beneficiando-se de um processo crescente de legitimação perante o Estado, passando de uma prática antes marginalizada que sofreu com a repressão ao longo de sua história, e atualmente garante suporte e condições, avançando como modalidade esportiva de rendimento (Machado et al., 2023).

Dessa forma, a partir da análise obtida, os resultados indicam que o skate enquanto esporte teve a sua profissionalização de forma orgânica no Brasil, perpassando por um processo que envolveu os próprios adeptos da prática, como atletas e ex-atletas que se tornaram empresários no ramo do skate. Todo esse processo, proporcionou a disseminação da prática, e como contínuo a sua esportivização, a partir da criação de regras, da realização de campeonatos amadores e profissionais e com a criação de instituições representativas da modalidade, além da própria produção midiática e da fabricação de produtos esportivos específicos. Essa nova lógica cultural esportiva que acompanha e embala as transformações no âmbito do esporte, transformou o skate de uma modalidade reprimida historicamente por subverter a lógica disciplinar da cidade e do próprio esporte, ao ápice de sua ascensão como modalidade olímpica, provocando uma mudança no que se refere ao consumo e ao gosto pela modalidade.

Os resultados desta pesquisa indicam que a institucionalização do skate no Brasil está atravessada por dinâmicas estruturais que envolvem desigualdade de classe, disparidades regionais, relações de gênero e disputas por hegemonia cultural no interior do campo esportivo. Dessa forma, o skate enquanto prática pode ser interpretado não apenas como um esporte ou uma manifestação cultural, mas também como uma arena na qual se expressam e se reproduzem relações econômicas, sociais e ideológicas que atravessam o campo esportivo contemporâneo e suas disputas por recursos, reconhecimento e legitimidade. Nesse sentido, a análise da organização institucional do skate no Brasil evidencia também a centralidade do fundo público e das políticas esportivas na estruturação contemporânea do esporte de alto rendimento no país.

Como desdobramento desta pesquisa, sugere-se aprofundar as análises sobre as políticas públicas de financiamento da modalidade, bem como sobre seus efeitos na difusão da prática e na democratização do acesso ao skate.

DISPONIBILIDADE DE DADOS

Os dados de pesquisa que fundamentam os resultados estão disponíveis no corpo do artigo.

FINANCIAMENTO

O presente trabalho não contou com apoio financeiro direto para sua realização. A primeira autora deste estudo é bolsista da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Brasil (CAPES), e o segundo autor foi bolsista do Programa de Iniciação Científica da Universidade de Brasília (ProIC/UnB) durante o período de desenvolvimento da pesquisa. Tais apoios foram concedidos exclusivamente à formação acadêmica dos autores, sem interferência no delineamento do estudo, na análise dos dados ou na redação do manuscrito.

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Autor correspondente: Gabriela Cardoso Machado E-mail: gabrielacardosomachado@gmail.com

Editores(as) responsáveis:

Editor Executivo: Pedro Otavio Pimpim Bezerra
Editor Associado: Christiane Macedo
Editor Assistente: Fernando Resende Cavalcante
Editor Final: Ari Lazzarotti Filho

CONFLITOS DE INTERESSE

Os autores declaram que não há conflitos de interesse de ordem financeira, comercial, política, acadêmica ou pessoal.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    28 Set 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    15 Jan 2026
  • Aceito
    09 Ago 2026
Creative Common - by 4.0
Este é um artigo publicado em acesso aberto (Open Access) sob a licença Creative Commons Attribution (https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/), que permite uso, distribuição e reprodução em qualquer meio, sem restrições desde que o trabalho original seja corretamente citado.
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